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4 de Fevereiro – Dia Mundial do Câncer – O câncer em 2024: estamos realmente avançando?

Anualmente, a “American Cancer Society” publica as estimativas para o câncer nos Estados Unidos, compilando os dados mais recentes de incidência e mortalidade. Os dados para o ano de 2024 foram recentemente divulgados.

Até 2021, os números apontavam para uma queda na mortalidade por câncer, com a estimativa de mais de 4 milhões de mortes evitadas desde 1991. Essa redução foi atribuída à diminuição significativa do tabagismo, à detecção cada vez mais precoce de alguns tipos de câncer e às melhores opções de tratamento, tanto no cenário adjuvante (quando a intenção é de cura), quanto nos casos de doença metastática (quando a intenção principal é o controle de doença e prolongamento da vida).

Contudo, esses avanços estão ameaçados pelo aumento da incidência em 6 dos 10 tipos mais comuns de câncer: mama, próstata, corpo uterino, pâncreas, colorretal e do colo do uterino.

Os atrasos no diagnóstico e tratamento decorrentes da pandemia pela COVID-19, em 2020, também devem resultar em um aumento de diagnósticos em estágios avançados e, consequentemente, em maior mortalidade, o que será respondido ao longo dos anos, e também se mostram uma ameaça aos dados que já foram mais animadores. O que já está bem estabelecido é o impacto desproporcional direto e indireto da pandemia na população negra, podendo agravar ainda mais as disparidades no âmbito do câncer, que já são bastante grandes.

Embora o avançar da idade seja o fator mais influente no risco de desenvolver câncer ao longo da vida, a proporção de novos diagnósticos em adultos com 65 anos ou mais vem diminuindo. Em contraste, a proporção de adultos entre 50 e 64 anos com a doença aumentou. Essa mudança reflete, em parte, reduções marcantes na incidência de câncer de próstata e câncer relacionado ao tabagismo entre homens mais velhos, e ao aumento do risco de câncer em pessoas nascidas a partir de 1950, pelas mudanças nos padrões de exposições durante a vida, como maior obesidade, por exemplo.

Como melhor exemplo de câncer com notável crescimento entre adultos com menos de 50 anos, está o câncer colorretal, que se tornou a principal causa de morte por câncer em homens e a segunda principal causa em mulheres, ficando atrás apenas do câncer de mama.

As taxas de incidência de câncer de mama têm apresentado um aumento gradual de cerca de 0,6% anual desde 2000. Na última década, o aumento na incidência foi mais pronunciado em mulheres jovens, com menos de 50 anos (1,1% ao ano) em comparação com aquelas com 50 anos ou mais (0,5% ao ano). Esse crescimento na incidência é atribuído, em parte, à diminuição da taxa de fertilidade e ao aumento da obesidade.

Ainda sobre as mulheres, foi demonstrado que a incidência do câncer do corpo uterino continua a aumentar cerca de 1% ao ano desde meados da década de 2000. E embora as taxas possam estar se estabilizando para mulheres brancas, elas continuam a aumentar em mais de 2% ao ano entre mulheres negras e hispânicas.

A incidência do câncer do colo do útero diminuiu em mais da metade desde meados da década de 1970, devido à ampla adesão ao rastreamento e tratamento de lesões precursoras. Os declínios se aceleraram nas coortes mais jovens e, portanto, mais vacinadas contra o HPV desde 2006. Em contrapartida, a incidência segue aumentando entre as mulheres de 30-44 anos. Espera-se que com o envelhecimento das mulheres vacinadas, o efeito protetor seja transferido para grupos etários mais velhos. Surpreendentemente, a grande imunidade de rebanho e a eficácia de dose única podem facilitar a proteção contra todos cânceres associados ao HPV. Em contraste, os dados mais discrepantes, com enormes diferenças em incidência e mortalidade entre os estados americanos são vistos para esse tipo de câncer, já classificado como passível de prevenção.

Os dados apresentados alertam para uma mudança no perfil demográfico dos pacientes com câncer, com mais pessoas de meia-idade sendo diagnosticadas em comparação com os idosos. Conclui-se também, que os avanços na prevenção do câncer estão aquém do desejado, uma vez que a incidência continua a aumentar para 6 dos 10 principais tipos de câncer.

O progresso na redução das disparidades no câncer também está estagnado, especialmente entre mulheres negras, que apresentam taxas de mortalidade 40% mais elevadas para o câncer de mama e o dobro para o câncer do corpo uterino, a despeito de ter uma incidência semelhante.

Os dados apontam para a necessidade de iniciativas que acelerarem o progresso global contra o câncer, sendo crucial aumentar os investimentos em prevenção e em mitigar as disparidades.

 

 

4 de agosto- Dia Nacional da Campanha Educativa de Combate ao Câncer – Dia do “eu também estou com você”

As datas chamativas e comemorativas que se relacionam ao diagnóstico e tratamento do câncer percorrem o ano todo. Em algumas delas o ponto alto é a prevenção, ou o impacto do diagnóstico precoce. Em outras a ênfase está no acolhimento ao paciente, e, não raramente, tem se mencionado nas mídias o “combate científico”, mais pronunciado com as discussões acerca de novas terapias e descobertas promissoras.

É mesmo verdadeiro que uma doença complexa como o câncer demande de muitas atenções e ações. Em partes, o que vemos veiculado é a forma como conseguimos nos organizar enquanto sociedade para enfrentar essa condição tão desafiadora. Considero cada pontinha de ação pensada em qualquer parte do mundo como muito valiosa.

Mas e o que eu vejo enquanto médica que trata pacientes com câncer?

Eu vejo pessoas que tem toda a sua perspectiva de vida mudada, seja com o diagnóstico de doença inicial ou em fase avançada, com desafios muito intensos de diversas ordens.

Eu vejo mães que adoecem e seguem cuidando de seus filhos, carregando suas angustias e efeitos colaterais junto com eles. Vejo pacientes que colocam o medo numa gaveta a ser aberta um dia, e se enchem de sacolas de exames, que são mesmo, na maioria das vezes, tão necessários para que nós médicos consigamos propor um bom plano terapêutico. Vestem a coragem que tem para ouvir o que pode ser feito, o que quase sempre é algo que impactará suas vidas para sempre.

Ao prescrever os remédios contra o câncer jamais me esqueço dos cientistas que se debruçam em bancadas para descobrir uma possível cura, ou um tratamento que faça um semelhante viver mais longamente ou viver melhor.

E ao falar dos remédios que tratam o câncer também se faz necessário lembrar que a complexidade da doença e dos tratamentos extravasa para a discussão de fontes de pagamento, fontes regulatórias e acesso, já que os custos estão cada vez mais onerosos.

E nesse enfrentamento todo, o que cada um de nós pode fazer que ajude a prosperar o bem, a calma e o acalento de quem adoece?

É necessário estar junto. Estar presente na hora que o familiar, ou o amigo adoecido recebe uma notícia difícil. Estar lá onde outro corpo carece de um abraço, de companhia ou mesmo de distração. Agendar os tantos exames que chegam a se emaranhar. Segurar a mão. Enxugar lágrimas. Ligar uma música. Levar os filhos para passear. Propor uma massagem. Achar um centro de pesquisa promissor.

Sendo conhecedora das estatísticas do câncer, é certo que existe alguém que você conheça que está enfrentando um adoecimento ameaçador. Esteja com essa pessoa. E nos dias de hoje nem é necessário estar perto para estar junto, temos a tecnologia nos aproximando e facilitando nosso convívio. Existem inúmeras formas de ser apoio.

No enfrentamento do câncer, o cientista continuará seu lindo trabalho com novas descobertas, os profissionais de saúde seguirão buscando trazer a cura ou alívio, os órgãos regulatórios devem assegurar o acesso ao que há de melhor, e, não menos importante, que você possa ser apoio para alguém. Que esteja presente onde presença também é uma forma de cura.

 

21 de Junho: Dia Mundial da Yoga

Rafael Luís

Vivian Antunes

A yoga é uma forma milenar de exercício para o corpo e a mente. Seu principal objetivo é criar conexão e harmonia entre corpo, mente e espírito. É uma filosofia tão antiga que historiadores têm dificuldade em datar com precisão seu início. Alguns arqueólogos encontraram os traços mais antigos da yoga há 5.500 anos. É surpreendente perceber que essa prática atravessou tantos anos e se mantém tão viva nos tempos de hoje, o que nos refletir sobre sua força.

Algumas formas de yoga são bastante árduas, enquanto outras são mais leves e se concentram mais no trabalho de meditação e respiração. A prática da yoga pode não apenas tornar nossos músculos e articulações mais flexíveis, mas também promover relaxamento intenso e maior controle das emoções. É nesse ponto que as coisas passam a se conectar: o câncer e yoga.

Pacientes com câncer frequentemente experimentam sensações desagradáveis e aversivas, sejam físicas pela própria doença ou pelos efeitos do tratamento, ou emocionais, com aumento de ansiedade, angústia e sintomas depressivos. Nesse sentido, buscar maneiras de bem-estar físico e emocional dentro das condições que o adoecimento traz, são medidas importantes para melhorar a qualidade de vida durante e após o tratamento. A yoga pode ser, portanto, uma importante terapia complementar e forte aliada do paciente com câncer.

Em 2010 foi publicada uma revisão sistemática que avaliou justamente a relação entre os potenciais benefícios da yoga para pacientes com câncer. Como resultado, os pesquisadores concluíram que a yoga pode ajudar a reduzir a ansiedade, a depressão, o cansaço (fadiga) e estresse. Foi também capaz de melhorar a qualidade do sono, humor e bem-estar espiritual.

Adicionalmente, um estudo específico sobre o uso de yoga em pacientes tratando câncer de mama comprovou que, além da redução do cansaço, as pacientes passaram a ter um melhor enfrentamento do processo de adoecimento, com significativa redução da percepção de sofrimento. Nesse estudo, 191 mulheres com câncer de mama foram distribuídas aleatoriamente em três grupos: 1) yoga; 2) alongamento simples; ou 3) nenhuma instrução sobre yoga ou alongamento.

Como resultado, as mulheres que praticaram yoga durante o período de tratamento relataram maiores benefícios ao seu funcionamento físico e em sua saúde geral, como redução de fadiga. Também foram mais propensas a encontrar significado de vida a partir de sua experiência com o câncer do que os outros grupos. Umas das possíveis explicações para esses dados positivos seria a redução do hormônio cortisol (hormônio do stress), que foi comprovado por meio de amostras de saliva no mesmo estudo.

Também já sabemos que a insônia é um problema que aflige muitas pessoas pelo mundo, incluindo pacientes com câncer. E a yoga mostrou benefício neste cenário.

Foi feita uma metanálise (análise estatística da combinação de dados dos estudos disponíveis) que tentou responder se yoga era mais ou menos eficaz que caminhada para melhorar problemas de sono de pacientes com neoplasias malignas. Os autores encontraram 25 estudos – o que representou quase 2.000 pacientes. A maioria dos pacientes tinham câncer de mama (72%) e, portanto, quase 86% eram mulheres. A análise demonstrou que a ambos os exercícios são eficazes em promover uma boa noite de sono, mas a caminhada – de intensidade moderada – parece levar uma vantagem na comparação.

Apesar das limitações, o que podemos tirar desse estudo é que atividade física regular é importante em razão de inúmeros aspectos, inclusive para ajudar a melhorar a insônia. Não só isso: os resultados reforçam que a caminhada é um exercício fácil de fazer, não precisa de estrutura específica e tem eficácia até maior que outras atividades mais complexas. Lembrando sempre que pacientes com problemas graves pulmonares e/ou cardíacos devem ter orientação do médico para liberação para realização de exercícios.

Pratique yoga (ou qualquer atividade física): faz bem para a saúde e ajuda a dormir melhor!

 

Referências:
Smith KB, et al. An evidence-based review of yoga as a complementary intervention for patients with cancer. Psychooncology. 2009 May;18(5):465-75.

Tang MF, et al. Walking is more effective than yoga at reducing sleep disturbance in cancer patients: A systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Sleep Med Rev. 2019;47:1-8

28 de maio: Luta pela saúde da mulher

Dra. Vivian Antunes

Dra. Susana Ramalho

 

Quem é a mulher que adoece no Brasil?

A mulher que adoece no Brasil é a mesma que sonha, que ama, que gesta, que trabalha e que é cuidadora principal de tantas famílias.

Essa mulher é a que está ao seu lado. A que te ama, a que te cuida ou a que está dentro de você. Ela é cada uma de nós ou cada uma que está ao seu lado apoiando sua vida.

No Brasil, uma em cada oito mulheres nascidas hoje terão câncer de mama durante a vida, se viverem até os 60 anos. Dessas, 82% não tem nenhum antecedente familiar de câncer de mama.

O câncer de mama é o tumor mais comum entre as mulheres e também o responsável pelo maior número de óbitos no Brasil e no mundo. Mas, e no nosso Brasil, quem é a mulher que adoece de câncer de mama? Alguns pesquisadores iniciaram, em 2008, uma pesquisa com o objetivo principal de descrever quem são, como são e como é a doença nas mamas dessas brasileiras.

Numa série de estudos intitulada “AMAZONA I-III”, pesquisadores do Brasil todo nos deram a oportunidade única de conhecer melhor esse cenário. Uma das informações mais importantes foi que no Brasil temos 41% de pacientes com diagnóstico de câncer de mama em idade inferior a 50 anos, o que é uma proporção maior de diagnósticos em pacientes jovens do que em outros países, como Alemanha e Estados Unidos.

Outro dado que chama muito a atenção e traz preocupação é que o diagnóstico das nossas mulheres é feito em fase mais tardia da doença. Em torno de 71% das pacientes são diagnosticadas nos estádios II (46,8%) e III (24,6%), quando a doença já é localmente avançada geralmente atingindo os gâglios linfáticos da axila, o que certamente impacta direta e negativamente na mortalidade das brasileiras. Esse número é consideravelmente mais alto do que em países desenvolvidos, como os Estados Unidos, com dados que mostram apenas 31% de pacientes com diagnóstico na fase localmente avançada da doença.

No Brasil, apenas 18% das pacientes são diagnosticadas no estádio I, o mais precoce, o estádio que geralmente se consegue diagnosticar quando se faz exames de mamografia de rotina(o chamado rastreamento). Quando olhamos comparativamente e retrospectivamente, os dados de 2001 são muito semelhantes aos de 2018, ou seja, infelizmente sem melhoras nesse cenário.

Isso mostra que apesar da estratégia de rastreamento para diagnóstico precoce estar disponível no Brasil, não está atingindo a nossa população de mulheres de forma eficaz, seja por que as mulheres não aderem ao exame oferecido, ou por dificuldade de acesso a esse recurso.

Outro tipo de câncer importante entre as mulheres e que também marca um a imensa desigualdade no nosso país é o câncer de colo uterino. Em estados da região Norte do Brasil esse é o câncer mais incidente entre as mulheres, ultrapassando o câncer de mama, que é o primeiro em incidência em todas as outras regiões. Assim observamos que este é um triste marco das diferenças socioeconômicas desse nosso país continental.

Esse dado vem carregado de um “pesar” que já nos acompanha há décadas. Apesar do câncer de colo de útero ser bastante prevenível, através da vacinação contra o vírus HPV e através do exame de rastreamento de citologia oncótica (o conhecido preventivo – exame papanicolau), temos uma altíssima incidência e mortalidade no Brasil. A incidência de câncer de colo de útero no Brasil é muito maior que vários países desenvolvidos onde a incidência é bastante baixa. Para 2018, a estimativa esperada no Brasil foi de 16.370 casos novos, com um risco de 17,11 casos a cada 100 mil mulheres.

Outro tumor que também atinge as mulheres é o de ovário, com menor incidência (estima-se 6.150 casos novos no Brasil) porém alto risco por escasso métodos de prevenção e necessidade de tratamento adequado e precoce. Também o tumor de endométrio vem crescendo sua incidência principalmente associado a obesidade, sedentarismo e síndromes metabólicas cada vez mais frequentes em nossa população feminina.

Voltando a falar da nossa mulher que sonha, que ama, que gesta, que trabalha, e que “cuida”, paro minha reflexão no verbo “cuidar”. O mesmo cuidado que nossas mulheres têm com seus filhos, netos, maridos e trabalho, deve ser destinado a ela, seja por parte da ciência, que tem o dever de melhorar o cenário da doença com novas descobertas (cada vez mais frequentes, é verdade!), seja por parte do governo, com melhor gestão assistencial, ou por ela mesma, voltando seu olhar para o seu próprio cuidado como forma de amor à vida.

 

Quais as perspectivas para as mulheres brasileiras?

 É importante ressaltar que os casos de câncer irão dobrar até 2035 no mundo todo. E o maior aumento será nos países em desenvolvimento com população relativamente jovem. Assim, os sistemas de saúde devem estar preparados, já que se estima que 60% dos casos de câncer ocorrerão nesses países, precisarão planejar e alocar recursos.

O impacto que o adoecimento de uma mulher em uma família – em que muitas vezes ela é a fonte principal de sustento – é enorme e pouco se tem feito para melhorar os programas de rastreamento e o acesso ao diagnóstico e ao tratamento, o que reflete a grande disparidade das taxas de mortalidade observadas entre os dados Brasil e EUA.

No Dia da Luta pela Saúde da Mulher, precisamos mostrar esta disparidade e cobrar do governo mais atitudes de prevenção em saúde feminina para que possamos, em um futuro breve, chegar perto das estatísticas de países desenvolvidos como os Estados Unidos, diminuindo a mortalidade por câncer em todo o país.

Mamografia: aos 40 ou 50 anos?

Leonardo Roberto da Silva e

Vivian Castro Antunes de Vasconcelos

 

Os avanços no tratamento do câncer de mama obtidos ao longo das últimas décadas levaram a um aumento significativo na chance de cura e a uma redução no risco de morte pela doença. No entanto, ainda hoje, uma em cada oito mulheres receberá o diagnóstico de câncer de mama em algum momento da vida, até os 65 anos de idade. Esse dado alarmante é, porém, acompanhado de uma informação tranquilizadora: a disponibilidade de uma excelente ferramenta para o diagnóstico precoce da doença, a mamografia.

A mamografia é o exame mais importante na detecção precoce do câncer de mama, ou seja, o rastreamento. Sabemos que, quando diagnosticado em sua fase inicial, o câncer de mama tem mais de 90% de chance de cura. Isso pode ser conseguido com a realização do exame em mulheres assintomáticas e que se encontram em uma faixa etária na qual existe uma relação favorável entre benefícios e riscos do exame.

Grandes estudos clínicos que incluíram mais de 500 mil mulheres comprovaram esse benefício da mamografia. Os resultados mostraram que as mulheres que faziam mamografia regularmente apresentavam uma redução no risco de morte por câncer de mama entre 10% e 35%, quando comparadas às mulheres que não faziam a mamografia.

No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda que a mamografia seja realizada a cada dois anos entre os 50 e 69 anos de idade. No entanto, estudos recentes realizados na população brasileira, evidenciaram que 40% dos casos de câncer de mama são diagnosticados em mulheres com menos de 50 anos. Além disso, muitos desses casos são identificados em estados mais avançados da doença, o que reduz significativamente as chances de cura. Assim, as recomendações atuais do Ministério da Saúde excluem uma faixa importante da população do programa de rastreamento (mulheres com idade entre 40 e 49 anos), o que pode resultar em maior mortalidade por câncer de mama, uma doença que ainda não é facilmente evitável.

Nesse sentido, diversas sociedades médicas vêm recomendando a realização da mamografia a partir dos 40 anos. De acordo com estudos mais recentes, tal estratégia está associada a benefício em termos de diagnóstico precoce e redução do risco de morte por câncer de mama nessa faixa etária. Na prática, existe um Projeto de Decreto Legislativo (número 679/2019) que propõe assegurar a realização da mamografia de rastreamento para as mulheres a partir dos 40 anos, no Sistema Único de Saúde (SUS). O Projeto já foi aprovado no Senado Federal e, atualmente, se encontra em tramitação na Câmara dos Deputados.

Como a yoga pode ajudar pacientes com câncer?

A yoga é uma forma milenar de exercício para o corpo e a mente. Seu principal objetivo é criar conexão e harmonia entre corpo, mente e espírito. É uma filosofia tão antiga que historiadores têm dificuldade em datar com precisão seu início. Alguns arqueólogos encontraram os traços mais antigos da yoga há 5.500 anos. É surpreendente perceber que essa prática atravessou tantos anos e se mantém tão viva nos tempos de hoje, o que nos refletir sobre sua força.

Algumas formas de yoga são bastante árduas, enquanto outras são mais leves e se concentram mais no trabalho de meditação e respiração. A prática da yoga pode não apenas tornar nossos músculos e articulações mais flexíveis, mas também promover relaxamento intenso e maior controle das emoções. É nesse ponto que as coisas passam a se conectar: o câncer e yoga.

Pacientes com câncer frequentemente experimentam sensações desagradáveis e aversivas, sejam físicas pela própria doença ou pelos efeitos do tratamento, ou emocionais, com aumento de ansiedade, angústia e sintomas depressivos. Nesse sentido, buscar maneiras de ter bem-estar físico e emocional dentro das condições que o adoecimento traz, são medidas importantes para melhorar a qualidade de vida durante e após o tratamento. A yoga pode ser, portanto, uma importante terapia complementar e forte aliada do paciente com câncer.

A ciência há tempos estuda a relação entre a yoga e a saúde humana. Especificamente com relação ao câncer, existe razoável evidência na ciência de que essa prática possa estar relacionada com melhorias no bem-estar e redução de sintomas desagradáveis.

Em 2010 foi publicada uma revisão sistemática que avaliou justamente a relação entre os potenciais benefícios da yoga para pacientes com câncer: “An evidence-based review of yoga as a complementary intervention for patients with cancer”. Como resultado, os pesquisadores concluíram que a yoga pode ajudar a reduzir a ansiedade, a depressão, o cansaço (fadiga) e estresse. Foi também capaz de melhorar a qualidade do sono, humor e bem-estar espiritual.

Adicionalmente, um estudo específico sobre o uso de yoga em pacientes tratando câncer de mama comprovou que além da redução do cansaço, as pacientes passaram a ter um melhor enfrentamento do processo de adoecimento, com significativa redução da percepção de sofrimento. Nesse estudo, 191 mulheres com câncer de mama foram distribuídas aleatoriamente em três grupos: 1) yoga; 2) alongamento simples; ou 3) nenhuma instrução sobre yoga ou alongamento.

Como resultado, as mulheres que praticaram yoga durante o período de tratamento relataram maiores benefícios ao seu funcionamento físico e em sua saúde geral, como redução de fadiga. Também foram mais propensas a encontrar significado de vida a partir de sua experiência com o câncer do que os outros grupos.

Umas das possíveis explicações para esses desfechos positivos seria a redução do hormônio cortisol (hormônio do stress), que foi comprovado por meio de amostras de saliva no mesmo estudo.

É importante reconhecer o crescente número de pesquisas indicando que intervenções baseadas no relaxamento podem contribuir para o bem-estar das pessoas com câncer.

É possível ter qualidade de vida e câncer ao mesmo tempo e a yoga pode ser uma saudável, bem-vinda e importante aliada nesse processo.

Câncer de Mama: novidades no tratamento, direto do Dana Farber Institute, em Boston

O câncer de mama continua sendo a neoplasia mais comum entre as mulheres no mundo, tornando-se um importante problema de saúde e atraindo, assim, a atenção de pesquisadores ao redor do globo todo.

O melhor conhecimento desta doença trouxe importantes avanços em seu tratamento e, como consequência, temos convivido com os dados cada vez mais expressivos de pacientes curadas do câncer de mama. E, mesmo as mulheres que ainda não podemos curar, as notícias de melhorias no tratamento têm trazido um impacto surpreendente nos desfechos clínicos e na vida de cada uma de nossas pacientes.

E vamos às novidades:

Consagra-se de forma cada vez mais perene a nova classe de medicação: os inibidores de CDK4 / 6, comprovando de forma robusta sua eficácia no tratamento do câncer de mama metastático do subtipo luminal.

Como esta medicação ainda não estava disponível no Brasil (sua aprovação acaba de ser confirmada), foi importante entender como os médicos de outros países – que já a usam no cotidiano – vem observando os efeitos colaterais e benéficos. O que concluímos é que o padrão de efeitos colaterais vistos na prática clínica é bastante condizente com o descrito nos estudos clínicos, que mostram um padrão de toxicidades manejáveis, com neutropenias afebris e sem grandes complicações clínicas. Também se ressalta que as pacientes estão apresentando boas taxas de resposta da doença, que se iniciam em um intervalo curto de tempo após início das medicações.

Outra classe de fármacos que ganha cada vez mais espaço são os inibidores da PARP, e, dessa vez, foram reapresentados os resultados dos estudos clínicos randomizados realizados no grupo de pacientes com câncer de mama hereditário (mutações no BRCA 1 e 2). Observamos que o benefício clínico com o uso de inibidores da PARP para pacientes com doença metastática é superior em todos os subconjuntos de pacientes, independente do subtipo molecular do tumor, número de linhas anteriores de quimioterapia, tipo de mutação BRCA ou presença de metástase no sistema nervoso central.

Outro interessante e importante tema discutido refere-se especificamente aos tumores do subtipo triplo negativo. Cada vez mais o conhecimento adquirido sobre esta doença nos faz caminhar na conclusão clara de que existem mesmo subtipos diferentes de tumores triplo negativos, incluindo uma vasta diversidade de caminhos moleculares e alterações genéticas e, por isso, há um comportamento clínico tão diverso nesse subgrupo de pacientes. Assim sendo, as novas estratégias terapêuticas para tratamento dos tumores triplo negativo já incluem terapias-alvo específicas para cada subtipo de tumor triplo negativo, como exemplo, o uso de antagonistas do receptor de andrógeno (enzalutamida e outros) e o sacituzumab-govitecan (anticorpo anti-TROP 2 associado ao metabólito ativo do irinotecano).

Por fim, é importante ressaltar que foi amplamente discutida a recente aprovação do uso de uma abordagem conjugada de dois anticorpos monoclonais no tratamento adjuvante das pacientes com câncer de mama do subtipo Her-2 amplificado (que representam aproximadamente 20% de todas as pacientes com câncer de mama), conforme dados do já apresentado estudo Aphinity. Já sabíamos que a associação de Pertuzumabe e Trastuzumabe foram capazes de mudar completamente os paradigmas deste subtipo de doença no cenário metastático. E, hoje, sabemos que as pacientes que têm linfonodos axilares positivos e são consideradas como tendo alto risco de recidiva, também se beneficiam da combinação no cenário da adjuvância.

Além destes dados, outros vários temas importantes sobre o câncer de mama foram abordados, tais como: individualização do tratamento do câncer de mama em idosas e em pacientes extremamente jovens, aspectos psicossociais das pacientes com câncer de mama, abordagem das síndromes genéticas envolvendo tumores mamários, entre outros.

Não há dúvidas de que além de todas as aulas apresentadas e de todo conhecimento adquirido, foi de extrema importância poder compartilhar um pouco sobre os casos dos nossos consultórios com outros experientes colegas que também são especialistas reconhecidos no tratamento do câncer de mama e, desta forma, conquistar melhores desfechos e boas decisões para as nossas pacientes.

Após este evento, retorno ainda mais animada e sigo cada vez mais motivada para continuar meu caminho no tratamento de pacientes com câncer de mama.

Um balanço do ASCO 2017 pela visão do Dr. André Sasse e da Dra. Vivian Antunes

A sequência do congresso nos trouxe algumas apresentações marcantes.
Algumas delas tentaram provar que, em algumas situações, “menos é mais”. Ou seja, menos tratamento poderia proporcionar igual eficácia com menos efeitos colaterais.
Em pacientes submetidos à cirurgia curativa para câncer de colón e reto estádio III, foi estudada a possibilidade de diminuir o tempo de tratamento quimioterápico pós-operatório, dos atuais seis meses (o padrão) para três meses. Infelizmente, apesar de consideravelmente menos tóxico, o tratamento por três meses não pode ser considerado equivalente ao de seis meses, em relação à eficácia. Pelo menos não para todos os pacientes.
Resultados diferentes foram encontrados em pacientes com câncer de próstata, tratados com radioterapia. Para pacientes com alto risco de recidiva, o tempo de tratamento hormonal usado como padrão era de 36 meses. Já um novo estudo apresentado, demonstrou que fazer hormonioterapia por 18 meses deve ser suficiente. Melhor para os homens que sofrem muito com os efeitos da supressão de  testosterona. Nesse caso, menos tempo de tratamento trará melhora da qualidade de vida.
Na opinião do Dr. André Sasse, os resultados mais impressionantes foram os apresentados na sessão plenária do congresso, avaliando a importância da monitorização ativa. Nesse caso, são monitorados os sintomas e efeitos colaterais do tratamento em pacientes em tratamento quimioterápico.

A avaliação convencional foi utilizada como comparativo. Consiste em consultas periódicas antes das aplicações de quimioterapia, onde os médicos avaliam os efeitos colaterais do tratamento e ajustam os medicamentos e doses de acordo com a avaliação, caso seja necessário.

 

O monitoramento ativo se deu através de formato eletrônico. Com lembretes semanais aos pacientes, eles questionavam sintomas específicos. Um profissional de enfermagem era alertado automaticamente em caso de problemas, e esse mesmo profissional encaminhava o problema ao médico responsável ou resolvia por si em casos de baixa complexidade.
Esse sistema de monitoramento ativo diminuiu as complicações, a utilização de recursos hospitalares e o uso de pronto-socorros, como esperado. Também causou um impacto em sobrevida bastante significativo, muitas vezes não observado com a introdução de novas e caras tecnologias.

Assim, uma intervenção simples, barata e que aproxima médicos e enfermeiros dos pacientes, foi capaz de melhorar o seu prognóstico.
“É interessante observar que grandes avanços nos cuidados dos pacientes com câncer, vêm deixando a terapia mais simples e mais humana. E que a proximidade e o tratamento humanizado fazem muita diferença”, conclui André.

Já a Dra. Vivian Castro Antunes de Vasconcelos, trouxe suas análises sobre as novas perspectivas apresentadas no tratamento do o câncer de mama.

Segundo ela, as conquistas no tratamento do câncer de mama foram muitas nas últimas décadas, mas após essa ultima edição do Congresso Americano de Oncologia Clínica (ASCO 2017), ficou claro que a busca por novos tratamentos efetivos segue cada vez mais viva.

Os esforços dos oncologistas e pesquisadores do mundo todo se traduziram em brilhantes apresentações e ricas discussões.
Por ter tido a oportunidade de participar desse importante momento, Dra. Vivian escolheu alguns novos dados para compartilhar por aqui:

Com relação ao câncer de mama metastático, para as pacientes que têm receptores hormonais positivos,  foram apresentados três estudos interessantes demonstrando o papel da inibição da via do CDK4 e CDK6, o que é um conhecimento relativamente recente, e capaz de melhorar significativamente o tempo de vida das pacientes que vivem no cenário da doença ainda incurável.

O estudo Monarch 2 mostrou que para  pacientes que já tiveram progressão de doença com uma linha de tratamento hormonal, a associação de duas drogas, sendo uma já conhecida, chamada Fulvestranto e outra nova droga chamada abemaciclibe, traz um grande benefício clínico, mostrando 16 meses de boa resposta ao tratamento e sem aumentos na doença, enquanto o tratamento padrão até então proporciona 9 meses.

Para as pacientes que apresentam o subtipo de doença triplo-negativo também tivemos boas novidades, trazendo grande ânimo para esse tipo específico de doença, que apesar de ser o mais agressivo, ainda é o que conta com alternativas mais restritas de tratamento. Nos alegrou muito perceber que o conhecimento de novas vias moleculares são muito promissoras para que se possa encontrar melhores opções de tratamentos.

Dra. Vivian também considera importante, apresentar os dados em relação a inibidores da PARP e inibidores do PD1 (Imunoterapia).

O uso de um inibidor da PARP chamado talazoparibe para pacientes com mutação nos genes BRCA1/ BRCA2 mostrou grandes taxas de resposta, com redução expressiva da doença, mostrando a importância da inibição da PARP nessas pacientes.

Com relação à imunoterapia, que vem cada vez mais se revelando como uma verdadeira revolução no tratamento do câncer, o estudo Keynote 086 mostrou que o uso de Pembrolizumabe, inibidor de PD1, apesar de trazer taxa de resposta não expressiva, chamou muito a atenção foi peloprolongamento do tempo de vida surpreendente das poucas pacientes que responderam ao tratamento, conquistando um aumento no tempo de vida nunca antes visto, sendo importante ressaltar que as pacientes mantiveram excelente qualidade de vida durante o tratamento.

Para as pacientes com doença do subtipo HER2 superexpresso, onde os avanços conquistados na última década já se mostraram transformadores completos da história da doença, o estudo que trouxe certa inovação foi com o uso de uma droga já bem conhecida, mas em um contexto diferente.

Estamos falando do estudo Aphinity, no qual o uso do Pertuzumabe no tratamento adjuvante, ou seja, para pacientes que não tem doença metastática, e onde nosso foco está na cura ou no aumento do tempo livre de recorrência. O uso de dois agentes anti-Her 2, Pertuzumabe e Trastuzumabe foi capaz de melhorar ainda mais o que já conhecíamos com um agente único, passamos a ter 94,1% de pacientes completamente livres da doença em 3 anos. A magnitude do ganho com esse tratamento foi maior para pacientes com linfonodos comprometidos e com receptores hormonais positivos.

Apesar do estudo ser criteriosamente positivo para o que se propôs avaliar, considero que seja prudente fazer a ressalva de que os custos do tratamento são elevados mesmo para a realidade de países desenvolvidos, diante de um incremento dessa vez discreto, justificado pelo ganho extraordinário que já havíamos conquistado com o uso isolado de Hereceptin (93,2% em 3 anos), fazendo com que sua implementação seja cautelosamente pensada.

Dentre esses pontos importantes sobre os quais Dr. André e Dra. Vivan escolheram falar, fica a grande sensação de que muito trabalho tem sido feito e que estamos melhorando de forma mais acelerada do que em tempos anteriores, o que traz grande injeção de ânimo e esperança.