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Higienização das mãos e o paciente com câncer: muito além da COVID-19

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), recomenda-se que a lavagem das mãos seja feita de modo frequente e ao longo do dia. Pesquisas mostram que essa prática pode reduzir doenças relacionadas às diarreias entre 30% e 40% e às infecções respiratórias em até 20%.

Anualmente, no dia 5 de maio, comemora-se o Dia Mundial da Higienização de Mãos. Esta é uma campanha liderada pela OMS, visando a prevenção da transmissão de infecções, relacionadas a assistência à saúde.

É de conhecimento geral que um dos temas muito abordados durante a pandemia de SARS-COVID foi sobre a correta higienização das mãos para a prevenção da transmissão do vírus. Diversos estudos mostraram a maior adoção e preocupação na higienização das mãos e de forma correta após a pandemia.

Sabemos também que esse é um tema de suma importância para os pacientes oncológicos, já que eles, durante alguns tratamentos, podem ter queda da imunidade, o que propicia a infecção por doenças tanto virais quanto bacterianas. Desta forma, a prática da higienização das mãos é uma medida rápida, barata, segura e eficaz para diminuição dessas infecções.

Para os profissionais da saúde, a Anvisa preconiza cinco momentos para a higienização das mãos: antes de tocar o paciente, antes de realizar procedimento limpa/asséptico, após o risco de exposição a fluídos corporais, após tocar o paciente e após tocar superfícies próximas ao paciente

Além disso o protocolo novo da Anvisa para reduzir a carga microbiana das mãos orienta a utilização de gel alcoólico a 70% ou de solução alcoólica a 70% com 1-3% de glicerina para substituir a higienização com água e sabão quando as mãos não estiverem visivelmente sujas. Duração do procedimento: 20 a 30 segundos. Caso seja optado pela lavagem com água e sabão, o procedimento deve durar entre 40-60 segundos.

Se você faz parte do grupo de risco ou está passando por algum tratamento ou, ainda, convive ou trabalha com alguém de risco, você também deverá adotar essas medidas de prevenção como parte da sua rotina diária.

 

Referências:

  1. WHO document: Evidence of hand hygiene to reduce transmission and infections by multidrug resistant organisms in health-care settings. Accessed March 2, 2022. http://www.who.int/gpsc/country_work/en/.
  2. Pada S, Chee P, Rathenam S, et al. Effectiveness of a Ward level target accountability strategy for hand hygiene. Antimicrob Resist Infect Control. 2019;15(8):177. [PMC free article] [PubMed] [Google Scholar]
  3. https://www.anvisa.gov.br/hotsite/higienizesuasmaos/index.htm

 

Começa uma nova fase de vacinação contra a COVID-19 em todo o Brasil

Começou na segunda-feira (27/02) mais uma etapa da campanha de vacinação contra a COVID-19 no Brasil. Nesta nova fase, as pessoas estão sendo vacinadas com o reforço do imunizante bivalente da Pfizer.

Segundo o informe técnico operacional divulgado pelo Ministério da Saúde, nesta primeira fase, serão imunizadas as pessoas acima de 70 anos, pessoas que vivem em instituições de longa permanência (ILP), pacientes imunocomprometidos e comunidades indígenas, ribeirinhos e quilombolas (veja datas abaixo).

Em seguida, serão imunizadas as pessoas com mais de 60 anos, gestantes e puérperas, trabalhadores de saúde, pessoas com deficiência e população privada de liberdade. Estados e municípios podem definir seus próprios calendários. Por isso, vale checar as datas antes de se deslocar para o posto de saúde.

Esta vacina é uma atualização em relação aos primeiros imunizantes fabricados contra a COVID-19 e protege contra a cepa original do coronavírus e as subvariantes ômicron.

O objetivo do reforço com a bivalente é expandir a resposta imune específica à variante ômicron e melhorar a proteção da população.

A meta é vacinar 90% da população-alvo. Veja calendário:

 

27/02: Pessoas acima de 70 anos; pessoas vivendo em instituições de longa permanência (ILP); pacientes imunocomprometidos (entenda mais abaixo) a partir de 12 anos; e comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas;

06/03: Pessoas de 60 a 69 anos;

20/03: Gestantes e puérperas;

17/04: Trabalhadores da saúde, pessoas com deficiência permanente (a partir de 12 anos), população privada de liberdade, adolescentes cumprindo medidas socioeducativas e funcionários do sistema de privação de liberdade.

 

Demais grupos

Além dos grupos prioritários, o ministério também quer intensificar a campanha com a vacina monovalente para os maiores de 12 anos. A ideia é aumentar a cobertura vacinal nesses outros públicos. A recomendação é:

– Uma dose de reforço para quem tem até 40 anos.

– Duas doses de reforço para quem tem mais de 40 anos.

A Pfizer, assim como a Anvisa, reforça que a vacina monovalente original continua sendo importante instrumento no combate à COVID-19.

 

Quem são os imunossuprimidos?

As pessoas com baixa imunidade são chamadas de imunossuprimidas ou imunocomprometidas:

– Pessoas transplantadas de órgão sólido ou de medula óssea;

– Pessoas com HIV e CD4 <350 células/mm3;

– Pessoas com doenças reumáticas imunomediadas sistêmicas em atividade e em uso de dose de prednisona ou equivalente > 10 mg/dia ou recebendo pulsoterapia com corticoide e/ou ciclofosfamida;

– Pessoas em uso de imunossupressores ou com imunodeficiências primárias;

– Pessoas com neoplasias hematológicas, como leucemias, linfomas e síndromes mielodisplásicas;

– Pacientes oncológicos que realizaram tratamento quimioterápico ou radioterápico nos últimos seis meses.

Os imunossuprimidos são todas aquelas pessoas que recebem ou receberam tratamento que mexe com o sistema imunológico ou que têm alguma doença que deprime o sistema imunológico.

 

Vacinação é um ato de cuidado consigo e com todos ao seu redor. Vamos aderir a nova oportunidade e aumentar nossa proteção contra a COVID-19.

Referências

  1. Ministério da Saúde
  2. FioCruz
  3. SBIM – sociedade brasileira de imunizações.

 

Dia Mundial de Cuidados Paliativos

No dia 08 de outubro, comemoramos o Dia de Cuidados Paliativos e, neste ano, o tema da Campanha Mundial é focada na experiência da dor do luto. É um assunto muito importante e que deve ser abordado de forma intensa e contínua por todos os médicos no mundo, já que milhões de pessoas morrem no mundo anualmente. Aliviar o sofrimento dos pacientes é primordial!

É muito triste que ainda haja um enorme preconceito em relação ao tema, tanto dos leigos quanto dos profissionais da saúde. Muitas vezes ouvimos que “cuidados paliativos” é “não fazer nada ao paciente” ou “é deixar o paciente morrer”. Essa ideia é ultrapassada e deve ser combatida com todas as nossas forças. Por este e outros motivos, o cuidado paliativo é uma necessidade não atendida no mundo inteiro.

Os cuidados paliativos são um conjunto de intervenções que auxiliam no bem-estar e qualidade de vida dos pacientes com doenças graves e incuráveis, o que inclui alguns pacientes com câncer. A abordagem deve incluir não só aspectos da doença, mas também espirituais, sociais, da vida cotidiana e dos valores de cada paciente e de seus familiares e amigos.

O início de cuidados paliativos mais precocemente está associado não só a um aumento da qualidade de vida, mas também do tempo de vida. Isso mesmo, os pacientes que recebem cuidados paliativos mais cedo vivem mais e melhor!

O luto é um tabu que temos que abordar. A vivência do luto é muitas vezes negligenciada, mas é um momento que os familiares e amigos precisam de um apoio da equipe, principalmente da parte psicológica.

Com as mais de 6 milhões de mortes por COVID-19 no mundo, o luto mal vivido tornou-se um grande problema que devemos tentar resolver com o apoio de toda a equipe multidisciplinar, além de muita empatia e compaixão. Muitas pessoas não conseguirem se despedir dos seus entes queridos.

A abordagem de saúde pública para o luto vai de terapias psicológicas específicas, passando por programas de apoio, e chegando a ao apoio compassivo. Toda a sociedade tem que se mobilizar para tornar essa experiência menos traumática. Políticas flexíveis nas empresas, grupos de apoio ao enlutado, educação sobre o assunto e um maior acesso a programas de cuidados paliativos são estratégias que podem ajudar.

Isso tudo depende também de investimentos dos governos em estrutura e recursos humanos, um outro objetivo da campanha. Promover o luto saudável ajuda a quem está vivendo e melhora o bem-estar da população.

Neste dia 8 de outubro, convidamos todos compartilharem experiências pessoais (anônimas) sobre o luto. O dividir ajuda a curar. A empatia gera empatia e, assim, podemos ajudar quem viveu ou vive um processo de luto da sua vida.

 

9 de junho: Dia Nacional da Imunização. Vacinas estão salvando vidas

Vacinas estão salvando vidas. Há muitas décadas. E a imunização tem sido primordial para conseguirmos, aos poucos, vencer a batalha contra a COVID-19 e várias outras doenças. Entretanto, a absurda campanha antivacina de partes da sociedade tem trazido de volta fantasmas como o sarampo, a gripe e, possivelmente, a COVID-19 novamente.

No dia 9 de junho é celebrado o Dia Mundial da Imunização. O foco da campanha é conscientizar a população da necessidade de manter a carteira vacinal atualizada. Na atualidade, apesar da vacinação contra a COVID-19 ainda ser a prioridade, devemos lembrar que várias outras doenças têm vacinas direcionadas, mesmo em adultos vacinados na infância.

As vacinas protegem contra a ocorrência de diversas doenças infecciosas, desde a poliomielite, que pode deixar pessoas sem movimentos, até a pneumonia, que pode levar pessoas, principalmente idosos, à morte. Não só isso, temos também as vacinas que podem prevenir o câncer, no caso, a do HPV evita tumor de colo do útero. Muitas patologias foram erradicadas, como a varíola e a poliomielite, enquanto outras – como a gripe, o tétano e a coqueluche – tiveram seu impacto na saúde da população consideravelmente reduzido (>90%) e são doenças controladas atualmente.

O ato de vacinar é importante não só para a pessoa vacinada, mas também para a população em geral de um país. O freio da contaminação por doenças infecciosas reduz a mortalidade da população em geral, principalmente daqueles considerados como grupos de risco. Inclusive, existem pessoas que não podem ser vacinadas por alguma doença que contraindica, ou que ainda não têm idade (recém-nascidos); essas pessoas talvez sejam as mais beneficiadas pela vacinação em massa de quem pode. Não só isso, a vacinação permite que mantenhamos uma vida normal, sem lockdowns, já que reduz a mortalidade e a gravidade das doenças.

Infelizmente, alguns dados recentes mostram que a cobertura vacinal para várias doenças tem caído, chegando a níveis que não se via há muitas décadas. Isso tem levado a um recrudescimento de casos e também a mortes. Um dos motivos é a própria pandemia, mas também há um número crescente de pessoas contrárias às vacinas, ou seja, que não acreditam na ciência. Essa situação é muito perigosa.

Sobre a COVID-19, a vacinação modificou o panorama da doença no mundo, levando a um melhor controle dos sistemas de saúde e do número de mortes, apesar de picos de casos. Isso foi corroborado com a experiência em diversos países, com todas as vacinas aprovadas pela OMS. Hoje, temos quase 80% da população com duas doses, mas ainda um número baixo, menos de 60%, com doses de reforço. Isso é preocupante, já que temos observado um aumento de casos nas últimas semanas e os mais afetados com gravidade são aqueles não vacinados ou pessoas com mais de seis meses da última dose de reforço.

Uma atenção especial deve ser dada à vacina contra o sarampo. A cobertura vacinal está baixíssima, de 30%, sendo que o alvo é de 95%. Em 2016, o Brasil tinha recebido o selo da Organização Pan-americana de Saúde de território livre de sarampo. É preciso lembrar que esta vacina é dada há muitas décadas, com altíssimas eficácia e segurança. A falta da vacinação tem ocasionado ressurgimento de casos de sarampo (40.000 de 2018 a 2021), uma doença potencialmente grave e até fatal para as crianças (40 mortes de crianças, no mesmo período).

Além dela, a vacina da gripe (influenza) é de grande importância nesse período de inverno, já que o quadro pode ser confundido com COVID-19 e causar transtornos ao paciente e à sociedade. A cobertura vacinal também não atingiu seu objetivo, atualmente rondando os 30-40%.

Criado há 47 anos, o Programa Nacional de Imunização do Brasil é uma das referências mundiais da área, já que atinge uma população de mais de 200 milhões de habitantes de forma gratuita e eficiente.

Atualmente, são 18 as vacinas disponibilizadas para crianças e adolescentes. No caso de adultos, as principais são a de febre amarela, a dupla adulto (difteria e tétano, renovada a cada 10 anos), a de hepatite B e a de sarampo-caxumba-rubéola (as duas últimas caso não tenha sido vacinado na infância).

Devemos reforçar que qualquer uma das disponíveis no país são eficazes e seguras. Todas já foram testadas e aprovadas cientificamente.

As contraindicações são poucas e, caso tenha dúvida, pergunte ao seu médico. Porém, geralmente apenas pessoas com deficiências muito específicas ou alergias a componentes das vacinas não podem tomá-las.

No site https://portalarquivos.saude.gov.br/campanhas/pni/ todos podem consultar o calendário nacional de vacinação e checar quais vacinas devem ser atualizadas. Leia, converse com seu médico e VACINE-SE E VACINE SEUS FILHOS! Proteger um é proteger todos! V

 

https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/saude/audio/2022-06/sarampo-cobertura-vacinal-nao-chegou-nem-30-das-criancas

https://www.oncnet.com/meeting/14/meeting-materials?field_abstract_value=&field_material_type_target_id=All

Além da importância da vacinação contra a COVID-19, saiba porque vacinar contra o HPV é fundamental para prevenir o câncer de colo uterino

No ano de 1989, durante um período sabático na Universidade de Cambridge, o médico e imunologista Ian H. Frazer conheceu o virologista chinês Dr. Jian Zhou, ambos interessados no estudo do papilomavírus humano (HPV). Foi o início de uma parceria que levou o Dr Jian a se mudar para a Austrália menos de um ano após esse encontro para trabalharem juntos no desenvolvimento de modelos laboratoriais de HPV. Dezessete anos depois, em 2006, a primeira dose de uma vacina contra o HPV era administrada na Austrália, marcando um importante momento para todas as mulheres ao redor do mundo.

A associação entre a infecção pelo HPV e o desenvolvimento de câncer em seres humanos foi inicialmente sugerida na década de 1970 e, cerca de 13 anos depois, pesquisadores conseguiram demonstrar em laboratório que o vírus era capaz de transformar diferentes tipos de células em células com capacidade de desenvolver tumores. Foi o primeiro vírus causador de câncer descrito. Desde então, a associação entre a infecção pelo HPV e o desenvolvimento de diversos outros tumores foi também estabelecida. E, se nós conhecemos a causa de uma doença, temos nas mãos uma ferramenta essencial para a sua prevenção.

 

Hoje, o câncer de colo uterino ocupa a quarta posição entre os cânceres mais frequentemente diagnosticados em mulheres e representa a terceira causa de morte por câncer entre elas. A cada ano, mais de 300.000 mulheres em todo o mundo morrem em decorrência desse tipo de câncer e cerca de 90% dessas mortes ocorrem em países de média e baixa renda. Trazendo o foco para o Brasil, estima-se que a cada ano mais de 16.000 mulheres são diagnosticadas com câncer de colo uterino. No ano de 2019, mais de 6.500 mulheres morreram em decorrência dessa doença. E, embora tenhamos observado redução significativa no número de novos casos de câncer de colo uterino no Brasil, nos últimos 20 anos, ainda persistem importantes diferenças regionais. E, tão surpreendente quanto esses números, é o fato de que o câncer de colo uterino pode ser evitado.

No final de 2020, a OMS lançou um projeto global ambicioso com o objetivo de acelerar o processo para a eliminação do câncer de colo uterino. O alvo a ser atingido até o ano de 2030 é garantir a vacinação de 90% das meninas contra o HPV antes dos 15 anos de idade, o rastreamento de 70% das mulheres, e o tratamento adequado e em tempo hábil para os casos de lesões precursoras (pré-cancerosas) e de câncer propriamente dito. A OMS estima que, se atingirmos esses três objetivos, seremos capazes de reduzir em 40% o número de novos casos de câncer de colo uterino e evitar 5 milhões de mortes pela doença até o ano de 2050.

De fato, um grupo de pesquisadores colaboradores da OMS conduziram estudo no qual empregaram modelos estatísticos para estimar a viabilidade e o tempo para eliminação do câncer de colo uterino em 78 países de média e baixa renda, de acordo com a adoção do rastreamento e da vacinação contra o HPV. Segundo esse estudo, se tais países conseguirem vacinar 90% das meninas haveria uma redução de 89% no número de casos novos da doença nos próximos 100 anos. Essa redução é muito mais significativa se associamos o rastreamento, resultando no diagnóstico de menos de 1 caso por cada 100.000 mulheres a cada ano. Obviamente tais modelos estatísticos apresentam limitações, mas o que essas estimativas nos mostram é que é possível reduzirmos drasticamente a ocorrência do câncer de colo uterino a níveis de quase erradicação.

No Brasil, estratégias de saúde pública para combate ao câncer de colo uterino vêm sendo desenvolvidas desde a década de 1980, sendo reforçadas a partir de meados da década seguinte. Inicialmente baseado na realização dos testes de rastreamento de Papanicolaou (citologia oncótica do colo uterino), que são realizados de forma oportunista quando a mulher procura uma unidade de atenção básica para a realização do teste ou por outros motivos. Outros métodos de rastreamento, incluindo a pesquisa de material genético do HPV, já existem e estudos estão sendo conduzidos analisando a viabilidade de sua utilização no programa do Sistema Único de Saúde (SUS).

A vacina contra o HPV já está disponível no Brasil e incluída no Programa Nacional de Imunização desde 2014. A vacina administrada é a chamada tetravalente, e tem cobertura principalmente contra quatro cepas de HPV sabidamente causadores de câncer: 6, 11, 16 e 18. Além disso, ela é capaz de oferecer certo grau de proteção cruzada contra outras cepas menos comuns. Inicialmente, a vacina estava recomendada apenas para meninas de 9 a 13 anos, porém em 2017 a vacinação foi expandida para incluir também os meninos de 11 a 13 anos. A vacinação dos meninos, além de proteger contra certos tipos de câncer associados ao HPV, também evita que eles sejam portadores assintomáticos do vírus e possam transmitir o HPV para outras pessoas durante a relação sexual sem proteção.

Nos primeiros seis meses de implementação da vacinação, a vacina era administrada nas escolas, o que garantiu uma cobertura muito alta. A recomendação era que fossem aplicadas duas doses com intervalo de seis meses, seguidas de uma terceira dose após cinco anos. Posteriormente, a terceira dose foi eliminada e mantidas apenas as duas primeiras doses. No entanto, apesar da disponibilidade da vacina gratuitamente no Brasil, a cobertura vacinal ainda é considerada baixa. Os dados oficiais mostram que, no período de 2014 a 2017, 72% das meninas haviam recebido uma dose, mas apenas 45% completaram o esquema de duas doses. Os dados para os meninos são ainda piores, com uma cobertura de apenas 20%. Um fator agravante recente foi a pandemia de COVID-19, que teve impacto direto na atenção à saúde, incluindo a cobertura vacinal contra o HPV.

Idealmente, a vacina deve ser aplicada antes do primeiro contato com o HPV, ou seja, antes da primeira relação sexual. Por isso a faixa etária definida para as meninas e os meninos. No entanto, estudos mais recentes têm mostrado também eficácia da vacina quando administrada mesmo após um primeiro contato com o vírus. Isso talvez impacte as recomendações futuramente. Um outro ponto importante é que sabemos que o tempo transcorrido entre a infecção pelo vírus e o desenvolvimento do câncer de colo do útero é em média de 20 a 30 anos. Sendo assim, os efeitos benéficos da vacinação contra o HPV serão percebidos de forma mais significativa daqui algumas décadas. Nesse contexto, fica clara a importância de fortalecermos concomitantemente o programa de rastreamento do câncer de colo uterino.

Mas os efeitos já estão sendo notados. No Reino Unido, a vacinação contra o HPV foi iniciada no ano de 2008 e, no final de 2021, pesquisadores ingleses publicaram um estudo no qual relataram uma redução do número de diagnósticos de câncer de colo uterino e de lesões precursoras em mulheres jovens (20-30 anos), sendo a estimativa de redução da ordem de 87% quando essas mulheres foram vacinadas entre os 12 e 13 anos. Esses resultados precisam ser analisados com cautela, visto que o câncer de colo uterino geralmente é diagnosticado em idades mais avançadas e raramente em mulheres tão jovens. Mas a observação de uma redução importante nos casos de lesões precursoras alimenta a esperança na possibilidade de reduzirmos drasticamente os casos de câncer de colo uterino e as mortes decorrentes dessa doença.

 

Referências

 

Frazer IH, Cox J. Finding a vaccine for human papillomavirus. Lancet. 2006 Jun 24;367(9528):2058-9. doi: 10.1016/S0140-6736(06)68921-6.

Frazer IH. The HPV Vaccine Story. ACS Pharmacol Transl Sci. 2019 May 29;2(3):210-212. doi: 10.1021/acsptsci.9b00032.

Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estatísticas de câncer. Disponível em: https://www.inca.gov.br/numeros-de-cancer. Acessado em 18 de janeiro de 2022.

Paulino E, de Melo AC, Silva-Filho AL, et al. Panorama of Gynecologic Cancer in Brazil. JCO Glob Oncol. 2020 Oct;6:1617-1630. doi: 10.1200/GO.20.00099.

Brisson M, Kim JJ, Canfell K, et al. Impact of HPV vaccination and cervical screening on cervical cancer elimination: a comparative modelling analysis in 78 low-income and lower-middle-income countries. Lancet. 2020 Feb 22;395(10224):575-590. doi: 10.1016/S0140-6736(20)30068-4.

Programa Nacional de Imunizações. Boletim informativo do PNI-02/2016 – Vacinação contra o HPV. Disponível em: https://www.conasems.org.br/wp-content/uploads/2016/10/images_Boletim_informativo__HPV002-2016.pdf. Acessado em 18 de janeiro de 2022.

Mendes Lobão W, Duarte FG, Burns JD, et al. Low coverage of HPV vaccination in the national immunization programme in Brazil: Parental vaccine refusal or barriers in health-service based vaccine delivery? PLoS One. 2018 Nov 12;13(11):e0206726. doi: 10.1371/journal.pone.0206726.

Falcaro M, Castañon A, Ndlela B, et al. The effects of the national HPV vaccination programme in England, UK, on cervical cancer and grade 3 cervical intraepithelial neoplasia incidence: a register-based observational study. Lancet. 2021 Dec 4;398(10316):2084-2092. doi: 10.1016/S0140-6736(21)02178-4.

Cruickshank ME, Grigore M. Cervical cancers avoided by HPV immunisation. Lancet. 2021 Dec 4;398(10316):2053-2055. doi: 10.1016/S0140-6736(21)02396-5.

17 de outubro: Dia Nacional da Vacinação

Vacina é tecnologia antiga. Os primeiros imunizantes surgiram na China, há mais de mil anos. No Ocidente, são mais recentes, pouco mais de 200 anos; e no Brasil, as vacinas começaram a ser adotadas na primeira metade do século XIX, mas só depois de muita resistência viraram política pública de saúde.

Da revolta das vacinas, em 1904, à erradicação de doenças como a poliomielite, em 1994, ou o sarampo, em 2016, o Brasil acumulou experiência e virou referência internacional pelo seu Programa Nacional de Imunização, o PNI, que coloca o Brasil no primeiro lugar do mundo na oferta de vacinas gratuitas para toda a população. São 45 imunizantes diferentes para diferentes faixas etárias.

As vacinas são um marco na história da saúde humana e, segundo dados da Organização Mundial de Saúde, salvam a vida de 3 milhões de pessoas a cada ano. Para reforçar a importância das vacinas, o Brasil comemora, em 17 de outubro, o Dia Nacional da Vacinação, uma data para promover a importância da imunização no controle de epidemias.

Menciono a importância histórica das vacinas, não só agora, com o surgimento da Covid19, mas para erradicação ou diminuição da incidência de várias doenças graves, como varíola, caxumba, gripe, poliomielite, rubéola, sarampo e tétano.

Atualmente, mesmo com a inegável contribuição das vacinas para a vida humana, a comunidade científica ainda esbarra em um problema que pode ser tão perigoso quanto uma doença: a desinformação. Mesmo rodeada de mitos, a vacinação é o método mais seguro e eficaz para combater a disseminação de vírus e a ocorrência de epidemias infectocontagiosas.

Vacina. Vacina. Vacina. Acredito que ouvimos e discutimos tanto sobre isso nos últimos meses que podemos encontrar entre nós aqueles que defendem, os que são neutros e os que têm dúvidas. É completamente normal estar nessas três situações supracitadas e é a informação de qualidade que permite que haja entendimento do processo, segurança e aplicação de uma vacina.

Então, mais do que nunca, que o Dia Nacional da Vacinação seja lembrado e comemorado conforme se deve: com acesso e utilização desse recurso de promoção de saúde. E, assim, cada um pode fazer sua parte por si e pelo próximo: vacinando-se. Ajudando a diminuir as variantes, as mortes, as sequelas, o medo e a pandemia (a atual e as anteriores).

Fontes:

– Agência Senado

– https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/saude/audio/2021-06/dia-nacional-da-imunizacao-lembra-importancia-de-se-vacinar

 

Falta de insumos nucleares afeta pacientes no Brasil

O Instituto Nacional de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN) suspendeu sua produção a partir do dia 20 de setembro. E por que isso importa para os pacientes com câncer? Porque alguns tratamentos e exames necessitam de insumos fornecidos pelo IPEN.

Esse problema está acontecendo, segundo o IPEN, por falta de verbas por parte do Governo Federal via Ministério de Ciência, Tecnologia e Telecomunicações (MCTIC). O órgão importa diversos insumos e radioisótopos de outros países e, sem verba, não é capaz de manter sua atividade. Desde julho deste ano, já prevendo o ocorrido, o IPEN vem tentando, sem sucesso, meios para evitar a interrupção junto ao Governo.

Exames de grande importância, como o PET/CT e a cintilografia, e tratamentos, como Lutécio e Radium-223, devem ser interrompidos em virtude dessa paralisação. Infelizmente, os maiores impactados serão os pacientes. Tanto os exames quanto os tratamentos são métodos de alta eficácia e auxiliam em grande monta o cuidado ao paciente com câncer.

Tanto pacientes quanto clínicas parceiras do SOnHe têm relatado a real falta desses insumos e o consequente adiamento dos procedimentos previstos.

A ideia é, no curto prazo, conseguir verba extra para retomar a produção e, a médio prazo, um aumento do orçamento de 2022, via Congresso Nacional. Até lá, esperamos que esse imbróglio seja resolvido para que os pacientes tenham o menor impacto possível.

 

O mundo asfixiado

Desde final de 2019, o mundo vive um dos momentos mais dramáticos da sua história com o surgimento e explosão do Sars CoV-2. Nada ocupou mais o noticiário e nossas vidas nos últimos meses do que essa crise sanitária que vem mudando nossa forma de se relacionar, interagir e viver. Já foram mais de 400 mil mortes no Brasil por COVID-19 desde o início da pandemia e mais de 3 milhões de mortes no mundo. Mas, ainda assim, temos que lembrar de outra pandemia, que atravessa séculos, e que mata sozinha mais de 7,5 milhões de pessoas ao ano. É mais do que o dobro de mortes causadas pela COVID-19, e isso vem acontecendo ano após ano, causando um impacto monstruoso na nossa sociedade. Estamos falando do tabagismo.

O tabaco já era usado pelas tribos indígenas na América do Sul, quando os colonizadores europeus aqui chegaram. Os indígenas acreditavam que a fumaça tinha poderes mágicos e terapêuticos. Depois com as colonizações portuguesas na África e Ásia, o tabaco chegou a todos os continentes. Durante os séculos XVI e XVII, o tabaco era usado basicamente para fins médicos. Achava-se que combatia a ansiedade e melhorava a atenção, mas com a Revolução Industrial e a ascensão do capitalismo, o habito de fumar tornou-se constante. A partir das duas grandes Guerras Mundiais, o uso de tabaco na forma de cigarro começou a se popularizar.

A partir do século XX, o uso do cigarro atingiu níveis epidêmicos. Mas foi apenas no final dos anos 80, que os efeitos negativos do cigarro se tornaram mais conhecidos e evidentes. E, então, pudemos entender os estragos e cicatrizes que esse problema trouxe à humanidade. O cigarro é a maior causa evitável de morte no mundo todo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) espera para 2021, algo próximo de 8 milhões de mortes em todo mundo por doenças causadas pelo hábito de fumar. Só no Brasil são cerca de 430 mortes ao dia relacionadas ao tabagismo, cerca de 160 mil mortes ao ano.

São mais de 4.800 compostos químicos em um único cigarro, dentre os quais mais de 70 são sabidamente cancerígenos. É disparado o maior fator de risco para o desenvolvimento de câncer e está relacionado a quase todos os tumores, com particular importância para as neoplasias de pulmão, cabeça e pescoço, bexiga e trato gastrointestinal. Especialmente em relação ao câncer de pulmão, 15% de quem fuma deverá desenvolver esse tipo de câncer em algum momento da vida, além disso, 80 a 90% de quem tem o diagnóstico de neoplasia pulmonar é tabagista. Ainda, cerca de 80% dos tumores de pulmão são descobertos em fases avançadas, com metástases, quando o câncer já se espalhou pelo corpo e a chance de cura é muito baixa. São 1,8 milhões de casos novos de câncer de pulmão diagnosticados todos os anos no mundo, com 1,6 milhões de mortes.

Cerca de 80% dos tumores de cabeça e pescoço, que é o terceiro tipo de câncer mais comum no Brasil, e por volta de 70% das neoplasias de bexiga também estão relacionados ao tabagismo. O cigarro, portanto, tem um poder destrutivo imenso capaz de comprometer a qualidade de vida e ceifar vidas de pessoas, muitas vezes, ainda jovens e produtivas.

Além disso, o tabagismo é o segundo fator de risco mais importante para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares (perdendo apenas para hipertensão arterial), lembrando que essas doenças são as que mais matam no Brasil e no mundo. Em 29 de setembro (Dia Mundial do Coração) de 2020, a OMS divulgou que 2 milhões de pessoas morrem ao ano por doenças cardíacas provocas pelo cigarro. O cigarro aumenta o risco de infarto agudo do miocárdio, de arritmias cardíacas, miocardites e de mortes súbitas.

O cigarro é, ainda, o principal fator relacionado a doenças respiratórias como asma, bronquite e enfisema pulmonar. E nesse caso, não tem como não associar o cigarro com a COVID-19. É inegável que a “pandemia” do cigarro agrava a COVID-19. Logo no início da pandemia, em 2020, a Convenção Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT/OMS) informou que pesquisadores da Universidade de Ciência e Tecnologia de Huazhong, em Wuhan, na China, haviam constatado que as chances de progressão da doença e de óbitos entre fumantes eram 14 vezes maiores do que em não fumante.

O cigarro provoca uma inflamação crônica nos pulmões, causando distúrbios pulmonares graves, além de sabidamente reduzir a imunidade de quem fuma. Se o coronavírus provoca pneumonia e afeta os pulmões, é claro que o dano é maior naqueles pacientes que já tem comprometimento do tecido pulmonar causado pelo tabaco. Portanto, uma parcela das pessoas que morreram em decorrência da COVID-19, indiretamente são vítimas do cigarro.

De acordo com boletim informativo do Ministério da Saúde, desde a primeira contaminação notificada no Brasil até a 53ª semana epidemiológica, período que compreendeu de 27 de dezembro de 2020 a 02 de janeiro de 2021, 191.552 óbitos em decorrência da COVID-19 haviam sido registrados, sendo que 42% das vítimas eram cardiopatas (lembrando que o cigarro é a segunda maior causa de doenças cardiovasculares) e 6% tinham problemas crônicos pulmonares. Uma pesquisa conduzida pela Universidade de Stanfort, na primeira fase da pandemia mostrou que jovens que usam cigarros eletrônicos tinhas de 5 a 7 vezes mais risco de terem COVID-19, provavelmente em razão dos danos pregressos das vias aéreas.

Uma analogia feita por Jaqueline Scholz, cardiologista e diretora do Programa de Tratamento do Tabagismo do Incor, do Hospital das Clínicas da USP exemplifica bem essa relação do cigarro com a COVID-10. “A COVID-19 é um cigarro mais apressado. Os mesmos malefícios que o cigarro causa no indivíduo, que demoram anos para aparecer, são uma avalanche com o vírus, que desencadeia essas mesmas alterações, mas em questão de dias. É uma doença inflamatória pulmonar grave com insuficiência respiratória, alterando todo o sistema de coagulação, fazendo com que os indivíduos tenham trombose, tendo complicações isquêmicas e hemorrágicas, assim como acontece com quem fuma ao longo de anos, com um fator de agressão extremamente elevado”.

O uso do tabaco esta associado, ainda, a impotência sexual, infertilidade, menopausa precoce nas mulheres e uma série de outras enfermidades. Os pacientes que fumam têm, em média,14 anos menos de expectativa de vida em relação a quem não fuma. Além disso, é muito claro que os tabagistas passivos (aqueles que não fumam, mas convivem de perto com quem fuma) também têm mais chances de desenvolver câncer, doenças cardíacas e pulmonares. De todas as mortes causadas pelo cigarro, 12% são em fumantes passivos.

Tudo isso traz um grande impacto não apenas nas vidas daquelas pessoas que perderam entes queridos por conta do cigarro, mas também impacto na economia com perdas de mais de R$ 60 bi ao ano (considerando o que as pessoas doentes ou que morreram, deixaram de produzir e os custos diretos e indiretos com tratamentos das doenças causadas pelo habito de fumar. O que se arrecada com impostos com a venda de cigarros não ultrapassa os R$ 13 bi ao ano, mostrando haver um grande desbalanço nessa equação.

O cigarro é tão prejudicial e viciante, que a nicotina nele contida atinge rapidamente o cérebro e em menos de 10 segundos libera vários neurotransmissores relacionados à sensação de bem-estar e prazer, como a dopamina. Por isso, é um hábito difícil de abandonar. Daquelas pessoas que desejam abandonar o vício menos de 10% tem sucesso sem ajuda de um profissional.

Na tentativa de diminuir, vários países passaram a adotar medidas que estimulassem o abandono do cigarro e outras que evitassem o início do tabagismo. Neste contexto, o Brasil ao lado da Turquia, ganhou lugar de destaque ao ser o segundo país a conseguir implementar de forma eficaz todas as seis medidas sugeridas pela OMS chamadas de Mpower (plano para reverter a epidemia do tabaco) e conseguir reduzir de forma consistente o número de pessoas que fumam. Os esforços para essa redução começaram em 1990, quando profissionais de estados e municípios foram treinados pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA) para tratar pacientes tabagistas no SUS, de forma gratuita.

Outras medidas importantes foram o aumento de impostos sobre os cigarros que chegaram a 83%, em 2018, a proibição de propagandas em televisão e revistas, a obrigatoriedade de se estampar as embalagens de cigarro com fotos e frases que mostrassem os efeitos devastadores do vício e, por fim, a proibição do fumo em locais fechados de uso coletivo. Todas essas medidas levaram o Brasil a reduzir em mais de 50% o número de pessoas que fumam nos últimos 25 anos (34% da população, em 1989, e 10%, atualmente) em todas as faixas etárias; mas ainda temos mais de 20 milhões de tabagistas.

O grande problema é que, em agosto de 2020, um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostrou que 34% dos fumantes no Brasil declararam ter aumentado o número de cigarros fumados durante a pandemia, um crescimento associado à deterioração da saúde mental dos tabagistas em meio ao isolamento social. Além disso, a forma de comprar e obter o cigarro foi ainda mais facilitada na pandemia de COVID-19. As pessoas podem comprar e solicitar o cigarro por meio de aplicativos como iFood, Rappi e James, ter o produto entregue em casa e, na maioria das vezes, sem a verificação da idade do comprador.

Estima-se que um terço da população adulta mundial seja tabagista, principalmente em países como China, Rússia e em países europeus. Destes, acredita-se que 60% desejam parar de fumar, mas não conseguem e não tem assistência para isso. Além disso, o hábito de fumar começa cedo, geralmente antes dos 20 anos, o que mostra a importância de orientar e alertar os jovens para os danos causados pelo tabaco

Além do cigarro, existem os charutos, cachimbos, cigarros de palha, narguilés e mais recentemente os cigarros eletrônicos. Algumas pessoas defendem esses tipos de fumo, alegando serem menos prejudiciais. No entanto, isso não é verdade. Algumas delas, como o narguilé por exemplo, são ainda mais nocivos, e o cigarro eletrônico, embora em geral não contenham nicotina, vem se mostrando um grande perigo. O uso de cigarro eletrônico vem crescendo no Brasil (onde a comercialização é proibida) e no mundo. O cigarro eletrônico está associado a danos irreparáveis ao pulmão e a um pior prognóstico nos pacientes que contraem COVID-19.

Por isso, o dia 31 de maio foi escolhido, em 1987 pela OMS como Dia Mundial Sem Tabaco, para orientar e reforçar junto à população as consequências sociais, políticas e econômicas do hábito de fumar e chamar a atenção de todos para os malefícios e danos causados a saúde de quem fuma ou convive com quem fuma. O mundo esta asfixiado e sem oxigênio, mas isso não vem apenas da pandemia de COVID-19. A pandemia de tabaco é maior, mais duradoura e mata muito mais do que qualquer outra e está na hora de começarmos a respirar e viver melhor!

Maio Cinza: um alerta para o câncer de cérebro!

Maio é o mês de conscientização do câncer de cérebro, um tumor potencialmente grave por atingir o órgão responsável pelo controle de todas as funções do nosso corpo. Atualmente, ocupa a décima posição entre os tumores mais frequentes nas mulheres brasileiras e a décima primeira posição entre os homens.

É considerado um grupo heterogêneo de tumores que podem ser divididos em primários, que têm origem nas células do próprio cérebro, ou secundários, que têm origem em outros órgãos e disseminam para o cérebro. Estes são mais frequentes, sendo os cânceres de mama, pulmão e melanoma os maiores causadores de metástase.

No que se refere à agressividade do tumor, podemos dividir também em dois grupos. Os tumores benignos, que apresentam crescimento lento podendo ser acompanhados por exames de imagem periódicos ou tratados com cirurgia com altíssimas chances de cura. E os tumores malignos, que apresentam crescimento rápido, presença de sintomas e necessitam de tratamentos mais agressivos. Dentre os tumores malignos, o glioblastoma multiforme é o que apresenta menores chances de cura, apesar do avanço do tratamento nos últimos anos.

As causas dos tumores de cérebro continuam sendo motivo de muito estudo. Sabemos que algumas síndromes genéticas, consideradas raras, como a neurofibromatose e Li-Fraumeni aumentam o risco deste tipo de câncer. Outro fator é a exposição à radiação ionizante, como por exemplo, em profissionais que lidam com raio-x, pessoas que se submetem à radioterapia ou aos exames excessivos com radiação.  Além desses, temos a deficiência do sistema imunológico, seja ela causada pelo vírus do HIV ou uso de medicamentos que suprimem o sistema imunológico. Por fim, há ainda alguns fatores de risco controversos. A exposição excessiva ao telefone celular, traumas cranianos e o consumo de aspartame (adoçante artificial) já foram levantados como potenciais causadores desse câncer, mas até hoje nada ficou comprovado.

O tumor no cérebro pode ter apresentações variáveis. É frequente nos benignos o paciente permanecer assintomático por um período prolongado, isso porque o tumor cresce lentamente e o cérebro vai se adaptando. Podem ocorrer também sintomas focais, que são dependentes do local em que está localizado o tumor, podendo cursar com perda de força em alguma parte do corpo, alteração na visão, audição, fala e comportamento. Porém, vale ressaltar que as manifestações, na maioria dos casos, são inespecíficas como sonolência, náuseas, vômitos, crise convulsiva ou dor de cabeça.

Então, quando devo me preocupar com uma dor de cabeça? A cefaleia, conhecida como dor de cabeça, é o sintoma mais comum do câncer de cérebro, acontecendo em 33 a 71% dos casos.  No entanto, nem todo quadro de cefaleia é sugestivo de tumor cerebral; se for um sintoma diário e persistente ao longo de dias, com intensidade crescente e mais comum à noite ou ao acordar, é um sinal de alerta. Deve também ser sempre investigada quando acompanhada de sinais e sintomas como vômitos recorrentes, crises epilépticas, sonolência excessiva, confusão mental, deficiência gradual da movimentação ou da sensibilidade de alguma parte do corpo e dificuldades de fala e da visão.

O diagnóstico precoce é essencial para aumentar as chances de cura do câncer e evitar sequelas. Mas, muitas vezes, identificar o tumor na fase inicial é um desafio. Isso porque não existe um exame de rastreamento, os chamados exames preventivos, por isso é fundamental dar atenção aos sinais de alerta já mencionados. Na presença destes deve-se fazer uma investigação com exames de imagens, preferencialmente a ressonância de crânio. Este exame é capaz de identificar a presença de uma lesão no cérebro e diferenciar entre tumores benignos ou potencialmente malignos. Porém, para a confirmação diagnóstica é necessária a biópsia.

A boa notícia é que a maioria dos tumores cerebrais podem ser curados. É importante que o tratamento seja individualizado e realizado por uma equipe completa composta por neurocirurgião, oncologista, radioterapeuta, patologista e radiologista. De uma forma geral, a cirurgia é o principal tratamento. Atualmente diversas tecnologias foram incorporadas na neurocirurgia como monitorização intra-operatória e métodos minimamente invasivos, possibilitando a diminuição do risco de sequelas no ato cirúrgico.  A associação de radioterapia e quimioterapia geralmente é necessária nos tumores mais agressivos, considerados de alto grau.

Vale ressaltar que, apesar dos avanços nas técnicas de tratamento, o diagnóstico precoce ainda é a principal arma para aumentar as chances de cura e reduzir as sequelas.  Por isso a importância do Maio Cinza, que tem como objetivo conscientizar a todos sobres os sintomas que devem ser investigados. Mesmo durante o período de pandemia, importante lembrar que a COVID-19 não é a única vilã!

 

COVID-19: a relação entre a obesidade e o câncer

Larissa Arial Oliveira Santos

Nutricionista

Radium – Instituto de Oncologia

 

A obesidade é um problema de saúde pública que vem crescendo consideravelmente nos últimos anos. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o percentual de pessoas obesas na população adulta passou de 12,2% para 26,8%, entre o período de 2003 a 2019.

O ganho de peso excessivo aumenta o tecido adiposo (formado por gordura), promovendo a alteração da função e estrutura das células presentes nele. Essas células, chamadas adipócitos, atraem células do sistema imunológico e, quando isso ocorre de forma exacerbada e crônica, pode levar a um estado inflamatório aumentado.

A obesidade é fator de risco para alguns tipos de cânceres, como por exemplo, o câncer de mama e o câncer de reto. Isso porque a inflamação pode aumentar a proliferação celular e contribuir para o desenvolvimento de alguns tumores.

O estado de inflamação presente em indivíduos obesos também tem sido associado a outros diversos problemas de saúde, como aumento da pressão arterial, diabetes, dislipidemias (aumento dos níveis de gordura no sangue). Essas condições clínicas que frequentemente estão associadas à obesidade são os principais fatores de risco para a gravidade da doença e mortalidade associadas à COVID-19.

Em um estudo realizado em 2020, em 88 hospitais com 7.606 pacientes internados por COVID-19, foi observado que mais de 50% da amostra tinha sobrepeso ou obesidade; e a obesidade foi o fator de maior associação com maior risco de mortalidade intra-hospitalar e ventilação mecânica quando comparados a pessoas com peso dentro do considerado normal de acordo com o Índice de Massa Corporal (IMC).

Se pensarmos num cenário de uma pessoa obesa com câncer, seria este risco aumentado? Alguns artigos científicos mostraram que pacientes com tumores hematológicos, por exemplo, podem ter um nível aumentado de inflamação, o que contribuiria para uma resposta exagerada à infecção causada pela COVID-19. Outro estudo realizado em 2020 com pacientes oncológicos observou que a taxa de admissão na Unidade de Terapia Intensiva foi maior em pacientes obesos e com tumores hematológicos, entretanto, quando avaliado o prognóstico, a obesidade não foi associada à mortalidade nestes pacientes. Todavia, a falta de dados na literatura nos leva a entender que a relação entre obesidade e câncer no contexto da COVID-19 ainda não está bem elucidada e faltam dados científicos para esclarecer melhor essa associação.

É importante ressaltar que, para pacientes oncológicos é necessário investigar além da obesidade, a composição corporal (associação entre alteração da massa muscular e adiposa) e a condição do sistema imunológico (geralmente prejudicada em pacientes em tratamento sistêmico, como a quimioterapia e, também pelo tipo de tumor, como os hematológicos) o que aumenta o risco por infecções virais oportunistas.

Enquanto há uma escassez de estudo neste assunto, deve-se enfatizar a importância de hábitos saudáveis a fim de prevenir a obesidade. Em caso de pacientes oncológicos, uma alimentação bem equilibrada e variada pode auxiliar a preservar a imunidade e prevenir possíveis infecções associadas à queda do sistema imune.