O Grupo SOnHe Equipe Médica Onde Atuamos Conteúdos Contato Eventos

Atenção: mulheres com endometriose têm mais chance de desenvolver câncer de ovário

O câncer de ovário é a quinta principal causa de morte por câncer em mulheres em todo o mundo, representando uma doença altamente letal devido à dificuldade em diagnosticá-lo precocemente. Conhecer os fatores de risco para o desenvolvimento desse câncer é essencial para o desenvolvimento de estratégias de prevenção, diagnóstico precoce e tratamento. Entre os fatores de risco bem estabelecidos estão a idade avançada, histórico familiar de câncer de ovário, mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, além de condições ginecológicas, como a endometriose.

A endometriose é uma condição ginecológica crônica e complexa, caracterizada pelo crescimento de tecido endometrial (a camada mais interna do útero, e que se descama na menstruação) fora do útero, afetando predominantemente mulheres em idade reprodutiva. Estima-se que cerca de 10% das mulheres em todo o mundo sofram com a endometriose, sendo uma das principais causas de dor pélvica crônica e infertilidade. Embora a etiologia exata da endometriose ainda não seja completamente compreendida, fatores genéticos, imunológicos e ambientais têm sido implicados no desenvolvimento da doença. Estudos prévios já haviam demonstrada uma relação entre a endometriose e o risco de câncer de ovário, sugerindo um aumento no risco da ordem de duas vezes.

Recentemente, um grupo de pesquisadores liderados pela Dra Mollie Barnard, da Universidade de Utah, nos EUA, publicou um importante estudo com o objetivo de avaliar a relação entre diferentes tipos de endometriose e o risco de câncer de ovário, dividido por subtipos. Esse estudo traz contribuições importantes ao reforçar a ligação entre diferentes subtipos de endometriose e o risco de desenvolvimento de câncer de ovário, com foco especial nos tipos histológicos do tumor.

Os principais achados revelam que as mulheres com endometriose têm um risco 4 vezes maior de desenvolver câncer de ovário em comparação àquelas sem endometriose. Um dado novo e que chama a atenção é de que o risco é ainda maior para as mulheres com endometriose acometendo os ovários e/ou outros órgãos profundos. Para essas, o aumento de risco é de quase 10 vezes, para todos os tipos de câncer de ovário e, se considerarmos os tumores chamados do tipo I (endometrioide, células claras, mucinoso e seroso de baixo grau) o aumento de risco chega a 19 vezes. Isso é importante pois indica uma forte correlação entre os subtipos mais graves de endometriose e subtipos de câncer de ovário que são agressivos e menos responsivos à quimioterapia.

Isso reforça a necessidade de desenvolvimento de estratégias de diagnóstico e tratamento da endometriose, especialmente dos subtipos mais graves da doença, com intuito de prevenção do câncer de ovário. Além disso, ressalta a importância de manter essas mulheres em um acompanhamento clínico mais rigoroso, incluindo a necessidade de novas pesquisas sobre possíveis intervenções preventivas que possam ser aplicadas a esse grupo de risco.

 

Referências

  1. Barnard ME, Farland LV, Yan B, et al. Endometriosis Typology and Ovarian Cancer Risk. JAMA. 2024; 332(6):482-489. doi: 10.1001/jama.2024.9210.
  2. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estatísticas de câncer. Disponível em: https://www.inca.gov.br/numeros-de-cancer. Acessado em 20 de agosto de 2024.
  3. Paulino E, de Melo AC, Silva-Filho AL, et al. Panorama of Gynecologic Cancer in Brazil. JCO Glob Oncol. 2020; 6:1617-1630. doi: 10.1200/GO.20.00099.
  4. Shafrir AL, Farland LV, Shah DK, et al. Risk for and consequences of endometriosis: A critical epidemiologic review. Best Pract Res Clin Obstet Gynaecol. 2018 Aug;51:1-15. doi: 10.1016/j.bpobgyn.2018.06.001.

Março: Mês das Mulheres – Quais são os cânceres mais incidentes em mulheres?

Alguns dos cânceres que mais frequentemente afetam as mulheres são os de mama, colorretal, pulmão, colo do útero, corpo do útero (endometrial), câncer de ovário e de pele. Conhecer esses cânceres e o que você pode fazer para ajudar a preveni-los ou descobri-los precocemente (quando são pequenos, não se espalharam e podem ser mais fácies de tratar) pode ajudar a salvar sua vida.

 

A estimativa Globocan/IARC1 é que ocorreram 19,3 milhões de casos novos de câncer no mundo (18,1 milhões, se forem excluídos os casos de câncer de pele não melanoma). Um em cada cinco indivíduos terão câncer durante sua vida.2,3 O câncer de mama feminina é o mais incidente no mundo, com 2,3 milhões (11,7%) de casos novos, seguido pelo câncer de pulmão1, com 2,2 milhões (11,4%); cólon e reto, com 1,9 milhão (10,0%); próstata, com 1,4 milhão (7,3%); e pele não melanoma, com 1,2 milhão (6,2%) de casos novos. Nos EUA, o câncer de mama é o câncer mais comum em mulheres e também a segunda principal causa de morte por câncer (depois do câncer de pulmão). Cerca de 1 em cada 8 mulheres terá câncer de mama invasivo durante sua vida4.

 

No Brasil foram estimados, para o ano de 2023, 704 mil casos novos de câncer. O câncer de mama é o mais incidente, acomete 30,1% das mulheres. O câncer de cólon e reto é o segundo mais frequente (9,7%). Na sequência, observam-se os cânceres do colo do útero (7,0%), traqueia, brônquio e pulmão (6,0%) e tireoide(5,8%)(Figura1). Observa-se no Brasil uma predominância do câncer de mama feminina em todas as regiões geográficas. Porém, na região Norte, o câncer do colo do útero figura como o mais incidente no Amazonas e no Amapá, enquanto nos demais estados, encontra-se na segunda posição. Nas regiões Sudeste e Sul, o câncer do cólon e reto é o segundo mais incidente, em todas as UF. Destaca-se o câncer de pulmão figurando na terceira posição no Paraná e no Rio Grande do Sul (Figura 2) 5,6.

 

Os tumores femininos podem ocorrer em qualquer idade, mas o risco aumenta à medida que a idade avança. Algumas mulheres podem ter uma chance maior de ter câncer de mama, colo de útero, cólon e reto ou pulmão, do que outras. Mas todas as mulheres devem conhecer os riscos desses cânceres e o que podem fazer para ajudar a reduzir o risco.

 

Referências:

  1. Globocan/IARC1
  2. FERLAY et al.2021
  3. SUNG et al., 2021
  4. https://www.cancer.org/cancer/risk-prevention/understanding-cancer-risk/cancer-facts/cancer-facts-for-women.html
  5. https://rbc.inca.gov.br/index.php/revista/article/view/3700/2644
  6. https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files/media/document/estimativa-2023.pdf).

 

Figura 1 – Distribuição proporcional dos dez tipos de câncer mais incidentes nas mulheres estimados para 2023, exceto pele não melanoma5,6

Figura 2 – Distribuição dos três tipos de câncer mais incidentes nas mulheres (taxa ajustada) por UF, 2023-2025,5,6

Setembro Verde Claro – Mês de combate ao câncer de ovário

Perguntas e respostas importantes sobre câncer de ovário, doença que está associada à maior taxa de mortalidade por câncer ginecológico

 

Qual a incidência do câncer de ovário no Brasil?

É o oitavo câncer mais frequentemente diagnosticado, responsável por 7.310 novos casos a cada ano, segundo a estimativa do Instituto Nacional do Câncer (Inca) para o triênio 2023-2026. O câncer de ovário está associado à maior taxa mortalidade entre os cânceres ginecológicos. No Brasil, no ano de 2020 ocorreram quase 4.000 mortes por câncer de ovário.

 

Por que é alta a taxa de mortalidade do câncer de ovário?

A elevada mortalidade associada ao câncer de ovário se deve, em grande parte, ao fato de que a maioria dos casos é diagnosticado em estádios mais avançados. Sabemos que, a chance de cura do câncer é maior quando ele é diagnosticado quando a doença ainda está localizada ao órgão de origem. Dados brasileiros revelam que em 67% dos casos, o câncer de ovário é diagnosticado em estádios mais avançados, chamados III e IV.

 

Existem exames para rastrear o câncer de ovário?

Ao contrário do câncer de mama e do câncer de colo uterino, não dispomos de exames de rastreamento para o câncer de ovário. Diversos estudos já foram conduzidos avaliando diferentes métodos de rastreamento, como o exame físico pelo ginecologista, a ultrassonografia e um exame de sangue chamado CA125 (um marcador tumoral, que pode ou não ser produzido em excesso pelo câncer de ovário). No entanto, nenhuma dessas estratégias foi capaz de diagnosticar precocemente o câncer de ovário, de forma eficaz.

 

Quais os sintomas de alerta para as mulheres com relação ao câncer de ovário?

  • Aumento de volume do abdome
  • Dor abdominal/pélvica (região inferior do abdome)
  • Sensação de empachamento, dificuldade para se alimentar
  • Fadiga
  • Sintomas urinários: aumento da frequência das idas ao banheiro, sensação de urgência para urinar

 

Como é feito o diagnóstico do câncer de ovário?

Geralmente, a avaliação se inicia pelo exame físico pelo ginecologista, seguido de ultrassonografia e exames laboratoriais, incluindo o CA125. O achado de lesões ovarianas suspeitas, nódulos sólidos e/ou cistos, outros exames de imagem podem ser solicitados, como tomografia computadorizada e ressonância magnética, e a paciente é encaminhada para o ginecologista oncológico, especializado no tratamento cirúrgico dos cânceres ginecológicos.

 

Quais os tratamentos possíveis para o câncer de ovário?

– Vai depender de cada caso, mas pode ser:

  • Cirurgia
  • Quimioterapia
  • Anticorpo monoclonal
  • Inibidores de PARP.

 

Referências

Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estatísticas de câncer. Disponível em: https://www.inca.gov.br/numeros-de-cancer. Acessado em 4 de maio de 2023.

Paulino E, Melo AC, Silva-Filho AL, et al. Panorama of gynecologic câncer in Brazil. JCO Glocal Oncol. 2020; 6:1617-30.

Burger RA, Brady MF, Bookman MA, et al. Incorporation of bevacizumab in the primary treatment of ovarian cancer. N Engl J Med. 2011 Dec 29;365(26):2473-83.

Aghajanian C, Blank SV, Goff BA, et al. OCEANS: a randomized, double-blind, placebo-controlled phase III trial of chemotherapy with or without bevacizumab in patients with platinum-sensitive recurrent epithelial ovarian, primary peritoneal, or fallopian tube cancer. J Clin Oncol. 2012 Jun 10;30(17):2039-45.

Banerjee S, Moore KN, Colombo N, et al. Maintenance olaparib for patients with newly diagnosed advanced ovarian cancer and a BRCA mutation (SOLO1/GOG 3004): 5-year follow-up of a randomised, double-blind, placebo-controlled, phase 3 trial. Lancet Oncol. 2021 Dec;22(12):1721-1731.

Ray-Coquard I, Pautier P, Pignata S, et al. Olaparib plus Bevacizumab as First-Line Maintenance in Ovarian Cancer. N Engl J Med. 2019 Dec 19;381(25):2416-2428. doi: 10.1056/NEJMoa1911361.

González-Martín A, Pothuri B, Vergote I, et al. Niraparib in Patients with Newly Diagnosed Advanced Ovarian Cancer. N Engl J Med. 2019 Dec 19;381(25):2391-2402.

 

 

 

Câncer de Ovário: tumor silencioso e agressivo é o 8º entre as brasileiras

O câncer de ovário acomete mais de 300.000 mulheres anualmente em todo o mundo. No Brasil, é o oitavo câncer mais frequentemente diagnosticado, responsável por 7.310 novos casos a cada ano segundo a estimativa do Instituto Nacional do Câncer para o triênio 2023-2026. A despeito de sua colocação em incidência de novos casos, o câncer de ovário está associado à maior taxa mortalidade entre os cânceres ginecológicos. No Brasil, no ano de 2020 ocorreram quase 4.000 mortes por câncer de ovário. Em todo o mundo, mais de 207.000 mulheres morrem a cada ano em função da doença.

Diante desse quadro, fica clara a importância do dia 8 de maio, como o Dia Mundial do Câncer de Ovário. Essa iniciativa tem o objetivo de lançar luz ao problema e atrair a atenção da sociedade, dos profissionais de saúde e dos governantes, para que unam esforços na luta contra o câncer de ovário.

A elevada mortalidade associada ao câncer de ovário se deve, em grande parte, ao fato de que a maioria dos casos é diagnosticada em estádios mais avançados. Sabemos que, a chance de cura do câncer é maior quando ele é diagnosticado quando a doença ainda está localizada ao órgão de origem. Dados brasileiros revelam que em 67% dos casos, o câncer de ovário é diagnosticado em estádios mais avançados, chamados III e IV. Um dado bastante alarmante! Colocando em perspectiva, apenas 29% das mulheres com diagnóstico de câncer de ovário avançado sobrevivem até os 5 anos após o diagnóstico.

Em primeiro lugar, precisamos chamar a atenção para o fato de que, ao contrário do câncer de mama e do câncer de colo uterino, não dispomos de exames de rastreamento para o câncer de ovário. Diversos estudos já foram conduzidos avaliando diferentes métodos de rastreamento, como o exame físico pelo ginecologista, a ultrassonografia e um exame de sangue chamado CA125 (um marcador tumoral, que pode ou não ser produzido em excesso pelo câncer de ovário). No entanto, nenhuma dessas estratégias foi capaz de diagnosticar precocemente o câncer de ovário, de forma eficaz. Sendo assim, o diagnóstico na grande maioria das vezes é feito em mulheres com sintomas da doença.

Aqui se coloca a segunda questão importante. O câncer de ovário, na maioria das vezes, não causa sintomas nos seus estádios iniciais, o que faz com que as mulheres sintomáticas tenham uma grande chance de apresentarem a doença mais avançada. Além disso, os sintomas associados ao câncer de ovário são inespecíficos e podem ser confundidos com outros problemas de saúde. Isso faz com que as mulheres não suspeitem inicialmente da doença e acabem atrasando a procura pelo profissional de saúde. 

 

Os sintomas mais comumente relatados pelas pacientes são:

  • Aumento de volume do abdome
  • Dor abdominal/pélvica (região inferior do abdome)
  • Sensação de empachamento, dificuldade para se alimentar
  • Fadiga
  • Sintomas urinários: aumento da frequência das idas ao banheiro, sensação de urgência para urinar

 

Assim, é importante reforçar o conhecimento sobre esses sintomas e a necessidade de buscar atendimento médico caso se instalem e sejam persistentes. 

Diante da suspeita de câncer de câncer de ovário, a mulher será submetida a exames para investigação e confirmação diagnóstica. Geralmente, a avaliação se inicia pelo exame físico pelo ginecologista, seguido de ultrassonografia e exames laboratoriais, incluindo o CA125. O achado de lesões ovarianas suspeitas, nódulos sólidos e/ou cistos, outros exames de imagem podem ser solicitados, como tomografia computadorizada e ressonância magnética, e a paciente é encaminhada para o ginecologista oncológico, especializado no tratamento cirúrgico dos cânceres ginecológicos. 

Após avaliação pelo ginecologista oncológico, uma decisão será tomada: iniciar o tratamento pela cirurgia ou pela quimioterapia. Geralmente, quando possível fazer a retirada completa do tumor e de todas as outras lesões, sem atraso para o tratamento posterior com quimioterapia, a cirurgia é realizada como primeiro tratamento. Do contrário, o tratamento é iniciado com a quimioterapia para reduzir o tamanho dos tumores e permitir uma cirurgia ótima posteriormente. 

Durante algumas décadas, o tratamento do câncer de ovário se resumia à cirurgia e à quimioterapia. Isso mudou nos últimos 10 anos, com a introdução de novos tratamentos que vêm mudando a história da doença e oferecendo um novo horizonte para as pacientes com câncer de ovário. O primeiro desses novos tratamentos é a associação de um medicamento chamado Bevacizumabe à quimioterapia. O Bevacizumabe atua nos vasos sanguíneos que nutrem o tumor, melhorando os efeitos da quimioterapia e prolongando o tempo para progressão da doença. 

Um segundo grupo de medicamentos recentemente incluídos no tratamento do câncer de ovário são os chamados inibidores de PARP. São eles o Olaparibe, o Niraparibe, o Rucaparibe e o Veliparibe. Mas o que é a PARP? A PARP é uma proteína que está envolvida na correção de defeitos no DNA da célula. Essa ação é extremamente importante, pois sabemos que as células que não conseguem corrigir esses defeitos acabam morrendo. Existem diferentes mecanismos de correção de defeitos no DNA, de forma que o efeito desses medicamentos contra o câncer de ovário é maior naquelas pacientes em que os tumores apresentam desses mecanismos de correção, no que chamamos de “Deficiência de Recombinação Homóloga” (ou HRD). Nesse grupo de defeitos, encontramos as mutações dos genes BRCA1 e BRCA2. Muito conhecidas por sua associação ao aumento do risco de desenvolvimento do câncer de mama, as mutações de BRCA1 e BRCA2 também aumentam o risco de câncer de ovário, entre outros. 

Os inibidores de PARP estão modificando de forma significativa o cenário do tratamento do câncer de ovário. Eles podem ser usados sozinhos ou após a quimioterapia, no que chamamos de “tratamento de manutenção”. Os benefícios que esses medicamentos trouxeram nunca haviam sido vistos no cenário de tratamento do câncer de ovário. Lembrem-se que comentamos que entre as pacientes com diagnóstico de doença avançada cerca de 29% apenas sobreviviam aos primeiros 5 anos após o diagnóstico. Nas pacientes com câncer de ovário e mutação de BRCA1 ou BRCA2, que fazem uso de quimioterapia e inibidor de PARP, esse número chega a quase 50%. Algumas pacientes apresentam resposta completa ao tratamento, com desaparecimento de todas as lesões, sem apresentarem nenhum sinal de recidiva/progressão de doença após 5 anos de tratamento. Hoje já chegamos a vislumbrar a cura para essas pacientes. 

O cenário está mudando muito rapidamente e para melhor. Diversos outros tratamentos estão sendo testados em câncer de ovário, como a imunoterapia, vacinas, conjugados anticorpo-quimioterapia, terapia gênica, entre outros. Os avanços no desenvolvimento de novas terapias cada vez mais eficazes, partindo de um melhor entendimento da doença, bem como campanhas de conscientização sobre o câncer de ovário, como o Dia Mundial do Câncer de Ovário, são peças fundamentais para que possamos melhorar o prognóstico da doença, melhorando as chances de cura e mantendo a qualidade de vida das mulheres.

 

Referências

 

Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estatísticas de câncer. Disponível em: https://www.inca.gov.br/numeros-de-cancer. Acessado em 04 de maio de 2023.

Paulino E, Melo AC, Silva-Filho AL, et al. Panorama of gynecologic câncer in Brazil. JCO Glocal Oncol. 2020; 6:1617-30.

Burger RA, Brady MF, Bookman MA, et al. Incorporation of bevacizumab in the primary treatment of ovarian cancer. N Engl J Med. 2011 Dec 29;365(26):2473-83.

Aghajanian C, Blank SV, Goff BA, et al. OCEANS: a randomized, double-blind, placebo-controlled phase III trial of chemotherapy with or without bevacizumab in patients with platinum-sensitive recurrent epithelial ovarian, primary peritoneal, or fallopian tube cancer. J Clin Oncol. 2012 Jun 10;30(17):2039-45.

Banerjee S, Moore KN, Colombo N, et al. Maintenance olaparib for patients with newly diagnosed advanced ovarian cancer and a BRCA mutation (SOLO1/GOG 3004): 5-year follow-up of a randomised, double-blind, placebo-controlled, phase 3 trial. Lancet Oncol. 2021 Dec;22(12):1721-1731.

Ray-Coquard I, Pautier P, Pignata S, et al. Olaparib plus Bevacizumab as First-Line Maintenance in Ovarian Cancer. N Engl J Med. 2019 Dec 19;381(25):2416-2428. doi: 10.1056/NEJMoa1911361.

González-Martín A, Pothuri B, Vergote I, et al. Niraparib in Patients with Newly Diagnosed Advanced Ovarian Cancer. N Engl J Med. 2019 Dec 19;381(25):2391-2402.

 

 

Mês de Conscientização do Câncer de Ovário: bate papo com Sandra Navarro e o Dr. Leonardo Silva.

Novo tratamento para câncer de ovário aprovado no Brasil

No dia 8 de março, foi aprovada no Brasil, pela Anvisa, a medicação Niraparibe (Zejula®) para uso em pacientes com câncer de ovário avançado. Com isso, surge mais um opção para essas pacientes e a indicação deve se ampliar para um número maior de pacientes.

Os estudos que embasaram a aprovação foram dois: PRIMA e NOVA. No PRIMA, o Niraparibe foi testado contra placebo como 1ª linha em 733 mulheres com câncer de ovário que tiveram resposta ao tratamento com quimioterapia. Os resultados mostraram um redução de quase 40% do risco de morte ou progressão. Nesse estudo, o benefício foi independente da mutação do BRCA ou outras alterações genéticas e tal dado é importante por amplia a população que pode utilizar a droga.

No estudo NOVA, o Niraparibe foi testado como 2ª linha, em pacientes com recidiva após tratamento com quimioterapia com platina. Nesse caso, a redução do risco de morte ou progressão foi de 55 a 78%

Os resultados são animadores e trazem mais probabilidade de sobrevida para as pacientes com câncer de ovário.

Deve-se lembrar que é uma medicação oral e, portanto, apesar da aprovação na Anvisa, ainda não é obrigatória a cobertura pelos planos de saúde. Abordamos esse assunto em post anterior (acesse aqui https://sonhe.med.br//2019/09/03/simparaquimiooral/).

Não só isso, ainda não está (e tardará a estar) disponível no SUS, ou seja, o acesso a esse tratamento é limitado, uma situação que temos que batalhar para mudar.

 

Referências:

González-Martin, et al. Niraparib in Patients with Newly Diagnosed Advanced Ovarian Cancer. N Engl J Med. 2019;381:2391-402

Mirza MR, et al. Niraparib Maintenance Therapy in Platinum-Sensitive, Recurrent Ovarian Cancer. N Engl J Med. 2016;375:2154-64

https://consultas.anvisa.gov.br/#/medicamentos/25351232639202055/

Assista aos vídeos da Dra. Susana sobre Câncer de Ovário

8 de maio: Dia Mundial do Câncer de Ovário

Vídeo 1: Os sintomas do Câncer de Ovário

Vídeo 2: Estatísticas sobre o Câncer de Ovário

Vídeo 3: Câncer de Mama e Câncer de Ovário

Vídeo 4: Os exames preventivos para o Câncer de Ovário

Vídeo 5: Sintomas persistentes do Câncer de Ovário

Vídeo 6: O que fazer na suspeita de Câncer de Ovário

Vídeo 7: Tratamentos para o Câncer de Ovário

Vídeo 8: O diagnóstico precoce é essencial

Atualizações ESMO 2019: tumores de mama e ovário

Entre os dias 27 de setembro e 2 de outubro de 2019 aconteceu em Barcelona na Espanha o congresso anual da Sociedade Européia de Oncologia (ESMO 2019), evento que contou com a participação de mais de 22 mil pessoas do mundo inteiro envolvidas de alguma forma no estudo e tratamento do câncer. Especificamente nos tumores de mama e ginecológicos (em especial os de ovário), tivemos a divulgação de resultados de estudos que provavelmente mudarão o tratamento em algumas situações específicas. Como já é tendência na Oncologia recente, estudos que levaram em conta a individualização do tratamento e a busca de drogas que agem em alvos específicos da célula tumoral tiveram destaque.

Mama: Dois estudos avaliaram o papel dos inibidores de ciclina em mulheres com câncer de mama metastático ou avançado sem condições de cirurgia e receptores hormonais positivos que se beneficiam de tratamentos hormonais. Essa classe de drogas bloqueia o ciclo celular, impedindo a duplicação das células tumorais, revertendo a resistência ao tratamento hormonal (endócrino) em muitos casos. O estudo MONALEESA-3 mostrou redução do risco de morte da ordem de 28% para pacientes que fizeram uso do Ribociclibe (inibidor de ciclina) junto ao tratamento hormonal convencional, conseguindo adiar a progressão da doença em mais de oito meses. Mulheres que usaram o novo medicamento associado ao tratamento endócrino permaneceram mais tempo livres de quimioterapia em relação ao grupo placebo, que não recebeu a medicação. O estudo MONARCH-2 avaliou o uso de outro inibidor de ciclina, o Abemaciclibe, e focou em tumores mais resistentes, que falharam precocemente após o câncer inicial ou progrediram após uma primeira tentativa de tratamento. Para estes casos, o uso do medicamento reduziu o risco de morte em 25% e aumentou a sobrevida global em quase dez meses. Além disso, o desempenho foi particularmente bom nas pacientes metastáticas com doença mais agressiva como no fígado e pulmão. Em média, as mulheres que fizeram uso do Abemaciclibe demoraram 50 meses para fazer a primeira quimioterapia, enquanto no grupo controle esse tempo foi de 22 meses. Apesar dessas duas drogas estarem aprovadas no Brasil pela Anvisa e já estarem disponíveis para comercialização, ainda não fazem parte do rol de procedimentos e eventos em saúde da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o que faz com que pacientes com convênios de saúde tenham dificuldades em ter acesso a elas. Por serem de alto custo, também não estão disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS).

Outro importante estudo em câncer de mama, dessa vez com foco nas pacientes com tumores triplo negativo, um subtipo que tende a ser mais agressivo e acometer mulheres mais jovens, avaliou o papel da imunoterapia em mulheres com tumor localmente avançado, não metastático e que seriam submetidas a cirurgia com intenção curativa posteriormente. A imunoterapia, já utilizada com sucesso em tumores como pulmão, rim e melanoma tem a função de estimular o nosso sistema imunológico no combate às células tumorais. O estudo KEYNOTE 522 avaliou a inclusão do Pembrolizumabe por seis meses ou placebo ao esquema padrão de quimioterapia com paclitaxel/carboplatina seguido de antraciclinas e só então as pacientes foram operadas, recebendo mais nove doses (27 semanas) da imunoterapia depois da cirurgia. Foram mais de mil pacientes avaliadas. O principal objetivo era aumentar a taxa de desaparecimento do tumor na hora da cirurgia. A imunoterapia aumentou 27% a mais, de 51 para 65%. Todas as pacientes que receberam a droga associada à quimioterapia se beneficiaram mesmo aquelas que não expressavam a proteína PD-L1, considerada um marcador preditor de resposta à imunoterapia em outros tumores. Como o estudo tem um seguimento curto, ainda não temos os dados de sobrevida disponíveis, porém esse resultado traz uma nova esperança para as pacientes com tumores triplo negativo e deve mudar a conduta no tratamento destes tumores em um futuro próximo.

Ovário: Três importantes estudos que avaliaram o papel dos inibidores da PARP foram apresentados este ano na ESMO para câncer de ovário. As enzimas PARP normalmente estão envolvidas em uma via para reparar o DNA danificado dentro das células. Os genes BRCA (BRCA1 e BRCA2) também estão normalmente envolvidos em uma via diferente de reparo do DNA e as mutações nesses genes podem bloquear essa via. Ao bloquear a via PARP, esses medicamentos tornam difícil às células tumorais com um gene BRCA mutado reparar o DNA danificado, muitas vezes levando essas células à morte. Os três estudos apresentados avaliaram mulheres com câncer epitelial de ovário de alto grau avançado ou metastático após o tratamento convencional com quimioterapia a base de platina, cirurgia e após, foram avaliadas para receber inibidor de PARP em manutenção ou não. O estudo PAOLA avaliou o inibidor da PARP Olaparibe associado com o Bevacizumabe, um anticorpo monoclonal que inibe a formação de vasos sanguíneos no ambiente tumoral, em pacientes com tumor de ovário após quimioterapia e/ou cirurgia. A combinação aumentou a sobrevida livre de progressão da doença em seis meses para todas as pacientes que a receberam, independente se elas tinham ou não mutação nos genes BRCA 1 e 2 ou mutação de outros genes relacionados ao câncer de ovário. Para as pacientes que tinham alguma mutação nos genes conhecidos como de reparo, o benefício foi ainda maior, da ordem de 12 meses de sobrevida livre de progressão. O estudo PRIMA avaliou o uso do inibidor de PARP Niraparibe numa população de mulheres bem semelhante as que foram incluídas no estudo PAOLA. A sobrevida livre de progressão foi significativa para as pacientes que receberam a medicação, da ordem de cinco meses e naquelas que tinham alguma mutação em genes de reparo, o benefício foi maior, em torno de 12 meses de sobrevida livre de progressão de doença, resultado este muito parecido com os do estudo PAOLA. Já no estudo VELIA, foi avaliada a combinação de quimioterapia com o inibidor de PARP Veiliparibe, seguida ou não de manutenção com veliparibe. Três grupos de pacientes foram avaliadas: um grupo com quimioterapia em associação com placebo; outro grupo com quimioterapia e Veliparibe e manutenção com placebo; e outro grupo com quimioterapia em associação com Veliparibe e manutenção com Veliparibe. Este último grupo que recebeu o inibidor de PARP associado com a quimioterapia e seguiu com a medicação em manutenção teve um ganho significativo de sobrevida livre de progressão de doença da ordem de um ano para as pacientes que tinham alguma mutação em genes de reparo. Quando observamos a população total do estudo que leva em conta as pacientes com e sem mutação em genes de reparo, o benefício foi menor, em torno de cinco meses de sobrevida livre de progressão. Vale ressaltar que pacientes que usaram a associação de quimioterapia com inibidor de PARP tiveram mais efeitos adversos relacionados ao tratamento (mais toxicidades).

Se fizermos uma análise conjunta, o resultado desses três estudos veio corroborar o papel importante dos inibidores da PARP no tratamento das pacientes com tumor epitelial de ovário, o que provavelmente mudará o tratamento dessa neoplasia nos próximos meses. Vale ressaltar que, por serem medicações de uso oral, para ter cobertura pelos planos de saúde é preciso que tais drogas sejam incluídas no rol de procedimentos e eventos em saúde da ANS. Uma nova versão desse rol está programada para ser lançada somente em 2021. Por serem de alto custo, também não estão disponíveis no SUS.

Câncer de ovário na ESMO 2018: nova opção na primeira linha

O congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Clínica (ESMO) acontece uma vez por ano, em alguma cidade da Europa. Neste ano, a escolhida foi Munique, que abrigou o encontro entre os dias 19 e 23 de outubro. Neste evento – o segundo mais importante do ano da Oncologia mundial – novas pesquisas têm seus resultados divulgados e os médicos têm a oportunidade de debater e trocar experiências sobre as novidades dos diversos tipos de câncer. Dentre eles, neste ano, a neoplasia de ovário teve uma importância notável.

Alguns estudos se destacam mais e são apresentados em uma sessão presidencial para todos os participantes e, na ESMO 2018, um estudo em pacientes com câncer de ovário metastático chamou a atenção. Nele, 391 mulheres com neoplasia de ovário em estágios avançados, com diagnóstico recente da doença ou da recorrência, que tiveram boa resposta ao tratamento-padrão com quimioterapia e mutação do gene BRCA, foram selecionadas para receber uma medicação chamada Olaparib ou placebo como manutenção, ou seja, após o término da quimioterapia. Os resultados foram excelentes e mostraram que o uso desta medicação reduz o risco de progressão ou morte em 70%. Após três anos, 60% das pacientes que receberam a droga estavam vivas e sem progressão, enquanto no grupo placebo, apenas 27%. Vale ressaltar que os efeitos colaterais do tratamento aumentam de 12 para 21%, porém as alterações principais foram hematológicas (e não náuseas, vômitos, diarreia ou fadiga), sem nenhuma consequência fatal e com bom manejo apenas com suspensão ou adiamento da droga. Uma observação importante é que as pacientes do grupo placebo usaram a medicação em outros momentos mais tardios e, mesmo assim, aquelas que usaram no começo tiveram benefício. Portanto, sugere-se que a mutação do gene BRCA seja testada em todas as pacientes com câncer de ovário avançado, desde o diagnóstico, a fim de selecionar as que possam se beneficiar deste tratamento.

Além deste destaque, a imunoterapia também veio à tona. Esta terapia tem tido um papel crucial na evolução da Oncologia nos últimos anos em diversos tipos de tumores e, agora, começam a aparecer nas neoplasias de ovário. Alguns estudos foram apresentados com tentativas de uso da imunoterapia para pacientes refratárias à quimioterapia inicial. Um deles foi o Keynote-0100, que avaliou o uso de Pembrolizumabe no tratamento destas pacientes, identificando possíveis marcadores que sugiram em benefício do seu uso. Outro trabalho testou a associação de Nivolumabe e Bevacizumabe, com taxas de resposta animadoras, mas com número pequeno de pacientes e ainda sem dados de sobrevida concretos. Estas linhas de pesquisa são importantes para direcionamento de estudos maiores destas drogas, visando alcançar benefícios mais notáveis.

A ciência continua avançando e esperamos cada vez mais novidades em prol dos nossos pacientes, que são o foco desses estudos e do compartilhamento de experiências entre os médicos.

Câncer de ovário: o que devemos saber?

O câncer de ovário é uma doença silenciosa na qual os sintomas aparecem em estágios avançados, justificando seu posto de maior causa de morte entre os tumores ginecológicos nas mulheres norte-americanas. No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) estimou 6.150 casos novos em 2018, ocupando a oitava posição entre os tumores mais frequentes em mulheres. Diante da importância do tema, separamos algumas perguntas relevantes.

– Quais pacientes apresentam maior risco de desenvolver o câncer de ovário?

A idade é um fator importante. A maioria dos casos ocorre em mulheres acima de 50 anos. Os outros fatores são: história familiar de câncer de ovário e mama, nunca ter ficado grávida, primeira menstruação precoce, menopausa tardia, endometriose e reposição hormonal na pós-menopausa.

Atenção especial deve ser dada para as síndromes genéticas, que aumentam significativamente o risco, favorecendo o diagnóstico em idades mais jovens. Estima-se que uma mulher com mutação do BRCA 1 tem risco de 35 a 46% e mulheres com mutação do BRCA 2, de 13 a 23%, de desenvolver câncer de ovário durante a vida. Nessas pacientes, a realização de cirurgia profilática de retirada do órgão deve ser considerada.

– Quais são os sintomas da doença?

Na fase inicial as pacientes costumam ser assintomáticas. Conforme o tumor se torna avançado, os sintomas mais frequentes são a distensão abdominal, náuseas, vômitos, perda de apetite, aumento do volume do abdome pela formação de liquido (ascite) ou obstrução do intestino.

 

– Existe algum exame de rastreamento?

Rastreamento é a realização de exames em pacientes assintomáticos, com intuito de realizar diagnóstico de uma doença em fase precoce, aumentando as chances de cura. Diante de um tumor silencioso como o de ovário, realizar exames de rastreamento parece algo óbvio, porém infelizmente até o momento nenhum método mostrou-se efetivo para a população geral. Diversos estudos tentaram realizar ultrassom transvaginal e marcador tumoral (Ca 125), porém sem benefício significativo em reduzir a mortalidade. Desta forma, não é rotina realizar exames nas mulheres.

– Como é realizado o diagnóstico?

A paciente deve ser avaliada por um médico para exame físico do abdome e ginecológico, exames de sangue com marcador tumoral (Ca 125) e exames de imagem com ultrassom transvaginal, tomografia e ressonância. Na presença de uma lesão suspeita, deve-se prosseguir com uma biópsia.

– Existem fatores de proteção?

É importante manter hábitos de vida saudáveis, evitando a obesidade e tabagismo e realizando exercícios físicos regulares. Outros fatores de proteção comprovados são o uso de contraceptivos orais, múltiplas gestações, amamentação, cirurgia de retirada dos ovários e das trompas.

– Quais as opções de tratamento?

O tratamento depende do estágio da doença. Quando o tumor está restrito aos ovários ou órgãos próximos, as principais opções de tratamento são a cirurgia e a quimioterapia. Quando o tumor se disseminou para outros órgãos mais distantes, a chamada metástase, o tratamento inicial é a quimioterapia, podendo ser associada às terapias-alvo.

Nos últimos anos, grandes avanços foram realizados no tratamento desta neoplasia, mas o diagnóstico precoce continua sendo a chave para as melhores chances de cura. Portanto, não deixe de realizar acompanhamento médico ginecológico de rotina!