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Março: Mês das Mulheres – Quais são os cânceres mais incidentes em mulheres?

Alguns dos cânceres que mais frequentemente afetam as mulheres são os de mama, colorretal, pulmão, colo do útero, corpo do útero (endometrial), câncer de ovário e de pele. Conhecer esses cânceres e o que você pode fazer para ajudar a preveni-los ou descobri-los precocemente (quando são pequenos, não se espalharam e podem ser mais fácies de tratar) pode ajudar a salvar sua vida.

 

A estimativa Globocan/IARC1 é que ocorreram 19,3 milhões de casos novos de câncer no mundo (18,1 milhões, se forem excluídos os casos de câncer de pele não melanoma). Um em cada cinco indivíduos terão câncer durante sua vida.2,3 O câncer de mama feminina é o mais incidente no mundo, com 2,3 milhões (11,7%) de casos novos, seguido pelo câncer de pulmão1, com 2,2 milhões (11,4%); cólon e reto, com 1,9 milhão (10,0%); próstata, com 1,4 milhão (7,3%); e pele não melanoma, com 1,2 milhão (6,2%) de casos novos. Nos EUA, o câncer de mama é o câncer mais comum em mulheres e também a segunda principal causa de morte por câncer (depois do câncer de pulmão). Cerca de 1 em cada 8 mulheres terá câncer de mama invasivo durante sua vida4.

 

No Brasil foram estimados, para o ano de 2023, 704 mil casos novos de câncer. O câncer de mama é o mais incidente, acomete 30,1% das mulheres. O câncer de cólon e reto é o segundo mais frequente (9,7%). Na sequência, observam-se os cânceres do colo do útero (7,0%), traqueia, brônquio e pulmão (6,0%) e tireoide(5,8%)(Figura1). Observa-se no Brasil uma predominância do câncer de mama feminina em todas as regiões geográficas. Porém, na região Norte, o câncer do colo do útero figura como o mais incidente no Amazonas e no Amapá, enquanto nos demais estados, encontra-se na segunda posição. Nas regiões Sudeste e Sul, o câncer do cólon e reto é o segundo mais incidente, em todas as UF. Destaca-se o câncer de pulmão figurando na terceira posição no Paraná e no Rio Grande do Sul (Figura 2) 5,6.

 

Os tumores femininos podem ocorrer em qualquer idade, mas o risco aumenta à medida que a idade avança. Algumas mulheres podem ter uma chance maior de ter câncer de mama, colo de útero, cólon e reto ou pulmão, do que outras. Mas todas as mulheres devem conhecer os riscos desses cânceres e o que podem fazer para ajudar a reduzir o risco.

 

Referências:

  1. Globocan/IARC1
  2. FERLAY et al.2021
  3. SUNG et al., 2021
  4. https://www.cancer.org/cancer/risk-prevention/understanding-cancer-risk/cancer-facts/cancer-facts-for-women.html
  5. https://rbc.inca.gov.br/index.php/revista/article/view/3700/2644
  6. https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files/media/document/estimativa-2023.pdf).

 

Figura 1 – Distribuição proporcional dos dez tipos de câncer mais incidentes nas mulheres estimados para 2023, exceto pele não melanoma5,6

Figura 2 – Distribuição dos três tipos de câncer mais incidentes nas mulheres (taxa ajustada) por UF, 2023-2025,5,6

Mamografia: A história de um exame que pode mudar histórias de vida

A palavra rastreamento tem origem no verbo rastrear, que significa “acompanhar ou perseguir pistas, indícios e/ou rastros de algo ou alguém”, ou seja, carrega um sentido de investigação. No contexto do cuidado em saúde, rastreamento pode ser definido como qualquer estratégia que tem como objetivo identificar uma doença ou uma alteração precursora de doença, em uma pessoa considerada saudável. Trazendo esse conceito para a oncologia, duas condutas importantes podem ser tomadas a partir do rastreamento. Em primeiro lugar, a identificação de lesões precursoras permite o seu tratamento e, com isso, a prevenção do desenvolvimento de câncer. Por outro lado, podemos identificar câncer em seu estádio mais inicial, com elevada chance de cura. Para se ter uma ideia, a identificação de câncer de mama em seus estádios mais iniciais está associada a uma chance de cura que chega a mais de 95%.

A importância do diagnóstico precoce do câncer de mama já era reconhecida muito antes de termos exames adequados para esse propósito. Na década de 1920, em um congresso anual de radiologistas, nos EUA, especialistas já entendiam que o exame visual e a palpação das mamas eram muito limitados na identificação do câncer de mama inicial, bem como na diferenciação entre o câncer e lesões benignas. Já no início do século 20, foram realizadas diversas campanhas educativas nos Estados Unidos orientando as mulheres a não adiar a procura por atendimento médico caso apresentassem algum sintoma de câncer de mama. Infelizmente, tais campanhas não tiveram efeito na redução do risco de morte por câncer de mama. De fato, o diagnóstico precoce do câncer de mama envolve a detecção da doença antes do desenvolvimento de qualquer sinal ou sintoma da doença. Por isso, a importância dos exames de imagem.

A história da mamografia começa em 1913, quando um cirurgião alemão publicou um estudo no qual realizou radiografia de 3.000 mamas operadas, evidenciando diferenças entre mamas normais, mamas com lesões benignas e mamas com câncer. Nas décadas seguintes, a técnica do exame foi aprimorada, mas inicialmente o exame era utilizado principalmente na avaliação de mulheres que seriam submetidas a cirurgia da mama. O primeiro estudo que avaliou o uso da mamografia para a identificação de câncer de mama em mulheres sem suspeita para a doença foi publicado em 1960 por Robert Egan, um radiologista do MD Anderson Cancer Center. O potencial da mamografia na identificação de câncer de mama em mulheres sem sinais e sintomas da doença foi confirmado por outros estudos publicados alguns anos depois.

O primeiro estudo clínico randomizado que avaliou o benefício da mamografia para rastreamento do câncer de mama com objetivo de reduzir a mortalidade pela doença incluiu 60.000 mulheres que residiam na região da cidade de Nova Iorque e eram atendidas pelo mesmo plano de saúde. O estudo foi realizado entre os anos de 1966 e 1982. Já no início dos anos 70, os primeiros resultados do estudo indicavam que a mortalidade por câncer de mama entre as mulheres submetidas a repetidos exames de mamografia foi menor do que a de mulheres que não fizeram a mamografia. Na última publicação, após um acompanhamento de mais de 10 anos, os pesquisadores mostraram que a realização de mamografia em intervalos regulares foi associada a uma redução de 30% no risco de morte por câncer de mama. Os resultados desse importante estudo levaram à realização de diversos estudos randomizados nos Estados Unidos e na Europa, que confirmaram o benefício do rastreamento com mamografia na redução do risco de morte por câncer de mama.

Uma questão que gerou muito debate inicialmente era a idade ideal para início do rastreamento. Além de dúvidas quanto ao benefício do rastreamento para mulheres com idade de 40 a 49 anos, suspeitava-se de que em mulheres jovens a mamografia poderia trazer mais riscos pela radiação (lembrando que é um exame de radiografia). No entanto, diversos estudos evidenciam o benefício do rastreamento também nessa faixa etária, e não existem dados que indiquem um risco aumentado pela realização do exame em mulheres jovens.

No congresso anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) de 2022, um importante estudo foi apresentado, evidenciando a contribuição da mamografia e dos tratamentos para o câncer na redução do risco de morte por câncer de mama. Foi analisado um período de quase 20 anos, sendo observado que o rastreamento que a mamografia, na medida em que possibilita o diagnóstico precoce do câncer, foi associado a uma redução de aproximadamente 31% no risco de morte por câncer de mama. Quando consideramos mulheres que tem acesso aos mesmos tratamentos, sabemos que a maior parte das mortes por câncer de mama ocorre entre as mulheres que não faziam rastreamento. Isso deixa claro que tratamentos mais eficazes atuam em conjunto com o diagnóstico precoce, pela mamografia, para aumentar as taxas de cura do câncer de mama.

No Brasil, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), o Ministério da Saúde recomenda que o rastreamento com mamografia seja realizado a cada dois anos para mulheres com idade entre 50 e 69 anos. Tal recomendação é feita do ponto de vista de saúde pública e se baseia no fato de que essa faixa etária é a que apresenta maior benefício. Isso, porém, não significa que não há benefício do rastreamento em mulheres com idade de 40 a 49 anos. Alguns estudos, inclusive, sugerem benefício semelhante ao de mulheres mais velhas. Considerando esse benefício, e o fato de que temos observado aumento da incidência de câncer de mama em mulheres com menos de 50 anos, a Sociedade Brasileira de Mastologia recomenda que o rastreamento seja iniciado aos 40 anos de idade, e que o exame seja feito anualmente. Já existe um Projeto de Decreto Legislativo (número 679/2019) que propõe assegurar a realização da mamografia de rastreamento para as mulheres a partir dos 40 anos, no Sistema Único de Saúde (SUS). O projeto já foi aprovado no Senado Federal e, atualmente, aguarda o parecer do relator na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados.

Por fim, algumas palavras sobre o uso dos demais exames de imagem no rastreamento do câncer de mama. O ultrassom de mamas não é considerado um método adequado para rastreamento do câncer de mama, mas pode ser utilizado como exame complementar quando a mamografia é suspeita ou quando a mulher tem mamas muito densas. Além disso, o ultrassom permite a realização da biopsia da lesão suspeita. A ressonância magnética (RNM) das mamas tem seu principal papel no rastreamento de câncer de mama em mulheres com alto risco de desenvolvimento da doença, como por exemplo em mulheres portadoras de mutações genéticas de alto risco para câncer de mama. Nesses casos, a RNM é utilizada em conjunto com a mamografia.

 

Referências:

 

  1. Clopton MB. The difficulty of diagnosis of carcinoma of the breast. Radiology. 1925; 4(5):390-4.

 

  1. Bassett LW, Gold RH. The evolution of mammography. AJR Am J Roentgenol. 1988; 150(3):493-8.

 

  1. Egan RL. Experience with mammography in a tumor institution: evaluation of 1,000 studies. Radiology. 1960; 75(6):894-900.

 

  1. Shapiro S, Strax P, Venet L. Evaluation of periodic breast cancer screening with mammography: methodology and early observations. JAMA. 1966; 195(9):731-8.

 

  1. Shapiro S, Strax P, Venet L. Periodic breast cancer screening in reducing mortality from breast cancer. JAMA. 1971; 215(11):1777-85.

 

  1. Shapiro S, Venet W, Strax P, et al. Ten- to fourteen-year effect of screening on breast cancer mortality. J Natl Cancer Inst. 1982; 69(2):349-55.

 

  1. Kopans DB. Breast cancer screening: where have we been and where are we going? a personal perspective based on history, data and experience. Clin Imaging. 2018; 50:91-95.

 

  1. Joe BN, Sickles EA. The evolution of breast imaging: past to present. Radiology. 2014; 273(2 Suppl):S23-44.

 

  1. Caswell-Jin JL, Sun L, Munoz D, et al. Contributions of screening, early-stage treatment, and metastatic treatment to breast cancer mortality reduction by molecular subtype in U.S. women, 2000-2017. J Clin Oncol. 2022; 40(16_suppl):1008.

A prática regular de atividade física e o tempo de sedentarismo estão associados ao risco de câncer de mama

O câncer de mama é a neoplasia maligna mais diagnosticada entre as mulheres em todo o mundo. O câncer está incluído em um grupo de doenças chamado “Doenças Crônicas Não-Transmissíveis”, no qual estão incluídas também as doenças cardiovasculares, o diabetes e as doenças respiratórias crônicas. Em conjunto, essas doenças são responsáveis por mais de 70% de todas as mortes no mundo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), alguns fatores de risco são responsáveis pela maior parte dessas doenças: tabagismo, consumo alimentar inadequado, uso abusivo de bebidas alcoólicas e a inatividade física.

A OMS define atividade física como qualquer atividade de movimento corporal produzida pela musculatura esquelética e que requer gasto de energia. Sabemos que tanto a prática de atividade física de intensidade moderada quanto vigorosa são capazes de melhorar a saúde das pessoas. De fato, a prática regular de atividade física ajuda a prevenir e tratar doenças cardíacas, acidentes vasculares cerebrais, diabetes e, até mesmo, o câncer. Além disso, melhoram a saúde mental e a qualidade de vida.

A recomendação atual da OMS é de que os adultos pratiquem entre 150-300 minutos de atividade física moderada (caminhada, pilates, hidroginástica, dança) por semana, ou de 75-150 minutos de atividade física vigorosa (corrida, musculação, basquete, futebol, tênis, etc).

No Brasil, segundo o último levantamento do IBGE, metade dos adultos não atingem o nível de atividade física recomendado pela OMS. Apesar disso, observou-se uma melhora ao longo das últimas décadas, especialmente entre as mulheres. No caso delas, a porcentagem de mulheres que pratica atividade física pelo tempo mínimo recomendado pela OMS passou de 22,2% em 2009 para 31,3% em 2021. No entanto, ainda há muito espaço para melhora nessa questão.

Diversos estudos observacionais já nos mostraram que um maior nível de prática de atividade física e um menor tempo de sedentarismo estão associados a um menor risco de câncer de mama. No entanto, esses estudos apresentam algumas limitações na definição de causa e efeito entre a prática de atividade física e a redução do risco de câncer de mama. Nesse contexto, em um estudo publicado recentemente no periódico British Journal of Sports Medicine, os pesquisadores empregaram uma metodologia diferente, com o objetivo de avaliar com mais precisão essa relação, isolando potencialmente o efeito de outros fatores.

Foram avaliados os dados de 130.957 mulheres de origem europeia, das quais 69.838 haviam recebido diagnóstico de câncer de mama, 6.667 mulheres com carcinoma in situ de mama, e 54.452 mulheres sem diagnóstico de câncer. O diferencial do estudo foi a utilização de marcadores genéticos sabidamente associados à prática de atividade física global, à prática de atividade física vigorosa, e ao tempo de sedentarismo, determinados com base em um banco de dados do Reino Unido.

As mulheres com predisposição genética e maiores níveis de atividade física apresentaram um risco 41% menor de desenvolvimento de câncer de mama. A redução do risco ocorreu tanto em mulheres pré-menopausadas quanto pós-menopausadas, bem como foi observada para todos os tipos de câncer de mama. Além disso, a prática de atividade física vigorosa foi associada a uma redução de 38% no risco de câncer de mama, principalmente em mulheres mais jovens.

Por outro lado, a presença de marcadores genéticos de maior tempo de sedentarismo (tempo passado assentado ou deitado) foi associada a um aumento de 77% no risco de câncer de mama receptor hormonal negativo (sendo maior o risco de tumores triplo-negativos: aumento de 104% no risco). Os resultados foram mantidos mesmo após a exclusão de marcadores genéticos sabidamente associados a outros fatores de risco para câncer de mama, reforçando a relação de causa e efeito entre o nível de atividade física e o risco de desenvolvimento de câncer de mama.

Os autores concluem que os achados do estudo adicionam evidências mais robustas da relação de causa e efeito entre a prática de atividade física e o risco de câncer de mama. A prática de maior nível de atividade física e a redução do tempo de sedentarismo potencialmente reduzem o risco de câncer de mama, de forma consistente entre os subtipos de câncer. Pela metodologia utilizada, eles acreditam ter reduzido de forma significativa o impacto de outros fatores de confusão, estabelecendo uma relação mais direta de causa e efeito entre a atividade física e o câncer de mama.

Esses resultados têm impacto importante em termos de saúde pública e para o delineamento de estratégias de prevenção do câncer de mama por meio de mudanças do estilo de vida.

 

Referências

 

  1. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Global status report on noncommunicable diseases 2014. Geneva: WHO, 2014.

 

  1. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Global Health Estimates 2016: Deaths by

Cause, Age, Sex, by Country and by Region, 2000-2016. Geneva: WHO, 2018.

 

  1. WORLD HEALTH ORGANIZATION. World Health Statistics 2018: monitoring

health for the SDGs, Sustainable Development Goals. Geneva: WHO, 2018.

 

  1. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Noncommunicable Diseases (NCD)

Country Profiles. Geneva: WHO, 2018.

 

  1. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise em Saúde e Vigilância de Doenças Não Transmissíveis. Vigitel Brasil 2006-2021. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 71p. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/vigitel_brasil_atividade_fisica_2006_2021.pdf

 

  1. Dixon-Suen SC, Lewis SJ, Martin RM, et al. Physical activity, sedentary time and breast cancer risk: a Mendelian randomization study. Br J Sports Med 2022, online first. Disponível em: https://bjsm.bmj.com/content/early/2022/07/17/bjsports-2021-105132

 

 

 

26 de agosto: Dia Internacional da Igualdade Feminina

Todas as mulheres são iguais! Pacientes do SUS e de planos privados merecem equidade de tratamento

No dia 26 de agosto é comemorado o Dia Internacional da Igualdade Feminina. Muito se tem falado a respeito da igualdade de gênero e de equidade salarial. Porém, e sobre a saúde da mulher, qual o tipo de igualdade é abordado? Infelizmente o acesso aos serviços de saúde e a qualidade da assistência ofertada às mulheres está longe de ser igual para todas. Desta forma, ainda existe, conforme apontado pelo médico, forte desigualdade entre as próprias mulheres no que diz respeito ao cuidado com a saúde.

Quando falamos sobre o câncer de mama no cenário brasileiro, por exemplo, as taxas de mortalidade estão diretamente relacionadas ao acesso aos serviços de saúde e à qualidade da assistência ofertada às mulheres. No mundo, as estimativas de sobrevida em cinco anos mostraram uma tendência de aumento em países desenvolvidos; no Brasil, principalmente entre as mulheres que dependem da saúde pública, isso não é observado.

Dados do importante estudo Concord-3 (ALLemANI, 2018) mostram que, no Brasil, as estimativas de sobrevida em cinco anos foram de 76,9% para o período de 2005 a 2009 e caíram para 75,2% para o período de 2010 a 2014.

Algumas diferenças são reveladas quando os casos são comparados por regiões do país nos últimos três anos de atualização da base de dados. A proporção de casos classificados como doença avançada (estádios III e IV) antes do início do tratamento é maior na região Norte (50,1%). Nas regiões Sul e Sudeste, a proporção de mulheres que chegam ao hospital com doença inicial (estádios 0, I e II) é de 66,6% e 65,1%, respectivamente.

Quando são analisadas as informações considerando a escolaridade da mulher o cenário muda consideravelmente. Conforme aumenta o nível de escolaridade, cresce a proporção de casos que iniciam o tratamento em até 60 dias após o diagnóstico. Claramente, as mulheres com mais acesso às informações e aos serviços de saúde recebem mais rapidamente o tratamento.

O câncer de mama é um dos desafios no cenário atual de envelhecimento populacional e enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis no Brasil. É o tipo de câncer que mais acomete as mulheres no Brasil e, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), as estimativas de incidência para o ano de 2022 são de 66.280 casos novos. Na mortalidade proporcional por câncer em mulheres, no período 2016-2020, os óbitos por câncer de mama ocupam o primeiro lugar no país, representando 16,3% do total.

DNA Circulante e Rastreamento de Mama

– O câncer de mama é o câncer mais diagnosticado em todo o mundo e é a principal causa de morte por câncer entre as mulheres

– O objetivo do rastreamento do câncer é diagnosticar a doença precocemente, em mulheres que não apresentam sintomas

– Quando o câncer de mama é diagnosticado em seus estádios iniciais (precocemente), a taxa de cura pode chegar a 99%

– De fato, os programas de rastreamento do câncer de mama contribuíram significativamente para a redução das mortes por câncer de mama nas últimas décadas

– O exame recomendado para o rastreamento do câncer de mama é a mamografia, realizada anualmente a partir dos 40 anos

– No entanto, a mamografia apresenta algumas limitações, especialmente em mulheres mais jovens e com mamas densas

– Células tumorais circulantes (CTCs) são células que se separam do tumor, entram nos vasos e circulam na corrente sanguínea

– As CTCs podem ser encontradas no sangue de mulheres com câncer de mama inicial, mesmo antes do surgimento de sintomas ou da detecção do tumor nos exames de imagem, e por isso tem potencial para uso no rastreamento

– Em um estudo publicado recentemente, pesquisadores descreveram um novo método para detecção de CTCs de câncer de mama e avaliaram o desempenho dessa nova tecnologia na detecção do câncer de mama em mulheres com e sem sintomas/sinais da doença

– O exame apresentou elevada acurácia na diferenciação entre mulheres com e sem câncer de mama, mesmo nos casos de mulheres com doenças benignas da mama. Importante ressaltar que o exame foi negativo em todas as mulheres SEM câncer de mama

– Os resultados foram adequados independente da idade das mulheres, da etnia, do estádio da doença e das características dos tumores

– Os resultados deste estudo e de estudos prévios mostram que a pesquisa de CTCs de câncer de mama poderia ser bastante útil como estratégia de rastreamento e diagnóstico precoce do câncer de mama, isoladamente ou em associação aos exames de imagem

– No entanto, essa tecnologia ainda tem um custo muito elevado. Cada teste custa, em média, R$ 10.000,00, o que inviabiliza seu uso em escala populacional

– Talvez essa seja uma ferramenta que poderá ser usada em grupos especiais, nos quais a mamografia não tem um desempenho ótimo, bem como em mulheres de alto risco para câncer de mama

Novidade ROSA: nova droga para pacientes com câncer de mama

A Anvisa aprovou, nesta segunda-feira (04/10), uma nova medicação para pacientes com câncer de mama avançado/metastático. E não poderia ser em melhor hora, já que estamos no Outubro Rosa, o mês de conscientização sobre esse tipo de tumor.

O Trastuzumabe-Deruxtecan (Enhertu®, sigla T-DXd) é um anticorpo conjugado a uma quimioterapia e que atua como uma terapia-alvo em tumores com alterações na proteína HER2, comum em mais de 20% das pacientes com tumores mamários. A proteína HER2, quando tem sua expressão aumentada nas células, promove o desenvolvimento de tumores, como o de mama.

Os dados que embasaram a aprovação foram do estudo DESTINY-Breast-01, que testou a droga em 184 pacientes com múltiplos tratamentos anteriores. A taxa de resposta foi de 60%, um número muito alto para esse cenário.

Agora, o estudo DESTINY-Breast-03, mais robusto, randomizado e de fase III, comparou o T-DXd com o padrão atual, o T-DM1, em 524 pacientes com tumor de mama metastático HER2 positivo em linhas subsequentes de tratamento, ou seja, após a progressão a uma quimioterapia com Trastuzumabe.

Os resultados – recentemente apresentados na principal sessão do Congresso Europeu de Oncologia (ESMO), em setembro de 2021 – mostraram uma redução de 72% do risco de progressão ou morte, aumentando em quase 4 vezes a sobrevida livre de progressão. Ademais, a taxa de resposta foi de 80%. Essa eficácia é extremamente significativa e muda o cenário do tratamento dessas mulheres, com uma droga mais eficaz do que a atual, que já trazia muitos benefícios.

Em relação aos efeitos colaterais, os mesmos foram bem parecidos entre os grupos em ambos os estudos. Porém, vale ressaltar uma maior incidência de doença pulmonar intersticial (10,5 x 1,9%), porém a esmagadora maioria dessas ocorrências foi de graus leves (1 ou 2).

Os dados vêm para colocar o T-DXd como novo padrão para essas pacientes neste cenário linhas subsequentes (3ª ou posterior). Infelizmente, por enquanto, a indicação ainda não inclui a 2ª linha, ou seja, as pacientes receberão a droga caso falhem ao T-DM1, não antes. A droga também já mostrou que pode beneficiar também pacientes com câncer de pulmão e estômago.

O T-DXd já é aprovado nos EUA desde dezembro de 2019, porém em pacientes com múltiplos tratamentos prévios. Agora, felizmente vem aprovado no Brasil e é um grande reforço no tratamento dessas pacientes. Burocraticamente, como é a primeira aprovação desta medicação, ainda é necessária a etapa da precificação que deve levar mais alguns meses. Após, sendo uma medicação endovenosa, os planos de saúde deverão cobrir o tratamento, quando indicado. Esperamos que seja realidade o quanto antes para os pacientes.

 

Referências:

https://oncologypro.esmo.org/meeting-resources/esmo-congress-2021/trastuzumab-deruxtecan-t-dxd-vs-trastuzumab-emtansine-t-dm1-in-patients-pts-with-her2-metastatic-breast-cancer-mbc-results-of-the-randomi

https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/nejmoa1914510

 

FDA approves new treatment option for patients with HER2-positive breast cancer who have progressed on available therapies. News release. FDA. December 20, 2019. Accessed August 9, 2021.

 

28 de maio: Luta pela saúde da mulher

Dra. Vivian Antunes

Dra. Susana Ramalho

 

Quem é a mulher que adoece no Brasil?

A mulher que adoece no Brasil é a mesma que sonha, que ama, que gesta, que trabalha e que é cuidadora principal de tantas famílias.

Essa mulher é a que está ao seu lado. A que te ama, a que te cuida ou a que está dentro de você. Ela é cada uma de nós ou cada uma que está ao seu lado apoiando sua vida.

No Brasil, uma em cada oito mulheres nascidas hoje terão câncer de mama durante a vida, se viverem até os 60 anos. Dessas, 82% não tem nenhum antecedente familiar de câncer de mama.

O câncer de mama é o tumor mais comum entre as mulheres e também o responsável pelo maior número de óbitos no Brasil e no mundo. Mas, e no nosso Brasil, quem é a mulher que adoece de câncer de mama? Alguns pesquisadores iniciaram, em 2008, uma pesquisa com o objetivo principal de descrever quem são, como são e como é a doença nas mamas dessas brasileiras.

Numa série de estudos intitulada “AMAZONA I-III”, pesquisadores do Brasil todo nos deram a oportunidade única de conhecer melhor esse cenário. Uma das informações mais importantes foi que no Brasil temos 41% de pacientes com diagnóstico de câncer de mama em idade inferior a 50 anos, o que é uma proporção maior de diagnósticos em pacientes jovens do que em outros países, como Alemanha e Estados Unidos.

Outro dado que chama muito a atenção e traz preocupação é que o diagnóstico das nossas mulheres é feito em fase mais tardia da doença. Em torno de 71% das pacientes são diagnosticadas nos estádios II (46,8%) e III (24,6%), quando a doença já é localmente avançada geralmente atingindo os gâglios linfáticos da axila, o que certamente impacta direta e negativamente na mortalidade das brasileiras. Esse número é consideravelmente mais alto do que em países desenvolvidos, como os Estados Unidos, com dados que mostram apenas 31% de pacientes com diagnóstico na fase localmente avançada da doença.

No Brasil, apenas 18% das pacientes são diagnosticadas no estádio I, o mais precoce, o estádio que geralmente se consegue diagnosticar quando se faz exames de mamografia de rotina(o chamado rastreamento). Quando olhamos comparativamente e retrospectivamente, os dados de 2001 são muito semelhantes aos de 2018, ou seja, infelizmente sem melhoras nesse cenário.

Isso mostra que apesar da estratégia de rastreamento para diagnóstico precoce estar disponível no Brasil, não está atingindo a nossa população de mulheres de forma eficaz, seja por que as mulheres não aderem ao exame oferecido, ou por dificuldade de acesso a esse recurso.

Outro tipo de câncer importante entre as mulheres e que também marca um a imensa desigualdade no nosso país é o câncer de colo uterino. Em estados da região Norte do Brasil esse é o câncer mais incidente entre as mulheres, ultrapassando o câncer de mama, que é o primeiro em incidência em todas as outras regiões. Assim observamos que este é um triste marco das diferenças socioeconômicas desse nosso país continental.

Esse dado vem carregado de um “pesar” que já nos acompanha há décadas. Apesar do câncer de colo de útero ser bastante prevenível, através da vacinação contra o vírus HPV e através do exame de rastreamento de citologia oncótica (o conhecido preventivo – exame papanicolau), temos uma altíssima incidência e mortalidade no Brasil. A incidência de câncer de colo de útero no Brasil é muito maior que vários países desenvolvidos onde a incidência é bastante baixa. Para 2018, a estimativa esperada no Brasil foi de 16.370 casos novos, com um risco de 17,11 casos a cada 100 mil mulheres.

Outro tumor que também atinge as mulheres é o de ovário, com menor incidência (estima-se 6.150 casos novos no Brasil) porém alto risco por escasso métodos de prevenção e necessidade de tratamento adequado e precoce. Também o tumor de endométrio vem crescendo sua incidência principalmente associado a obesidade, sedentarismo e síndromes metabólicas cada vez mais frequentes em nossa população feminina.

Voltando a falar da nossa mulher que sonha, que ama, que gesta, que trabalha, e que “cuida”, paro minha reflexão no verbo “cuidar”. O mesmo cuidado que nossas mulheres têm com seus filhos, netos, maridos e trabalho, deve ser destinado a ela, seja por parte da ciência, que tem o dever de melhorar o cenário da doença com novas descobertas (cada vez mais frequentes, é verdade!), seja por parte do governo, com melhor gestão assistencial, ou por ela mesma, voltando seu olhar para o seu próprio cuidado como forma de amor à vida.

 

Quais as perspectivas para as mulheres brasileiras?

 É importante ressaltar que os casos de câncer irão dobrar até 2035 no mundo todo. E o maior aumento será nos países em desenvolvimento com população relativamente jovem. Assim, os sistemas de saúde devem estar preparados, já que se estima que 60% dos casos de câncer ocorrerão nesses países, precisarão planejar e alocar recursos.

O impacto que o adoecimento de uma mulher em uma família – em que muitas vezes ela é a fonte principal de sustento – é enorme e pouco se tem feito para melhorar os programas de rastreamento e o acesso ao diagnóstico e ao tratamento, o que reflete a grande disparidade das taxas de mortalidade observadas entre os dados Brasil e EUA.

No Dia da Luta pela Saúde da Mulher, precisamos mostrar esta disparidade e cobrar do governo mais atitudes de prevenção em saúde feminina para que possamos, em um futuro breve, chegar perto das estatísticas de países desenvolvidos como os Estados Unidos, diminuindo a mortalidade por câncer em todo o país.

Dia Internacional da Mulher na pandemia da COVID-19: liderança para um mundo mais igualitário

A ideia de criar o Dia da Mulher surgiu no final do Século XIX, nos Estados Unidos e na Europa, no contexto das lutas femininas por melhores condições de vida e de trabalho, além do direito de voto. Assim, a ONU designou o ano de 1975 como o Ano Internacional da Mulher. Em dezembro de 1977, o Dia Internacional da Mulher foi adotado pelas Nações Unidas para lembrar as conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres. Neste ano de 2021, o tema para o Dia Internacional da Mulher é: “Mulheres na liderança: alcançando um futuro igual em um mundo COVID-19”. O tema celebra os enormes esforços de mulheres e meninas em todo o mundo para moldar um futuro mais igualitário e a recuperação da pandemia da COVID-19.

As mulheres estão na vanguarda da batalha contra a COVID-19 como trabalhadoras da linha de frente e do setor de saúde, como cientistas, como profissionais de saúde e cuidadoras e agentes comunitárias. Porém, recebem – de maneira geral – 11% a menos do que seus colegas homens. Uma análise das equipes de combate a COVID-19 de 87 países revelou que apenas 3,5% delas tinham paridade de gênero 1

Além de estarem na linha de frente da crise da COVID-19, as mulheres representam alguns dos líderes nacionais mais exemplares e eficazes no combate à pandemia. Da Nova Zelândia à Alemanha, Taiwan ou Noruega, alguns países liderados por mulheres tem as menores taxas de óbitos pela COVID-19. De maneira geral, as mulheres representam 70% dos profissionais de saúde em todo o mundo. Em 2018, na política eram apenas 10 dos 153 chefes de Estado eleitos, de acordo com a União Interparlamentar.

Embora também haja diversos fatores sociais e econômicos implicados no bom desempenho destes países no enfrentamento à pandemia, também as trajetórias sociais destas líderes as diferencia. Condutas como resposta precoce, diversidade na tomada de decisões, comunicações transparentes e diretas são alguns exemplos.

A crise destacou tanto a centralidade e objetividade de suas contribuições quanto os fardos desproporcionais que as mulheres carregam. A pandemia está levando mais sobrecarga de trabalho para as mulheres no mundo todo. Mulheres são mais impactadas que os homens pela sobrecarga de trabalho. Dados do Brasil (IBGE/2019) indicam que a dupla jornada incide sobre a mulher, que semanalmente, na média, se dedica 18,5 horas ao cuidado da casa, crianças e idosos. Já a média dos homens é somente 10,3 horas semanais. Neste momento de pandemia com muitas famílias com vários membros em home office e muitas crianças sem frequentar regularmente a escola, percebe-se um acúmulo de tarefas e enorme sobrecarga de muitas mulheres.

Por que a sobrecarga de trabalho é maior para as mulheres? A desigualdade de gênero fica mais intensa neste momento de pandemia, já que estão diretamente na linha de frente da resposta e assumem custos físicos e emocionais. Devido à saturação dos sistemas de saúde e ao fechamento das escolas, as mulheres assumem o cuidado e a responsabilidade de familiares doentes, pessoas idosas e crianças3.

Assim, vamos celebrar este 8 de março de 2021, Dia Internacional da Mulher, no segundo ano de uma pandemia sem precedentes, refletindo sobre como melhorar a dinâmica de gênero, começando no local mais próximo possível, qual seja, na divisão mais igualitária das tarefas em casa. Simples assim!

 

Referências:

1 https://www.unwomen.org/en/news/in-focus/international-womens-day

2 https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52376867

3 https://www.onumulheres.org.br/wp-content/uploads/2020/03/ONU-MULHERES-COVID19_LAC.pdf

Mamografia: aos 40 ou 50 anos?

Leonardo Roberto da Silva e

Vivian Castro Antunes de Vasconcelos

 

Os avanços no tratamento do câncer de mama obtidos ao longo das últimas décadas levaram a um aumento significativo na chance de cura e a uma redução no risco de morte pela doença. No entanto, ainda hoje, uma em cada oito mulheres receberá o diagnóstico de câncer de mama em algum momento da vida, até os 65 anos de idade. Esse dado alarmante é, porém, acompanhado de uma informação tranquilizadora: a disponibilidade de uma excelente ferramenta para o diagnóstico precoce da doença, a mamografia.

A mamografia é o exame mais importante na detecção precoce do câncer de mama, ou seja, o rastreamento. Sabemos que, quando diagnosticado em sua fase inicial, o câncer de mama tem mais de 90% de chance de cura. Isso pode ser conseguido com a realização do exame em mulheres assintomáticas e que se encontram em uma faixa etária na qual existe uma relação favorável entre benefícios e riscos do exame.

Grandes estudos clínicos que incluíram mais de 500 mil mulheres comprovaram esse benefício da mamografia. Os resultados mostraram que as mulheres que faziam mamografia regularmente apresentavam uma redução no risco de morte por câncer de mama entre 10% e 35%, quando comparadas às mulheres que não faziam a mamografia.

No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda que a mamografia seja realizada a cada dois anos entre os 50 e 69 anos de idade. No entanto, estudos recentes realizados na população brasileira, evidenciaram que 40% dos casos de câncer de mama são diagnosticados em mulheres com menos de 50 anos. Além disso, muitos desses casos são identificados em estados mais avançados da doença, o que reduz significativamente as chances de cura. Assim, as recomendações atuais do Ministério da Saúde excluem uma faixa importante da população do programa de rastreamento (mulheres com idade entre 40 e 49 anos), o que pode resultar em maior mortalidade por câncer de mama, uma doença que ainda não é facilmente evitável.

Nesse sentido, diversas sociedades médicas vêm recomendando a realização da mamografia a partir dos 40 anos. De acordo com estudos mais recentes, tal estratégia está associada a benefício em termos de diagnóstico precoce e redução do risco de morte por câncer de mama nessa faixa etária. Na prática, existe um Projeto de Decreto Legislativo (número 679/2019) que propõe assegurar a realização da mamografia de rastreamento para as mulheres a partir dos 40 anos, no Sistema Único de Saúde (SUS). O Projeto já foi aprovado no Senado Federal e, atualmente, se encontra em tramitação na Câmara dos Deputados.

Resumo Simpósio de Câncer de Mama 2020 (SABCS)