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4 de Fevereiro – Dia Mundial do Câncer – O câncer em 2024: estamos realmente avançando?

Anualmente, a “American Cancer Society” publica as estimativas para o câncer nos Estados Unidos, compilando os dados mais recentes de incidência e mortalidade. Os dados para o ano de 2024 foram recentemente divulgados.

Até 2021, os números apontavam para uma queda na mortalidade por câncer, com a estimativa de mais de 4 milhões de mortes evitadas desde 1991. Essa redução foi atribuída à diminuição significativa do tabagismo, à detecção cada vez mais precoce de alguns tipos de câncer e às melhores opções de tratamento, tanto no cenário adjuvante (quando a intenção é de cura), quanto nos casos de doença metastática (quando a intenção principal é o controle de doença e prolongamento da vida).

Contudo, esses avanços estão ameaçados pelo aumento da incidência em 6 dos 10 tipos mais comuns de câncer: mama, próstata, corpo uterino, pâncreas, colorretal e do colo do uterino.

Os atrasos no diagnóstico e tratamento decorrentes da pandemia pela COVID-19, em 2020, também devem resultar em um aumento de diagnósticos em estágios avançados e, consequentemente, em maior mortalidade, o que será respondido ao longo dos anos, e também se mostram uma ameaça aos dados que já foram mais animadores. O que já está bem estabelecido é o impacto desproporcional direto e indireto da pandemia na população negra, podendo agravar ainda mais as disparidades no âmbito do câncer, que já são bastante grandes.

Embora o avançar da idade seja o fator mais influente no risco de desenvolver câncer ao longo da vida, a proporção de novos diagnósticos em adultos com 65 anos ou mais vem diminuindo. Em contraste, a proporção de adultos entre 50 e 64 anos com a doença aumentou. Essa mudança reflete, em parte, reduções marcantes na incidência de câncer de próstata e câncer relacionado ao tabagismo entre homens mais velhos, e ao aumento do risco de câncer em pessoas nascidas a partir de 1950, pelas mudanças nos padrões de exposições durante a vida, como maior obesidade, por exemplo.

Como melhor exemplo de câncer com notável crescimento entre adultos com menos de 50 anos, está o câncer colorretal, que se tornou a principal causa de morte por câncer em homens e a segunda principal causa em mulheres, ficando atrás apenas do câncer de mama.

As taxas de incidência de câncer de mama têm apresentado um aumento gradual de cerca de 0,6% anual desde 2000. Na última década, o aumento na incidência foi mais pronunciado em mulheres jovens, com menos de 50 anos (1,1% ao ano) em comparação com aquelas com 50 anos ou mais (0,5% ao ano). Esse crescimento na incidência é atribuído, em parte, à diminuição da taxa de fertilidade e ao aumento da obesidade.

Ainda sobre as mulheres, foi demonstrado que a incidência do câncer do corpo uterino continua a aumentar cerca de 1% ao ano desde meados da década de 2000. E embora as taxas possam estar se estabilizando para mulheres brancas, elas continuam a aumentar em mais de 2% ao ano entre mulheres negras e hispânicas.

A incidência do câncer do colo do útero diminuiu em mais da metade desde meados da década de 1970, devido à ampla adesão ao rastreamento e tratamento de lesões precursoras. Os declínios se aceleraram nas coortes mais jovens e, portanto, mais vacinadas contra o HPV desde 2006. Em contrapartida, a incidência segue aumentando entre as mulheres de 30-44 anos. Espera-se que com o envelhecimento das mulheres vacinadas, o efeito protetor seja transferido para grupos etários mais velhos. Surpreendentemente, a grande imunidade de rebanho e a eficácia de dose única podem facilitar a proteção contra todos cânceres associados ao HPV. Em contraste, os dados mais discrepantes, com enormes diferenças em incidência e mortalidade entre os estados americanos são vistos para esse tipo de câncer, já classificado como passível de prevenção.

Os dados apresentados alertam para uma mudança no perfil demográfico dos pacientes com câncer, com mais pessoas de meia-idade sendo diagnosticadas em comparação com os idosos. Conclui-se também, que os avanços na prevenção do câncer estão aquém do desejado, uma vez que a incidência continua a aumentar para 6 dos 10 principais tipos de câncer.

O progresso na redução das disparidades no câncer também está estagnado, especialmente entre mulheres negras, que apresentam taxas de mortalidade 40% mais elevadas para o câncer de mama e o dobro para o câncer do corpo uterino, a despeito de ter uma incidência semelhante.

Os dados apontam para a necessidade de iniciativas que acelerarem o progresso global contra o câncer, sendo crucial aumentar os investimentos em prevenção e em mitigar as disparidades.

 

 

4 de agosto- Dia Nacional da Campanha Educativa de Combate ao Câncer – Dia do “eu também estou com você”

As datas chamativas e comemorativas que se relacionam ao diagnóstico e tratamento do câncer percorrem o ano todo. Em algumas delas o ponto alto é a prevenção, ou o impacto do diagnóstico precoce. Em outras a ênfase está no acolhimento ao paciente, e, não raramente, tem se mencionado nas mídias o “combate científico”, mais pronunciado com as discussões acerca de novas terapias e descobertas promissoras.

É mesmo verdadeiro que uma doença complexa como o câncer demande de muitas atenções e ações. Em partes, o que vemos veiculado é a forma como conseguimos nos organizar enquanto sociedade para enfrentar essa condição tão desafiadora. Considero cada pontinha de ação pensada em qualquer parte do mundo como muito valiosa.

Mas e o que eu vejo enquanto médica que trata pacientes com câncer?

Eu vejo pessoas que tem toda a sua perspectiva de vida mudada, seja com o diagnóstico de doença inicial ou em fase avançada, com desafios muito intensos de diversas ordens.

Eu vejo mães que adoecem e seguem cuidando de seus filhos, carregando suas angustias e efeitos colaterais junto com eles. Vejo pacientes que colocam o medo numa gaveta a ser aberta um dia, e se enchem de sacolas de exames, que são mesmo, na maioria das vezes, tão necessários para que nós médicos consigamos propor um bom plano terapêutico. Vestem a coragem que tem para ouvir o que pode ser feito, o que quase sempre é algo que impactará suas vidas para sempre.

Ao prescrever os remédios contra o câncer jamais me esqueço dos cientistas que se debruçam em bancadas para descobrir uma possível cura, ou um tratamento que faça um semelhante viver mais longamente ou viver melhor.

E ao falar dos remédios que tratam o câncer também se faz necessário lembrar que a complexidade da doença e dos tratamentos extravasa para a discussão de fontes de pagamento, fontes regulatórias e acesso, já que os custos estão cada vez mais onerosos.

E nesse enfrentamento todo, o que cada um de nós pode fazer que ajude a prosperar o bem, a calma e o acalento de quem adoece?

É necessário estar junto. Estar presente na hora que o familiar, ou o amigo adoecido recebe uma notícia difícil. Estar lá onde outro corpo carece de um abraço, de companhia ou mesmo de distração. Agendar os tantos exames que chegam a se emaranhar. Segurar a mão. Enxugar lágrimas. Ligar uma música. Levar os filhos para passear. Propor uma massagem. Achar um centro de pesquisa promissor.

Sendo conhecedora das estatísticas do câncer, é certo que existe alguém que você conheça que está enfrentando um adoecimento ameaçador. Esteja com essa pessoa. E nos dias de hoje nem é necessário estar perto para estar junto, temos a tecnologia nos aproximando e facilitando nosso convívio. Existem inúmeras formas de ser apoio.

No enfrentamento do câncer, o cientista continuará seu lindo trabalho com novas descobertas, os profissionais de saúde seguirão buscando trazer a cura ou alívio, os órgãos regulatórios devem assegurar o acesso ao que há de melhor, e, não menos importante, que você possa ser apoio para alguém. Que esteja presente onde presença também é uma forma de cura.

 

Como a yoga pode ajudar pacientes com câncer?

A yoga é uma forma milenar de exercício para o corpo e a mente. Seu principal objetivo é criar conexão e harmonia entre corpo, mente e espírito. É uma filosofia tão antiga que historiadores têm dificuldade em datar com precisão seu início. Alguns arqueólogos encontraram os traços mais antigos da yoga há 5.500 anos. É surpreendente perceber que essa prática atravessou tantos anos e se mantém tão viva nos tempos de hoje, o que nos refletir sobre sua força.

Algumas formas de yoga são bastante árduas, enquanto outras são mais leves e se concentram mais no trabalho de meditação e respiração. A prática da yoga pode não apenas tornar nossos músculos e articulações mais flexíveis, mas também promover relaxamento intenso e maior controle das emoções. É nesse ponto que as coisas passam a se conectar: o câncer e yoga.

Pacientes com câncer frequentemente experimentam sensações desagradáveis e aversivas, sejam físicas pela própria doença ou pelos efeitos do tratamento, ou emocionais, com aumento de ansiedade, angústia e sintomas depressivos. Nesse sentido, buscar maneiras de ter bem-estar físico e emocional dentro das condições que o adoecimento traz, são medidas importantes para melhorar a qualidade de vida durante e após o tratamento. A yoga pode ser, portanto, uma importante terapia complementar e forte aliada do paciente com câncer.

A ciência há tempos estuda a relação entre a yoga e a saúde humana. Especificamente com relação ao câncer, existe razoável evidência na ciência de que essa prática possa estar relacionada com melhorias no bem-estar e redução de sintomas desagradáveis.

Em 2010 foi publicada uma revisão sistemática que avaliou justamente a relação entre os potenciais benefícios da yoga para pacientes com câncer: “An evidence-based review of yoga as a complementary intervention for patients with cancer”. Como resultado, os pesquisadores concluíram que a yoga pode ajudar a reduzir a ansiedade, a depressão, o cansaço (fadiga) e estresse. Foi também capaz de melhorar a qualidade do sono, humor e bem-estar espiritual.

Adicionalmente, um estudo específico sobre o uso de yoga em pacientes tratando câncer de mama comprovou que além da redução do cansaço, as pacientes passaram a ter um melhor enfrentamento do processo de adoecimento, com significativa redução da percepção de sofrimento. Nesse estudo, 191 mulheres com câncer de mama foram distribuídas aleatoriamente em três grupos: 1) yoga; 2) alongamento simples; ou 3) nenhuma instrução sobre yoga ou alongamento.

Como resultado, as mulheres que praticaram yoga durante o período de tratamento relataram maiores benefícios ao seu funcionamento físico e em sua saúde geral, como redução de fadiga. Também foram mais propensas a encontrar significado de vida a partir de sua experiência com o câncer do que os outros grupos.

Umas das possíveis explicações para esses desfechos positivos seria a redução do hormônio cortisol (hormônio do stress), que foi comprovado por meio de amostras de saliva no mesmo estudo.

É importante reconhecer o crescente número de pesquisas indicando que intervenções baseadas no relaxamento podem contribuir para o bem-estar das pessoas com câncer.

É possível ter qualidade de vida e câncer ao mesmo tempo e a yoga pode ser uma saudável, bem-vinda e importante aliada nesse processo.

Câncer na mulher: O que há de diferente do Brasil X Campinas?

Em março celebramos o Dia Internacional da Mulher, que ao longo do século XX se consolidou como um momento comemorativo, de reflexão e de luta.

No que diz respeito à saúde da mulher brasileira, e aqui falaremos também em especial da saúde da mulher campineira, de fato, temos pontos para comemorar, muito a refletir e um bom caminho a percorrer para alcançar melhores desfechos.

Comecemos por uma reflexão sobre os dados epidemiológicos acerca das neoplasias que acometem as mulheres brasileiras. Informações precisas sobre o câncer em uma população, conhecida como vigilância epidemiológica, são essenciais não só parar gerar hipóteses quanto à causalidade e avaliar o efeito de ações de controle, mas também norteiam estratégias de prevenção e cuidado do câncer. A vigilância do câncer traz informações sobre casos novos, casos em tratamento, mortes por câncer, dentre outras, resultando no adequado conhecimento da situação dessa doença.

A incidência de câncer, por exemplo, expressa o número de casos novos de uma determinada neoplasia em uma população. Segundo os dados mais recentes do Instituto Nacional do Câncer (INCA), os tumores mais incidentes nas mulheres brasileiras são:

Brasil

  • Mama
  • Intestino grosso (cólon e reto)
  • Colo uterino
  • Pulmão
  • Tireoide
  • Estômago
  • Ovário
  • Corpo uterino

No entanto, a distribuição da incidência de câncer não é homogênea no nosso país continental e marcado pela desigualdade.

Nas regiões Norte e Nordeste, o câncer de colo uterino é o segundo na lista de incidência, sendo que a estimativa de casos novos de câncer de mama e de colo uterino é bastante próxima na região Norte. No Brasil (somando todas as regiões), essa doença ocupa a terceira posição, sendo 7,4% de todas as neoplasias em mulheres. Segundo dados do Globocan, cerca de 85% dos casos de câncer do colo do útero ocorrem nos países menos desenvolvidos e a mortalidade por este câncer varia em até 18 vezes entre as diferentes regiões do mundo.

Já em Campinas, felizmente, essa doença ocupa o nono lugar, sendo responsável por apenas 3% das neoplasias em mulheres.

É nessa significativa diferença nas incidências Brasil X Campinas que encontramos um motivo para comemorar com a perspectiva da saúde das mulheres campineiras, já que o câncer de colo uterino é sabidamente uma doença passível de prevenção, por meio da vacina contra o vírus HPV, e também do exame conhecido como Papanicolau. Assim, é possível inferir que Campinas tenha melhores práticas de saúde pública e maior nível de desenvolvimento que outras regiões do país.

Observa-se, no mundo, um aumento na incidência do câncer de pulmão em mulheres (ao contrário do declínio que vem sendo observado nos homens). No Brasil essa neoplasia ocupa a quarta posição em incidência, porém em Campinas ocupa o quinto lugar. Essa diferença pode ser reflexo dos padrões de adesão e cessação do tabagismo, já que 85% dos casos estão associados ao tabaco. À semelhança do que ocorre na diferença de incidência do câncer de colo uterino entre Brasil X Campinas, essa observação pode também resultar de melhores práticas e estratégias de saúde pública.

Assim como no mundo e no Brasil, a mortalidade por câncer de mama vem caindo em Campinas, hoje representado 19% das mortes por câncer nas mulheres. Vários fatores contribuem para essa queda, principalmente o diagnóstico precoce e acesso aos novos tratamentos. Ainda assim, o câncer de mama continua sendo a neoplasia mais comum entre as mulheres no Brasil e em Campinas, e também é o que causa maior mortalidade, tornando-se um importante problema de saúde e atraindo, assim, a atenção de cientistas ao redor do globo todo. Apesar da queda na mortalidade por essa doença, análises recentes mostram que está crescendo o número de mulheres vivendo com câncer de mama metastático, o que decorre, muito provavelmente, da queda da mortalidade pelos oportunos melhores tratamentos. Uma importante publicação de pesquisadores brasileiros mostra que existem cerca de 45 mil mulheres vivendo com câncer de mama metastático no Brasil, que ainda é uma condição incurável.

Feita essa breve reflexão sobre as discrepâncias entre os dados dos cânceres que acometem as mulheres no Brasil e em Campinas, fica claro que temos um caminho certeiro a percorrer: as adequadas práticas da vigilância epidemiológica do câncer, bem como o seu melhor conhecimento, podem resultar em estratégias de prevenção e diagnóstico precoce que impactem profundamente na redução da incidência dessa doença.

Genes e câncer no cérebro

Os gliomas constituem o maior grupo de tumores cerebrais primários malignos, com cerca de 30% de incidência entre eles. São ditos primários porque têm origem diretamente cérebro e não decorrem de metáteses de outros sítios. Esses gliomas que afetam o sistema nervoso central podem ser divididos em dois grandes grupos: os de baixo grau, de menor agressividade e melhor evolução, e os de alto grau, de grande agressividade, que levam a um tempo de vida mediano em torno de 12 a 16 meses, a despeito dos avanços tecnológicos e do desenvolvimento de novos medicamentos na última década. Apesar da incidência relativamente baixa dos gliomas, a mortalidade decorrente deles é bastante alta, com apenas 5 a 10% dos pacientes vivos em cinco anos. No Brasil, os dados epidemiológicos para os gliomas de alto grau não são bem conhecidos, mas estimam-se 11.320 novos casos de tumores do sistema nervoso central como um todo para o biênio 2018/2019.

Os fatores que contribuem para o desenvolvimento de gliomas ainda não são bem compreendidos, mesmo porque a grande maioria dos pacientes com essa doença não apresentam histórico familiar ou qualquer outro fator de risco identificável. Também não existem programas de rastreamento para diagnóstico precoce da doença, que possibilitaria tratamentos em fase mais precoce e melhores desfechos, a exemplo do que ocorre para a detecção do câncer de mama, através da mamografia, ou da utilização do Papanicolau, para os tumores de colo de útero.

Na literatura, a angiogênese é descrita como o mecanismo de formação de vasos sanguíneos e é apontada como crucial no desenvolvimento de gliomas de alto grau. A produção de vasos sanguíneos é variável em seres humanos, e é determinada por alterações genéticas herdadas.

Diante das constatações – os gliomas de alto grau levam à alta mortalidade, seus fatores de risco são pouco compreendidos, o aumento de vasos sanguíneos é considerado crucial para o desenvolvimento tumoral e estaria ligado às modificações genéticas, não existem processos de rastreamento da doença que poderiam levar ao seu diagnóstico e tratamento precoce – realizamos, durante cinco anos, estudos para localizar genes que estariam ligados ao risco de desenvolvimento da doença e que poderiam servir como elementos para o rastreamento desta neoplasia que, embora de baixa incidência, ocupa a nona e décima posição entre os tumores mais prevalentes entre homens e mulheres no Brasil.

A pesquisa, desenvolvida no Laboratório de Genética do Câncer (Lageca) da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, foi orientada pela responsável pelo laboratório, professora Dra. Carmen Sílvia Passos Lima, que mantêm linhas de pesquisas relacionadas à genética do câncer.  O estudo em questão, que teve como foco tumores cerebrais de alto grau, contou com a colaboração do Departamento de Oncologia Clinica e do Departamento de Neurologia da FCM, que recrutaram pacientes atendidos, respectivamente, no ambulatório de Oncologia Clínica e no ambulatório de Neurocirurgia e, também, do Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina da USP, que colaborou fornecendo material genético e dados de seus pacientes.

Resultados

A motivação da pesquisa adveio ainda do fato de que, talvez devido à sua baixa incidência, trata-se de uma doença muito pouco estudada no mundo. O estudo se justifica particularmente no Brasil, em que prevalece uma população altamente miscigenada, enquanto trabalhos desenvolvidos na Europa, na China envolvem povos com características étnicas completamente diferentes e homogêneas, o que pode determinar alterações genéticas herdadas também diferentes. Em vista disso, propusemo-nos a localizar alterações genéticas herdadas, encontradas em brasileiros, que podem levar certos indivíduos a enfrentar mais riscos do que outros em relação ao desenvolvimento de gliomas de alto grau, foco que adotamos principalmente em decorrência da maior letalidade desses tumores e do desconhecimento dos seus fatores de risco.

Como já é sabido que nos casos de glioma de alto grau o aumento da vascularização é essencial para o desenvolvimento e crescimento do tumor, a pesquisa centrou-se em descobrir se efetivamente existia uma correlação entre alterações em genes relacionados ao processo de formação de vascularização e o desenvolvimento da doença na população brasileira.  Para isso, o estudo incluiu 205 pacientes diagnosticados com gliomas de alto grau e 205 controles (pessoas saudáveis), doadoras do banco de sangue do hemocentro da Unicamp, para avaliação genética.

Os resultados das análises permitiram comprovar, de forma inédita na população brasileira, que determinadas alterações genéticas são responsáveis pelo aumento da vascularização e pelo maior risco de desenvolvimento de gliomas, corroborando achados de grupos internacionais em trabalhos desenvolvidos com outras etnias em Portugal e na China. Mais que isso, foram também descobertas alterações genéticas inéditas que elevam o risco de desenvolver o glioma, que não haviam sido ainda reportadas mesmo em nível internacional. Esses achados acabam de ser publicados na edição de setembro de 2019, da revista Tumor Biology, com o seguinte endereço eletrônico: https://doi.org/10.1177/1010428319872092

Consequências

No que podem acrescentar essas novas descobertas? A perspectiva é a de que os novos achados, conjuntamente com os resultados obtidos por pesquisadores de outros países, possam revelar pontos de intersecção que potencializem os resultados e permitam chegar a um melhor entendimento da doença e a formas de rastreamento dirigido. No rumo destes objetivos, estamos agora compilando conclusões de trabalhos publicados em nível internacional. Aliando as nossas descobertas com as de outras vias genéticas já descritas, que também apontam na direção do aumento do risco da doença, talvez possamos formar uma ferramenta de rastreio para uma população especifica.

No estudo, avaliamos nove alterações genéticas em genes relacionados ao processo de formação de vasos e encontramos um significativo aumento no risco da doença em quatro delas. Como os gliomas podem ter origem em outras vias genéticas herdadas, juntando os dados desse trabalho aos outros estudos que já reportaram aumento de risco da doença com alterações de genes em outras vias, aumenta-se o potencial de se chegar ao que se chama de “assinatura genética” de alto risco. Se identificado em um mesmo individuo um conjunto dos fatores que o predispõem ao desenvolvimento do tumor, seria viável submetê-lo, periodicamente, a exames que detectem precocemente o desenvolvimento da doença.

A presença das alterações genéticas que estudamos está relacionada ao aumento da possibilidade de seu portador desenvolver a doença. E, se levadas em consideração concomitantemente outras vias genéticas também estudadas, têm-se um conjunto de modificações genéticas que podem levar ao aumento ainda maior do risco, e é para esses indivíduos que pensamos em um dia realizar um rastreamento individualizado que potencialmente impacte em melhores desfechos.

(texto referente à tese de mestrado da oncologista Dra. Vivian Castro Antunes de Vasconcelos, pela Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp).

Benefícios da atividade física e o câncer

A prática de atividade física pode diminuir o risco de desenvolvimento do câncer. Vários estudos comprovaram que a associação entre atividade física e risco de desenvolvimento de câncer tiveram resultados bem animadores.

Entre os estudos que se propuseram a analisar qual a ligação entre a atividade física e o câncer – e já haviam demonstrado risco reduzido no desenvovimento de câncer de cólon, mama e endométrio – destaca-se um recente e importante estudo publicado em uma renomada revista médica em 2016: Increased physical activity associated with lower risk of 13 types of cancer”, conduzido por Steven C. Moore, Ph.D., e publicado na JAMA Internal Medicine.

Este estudo reuniu dados de aproximadamente 1,5 milhão de pessoas, de 19 a 98 anos, sendo os participantes seguidos por uma média de 11 anos, durante os quais 187 mil novos casos de câncer ocorreram.

Os resultados encontrados são surpreendentes. A prática de atividade física mostrou-se associada ao menor risco de desenvolver 13 tipos diferentes de câncer. O risco de desenvolver sete tipos de câncer foi de no mínimo 20% menor entre os participantes mais ativos, em comparação aos participantes sedentários.

Esses dados confirmam e ampliam a evidência do benefício da atividade física como redutora no risco de câncer e apoiam seu papel como componente chave na prevenção e controle de câncer na população mundial.

Mas, para quem já teve um câncer na vida, a prática de atividade física pode diminuir a chance de o câncer voltar?

Após o tratamento de uma doença ameaçadora da vida, quase sempre nos deparamos com a dúvida sobre o que podemos fazer para que essa doença não volte. A verdade é que temos muito a fazer, principalmente com mudanças no estilo de vida, incluindo alterações na dieta e mantendo a prática de atividade física regular.

Para os pacientes que já foram curados de um câncer e que hoje estão em acompanhamento, a prática de atividade física pode trazer benefícios em diversos aspectos, inclusive na redução da chance de recorrência da doença.

Com relação ao câncer de mama, existem evidências consistentes de estudos que ligam a atividade física após o diagnóstico com melhores resultados a longo prazo. Por exemplo, um grande estudo de coorte demonstrou que as mulheres tratadas por câncer de mama e que mantiveram atividade física moderada (o equivalente a andar de 3 a 5 horas por semana a um ritmo médio), tiveram aproximadamente 40% a 50% menos recorrência do câncer, e também menor risco de morte em comparação com mulheres sedentárias. O benefício da atividade física em relação à redução de morte por câncer de mama foi mais evidente em mulheres com tumores que expressam receptores hormonais positivos.

De forma semelhante, estudos sobre a prática de atividade física em pacientes que já foram tratados por câncer de cólon e câncer de próstata, também mostram taxas de mortalidade reduzidas quando em comparação com pacientes sedentários.

Assim sendo, pacientes já tratados por câncer devem ser fortemente encorajados a manter atividade física regular, já que essa atitude tem se mostrado como uma importante ferramenta na prevenção da recaída da doença.

O exercício físico tem uma série de efeitos biológicos sobre o corpo, alguns dos quais foram estudados como explicações que o relacionam à redução da incidência e recorrência do câncer. A prática de atividade física regular está relacionada com a prevenção e tratamento da obesidade, sendo esse o principal mecanismo pelo qual a atividade física reduz o desenvolvimento tumoral.

Estima-se que 20% de todos os cânceres que ocorrem hoje no mundo estejam relacionados diretamente à obesidade, sendo, portanto, considerados tumores potencialmente preveníveis.

A obesidade leva ao aumento de níveis de insulina e do fator de crescimento de insulina-1 (IGF-1), o que pode estimular o desenvolvimento e crescimento do câncer.

Além disso, o aumento na gordura corporal está diretamente relacionado ao aumento da quantidade de estrógeno produzido pelo tecido adiposo, ajudando no desenvolvimento de alguns tipos de câncer, como câncer de mama e endométrio.

Outra importante ligação entre a obesidade e o câncer é a inflamação crônica, que é mais comum nas pessoas obesas e está associada a um claro aumento do risco de câncer, como já documentado por diversos pesquisadores nas últimas décadas.

Diante de todos os estudos que comprovam a redução do risco de desenvolvimento e recorrência de diversos tipos de câncer por meio da atividade física, associado aos demais benefícios substanciais para a saúde, a American Cancer Society recomenda formamelmente que os adultos pratiquem pelo menos 150 minutos de atividade física aeróbia de intensidade moderada por semana, ou 75 minutos de atividade física aeróbia de intensidade vigorosa por semana.  A atividade física aeróbia deve ser realizada em episódios de pelo menos 10 minutos, de preferência espalhados ao longo da semana.

Para crianças e adolescentes, as diretrizes recomendam pelo menos 60 minutos de atividade física diariamente. Como parte de seus 60 minutos ou mais de atividade física diária, crianças e adolescentes devem incluir atividade física de fortalecimento muscular em pelo menos três dias da semana.

Atualizações em câncer de mama pós ASCO 2019

É notório que a cada ano a ciência faz mais e traz mais novidades e avanços no tratamento e prevenção do câncer de mama. Sempre que chegamos ao congresso americano de Oncologia, logo sentimos a motivação que se expressa por meio dos 40 mil participantes que estão lá pelo mesmo motivo que nós: trazer mais vida, melhor vida, mais cura e menos câncer às nossas pacientes.

Este ano destacamos aqui alguns dos temas lá apresentados que consideramos importantes. Sem dúvidas o estudo mais importante apresentado no cenário da Oncologia Mamária foi o Monaleesa 7. Nesse estudo randomizado e de fase III, pacientes na pré-menopausa e com câncer de mama metastático com receptores hormonais positivos e Her-2 negativo foram randomizadas para receber Ribociclibe (um inibidor de ciclinas), associado à terapia endócrina, que poderia ser um inibidor de aromatase (sempre associado à supressão ovariana), ou tamoxifeno.

Os resultados são muito animadores e alegram a comunidade científica. O uso do Ribociclibe esteve relacionado à redução de 30% no risco de morte por câncer de mama. Nessa análise, após 42 meses do início do tratamento, 70% das pacientes em uso de Ribociclibe estão vivas e com boa tolerância ao tratamento, versus apenas 46% das pacientes tratadas apenas com terapia endócrina. É o primeiro estudo na história da Oncologia que mostra ganho de sobrevida global com essa nova e surpreendente classe de medicamentos, os inibidores de ciclina.

Outro dado muito marcante foi a apresentação dos resultados finais do estudo Cleopatra. Nesse já conhecido estudo em pacientes com doença metastática do subtipo Her-2 positivo, o uso de Pertuzumabe associado ao Trastuzumabe já havia sido reportado como causador de grande aumento no tempo de vida das pacientes. Agora, após 8 anos de seu início, os autores reportaram que essa associação resulta em redução de 31% no risco de morte pelo câncer de mama, sendo que praticamente 40% das pacientes recebendo a combinação de anticorpos estão vivas e mantendo boa qualidade de vida em 8 anos. Esse dado reforça a nossa prática clínica atual, que já contempla o uso dessas medicações na saúde privada no Brasil.

Com relação à imunoterapia no câncer de mama, tivemos um resultado negativo e um resultado que se reafirma como positivo. Um estudo randomizado de fase II, que analisou a associação de quimioterapia (Eribulina) com ou sem Pembrolizumabe (imunoterapia), em mulheres com câncer de mama metastático e com receptores hormonais positivos, infelizmente não mostrou nenhum sinal de atividade da imunoterapia para esse tipo de câncer.

Em contraponto, para as pacientes que apresentam o câncer de mama metastático do subtipo triplo negativo, a apresentação de uma atualização do estudo IMpassion130, que analisa o Atezolizumabe (imunoterapia), associado à quimioterapia (Nab-paclitaxel) no câncer de mama triplo negativo metastático, confirma o potencial da imunoterapia nesse cenário. O estudo mostrou que mais de 50% das pacientes que tem expressão positiva de PDL1 (no mínimo em 1% de suas células imunes), estão vivas em 2 anos de tratamento com a imunoterapia, contra 37% do grupo que usou apenas a quimioterapia, uma melhora clinicamente significativa de 7 meses na sobrevida mediana, de 25 versus 18 meses.

A cada participação no congresso mundial de Oncologia (ASCO) fica a certeza de que a ciência vem cumprindo seu dever em nos trazer destaques positivos, mostrando que estamos no caminho certo na busca e criação do conhecimento necessário para o tratamento do câncer.

Maio é um mês realmente da mulher: Dia Mundial do Câncer de Ovário (8 de maio), Dia das Mães (12 de maio) e Dia Internacional de Luta Pela Saúde da Mulher (28 de maio)

Por isso, o Grupo SOnHe escolheu maio para falar da saúde da Mulher no II Simpósio de Tumores Femininos de Campinas, que acontece entre os dias 17 e 18 de maio.

Quem é a mulher que adoece no Brasil?

Não é de costume começar um texto por sua resposta principal ou mais importante. Mas faço aqui uma exceção à regra e inicio pela parte que mais me toca nessa resposta: a mulher que adoece no Brasil é a mesma que sonha, que ama, que gesta, que trabalha, que cuida de tantos e de tudo.

Essa mulher é a que está ao seu lado. A que te ama, a que te cuida ou a que está dentro de você. Ela é cada uma de nós ou cada uma que está ao seu lado apoiando sua vida.

No Brasil, uma em cada oito mulheres nascidas hoje terão câncer de mama durante a vida, se viverem até os 60 anos. Dessas, 82% não tem nenhum antecedente familiar de câncer de mama.

O câncer de mama é ainda o principal tumor nas mulheres e também o responsável pelo maior número de óbitos no Brasil e no mundo. Mas, e no nosso Brasil, quem é a mulher que adoece de câncer de mama? Alguns pesquisadores iniciaram, em 2008, uma pesquisa com o objetivo principal de descrever quem são, como são e como é a doença nas mamas dessas brasileiras.

Numa série de estudos intitulada “AMAZONA I-III”, pesquisadores do Brasil todo nos deram a oportunidade única de conhecer melhor esse cenário. Uma das informações mais importantes foi que no Brasil temos 41% de pacientes com diagnóstico de câncer de mama em idade inferior a 50 anos, o que é uma proporção maior de diagnósticos em pacientes jovens do que em outros países, como Alemanha e Estados Unidos.

Esse número chama atenção para uma reflexão nas estratégias de rastreamento adotadas atualmente no nosso país, em que se recomenda a mamografia de rotina a partir dos 50 anos. A informação mostra que é necessário pensar em estratégias eficazes de rastreamento em idade inferior aos 50 anos na nossa população.

Outro dado que chama muito a atenção e traz preocupação é que o diagnóstico das nossas mulheres é feito em fase mais tardia da doença. Em torno de 71% das pacientes são diagnosticadas nos estádios II (46,8%) e III (24,6%), quando a doença já é localmente avançada, o que certamente impacta direta e negativamente na mortalidade das brasileiras. Esse número é consideravelmente mais alto do que em países desenvolvidos, como os Estados Unidos, com dados que mostram apenas 31% de pacientes com diagnóstico na fase localmente avançada da doença.

Em Campinas, o maior centro de tratamento de saúde feminina, com atendimento 100% público, recebe 500 novos casos de câncer de mama a cada ano, sendo que 40% dessas pacientes têm doença localmente avançada (estádio III) e 60% delas já têm sintomas ao diagnóstico. É um dado muito alarmante, pois é sabido e divulgado que o diagnóstico precoce de câncer de mama, no estádio I, quando ainda não existe nenhum sinal ou sintoma da doença, traz chance de cura superior à 90%.

No Brasil, apenas 18% das pacientes são diagnosticadas no estádio I, o mais precoce. Quando olhamos comparativamente e retrospectivamente, os dados de 2001 são muito semelhantes aos de 2018, sem melhoras nesse cenário.

Não menos importante é a constatação de que a saúde da mulher brasileira vive a mesma desigualdade que banha o Brasil por inteiro. As mulheres que são dependentes do Sistema Único de Saúde (SUS) têm consideravelmente diagnósticos mais tardios, em fase mais avançada da doença do que as que são tratadas na medicina privada, 36,9% versus 16,2%, respectivamente.

Isso mostra que apesar da estratégia de rastreamento para diagnóstico precoce estar disponível no Brasil, não está atingindo a nossa população de mulheres de forma eficaz, seja por que as mulheres não aderem ao exame oferecido, ou por heterogeneidade na distribuição desse recurso.

Outro tipo de câncer importante entre as mulheres e que também marca um tipo de desigualdade no nosso país é o câncer de colo uterino. Em estados da região Norte do Brasil esse é o primeiro câncer em incidência na mulher, ultrapassando o câncer de mama, que é o primeiro em incidência em todas as outras regiões, sendo um triste marco das diferenças socioeconômicas desse nosso país continental.

Esse dado vem carregado de um “pesar” que já nos acompanha há décadas, pois apesar de ser um câncer bastante prevenível, por meio da vacinação contra o vírus HPV e pelo teste de citologia oncótica do colo (exame papanicolau), temos uma altíssima incidência e mortalidade por essa doença no Brasil, em comparação aos países desenvolvidos, onde sua incidência é bastante baixa. Para 2018, a estimativa esperada foi de 16.370 casos novos, com um risco de 17,11 casos a cada 100 mil mulheres.

Outro tumor que também atinge as mulheres é o de ovário, com menor incidência (estima-se 6.150 casos novos no Brasil) mas que também merece atenção.

Voltando a falar da nossa mulher que sonha, que ama, que gesta, que trabalha, e que “cuida”, paro minha reflexão no verbo “cuidar”. O mesmo cuidado que nossas mulheres têm com seus filhos, netos, maridos e trabalho, deve ser destinado a ela, seja por parte da ciência, que tem o dever de melhorar o cenário da doença com novas descobertas (cada vez mais frequentes, é verdade!), seja por parte do governo, com melhor gestão assistencial, ou por ela mesma, voltando seu olhar para o seu próprio cuidado como forma de amor à vida.

FDA aprova tratamento promissor para o câncer de mama triplo negativo. Quando a Anvisa vai aprovar o uso no Brasil?

O tratamento dos tumores do subtipo triplo negativo metastático continua desafiador. A despeito dos muitos avanços da ciência, que tem compreendido melhor os mecanismos moleculares que ativam esses tumores, os ganhos conquistados para as pacientes ainda são modestos.

Frente a esse cenário, a incorporação da imunoterapia no tratamento das pacientes com tumores de mama triplo negativo metastático veio como uma notícia bastante animadora. Recentemente, a agência norte-americana Food and Drug Administration (FDA) concedeu aprovação acelerada de um imunoterápico chamado Atezolizumabe (anticorpo monoclonal anti-PDL-1) em combinação com quimioterapia para o tratamento do câncer de mama triplo-negativo metastático em primeira linha, baseado nos dados do estudo recém-publicado, IMpassion130.

Neste estudo, as pacientes com doença metastática do subtipo triplo negativo foram submetidas ao tratamento com Atezolizumabe (imunoterapia) + quimioterapia ou placebo + quimioterapia. Na análise dos resultados, as pacientes que receberam a imunoterapia apresentaram redução relativa de 20% no risco de progressão ou de morte quando comparado ao grupo de pacientes que receberam apenas o quimioterápico. O benefício do tratamento é ainda maior para as pacientes que tenham a expressão de uma molécula específica (PDL-1) em no mínimo 1% das suas células imunes.

A análise completa do estudo ainda não está madura para ser avaliada. Portanto, teremos que aguardar o término do estudo para realmente compreender se as pacientes que recebem a imunoterapia tem, de fato, uma vida mais longa e de melhor qualidade. O histórico do tratamento oncológico baseado em imunoterapia para outros tumores é muito encorajador, mostrando que existe um grupo de pacientes com benefício de tratamento sustentado em muito longo prazo, inclusive com resposta completa da doença.

Recebemos com alegria a aprovação de Atezolizumabe para pacientes com neoplasia de mama triplo negativo pelo FDA, pois representa um importante avanço e nova perspectiva no tratamento dessa doença ainda tão desafiadora.

No Brasil, a imunoterapia ainda não está aprovada para uso em câncer de mama, sendo que aguardamos sua liberação pela nossa agência regulatória (Anvisa) em breve.

Mamografia: passado, presente e futuro

No Brasil e no mundo, uma em cada oito mulheres será diagnosticada com câncer de mama durante a vida. No entanto, as taxas de cura são crescentes e maiores do que nunca. Quando pensamos em como ter mais chances contra o câncer de mama, imediatamente falamos na mamografia, mas nem sempre foi assim.

Foi graças aos esforços incansáveis ​​feitos por médicos, engenheiros, ativistas e políticos que esta tecnologia atingiu seu fundamental papel na saúde feminina, resultando em significativa redução no risco de morte por câncer de mama.

Aqui está uma parte da fascinante e não tão breve história da mamografia, que em partes nos remete à própria condição humana, de incansável busca pela sobrevivência. Nos últimos 100 anos, avanços tecnológicos significativos ocorreram para ajudar os médicos no diagnóstico precoce do câncer de mama, aumentando assim as chances de cura, com notórios mais de 30% de redução no risco de morte pela doença.

Em 1913, dezoito anos após a descoberta do raio X, em 1895, Dr. Albert Salomon, um cirurgião alemão, iniciou um estudo em que usou esses raios recém-descobertos em 3.000 mastectomias, correlacionando o tecido cancerígeno já conhecido dessas amostras de mama às radiografias tiradas do mesmo seio. Ele descobriu microcalcificações e outras alterações nas imagens que estavam associadas ao câncer de mama. Foi da junção dessa brilhante ideia, com a não menos revolucionária descoberta do raio X, que surgiu a ferramenta que mudaria para sempre a história do câncer mais prevalente nas mulheres. Em 1949, Raul Leborgne, um radiologista do Uruguai, apresentou à comunidade médica a técnica de compressão da mama, que trouxe uma avaliação bastante melhorada, inaugurando o que chamamos de mamografia moderna. A partir daí, os avanços jamais pararam e os esforços de cientistas de diversos países resultaram em consecutivos aperfeiçoamentos da tecnologia. Na década de 60, o homem pisou na Lua pela primeira vez e mulheres do mundo todo receberam as primeiras unidades de mamografia disponíveis para a sua mais importante prevenção. Certamente, foi um grande marco da história da saúde feminina, e nos faz pensar que as mulheres também tiveram sua verdadeira “Apollo 11” naquela mesma década. À medida que a tecnologia avançou, a imagem digital tornou-se o método preferido de imagem da mama, por ser realmente ainda mais eficaz. Em 2000, foi aprovada a primeira unidade de mamografia digital e, uma década depois, veio a tecnologia de imagem de mama 3D, que rapidamente se mostrou superior à imagem digital e é amplamente utilizada hoje. A tecnologia por trás da mamografia evoluiu em paralelo com as necessidades das mulheres sendo rastreadas. No início, o foco era conscientizar as mulheres sobre os benefícios da triagem mamária de rotina. Nesse sentindo, o movimento ainda hoje conhecido como Outubro Rosa nasceu na década de 90, nos Estados Unidos, com a missão de promover ações de conscientização diretamente com o público. Era a vez dos ativistas entrarem em ação nessa história e exercerem um importante e duradouro papel. Esse movimento se espalhou rapidamente por todo o mundo e o seu impacto está ainda hoje entre as maiores ações socias da história da saúde humana.  Agora, os médicos e cientistas entendem cada vez mais sobre o câncer de mama. E as mulheres também sabem mais sobre a mamografia. Há um foco crescente em capacitar as mulheres para que participem de forma ativa no gerenciamento de  sua própria saúde e em aumentar a disponibilidade de acesso aos aparelhos de forma uniforme, para que a mamografia continue, todos os dias, mudando positivamente a história de mulheres ao redor do globo todo.

Mesmo com os benefícios citados, dados divulgados no ano passado pela Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) em parceria com a Rede Brasileira de Pesquisa em Mastologia demonstram que o  percentual de cobertura mamográfica de 2017 nas mulheres da faixa etária entre 50 e 69 anos, atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), é o menor dos últimos cinco anos. Eram esperadas 11,5 milhões de mamografias e foram realizadas apenas 2,7 milhões, uma cobertura de 24,1%, bem abaixo dos 70% recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Agende, faça sua mamografia, cuide de vc e de sua saúde!