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Agosto: mês de conscientização sobre linfomas

Agosto foi escolhido pela organização mundial de saúde como o mês de conscientização sobre o linfoma. Mas o que você sabe sobre essa doença? Os linfomas são um tipo de câncer que acomete o tecido linfoide, no qual as células de defesa do nosso organismo – responsáveis pela produção de anticorpos, os linfócitos – se desenvolvem, multiplicam e amadurecem.

O tecido linfoide está presente em todos os órgãos do nosso organismo, desde o pulmão até o intestino, mas o local em que ele mais se concentra é nos linfonodos. Estas estruturas, popularmente conhecidas como ínguas, estão distribuídas por todo nosso organismo e junto com os vasos linfáticos, formam o sistema linfático, responsável por fazer circular a linfa pelo nosso corpo.

Por esse motivo, a forma mais comum com que um linfoma se manifesta é pelo surgimento de uma íngua em algum lugar do corpo. É importante observar, contudo, que o surgimento de ínguas faz parte do mecanismo normal pelo qual ele se defende de agressões externas, como a invasão por vírus e bactérias. Por isso, é importante estarmos atentos aos principais sinais que ajudam um médico a diferenciar o surgimento/aumento de uma íngua com uma causa infecciosa (portanto não relacionado a um câncer) de uma causada por um linfoma. De maneira geral, as ínguas relacionadas aos linfomas têm crescimento progressivo ao longo de semanas e meses e são acompanhados de outros sintomas, como emagrecimento de vários quilos e suores noturnos. Nessa situação, as ínguas podem crescer até o tamanho de bolas de tênis, ou maior, e gerar sintomas relacionados à compressão de órgãos vizinhos às ínguas, como o esôfago, a laringe, o estômago e outros. Além disso, à palpação, essas ínguas são endurecidas e não doem.

Já quando as ínguas são relacionadas à resposta normal do organismo à invasão por vírus e bactérias, chamadas de reacionais, elas costumam crescer pouco, ao longo de alguns dias ou 1-2 semanas, alcançando um tamanho não maior do que uma bola de gude. Elas geralmente ocorrem em mais de um lugar do corpo ao mesmo tempo, podendo ser acompanhadas de febre e outros sintomas relacionados à infecção (dor de garganta, tosse, entre outros) e costumam ser dolorosas à palpação. Frequentemente elas diminuem ou até mesmo somem após o desaparecimento dos sintomas relacionados à infecção que as provocou. O diagnóstico definitivo de um linfoma, porém, exige a realização de uma biópsia, preferencialmente com a retirada de um linfonodo inteiro, para análise microscópica das características do tecido linfoide do linfonodo suspeito.

Geralmente, os linfomas se dividem em linfomas Hodgkin e linfomas não Hodgkin, em homenagem à Thomas Hodgkin, o patologista que primeiro descreveu essa doença, em 1832. Os linfomas Hodgkin se diferenciam dos linfomas não Hodgkin por ocorrerem principalmente em pessoas mais jovens, acometendo linfonodos principalmente na região do pescoço, axila e tórax, onde frequentemente leva a presença de grandes tumores numa região chamada mediastino, localizada entre os dois pulmões. Já os linfomas não Hodgkin acometem pessoas de todas as faixas etárias, atacando o tecido linfoide em órgãos como o estômago, a pele, os pulmões, os ossos, entre outros, com maior frequência. Na verdade, os linfomas não Hodgkin representam mais de 40 tipos diferentes de linfoma!

Com relação ao tratamento, o linfoma Hodgkin tem uma história de pioneirismo e sucesso na oncologia. Com uma taxa de cura de mais de 85%, este linfoma foi o primeiro a ser tratado com sucesso com radioterapia e o primeiro a ser tratado com a poliquimioterapia, no molde em que muitos cânceres são tratados hoje, isso na década de 1960! Mesmo na era moderna do tratamento das neoplasias, o linfoma Hodgkin esteve entre os primeiros tipos de câncer a ser tratado com sucesso com uma classe de drogas que estimulam o próprio sistema imunológico do paciente, geralmente “enganado” pelo câncer a não o enfrentar, a combater o linfoma. Essa nova estratégia para o tratamento de cânceres, chamada de imunoterapia, representou um enorme avanço para pacientes que não podiam ser curados com a quimioterapia convencional.

O tratamento dos linfomas não-Hodgkin também é marcado pela incorporação pioneira de algumas tecnologias que revolucionaram e ainda revolucionam o campo da oncologia, como os anticorpos monoclonais e mais recentemente os linfócitos T com receptores antigênicos quiméricos (também chamados CAR T-cells). Os primeiros são medicamentos que se ligam a proteínas específicas do tumor e induzem o sistema imune a reagir contra ele, enquanto os CAR T-cells são linfócitos retirados do próprio paciente que passam por um processo em laboratório que lhes confere a capacidade de, ao serem reintroduzidos no corpo do paciente, perseguir e eliminar as células do linfoma.

Todos esses avanços têm mudado a maneira como a medicina enxerga e trata esses linfomas, que foram de cânceres de difícil tratamento e prognóstico ruim, a doenças controláveis com medicamentos que transformaram e ainda transformam toda a oncologia.

Por isso, neste mês, procure se informar mais sobre o linfoma e caso você tenha algum sintoma suspeito, procure um hematologista para avaliação!

 

Doar sangue: um ato de solidariedade

Todos os anos, em junho, ocorre a campanha Junho Vermelho, que tem como objetivo conscientizar a população sobre a importância da doação de sangue. Este ano não poderia ser diferente! A situação das reservas de sangue do Hemocentro da Unicamp é caótica, conforme site deles no dia 9 de junho:

Nesse contexto, muitas pessoas procuram centros de doação com intuito de ajudar e acabam se frustrando com a lista de requisitos para ser doador. Para entendermos o porquê de tanto cuidado com a seleção de doadores, precisamos ter em mente dois pontos: primeiro, a doação de sangue é um procedimento extremamente seguro, que costuma acarretar pouco ou nenhum risco para a população em geral. Porém, em grupos específicos, como pacientes com doenças cardíacas, a retirada do volume de sangue necessário pode acarretar efeitos colaterais. Para nós, médicos, a segurança do doador é prioridade, tornando esse risco inaceitável. O segundo ponto é entendermos que os receptores desse sangue costumam estar em estado de saúde ruim; muitos, inclusive, com estado imunológico reduzido (como por exemplo, pacientes com câncer pós-quimioterapia), e, assim, devemos minimizar ao máximo o risco de complicações associadas à transfusão.

Um dos primeiros pontos que devem ser observados é a idade do candidato à doação: no Brasil, a lei permite doação a partir dos 16 anos de idade, sendo que para aqueles que ainda não completaram 18 anos é necessária aprovação por escrito de um responsável legal. É preciso também ter peso mínimo de 50kg. Isso porque, por motivos técnicos, a quantidade de sangue doada é padronizada (ou seja, independente de pesar 50kg ou 100kg, o volume de sangue retirado é o mesmo, que pode não ser tolerado caso o doador tenha baixo peso). A doação de sangue também não é permitida durante a gestação e nos 12 primeiros meses após o parto, caso a candidata esteja amamentando. Não é necessário jejum para doar sangue, apenas é recomendado que se evite refeições gordurosas antes da doação.

Com relação aos hábitos de vida, é necessário que o candidato tenha parceiro (a) sexual fixo, sem relações ocasionais com terceiros, há pelo menos seis meses. O candidato deve ter boas condições de saúde. Porém, algumas doenças não impedem a doação, desde que controladas, tais como hipertensão, dislipidemia (o famoso “colesterol alto”), hipotiroidismo, entre outras. Já antecedente de neoplasia maligna, mesmo que curada, diabetes insulino-dependente, infecção prévia por HIV, hepatite C ou B e doença de chagas, doença cardíaca importante e outras doenças graves excluem definitivamente o candidato à doação.

“Mas doutor, mesmo se meu câncer estiver curado, não posso doar sangue?”: Infelizmente, pela legislação brasileira atual, não. Os únicos tipos de tumores que não contraindicam a doação são o carcinoma basocelular (um tipo de tumor de pele) e carcinoma de colo uterino in situ. Tal proibição deve-se ao risco teórico de que células cancerígenas do doador possam ser transmitidas pelo sangue e se implantem no receptor. Tal proibição é alvo de debates frequentes, pois, até o momento, não há comprovações científicas contundentes de que pacientes curados de suas neoplasias sejam capazes de transmiti-las pela doação de sangue. Inclusive, alguns países como EUA e Austrália permitem a doação de pacientes com história prévia de câncer, desde que este estejam curados e o tratamento tenha acabado há mais de um ano. Esperamos que a demanda crescente do uso de sangue, e, com isso, a necessidade cada vez maior de doadores, leve à revisão dos critérios atuais, permitindo que pacientes com neoplasias curadas e tantas outras restrições sem embasamento científico claro sejam incluídas no pool de doador.

Ah! E vacina para imunizar da COVID-19 não é contraindicação para doar, não! Basta aguardar o intervalo de 48 horas da vacina se você tiver recebido Coronavac/Pfizer e 7 dias se você tiver recebido da Astrazeneca/Fiocruz.

Se você tiver chegado ao final desse texto e ter descoberto que não pode ser um doador de sangue, não fique triste ou frustrado. Existem outros meios extremamente válidos de ajudar nesta causa, como conversar com amigos e familiares sobra a importância de ser doador, divulgar e apoiar campanhas de doação, compartilhar informações de qualidade, entre várias outras formas. Todo auxílio é válido para continuar a permitir que este ato de solidariedade continue a salvar vidas por todo o mundo.

 

Referências

Projeto T-Cell Brasil

O Projeto T-Cell Brasil é um registro em que participam mais de 40 centros de tratamento de doenças onco-hematológicas do Brasil. O objetivo principal do estudo é identificar as características clínicas e laboratoriais dos pacientes brasileiros portadores de Linfomas T.  Trata-se de uma doença rara e que apresenta aspectos clínicos próprios. Os estudos desta doença em nossa população são poucos e sendo o Brasil um país muito diverso, dado ao seu tamanho e muitas diferenças regionais, espera-se que este registro demonstre de maneira mais fidedigna a nossa realidade. Neste trabalho, foram analisados um subtipo muito específico dos linfomas T, chamado Leucemia/ Linfoma de Células T do Adulto e que está relacionado ao vírus HTLV-1.  É uma doença bastante agressiva, com altas taxas de mortalidade e os tratamentos ainda são restritos. Este trabalho foi aceito no 62º Congresso Anual da Sociedade Americana de Hematologia – ASH 2020, que começa no dia 2 de dezembro de 2020.

 

Link do estudo:

https://ashpublications.org/blood/article/136/Supplement%201/35/473512/Adult-T-Cell-Leukemia-Lymphoma-A-Cohort-of-41

Lavar as mãos hoje e sempre!

Lavar as mãos é um ato básico do nosso cotidiano, que aprendemos desde a infância!  Mas, nem sempre foi assim… a conhecida história do Dr. Ignaz Semmelweis, médico húngaro que, em 1847, percebeu que havia menos mortes das crianças ao nascimento e menor número de complicações infecciosas pós-parto das mães que eram assistidas pelas mãos limpas das parteiras do que daquelas vindas das mãos dos médicos. Percebeu, então, que, de alguma maneira, o ato da lavagem das mãos assegurava a vida da mãe e da criança. Obviamente, apenas nas décadas seguintes, com a evolução das pesquisas sobre micro-organismos, que a prática da higienização de mãos passou a ser difundida pelos profissionais de saúde e a ser adotada cada vez mais pelas instituições. Ao fim do século XIX já era um protocolo de praticamente todas as unidades de saúde.

Em 15 de outubro de 2008 uma iniciativa público-privada criou o Dia Mundial da Lavagem das Mãos (Global Hand Washing Day). Uma campanha educativa pela lavagem das mãos de forma correta, com água e sabão, com o objetivo de diminuir o número de doenças e até de mortes causadas por doenças infecciosas.

A lavagem das mãos é, sem dúvida, a rotina mais simples, mais eficaz, e de maior importância na prevenção e controle da disseminação de infecções, devendo ser praticada por todos!

Ficam algumas dicas: lavar as mãos antes de comer, de beber ou de manusear alimentos; ao chegar em casa, ao utilizar o banheiro, ao coçar nariz e olhos e ao espirrar; ao término de cada tarefa, ao término de sua jornada de trabalho e após brincar com aninais!

Utilize água corrente e sabão.

O ideal é retirar anéis, pulseiras e relógio.

Lave também os antebraços.

Lave por 15 segundos, ao menos.

Mais de um século após a descoberta de Semmelweis sobre a importância da lavagem das mãos, ainda precisamos reforçar este ato.

Portanto, pela sua saúde, pela saúde de nossas crianças e entes queridos, LAVE AS MÃOS, SEMPRE!

E compartilhe este ato.

Quem pode ser doador de sangue?

Em junho, ocorre todos os anos a campanha “Junho Vermelho”, que tem como objetivo conscientizar a população sobre a importância da doação de sangue. Nesse contexto, muitas pessoas procuram centros de doação com intuito de ajudar e acabam se frustrando com a lista de requisitos para ser doador. Para entendermos o porquê de tanto cuidado com a seleção de doadores, precisamos ter em mente dois pontos: primeiro, a doação de sangue é um procedimento extremamente seguro, que costuma acarretar pouco ou nenhum risco para a população em geral. Porém, em grupos específicos, como pacientes com doenças cardíacas, a retirada do volume de sangue necessário pode acarretar efeitos colaterais. Para nós, médicos, a segurança do doador é prioridade, tornando esse risco inaceitável. O segundo ponto é entendermos que os receptores desse sangue costumam estar em estado de saúde ruim, muitos inclusive com estado imunológico reduzido (como por exemplo, pacientes com câncer pós-quimioterapia), e, assim, devemos minimizar ao máximo o risco de complicações associadas à transfusão.

Um dos primeiros pontos a serem observados é a idade do candidato à doação: no Brasil, a lei permite doação a partir dos 16 anos de idade, sendo que para aqueles que ainda não completaram 18 é necessária aprovação por escrito de um responsável legal. É necessário também ter peso mínimo de 50kg. Isso porque, por motivos técnicos, a quantidade de sangue doada é padronizada (ou seja, independente de pesar 50kg ou 100kg, o volume de sangue retirado é o mesmo, que pode não ser tolerado caso o doador tenha baixo peso). A doação de sangue também não é permitida durante a gestação e nos 12 primeiros meses após o parto, caso a candidata esteja amamentando. Não é necessário jejum para doar sangue, apenas é recomendado que se evite refeições gordurosas antes da doação.

Com relação aos hábitos de vida, é necessário que o candidato tenha parceiro(a) sexual fixo, sem relações ocasionais com terceiros, há pelo menos seis meses. O candidato deve ter boas condições de saúde. Porém, algumas doenças não impedem a doação, desde que controladas, tais como hipertensão, dislipidemia (o famoso “colesterol alto”), hipotiroidismo, entre outras. Já antecedente de neoplasia maligna, mesmo que curada, diabetes insulino-dependente, infecção prévia por HIV, hepatite C ou B e doença de chagas, doença cardíaca importante e outras doenças graves excluem definitivamente o candidato à doação.

“Mas doutor, mesmo se meu câncer estiver curado, não posso doar sangue?”: Infelizmente, pela legislação brasileira atual, não. Os únicos tipos de tumores que não contraindicam a doação são o carcinoma basocelular (um tipo de tumor de pele) e carcinoma de colo uterino in situ. Tal proibição deve-se ao risco teórico de que células cancerígenas do doador possam ser transmitidas pelo sangue e se implantem no receptor. Tal proibição é alvo de debates frequentes, pois, até o momento, não há comprovações científicas contundentes de que pacientes curados de suas neoplasias sejam capazes de transmiti-las pela doação de sangue. Inclusive, alguns países como EUA e Austrália permitem a doação de pacientes com história prévia de câncer, desde que este estejam curados e o tratamento tenha acabado há mais de um ano. Esperamos que a demanda crescente do uso de sangue, e, com isso, a necessidade cada vez maior de doadores, leve à revisão dos critérios atuais, permitindo que pacientes com neoplasias curadas e tantas outras restrições sem embasamento científico claro sejam incluídas no pool de doador.

Se você tiver chegado ao final desse texto e ter descoberto que não pode ser um doador de sangue, não fique triste ou frustrado. Existem outros meios extremamente válidos de ajudar nesta causa, como conversar com amigos e familiares sobra a importância de ser doador, divulgar e apoiar campanhas de doação, compartilhar informações de qualidade, entre várias outras. Todo auxílio é válido para continuar a permitir que este ato de solidariedade continue a salvar vidas por todo o mundo.

 

Referências

15 de maio: Dia Internacional da Família

Família como unidade propulsora no tratamento do paciente oncológico

Existe uma relação mútua entre saúde e família que nos leva a refletir como uma doença como o câncer pode trazer a ruptura deste cenário. Como consequência, uma série de repercussões acontecem nessas famílias e sabemos que sua presença é primordial no   tratamento do seu ente querido nesta jornada.

O câncer coloca o indivíduo e seus familiares em condição de fragilidade. É compreensível que ocorram dificuldades em lidar com a doença, com o tratamento e com o paciente, gerando estresse, tensão e conflitos. Uma das maneiras de se tentar anemizar todos estes desafios é por meio da compreensão da doença e de como será o tratamento.

Passado o choque inicial do diagnóstico, a fase de aceitação dos familiares é fundamental para que o paciente também aceite a doença. Juntos irão construir um ambiente propício e acolhedor para que o tratamento transcorra da melhor forma possível. Diminuir o sofrimento psicológico e emocional de ambos os lados também é importante para se dar espaço às ações que devem ser prestadas ao plano terapêutico do paciente. Quando a família está bem informada, tem maiores condições de participar do tratamento e agir de forma coerente e participativa com a equipe de saúde.

Aos poucos, novas rotinas vão surgindo, novas situações são colocadas à prova. Alguns conseguem lidar com estas novas situações de forma mais amena, mais resolutiva e acabam assumindo posições novas neste núcleo familiar. Este fato muitas vezes traz o sentimento de alívio e esperança para seus demais entes.

Momentos leves e de descontração vão surgir no decorrer da jornada. Estratégias de enfrentamento da doença vão surgir também. Juntos será mais fácil, por mais dolorido que seja.

E como fazer para esta engrenagem funcionar? Como a família pode ajudar? Ficar atento aos cuidados de higiene do paciente, estimular a alimentação, auxiliar na locomoção e atividades físicas quando possível. Estimular o riso e o sorriso: um bom filme, uma boa música, talvez. Não se esquecer da vaidade, do perfume ou da maquiagem. Ficar atento às medicações e orientações médicas e manter uma comunicação alinhada com a equipe o acompanha.

A partir do momento em que a família se alia ao tratamento do paciente, ambos saem ganhando. O paciente adquire mais confiança em seus familiares, fortalecendo os laços de parceria e companheirismo, enquanto a família aprende a se reorganizar numa ajuda mútua.

É possível, então, que se estabeleça um novo lar!

Qual é o segredo da felicidade?

Hoje em dia, a busca pela felicidade plena é uma meta de vida. Pesquisadores do mundo todo estão debruçados em seus estudos para tentar entender qual é o caminho para ser feliz. Inúmeros livros com esse tema são publicados anualmente. Existem treinamentos, em todos os lugares, para se tornar uma pessoa mais feliz

O entendimento de felicidade parece variar conforme a época e o momento em que vivemos. Se para nossos avós felicidade era acordar cedo para trabalhar na lavoura desde muito jovem e trazer o sustento para dentro de sua casa, sua família, para gerações seguintes ser feliz muitas vezes se traduz em completar um curso superior e alcançar um emprego que proporcione poder e o salário perfeito, ou, contrariamente, pode ser também trabalhar o suficiente para seu próprio sustento durante todo o inverno e passar o verão viajando o mundo, aproveitando apenas o momento presente, sem fazer planos futuros.

Felicidade pode ser definida nos dicionários como um estado de consciência plenamente satisfeita; um contentamento e bem-estar. Essas sensações acontecem de maneira muito individualizada nas pessoas. Podem advir mais intensamente quando se executa um trabalho envolvente, de vivências com pessoas que amamos, do resgate de memórias significativas do passado ou da antecipação de conquistas futuras por simulações da nossa mente.

Apesar de todo esse esforço de se tentar decifrar a felicidade, Daniel Kahneman, vencedor do prêmio Nobel em Economia, pioneiro e fundador da economia comportamental, um dos psicólogos mais influentes da atualidade, defende que existem inúmeras armadilhas cognitivas que tornam impossível pensar em felicidade de forma clara e simplificada hoje em dia.

Kehneman é um dos maiores exploradores da maneira racional e irracional de como o ser humano toma decisões e avalia riscos. Ele defende que felicidade tem que ser vista como um conceito muito mais complexo do que uma simples sensação de bem-estar. Em sua visão, considera uma armadilha confundir experiência e memória: a diferença básica entre estar feliz da vida, ou estar feliz com a vida ou na vida. Apesar de estarem aglutinados na mesma noção de felicidade, são conceitos muito diferentes.

No pensamento desse estudioso, nós temos duas individualidades distintas – um eu da experiência, que vive e conhece o presente, para quem obtemos resposta de sim ou não quando o perguntamos: “Sente dor aqui?”; e um eu da memória, que é aquele que registra, mantém a biografia, o legado e que responde à pergunta: “Como tem se sentido nos últimos meses?”. A confusão entre essas duas entidades, a da experiência e a da memória, contribui para a confusão em relação à felicidade, tanto entre os próprios pesquisadores, quanto entre os leigos, nas suas vivências diárias.

Daniel Kahneman, ainda, em uma de suas palestras propôs o seguinte exercício mental: quão feliz está o seu eu da experiência. Assim, você se perguntaria: quão felizes são os momentos na vida do meu eu experiência? Observem que, se fizermos a mesma pergunta ao eu da memória, é completamente diferente, porque não se trata da felicidade que a pessoa vive naquele momento, mas sim da satisfação ou prazer que sente quando ela pensa sobre sua vida. Logo, a lição principal é que é bem diferente uma percepção da outra e não podemos colocar tudo no mesmo saco.

Agora que já temos noção sobre a dificuldade e complexidade de se pensar em felicidade com clareza, gostaria de chamar atenção para outros pensamentos de um grupo de estudos de Harvard, que também tem feito descobertas interessantes no que existe por trás do que entendemos como felicidade. Esse grupo desenvolveu o Estudo de Desenvolvimento Adulto, possivelmente a pesquisa mais longa sobre a vida adulta já realizada nos dias de hoje. Durante 75 anos, desde 1938, as vidas de 724 homens, ano após ano, foi acompanhada, questionando-se sobre seus trabalhos, vidas domésticas, saúde, sem saber como as histórias de suas vidas seriam.

Aproximadamente 60 dos 724 homens originais ainda estão vivos, e participam do estudo, a maioria deles hoje com cerca de 90 anos. Atualmente, estuda-se também os mais de 2 mil filhos desses homens. São acompanhadas as vidas de dois grupos de homens. O primeiro começou o estudo quando os participantes estavam no segundo ano da Universidade de Harvard. Todos terminaram a faculdade durante a 2ª Guerra Mundial e a maioria foi servir na guerra. O segundo grupo era de garotos dos bairros mais pobres de Boston, escolhidos para o estudo especialmente porque eram de algumas das famílias mais problemáticas e desfavorecidas na década de 30.

Essas pessoas foram entrevistadas em suas casas. Foram obtidos registros de saúde, exames de imagem dos cérebros, coletas de sangue. De todas essas milhares de informações ao longo de todos esses anos, as lições mais importantes adquiridas foram as mesmas, para ambos os grupos estudados, e não são sobre riqueza, fama e poder – a mensagem mais clara foi: as boas relações mantém as pessoas mais felizes e mais saudáveis.

As pessoas que têm mais ligações sociais, seja com a família, amigos, comunidade foram as mais felizes. Quando analisado retrospectivamente os homens aos 80 anos e reunido o que se conhecia sobre eles aos 50 anos, não foram os níveis de colesterol os indicadores mais determinantes de felicidade e saúde, mas sim o grau de satisfação que tinha com suas relações, sendo então bons relacionamentos um dos maiores fatores de proteção no envelhecimento.

Além de protegerem o corpo, parecem proteger também o cérebro – as pessoas que nutrem redes de apoio, mantém suas memórias vivas por mais tempo. Parece que os contratempos, discussões, rancores não se fixam na memória quando sentimos que podemos contar um com o outro. As pessoas do estudo que foram mais felizes foram as que trabalharam ativamente por transformar colegas de trabalho em amigos, as que dedicaram seu tempo a pessoas, as que venceram as adversidades de uma relação por um objetivo compartilhado.

As relações impactam no eu da memória, que guarda nossas experiências de felicidade, no eu contador das nossas histórias, definidas pelas nossas mudanças, momentos significativos e finais impactantes de trajetórias. Talvez atingir felicidade seja buscar, sim, por momentos de experiência plena de um bem-estar completo, mas também seja sobre cuidar com carinho da história que construímos dia-a-dia. Talvez seja sobre estar presente, mas também sobre cuidar da nossa unidade como seres humanos e estarmos dispostos a viver em conjunto, entendendo o quão isso é importante não só para o todo, mas para nós mesmos como indivíduos.

“Não há tempo, tão breve é a vida, para discussões, desculpas, amarguras, prestação de contas. Só há tempo para amar e, mesmo para isso, é só um instante”.

Mark Twain

 

Álcool e câncer: qual a real relação? Em qual quantidade?

Dados da Organização Mundial da Saúde mostram que em todo o mundo, três milhões de mortes por ano resultam do uso nocivo do álcool, representando 5,3% de todas as mortes. Em geral, 5,1% da carga mundial de doenças e lesões são atribuídas ao consumo de álcool, conforme calculado em termos de Anos de Vida Perdidos Ajustados por Incapacidade. Na faixa etária de 20 a 39 anos, aproximadamente 13,5% do total de mortes são atribuíveis ao consumo excessivo dessa substância. Álcool é o termo comum para etanol ou álcool etílico, uma substância química encontrada em bebidas alcoólicas, como cerveja, vinhos e bebidas destiladas. Ele é produzido pela fermentação natural de açúcares e amidos por leveduras.

A relação entre consumo de bebidas alcoólicas e desenvolvimento de câncer já é bem estabelecida. Em 2018, a Associação Americana de Oncologia Clínica (ASCO) estabeleceu que 5% de todos os novos casos de câncer estavam relacionados ao consumo de álcool. Os principais tumores relacionados com o etilismo são os de cabeça e pescoço (boca, língua, garganta, laringe), esôfago, estômago, fígado, intestino (cólon, reto) e mama. A forma exata de como o álcool aumenta o risco de câncer não é totalmente conhecida. O que se sabe é que há mais de um mecanismo carcinogênico envolvido como, por exemplo: – a produção de acetaldeído, um produto químico tóxico proveniente da metabolização do álcool etílico no organismo e que tem o potencial de danificar o DNA e proteínas;  – geração de radicais livres de oxigênio que também podem danificar o DNA, proteínas e lipídios do corpo por meio do processo de oxidação; – no intestino, o álcool pode funcionar como solvente, facilitando a entrada de outras substâncias carcinogênicas para dentro das células saudáveis;  – aumentando os  níveis sanguíneos de estrogênio, hormônio feminino associado ao risco de câncer de mama.

Quantificar uma dose segura para consumo de bebida alcoólica não é fácil uma vez que existe na literatura médica pontos de vista divergentes. Vários fatores precisam ser levados em conta como, por exemplo, o gênero (mulheres são mais suscetíveis aos efeitos danosos do álcool) e raça (asiáticos têm maior chance de possuírem alterações genéticas que levam a alterações enzimáticas e, consequentemente, maior produção de acetaldeído no organismo após consumo de álcool). Além disso, se uma pessoa sofre de alcoolismo, que é uma doença e precisa de tratamento, é muito difícil falar em dose segura de álcool, pois uma pequena quantidade como a encontrada em alguns chocolates já pode desencadear uma recaída e levar o indivíduo a consumir doses excessivas. O que se considera atualmente o limite máximo diário para consumo de bebida alcoólica é de uma dose para mulheres e duas doses para os homens. Uma dose corresponde a aproximadamente 30g de álcool etílico o que equivale a 350ml de cerveja (uma lata ou garrafa long neck), 180ml de vinho (uma taça) ou 50ml de destilados (como uísque, vodca, gin). Vale ressaltar que a concentração alcoólica pode variar bastante entre uma bebida destilada e outra assim como entre estilos diferentes de cerveja, o que mais uma vez torna essa quantificação de limite diário bastante difícil.

Um estudo japonês publicado em dezembro de 2019 em uma conceituada revista científica sugeriu que não existem níveis seguros de ingestão de bebida alcoólica e risco de câncer. Embora o impacto possa variar entre os vários tipos de tumor, mesmo o consumo leve, equivalente a 10 drinks por ano (o estudo adotou como equivalente a 1 drink:  500ml de cerveja ou 180ml de vinho de mesa ou 60ml de destilados), pode aumentar em 5% o risco global de desenvolvimento de câncer. Ainda de acordo com o estudo, o risco se eleva com o aumento da quantidade de doses de álcool ingeridas ao longo do tempo, ou seja, quem consome mais e por mais anos tem o risco maior de desenvolver câncer, o que já sabíamos de outras publicações científicas. Quando nos deparamos com informações como esta trazida pelo estudo japonês – que não há dose segura no consumo de álcool e câncer –, algumas ponderações precisam ser feitas. Uma delas é o fato de que pessoas que não consomem bebidas alcoólicas geralmente têm hábitos mais saudáveis de vida em detrimento das que consomem que muitas vezes também fumam, não tem uma alimentação balanceada, são obesas e não praticam atividades físicas, ou seja, há outros fatores envolvidos que sabidamente aumentam o risco de desenvolvimento de câncer. Por mais que os autores tenham tentado identificar esses fatores na hora de se fazer a análise, isso pode não ter sido feito de forma satisfatória uma vez que os dados do estudo foram obtidos de forma retrospectiva, analisando informações de prontuários de pacientes. Outro ponto que merece uma análise crítica é o fato de o levantamento ter sido realizado somente com a população japonesa, o que pode não ser reproduzível para outros povos.

Como oncologistas, a mensagem que devemos passar para as pessoas é que, sim, o consumo de bebidas alcoólicas aumenta o risco global de desenvolvimento de câncer ao longo do tempo. Não há consenso na literatura médica sobre o limite aceitável e seguro de consumo. Não há nenhum dado científico que comprove que o consumo de alguma bebida alcoólica (vinho, por exemplo) pode prevenir o surgimento de um determinado tipo de câncer. Finalmente, pessoas que por algum motivo já tem risco elevado de desenvolver alguma neoplasia como mulheres com história familiar positiva para câncer de mama, principalmente as que têm alterações em alguns tipos determinados de genes, devem evitar o consumo de bebida alcoólica, em qualquer quantidade.

Ervas: são seguras e eficazes para pacientes com câncer?

Nos últimos anos, o interesse público em ervas como uma abordagem médica alternativa cresceu e se tornou mais atraente. Embora haja evidências científicas limitadas sobre a eficácia de algumas ervas. Preocupações com a segurança e o perfil pouco claro dos efeitos colaterais os tornam substituídos pelas terapias médicas padrão. Além disso, deve-se ter cautela consumindo-as, especialmente quando são promovidas como uma maneira de limpar toxinas e promover a saúde.

O termo “erva” tem sido usado de maneira vaga para se referir não apenas a plantas herbáceas, mas também a cascas, caules, flores, raízes e sementes. Sob a lei atual, as ervas são consideradas suplementos alimentares. Portanto, eles são comercializados sem demonstrar segurança e eficácia, conforme é necessário para os medicamentos. Desde os tempos pré-históricos, a humanidade usa ervas para fins medicinais e de cura. Embora algumas ervas sejam seguras em quantidades modestas, elas podem ser tóxicas em concentrações mais altas.

Comprado pronto em supermercados ou consumido também na versão caseira, o chá conhecido pelo poder detox atrai cada vez mais adeptos de uma rotina saudável. Folhas, raízes, ervas e outros ingredientes citados na composição da bebida são conhecidos pelas ações antioxidantes, anti-inflamatória e antibacteriana, o que auxilia o processo metabólico.

As terapias antioxidantes podem aliviar os efeitos adversos da quimioterapia e / ou radioterapia, mas podem antagonizar os efeitos antitumorais, reduzindo os danos oxidativos. Eles impedem o dano celular de órgãos e tecidos normais, reagindo com os radicais livres oxidantes. No entanto, os antioxidantes podem antagonizar os efeitos antitumorais da radioterapia e alguns tipos de quimioterapia e deve ser desencorajado devido à possibilidade de proteção do tumor e redução da sobrevida.

Complementando que tudo o que ingerimos, necessariamente precisa ser metabolizado e eliminado pelo fígado e rins, se o chá for consumido em excesso, o fígado pode não ter condições de eliminá-lo totalmente, o que acaba levando à sobrecarga e intoxicação do órgão. Vários casos de hepatotoxicidade, distúrbios neurodegenerativos e outros efeitos adversos após o consumo de grandes quantidades ou preparações concentradas de C. sinensis foram relatados.

Lembrando que o paciente oncológico, é um paciente exposto a efeitos colaterais de tratamentos quimioterápicos e radioterápicos que podem causar náusea, vômito, diarreia e ainda outros distúrbios relacionados à cavidade oral, paladar a falta de fome e/ou sede que também influenciam no equilíbrio hidroeletrolítico do organismo. E, ainda, que dependendo do sítio de metástase que o paciente possui, a metabolização de determinados eletrólitos e o funcionamento do fígado e/ou rim já está ameaçada e sensível a qualquer mínima injúria e sobrecarga externa.

Pesquisas futuras precisam descrever a extensão real dos benefícios para a saúde, verificar a gama segura de consumo de chá associado a esses benefícios e esclarecer os mecanismos prováveis ​​de ação. Novos sistemas experimentais devem ser desenvolvidos para avaliar melhor os efeitos do chá nos seres humanos. O desenvolvimento de métodos mais específicos e sensíveis, com mais modelos de representação, juntamente com o desenvolvimento de bons biomarcadores preditivos, permitirá uma melhor compreensão da interação do chá com sistemas endógenos e outros fatores exógenos, principalmente na população oncológica.

Diante do exposto, nossa missão é aumentar a conscientização do público sobre os desarranjos metabólicos e eletrolíticos potencialmente graves que podem estar associados ao consumo indevido de regimes de ervas.

FONTE BIBLIOGRÁFICA:

  1. Soliman M, Fuller W, Usmani N, Akanbi O. Acute Severe Hyponatremia as a Serious Health Implication of Herbal Detox Regimens. Cureus. 2018 Dec 6;10(12):e3697.
  2. Kesavarapu K, Kang M, Shin JJ, Rothstein K. Yogi Detox Tea: A Potential Cause of Acute Liver Failure. Case Rep Gastrointest Med. 2017;2017:3540756.
  3. Lawenda BD, et al. Should supplemental antioxidant administration be avoided during chemotherapy and radiation therapy? J Natl Cancer Inst. 2008;100(11):773-83.
  1. Harvie M et al. Nutritional supplements and cancer: potential benefits and proven harms. Am Soc Clin Oncol Educ Book. (2014)

30 de janeiro: Dia da Saudade

Saudade é o amor que fica. Linda definição que fala sobre o que permanece, quando se perde. É estranho pensar que algo possa continuar quando aparentemente as perdas são irreparáveis. Causa ainda mais estranhamento, crer que é possível se preparar para isso. No entanto, é possível, sim, de alguma maneira nos organizarmos antecipadamente.

Conviver diariamente com a possibilidade de perda de um ente querido traz no mínimo ansiedade e medo do desconhecido e, quando um familiar nosso adoece, é como se adoecêssemos junto. Assim como o doente, necessitamos do mesmo tempo para absorver, gradualmente, a realidade e se adaptar a nova rotina, que na grande maioria das vezes, demanda esforço físico e disponibilidade emocional. Por outro lado, a proximidade ao doente e seu cuidado podem potencializar a experiência do tempo e favorecer a conexão e assimilação lenta da realidade.

A doença em boa parte das vezes nos pega no atropelo da nossa própria vida. Sem pedir licença, não escolhe apenas as famílias com a melhor dinâmica, sem conflitos de relacionamento, para estimular o cuidado. Acomete-nos no susto e, ao mesmo tempo, nos conecta quase como necessidade básica as nossas prioridades mais essenciais. Isto acaba gerando uma oportunidade única de revisão, de retrospectiva e de planejamentos futuros, baseados no que passou a ser ou continuou a ser importante como propósito de vida.

Diante disso, preparar-se para as perdas é também aparar as arestas da vida. É experimentar ter conversas difíceis sobre conflitos nunca antes mencionados. É ser impulsionado a expressar os sentimentos mais profundos e resolver pendências de qualquer origem. É sobre a chance de poder perdoar e ser perdoado. É passar a limpo e construir uma relação de paz com o que foi vivido dentro dos vínculos.

Não é incomum entrarmos em confronto com nossa própria identidade.  São inúmeras as situações que podem impactar na história que nos contamos sobre nós mesmos. Pelas condições que a vida nos impõe e a depender da maneira como cultivamos nossos vínculos, construímos relações com diferentes formas de apego com nossos entes. Nos mais inseguros, nas relações mais simbióticas, não se sabe onde um começa e o outro termina e, dentro disso, quando um se vai, é como se outro fosse junto ou não encontrasse mais sentido para existir. Para se preparar, faz-se necessário muitas vezes iniciar mudanças de concepções sobre nossa própria identidade.

Todos temos nossas próprias rotinas para administrar e planos futuros para nossa própria vida. No entanto, diante da notícia de uma perda anunciada de um ente querido, preocupar-se consigo mesmo pode parecer uma traição. Tirar o cuidado da óptica da culpa alivia tensões e abre caminhos para que cada um dê o que é possível em cada momento, sem se colocar em lugar de débito constante. Exige disponibilidade, mas a entrega ao cuidado pode ser consciente, atenta aos limites pessoais de cada um e num ambiente de comunicação honesta que favoreça a aproximação, não limitada pelas as barreiras do silêncio.

Outros facilitadores que nos ajudam a organizarmos diante de perdas potenciais ainda são: ter flexibilidade dentro da estrutura familiar que permita redefinição de papéis. A adaptação vem da reinvenção a partir das adversidades. O filho que antes era cuidado passa a ser cuidador. A esposa dependente assume todas as responsabilidades da casa. O marido distante se torna o elo mais forte de união da família.

A boa comunicação com a equipe de saúde assistente e entre familiares ajuda a desenvolver segurança no caminho traçado e maior independência. Conhecer o prognóstico e a proposta de tratamento, o objetivo e valores do paciente, o ciclo evolutivo da doença e sintomas esperados, nos empoderam de mais ferramentas e potencial ajuda. É preciso participar de todas as diferentes fases do adoecimento. Isto nos dá intimidade e algum senso de controle, quando tudo parece muito aterrorizador e incontrolável. Sistemas de apoio, formal ou informal, são cruciais.

Nada substituirá a presença, o valor e a importância que uma pessoa querida assume em nossas vidas. A dor da perda e da antecipação da mesma são reais e devem ser reconhecidas. Exigem um olhar compassivo e também de cuidado, para que se possa aceitar e estabelecer uma nova forma de vinculação simbólica com o ente que partiu, de maneira a integrá-lo à nova realidade e, a partir daí, seguir em frente e acreditar em recomeços.