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Por que devemos ter um mês de conscientização para o câncer de bexiga?

O número estimado de casos novos de câncer de bexiga para o Brasil, para cada ano do triênio de 2023 a 2025, é de 11.370 casos, sendo 7.870 casos em homens e 3.500 em mulheres. Sem considerar os tumores de pele não melanoma, o câncer de bexiga ocupa a 12ª posição entre os tipos de câncer mais frequentes, e a Região Sudeste apresenta as maiores taxas de incidência estimadas. Nessa região, o câncer de bexiga em homens ocupa a 6ª posição e nas mulheres é o 15º mais frequente.

Para o interior de São Paulo, neste mesmo período, estima-se o número de casos novos de: 1.610 para homens e 810 para mulheres. A faixa etária da maioria dos casos ocorre em pessoas com mais de 55 anos.

 

Fatores de risco

– Tabagismo: fumar é o principal fator de risco para o câncer de bexiga, sendo responsável por cerca de metade dos casos.

– Exposição a substâncias químicas: a exposição a certos produtos químicos utilizados nas indústrias de tintas, borracha e outros pode aumentar o risco.

– História familiar: ter um histórico familiar de câncer de bexiga também pode aumentar o risco.

– Infecções crônicas: infecções urinárias crônicas e o uso prolongado de sondas urinárias podem ser fatores de risco.

 

Diagnóstico

– Sintomas: sangue na urina (hematúria) é o sintoma mais comum. Outros sintomas podem incluir dor ao urinar, necessidade frequente de urinar e dor abdominal.

– Exames: a cistoscopia é um exame essencial para o diagnóstico, permitindo a visualização direta da bexiga e a biopsia do tumor. Outros exames incluem exames de urina, ultrassonografia e tomografia computadorizada para avaliar se o tumor apresenta metástases.

 

Tratamento

– Cirurgia: a ressecção transuretral do tumor vesical (RTUV) é comum para tumores superficiais. Em casos mais avançados, pode ser necessária a cistectomia (remoção da bexiga).

– Terapia intravesical: instilação de medicamentos diretamente na bexiga, como o BCG (Bacillus Calmette-Guérin), pode ser utilizada para tratar e prevenir a recidiva de tumores superficiais. Nos últimos anos, há uma escassez dessa medicação por falta de interesse da indústria em produzi-la. Felizmente, no último ano houve uma regularização da disponibilidade.

– Quimioterapia e imunoterapia: podem ser utilizadas antes ou depois da cirurgia ou mesmo em casos metastáticos.

– Terapia-alvo: este tratamento menos tóxico e mais eficaz tem seu papel quando o tumor é metastático e tem algumas mutações específicas.

 

Prevenção e controle

– Cessação do tabagismo: a principal medida preventiva é parar de fumar.

– Exames regulares: pessoas com alto risco devem realizar exames regulares para detecção precoce. O médico urologista é o melhor profissional para determinar a necessidade desses exames

– Saúde ocupacional: medidas de proteção para trabalhadores expostos a produtos químicos são essenciais.

 

A abordagem do câncer de bexiga envolve uma equipe multidisciplinar para oferecer o melhor tratamento possível e aumentar as chances de cura e qualidade de vida do paciente.

 

Comunicação é a chave para um cuidado adequado

Novas diretrizes da Sociedade Europeia de Oncologia (ESMO) para a comunicação com pacientes diagnosticados com câncer foram publicadas em 18 de junho de 2024

 

As diretrizes da ESMO para a comunicação com pacientes com câncer foram publicadas online em 18 de junho de 2024, na revista ESMO Open. Essas diretrizes visam fornecer recomendações-chave para a comunicação e apoio aos pacientes com câncer e seus cuidadores. Elas abordam o treinamento dos oncologistas em habilidades de comunicação e o suporte adequado aos pacientes ao longo do tratamento oncológico.

 

Estas diretrizes enfatizam a importância de uma comunicação clara, empática e centrada no paciente durante todo o processo de tratamento oncológico. Os principais pontos incluem:

 

  1. Empatia e Suporte: profissionais de saúde são incentivados a comunicar-se com empatia, garantindo que os pacientes se sintam apoiados e compreendidos. Isso inclui estar atento ao estado emocional dos pacientes e fornecer suporte psicológico quando necessário. A ideia é não engessar a comunicação, mas promover flexibilidade na abordagem e, assim, gerar empatia.

 

  1. Informação Clara e Precisa: é crucial oferecer informações claras, concisas e precisas sobre o diagnóstico, opções de tratamento, potenciais efeitos colaterais e prognóstico. Evitar jargão médico e verificar se o paciente compreende as informações também é recomendado.

 

  1. Envolvimento do Paciente: incentivar os pacientes a participarem da tomada de decisões sobre seus planos de tratamento é essencial. Isso inclui discutir suas preferências, valores e preocupações, garantindo que eles se sintam parte do processo. A decisão compartilhada é a chave.

 

  1. Gerenciamento de Conversas Difíceis: as diretrizes fornecem estratégias para lidar com conversas difíceis, como dar más notícias ou discutir cuidados paliativos. As técnicas incluem preparação para a conversa, uso de linguagem direta e compassiva e fornecimento de suporte contínuo. Balancear notícias difíceis com esperança é um desafio.

 

  1. Abordagem Multidisciplinar: a comunicação eficaz envolve a colaboração entre diferentes profissionais de saúde, garantindo que o paciente receba informações consistentes e cuidados abrangentes. A abordagem de aspectos espirituais é um ponto também importante nesse sentido.

 

  1. Sensibilidade Cultural: estar ciente e respeitar as diferenças culturais na comunicação e nos processos de tomada de decisão também é destacado. Isso ajuda a adaptar a abordagem para atender às diversas necessidades dos pacientes.

 

  1. Ambiente de trabalho saudável: é de suma importância que a instituição de saúde em oncologia garanta a continuidade do cuidado, a disponibilidade de tempo para a abordagem psicológica (em consulta e com psico-oncologista) e, não menos importante, um ambiente de trabalho agradável. Cuidar de quem cuida também é cuidar do paciente.

 

  1. Treinamento contínuo: a maioria das faculdades de Medicina não oferecem formação em comunicação com pacientes, o que talvez seja um dos grandes desafios da atualidade. O aperfeiçoamento de habilidades deve ser contínuo e ser iniciado o quanto antes na trajetória dos profissionais que vão cuidar de outras pessoas.

 

Nós, oncologistas e hematologistas do Grupo SOnHe, nos orgulhamos em seguirmos diretrizes como estas estabelecidas pela ESMO e estamos em constante busca de melhorias para o melhor cuidado dos pacientes oncológicos em toda jornada de seu cuidado.

 

Ref.: https://www.esmoopen.com/article/S2059-7029(24)01265-1/fulltext

 

 

20 de fevereiro – Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo

Álcool e câncer: relação direta e indireta. Até que ponto o consumo é seguro?

 

No dia 20 de fevereiro, acontece o Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo. Especificamente sobre o álcool, a data tem como objetivo alertar a população sobre os malefícios do consumo de bebidas alcóolicas. Consumido desde 7.000 anos antes da era comum, o álcool é a substância psicoativa utilizada há mais tempo na história, fazendo parte da rotina de mais de 40% da população e, portanto, incluindo pessoas de todas as idades e classes sociais.

No entanto, o consumo de álcool pode trazer diversos riscos à saúde, incluindo o câncer. E, nessa temática, sempre temos duas perguntas recorrentes: qual a relação entre álcool e câncer? Existe uma dose segura de álcool?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o consumo de álcool é responsável por cerca de 7% de todas as mortes por câncer no mundo, o que representa mais de 700 mil mortes por ano. No Brasil, o consumo de álcool é responsável por cerca de 5% de todas as mortes por câncer.

Uma coisa é certa: sim, o consumo de álcool, mesmo em pequenas quantidades, aumenta o risco de câncer. Existem evidências científicas sólidas que indicam uma ligação direta entre o consumo de álcool e vários tipos de tumores, entre eles, o câncer de esôfago, boca, garganta, mama, fígado e cólon são os mais notáveis. O álcool em grandes quantidades aumenta em mais de cinco vezes o risco destes tumores. Os compostos químicos resultantes da metabolização do álcool no corpo podem causar danos ao DNA das células, levando a mutações genéticas e, consequentemente, ao desenvolvimento de células cancerosas. Não só isso, atuando como solvente, ele pode aumentar a penetração de substâncias tóxicas nas células do trato digestivo.

A relação indireta entre álcool e câncer também é significativa. O consumo excessivo de álcool pode levar a comportamentos prejudiciais à saúde, como tabagismo e escolhas alimentares desfavoráveis, aumentando ainda mais o risco de câncer. Além disso, o álcool compromete o sistema imunológico, tornando o organismo mais suscetível a diversas doenças, incluindo o câncer.

A questão crítica é: até que ponto o consumo de álcool é seguro? Não há um limite universalmente aceito. Idealmente, como defendem o INCA e a Sociedade Americana de Câncer, o álcool não deve ser consumido em nenhuma quantidade. No entanto, outras organizações de saúde recomendam moderação como a chave. O que existe de evidência científica mostra que o consumo de álcool deve ser limitado a quantidades consideradas seguras, como uma bebida por dia para mulheres não-grávidas e até duas para homens. Entretanto, algumas pessoas, como as grávidas e aquelas com histórico de alcoolismo na família ou que já tenham alguma doença relacionada ao álcool, devem evitar completamente o consumo da substância.

É importante salientar que o alcoolismo é uma doença grave que pode ter consequências devastadoras para a saúde física e mental da pessoa. É importante buscar ajuda profissional se você ou alguém que você conhece está lutando contra esta situação. Sem dúvida, o abuso de álcool deve ser combatido.

Também é vital destacar que o álcool não é essencial para uma vida saudável e que há alternativas saudáveis para celebrar e relaxar. Priorizar hábitos de vida saudáveis, como uma dieta balanceada, exercícios regulares e a abstenção do tabaco, é crucial na prevenção do câncer.

Neste Dia Nacional de Combate ao Alcoolismo, é fundamental promover a conscientização sobre os riscos do consumo excessivo de álcool e incentivar escolhas saudáveis. O consumo de álcool é um fator de risco importante para o câncer e o alcoolismo, uma doença grave. A melhor maneira de prevenir o câncer relacionado ao álcool é evitar o consumo de bebidas alcoólicas. Cada indivíduo tem o poder de fazer escolhas informadas que afetam sua saúde a longo prazo. Ao compreender a relação direta e indireta entre o álcool e o câncer, podemos trabalhar coletivamente para reduzir os casos relacionados ao álcool e melhorar a qualidade de vida da sociedade como um todo.

 

Dietary Guidelines for Americans, 2020-2025 9th Edition. U.S. Department of Agriculture and U.S. Department of Health and Human Services, 2020. https://www.dietaryguidelines.gov/sites/default/files/2021-03/Dietary_Guidelines_for_Americans-2020-2025.pdf

 National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism. Drinking Levels Defined. Available at: https://www.niaaa.nih.gov/alcohol-health/overview-alcohol-consumption/moderate-binge-drinking (Accessed on July 14, 2021).

 Mukamal KJ. A safe level of alcohol consumption: the right answer demands the right question. J Intern Med. 2020;288(5):550. Epub 2020 Jun 29.

Rock CL, et al. American Cancer Society guideline for diet and physical activity for cancer prevention.

CA Cancer J Clin. 2020;70(4):245. Epub 2020 Jun 9

Zhao J, Stockwell T, Naimi T, Churchill S, Clay J, Sherk A. Association Between Daily Alcohol Intake and Risk of All-Cause Mortality: A Systematic Review and Meta-analyses. JAMA Netw Open. 2023;6(3):e236185. Epub 2023 Mar 1.

LoConte NK, Brewster AM, Kaur JS, Merrill JK, Alberg AJ. Alcohol and Cancer: A Statement of the American Society of Clinical Oncology. J Clin Oncol. 2018;36(1):83. Epub 2017 Nov 7.

 

 

 

2 de julho: Dia do Hospital – A importância do hospital no cuidado dos pacientes oncológicos

A grande maioria dos pacientes com câncer necessita de internações hospitalares ao longo de sua trajetória de doença. O hospital é imprescindível quando pensamos em tratar essas pessoas, não só porque é lugar-comum a realização de cirurgias, mas também porque os tratamentos são tóxicos, os pacientes têm média de idade mais avançada e, por ser uma doença grave, leva muitas pessoas a falecerem, o que geralmente ocorre durante uma internação.

Os pacientes com câncer comumente descobrem sua doença a partir de uma biópsia ou mesmo uma cirurgia, de urgência ou não, e, portanto, são internados para tais procedimentos. Ao longo da trajetória da doença, podem precisar de novos procedimentos cirúrgicos, levando a novas visitas ao hospital.

Após o diagnóstico, inicia-se o tratamento e, então, podem ocorrer os efeitos colaterais do mesmo. Como exemplo, algumas vezes pacientes têm vômitos e diarreia intensos com quimioterapia, ficando desidratados e necessitando comparecer ao pronto socorro.

As emergências oncológicas também contribuem para internações, que geralmente são prolongadas. A neutropenia febril, uma complicação da quimioterapia, é um diagnóstico recorrente em pacientes em tratamento com quimioterapia. Outro exemplo, a compressão medular é um quadro em que a equipe deve atuar rapidamente a fim de evitar sequelas como a paraplegia.

Além disso, os pacientes com câncer têm, felizmente, vivido mais tempo com os tratamentos mais avançados. Além disso, o câncer e suas terapias muitas vezes aumentam o risco de trombose, problemas renais, hepáticos ou cardíacos. Sendo assim – e adicionando o fato de que a maioria são idosos – outros problemas de saúde, como pressão alta e diabetes, podem piorar o quadro clínico e também ensejar internações.

Mais à frente, quando a doença está aumentando e torna-se resistente aos tratamentos disponíveis, os sintomas decorrentes dela levam a quadros de infecções, desnutrição, incapacidade de deglutição, comprometimento neurológico, dentre outros problemas. Nesse ponto, a internação muitas vezes torna-se prolongada e a alta para casa, mais difícil de conquistar. Os pacientes, na grande maioria das vezes, vão a óbito na internação e a capacidade de oferecer uma morte digna é um importante indicador de qualidade hospitalar.

Dados do SUS mostram que mais de R$ 13 bilhões foram gastos em 10 anos com 7,5 milhões de internações de pacientes oncológicos. A maioria desses pacientes são de estágios avançados da doença.

No grupo SOnHe, tivemos 1.000 internações em 3 anos, com média de idade de 52 anos, 55% mulheres e 20% com câncer de mama. Mais de 50% têm estágio avançado de doença e temos orgulho de termos indicadores de óbito dentro dos padrões internacionais.

Por conta dessa diversidade de situações que envolvem a internação do paciente com câncer, é muito importante que todo o hospital esteja preparado para oferecer o melhor tratamento. Para isso, a equipe multidisciplinar é fundamental, com o apoio da psicologia, nutrição, fisioterapia, serviço social, fonoaudiologia, farmácia e enfermagem. Não só isso: a capacitação dos médicos do pronto socorro faz a diferença na agilidade para identificação de tratamento dos mais variados quadros clínicos.

Por fim, a equipe médica oncológica dedicada é de suma importância para conduzir cada caso da melhor forma possível, ponderando quais tratamentos vão trazer mais benefícios que malefícios em cada fase da doença, com base, claro, em evidências científicas atualizadas. Tudo isso sempre pensando no melhor para nosso paciente, que está em um momento difícil, principalmente quando está internado, e, por isso, deve receber o melhor cuidado possível.

 

Origem da data

O Dia do Hospital é celebrado em 2 de julho em homenagem à reinauguração da Santa Casa de Misericórdia de Santos-SP, realizada em 1945. Este é considerado o primeiro hospital do Brasil. Em 1543, a Santa Casa de Misericórdia de Santos foi fundada por Brás Cubas (1507-1592), um fidalgo português. Ao longo dos séculos foram sendo reconstruídos e inaugurados vários conjuntos no Hospital, mas apenas aquele inaugurado por Getúlio Vargas em 1945 existe ainda hoje.

 

Referências:

https://rbc.inca.gov.br/index.php/revista/article/view/992/688

 

 

 

Uso racional de medicamentos: Como a Medicina baseada em valor ajuda na decisão mais correta?

Dia 5 de maio é o Dia Nacional do Uso Racional de Medicamentos e este é, sem dúvida, um problema mundial. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 50% das prescrições são inadequadas ou irracionais. Tal fato traz prejuízo não só para saúde das pessoas, mas também para o sistema econômico mundial. Nesse contexto, a Medicina Baseada em Valor (MBV) pode ser um importante aliado para melhorar a situação.

O uso irracional de medicamentos abrange diversas situações, dentre elas estão: a polifarmácia, o uso inadequado de antimicrobianos, o uso de medicações injetáveis em vez de orais quando estas poderiam ser mais apropriadas, o não seguimento das diretrizes clínicas, automedicação e o uso da dosagem incorreta. Dados da OMS mostram que mais de 50% dos pacientes tomam seus remédios incorretamente e 77% dos brasileiros costumam se automedicar.

Essas práticas levam a consequências facilmente identificáveis (aumento de efeitos adversos, alergias, maiores gastos), mas também a desdobramentos “camuflados” (geração de bactérias resistentes, infecção de corrente sanguínea e até mesmo dependência química, por exemplo).

Atualmente, existe, inclusive, um comitê relacionado ao assunto ligado ao Ministério da Saúde, que atua, entre outras frentes, promovendo estratégias para difundir o uso das evidências científicas e de conscientização dos profissionais e dos pacientes. E é nesse contexto que a MBV pode auxiliar.

Mas o que é a MBV? Nada mais é que o uso consciencioso, ou seja, com bom senso, das melhores evidências científicas aliadas ao benefício clínico desejado para cada população ou paciente, levando em conta também os fatores econômicos para o sistema e, também, para o indivíduo. Por meio dela, tenta-se encontrar um equilíbrio entre eficácia dos tratamentos, seu custo e a vantagem real para o paciente.

Com a MBV, diretrizes personalizadas para cada cenário podem ser criadas para guiar os profissionais de saúde a usar os recursos e prescrever medicamentos de forma mais racional. Com isso, os pacientes são tratados de forma mais adequada e com menores custos.

Algumas dicas para os pacientes são:

  • Seguir a indicação médica;
  • Tomar o medicamento pelo tempo adequado;
  • Evitar a automedicação recorrente;
  • Cuidado ao armazenar os medicamentos;
  • Descartar corretamente.

 

Tais diretrizes devem ser utilizadas pelos médicos na hora de decidir que tratamento dar para seu paciente e, nós, como pacientes, devemos também exigir que isso seja feito, para que a nossa saúde seja tratada como deve ser: racionalmente e, claro, sem faltar afeto.

O Ministério da Saúde disponibiliza uma cartilha sobre o assunto em https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cartilha_promocao_uso_racional_medicamentos.pdf

 

 

Câncer de esôfago: mês de conscientização

O esôfago é um tubo muscular que leva o alimento desde a garganta até o estômago. No Brasil, o câncer de esôfago é o 5º mais frequente entre os homens e o 15º entre as mulheres, com estimativa de 11.000 casos e 8.000 mortes por ano, sendo mais de 80% em homens. Aproveitando o mês de abril, mês de conscientização do câncer de esôfago, vamos falar um pouco sobre esse tipo de tumor.

Existem dois tipos:

  • Carcinoma escamoso;

O primeiro está mais relacionado aos principais fatores de risco, que são:

  • o tabagismo (25% dos casos);
  • o uso de álcool;
  • além do consumo de bebidas muito quentes (como o chimarrão).

 

Já o segundo tem uma relação mais estreita com:

  • a obesidade;
  • dieta com poucos vegetais;
  • e refluxo.

Sendo um tipo com aumento do número de casos nos últimos anos.

Muito importante destacar os sintomas mais frequentes, que são, principalmente:

  • dificuldade de deglutição de comida;
  • dor ao engolir;
  • dor no peito;
  • vômitos;
  • perda de peso.

 

O diagnóstico é feito normalmente após o paciente reclamar de sintomas como os descritos acima e realizar uma endoscopia digestiva alta com biopsia.

O tratamento baseia-se em várias estratégias, desde a cirurgia, passando pela radioterapia e até quimioterapia e imunoterapia.

Quanto mais cedo diagnosticado, maiores são as chances de cura. Mesmo se o câncer de esôfago for metastático e incurável, os tratamentos atuais conseguem aumentar o tempo de vida significativamente.

Não existe um exame de rotina para detectar o câncer de esôfago, portanto, o melhor caminho é a prevenção e evitar os fatores de risco.

 

E quais seriam as principais dicas?

  • Não fumar;
  • Evitar o consumo de bebida alcoólica em excesso;
  • Evitar o sobrepeso e a obesidade;
  • Tratar a doença do refluxo gastroesofágico quando presente;
  • Não consumir bebidas quentes em excesso, como café muito quente e chimarrão (acima de 60%).

 

Se você tem algum sintoma, o importante é sempre procurar seu médico!

 

 

30 de janeiro: Dia da saudade – Sentimento e tecnologia aliados para um luto mais saudável

No dia 30 de janeiro, comemoramos o Dia da Saudade e, por isso, gostaria de falar um pouco sobre o assunto. Saudade é uma palavra de difícil tradução para outros idiomas, mas com um sentido muito forte para qualquer ser humano. Todos nós sentimos saudade em algum momento. Seja de alguém que está longe, de algum bicho de estimação ou mesmo de um momento que vivemos. Mas a maioria das pessoas considera a saudade daqueles que se foram a mais intensa de todas.

A saudade está diretamente relacionada a quanto gostamos de alguém ou de alguma coisa. Sentir saudade é tentar reviver ou reencontrar sem realmente fazê-lo. É um sentimento que mistura a felicidade da nostalgia com a tristeza da separação. E ele pode ser estressante e traumático, algumas vezes. E será que a tecnologia pode ajudar a melhorar o modo com o qual lidamos com esse sentimento?

Na Medicina, convivemos muito com a morte. E o modo como os pacientes e seus familiares lidam com ela é de suma importância. Algumas doenças, dentre elas alguns tipos de câncer, são ameaçadoras à vida e trazem sofrimento. Entretanto, ao longo da vida, o paciente que tem um apoio maior pode fazer com que a sua passagem, caso ocorra, seja menos sofrida, reforçando mais o saudosismo do que a tristeza da sua falta para sua família e amigos. Nesse caso, o suporte multiprofissional na linha do cuidado da Oncologia é imprescindível. A conversa com o seu médico sobre o prognóstico da doença e objetivos do tratamento, as consultas psicológicas, o suporte social, assim como o auxílio da equipe da nutrição na relação com a comida, são todos aspectos que ajudam – e muito – a lidar com a finitude.

Outro ponto crucial, ao meu ver, é como abordar o tema. Devemos reduzir o tabu de falar da morte no consultório, pois só assim conseguiremos que nossos pacientes possam se preparar melhor, seja emocionalmente, seja financeiramente, melhorando a qualidade de vida, mas também a qualidade de morte. É óbvio que isso não significa que desejamos a morte, mas, sim, que queremos que isto ocorra com dignidade. Um dos preceitos da Medicina é não fazer o mal antes de tudo, e evitar intervenções inúteis é talvez o mínimo que deveríamos fazer a quem nos procura.

Para os que ficam, é importante tratar o sentimento de saudade como algo nostálgico de bons momentos que foram vividos com aquela pessoa, diminuindo assim a tristeza intrínseca à situação. Claro que não é tarefa fácil e é por isso que também é importante o apoio psicológico ao luto com profissionais capacitados. Psicólogos podem abordar a família de modo contínuo, desde o diagnóstico até após a morte, a fim de reduzir os sofrimentos emocionais decorrentes.

A abordagem do luto é tema de discussão científica e a literatura mostra que o luto pode seguir dois caminhos: o da resolução para uma forma tolerável ou o luto não resolvido, sendo este último um distúrbio real.

Com o objetivo de tentar mitigar esse tipo de problema, alguns estudos têm tentado utilizar “machine learning” para entender melhor e ajudar os profissionais a tratarem mais efetivamente o luto. Por exemplo, alguns dados mostram, por meio do uso de modelos computacionais, que homens têm maior potencial de um sofrimento agudo, enquanto as mulheres tendem a viver o luto de forma mais tardia ou prolongada.  Outro achado desses estudos foi o de que dor total e solidão são mais comuns em pacientes em luto patológico e isso espelha também os sentimentos relacionados a outra situação de rompimento, o divórcio. Ambos são perdas e denotam um padrão de reação do organismo a elas.

Neste contexto, o uso da inteligência artificial (IA) parece bastante promissor e pode ajudar a definir padrões de sintomas relacionados ao luto. A IA pode juntar dados de consultas médicas com expressões faciais, timbre vocal e características motoras para auxiliar a equipe multiprofissional a tratar melhor o luto patológico. Assim, podemos integrar a abordagem holística com a ciência a fim de oferecer o tratamento ideal para os pacientes.

 

Referência:

Malgaroli M, Maccallum F, Bonanno G. Machine yearning: How advances in computational methods lead to new insights about reactions to loss. Curr Opin Psycho. 2022;43:13-7 (https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2352250X21000683?via%3Dihub)

 

Anticorpos-droga conjugados: duas boas notícias para pacientes com câncer de mama

Anticorpo-droga conjugado (ADC): você sabe o que é? É um novo tipo de medicação com um mecanismo de ação diferente e que tenta aliar maior eficácia a menos efeitos colaterais. E o mês de outubro trouxe duas grandes novidades em ADCs para câncer de mama: um lançamento para câncer de mama e uma nova indicação de outro ADC para um tipo específico de câncer de mama. Na esteira do Outubro Rosa foram notícias importantes para as pacientes.

Para entender o que são ADC, temos que pensar um pouco como uma chave e uma fechadura. Para cada chave, existe uma fechadura em que ela se encaixa e abre a porta. No caso, o ADC, como o próprio nome diz, é composto por um anticorpo “grudado” em uma molécula de quimioterapia. Cada ADC tem um anticorpo (chave) direcionado para um tipo de célula tumoral (fechadura) que ele quer atacar. Então, ao entrar no corpo, o ADC se liga e entra naquele tipo de célula específico, levando junto a quimioterapia, o que resulta em morte celular. Isso faz com que menos células “normais” do corpo sejam afetadas e o tratamento seja, portanto, mais direcionado e efetivo, além de provocar menos efeitos colaterais.

Uma das aprovações foi de uma medicação para pacientes com câncer de mama do tipo HER-low, que são pacientes metastáticas que têm uma baixa expressão da proteína HER2. O transtuzumabe-deruxtecana (Enhertu®) chegou recentemente ao Brasil inicialmente para pacientes com tumores HER2 positivo e, agora no final de outubro, a ANVISA incluiu a nova indicação com base nos dados do estudo Destiny-Breast-04, o que vai fazer com que mais pacientes se beneficiem. O anticorpo trastuzumabe é direcionado à proteína HER2 e a deruxtecana é a quimioterapia que a acompanha. O estudo mostrou que pacientes com HER2-low, que receberam um ou mais linhas de tratamento, independentemente da expressão hormonal, tiveram uma redução de 36% do risco de morte. Esse dado é surpreendente, já que se trata de um cenário em que a sobrevida dos pacientes já é relativamente mais longa e essa nova opção de tratamento traz melhores perspectivas para elas.

A outra aprovação foi de uma medicação que ainda não era comercializada no Brasil, o Sacituzumabe-govitecana (Trodelvy®). É um ADC composto de um anticorpo anti-Trop2 e um inibidor de topoisomerase I (quimioterapia) e é indicado para pacientes com câncer de mama triplo negativo metastático. A ANVISA aprovou com base no estudo ASCENT comparou esta medicação com quimioterapia padrão para pacientes que tivessem progredido a duas ou mais linhas de tratamento e mostrou uma redução de 52% do risco de morte, quase duplicando o tempo mediano de sobrevida. Tal resultado é impressionante, já que se trata de um tipo de tumor agressivo e com tempo de vida mais curto. O medicamento ainda será precificado antes de poder ser oferecido aos pacientes, o que deve levar de 1 a 3 meses.

Essas duas novidades são de extrema importância para esses cenários e aumentam as oportunidades de estender cada vez mais a qualidade de vida das pacientes, preservando a qualidade de vida. Importante lembrar ambas as drogas, por serem endovenosas, são de cobertura obrigatória pelos planos nas suas respectivas indicações. Lembrando que, infelizmente, nenhuma dessas está disponível no SUS, o que aumenta cada vez mais a realidade dos pacientes do sistema público, sempre prejudicados com falta completa de acesso a diversos tratamentos novos.

 

Referências:

https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2203690

https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2028485

 

 

Dia Mundial de Cuidados Paliativos

No dia 08 de outubro, comemoramos o Dia de Cuidados Paliativos e, neste ano, o tema da Campanha Mundial é focada na experiência da dor do luto. É um assunto muito importante e que deve ser abordado de forma intensa e contínua por todos os médicos no mundo, já que milhões de pessoas morrem no mundo anualmente. Aliviar o sofrimento dos pacientes é primordial!

É muito triste que ainda haja um enorme preconceito em relação ao tema, tanto dos leigos quanto dos profissionais da saúde. Muitas vezes ouvimos que “cuidados paliativos” é “não fazer nada ao paciente” ou “é deixar o paciente morrer”. Essa ideia é ultrapassada e deve ser combatida com todas as nossas forças. Por este e outros motivos, o cuidado paliativo é uma necessidade não atendida no mundo inteiro.

Os cuidados paliativos são um conjunto de intervenções que auxiliam no bem-estar e qualidade de vida dos pacientes com doenças graves e incuráveis, o que inclui alguns pacientes com câncer. A abordagem deve incluir não só aspectos da doença, mas também espirituais, sociais, da vida cotidiana e dos valores de cada paciente e de seus familiares e amigos.

O início de cuidados paliativos mais precocemente está associado não só a um aumento da qualidade de vida, mas também do tempo de vida. Isso mesmo, os pacientes que recebem cuidados paliativos mais cedo vivem mais e melhor!

O luto é um tabu que temos que abordar. A vivência do luto é muitas vezes negligenciada, mas é um momento que os familiares e amigos precisam de um apoio da equipe, principalmente da parte psicológica.

Com as mais de 6 milhões de mortes por COVID-19 no mundo, o luto mal vivido tornou-se um grande problema que devemos tentar resolver com o apoio de toda a equipe multidisciplinar, além de muita empatia e compaixão. Muitas pessoas não conseguirem se despedir dos seus entes queridos.

A abordagem de saúde pública para o luto vai de terapias psicológicas específicas, passando por programas de apoio, e chegando a ao apoio compassivo. Toda a sociedade tem que se mobilizar para tornar essa experiência menos traumática. Políticas flexíveis nas empresas, grupos de apoio ao enlutado, educação sobre o assunto e um maior acesso a programas de cuidados paliativos são estratégias que podem ajudar.

Isso tudo depende também de investimentos dos governos em estrutura e recursos humanos, um outro objetivo da campanha. Promover o luto saudável ajuda a quem está vivendo e melhora o bem-estar da população.

Neste dia 8 de outubro, convidamos todos compartilharem experiências pessoais (anônimas) sobre o luto. O dividir ajuda a curar. A empatia gera empatia e, assim, podemos ajudar quem viveu ou vive um processo de luto da sua vida.

 

A queda do rol taxativo da ANS: o que muda para os pacientes?

No dia 21 de setembro foi publicada a Lei que torna o rol da ANS exemplificativo, não mais taxativo. Mas, o que isso muda na vida dos pacientes com câncer?

A queda de braço entre os planos de saúde, ANS e sociedade não é tão recente.

Desde a implantação do rol da ANS, na virada do século, muito tem se discutido sobre o seu papel, principalmente quando se notou que tratamentos eficazes estavam levando anos para chegar aos pacientes por conta da burocracia de incorporação no rol.

Como temos falado em outras matérias, o rol da ANS é uma lista de tratamentos que devem ser obrigatoriamente cobertos pelos planos de saúde do Brasil. Essa lista inclui desde dispositivos e procedimentos cirúrgicos, até medicações orais oncológicas.

Lembramos aqui que o processo para obrigar os planos a pagarem por tratamentos orais, até o início do ano, consistia em aprovação da Anvisa (geralmente levava 6 meses) e, em sequência, aprovação pela ANS (que podia se estender por mais de 3 ou 4 anos).

No ano passado, vimos o Projeto de Lei 6.330/2019 ser derrubado por veto presidencial. Este PL acabaria definitivamente com o rol e obrigaria os planos a cobrirem quaisquer tratamentos, desde que fossem aprovados pela Anvisa.

Como meio-termo, no início deste ano foi aprovada a Medida Provisória 1.067/2021, que vem mostrando resultado da redução do tempo para aprovação de drogas orais em Oncologia de muitos anos para poucos meses. O processo tem se mostrado mais ágil e deixa o cenário do sistema privado de saúde no Brasil mais alinhado com a melhor prática científica mundial. Mas o rol ainda persistia.

No dia 8 de junho, o Supremo Tribunal de Justiça havia decidido pela taxatividade do rol da ANS e houve bastante repercussão da mídia. Naquela oportunidade, segmentos da sociedade se manifestaram com indignação e isso gerou um novo Projeto de Lei, denominado PL 2.033/2022, que foi rapidamente aprovado tanto na Câmara quanto no Senado e, por fim, sancionado na semana passada, transformando-se na Lei 14.454 de 2022. Este é um marco para a saúde suplementar no Brasil e vamos entender o porquê.

Esta lei aprovada altera a função do rol da ANS. A lista, em vez de taxativa, tornou-se exemplificativa. Isto quer dizer que ela é agora um conjunto de tratamentos “básicos” que a operadora deve cobrir. Porém, a cobertura de outros tratamentos fora deste rol não deve ser negada, contanto que tenham eficácia comprovada cientificamente ou sejam recomendados por alguma diretriz científica de renome internacional ou sejam recomendados pela Conitec.

E isso melhora as coisas para os pacientes? Sim, é, sem dúvida, uma grande vitória. Entretanto, na prática, os oncologistas já têm para si que, quando uma medicação não está disponível no rol, não deve ser prescrita de rotina para pacientes de planos de saúde, a não ser que não haja outra opção adequada. Nesse caso, já é comum que haja solicitações extraordinárias, que – quando bem embasadas cientificamente – são muitas vezes aprovadas pelos planos de saúde, que o fazem a fim de não prejudicar o paciente e evitar judicializações, aprova o pedido. O que muda agora é que, muito provavelmente, o acesso ficará mais fácil, com a redução das negativas por parte das operadoras.

O lado sombrio disso tudo, infelizmente, existe. Tal mudança impactará em várias operadoras de saúde, o que provavelmente culminará em aumento de preços dos planos, falência de alguns – notadamente os menores – e, talvez, redução do acesso à saúde privada pela população brasileira, tão castigada com o aumento recente de preços. A discussão é longa e complexa.

Reforçamos aqui que a simples existência do rol já é algo que questionamos, pela diferenciação que ocorre entre tratamentos injetáveis (que não necessitam do rol) e orais. O caminho talvez seja um novo modelo de aprovação de medicamentos no Brasil, que abranja os sistemas privado e público e leve em consideração as capacidades financeiras do nosso país.

Enquanto temos essas discussões produtivas sobre o sistema privado, continuamos lembrando que, no SUS, o cenário tem se tornado cada vez mais sombrio, com acesso extremamente restrito a diversos tipos de tratamento contra o câncer, tendo em vista a falta de gestão e redução do financiamento.

Referências:

https://legis.senado.leg.br/norma/36359942/publicacao/36361187

https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2022/08/29/senado-aprova-obrigatoriedade-de-cobertura-de-tratamentos-fora-do-rol-da-ans