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Estudos recentes demonstram que cabeleireiros têm maior risco de desenvolver câncer

Um conjunto de pesquisas internacionais, incluindo um recente e impactante estudo brasileiro publicado na Environmental Research, destaca o risco elevado de câncer entre cabeleireiros devido à exposição a produtos químicos carcinogênicos. Este estudo brasileiro é um dos primeiros a investigar a mortalidade por câncer específica entre cabeleireiros no Brasil, revelando taxas de mortalidade alarmantemente altas em comparação com outros trabalhadores, enfatizando a urgência de políticas de segurança e saúde ocupacional mais rigorosas.

Principais descobertas globais e do estudo brasileiro:

 

  • Risco elevado identificado pela IARC: A Agência Internacional para Pesquisa do Câncer (IARC) classificou a ocupação de cabeleireiro como “provavelmente carcinogênica para humanos” (Grupo 2A), especialmente em relação ao câncer de bexiga e pulmão.

 

  • Dados do estudo brasileiro: o estudo realizado no Brasil mostrou que cabeleireiros têm uma probabilidade significativamente maior de morrer de vários tipos de câncer, com mulheres cabeleireiras enfrentando riscos ainda maiores. Este estudo também revelou a ocorrência de mortes prematuras notáveis entre esses profissionais.

 

  • Contexto global e recomendações: outros estudos internacionais, como os da Occupational and Environmental Medicine, corroboram esses achados, ressaltando a necessidade de estratégias preventivas e regulamentações mais efetivas para proteger os cabeleireiros de riscos ocupacionais nocivos.

 

Implicações para políticas públicas

Os resultados desses estudos reforçam a necessidade de uma ação imediata para implementar regulamentações mais rígidas e medidas de proteção no local de trabalho, garantindo que cabeleireiros possam realizar seu trabalho de forma segura. As autoridades de saúde e os responsáveis pela regulamentação devem ser chamados a rever e fortalecer as normas de segurança para prevenir a exposição a substâncias perigosas.

 

Para mais informações sobre o estudo brasileiro e acesso a dados globais, visite nosso site e o link do estudo:
https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0013935123027469?via%3Dihub

 

Dia Mundial do Combate ao Câncer – Alerta para necessidade de vida saudável

As datas são próximas e essa não é uma coincidência. O Dia Mundial da Saúde e o Dia Mundial do Combate ao Câncer – celebrados nos dias 7 e 8 de abril – estão intimamente ligados e essa relação vem sendo reforçada já há algum tempo em todo o mundo. Para se ter uma ideia, pacientes com câncer estão incorporando a atividades física ao tratamento e os resultados têm sido positivos e comprovados cientificamente. Um estudo publicado na revista JAMA em julho de 2023 aponta que 3,5 minutos de exercícios físicos vigorosos por dia podem reduzir em 18% o risco de desenvolver câncer. Se a intensidade e a duração do treino forem aumentadas para 4,5 minutos diários, o risco de câncer diminui em até 32%. O estudo, liderado pelo Dr. Emanuel Stamatakis, da Universidade de Sidney, na Austrália, é resultado do acompanhamento de mais de 22 mil adultos.

De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA), o Brasil deve registrar até 2025, 704 mil novos casos por ano da doença, sendo 70% deles concentrados na região sudeste do país. O câncer está entre as doenças que mais matam no mundo e, ainda assim, é considerada uma doença crônica no Brasil, recebendo o mesmo aporte de outras doenças bem menos complexas.  Para os oncologistas brasileiros, o Dia Mundial do Combate ao Câncer, vem cercado de desafios e o primeiro deles é conscientizar as pessoas sobre a necessidade da mudança do estilo de vida. André Sasse, oncologista clínico e CEO do Grupo SOnHe explica que cada vez mais as evidências comprovam que uma vida saudável pode ajudar a prevenir muitos tipos de câncer e a tratar outros tantos. “É claro que temos condições genéticas que não podem ser descartadas, mas, de maneira geral, a pessoa que é ativa tem menos chance de desenvolver câncer e o paciente que incorpora a vida saudável, mesmo que durante o tratamento, responde de maneira ainda mais satisfatória”, pontua o oncologista.

A expectativa é de que ano de 2024 apresente números mais reais no que se refere ao diagnóstico de novos casos de câncer, já que é o primeiro ano sem os reflexos da pandemia. O aumento da expectativa de vida dos brasileiros é outro fator que deve ser levado em consideração e que, a longo prazo, impactará a forma de lidar com a doença. Para André Sasse, oncologista clínico e CEO do Grupo SOnHe, o aumento no número de casos de câncer no Brasil, seja derivado do represamento de diagnósticos no período da pandemia ou em função do aumento da expectativa de vida dos brasileiros, indica a necessidade de uma mudança na forma de lidar com a doença. “Precisamos reconhecer o câncer como um problema de saúde púbica nacional, que precisa de uma política específica, mas também precisamos entender que a prevenção existe e pode ser incorporada à rotina por meio da mudança de estilo de vida”, explica Sasse.

A prevenção ao câncer por meio de uma vida mais saudável está relacionada a algumas alterações na rotina, como a incorporação da atividade física no dia a dia, a redução no consumo de álcool, tabaco e de carne vermelha, que, comprovadamente, pode ser responsável pelo desenvolvimento de um tipo específico de câncer. Para André Sasse, movimentos como a segunda-feira sem carne são importantes para que as pessoas reflitam sobre o que estão construindo para o futuro. “A vida moderna nos apresenta uma realidade mais fácil do ponto de vista da praticidade em função da tecnologia. Por outro lado, esse imediatismo nos desconecta de nós mesmos, da nossa saúde. E é preciso que o cuidado seja constante”, pontua o oncologista.

 

 

 

 

 

8 de setembro – Uma reflexão sobre o Dia Nacional da Luta por Medicamentos

4No Brasil e no mundo, a tecnologia médica avança a passos largos, trazendo esperança e novas possibilidades de tratamento. Do emprego de testes moleculares até a adoção da cirurgia robótica, somos testemunhas de uma revolução no diagnóstico e tratamento do câncer. No entanto, as sombras da burocracia, infraestrutura deficiente e desigualdade no acesso à saúde ainda lançam um véu sobre esses avanços.

É indiscutível: nosso orçamento para a saúde, seja pelo SUS ou pela saúde suplementar, é limitado. E em um cenário de escassez de recursos, a eficiência se torna imperativa. E, aqui, os profissionais de saúde encontram um novo desafio: como equilibrar as melhores práticas médicas com os recursos disponíveis?

Em tempos anteriores, o médico se preocupava unicamente com a busca pela excelência técnica, recomendando tratamentos que julgasse serem os melhores. Mas o panorama atual, com medicamentos e procedimentos de alto custo, exige mais do que apenas a busca pelo ideal; requer discernimento. Surge, então, a Medicina Baseada em Valores, um paradigma que busca harmonizar a evidência científica, a expertise do médico, a realidade do sistema de saúde e, claro, as necessidades e valores do paciente.

Neste cenário, agências reguladoras – como a Anvisa, ANS e Conitec – surgem como pilares na Avaliação de Tecnologias em Saúde (ATS). Mas, infelizmente, a integração entre esses órgãos deixa a desejar, resultando em políticas fragmentadas e por vezes contraditórias. A distância entre essas agências e os especialistas médicos também é grande, causando distorções em questões técnicas e econômicas.

O tratamento do câncer ilustra esse problema. Por exemplo, a diferenciação entre medicamentos injetáveis e orais afeta diretamente o acesso do paciente ao tratamento, dadas as distintas normativas de cobertura. Além disso, tratamentos inovadores e de alto custo, como terapias-alvo, anticorpos conjugados a drogas e imunoterapia, enfrentam barreiras no SUS, apesar de evidentes vantagens em segurança e eficácia em comparação a terapias hoje disponíveis.

Estas desigualdades ampliam o abismo entre os sistemas de saúde público e privado, deixando muitos pacientes em situações desesperadoras e sem acesso a tratamentos eficazes.

Porém, não podemos nos limitar a criticar ou desviar das adversidades. A solução exige um enfoque colaborativo. Os profissionais de saúde devem ser capacitados em Medicina Baseada em Valores, e todos os atores envolvidos – governo, indústria farmacêutica, médicos e pacientes – devem contribuir no debate. Afinal, escolhas informadas e unificadas iluminarão o caminho adiante.

 

Ozonioterapia no Brasil: faltam evidências científicas

Diante da recente sanção que autoriza a prática da ozonioterapia no Brasil, sinto a necessidade de me posicionar. Faço isso baseado em princípios científicos sólidos, minha experiência médica e como avaliador de tecnologias, além da responsabilidade para com a saúde pública de nosso país. A sanção desta lei, a meu ver, é profundamente preocupante pelos seguintes motivos:

1. Falta de evidência científica robusta:
A essência da medicina moderna é a prática baseada em evidências. Hoje, não dispomos de estudos randomizados, com desenho robusto e revisados por pares, que respaldem a eficácia da ozonioterapia em qualquer condição clínica ou doença. Na pirâmide de confiabilidade das evidências, relatos isolados e testemunhos pessoais situam-se na base, servindo como pontos iniciais de investigação, e não como conclusões.

2. Monetização da esperança:
A decisão de liberar a ozonioterapia alimenta, infelizmente, uma indústria que se beneficia da vulnerabilidade dos pacientes. Que lucra com a esperança e desespero de pessoas doentes. A medicina exige ética, clareza e honestidade. Oferecer certezas quando só existem riscos e benefícios que devem ser balanceados, é, na melhor das hipóteses, antiético.

3. O incentivo à indústria predatória da medicina alternativa:
Esta lei pode inadvertidamente legitimar atividades que carecem de comprovação científica. A possibilidade de aplicação da ozonioterapia por profissionais não médicos fomenta um mercado já saturado de cursos de medicina alternativa sem fundamento na literatura. A promessa de eficácia sem a devida comprovação embasa-se em charlatanismo, e não em ciência.

4. Utilização de recursos públicos em tecnologias questionáveis:
Em um cenário de saúde pública com recursos limitados e desafios infinitos, a avaliação de custo-efetividade é fundamental, e cada investimento deve ser meticulosamente avaliado quanto ao seu custo comparado à sua eficácia. Mesmo tratamentos de “baixo custo” que não demonstram eficácia são, na realidade, caros para a sociedade, pois desviam recursos de intervenções comprovadamente benéficas.

5. Riscos associados:
A ausência de comprovação sobre a segurança da ozonioterapia é, por si só, alarmante. Mais preocupante ainda é a perspectiva a possibilidade de que pacientes vejam na ozonioterapia uma alternativa primária de tratamento, em detrimento de abordagens com eficácia conhecida, especialmente quando posicionada como uma terapia complementar, que pode ser vista como terapia alternativa.

Finalizo reforçando que o coração da medicina é, e sempre deve ser, o bem-estar do paciente, fundamentado em evidências confiáveis. Infelizmente, a ozonioterapia não se enquadra neste critério, e urge que profissionais médicos e a sociedade civil estejam cientes dos riscos inerentes à sua adoção sem o devido respaldo científico.

 

 

26 de agosto: Dia Internacional da Igualdade Feminina

Todas as mulheres são iguais! Pacientes do SUS e de planos privados merecem equidade de tratamento

No dia 26 de agosto é comemorado o Dia Internacional da Igualdade Feminina. Muito se tem falado a respeito da igualdade de gênero e de equidade salarial. Porém, e sobre a saúde da mulher, qual o tipo de igualdade é abordado? Infelizmente o acesso aos serviços de saúde e a qualidade da assistência ofertada às mulheres está longe de ser igual para todas. Desta forma, ainda existe, conforme apontado pelo médico, forte desigualdade entre as próprias mulheres no que diz respeito ao cuidado com a saúde.

Quando falamos sobre o câncer de mama no cenário brasileiro, por exemplo, as taxas de mortalidade estão diretamente relacionadas ao acesso aos serviços de saúde e à qualidade da assistência ofertada às mulheres. No mundo, as estimativas de sobrevida em cinco anos mostraram uma tendência de aumento em países desenvolvidos; no Brasil, principalmente entre as mulheres que dependem da saúde pública, isso não é observado.

Dados do importante estudo Concord-3 (ALLemANI, 2018) mostram que, no Brasil, as estimativas de sobrevida em cinco anos foram de 76,9% para o período de 2005 a 2009 e caíram para 75,2% para o período de 2010 a 2014.

Algumas diferenças são reveladas quando os casos são comparados por regiões do país nos últimos três anos de atualização da base de dados. A proporção de casos classificados como doença avançada (estádios III e IV) antes do início do tratamento é maior na região Norte (50,1%). Nas regiões Sul e Sudeste, a proporção de mulheres que chegam ao hospital com doença inicial (estádios 0, I e II) é de 66,6% e 65,1%, respectivamente.

Quando são analisadas as informações considerando a escolaridade da mulher o cenário muda consideravelmente. Conforme aumenta o nível de escolaridade, cresce a proporção de casos que iniciam o tratamento em até 60 dias após o diagnóstico. Claramente, as mulheres com mais acesso às informações e aos serviços de saúde recebem mais rapidamente o tratamento.

O câncer de mama é um dos desafios no cenário atual de envelhecimento populacional e enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis no Brasil. É o tipo de câncer que mais acomete as mulheres no Brasil e, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), as estimativas de incidência para o ano de 2022 são de 66.280 casos novos. Na mortalidade proporcional por câncer em mulheres, no período 2016-2020, os óbitos por câncer de mama ocupam o primeiro lugar no país, representando 16,3% do total.

8 de abril – Dia Mundial de Combate ao Câncer

André Sasse

CRM 91.384

 

Todos sabemos que o número de casos novos de câncer tem subido consideravelmente, a cada ano. No mundo, e no Brasil. Isso se deve ao envelhecimento da população, à diminuição da mortalidade por outras causas, e à manutenção de maus hábitos de vida associados ao tabagismo, etilismo, sedentarismo e obesidade.

Por outro lado, sobe ainda mais rápido o número de pessoas vivendo com câncer no mundo. Isso porque a medicina baseada na ciência evoluiu muito, e novas estratégias de tratamento surgiram para controlar por mais tempo os diferentes tipos de câncer quando não são mais curáveis com cirurgia ou outros tratamentos focais.

Esse número crescente da prevalência de pessoas vivendo com câncer coloca uma pressão grande nas fontes de financiamento de tratamentos em geral. No Brasil vivemos uma situação que beira a insustentabilidade. Seja no Ministério da Saúde, que não tem organizado um programa nacional de saúde voltado ao câncer, seja na ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), que tem atuado somente como barreira de incorporação de novas tecnologias à lista de cobertura obrigatória pelos planos de saúde.

Novos medicamentos, então, têm sido efetivos em proporcionar melhores chances de cura, de uma vida mais longa e, principalmente, de uma vida melhor. No entanto, o custo, o preço a ser pago, têm sido altos. E o acesso a essas novas tecnologias é, hoje, um desafio de todos. Especialmente neste Dia Mundial de Combate ao Câncer é fundamental que falemos de acesso aos avanços que a ciência nos proporciona.

A Anvisa tem feito um trabalho sensacional, ao revisar as evidências científicas, avaliar as condições de fabricação, além de todo processo de produção e entrega dos novos medicamentos. Mas essa excelência termina no registro do produto no Brasil.  Após aprovação e registro nacional, o sistema de precificação é ultrapassado e não leva em conta o real valor dos novos produtos. E as agências regulatórias, que envolve além da ANS também a CONITEC (que avalia tecnologias no SUS) são erguidas apenas como um bloqueio, não usando inteligência ou negociação para facilitar o acesso à população.

Temos que trabalhar em várias frentes, porque o número de pacientes com câncer não vai diminuir. Temos que curar mais, fazendo mais diagnósticos precoces. Mas principalmente temos que rediscutir os preços dos novos medicamentos a serem registrados no Brasil. Temos que definir como sociedade qual o preço justo, que reflita os valores entregues, e que justifique um investimento estruturado e inteligente. Um programa nacional de “combate” ao câncer envolveria toda a jornada de vida de uma pessoa com câncer. Pensando nos momentos de escolha, de decisões e de manutenção da qualidade de vida.

Mas, infelizmente, inteligência e bom senso têm sido qualidades cada vez mais raras nas nossas lideranças públicas atualmente.

 

Terapia Ocupacional: do conceito à prática oncológica Uma profissão jovem, que neste ano faz 53 anos no Brasil

Histórico no Mundo

O termo Terapia Ocupacional surgiu no início do século XX, e deve-se a um arquiteto americano, George Barton, que foi o impulsionador de uma instituição, localizada em Clifton Springs (New York), onde as pessoas eram reeducadas por meio da ocupação, de modo a readquirirem um sentido para a vida. Foi aí que a Terapia Ocupacional se desenvolveu formalmente como profissão.

 

Início nos EUA

A primeira pessoa a criar um curso de treinamento que poderia ser identificado como precursor da profissão de Terapia Ocupacional foi Susan Tracey, enfermeira-chefe do Adams Nervine Hospital de Boston (EUA), em 1906.  Paralelamente, em 1908, na Chicago School of Civics and Philanthropy, iniciou-se um curso de treino ocupacional para preparar enfermeiras destinadas a trabalharem em instituições de saúde mental. E foi também nesta altura que se começaram a estruturar os fundamentos do que seriam utilizados pelo arquiteto George Barton como conceito de Terapia Ocupacional. É na altura da Primeira Grande Guerra (1914-1918) que a fisioterapia e a Terapia Ocupacional começam a existir como profissão.

Em 1915, foi criada a primeira escola para lecionar Terapia Ocupacional em Chicago, nos Estados Unidos da América.

 

Início na Europa

É como consequência do pós-guerra que se verifica o desenvolvimento da Terapia Ocupacional na Inglaterra, no cuidado de pessoas com das disfunções físicas, com a criação de departamentos de Terapia Ocupacional nos hospitais militares, pois era necessário reabilitar os jovens militares incapacitados durante a guerra.  O objetivo era não só físico, mas também social, de uma “nova” profissão para estes jovens com sequelas.

Em 1930, a Dra. Elisabeth Casson, após ter tido contato com as escolas americanas de New York e Boston, implementou na Dorset House Psyquiatric Nursing Home, em Bristol, a primeira escola de treino em Terapia Ocupacional na Europa.

 

Início no Brasil

No Brasil, somente em 1940, decorrente do Movimento Internacional de Reabilitação, começou o movimento para criação da especialidade. Órgãos como a Organização das Nações Unidas (ONU), Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura (UNESCO), difundiram leis protecionistas aos deficientes físicos e propuseram a implantação de programas específicos para a essa população.

Enquanto o movimento na Europa e EUA era baseado nos resultados das guerras, no Brasil havia a preocupação com os doentes crônicos como portadores de tuberculose, deficiência congênita, acidentes de trabalho e acidentes no trânsito. Assim, foi nesse contexto diferente que surgiu a Terapia Ocupacional no Brasil.

Assim, 46 anos após o início do movimento nos EUA, a ONU enviou para a América Latina emissários responsáveis para achar um local para ser implementado um centro de reabilitação, sendo escolhido o hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, em 1951.

Com recursos internacionais recebidos entre os anos de 1956 e 1965 para preparar um responsável técnico local para assumir o serviço, após todo treinamento, foi escolhida Maria Auxiliadora Cursino Ferrari, formada inicialmente em Pedagogia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (em 1955), e posteriormente graduada em Terapia Ocupacional pela Universidade de São Paulo – USP (em 1965).

Em 1959, iniciou-se a formação “técnico de alto padrão” em fisioterapia e terapia ocupacional com a duração de dois anos. Em 1963, deu-se a aprovação do currículo mínimo de 3 anos.

A história da profissão se confunde com a da terapia física, pois inicialmente fazia-se vestibular para terapia e só no 2º ano de curso optava-se por física ou ocupacional. Ambas as profissões foram criadas num único decreto no dia 13 de outubro de 1969.

 

A prática da Terapia Ocupacional em oncologia cuida não somente do corpo, mas também da alma e equilíbrio dos pacientes

Atualmente, o papel do Terapeuta Ocupacional é ligado à intervenção em saúde, em educação e na esfera social. Seu objetivo é focado em proporcionar melhor bem-estar e qualidade de vida a pacientes que apresentam limitações funcionais e/ou dificuldades na inserção e participação da vida social.

As intervenções em terapia ocupacional têm como foco principal as atividades cotidianas e ocupações, elemento centralizador e orientador, na construção complexa e contextualizada do processo terapêutico, facilitando e garantindo o desempenho do sujeito nas suas atividades e ocupações e na manutenção de sua participação ativa na vida.

A terapia ocupacional está inserida nos diversos serviços ofertados, participando da atividade de acolhimento multiprofissional, atendimento ambulatorial, acompanhamento de pacientes internados e, quando necessário, visitas domiciliares.

Especificamente na oncologia, como exemplo, a Terapia Ocupacional pode orientar a realização de atividades que ajudam a controlar dores e incômodos, sejam elas monitoradas ou não. Também aprender a ter um bom posicionamento na cama ao dormir ou a postura certa ao se sentar ajuda no alívio do estresse. E, quando o paciente apresenta falta de ar, podem fazer exercícios que trabalhem a respiração, no sentido de normalizá-la. Com a orientação adequada, algumas atividades podem ser facilmente realizadas pelo paciente em sua casa ou nos horários de lazer. E aí qualquer coisa vale, porque tem que ser aquela que agrade a cada um. Uns vão preferir fazer natação, outros pintura, outros pilates. O importante é ter o acompanhamento do oncologista ou onco-hematologista responsável, para saber se não há restrições.

Outro ponto importante é buscar dar ao paciente o máximo de independência possível, mantendo suas atividades do dia a dia. Mesmo em fases de maior debilidade, isso deve ser incentivado, ainda que em pequenas atitudes, como tomar banho e escovar os dentes.

De acordo com o rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (RN 465/2021), os planos de saúde são obrigados a cobrirem assistência com o terapeuta ocupacional, mas não especificamente em oncologia. A cobertura mínima obrigatória é de 12 sessões, por ano de contrato, quando preenchido pelo menos um dos seguintes critérios:

 

  1. pacientes com diagnóstico primário ou secundário de demência (CID F00 à F03);
  2. pacientes com diagnóstico primário ou secundário de retardo (CID F70 à F79);
  3. pacientes com diagnóstico primário ou secundário de transtornos específicos do desenvolvimento (CID F82, F83);
  4. pacientes com disfunções de origem neurológica (CID G00 a G99);
  5. pacientes com disfunções de origem traumato/ortopédica e reumatológica (CID M00 A M99).

 

Para saber mais:

https://crefito12.org.br/100-anos-da-terapia-ocupacional/

https://www.gov.br/ans/pt-br/arquivos/assuntos/consumidor/o-que-seu-plano-deve-cobrir/Anexo_II_DUT_2021_RN_465.2021_TEA.AL.pdf

 

Câncer de próstata na população negra: mais uma face da desigualdade

Dados de estudo populacionais mostram que homens negros têm 50% mais chance de desenvolverem câncer de próstata do que homens brancos. Além disso, e pior, a chance de um paciente negro morrer por câncer de próstata é duas vezes e meia maior do que um branco.

Várias pesquisas clínicas foram conduzidas para tentar entender essa diferença. E até hoje não se conseguiu comprovar que há alguma diferença biológica, como por exemplo a existência de algum gene que predisporia um subtipo mais agressivo da doença. Indo mais a fundo, em estudos clínicos controlados, nas quais todos os pacientes seguem rigorosamente os mesmos processos de tratamento e seguimento, para avaliação de novas medicações, não se vê diferença na agressividade e mortalidade pela doença, de acordo com questões raciais.

Dados mais recentes sugerem que homens negros aparentemente não são portadores de doenças biologicamente e intrinsecamente mais agressivas. No entanto, fazem menos exames de rastreamento como PSA, e mais frequentemente fazem diagnósticos mais tardios, em estádios mais avançados. Homens negros também têm mais dificuldade de conseguir manter hábitos saudáveis de vida, como alimentação balanceada e atividades físicas regulares. E, por isso, também são mais portadores de doenças crônicas como hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares. Também têm menos acesso a especialistas após o diagnóstico, são mais dependentes do Sistema Único de Saúde e estão mais distantes de novas tecnologias. Ou seja, a disparidade devido às questões socioeconômicas e educacionais pode explicar os números vistos na população.

É importante lembrar que dados como esses são difíceis de serem levantados de forma confiável, tanto pela complexidade das iniquidades socioculturais relacionadas à heterogeneidade da população quanto até à dificuldade de definição de quem é branco e quem é negro, em populações em que a miscigenação ocorreu de forma tão intensa quanto no Brasil.

Considerando que ainda no ano de 2020, um quarto dos homens não fazem exames de rastreamento do câncer de próstata porque acreditam que os procedimentos afetariam sua masculinidade, o caminho a se percorrer é longo. Começa com educação da população a respeito da importância do diagnóstico precoce. E passa pela melhora nos processos de diagnóstico e tratamento no sistema de saúde público brasileiro.

Um dos exemplos mais evidentes está relacionado com a distribuição dos aparelhos de radioterapia, terapia importante e muito utilizada para cura de doenças localmente mais agressivas. Seis em cada dez pacientes vão ter, em algum momento, indicação de tratamento com radioterapia. Mas o número de aparelhos no país é insuficiente para atender a demanda. E são mal distribuídos: dos equipamentos disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS), 55% estão na região Sudeste, 19% na região Sul, 13% no Nordeste, 7% no Centro-Oeste e apenas 6% na região Norte.

Há muito o que se fazer, em busca da diminuição das desigualdades. A reflexão sobre como chegamos nesse ponto é importante, mas fundamentais são as iniciativas para ampliar as opções terapêuticas no SUS, para melhor distribuir as tecnologias no território do país, e principalmente para eliminar as barreiras de acessos a profissionais especializados para toda a população.

André Deeke Sasse é formado em oncologia clínica pela Unicamp, oncologista, professor de pós-graduação na FCM-Unicamp, membro titular da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) e da Sociedade Europeia de Oncologia (ESMO). Fundador do Grupo SOnHe – Sasse Oncologia e Hematologia, e atua na oncologia do Radium Instituto de Oncologia, do Hospital Santa Tereza e do Hospital Madre Theodora.

Novembro Azul: muito além da prevenção e do diagnóstico precoce

As campanhas mais populares visam estimular o autocuidado, o diagnóstico precoce. O homem tradicional muitas vezes associa, mesmo que inconscientemente, cuidados com saúde à fraqueza, a uma menor masculinidade. Pesquisa recente mostra que cerca de um quarto dos pacientes com câncer de próstata já diagnosticados não faziam exames de rastreamento por associá-los à perda da virilidade.

Mas conhecer melhor as doenças permite que se participe das tomadas de decisão, como sociedade. E, pensando nos homens portadores de câncer de próstata recidivado, e que precisam de tratamento cronicamente, é importante aproveitar o mês de conscientização para alertar sobre uma possível mudança de cobertura de tratamentos pelos planos de saúde.

Está aberta, até 21 de novembro, a consulta pública número 81 da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Essa consulta pública visa apresentar e discutir com a sociedade propostas de atualização do Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde.

Esse Rol é a referência básica para a cobertura obrigatória pelas operadoras privadas de assistência à saúde, para os planos contratados a partir de 1º de janeiro de 1999. Quimioterapia convencional endovenosa e outros antineoplásicos injetáveis já têm cobertura obrigatória, definida por lei, desde que estejam registrados pela ANVISA e não sejam considerados experimentais. No entanto, antineoplásicos orais registrados no Brasil não são automaticamente cobertos, e dependem da inclusão da indicação após análise técnica da ANS. E essa avaliação é feita em ciclos, a cada dois anos.

No ciclo atual, foram analisadas 41 solicitações para indicações de antineoplásicos orais. Um documento técnico foi apresentado no início de 2020 e avaliado pela ANS ao longo do ano. A ANS apresentou um documento com 24 recomendações positivas e 17 recomendações pela não incorporação. No caso de uma não incorporação, os planos de saúde não são obrigados a fornecer o tratamento aos seus usuários e a aquisição daquele medicamento deve se dar por conta própria, com pagamento pelo próprio paciente.

Em câncer de próstata, foram solicitadas a inclusão de dois medicamentos para nos casos em que o PSA continua subindo após tratamento inicial com bloqueio hormonal, mas que não apresentam metástases. Esses medicamentos, Apalutamida e Enzalutamida, de mecanismo de ação semelhante, comprovadamente atrasam o surgimento de metástases, diminuem a necessidade de tratamentos mais agressivos, como quimioterapia, por exemplo, e aumentam significativamente a expectativa de vida dos pacientes.

A recomendação preliminar na nota técnica da ANS é favorável à incorporação e futura cobertura obrigatória pelos planos de saúde. Mas entidades e associações ligadas a algumas operadoras de saúde defendem a não incorporação desses medicamentos ao Rol, devido aos altos custos dos medicamentos. No entanto, especificamente pelos altos custos a incorporação é importante. Pois não havendo cobertura obrigatória, pacientes com câncer de próstata ou têm que comprar os medicamentos por conta própria ou ficam sem tratamento, aguardando o surgimento de metástases para enfim iniciar o tratamento.

Há preocupação de todos com o aumento dos custos dos tratamentos e o consequente aumento das mensalidades. Porém, muitas vezes tratar o câncer em uma fase não metastática pode até ajudar a reduzir os custos futuros, com complicações mais graves da doença.

Assim, a participação de todos é essencial. Não só no caso do câncer de próstata, em que é necessária uma reafirmação da recomendação preliminar positiva, mas também nos 17 casos em que houve recomendação contrária. A consulta pública é aberta no site da ANS (http://www.ans.gov.br/participacao-da-sociedade/consultas-e-participacoes-publicas/consulta-publica-n-81-atualizacao-do-rol-de-procedimentos-e-eventos-em-saude-ciclo-2019-2020/consulta-publica-n-81-contribuicao-para-recomendacoes-relacionadas-as-propostas-de-medicamentos). Especialistas e a população leiga podem e devem participar. Somente assim conseguiremos construir uma sociedade mais madura e lutar para futura inclusão desses medicamentos também no Sistema Único de Saúde (SUS).

8 de julho: Dia Nacional da Ciência

Afinal, de que vale a ciência, se não for para beneficiar e proporcionar qualidade de vida para a população?

Ciência é um substantivo feminino com significado de conhecimento atento e aprofundado de algo ou corpo de conhecimentos sistematizados adquiridos via observação, identificação, pesquisa e explicação de determinadas categorias de fenômenos e fatos, e formulados metódica e racionalmente.

Muitas vezes compreender a ciência não é tarefa fácil para profissionais de saúde e muito menos para a população em geral. Interpretar um artigo científico e entender sua relevância e aplicabilidade na prática clínica diária demanda muito estudo, conhecimento prévio, visão analítica e interpretação crítica da evidência apresentada.

Em momentos de insegurança da população, como é no caso da COVID-19, a tendência ao desespero na busca de resolução do problema, muitas vezes leva à interpretação errônea da ciência, o que favorece ao surgimento das chamadas fake news.

Entender o método científico, compreender a hierarquia de confiabilidade das informações, interpretar as evidências oriundas de estudos clínicos e aplicá-las à prática, seja de maneira individualizada ou para um grupo populacional, é fundamental para evitarmos consequências negativas de uso errôneo de medicamentos e estratégias de saúde pública.

Saber ler um estudo e transformar um linguajar técnico em um vocabulário coerente, compreensível a todos e que realmente faça a população entender benefícios ou riscos do medicamento proposto não é tarefa fácil. Mas só desta forma, quando há comprometimento com o ser humano e com a divulgação de informações de qualidade e relevantes para população, evitaremos informações sensacionalistas, muitas vezes erradas, e prestaremos um real serviço para as pessoas.

O profissional da saúde precisa saber se comunicar, precisa transformar o conteúdo da ciência para o dia a dia de seu consultório, estabelecendo uma relação de confiança com o paciente. Mas além do paciente, transformar a ciência em palavras de entendimento da população sem dúbia interpretação também é fundamental, principalmente em momentos como o que o mundo está passando hoje.