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O psicólogo na jornada do câncer

Aline Riguete

Psicóloga

Leonardo Silva

Oncologista Clínico

 

 

A chegada de um diagnóstico de câncer muitas vezes traz a sensação de que o chão se abre, de repente, sob os pés. A notícia chega de forma abrupta, muda o rumo dos planos e impõe uma nova realidade ao paciente e à sua família. Nesse momento, não são apenas os exames e os tratamentos que importam. Há também uma avalanche de emoções: medo, ansiedade, raiva, tristeza, incredulidade. Cada pessoa reage de um jeito, e nenhuma reação é “certa” ou “errada”.

Muitas vezes, a primeira reação é o silêncio. O paciente olha para o médico, escuta palavras como “tumor”, “quimioterapia”, “cirurgia”, mas não consegue assimilar. Depois, as noites em claro, perguntas sem resposta, pensamentos repetitivos. “E se eu morrer? E se eu não aguentar o tratamento? Como vai ficar a minha família?” “E o meu trabalho?”. É um momento em que o corpo e a mente parecem não falar a mesma língua: enquanto os exames apontam a doença, a mente tenta entender o que está acontecendo.

É nesse cenário que um profissional extremamente importante entra em ação: o psicólogo. Ele não chega para oferecer soluções mágicas nem frases prontas de otimismo. O que o psicólogo oferece, em primeiro lugar, é presença. Um espaço onde o paciente pode expressar suas emoções, verbalizar seus medos, tudo isso sem medo de ser julgado. É uma escuta qualificada que ajuda a organizar o caos interno e a dar nome às emoções. Nomear o que sentimos já é, muitas vezes, o primeiro passo.

 

O caminho do tratamento

Com o início do tratamento, a vida passa a girar em torno de consultas, exames, eventuais internações. O corpo muda: o cabelo pode cair, o paladar se altera, a energia diminui. Não são apenas efeitos colaterais, mas sinais visíveis de que algo profundo está acontecendo. A autoestima sofre, e muitos pacientes relatam não se reconhecer mais diante do espelho.

O psicólogo ajuda a reconstruir essa relação com o corpo, lembrando que ele não é um campo de batalha, mas sim um aliado. Além disso, paciente e psicólogo atuam em conjunto para elaborar a aceitação das mudanças temporárias, desenvolver estratégias para lidar com o medo e a ansiedade, e reduzir o sofrimento emocional que acompanha cada etapa da jornada.

E aqui vale destacar um ponto importante: o cuidado psicológico não melhora apenas o bem-estar. Estudos científicos mostram que pacientes com suporte emocional apresentam melhor aderência ao tratamento, têm menos sintomas depressivos e até enfrentam melhor os efeitos colaterais. Isso acontece porque mente e corpo não são duas entidades separadas: quando cuidamos de um, o outro também responde.

Famílias também precisam de suporte nessa fase. Muitas vezes, os familiares se colocam no papel de “pilares de força”, mas podem se sentir sobrecarregados. É comum que sintam culpa por estarem cansados ou por, em alguns momentos, desejarem uma pausa. O psicólogo lembra a eles que cuidar de si é também uma forma de cuidar do paciente.

 

Depois do tratamento: o retorno à rotina

Quando o tratamento termina, há um alívio evidente: as consultas ficam mais espaçadas, os exames se tornam menos frequentes, e o paciente é, muitas vezes, considerado em remissão. Mas junto com a alegria, surgem novas angústias. “E se o câncer voltar?”. Cada dor de cabeça, cada resfriado, pode reacender o alarme. É o que chamamos de ansiedade da recidiva.

Além disso, retomar a rotina pode ser mais difícil do que se imagina. O trabalho, as relações sociais, a vida amorosa, tudo parece diferente. O paciente já não é a mesma pessoa de antes, mas também não deseja ser definido apenas pelo câncer. Esse é um período delicado de reconstrução da identidade.

O psicólogo ajuda nesse processo, auxiliando o paciente a resgatar projetos de vida, a reconhecer suas conquistas e a lidar com o medo constante. É como reaprender a viver, carregando cicatrizes que, embora dolorosas, também contam histórias de resistência.

 

Quando não há cura

Há situações em que o câncer não pode ser curado, mas isso não significa ausência de vida ou de possibilidades. Esse é um momento que exige delicadeza, acolhimento e escuta atenta, tanto para o paciente quanto para a família.

O psicólogo tem um papel fundamental nesse processo: oferecer espaço para que a pessoa possa se expressar, falar sobre seus desejos, medos e conquistas. Esse espaço abre caminho para diálogos autênticos, em que o paciente pode expressar seus afetos, refletir sobre sua trajetória e encontrar aquilo que dá sentido à sua vida.

Para a família, o acompanhamento psicológico também é um suporte essencial. Ele ajuda a encontrar formas de estar junto, de participar do cuidado e de ressignificar a convivência, sem deixar de cuidar de si. O cuidado psicológico, nesse momento, é sobre garantir dignidade, autenticidade e humanidade em cada etapa da jornada.

 

A família e os cuidadores

O câncer nunca é uma experiência individual. Ele atravessa toda a rede de relações do paciente: parceiros, filhos, pais, amigos. Os cuidadores, em especial, vivem uma rotina intensa de consultas, medicamentos, atenção constante. Muitas vezes, deixam de lado seus próprios sonhos, sua saúde, seu descanso.

O psicólogo atua também junto a eles, oferecendo um espaço para expressar cansaço, raiva, culpa. Lembra que ser cuidador não significa ser invencível e que cuidar de si é parte do processo de cuidar do outro.

 

Quebrando mitos

Ainda hoje, muita gente acredita que procurar um psicólogo é sinal de fraqueza. É como se fosse proibido admitir que não damos conta de tudo. Mas, na verdade, buscar apoio é um ato de coragem. Significa reconhecer que o sofrimento emocional é tão legítimo quanto a dor física.

Assim como cuidamos do corpo com exames e remédios, precisamos cuidar da mente com escuta, diálogo e acolhimento. A psicologia mostra que ninguém precisa enfrentar o câncer sozinho, nem o paciente, nem a família.

 

Um companheiro de jornada

O psicólogo, no cuidado oncológico, não é alguém que “resolve” os problemas, mas alguém que caminha ao seu lado. Ele ajuda a transformar dor em aprendizado, silêncio em palavras, medo em possibilidade de ressignificação. Está presente desde o impacto inicial do diagnóstico até os momentos finais da vida, sempre oferecendo acolhimento, presença e esperança.

Cuidar da mente é também cuidar da saúde. E, diante do câncer, esse cuidado pode fazer toda a diferença. Porque, mesmo em meio à tempestade, ainda é possível encontrar abrigo, preservar vínculos e viver com dignidade.

Quando a arte cuida: arteterapia para quem enfrenta o câncer

Enfrentar o câncer é atravessar um território desconhecido, repleto de medos, silêncios e descobertas. É um momento que gera reflexões sobre o passado, o presente e o futuro, envolvendo todos os aspectos da vida pessoal e profissional, podendo resultar em sentimentos de angústia e ansiedade. A cirurgia, a quimioterapia e a radioterapia são modalidades terapêuticas eficazes contra o câncer, porém não conseguem tratar os efeitos mentais/psicológicos, os quais podem ser muito debilitantes.

Nesse contexto, entendemos que o tratamento vai além dos medicamentos e exames — ele envolve também o cuidado com aquilo que não se vê nos laudos: o emocional, o afeto, a identidade que muitas vezes se perde no caminho.

A arteterapia nasce justamente aí, no espaço entre a dor e o alívio, entre o que machuca e o que cura. Mais do que uma atividade, ela é uma forma de cuidar com delicadeza, oferecendo ao paciente um jeito de se expressar sem pressa, sem julgamento, apenas sendo. A arte, nesse contexto, é presença, é cuidado, é escuta.

Neste texto, vamos falar sobre como a arteterapia pode ajudar pacientes oncológicos e seus cuidadores a atravessarem esse processo com mais humanidade, sentido e leveza. Porque, às vezes, quando as palavras faltam, é a arte que cuida.

Programas de medicina complementar e integrativa já são considerados componentes-chave no suporte ao paciente oncológico, inclusive com recomendações da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) e pela Sociedade de Oncologia Integrativa (SIO), especialmente para pacientes com diagnóstico de câncer de mama. A arteterapia se insere entre as terapias recomendadas, com objetivo de auxiliar no controle de sintomas como ansiedade e estresse, bem como outros efeitos colaterais do tratamento.

O emprego da arte como forma de tratamento de doenças não é algo novo. O filósofo e médico persa Avicena, considerado o pai da medicina moderna e que viveu por volta dos anos 1000 na região hoje conhecida como Irã, acreditava e usava a música como forma de tratamento de sintomas psicológicos associados a diversas doenças. Porém, a arteterapia como conhecemos hoje tem suas raízes com o artista e escritor britânico Adrian Hill, que definiu a arte como “a inimiga das doenças”. Na década de 1940, ele começou a realizar estudos com a aplicação de arteterapia, evidenciando efeitos benéficos na redução do estresse e melhora do estado psicológico dos pacientes.

A arteterapia é uma prática terapêutica que utiliza diferentes formas de expressão artística — como pintura, desenho, modelagem, colagem, escrita, música — como ferramentas para cuidar da saúde emocional. Não é preciso saber desenhar bem nem ter talento para a arte. O foco não está no resultado estético, mas sim no processo criativo, que permite que sentimentos difíceis encontrem caminhos de expressão e elaboração. Muitas vezes, o que não conseguimos dizer em palavras ganha forma e cor no papel. E isso pode ser profundamente libertador.

A música é uma das formas de expressão artística mais estudadas com relação aos seus efeitos sobre a saúde. Diversos estudos mostram que a musicoterapia tem efeitos na redução dos níveis de ansiedade e na melhora do equilíbrio emocional. Além disso, em pacientes oncológicos a musicoterapia pode ser um potente auxiliar no controle da dor oncológica. Outros efeitos benéficos incluem melhoria na sensação de controle, na imunidade, no relaxamento e na sensação de bem-estar.

Um conceito central na arteterapia é o de que emoções que não poderiam/seriam expressas em palavras possam ser expressas em imagens. Não existem limites para o uso da imaginação no desenvolvimento de formas criativas de expressar o luto. A arte seria um meio para a “criação de um significado”. Em um estudo com mulheres com diagnóstico de câncer de mama que se inseriram em diferentes tipos de arteterapia visual (colagem, modelagem em argila, pintura, criação de cartões, trabalho com tecidos) foram observados quatro efeitos positivos: 1. a arteterapia permitiu às mulheres mudar o foco do pensamento para aspectos mais positivos na vida, diminuindo a preocupação com o câncer; 2. reforço da autovalorização e da identidade pessoal; 3. a arteterapia foi associada a um efeito positivo na manutenção de uma identidade social, permitindo às mulheres resistirem a serem definidas pelo câncer; e 4. permitiu a expressão de seus sentimentos de forma simbólica, especialmente durante o tratamento.

Diversos estudos mostram que a terapia com artes visuais traz benefícios em termos de melhora da sensação de bem-estar, no relaxamento, e na redução de emoções negativas. Em pacientes com doenças crônicas, sessões de arteterapia estão associadas a melhora na qualidade de vida e redução de sintomas depressivos. A terapia com artes visuais também pode ser aliada no tratamento da dor oncológica, bem como no cuidado emocional dos seus cuidadores.

Não é à toa que oportunidades para expressão criativa vêm ganhando espaço cada vez maior nos hospitais dos Estados Unidos da América (EUA) e da Europa nas últimas décadas. Isso porque a arte é capaz de oferecer algo que a medicina tradicional não consegue. Recentemente, médicos da cidade suíça de Neuchâtel lançaram um programa piloto com duração prevista de 2 anos no qual as autoridades locais proverão visitas a museus prescritas pelos médicos aos pacientes. Com base em um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) publicado em 2019, o objetivo do projeto é promover a melhora da saúde mental, reduzir os impactos negativos de traumas, reduzir o risco de declínio cognitivo e da fragilidade física, bem como reduzir a mortalidade prematura. Caso seja bem-sucedido, o plano é de ampliação do projeto para inclusão de espetáculos de teatro e dança.

O enfrentamento do câncer é um processo que exige muito mais do que força física. Ele toca a identidade, os sentimentos e as relações. Assim, a arteterapia é um recurso sensível e poderoso para ajudar pacientes e cuidadores a atravessarem esse caminho de forma mais leve e significativa.

Ao permitir que emoções difíceis sejam expressas por meio da criação artística, a arteterapia oferece um espaço de acolhimento e escuta onde não há certo ou errado, bonito ou feio — apenas o que é verdadeiro. A arte se apresenta, então, como uma linguagem capaz de traduzir o que muitas vezes não se consegue dizer em palavras, promovendo alívio emocional, fortalecimento da autoestima e resgate do sentido de si.

Incluir a arteterapia no cuidado de pessoas com câncer é reconhecer que saúde vai além do corpo. É cuidar também do que sente, do que se vive e do que se sonha, mesmo em meio ao tratamento. Quando olhamos para o ser humano de forma integral, a arte se revela não apenas como expressão, mas como presença, como companhia e como forma de cuidado. E isso faz toda a diferença.

Dia Mundial dos Cuidados Paliativos – 10 anos da resolução da OMS, com Dr. Rafael Luís, Oncologista

 

Oncologista Vinicius Conceição do Grupo SOnHe de Campinas falando sobre Saúde Masculina

Resumo dos melhores e relevantes estudos apresentados no ASCO 2024

O ASCO, a reunião anual da American Society of Clinical Oncology, é um dos maiores encontros de profissionais de oncologia no mundo. O evento deste ano foi realizado de 31 de maio a 4 de junho de 2024 no McCormick Place em Chicago, IL, e também online. Cerca de aproximadamente
45.000 pessoas participaram do evento, que incluiu mais de 200 sessões, 250 apresentações orais de resumos, 2.000 pôsteres e sessões especiais. Os Oncologistas do Grupo SOnHe, prepararam um resumo dos melhores e relevantes estudos apresentados. Esperamos que seja útil em sua prática clínica.

 

Acesse o resumo aqui ou na imagem

Educar, respirar e viver – Maio sem fumaça

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4 de março – Dia Mundial da Obesidade – Obesidade e câncer: qual a relação?

Ligia Vieira Carlos

Nutricionista – CRN/3 22987

Oncologia Vera Cruz

Especialista em Saúde e Qualidade de Vida

Especialista em Geriatria

Mestre em Nefrologia

 

O Ministério da Saúde alerta que 13 tipos de cânceres são ligados ao excesso de gordura corporal. Mas é possível minimizar os riscos de diagnósticos oncológicos, tendo como fator preditivo a obesidade

 

São esperados 704 mil casos novos de cânceres no Brasil para cada ano do triênio 2023-2025, com destaque para as regiões Sul e Sudeste, que concentram cerca de 70% da incidência. (2)

De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA), os números da doença tendem a crescer nos próximos anos e esse fator vem, ainda, associado de uma perspectiva ligada ao ganho de peso da população. Ao todo, cerca de 13 tipos de cânceres já possuem alguma relação com a obesidade, sendo tumores de esôfago (adenocarcinoma), estômago (cárdia), pâncreas, vesícula biliar, fígado, intestino (cólon e reto), rins, mama (mulheres na pós-menopausa), ovário, endométrio, meningioma, tireoide e mieloma múltiplo e, possivelmente, associado aos de próstata (avançado), mama (homens) e linfoma difuso de grandes células B. (1).

Dieta, nutrição e atividade física são aspectos essenciais da existência humana. Níveis desequilibrados e inadequados desses fatores podem alterar a homeostase normal e reduzir a resistência a desafios externos. Isso pode se manifestar de várias maneiras, por exemplo, como suscetibilidade às infecções, à doença cardiometabólica ou ao câncer. (3)

A obesidade e os modos de vida sedentários podem não atuar por meio das vias específicas, em vez disso, podem alterar o ambiente metabólico sistêmico do organismo, de modo que originam microambientes celulares que conduzem ao desenvolvimento do câncer em vários locais. (3)

A obesidade como fator preditivo ao câncer está associada a mediadores inflamatórios e anormalidades metabólicas e endócrinas, que promovem o crescimento celular e exercem efeitos antiapoptóticos, ou seja, as células cancerígenas não se autodestroem mesmo após graves danos no DNA.(3) De modo simples, o excesso de gordura corporal provoca um estado de inflamação crônica e aumentos nos níveis de determinados hormônios, que promovem o crescimento de células cancerígenas, aumentando as chances de desenvolvimento da doença.

Quanto maior o grau de obesidade, maior também será a probabilidade de ocorrência do câncer, uma vez que a obesidade está diretamente relacionada à forma como as pessoas têm mudado seus hábitos alimentares.

É preciso lembrar que ter uma alimentação adequada e saudável, evitando o consumo de alimentos ultraprocessados, e a manutenção de uma vida fisicamente ativa são formas efetivas de prevenir o câncer. Isso porque os dois elementos também ajudam a manter o peso saudável, já que o excesso de gordura corporal pode estar associado ao surgimento da doença.

Por fim, existem 10 recomendações de prevenção do câncer. Cada uma representa uma ação que integra um conjunto de comportamentos que, quando adotados em conjunto, promovem um padrão saudável de dieta e atividade física convergente à prevenção do câncer, outras DCNT e obesidade. (3)

 

A evidência de que um maior teor de gordura corporal é causa de muitos tipos de cânceres é particularmente forte; portanto, seguem as recomendações: (3)

 

  • Ter um peso saudável (não só em IMC, mais sim em composição adequada de % de gordura e de musculatura para a idade);
  • Ser fisicamente ativo (120 a 150 minutos por semana, a depender da intensidade da atividade física);
  • Consumir uma dieta rica em cereais integrais, vegetais, frutas e leguminosas.
  • Limitar o consumo de fast food e outros alimentos processados ricos em gordura, amidos ou açúcares;
  • Limitar o consumo de carne vermelha e de carne processada;
  • Limitar o consumo de bebidas açucaradas;
  • Limitar o consumo de bebidas alcoólicas;
  • Não usar suplementos para prevenção do câncer;
  • Para as mães: amamentar seu bebê, se puder;
  • Após um diagnóstico de câncer: seguir essas recomendações, se puder.

 

Referências Bibliográficas

  1. Brasil. Ministério da Saúde. https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-brasil/prevencao-ao-cancer/13-tipos-de-cancer-relacionados-a-obesidade acesso em 27/02/24
  2. Instituto Nacional do Câncer (INCA) disponível em https://bvsms.saude.gov.br/inca-lanca-a-estimativa-2023-incidencia-de-cancer-no-brasil acesso em 27/02/24
  3. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Dieta, nutrição, atividade física e câncer: uma perspectiva global: um resumo do terceiro relatório de especialistas com uma perspectiva brasileira / Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. – Rio de Janeiro: INCA, 2020. 140 p.: il. color.  Traduzido e adaptado de: Diet, nutrition, physical activity and cancer: a global perspective: a summary of the third expert report.

 

 

Confraternização 2023- Clube Nashville

Em quem não se deve fazer um exame genético?

Debora Curi

CRM 173.184

Higor Mantovani

CRM 155.725

 

A ciência que permeia o entendimento do câncer está em constante evolução, em especial, no âmbito da oncogenética. Muito se fala sobre predisposição familiar (ou hereditária) aos diversos canceres que podem acometer os pacientes. Idade jovem, ocorrência de múltiplos tumores num mesmo indivíduo e diagnósticos de canceres raros são características que devem despertar a inquietude do profissional que assiste este paciente, e motivar uma avaliação de um oncogeneticista para se discutir testes de sequenciamento genético.

A solicitação de testes genéticos deve ser feita por um profissional capacitado e com habilidade no tema, e que, após uma consulta de aconselhamento genético, tenha um objetivo bem definido a ser elucidado pelo exame. É necessário especificar as metodologias do teste e flertar com os possíveis resultados, a fim de garantir um adequado manejo da informação acessada com o mesmo.

Pouco se fala sobre situações em que não é necessário ou apropriado fazer uma avaliação ou teste genético. A informação sobre eventuais mutações e/ou aspectos genéticos de um individuo é confidencial, de poder único e exclusivo daquela pessoa. Existem situações que podem ferir esses princípios e, de maneira ainda mais agravante, resultar num manejo inadequado das informações genéticas acessadas pelo exame.

Como exemplo de tais situações temos os testes genéticos em crianças ou indivíduos que ainda não atingiram a maioridade. Não é infrequente que pais e mães, motivados pelo medo do diagnóstico de câncer, busquem informações que os acalmem sobre o risco de seus filhos desenvolverem câncer no futuro. Neste caso, a motivação passional para um teste genético não deve gerir a indicação do exame. Sequenciamento genético em crianças são indicados em casos específicos e com grande cuidado no manejo da informação genética acessada, uma vez que se trata de um paciente ainda incapaz de gerir seus direitos de acesso a informação.

Uma outra situação frequente em que o teste genético merece cautela é em indivíduos que nunca tiveram histórico pessoal e/ou familiar de neoplasias. É comum a procura de exames que buscam evitar problemas de saúde no futuro. Entretanto, sabemos que o exame genético não previne o surgimento de canceres; ele nos auxilia na identificação de indivíduos com alto risco de câncer ao longo da vida. Um aspecto importante é a realização de exames genéticos de confiança, cuja técnica e confiabilidade são conhecidas. Existem relatos de condutas tomadas a partir de informações adquiridas a partir de testes de baixa confiabilidade; quando a informação fora revisitada com metodologias e testes validades, percebeu-se um falso diagnóstico genético.

As características genéticas (e todas as consequências delas em nossas vidas) não são passíveis de escolha; somos o que recebemos dos nossos genitores e progenitores. Pessoas que não estão adequadamente motivadas e orientadas sobre como lidar com o resultado de um exame genético devem ser aconselhadas a repensar sobre a realização do mesmo. Neste mesmo sentido, é necessário que se tenha acesso a profissionais que possam orientar e tomar condutas frente ao diagnóstico genético. Não se deve buscar ou acessar a informação sem que se tenha estruturado um cuidado com mesma a posteriori.

Por fim, é importante citar situações em que o indivíduo em que se quer investigar a informação genética pode não desejar fazer o exame sugerido. Nestes casos, a autonomia deve sempre ser respeitada, a despeito da forte suspeita de um quadro de predisposição hereditária ao câncer naquele indivíduo.

 

Para o combate ao câncer, é preciso caminhar junto!

André Deeke Sasse – CRM 91.384

 e Vinícius Conceição – CRM 120.034

O dia 8 de abril é lembrado no mundo todo como Dia Mundial de Combate ao Câncer. Como oncologistas clínicos, nunca nos sentimos à vontade em usar expressões como combate, luta, guerra ou batalha. Ao diagnosticar um paciente, buscamos alertá-lo sobre os caminhos que vamos percorrer juntos ao longo do tratamento da doença. Falamos da jornada, das dificuldades, dos acertos, dos dias bons e dos dias ruins que virão pela frente. Nunca é simples ou fácil, mas sempre é possível.

Os números relacionados ao câncer impressionam, seja pela abrangência e aumento de casos, seja pelos altos custos envolvidos na busca de melhores tratamentos. O Brasil deve diagnosticar entre 2023 e 2025 mais de 700 mil casos da doença por ano. As regiões Sul e Sudeste concentram 70% da incidência. O câncer de pele não melanoma ainda é o mais comum no país, representando 31,3% da incidência, seguido pelos cânceres de mama (10,5%), próstata (10,2%), cólon e reto (6,5%) e pulmão (4,2%).

O câncer é uma das principais causas de morte em todo o mundo, sendo responsável por 10 milhões em 2019. A incidência do câncer e a mortalidade estão aumentando em todo o mundo e esse crescimento reflete o envelhecimento da população global e a atuação de fatores de risco, como uso de tabaco, álcool, dieta pouco saudável, inatividade física e poluição do ar.

Um artigo publicado no Jama Oncology, em fevereiro de 2023, mostra as estimativas e projeções do custo econômico global de 29 cânceres em 204 países e territórios de 2020 a 2050. O custo econômico global estimado do câncer de 2020 a 2050 é de US$ 25,2 trilhões, equivalente a um imposto anual de 0,55% sobre o produto interno bruto global. Os 5 tipos de câncer com maior custo econômico são o câncer de traqueia, brônquios e pulmão (15,4%); câncer de cólon e reto (10,9%); câncer de mama (7,7%); câncer de fígado (6,5%); e leucemia (6,3%). A China e os EUA enfrentam os maiores custos econômicos do câncer em termos absolutos, respondendo por 24,1% e 20,8% da carga global total, respectivamente.

Embora 75,1% das mortes por câncer ocorram em países de baixa e média renda, sua participação no custo econômico do câncer é menor em 49,5%. O que significa que o custo econômico do câncer é distribuído de forma desigual entre os tipos da doença, países e regiões. No Brasil, os encargos macroeconômicos anuais de 2020 a 2050 representaram 0,26% do PIB. A perda de produtividade, relacionada ao capital humano, representa 0,24%, do PIB total de 2020 a 2050.

O Estudo apresentado no JAMA reforça que investir em intervenções eficazes de saúde pública para reduzir os gastos com câncer é essencial para proteger a saúde global e o bem-estar econômico. O que o estudo chama de intervenção, nós, do Grupo SOnHe, chamamos de filosofia. Como oncologistas clínicos, acreditamos que a relação médico-paciente seja fundamental tanto na prevenção quanto no tratamento do câncer.  Precisamos de investimento em pesquisa médica para reduzir a incidência, prevalência e mortalidade do câncer, bem como em pesquisa, para identificar intervenções de saúde pública com boa relação custo-benefício. Devemos fortalecer a atenção primária e facilitar a inclusão de programas de rastreamento de câncer com boa relação custo-benefício nos pacotes de benefícios do seguro e adotar formas inovadoras de prestação de cuidados de saúde. E essas devem ser as nossas lutas!

 

André Sasse é oncologista e CEO do Grupo SOnHe. Formado em Medicina e com residência em Oncologia Clínica pela Unicamp. É diretor médico do Radium e coordenador da oncologia dos Hospitais Madre Theodora, Santa Tereza e PUC-Campinas.

Vinícius Conceição é oncologista e sócio do Grupo SOnHe. Formado em Medicina e com residência em Oncologia Clínica pela Unicamp. Tem título de especialista em Cancerologia e Oncologia Clínica pela Sociedade brasileira de Oncologia.