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14 de agosto: Dia do Cardiologista. A importância da integração entre as especialidades médicas

O Instituto Nacional do Câncer (INCA) estima que em 2019 aproximadamente 580 mil pessoas no país serão diagnosticadas com câncer. Boa parte delas fará algum tratamento baseado em medicações como quimioterapia citotóxica, imunoterapia ou hormonioterapia. Nas décadas recentes inúmeros foram os avanços no tratamento oncológico, o que mudou radicalmente o prognóstico dos pacientes. Estima-se que atualmente existam mais de 20 milhões de sobreviventes de câncer na Europa e nos Estados Unidos, número inimaginável até poucos anos atrás. Este fato, associado ao aumento da longevidade da população em geral, aumentou a incidência dos efeitos colaterais do tratamento antineoplásico sobre o aparelho cardiovascular, principalmente quando existe história prévia de doença cardíaca ou outras doenças associadas como hipertensão arterial, diabetes, obesidade.

O paciente com câncer passou a ser considerado como um portador de doença crônica e, portanto, mais propenso às intercorrências agudas, principalmente as relacionadas com o aparelho cardiovascular. Em pacientes com doença oncológica e sobrevida prolongada, o risco agregado de doença cardiovascular aproxima-se do observado em pacientes tabagistas. Por sua vez, a cardiotoxicidade é a segunda causa mais comum de morbidade e mortalidade nos pacientes com tratamento oncológico prévio, perdendo apenas para as próprias causas oncológicas (recidiva ou progressão da doença, por exemplo). Muitas drogas usadas no tratamento do câncer têm potencial para agredir o coração e causar insuficiência cardíaca de forma permanente ou temporária. Talvez o maior exemplo seja a classe de drogas conhecidas como Antraciclinas, cujo principal representante é a Doxorrubicina, potente quimioterápico usado principalmente contra o câncer de mama desde a década de 60. Apesar de permitirem a cura e maior sobrevida, essas drogas podem levar à lesão cardíaca irreversível a depender da dose cumulativa usada pelo paciente.

A interação entre as especialidades de Oncologia Clínica e Cardiologia tem contribuído para reduzir os efeitos adversos cardiovasculares e, por conseguinte, obter melhores resultados no tratamento do paciente com câncer. Como exemplo dessa parceria e integração, a Sociedade Brasileira de Cardiologia juntamente com a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica lançaram, em 2011, a 1ª Diretriz Brasileira de Cardio-Oncologia1, cujas metas principais são: desmistificar a visão da doença cardíaca como uma barreira ao tratamento efetivo do paciente com câncer, prevenir e reduzir os riscos da cardiotoxicidade do tratamento, promover a interação das duas especialidades (Cardiologia e Oncologia) para obter a melhor estratégia terapêutica para o paciente, considerando riscos e benefícios do tratamento, divulgar as evidências disponíveis em relação às complicações cardiovasculares no paciente oncológico e disseminar recomendações práticas para a monitorização da função cardiovascular antes, durante e após o tratamento do paciente.

Portanto, em comemoração ao dia 14 de agosto, Dia do Cardiologista, além de parabenizar aos colegas pela nobre profissão, queremos enfatizar a importância do tratamento multiprofissional e da colaboração entre a Oncologia e a Cardiologia, tendo em vista sempre o que há de melhor no cuidado aos nossos pacientes.

1: Arq. Bras. Cardiol. vol.96 no.2 supl.1 São Paulo, 2011.

Brasil sem cigarro: Manifesto do INCA reforça posição contra o comércio de cigarros eletrônicos

Recentemente, o cigarro eletrônico foi tema do Alerta Oncologia e de dois textos no blog do Grupo SOnHe (Dr. David e Dr. Vinícius) e isso não foi por acaso. As polêmicas em relação ao seu uso têm se tornado cada vez mais frequentes, em virtude do dilema entre redução do tabagismo como estratégia de promoção da saúde e aumento do uso dos e-cigarrettes. Agora, em agosto de 2019, o Instituto Nacional do Câncer (INCA) lançou um manifesto de apoio à resolução da ANVISA, de 2009, que proíbe a comercialização de cigarros eletrônicos no Brasil até hoje (RDC 46/2009).

Este manifesto foi motivado pelo novo relatório publicado em 26 de julho pela Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre o tabagismo no mundo. Nele, o Brasil foi destacado por apresentar um programa de controle de tabagismo do mais alto nível, desde a conscientização da população, passando pelos impostos sobre o produto e chegando até as proibições de uso do cigarro em locais públicos. Aliado a isto, os dados animadores do Ministério da Saúde mostram uma redução do número de fumantes no Brasil de 35% (1989) para menos de 15% em 2013, com novos dados de 2018 sugerindo que essa taxa baixou para 10%.

Essa situação vem contrastando com a expansão do uso dos cigarros eletrônicos pelo mundo, muitas vezes por influência da própria indústria, que usa um discurso de redução de danos, como se esses produtos fossem “light”. Entretanto, como extensamente explicado por nós, do Grupo SOnHe, e pelo próprio INCA, as evidências sobre os cigarros eletrônicos apontam que estes são, sim, um risco à saúde, além de aumentarem a iniciação de pessoas não fumantes no hábito do tabagismo, principalmente na população mais jovem. Dentre os danos, estão também o risco de câncer pelo vapor quente e das doenças cardiovasculares pela nicotina presente nos e-cigarrettes.

Vale citar uma frase do manifesto do INCA: “os interesses da saúde pública são contrários aos da indústria do tabaco, sendo, portanto, incompatíveis nos objetivos pretendidos”. E isso embasa e reforça o apoio irrestrito do INCA à manutenção da proibição dos cigarros eletrônicos no Brasil, visando sempre a promoção da saúde e o objetivo de tornar o Brasil um país livre do tabaco.

O grupo SOnHe, preocupado com a saúde da população e em busca da redução dos hábitos que aumentem o risco de câncer, apoia o manifesto e alerta à comunidade de que o que conquistamos no combate ao tabagismo não pode ser perdido.

Referências:

https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files//media/document//apoio_a_manutencao_da_rdc_46_2009_inca.pdf

http://portal.anvisa.gov.br/documents/10181/2718376/RDC_46_2009_COMP.pdf/2148a322-03ad-42c3-b5ba-718243bd1919

https://www.who.int/tobacco/global_report/en/

https://www.inca.gov.br/noticias/inca-lanca-manifesto-por-brasil-livre-do-tabaco

Nova indicação de tratamento em câncer de mama Her2 positivo: agora no Brasil

Há três meses, a agência de regulação de medicamentos dos Estados Unidos, o FDA (Food and Drug Administration) – que corresponde à ANVISA brasileira – aprovava uma nova indicação do medicamento Kadcyla® (Trastuzumabe-Entansina, conhecida como TDM-1): tratamento adjuvante de mulheres com câncer de mama localizado. Agora, neste mês de agosto, tal indicação foi aprovada no Brasil.

A aprovação de baseou nos dados recentemente apresentados do estudo KATHERINE, recém-publicado, que selecionou mulheres com tumor de mama do tipo Her2 positivo, que tivessem recebido quimioterapia pré-cirurgia baseada em duas drogas específicas (Taxanos e Trastuzumabe) e, na avaliação da peça cirúrgica, apresentassem tumor residual. As pacientes selecionadas eram aleatorizadas a receberem o TDM-1 ou o padrão de tratamento atual (Trastuzumabe) por 14 ciclos, de 21 dias. Os resultados mostraram um aumento de 50% da sobrevida livre de recorrência de doença invasiva, ou seja, aumentou o tempo que as pacientes demoravam para apresentar recidiva da doença ou morrer. Os efeitos adversos mais comuns foram fadiga, alterações hematológicas, náuseas e neuropatia.

Essa aprovação foi um exemplo de melhora da agilidade no processo pela ANVISA, que muitas vezes tarda mais tempo para liberar tratamentos já em uso em outros países. Sabemos da importância das novas pesquisas e suas implicações e esperamos sempre que o processo de aprovação do nosso país seja justo e eficiente, a fim de que as pacientes brasileiras possam ter acesso a novos tratamentos o mais rápido possível.

Referências:

Von Mickwitz G, et al. Trastuzumab Emtansine for Residual Invasive HER2-Positive Breast Cancer. N ENgl J Med 2019;380:617-28.

Aprovação ANVISA: http://portal.anvisa.gov.br/informacoes-tecnicas13?p_p_id=101_INSTANCE_WvKKx2fhdjM2&p_p_col_id=column-2&p_p_col_pos=1&p_p_col_count=2&_101_INSTANCE_WvKKx2fhdjM2_groupId=219201&_101_INSTANCE_WvKKx2fhdjM2_urlTitle=kadcyla-trastuzumabe-entansina-nova-indicacao&_101_INSTANCE_WvKKx2fhdjM2_struts_action=%2Fasset_publisher%2Fview_content&_101_INSTANCE_WvKKx2fhdjM2_assetEntryId=5555879&_101_INSTANCE_WvKKx2fhdjM2_type=content

Bula FDA: https://www.accessdata.fda.gov/drugsatfda_docs/label/2019/125427s105lbl.pdf

Assista Vida Pulsante: notícias reais de pessoas que enfrentam o câncer

Receber um diagnóstico de câncer requer esforços de enfrentamento da situação. E cada pessoa encara esse difícil momento da vida de uma forma diferente.

Dia 4 de agosto é o Dia da Campanha Educativa de Enfrentamento do Câncer.

No vídeo Vida Pulsante, que teve a direção científica da Dra. Fernanda Proa, Oncologista do Grupo SOnHe, conhecemos histórias de desafios, confrontos e coragem.

Você tem uma história para dividir com a gente?
Queremos conhecer o seu relato para que possamos compartilhar entre pacientes que precisam de incentivos e otimismo.

Aguardamos você!

Envie para sonhe@sonhe.med.br

Agradecemos todos os envolvidos no vídeo por tanto doação e amor dedicados, em especial ao Matheus.

 

 

SUS incorpora novo tratamento contra o câncer de próstata

O câncer de próstata é o mais frequente entre os homens em todas as regiões do país se não considerarmos os tumores de pele não-melanoma, ou seja, os tumores de pele que são potencialmente curáveis apenas com cirurgia. Estimativas do Instituto Nacional do Câncer (INCA) apontam para uma incidência de 68.220 casos novos de câncer de próstata para este ano. Em 2017, foram confirmadas quase 16.000 mortes por este câncer, mas este número pode ser bem maior, uma vez que muitos casos no Brasil são sub-notificados ou simplesmente notificados como outra causa de morte.

Na sua fase inicial, o tumor maligno da próstata geralmente é tratado com cirurgia ou radioterapia que pode ou não ser associada ao tratamento hormonal a depender do caso. Quando está localmente avançado, mas ainda sem evidência de metástases a distância, o tratamento preferencial é a combinação de radioterapia com terapia de bloqueio hormonal. Já quando está disseminado para outros órgãos, em especial os ossos, o tratamento de escolha é o bloqueio hormonal que consiste em diminuir as concentrações no sangue do hormônio masculino, a testosterona. Este tratamento, conhecido como castração, pode ser feito com cirurgia nos testículos ou por meio de aplicações de injeções que inibem a produção do hormônio.  Para muitos pacientes, apenas o tratamento de bloqueio hormonal consegue manter a doença controlada por muito tempo. Quando este tratamento falha, ou seja, o tumor torna-se resistente à castração e a doença progride, as principais opções terapêuticas incluem quimioterapia convencional e a utilização de classes de bloqueadores hormonais mais modernos e que conseguem controlar melhor o avanço da doença como, por exemplo, a Abiraterona e a Enzalutamida. São medicações orais e que possuem um alto custo mensal e por isso não são liberadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Hoje, no cenário público, quando um paciente com doença avançada se torna resistente à deprivação hormonal, as opções de tratamento são a quimioterapia e o uso de classes hormonais mais antigas, com efeitos colaterais importantes e com alcance limitado de controle do tumor. São drogas já em desuso frente às novas opções que temos atualmente. Como exemplo desses bloqueadores hormonais mais antigos podemos citar a Flutamida, Bicalutamida, Ciproterona e Dietilestilbestrol (DES), ou seja, as opções terapêuticas são bastante limitadas para aproximadamente 72% da população brasileira que não tem plano de saúde e depende exclusivamente do SUS para se tratar.

No dia 25 de julho de 2019, foi publicada no Diário Oficial da União a Portaria nº 38, que incorporou a Abiraterona para o tratamento do câncer de próstata metastático resistente à castração nos pacientes que já fizeram uso prévio de quimioterapia. Sem dúvida nenhuma é uma grande vitória para os pacientes do SUS que terão mais uma linha de tratamento e acesso a uma medicação de alto custo que já se mostrou eficaz em estudos científicos robustos neste cenário da doença. Tal incorporação é um pleito antigo de órgãos e entidades que lutam contra o câncer como a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) que já há algum tempo se mostrou favorável não apenas a incorporação dessa droga, mas de muitas outras para o câncer de próstata e para diversos outros tumores.

A dispensação do novo tratamento não será de forma imediata, uma vez que a Portaria tem até 180 dias para começar a vigorar. Não ficou esclarecido ainda se o Ministério da Saúde irá centralizar a compra da medicação e liberar para os serviços credenciados ao SUS mediante cadastro dos pacientes que receberão o remédio, como já acontece hoje com outras medicações de alto custo, ou se cada prestador de serviço ao SUS irá comprar a medicação e o poder público fará o ressarcimento depois.  De uma forma ou de outra, o que se espera é que em no máximo seis meses, todos os pacientes que dependem do setor público e que tenham indicação para uso da nova droga possam recebê-la e se beneficiar de mais essa opção terapêutica até então disponível apenas para usuários de planos de saúde.

Duas novas indicações de medicações oncológicas aprovadas no Brasil

Nas últimas semanas, tivemos duas novidades no tratamento oncológico no Brasil: as aprovações das medicações Ramucirumabe (Cyramza®), uma terapia-alvo para câncer de fígado, e Atezolizumabe (Tecentriq®), uma imunoterapia para câncer de pulmão.

Em junho, a Anvisa aprovou a indicação do Ramucirumabe para tratamento de pacientes com câncer de fígado (hepatocarcinoma) avançado ou irressecável, com função hepática preservada (CHILD A), que tenham falhado à primeira linha terapêutica com Sorafenibe – o atual padrão – e apresentem alfa-feto proteína com valores iguais ou acima de 400ng/mL. O embasamento para tal aprovação foi o estudo REACH-2, que randomizou 292 indivíduos com as características descritas para receberem Ramucirumabe ou placebo. Apesar do pequeno aumento da sobrevida mediana (7,29 para 8,51 meses), a redução do risco de morte foi de 29% e estatisticamente significativa (IC 95% 0,531-0,949; p 0,019). Outro dado mostrou que, em 24 meses, 10,2% dos pacientes do grupo intervenção estavam vivos, contra nenhum do grupo placebo.  Entretanto, a taxa de resposta e o tempo para piora da qualidade de vida não mudaram com o tratamento e as toxicidades foram maiores, apesar de, em geral, a medicação ter sido bem tolerada. Com esses dados, o Ramucirumabe se tornou uma das opções para esse cenário.

Em relação à outra droga, o Atezolizumabe, a Anvisa aprovou em julho a indicação do seu uso no tratamento de pacientes com câncer de pulmão não-pequenas células (tipo não-escamoso) avançado como terapia de primeira linha em combinação com quimioterapia (Carboplatina, Paclitaxel e Bevacizumabe). O estudo que suscitou a indicação foi o IMPower150, que aleatorizou 1.202 pacientes conforme descrito acima para três grupos: quimioterapia padrão + Bevacizumabe + Atezolizumabe (grupo 1), quimioterapia padrão + Atezolizumabe (grupo 2) ou quimioterapia padrão + Bevacizumabe (grupo 3 ou controle). Neste estudo, vale ressaltar, pacientes com mutações EGFR ou ALK puderam ser incluídos, caso progredissem à primeira linha com inibidores de tirosina quinase, o atual tratamento padrão para eles. Os resultados mostraram uma redução significativa do risco de morte de 22% em relação ao controle (10% a mais de pacientes vivos em 2 anos), além de uma maior taxa de resposta (63,5 x 48%), às custas de uma maior, apesar de aceitável, toxicidade (eventos graves: 25 x 19%).

Estas duas novas aprovações vêm para somar à evolução constante dos tratamentos oncológicos, cada vez mais baseados em terapias-alvo e imunoterapias, que promovem maiores benefícios com toxicidades aceitáveis. Também lembramos que o trabalho para a melhoria da sobrevida focando na qualidade de vida é sempre bem-vindo e esperamos por mais novidades no futuro.

Referências:

Zhu AX, Kang Y-K, Yen C-J, et al. For the REACH-2 study investigators. Ramucirumab after sorafenib in patients with advanced hepatocellular carcinoma and increased α-fetoprotein concentrations (REACH-2): a randomised, double-blind, placebo-controlled, phase 3 trial [published online January 18, 2019]. Lancet Oncol. doi:10.1016/S1470-2045(18)30937-9.

Socinski MA, et al. Atezolizumab for First-Line Treatment of Metastatic Nonsquamous NSCLC. N Engl J Med 2018;378:2288-2301.

Alerta sobre a relação entre vitamina C e câncer

Nos últimos dias, algumas reportagens têm sugerido uma possível ligação entre a vitamina C e o estímulo ao crescimento do câncer. Isso está ocorrendo em função de um estudo publicado recentemente na revista Free Radical Biology and Medicine e, pelo modo que a imprensa noticia, poderia haver um alarde desnecessário.

Sempre devemos ter muito cuidado para não tomarmos atitudes sem justificativa científica contundente. Primeiramente, o estudo em questão foi in vitro, ou seja, realizou testes em laboratório, não em seres humanos ou animais. Os pesquisadores avaliaram o comportamento e as concentrações de vitamina C (e derivados da mesma) em células de câncer de mama desenvolvidas em meios de cultura artificiais e controlados. Os resultados mostraram que as estas células apresentavam maior expressão de um receptor (SVCT2), o qual é responsável por utilizar a vitamina C para produção de energia e proliferação. Além disso, os achados sugerem que estas células do câncer de mama são –  ao contrário daquelas normais – capazes de captar a vitamina C em uma forma diferente no sangue. Tais características podem, segundo os autores, promover uma vantagem para célula cancerígena: uma maior taxa de crescimento celular.

Entretanto, as evidências anteriores a este estudo mostram o oposto, que a vitamina C é um antioxidante potente e talvez possa ser um aliado no combate ao câncer. Infelizmente, os trabalhos anteriores tampouco apresentam conclusões definitivas. Mesmo assim, há médicos que, irresponsavelmente, indicam o uso de altas doses de vitamina C antes da quimioterapia. Essa prática também não tem suporte científico e é temerária, já que mais estudos são necessários para tal.

Uma das principais críticas ao trabalho em discussão é que o comportamento de substâncias e células fora do corpo muitas vezes é diferente do que realmente ocorre num organismo vivo, o qual tem muitos outros fatores que tornam a análise infinitamente mais complexa.

É muito interessante ressaltar que os autores, responsavelmente, concluem em seu artigo que esse achado sugere uma possibilidade da relação da vitamina C com o câncer, e não que seria uma panaceia ou uma grande revolução. Tal afirmação contrasta com as notícias divulgadas pela imprensa, que passam a impressão de que o estudo conclui algo muito mais definitivo e revolucionário.

Seja por má interpretação, por sensacionalismo ou por incapacidade dos autores em transmitir a informação corretamente, fato é que o alarde é completamente desnecessário e o mais importante é que não há qualquer evidência que suporte a redução (nem o aumento excessivo) do consumo de vitamina C por seres humanos. O que temos a fazer é aguardar por novas pesquisas que possam esclarecer o assunto, enquanto seguimos orientações dos nossos médicos e nutricionistas, mantendo a ingestão recomendada de vitaminas – inclusive a C – sem decisões precipitadas.

Referências:

Peña E, et al. Increased expression of mitochondrial sodium-coupled ascorbic acid transporter-2 (mitSVCT2) as a central feature in breast cancer. Free Radical Biol Med 2019;135:283-92.

Gillberg L, et al. Vitamin C – A new player in regulation of the cancer epigenome. Semin Cancer Biol 2018;51:59-67.

Terapia-alvo inovadora aprovada no Brasil

A Anvisa aprovou na última semana o medicamento Larotrectinibe (Vitravki®) para utilização no Brasil. Esta não é uma novidade qualquer, pois trata-se da primeira terapia-alvo liberada em solo brasileiro que tem indicação independente do tipo de tumor. No caso, esta droga atua em uma proteína que está alterada em diferentes tipos de câncer, o que tem se tornado uma tendência da Oncologia nos últimos anos e trazido benefícios a cada vez mais pacientes.

O Larotrectinibe é um inibidor de uma proteína mutada (de fusão) chamado receptor TRK (Tropomyosin receptor kinase), presente na membrana celular de algumas neoplasias malignas (1% do total, aproximadamente). Esse receptor na sua forma normal NTRK (Neurotrophic receptor tyrosine kinase) está presente em células do sistema nervoso (neurônios), nas quais sua ação é a de promover o crescimento e sobrevivência celular de forma controlada. Entretanto, por uma alteração genética (fusão de partes de 2 genes) que surge durante alguma divisão celular, os tumores malignos podem apresentar a forma mutada deste gene, o qual leva à produção da proteína TRK alterada. Esta, por sua vez, tem um comportamento diferente do habitual e promove a divisão celular de forma contínua e descontrolada, desenvolvendo o câncer.

A aprovação do Larotrectinibe se baseou em um estudo publicado em 2018 no New England Journal of Medicine, uma das mais conceituadas revistas científicas médicas do mundo. Os pesquisadores avaliaram a ação da medicação em questão em 55 pacientes (adultos e crianças) com diversos tipos de tumores, que apresentavam a mutação do gene TRK e que tivessem falhado aos tratamentos-padrão para a sua doença. Os resultados mostraram altíssimas chance de diminuição do câncer (75%) e duração de resposta (71% com resposta mantida após 12 meses), associadas a uma taxa de efeitos colaterais graves muito baixa (7%).

Interessante destacar que esse foi um estudo pequeno, de fase precoce e que não comparou pacientes com ou sem a medicação, porém, como o efeito é muito claro e racional, tornou-se suficiente para a aprovação no mundo (nos EUA e na Europa, foi aprovado em novembro do ano passado).

Vale lembrar que a liberação pela ANVISA não supõe a obrigatoriedade de disponibilização pelos planos de saúde, já que tal deliberação depende de outras diretrizes legais (inclusão no rol da ANS).

O Larotrectinibe é um exemplo da personalização da Oncologia que tem ocorrido e que deve crescer rapidamente nos próximos anos. O objetivo é dar o tratamento certo para o paciente certo, promovendo sobrevida e qualidade de vida, pois o foco é sempre o paciente.

Referências:

http://www.in.gov.br/web/dou/-/resolucao-re-n-1.739-de-27-de-junho-de-2019-180788963?inheritRedirect=true&redirect=%2Fsearch%3FqSearch%3Dlarotrectinibe

Drilon A, et al. Efficacy of Larotrectinib in TRK Fusion–Positive Cancers in Adults and Children. N Engl J Med 2018;378:731-9

Tratamento do câncer de ovário: Quais as novidades?

O câncer de ovário é um tema de extrema importância na saúde da mulher. O Instituto Nacional do Câncer estimou 6150 casos novos de câncer de ovário no Brasil em 2018, sendo a oitava causa de morte por câncer na mulher. Felizmente, o tratamento dessa neoplasia vem avançando nos últimos anos e, para acompanharmos essas atualizações, participamos no mês passado de um programa de educação médica continuada sobre esse tipo de câncer na Universidade de Navarra em Madri, Espanha.

Alguns conceitos antigos continuam sólidos, relacionados as maiores chances de cura com o diagnóstico precoce. A decisão de qual tratamento realizar depende do estágio da doença. Nos tumores restritos aos ovários ou mesmo com disseminação para os órgãos pélvicos a cirurgia continua sendo a base do tratamento, seguido de quimioterapia. Vale ressaltar que a cirurgia deve ser realizada por um cirurgião capacitado nesse procedimento. Um estudo americano revelou aumento de 30% nas chances de cura quando o procedimento é realizado por um profissional especialista nessa cirurgia. Já nos pacientes que o tumor compromete de forma extensa os órgãos abdominais ou existe a presença de grande quantidade de liquido, chamado de ascite, o tratamento pode ser iniciado com quimioterapia para reduzir o tumor e após realizar a cirurgia.

Por ser considerada uma doença silenciosa, com sintomas aparecendo em fases avançadas, é frequente a presença de metástases e recidivas após o tratamento inicial. Neste cenário, algumas estratégias de tratamento, além da tradicional quimioterapia, demostraram resultados positivos. Como opções temos a utilização de um anticorpo que inibe a formação dos vasos sanguíneos no tumor, os inibidores da angiogênese, que retardam o seu crescimento. A medicação aprovada é o bevacizumabe, indicada para pacientes com tumores de ovários epiteliais com metástases ou recorrentes, revelando aumento significativo de sobrevida livre de progressão do tumor.
Outra estratégia que foi incorporada mais recentemente são os inibidores de PARP, medicamentos ingeridos via oral, que mostraram resultados expressivos. As enzimas PARP estão relacionadas com via de reparo do DNA danificado e sua inibição pode causar a morte de células tumorais. Sabe-se que o gene BRCA também está relacionado com a via de reparo do DNA, sendo assim o uso dos inibidores de PARP em pacientes com a mutação deste gene revelou resultados ainda mais significativos.

Atualmente nos Estados Unidos existem 3 opções de inibidores de PARP para o tratamento do câncer de ovário: olaparibe, niraparibe e o rucaparibe. No Brasil temos disponível apenas o olaparibe, aprovado pela ANVISA em janeiro de 2017, indicado para tratamento de manutenção do câncer de ovário de alto grau recidivado, com mutação do BRCA, que apresentou resposta ao tratamento com quimioterapia a base de platina. Pacientes com essas características foram avaliados no estudo SOLO-2, que revelou ganho significativo em sobrevida livre de progressão de 19,1 meses versus 5,5 meses para pacientes tratados com olaparibe versus placebo. É importante ressaltar que os efeitos colaterais do tratamento são bem tolerados.

Como perspectivas futuras temos estudos avaliando a associação de tratamentos com imunoterapia com resultados possivelmente promissores. Esses avanços, associados ao tratamento com uma equipe multidisciplinar qualificada, estão propiciando um aumento nas chances de cura e na qualidade de vida dos pacientes.

Tríplice Aliança: Família, amigos e equipe médica podem trabalhar juntos!

Poucos momentos na vida de uma pessoa, trazem tantas angústias, incertezas e reflexões quanto a descoberta de uma doença. Se essa doença atender pelo nome “câncer”, então parece que a partir desse momento, o destino reserva apenas um caminho de desespero.

 

A associação com sentimentos de medo, tristeza e impotência é inevitável. Mas também pode ser um momento de reconciliação com suas crenças, fé e essência , além do surgimento e fortalecimento de vínculos.

 

É nesse momento, que mostramos nossas fragilidades e também necessitamos de amparo, atenção e carinho. O melhor remédio que existe é certamente o amor.

 

Mas com quem podemos contar nesse momento?

 

É fundamental que a família, amigos e a equipe médica estejam preparados par doar não apenas o seu tempo e conhecimento, mas principalmente,  atenção e solidariedade.

 

É preciso compreender como cada paciente pensa e dar o tempo necessário para que ele tome suas decisões sobre o tratamento.

Surgem muitos dilemas que precisam ser entendidos e resolvidos. Muitas vezes, o paciente não quer que a família ou amigos saibam o que esta acontecendo. Outras vezes,  a família quer  “poupar” o paciente e por isso solicita que o médico não fale sobre a doença. É um turbilhão de informações e nem sempre os desejos de todos (paciente, família ,amigos e equipe médica) convergem na mesma direção.

 

É necessário entender, que o ponta pé inicial para um tratamento adequado, humanizado e eticamente correto depende de uma relação de sinceridade e confiança entre as partes.Também é fundamental que todos saibam o que esperar do tratamento e da doença para poder de forma consciente fazer um planejamento no âmbito familiar e social.

 

O paciente precisa de todo apoio possível; precisa se sentir acolhido, e principalmente precisa se sentir útil. Tentar manter algumas atividades de sua rotina é necessário e bem-vindo.

 

Aquela ideia de que o paciente oncológico, principalmente em quimioterapia, precisa ficar recluso, trancado em casa, sem receber visitas, longe da família e amigos é ultrapassada e não recomendada. Como tudo na vida, os excessos devem ser evitados, mas o paciente se fortalece quando percebe que é estimulado ,tem os seu desejos respeitados e as pessoas que amam do seu lado.

 

O amor envolvido em qualquer relação humana se faz mais necessário do que nunca. Também é preciso quebrar alguns preconceitos e paradigmas. Em uma sociedade paternalista como a nossa , é difícil principalmente  para os homens, demonstrarem  suas fragilidades, inseguranças e medos. Isso dificulta desde a realização de certos exames, até o diagnóstico e posterior tratamento adequado. Os homens precisam do mesmo amparo e atenção para um tratamento completo.

 

Atender o paciente em todos seus aspectos: físico, psicológico e social, e ter todas as pessoas que convivem com o mesmo voltadas para um objetivo comum,  com foco na cura ou melhora da qualidade de vida , são fundamentais para a pronta recuperação.

 

O destino só é alcançado se o caminho correto for percorrido. E quando temos a ajuda e compreensão de todos, esse percurso tende a ser mais curto e menos sofrido. Por isso médicos, paciente , família e amigos devem trabalhar em conjunto para garantir o melhor tratamento.

 

Sempre recomenda-se, que todos os envolvidos que desejam o bem daquele paciente, elejam um responsável para fazer a ponte entre familiares e equipe médica. Dessa maneira, a pessoa consegue acompanhar de perto as evoluções, entender claramente o tratamento e consegue repassar informações de forma muito mais completa e consistente para que todos consigam ajudar e dar