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Oncologia e Odontologia

Acompanhamento e tratamento para pacientes submetidos a quimioterapia e/ou radioterapia de cabeça e pescoço

Mariane Couto Estácio Orsi é cirurgiã dentista.
Mestre em Laser Odontológico pelo IPEN/USP e pós-graduada em Odontologia Hospitalar pelo Hospital Albert Einstein

A aproximação da Odontologia à Oncologia tem beneficiado muitas pessoas que neste momento de suas vidas estão passando por este tipo de tratamento. A meta dessa combinação é dar condições de se manter a alimentação e hidratação para a manutenção e recuperação do corpo físico, durante este período.

Para minimizar intercorrências orais que possam vir a prejudicar a saúde do paciente durante o tratamento oncológico ao qual será submetido, é muito importante a avaliação odontológica executada pelo dentista para que o paciente seja orientado quanto às necessidades de tratamento dentário e/ou periodontal para sua proteção e preservar seu bem-estar.

Cáries, tártaro, doenças periodontais com envolvimento dos dentes, gengiva e osso, raízes residuais e dentes comprometidos que devem ser removidos, focos de inflamação e infecção devem ser tratados previamente às cirurgias e ao início de quimioterapias e/ou radioterapias. O não tratamento de problemas orais existentes previamente ao tratamento oncológico, podem levar à interrupção ou alteração do tratamento antineoplásico planejado.

Certas quimioterapias como tratamento dos mais variados tipos de neoplasias malígnas no corpo físico, podem causar mucosite oral, ou seja, inflamação da mucosa oral, podendo se apresentar com desconforto, irritação, ardor, vermelhidão, até como úlceras pequenas e grandes, doloridas, que dificultam a alimentação e hidratação do paciente.

Da mesma forma, o paciente submetido à radioterapia de cabeça e pescoço, pode apresentar mucosite oral, de leve a severa, quando esta irradiação também abrange a cavidade oral.

Cuidados de higiene orais diários orientados pelo dentista e sessões de laserterapia são tratamentos coadjuvantes para prevenir e tratar a mucosite oral, com o objetivo de dar melhor qualidade de vida ao paciente durante este período. O laser de baixa intensidade tem mostrado bons resultados na redução da severidade, da duração e da dor da mucosite oral, principalmente pelo seu efeito analgésico, antiinflamatório e de cicatrização.

É fundamental o acompanhamento dos pacientes por um dentista integrado à equipe multidisciplinar antes do início do tratamento oncológico, assim como durante, para a instrução dos mesmos, para evitar ou tratar mucosite oral e possíveis infecções orais.

Um tratamento multidisciplinar traz melhor qualidade de vida para o paciente e propicia resultados mais eficazes.

Qual é o segredo da felicidade?

Hoje em dia, a busca pela felicidade plena é uma meta de vida. Pesquisadores do mundo todo estão debruçados em seus estudos para tentar entender qual é o caminho para ser feliz. Inúmeros livros com esse tema são publicados anualmente. Existem treinamentos, em todos os lugares, para se tornar uma pessoa mais feliz

O entendimento de felicidade parece variar conforme a época e o momento em que vivemos. Se para nossos avós felicidade era acordar cedo para trabalhar na lavoura desde muito jovem e trazer o sustento para dentro de sua casa, sua família, para gerações seguintes ser feliz muitas vezes se traduz em completar um curso superior e alcançar um emprego que proporcione poder e o salário perfeito, ou, contrariamente, pode ser também trabalhar o suficiente para seu próprio sustento durante todo o inverno e passar o verão viajando o mundo, aproveitando apenas o momento presente, sem fazer planos futuros.

Felicidade pode ser definida nos dicionários como um estado de consciência plenamente satisfeita; um contentamento e bem-estar. Essas sensações acontecem de maneira muito individualizada nas pessoas. Podem advir mais intensamente quando se executa um trabalho envolvente, de vivências com pessoas que amamos, do resgate de memórias significativas do passado ou da antecipação de conquistas futuras por simulações da nossa mente.

Apesar de todo esse esforço de se tentar decifrar a felicidade, Daniel Kahneman, vencedor do prêmio Nobel em Economia, pioneiro e fundador da economia comportamental, um dos psicólogos mais influentes da atualidade, defende que existem inúmeras armadilhas cognitivas que tornam impossível pensar em felicidade de forma clara e simplificada hoje em dia.

Kehneman é um dos maiores exploradores da maneira racional e irracional de como o ser humano toma decisões e avalia riscos. Ele defende que felicidade tem que ser vista como um conceito muito mais complexo do que uma simples sensação de bem-estar. Em sua visão, considera uma armadilha confundir experiência e memória: a diferença básica entre estar feliz da vida, ou estar feliz com a vida ou na vida. Apesar de estarem aglutinados na mesma noção de felicidade, são conceitos muito diferentes.

No pensamento desse estudioso, nós temos duas individualidades distintas – um eu da experiência, que vive e conhece o presente, para quem obtemos resposta de sim ou não quando o perguntamos: “Sente dor aqui?”; e um eu da memória, que é aquele que registra, mantém a biografia, o legado e que responde à pergunta: “Como tem se sentido nos últimos meses?”. A confusão entre essas duas entidades, a da experiência e a da memória, contribui para a confusão em relação à felicidade, tanto entre os próprios pesquisadores, quanto entre os leigos, nas suas vivências diárias.

Daniel Kahneman, ainda, em uma de suas palestras propôs o seguinte exercício mental: quão feliz está o seu eu da experiência. Assim, você se perguntaria: quão felizes são os momentos na vida do meu eu experiência? Observem que, se fizermos a mesma pergunta ao eu da memória, é completamente diferente, porque não se trata da felicidade que a pessoa vive naquele momento, mas sim da satisfação ou prazer que sente quando ela pensa sobre sua vida. Logo, a lição principal é que é bem diferente uma percepção da outra e não podemos colocar tudo no mesmo saco.

Agora que já temos noção sobre a dificuldade e complexidade de se pensar em felicidade com clareza, gostaria de chamar atenção para outros pensamentos de um grupo de estudos de Harvard, que também tem feito descobertas interessantes no que existe por trás do que entendemos como felicidade. Esse grupo desenvolveu o Estudo de Desenvolvimento Adulto, possivelmente a pesquisa mais longa sobre a vida adulta já realizada nos dias de hoje. Durante 75 anos, desde 1938, as vidas de 724 homens, ano após ano, foi acompanhada, questionando-se sobre seus trabalhos, vidas domésticas, saúde, sem saber como as histórias de suas vidas seriam.

Aproximadamente 60 dos 724 homens originais ainda estão vivos, e participam do estudo, a maioria deles hoje com cerca de 90 anos. Atualmente, estuda-se também os mais de 2 mil filhos desses homens. São acompanhadas as vidas de dois grupos de homens. O primeiro começou o estudo quando os participantes estavam no segundo ano da Universidade de Harvard. Todos terminaram a faculdade durante a 2ª Guerra Mundial e a maioria foi servir na guerra. O segundo grupo era de garotos dos bairros mais pobres de Boston, escolhidos para o estudo especialmente porque eram de algumas das famílias mais problemáticas e desfavorecidas na década de 30.

Essas pessoas foram entrevistadas em suas casas. Foram obtidos registros de saúde, exames de imagem dos cérebros, coletas de sangue. De todas essas milhares de informações ao longo de todos esses anos, as lições mais importantes adquiridas foram as mesmas, para ambos os grupos estudados, e não são sobre riqueza, fama e poder – a mensagem mais clara foi: as boas relações mantém as pessoas mais felizes e mais saudáveis.

As pessoas que têm mais ligações sociais, seja com a família, amigos, comunidade foram as mais felizes. Quando analisado retrospectivamente os homens aos 80 anos e reunido o que se conhecia sobre eles aos 50 anos, não foram os níveis de colesterol os indicadores mais determinantes de felicidade e saúde, mas sim o grau de satisfação que tinha com suas relações, sendo então bons relacionamentos um dos maiores fatores de proteção no envelhecimento.

Além de protegerem o corpo, parecem proteger também o cérebro – as pessoas que nutrem redes de apoio, mantém suas memórias vivas por mais tempo. Parece que os contratempos, discussões, rancores não se fixam na memória quando sentimos que podemos contar um com o outro. As pessoas do estudo que foram mais felizes foram as que trabalharam ativamente por transformar colegas de trabalho em amigos, as que dedicaram seu tempo a pessoas, as que venceram as adversidades de uma relação por um objetivo compartilhado.

As relações impactam no eu da memória, que guarda nossas experiências de felicidade, no eu contador das nossas histórias, definidas pelas nossas mudanças, momentos significativos e finais impactantes de trajetórias. Talvez atingir felicidade seja buscar, sim, por momentos de experiência plena de um bem-estar completo, mas também seja sobre cuidar com carinho da história que construímos dia-a-dia. Talvez seja sobre estar presente, mas também sobre cuidar da nossa unidade como seres humanos e estarmos dispostos a viver em conjunto, entendendo o quão isso é importante não só para o todo, mas para nós mesmos como indivíduos.

“Não há tempo, tão breve é a vida, para discussões, desculpas, amarguras, prestação de contas. Só há tempo para amar e, mesmo para isso, é só um instante”.

Mark Twain

 

Câncer na mulher: O que há de diferente do Brasil X Campinas?

Em março celebramos o Dia Internacional da Mulher, que ao longo do século XX se consolidou como um momento comemorativo, de reflexão e de luta.

No que diz respeito à saúde da mulher brasileira, e aqui falaremos também em especial da saúde da mulher campineira, de fato, temos pontos para comemorar, muito a refletir e um bom caminho a percorrer para alcançar melhores desfechos.

Comecemos por uma reflexão sobre os dados epidemiológicos acerca das neoplasias que acometem as mulheres brasileiras. Informações precisas sobre o câncer em uma população, conhecida como vigilância epidemiológica, são essenciais não só parar gerar hipóteses quanto à causalidade e avaliar o efeito de ações de controle, mas também norteiam estratégias de prevenção e cuidado do câncer. A vigilância do câncer traz informações sobre casos novos, casos em tratamento, mortes por câncer, dentre outras, resultando no adequado conhecimento da situação dessa doença.

A incidência de câncer, por exemplo, expressa o número de casos novos de uma determinada neoplasia em uma população. Segundo os dados mais recentes do Instituto Nacional do Câncer (INCA), os tumores mais incidentes nas mulheres brasileiras são:

Brasil

  • Mama
  • Intestino grosso (cólon e reto)
  • Colo uterino
  • Pulmão
  • Tireoide
  • Estômago
  • Ovário
  • Corpo uterino

No entanto, a distribuição da incidência de câncer não é homogênea no nosso país continental e marcado pela desigualdade.

Nas regiões Norte e Nordeste, o câncer de colo uterino é o segundo na lista de incidência, sendo que a estimativa de casos novos de câncer de mama e de colo uterino é bastante próxima na região Norte. No Brasil (somando todas as regiões), essa doença ocupa a terceira posição, sendo 7,4% de todas as neoplasias em mulheres. Segundo dados do Globocan, cerca de 85% dos casos de câncer do colo do útero ocorrem nos países menos desenvolvidos e a mortalidade por este câncer varia em até 18 vezes entre as diferentes regiões do mundo.

Já em Campinas, felizmente, essa doença ocupa o nono lugar, sendo responsável por apenas 3% das neoplasias em mulheres.

É nessa significativa diferença nas incidências Brasil X Campinas que encontramos um motivo para comemorar com a perspectiva da saúde das mulheres campineiras, já que o câncer de colo uterino é sabidamente uma doença passível de prevenção, por meio da vacina contra o vírus HPV, e também do exame conhecido como Papanicolau. Assim, é possível inferir que Campinas tenha melhores práticas de saúde pública e maior nível de desenvolvimento que outras regiões do país.

Observa-se, no mundo, um aumento na incidência do câncer de pulmão em mulheres (ao contrário do declínio que vem sendo observado nos homens). No Brasil essa neoplasia ocupa a quarta posição em incidência, porém em Campinas ocupa o quinto lugar. Essa diferença pode ser reflexo dos padrões de adesão e cessação do tabagismo, já que 85% dos casos estão associados ao tabaco. À semelhança do que ocorre na diferença de incidência do câncer de colo uterino entre Brasil X Campinas, essa observação pode também resultar de melhores práticas e estratégias de saúde pública.

Assim como no mundo e no Brasil, a mortalidade por câncer de mama vem caindo em Campinas, hoje representado 19% das mortes por câncer nas mulheres. Vários fatores contribuem para essa queda, principalmente o diagnóstico precoce e acesso aos novos tratamentos. Ainda assim, o câncer de mama continua sendo a neoplasia mais comum entre as mulheres no Brasil e em Campinas, e também é o que causa maior mortalidade, tornando-se um importante problema de saúde e atraindo, assim, a atenção de cientistas ao redor do globo todo. Apesar da queda na mortalidade por essa doença, análises recentes mostram que está crescendo o número de mulheres vivendo com câncer de mama metastático, o que decorre, muito provavelmente, da queda da mortalidade pelos oportunos melhores tratamentos. Uma importante publicação de pesquisadores brasileiros mostra que existem cerca de 45 mil mulheres vivendo com câncer de mama metastático no Brasil, que ainda é uma condição incurável.

Feita essa breve reflexão sobre as discrepâncias entre os dados dos cânceres que acometem as mulheres no Brasil e em Campinas, fica claro que temos um caminho certeiro a percorrer: as adequadas práticas da vigilância epidemiológica do câncer, bem como o seu melhor conhecimento, podem resultar em estratégias de prevenção e diagnóstico precoce que impactem profundamente na redução da incidência dessa doença.

Entrevista Dr. Adolfo Scherr, concedida para a Rádio Catedral FM, sobre álcool e câncer

Ouça o áudio:

Quais os tipos de câncer relacionados ao HPV e como me prevenir?

Papilomavírus humano (HPV) é o nome dado a um grupo de mais de 200 vírus de DNA que infectam somente seres humanos. A infecção pelo HPV ocorre principalmente durante relações sexuais desprotegidas (sexo oral, vaginal ou anal), mas também pode ocorrer transmissão de mãe para filho durante o parto, pela saliva e por contato com material perfurocortante contaminado. Trata-se de uma infecção extremamente comum, de forma que, aos 50 anos, 80% das mulheres terão sido infectadas em algum momento da vida.

A infecção pelo HPV pode levar à formação de verrugas (genitais ou de pele). Porém, muitas pessoas infectadas não apresentam sintomas e isso favorece a disseminação da infecção. De maneira geral, o sistema imunológico consegue eliminar a infecção em até dois anos. Porém, em alguns casos, ela pode persistir e aumentar o risco de doenças como o câncer. Sabe-se que aproximadamente 40 tipos de HPV podem infectar a região anal e genital e, entre eles, 13 tipos são considerados de alto risco, ou seja, estão associados ao câncer. Além disso, os HPV de alto risco também podem causar câncer em outras partes de corpo. Importante lembrar que os tipos de HPV que causam verrugas genitais não são os mesmos que causam câncer.

Entre os tipos de câncer associados ao HPV, o mais comum é o câncer do colo de útero. Hoje, sabe-se que o HPV é a causa de quase todos os casos desse tipo de câncer. Em todo o mundo, o câncer de colo de útero é o quarto câncer mais comum entre as mulheres, com uma estimativa de 570.000 novos casos por ano em todo o mundo, representando 6,6% de todos os cânceres nas mulheres. No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer (INCA) estima que em 2020 sejam diagnosticados 16.590 novos casos da doença. Em média, o intervalo de tempo entre a infecção e o desenvolvimento de câncer é de 15-20 anos. Porém, o tempo pode ser mais curto na presença de outros fatores de risco, como deficiência do sistema imune (por exemplo, infecção concomitante pelo HIV ou outras infecções sexualmente transmissíveis) e tabagismo.

O HPV também está associado ao desenvolvimento de câncer de vulva e de vagina. No entanto, ao contrário do câncer de colo de útero, a porcentagem de casos associados ao HPV é menor: vulva (29-43%) e vagina (cerca de 70%). São tumores bem menos comuns que o câncer de colo de útero, mas quando associados ao HPV costumam ocorrer em idade mais jovem. Entre os homens, a infecção pelo HPV pode levar ao desenvolvimento de câncer de pênis. Esse tipo de câncer não é tão frequente e, assim como nos casos de câncer de vulva e de vagina, quando o HPV é o agente causador o câncer costuma surgir em homens mais jovens.

Outro tipo de câncer associado ao HPV é o câncer de canal anal (ânus), sendo que até 93% dos casos dessa doença mostram relação com a infecção. Esse tipo de câncer também é pouco comum e ocorre mais frequentemente em mulheres do que em homens. Porém, homens que fazem sexo com homens apresentam risco aumentado tanto de infecção pelo HPV quanto de câncer de canal anal.

Por fim, o risco de câncer de cavidade oral e orofaringe (garganta) é aumentado em 2-4 vezes na presença de infecção por HPV de alto risco. Ao longo dos últimos anos, nos EUA, observa-se um aumento dos casos de câncer de garganta associado ao HPV e redução dos casos não associados ao HPV. Os cânceres de cavidade oral e garganta associados ao HPV tendem a acontecer em pessoas mais jovens e que apresentam comportamento sexual de risco.

A prevenção do HPV envolve diversas estratégias que podem ser direcionadas à redução do risco de infecção e a detecção precoce e tratamento de lesões causadas pelo HPV e que podem se transformar em câncer.

Para a prevenção da infecção, recomenda-se:

  • Educação sexual para meninos e meninas, envolvendo tópicos como início da atividade sexual e prática de sexo protegido.
  • Fornecimento e orientação sobre uso de camisinha.
  • Orientação sobre os riscos associados ao tabagismo.
  • Vacinação.

A vacina contra o HPV é uma forma segura e eficaz de proteção contra a infecção. Atualmente, no Brasil, existem duas vacinas disponíveis. A vacina quadrivalente (Gardasilâ) protege contra os tipos 6, 11, 16 e 18, e a vacina bivalente (Cervarixâ) que protege contra os tipos 16 e 18. Sabe-se que existe proteção cruzada contra tipos de HPV não cobertos pela vacina, de forma que as duas são consideradas igualmente eficazes para a prevenção do câncer de colo de útero. O efeito da vacina é melhor quando administrada antes do primeiro contato com o vírus. Por isso, é recomendada a aplicação a meninas e meninos antes da primeira relação sexual. No Brasil, a vacina quadrivalente está incluída no calendário vacinal do Sistema Único de Saúde (SUS), sendo administrada a meninas de 9-14 anos e meninos de 11-14 anos. Vale lembrar que a vacina não consegue curar uma infecção já instalada.

A detecção precoce de lesões causadas pelo HPV é a base para a realização do rastreamento de câncer de colo de útero com exame citopatológico (Papanicolaou). O achado dessas lesões iniciais permite seu tratamento, reduzindo-se o risco de desenvolvimento de câncer. Além disso, permite a detecção do câncer em estádio mais precoce, com maior chance de cura. No Brasil, o rastreamento é recomendado a partir dos 25 anos e estende-se até os 64 anos. Os dois primeiros exames devem ser feitos com intervalo de um ano e, se forem negativos, os demais serão feitos a cada três anos. Vale lembrar que mesmo as mulheres que foram vacinadas contra HPV devem ser submetidas ao rastreamento para câncer de colo uterino.

No caso dos cânceres de vulva, vagina, pênis, ânus e cavidade oral/garganta não existe rastreamento que tenha se mostrado eficaz. Os dados de prevenção desses cânceres com a vacina contra HPV ainda são iniciais, mas sugerem que a vacina também é eficaz em evitar esses tipos de câncer. Recomenda-se atenção ao surgimento de sinais e de sintomas suspeitos, como surgimento de verrugas, feridas que não melhoram em até 2-3 semanas, sangramento, rouquidão, dor para engolir. Nessas situações, recomenda-se procurar rapidamente um profissional de saúde.

Referências

  1. World Health Organization. Human papillomavirus (HPV) and cervical cancer fact sheet. Disponível em: https://www.who.int/en/news-room/fact-sheets/detail/human-papillomavirus-(hpv)-and-cervical-cancer. Acessado em 10 de fevereiro de 2020.

 

  1. Centers for Disease Control and Prevention. HPV and Cancer. Disponível em: https://www.cdc.gov/cancer/hpv/index.htm. Acessado em 10 de fevereiro de 2020.

 

  1. Palefsky JM, Cranston RD. (2019). Virology of human papillomavirus infections and the link to cancer. In T.W. Post, Dizon DS, Aboulafia DM (Eds.), UptoDate.

 

  1. Palefsky JM. (2019). Human papillomavirus infections: Epidemiology and disease associations. In T.W. Post, Hirsch MS (Ed.), UptoDate.

 

  1. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estatísticas de câncer. Disponível em: https://www.inca.gov.br/numeros-de-cancer. Acessado em 14 de fevereiro de 2020.

 

  1. Siegel RL, Miller KD, Jemal A. Cancer statistics, 2020. CA Cancer J Clin. 2020;70(1):7–30.

Álcool e câncer: qual a real relação? Em qual quantidade?

Dados da Organização Mundial da Saúde mostram que em todo o mundo, três milhões de mortes por ano resultam do uso nocivo do álcool, representando 5,3% de todas as mortes. Em geral, 5,1% da carga mundial de doenças e lesões são atribuídas ao consumo de álcool, conforme calculado em termos de Anos de Vida Perdidos Ajustados por Incapacidade. Na faixa etária de 20 a 39 anos, aproximadamente 13,5% do total de mortes são atribuíveis ao consumo excessivo dessa substância. Álcool é o termo comum para etanol ou álcool etílico, uma substância química encontrada em bebidas alcoólicas, como cerveja, vinhos e bebidas destiladas. Ele é produzido pela fermentação natural de açúcares e amidos por leveduras.

A relação entre consumo de bebidas alcoólicas e desenvolvimento de câncer já é bem estabelecida. Em 2018, a Associação Americana de Oncologia Clínica (ASCO) estabeleceu que 5% de todos os novos casos de câncer estavam relacionados ao consumo de álcool. Os principais tumores relacionados com o etilismo são os de cabeça e pescoço (boca, língua, garganta, laringe), esôfago, estômago, fígado, intestino (cólon, reto) e mama. A forma exata de como o álcool aumenta o risco de câncer não é totalmente conhecida. O que se sabe é que há mais de um mecanismo carcinogênico envolvido como, por exemplo: – a produção de acetaldeído, um produto químico tóxico proveniente da metabolização do álcool etílico no organismo e que tem o potencial de danificar o DNA e proteínas;  – geração de radicais livres de oxigênio que também podem danificar o DNA, proteínas e lipídios do corpo por meio do processo de oxidação; – no intestino, o álcool pode funcionar como solvente, facilitando a entrada de outras substâncias carcinogênicas para dentro das células saudáveis;  – aumentando os  níveis sanguíneos de estrogênio, hormônio feminino associado ao risco de câncer de mama.

Quantificar uma dose segura para consumo de bebida alcoólica não é fácil uma vez que existe na literatura médica pontos de vista divergentes. Vários fatores precisam ser levados em conta como, por exemplo, o gênero (mulheres são mais suscetíveis aos efeitos danosos do álcool) e raça (asiáticos têm maior chance de possuírem alterações genéticas que levam a alterações enzimáticas e, consequentemente, maior produção de acetaldeído no organismo após consumo de álcool). Além disso, se uma pessoa sofre de alcoolismo, que é uma doença e precisa de tratamento, é muito difícil falar em dose segura de álcool, pois uma pequena quantidade como a encontrada em alguns chocolates já pode desencadear uma recaída e levar o indivíduo a consumir doses excessivas. O que se considera atualmente o limite máximo diário para consumo de bebida alcoólica é de uma dose para mulheres e duas doses para os homens. Uma dose corresponde a aproximadamente 30g de álcool etílico o que equivale a 350ml de cerveja (uma lata ou garrafa long neck), 180ml de vinho (uma taça) ou 50ml de destilados (como uísque, vodca, gin). Vale ressaltar que a concentração alcoólica pode variar bastante entre uma bebida destilada e outra assim como entre estilos diferentes de cerveja, o que mais uma vez torna essa quantificação de limite diário bastante difícil.

Um estudo japonês publicado em dezembro de 2019 em uma conceituada revista científica sugeriu que não existem níveis seguros de ingestão de bebida alcoólica e risco de câncer. Embora o impacto possa variar entre os vários tipos de tumor, mesmo o consumo leve, equivalente a 10 drinks por ano (o estudo adotou como equivalente a 1 drink:  500ml de cerveja ou 180ml de vinho de mesa ou 60ml de destilados), pode aumentar em 5% o risco global de desenvolvimento de câncer. Ainda de acordo com o estudo, o risco se eleva com o aumento da quantidade de doses de álcool ingeridas ao longo do tempo, ou seja, quem consome mais e por mais anos tem o risco maior de desenvolver câncer, o que já sabíamos de outras publicações científicas. Quando nos deparamos com informações como esta trazida pelo estudo japonês – que não há dose segura no consumo de álcool e câncer –, algumas ponderações precisam ser feitas. Uma delas é o fato de que pessoas que não consomem bebidas alcoólicas geralmente têm hábitos mais saudáveis de vida em detrimento das que consomem que muitas vezes também fumam, não tem uma alimentação balanceada, são obesas e não praticam atividades físicas, ou seja, há outros fatores envolvidos que sabidamente aumentam o risco de desenvolvimento de câncer. Por mais que os autores tenham tentado identificar esses fatores na hora de se fazer a análise, isso pode não ter sido feito de forma satisfatória uma vez que os dados do estudo foram obtidos de forma retrospectiva, analisando informações de prontuários de pacientes. Outro ponto que merece uma análise crítica é o fato de o levantamento ter sido realizado somente com a população japonesa, o que pode não ser reproduzível para outros povos.

Como oncologistas, a mensagem que devemos passar para as pessoas é que, sim, o consumo de bebidas alcoólicas aumenta o risco global de desenvolvimento de câncer ao longo do tempo. Não há consenso na literatura médica sobre o limite aceitável e seguro de consumo. Não há nenhum dado científico que comprove que o consumo de alguma bebida alcoólica (vinho, por exemplo) pode prevenir o surgimento de um determinado tipo de câncer. Finalmente, pessoas que por algum motivo já tem risco elevado de desenvolver alguma neoplasia como mulheres com história familiar positiva para câncer de mama, principalmente as que têm alterações em alguns tipos determinados de genes, devem evitar o consumo de bebida alcoólica, em qualquer quantidade.

Descoberta promissora para todos os tipos de câncer

Cada vez mais a Oncologia vem se dirigindo para tratamentos individualizados e muito específicos para cada tipo de pessoa e tumor. E se uma técnica fosse contra essa corrente e tentasse criar uma arma global para todos os cânceres? Seria um passo de volta à lógica da quimioterapia, que é menos específica e pode causar mais efeitos colaterais? Não necessariamente.

Um estudo publicado no início do mês na prestigiada revista Nature Immunology promete tratar todos os tipos de câncer de uma maneira inovadora. Entretanto, o entusiasmo deve ser controlado, pois as pesquisas ainda são iniciais e ainda há uma longa estrada pela frente para que a terapia proposta seja revertida em benefício aos pacientes no mundo real. Vamos contextualizar.

No fim do ano passado, falamos sobre um tratamento inédito no Brasil (CAR-T), oferecido pela USP em um paciente com linfoma, e que consiste na inserção de um tipo específico de receptor em células de defesa do próprio indivíduo, a fim de que as mesmas ataquem o tumor. Nesse caso em concreto – e em muitos outros em estudos pelo mundo –, alguns pacientes têm apresentado benefício em certas neoplasias hematológicas, porém os efeitos em tumores sólidos (pulmão, mama, próstata, etc) ainda são incertos e motivos de inúmeros estudos.

Agora, nesse novo – e extremamente complexo – estudo, a ideia é parecida, porém com a diferença (e provável vantagem) que os alvos sejam células de qualquer tipo de câncer, não apenas alguns específicos de um indivíduo específico, sendo assim, as células utilizadas não precisam ser da mesma pessoa e podem servir para qualquer tipo de tumor.

No estudo, os cientistas descobriram um novo tipo de receptor de linfócitos (célula de defesa do organismo), que reconhece uma proteína chamada MR1. E o que a MR1 faz? Ainda não se sabe ao certo, mas fato é que está presente em quase todas as células do organismo e, consequentemente, do câncer, com uma diferença: é semelhante entre indivíduos diferentes, ou seja, todos nós, teoricamente, temos o mesmo receptor. E tal característica é distinta do MHC, um conjunto de proteínas que temos nas células e que as identificam como nossas (como uma “impressão digital”), e, portanto, variam sua estrutura de indivíduo para indivíduo.

Os pesquisadores inseriram os receptores TCR nos linfócitos T de um doador e descobriram que essas células passaram a ter como alvo células de câncer de um indivíduo diferente. Através de uma técnica revolucionária (CRISPR-Cas9), eles descobriram que esse alvo era especificamente o receptor MR1. Em seguida, esses linfócitos foram injetados em ratos de laboratório, que abrigavam células humanas de leucemia, e testados em células humanas de melanoma em laboratório.

Os efeitos foram surpreendentes, com redução das células de leucemia e aumento de sobrevida dos ratos, além de matar as de melanoma, indicando que as células inoculadas atacam as células do câncer, mas não as do próprio animal. Todos os testes mostraram que a ação é contra o câncer, poupando as células normais, o que indica que os efeitos colaterais podem ser bem menores.

O estudo ainda é pré-clínico, ou seja, não foi conduzido em humanos, mas sim em laboratório e, em parte, em ratos, portanto, os resultados ainda necessitam ser validados em populações humanas. Ademais, as condições de um estudo em laboratório são bem diferentes daquelas in vivo. Realizar estudos que comprovem a eficácia em populações humanas vai levar um tempo considerável e muito esforço dos cientistas, mas com certeza é uma descoberta de extrema importância e que adiciona esperança de conseguirmos melhores tratamentos contra o câncer.

 

Referências:

Crowther MD, et al. Genome-wide CRISPR–Cas9 screening reveals ubiquitous T cell cancer targeting via the monomorphic MHC class I-related protein MR1. Nat Immunol. 2020;21:178-85

https://jovempan.com.br/noticias/mundo/cientistas-descobrem-celula-que-podera-tratar-todos-os-tipos-de-cancer.html?utm_content=buffer6c8a8&utm_medium=social&utm_source=facebook.com&utm_campaign=buffer&fbclid=IwAR2dgYPZShEbMjGFu1G2D8C4C0FvUr3J5tTZWjuu_fGDPmy7q4GXoZJJc8I

Nova indicação para pacientes com leucemia linfocítica crônica

No fim do mês passado, a Anvisa aprovou a indicação do medicamento Venetoclax (Venclexta®) para pacientes com Leucemia Linfocítica Crônica (LLC) como tratamento inicial em combinação a uma outra droga, o Obinutuzumabe.

A LLC é um tipo de leucemia de crescimento lento e que acomete geralmente pessoas mais idosas. O Venetoclax é um inibidor de BCL2, uma proteína que impede a morte celular, sendo assim o medicamento estimula a apoptose, ou morte programada, das células do tumor.

No estudo CLL14, publicado no New England Journal of Medicine, os pacientes foram randomizados para receber Venetoclax + Obinutuzumabe ou Clorambucil + Obinutuzumabe. O Clorambucil é um tratamento-padrão e é um tipo de quimioterapia. Além disso, o tempo de tratamento foi estabelecido em 12 meses, ou seja, após esse tempo, o tratamento era interrompido e os pacientes mantinham seguimento com seu hematologista.

Os resultados mostraram uma redução de 67% da chance de progressão ou morte, além de maiores chances de ter uma resposta e de alcançar doença residual mínima. Em relação à sobrevida global, a mesma não pode ser analisada ainda em função do baixo número de eventos. Os efeitos colaterais foram semelhantes no geral, porém mais eventos fatais foram detectados no grupo de Venetoclax, ainda que não tenha atingido significância estatística. Esse é um ponto importante para se ter em conta ao utilizar essa medicação.

Essa nova indicação significa uma opção mais eficaz e um tempo de tratamento menor para os pacientes com LLC, o que é, sem dúvida, um benefício e deve levar a uma melhora da qualidade de vida. Numa população que costuma ser mais idosa e ter outros problemas de saúde associados, isso é de grande importância.

Lembramos, entretanto, que, apesar da aprovação na Anvisa, os planos de saúde não estão obrigados a reembolsar o medicamento, já que é uma terapia oral. Como sempre, reforçamos, a necessidade de mudança na rotina de aprovação destas terapias no nosso país é urgente. Em um post anterior (https://sonhe.med.br//2019/09/03/simparaquimiooral/) falamos sobre isso.

Continuamos atentos às novidades.

 

Referências:

Fischer K, Al-sawaf O, Bahlo J, et al. Venetoclax and Obinutuzumab in Patients with CLL and Coexisting Conditions. N Engl J Med. 2019;380(23):2225-2236

http://www.anvisa.gov.br/datavisa/fila_bula/frmVisualizarBula.asp?pNuTransacao=7169012019&pIdAnexo=11368511

Cartilha: Orientações sobre o manejo e consumo de alimentos para pacientes em quimioterapia

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Mamografia: mitos e verdades Para evitar as fake news

Mito: Mamografia é um exame sem eficácia comprovada.

Verdade:  A mamografia é o único exame que, quando realizado rotineiramente pela mulher a partir dos 40 anos, na ausência de quaisquer sintomas nas mamas, diminui o risco de morrer por um câncer de mama. Isso foi comprovado em grandes estudos realizados em mais de 500 mil mulheres, com redução da mortalidade entre 10% e 35% no grupo de mulheres que faziam mamografias regularmente comparado com as mulheres que não faziam. No Brasil, as sociedades médicas recomendam o rastreamento mamográfico anual para as mulheres entre 40 a 75 anos.

Mito: O autoexame é suficiente para detectar um câncer de mama.

Verdade: O autoexame só detecta um câncer de mama quando a doença está em uma fase adiantada, geralmente maior que 1-2 cm, enquanto exames de rastreamento detectam tumores em mulheres assintomáticas, nas quais a chance de cura é significativamente maior. Não há nenhum estudo que comprove que o autoexame pode substituir a mamografia, não devendo ser adotado como método de rastreamento.

 

Mito: É necessário rastreamento para câncer de mama em mulheres antes dos 40 anos.

Verdade: Exames de rastreamento rotineiros não são recomendados para mulheres com menos de 40 anos, já que o risco é considerado baixo. Além disso a mamografia é menos efetiva em mulheres jovens pelo fato do tecido mamário ser mais denso, o que diminui a capacidade do exame detectar anormalidades

 

Mito: Todos os cânceres de mama podem ser detectados na mamografia.

Verdade: Nenhum teste de rastreamento é perfeito e a mamografia não é exceção. Fatores como a densidade mamária e a idade influenciam a efetividade da mamografia, dificultando a detecção dos tumores. O rastreamento mamográfico tende a ser menos efetivo em mulheres mais jovens por possuírem mamas mais densas. Em torno de 25% dos cânceres de mama em mulheres entre 40 a 49 anos não são detectados pela mamografia e em torno de 10% não são detectados pela mamografia na faixa etária após 50 anos.

 

Mito: A radiação durante a mamografia pode causar câncer.

Verdade: A mamografia necessita de pouca radiação para ser executada O risco da exposição à esta radiação é baixo e o benefício em muito se superpõe ao risco. Além disso, nunca houve um caso de câncer de mama comprovadamente induzido por radiação da mamografia.

 

Mito: Não se pode realizar mamografia se tem implante mamário.

Verdade: Mulheres com próteses mamárias podem e devem fazer mamografias rotineiramente, sem risco de diminuição na sensibilidade do exame ou risco de rompimento ou deslocamento da prótese mamária.