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17 de outubro: Dia Nacional da Vacinação

Há 224 anos, um médico inglês injetava pus de uma vaca com varíola bovina em uma criança de 8 anoshttps://academic.oup.com/annonc/issue/30/Supplement_4?page=3#905486-5529524. Dois meses depois, injetava na mesma criança secreção com varíola humana. O menino sobreviveu. Assim – e com a contribuição de vários cientistas anteriormente – foi “inventada” a técnica para a primeira vacina. E isso mudou o mundo.

O ato de vacinar é importante para a pessoa vacinada – claro – mas devemos nos lembrar também que é uma questão de saúde pública. O freio da contaminação por doenças infecciosas reduz a mortalidade da população em geral, principalmente daqueles considerados como grupos de risco. Inclusive, existem pessoas que não podem ser vacinadas por alguma doença que contraindica, ou que ainda não têm idade (recém-nascidos); essas pessoas talvez sejam as mais beneficiadas pela vacinação em massa de quem pode.

As vacinas protegem contra a ocorrência de diversas doenças infecciosas, desde a poliomielite, que pode deixar pessoas sem movimentos, até a pneumonia, que pode levar pessoas, principalmente idosos, à morte. Não só isso, temos também as vacinas que podem prevenir o câncer, no caso, a do HPV evita tumor de colo do útero. Muitas das patologias foram erradicadas, como a varíola e a poliomielite, enquanto outras – como a gripe, o tétano e a coqueluche – tiveram seu impacto na saúde da população consideravelmente reduzido (>90%).

Criado há 47 anos, o Programa Nacional de Imunização do Brasil é uma das referências mundiais da área, principalmente por sua universalidade, ou seja, a capacidade que tem de atingir a quase totalidade da população do país. Além disso, estimula uma indústria interna de alta tecnologia, com mais de 90% das vacinas sendo produzidas nacionalmente.

E, no dia 17 de outubro, é realizado o Dia Nacional da Vacinação (ou Dia D), uma data de extrema importância, não só pelos benefícios das vacinas, mas também para o combate às notícias falsas, que têm recriado um movimento antivacina, que é altamente letal e coloca em risco a vida de muitas pessoas.

Nos últimos anos, temos visto uma redução da cobertura vacinal, muito em consequência do movimento antivacina, levando ao reaparecimento de casos de sarampo, por exemplo. Porém, agora temos um agravante: a pandemia de coronavírus. A situação atual reduziu a vacinação no país de forma considerável e, por isso, é ainda mais importante o dia 17.

O Dia D está inserido dentro da Campanha Nacional de Vacinação, que visa atualizar o calendário vacinal das crianças de até 15 anos e conscientizar a população, incluindo adultos e idosos, sobre a necessidade de atualização das suas vacinas. Mais de 40 mil postos de saúde participarão do evento.

Atualmente, são 18 as vacinas disponibilizadas para crianças e adolescentes. A da poliomielite já é velha conhecida, com a mudança nos últimos anos de incluir não só a do “zé gotinha”, mas também a injetável. A ausência de casos desde 1990 é uma vitória e deve ser mantida a todo custo. A do sarampo, incluída na tríplice viral, é de grande importância, já que surtos de sarampo têm ocorrido nos últimos anos no país. Mais recentemente, a vacina contra o vírus HPV entrou no calendário brasileiro para meninas e meninos. Entretanto, a abrangência está longe do esperado e isso preocupa, pois o câncer de colo de útero é um dos mais incidentes no nosso país e atinge muitas mulheres jovens, podendo levar à morte.

Num momento em que todos têm comentado (e desejado) a vacina contra a COVID-19, tão ou mais importante é garantir que a vacinação contra doenças que já são comprovadamente prevenidas seja feita de forma ideal. Por isso, vamos participar desse movimento, sempre com responsabilidade de respeitar as regras de higiene, com distanciamento social, lavagem das mãos e uso de máscara, afinal, a pandemia de COVID-19 ainda mata mais de 500 pessoas por dia no nosso país. Não precisamos que outras 500 (ou mais) morram por doenças facilmente evitáveis.

Lavar as mãos hoje e sempre!

Lavar as mãos é um ato básico do nosso cotidiano, que aprendemos desde a infância!  Mas, nem sempre foi assim… a conhecida história do Dr. Ignaz Semmelweis, médico húngaro que, em 1847, percebeu que havia menos mortes das crianças ao nascimento e menor número de complicações infecciosas pós-parto das mães que eram assistidas pelas mãos limpas das parteiras do que daquelas vindas das mãos dos médicos. Percebeu, então, que, de alguma maneira, o ato da lavagem das mãos assegurava a vida da mãe e da criança. Obviamente, apenas nas décadas seguintes, com a evolução das pesquisas sobre micro-organismos, que a prática da higienização de mãos passou a ser difundida pelos profissionais de saúde e a ser adotada cada vez mais pelas instituições. Ao fim do século XIX já era um protocolo de praticamente todas as unidades de saúde.

Em 15 de outubro de 2008 uma iniciativa público-privada criou o Dia Mundial da Lavagem das Mãos (Global Hand Washing Day). Uma campanha educativa pela lavagem das mãos de forma correta, com água e sabão, com o objetivo de diminuir o número de doenças e até de mortes causadas por doenças infecciosas.

A lavagem das mãos é, sem dúvida, a rotina mais simples, mais eficaz, e de maior importância na prevenção e controle da disseminação de infecções, devendo ser praticada por todos!

Ficam algumas dicas: lavar as mãos antes de comer, de beber ou de manusear alimentos; ao chegar em casa, ao utilizar o banheiro, ao coçar nariz e olhos e ao espirrar; ao término de cada tarefa, ao término de sua jornada de trabalho e após brincar com aninais!

Utilize água corrente e sabão.

O ideal é retirar anéis, pulseiras e relógio.

Lave também os antebraços.

Lave por 15 segundos, ao menos.

Mais de um século após a descoberta de Semmelweis sobre a importância da lavagem das mãos, ainda precisamos reforçar este ato.

Portanto, pela sua saúde, pela saúde de nossas crianças e entes queridos, LAVE AS MÃOS, SEMPRE!

E compartilhe este ato.

A importância da Fisioterapia para os pacientes com câncer

Alaís Camargo Corcioli, fisioterapeuta

Crefito 3 / 173506-F

 

Estamos em outubro, mês que fortalece a campanha internacional contra o câncer de mama simbolizada pela fita cor de rosa, lançada na década de 90 pela Fundação Susan G. Komen durante uma corrida de rua em Nova York, a afamada Race for the Cure . Mas, falando em movimento, você sabia que nesse mês também celebramos o Dia Nacional do Fisioterapeuta?

Foi no dia 13 de outubro de 1969, há 51 anos (!), que o Decreto-Lei 938 foi expedido regulamentando a profissão no Brasil. Somos a ciência do movimento e da funcionalidade, que previne e trata os distúrbios cinéticos funcionais, adquiridos, por exemplo, em razão do câncer! Ao todo, temos quinze especialidades reconhecidas pelo Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional, dentre elas, a Fisioterapia Oncológica.

A assistência profissional aos pacientes oncológicos é bastante ampla no que diz respeito a: nível de atenção à saúde (complexidade), objetivos e recursos terapêuticos, variando conforme localização do câncer, estadiamento e possíveis disfunções associadas à doença e ao tratamento (clínicos e/ou cirúrgico). Grosso modo, busca-se a manutenção ou a recuperação da capacidade funcional e da qualidade de vida, seja nos serviços ambulatoriais, domiciliares ou hospitalares (enfermarias clínicas ou cirúrgicas e unidades de terapia intensiva).

Algumas das disfunções passíveis de serem tratadas (com resolução completa ou parcial), por meio da Fisioterapia, são: dor, redução da força muscular e da amplitude de movimento articular, fadiga oncológica, náusea/vômito, linfedema, fibroses (como o cordão axilar), incontinência urinária, paresia facial periférica, redução das trocas gasosas, colapso alveolar, redução da força diafragmática e inabilidade de tosse.

Controlar ou reverter tais sintomas implica em ganho de autonomia, conforto e habilidade física, redução no risco de queda e de infecções e retorno ao trabalho, além de contribuir com a continuidade do tratamento médico. Vale ressaltar que a relevância da Fisioterapia vai além da reabilitação, destacando-se o trabalho preventivo na pré-habilitação, por exemplo, cria-se uma reserva funcional, especialmente naqueles pacientes com risco aumentado de complicações no pós-operatório (sarcopenia, pneumonia, atelectasia, trombose venosa profunda, embolia pulmonar, insuficiência respiratória, etc.), reduzindo a incidência ou a gravidade de sequelas, tempo de internação e readmissões hospitalares.

Ao nosso alcance estão, entre outros recursos, os exercícios terapêuticos (assistidos, resistidos e aeróbicos), a terapia manual, a eletroestimulação, o treinamento muscular respiratório, a oxigenoterapia, o suporte ventilatório não invasivo, a drenagem linfática, o enfaixamento compressivo e a mobilização e educação em saúde. As condutas são escolhidas após avaliação e elaboração do projeto terapêutico, que é individualizado, e as sessões de acordo com a condição clínica do paciente, respeitando seus limites, porém incentivando novas conquistas.

Integrando à equipe multidisciplinar, somos mãos e ciência, que acolhem e cuidam, para oferecer um suporte humanizado e de excelência.

Obesidade e Câncer

É relativamente fácil notar que a sociedade caminha e se organiza para a inércia de seus indivíduos. A tecnologia (com o smartphone e demais dispositivos), a televisão, o fast food, os meios de transportes e diversos outros produtos e serviços a nossa volta se dispõem em prol da praticidade e da comodidade, nos colocando cada vez menos em movimento. Sendo assim, o sobrepeso e a obesidade tornaram-se condições de saúde muito frequentes e que, até outrora, havia quem os via como um problema exclusivamente estético. O que se tem, na verdade, é uma gama de doenças crônicas relacionadas ao excesso de peso e ao sedentarismo que, de maneira preocupante, ocupa as posições mais altas de hospitalização, com altíssimas taxas de morbimortalidade. Estamos falando não somente da hipertensão, diabetes e das doenças cardiovasculares; o câncer, de uma maneira geral, está diretamente relacionado a fatores ambientais e estilo de vida, tal como o sobrepeso e obesidade.

De acordo com números da American Cancer Society, o excesso de peso corporal é considerado responsável por cerca de 15% dos cânceres em mulheres e cerca de 10% dos cânceres em homens nos Estados Unidos. No que tange aos óbitos envolvendo câncer, estima-se que 7% deles estejam relacionadas às condições de obesidade e/ou sobrepeso. É sabido, ainda, que o risco de falecimento por câncer é maior em pacientes obesos.  Diversos estudos mostraram correlação entre o excesso de peso de câncer. Embora a intensidade desta associação com os diversos tipos de câncer varie entre eles, existem metanálises que encontraram fortes evidências que sustentam a associação entre obesidade e o câncer do útero (endométrio), do rim, do estomago, do ovário e do pâncreas.  O câncer colorretal (o terceiro mais comum em homens e mulheres) é também relacionado a obesidade (em especial nos homens) e tem como um dos fatores de risco o consumo excessivo de carne vermelha e de embutidos, o que comumente auxilia no ganho de peso corporal.  No câncer da mama (que detém a hegemonia nos números de cânceres femininos) a obesidade parece incrementar a incidência especialmente nas mulheres no período pós-menopausa. Dados sugerem que o sobrepeso não aumenta o risco de câncer de mama antes da menopausa, mas as razões para isso ainda não são claras. O que já se sabe é que, após o tratamento do câncer da mama, manter-se ativa e reduzir o peso corporal para níveis adequados para cada individuo é um fator “protetor” e reduz a chance de recidiva do tumor.     O excesso de peso pode aumentar o risco de câncer de diversas maneiras. Biologicamente falando, a obesidade é uma condição que cursa com maiores índices de inflamação no corpo, podendo ainda estimular o crescimento das células e vasos sanguíneos. Certos hormônios, como insulina e estrogênio, estão em níveis elevados no paciente com excesso de peso e tendem a estimular o crescimento das células. Ainda neste contexto, outros mecanismos que regulam o crescimento celular podem se alterar em indivíduos obesos e culminar no crescimento anômalo e desorganizado da célula, o que gera o ambiente ideal para o surgimento de tumores diversos. Sempre é tempo de iniciar uma mudança de hábitos e de estilo de vida em prol da saúde. Embora ainda tenhamos muito a aprender sobre como o ganho (e também a perda) de peso se relacionam com o risco de câncer, as pessoas com sobrepeso ou obesas devem ser encorajadas a se exercitar e mudar hábitos para o controle do peso corpóreo. Além de, possivelmente reduzir o risco de câncer, combater a obesidade e o sobrepeso certamente traz muitos outros benefícios à saúde.

Mostre-me a evidência: Pets e pacientes com câncer

É bem conhecido o fato de que o tratamento do câncer implica em muitas mudanças na vida dos pacientes. Alguns hábitos são deixados de lado; novas rotinas são criadas; novos “normais” surgem. Os pacientes são convidados a se adaptar repentinamente a uma realidade com restrições diversas em prol da segurança em um período de baixa da imunidade durante a quimioterapia. Assim, não incomumente, o simples ato de brincar com seu cachorro ou gato de estimação pode se transformar em uma situação de risco para contrair infecções.

Além de apaixonados pelos nossos pets de estimação, nós, do Grupo SOnHe, respeitamos a importância que os animais domésticos têm no cultivo da saúde emocional de nossos pacientes. Buscamos sempre nos pautar pelo conhecimento técnico-científico para mediar com segurança essa relação de afeto e carinho. Hoje, o programa Mostre-me a Evidência traz um pouco da evidência que norteia esta condição.

Afinal, é perigoso se manter próximo do seu pet durante o tratamento do câncer?

A resposta para este questionamento não é uma constante; porém, na maioria das vezes, ela é não!

A literatura não é muito clara sobre este assunto e os poucos estudos existentes não conseguiram de fato comprovar um aumento de infecções em pacientes com câncer que mantiveram contato com seus animais domésticos. Há, entretanto, um alerta quanto aos hábitos corriqueiros relacionados ao cuidado e à rotina com o animal que são considerados de risco para aquisição de infecções, tais como mordeduras, arranhaduras, contato com fezes/urinas, entre outras.

Um estudo australiano monitorou a rotina de um grupo de pacientes considerados imunocomprometidos (em especial com neoplasias hematológicas – linfoma e leucemia) com seus respectivos pets. Dos 137 pacientes, 53% dos pacientes realizavam diariamente a limpeza das escorias do animal (fezes e urina), 37% relatavam que deixavam o animal dormir na sua cama, e 28% tinham o hábito de deixar o animal lamber a região facial e áreas próximas da boca. Quando questionados, apenas 16% (21 pacientes) relataram ter recebido alguma orientação profissional sobre esses hábitos durante o tratamento oncológico.

É seguro e saudável conviver com animais de estimação durante o tratamento do câncer. É necessário, entretanto, perguntar para o seu médico oncologista sobre as rotinas com o seu pet, mesmo que isso pareça uma dúvida simples ou “boba”. Dessa forma, com boas orientações, é possível tornar esta relação mais segura e garantir a continuidade do tratamento necessário.

É isso por hoje!

Para finalizar de maneira alegre, tal como os pets nos fazem sentir, acompanhe o grupo SOnHe nas midas sociais, poste uma foto com seu animal de estimação e nos marque. Será um prazer conhecê-los e tê-los conosco em prol deste tema.

Segue abaixo a literatura: 

Gurry, Greta A, et al. High rates of potentially infectious exposures between immunocompromised patients and their companion animals: an unmet need for education. Internal Medicine Journal, [S.L.], v. 47, n. 3, p. 333-335, mar. 2017

Cancer.Net. Food safety during and after cancer treatment. 2018. Accessed at https://www.cancer.net/survivorship/healthy-living/food-safety-during-and-after-cancer-treatment on August 30, 2019

Freifeld AG, Kaul DR. Infection in the patient with cancer. In Niederhuber JE, Armitage JO, Kastan MB, Doroshow JH, Tepper JE, eds. Abeloff’s Clinical Oncology. 6th ed. Philadelphia, PA: Elsevier; 2020: 544-562.

NIH U.S. National Library of Medicine. MedlinePlus. Pets and the immunocompromised person. 2019.

A pandemia afeta os tratamentos de pacientes com câncer

Já entrando no sexto mês de pandemia de coronavírus, a situação não parece perto do fim. E ao longo desse tempo, lamentamos sempre as vítimas da doença, mas não devemos nos esquecer daquelas pessoas afetadas de forma indireta: pacientes com câncer.

Sabemos que a saturação dos serviços de saúde em função da COVID-19 impactou diretamente o cuidado a pessoas com outras patologias, como infarto, AVC, problemas ortopédicos, entre muitos outros. Ademais, lembramos que esse cuidado deficiente leva a descompensação dessas doenças e, algumas vezes, até à morte.

E uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) mostrou que os pacientes com câncer foram também prejudicados de uma forma expressiva. Segundo a pesquisa com 120 oncologistas de todas as regiões do país, 74% dos pacientes com câncer interromperam ou adiaram seus tratamentos por mais de um mês durante a pandemia. Os procedimentos mais afetados foram as cirurgias (70%), seguidas dos exames de avaliação de resposta (22%). E um número ainda mais preocupante: menos de 1% dos oncologistas consideram que seus pacientes não tiveram nenhum problema. Esse cenário não se limita ao Brasil, é mundial.

Além disso, existem dados ao redor do mundo mostrando que a redução da oferta de exames de imagem reduziu de forma considerável os diagnósticos de câncer neste período. Mas isso não é bom? Não, pois o câncer não espera e esses pacientes serão, sim, diagnosticados, porém de forma tardia e, consequentemente, em um estágio mais avançado. Tal situação preocupa a todos, pacientes e equipe, pois pode aumentar a mortalidade, reduzir as possibilidades de tratamento e influenciar muitas vidas.

Em resumo, devemos ficar vigilantes, sim, para combater o novo coronavírus; entretanto, não podemos trabalhar com retirada de suporte àqueles que também precisam e que tem doenças tão (ou muitas vezes mais) graves quanto a COVID-19. O câncer é melhor tratado quanto mais cedo identificado e atrasos no diagnóstico e no tratamento impactam na vida de muitos. Por isso, a orientação é de que os pacientes não deixem de manter seu tratamento/acompanhamento nesta pandemia, claro, tomando os cuidados necessários para não se contaminarem. Não podemos tratar um problema e esquecer dos outros.

 

Referências:

https://www.sboc.org.br/noticias/item/2027-folha-de-s-paulo-destaca-pesquisa-da-sboc-sobre-covid-19-e-cancer

https://www.thelancet.com/journals/lanonc/article/PIIS1470-2045(20)30388-0/fulltext

Terapia por feixe de prótons: a evolução tecnológica da radioterapia

Dr. Rodrigo Marotta
Radio-oncologista
Radium Instituto e Oncologia

 

A radioterapia é uma modalidade de tratamento essencial no combate ao câncer. Ao longo das décadas, houve uma grande evolução na forma de entregar a radiação aos tumores. Atualmente, a radiação por feixe de fótons é a forma mais utilizada. Apesar da radioterapia tridimensional conformada ser a técnica padrão, novas tecnologias para reduzir a exposição de órgãos normais à radiação têm sido implementadas. Dentre elas, a radioterapia por intensidade modulada (IMRT), disponível em diversas instituições no Brasil, reduz a dose nos tecidos normais e, consequentemente, pode reduzir a morbidade cardiopulmonar relacionada ao tratamento.

Outra forma de entregar radiação aos tecidos é a terapia por feixe de prótons, uma partícula pesada descoberta em 1919 por Rutherford. Os primeiros experimentos na área médica datam de 1946 e, desde então, o domínio desta radiação e seu uso na prática clínica nos pacientes oncológicos tem evoluído constantemente. Do ponto de vista físico, os feixes de prótons se caracterizam por menor energia de entrada, com menor dispersão por se tratar de partículas pesadas, e maior pico de energia de saída no final dos feixes, com uma maximização da energia nos milímetros finais. Este efeito é chamado de Bragg Peak. Na prática, este tipo de radiação entrega a dose alta no volume alvo com maior precisão e reduz drasticamente a dose espalhada nos órgãos adjacentes, o que, em teoria, reduz os efeitos colaterais relacionados ao tratamento.

Então, se este tratamento é dosimetricamente superior aos feixes de fótons, por que não utilizamos na prática clínica? A resposta é simples: custo-efetividade. O acelerador de partículas de prótons é diferente dos aceleradores lineares que geram fótons. Tais aparelhos têm um custo de instalação exorbitante (dez vezes maior que o acelerador linear de fótons), custos operacionais e de manutenção fora da nossa realidade, além de necessitar de pessoal altamente especializado e capacitado.

Isto justifica o número reduzido de centros que fornecem este tratamento ao redor do mundo. Atualmente são quase 100, sendo que a maior parte deles foram inaugurados na última década e um terço encontra-se nos EUA. Outros 41 estão em construção, com previsão de inauguração nos próximos três anos. Destes, somente um está localizado da América do Sul, na Argentina.

Soma-se ao custo elevado a escassez de evidência científica que comprove a sua equivalência, superioridade ou menor toxicidade quando comparado aos fótons, além da dificuldade de condução de ensaios clínicos randomizados e recrutamento de pacientes muito abaixo do esperado. Além disso, o aumento do uso dos prótons em tumores prevalentes, como mama, pulmão e próstata, aumentou drasticamente os custos das operadoras de saúde, porém, devido à falta de comprovação científica, muitos têm questionado e exigido justificativa plausível para investir neste tratamento. Há inclusive alguns artigos que comentam sobre o risco de causar uma “bolha de prótons” com uma possível diminuição da sua indicação.

No entanto, existem nichos com benefício já comprovados com o uso de prótons. O maior benefício tem sido observado em tumores pediátricos, principalmente na radiação do neuro-eixo, na qual há diferença em toxicidade aguda e tardia, bem como um menor risco de neoplasia secundárias. Nos adultos, tumores do sistema nervoso central, da base de crânio (cordomas e sarcoma), para-espinhais e melanoma uveal também têm benefício comprovado. Evidências mais recentes demonstram menor toxicidade em tumores do esôfago, conforme publicação recente de um estudo fase IIB comparando próton versus IMRT.

Por esta e outras razões, o Brasil – onde habitam mais de 200 milhões de habitantes – merece, sim, um centro de protonterapia. Mas não com apelo comercial e, sim, com objetivo de tratar aqueles pacientes que possuem o benefício comprovado. Porém, pelo seu alto custo de implementação, esta tarefa não é fácil. Em 2017, foi registrado e liberado pela ANVISA o primeiro sistema de protonterapia no Brasil. Talvez, a melhor maneira de investimento e gestão é uma parceria entre diversas entidades, sejam elas filantrópicas/privadas e até mesmo público-privada. Desta forma, a seleção dos pacientes ideais fica facilitada, assim como a diluição de todos os custos inerentes a este tratamento.

Ref.: https://ascopubs.org/doi/abs/10.1200/JCO.19.02503

31 de agosto: Dia do Nutricionista Qual a importância desse profissional no tratamento oncológico?

Juliana Nabarrete, nutricionista

 

Que a alimentação tem um papel importante na prevenção de inúmeras doenças, entre elas vários tipos de câncer, já é fato conhecido por todos. Aliás, já dizia Hiócrates há 2.500 anos: “Que o teu alimento seja o teu remédio e que o teu remédio seja o teu alimento”. Mas, e após o diagnóstico, será que realmente a avaliação de um nutricionista é necessária?

Óbvio que para um nutricionista falar que sim é natural, mas será que os pacientes e equipe médica conseguem e também entendem a importância? A nutrição é a ciência que estuda as relações entre os alimentos, os nutrientes ingeridos e o ser humano, e, ainda, os possíveis impactos na saúde. Uma nutricionista pode atuar em consultórios, hospitais, restaurantes, hotéis, supermercados e na indústria de alimentos, com foco geral de difundir informações sobre alimento e comportamento alimentar na prevenção de doenças. Vai muito além do peso ou da imposição de hábitos alimentares.

No paciente em tratamento oncológico, a importância vai além do controle de peso ou controle de sintomas. A assistência nutricional consiste desde um aconselhamento nutricional, indicando ao paciente escolhas e estratégias alimentares que fortaleçam o organismo durante o tratamento, até a junção do aconselhamento com uma avaliação corporal detalhada, com mensuração de peso, composição corporal (músculo e gordura) e força muscular e avaliação da rotina alimentar.

A desnutrição, comum em até 50% dos pacientes, nem sempre apresenta a forma clássica com grandes perdas de peso visíveis. Muitas vezes o paciente acima do peso ou dentro do peso ideal apresenta sutis perdas peso, que consistem mais em massa magra do que em gordura, fato esse conhecido como sarcopenia.

Mucosite, diarreia, vômitos e perda de apetite impactam negativamente a ingestão alimentar, levando a perda ou ganho insuficiente de peso e, assim, faz-se necessário implementação de condutas complementares na alimentação.

Nestes dois momentos, o nutricionista tem papel essencial, não só no manejo, mas principalmente na identificação precoce de pacientes que possam se beneficiar da assistência nutricional. Para isso é necessário que todos os pacientes com câncer sejam avaliados regularmente para risco nutricional, a fim de identificar aqueles que precisam de avaliação completa.

Dados recentes demonstram que o encaminhamento para nutricionista ocorre de maneira tardia, quando já há perda de peso superior a 5% ou presença de sintomas como anorexia, náusea e saciedade precoce, porém mais de ¼ dos pacientes deveriam ter sido referenciados mais cedo. Esses dados podem ser avaliados por meio de triagem nutricional, realizada por nutricionista ou em parceria com a equipe de enfermagem.

Mas isso não caracteriza o controle de peso ou controle de sintomas? Não. A importância da nutrição na Oncologia se caracteriza em monitorar os pacientes em tratamento e identificar como eles estão com relação à alimentação, os sintomas, a rotina em casa e peso, com o objetivo de minimizar os agravos no estado nutricional, ou seja, alterações de peso e acometimento de sintomas em graus avançados.

Respire essa ideia: pare de fumar!

O cigarro é a maior causa evitável de morte no mundo todo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) espera para 2020 mais de 7,5 milhões de mortes em todo mundo por doenças causadas pelo hábito de fumar. Só no Brasil são cerca de 428 mortes ao dia relacionadas ao tabagismo, cerca de 157 mil mortes ao ano.

São mais de 4.800 compostos químicos em um único cigarro, dentre os quais mais de 70 são sabidamente cancerígenos. É disparado o maior fator de risco para o desenvolvimento de câncer e está relacionado a quase todos os tumores, com particular importância para as neoplasias de pulmão, cabeça e pescoço, bexiga e trato gastrointestinal. Especialmente, em relação ao câncer de pulmão, 15% de quem fuma deverá desenvolver esse tipo de câncer em algum momento da vida, além disso, 80 a 90% de quem tem o diagnóstico de neoplasia pulmonar é tabagista. Ainda, cerca de 80% dos tumores de pulmão são descobertos em fases avançadas, com metástases, quando o câncer já se espalhou pelo corpo e a chance de cura é muito baixa. São 1,8 milhões de casos novos de câncer de pulmão diagnosticados todos os anos no mundo com 1,6 milhões de mortes.

Cerca de 80% dos tumores de cabeça e pescoço, que é o terceiro tipo de câncer mais comum no Brasil, e por volta de 70% das neoplasias de bexiga também estão relacionados ao tabagismo. O cigarro, portanto, tem um poder destrutivo imenso capaz de comprometer a qualidade de vida e ceifar vidas de pessoas muitas vezes ainda jovens e produtivas.

Além disso, o tabagismo é o segundo fator de risco mais importante para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares (perdendo apenas para hipertensão arterial), lembrando que essas doenças são as que mais matam no Brasil e no mundo. É ainda o principal fator relacionado às doenças respiratórias como asma, bronquite, enfisema pulmonar. Está associado a impotência sexual, infertilidade, menopausa precoce nas mulheres e uma série de outras enfermidades,

Os pacientes que fumam têm, em média, 14 anos menos de expectativa de vida em relação a quem não fuma. Além disso, está cada vez mais claro que os tabagistas passivos (aqueles que não fumam, mas convivem de perto com quem fuma) também têm mais chances de desenvolver câncer, doenças cardíacas e pulmonares. De todas as mortes causadas pelo cigarro, 12% são em fumantes passivos. O impacto na economia é de mais de 56 bilhões ao ano, com tratamentos de doenças tabaco correlacionadas e com a perda precoce de vidas.

A nicotina contida no cigarro atinge rapidamente o cérebro e em menos de 10 segundos libera vários neurotransmissores relacionados à sensação de bem-estar e prazer, como a dopamina. Por isso, o cigarro é tão viciante e um hábito difícil de abandonar.  Daquelas pessoas que desejam abandonar o vício, menos de 5% tem sucesso sem ajuda de um profissional.

Na tentativa de diminuir o tabagismo e com isso as doenças a ele relacionadas, vários países passaram a adotar medidas que estimulam o abandono do cigarro e outras que evitam o início do tabagismo. Nesse contexto, o Brasil – ao lado da Turquia – ganhou lugar de destaque ao ser o segundo país a conseguir implementar de forma eficaz todas as seis medidas sugeridas pela OMS chamadas de Mpower (plano para reverter a epidemia do tabaco) e conseguir reduzir de forma consistente o número de pessoas que fumam. Os esforços para essa redução começaram em 1990, quando profissionais de estados e municípios foram treinados pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA) para tratar pacientes tabagistas no SUS e o tratamento começou a ser oferecido de forma gratuita.

Outras medidas importantes foram o aumento de impostos sobre os cigarros (que chegaram a 83% em 2018), a proibição de propagandas em televisão e revistas, a obrigatoriedade de estampar as embalagens de cigarro com fotos e frases que mostram os efeitos devastadores do vício e, por fim, a proibição do fumo em locais fechados de uso coletivo. Todas essas medidas levaram o Brasil a reduzir em mais de 50% o número de pessoas que fumam nos últimos 25 anos (34% da população em 1989 e 10% atualmente), o que ainda corresponde a mais de 20 milhões de tabagistas.

Estima-se que um terço da população adulta mundial seja tabagista, principalmente em países como China, Rússia e em países europeus. Destes acredita-se que 60% desejem parar de fumar, mas não conseguem e não têm assistência para isso. Além disso, o habito de fumar começa cedo, geralmente antes dos 20 anos, o que mostra a importância de orientar e alertar os jovens para os danos causados pelo tabaco.

Em 2020, o mundo foi invadido por uma nova pandemia causada pelo vírus Sars Covid 19, doença que já causou mais de 110 mil mortes no Brasil e mais de 800 mil mortes no mundo. Essa doença é capaz de inflamar e comprometer a função adequada dos pulmões levando milhares de pessoas à morte por insuficiência respiratória. Sabe-se que pessoas que fumam e já possuem algum grau de comprometimento pulmonar prévio têm maiores riscos de desenvolver quadros graves da doença.

Além do cigarro, existem os charutos, cachimbos, cigarros de palha, narguilés e mais recentemente os cigarros eletrônicos. Algumas pessoas defendem esses tipos de fumo, alegando serem menos prejudiciais; no entanto, isso não é verdade. Algumas delas, como o narguilé, são ainda mais nocivos. E o cigarro eletrônico, embora em geral não contenha nicotina, vem se mostrando um grande perigo. O uso de cigarro eletrônico vem crescendo no Brasil (onde a comercialização é proibida) e no mundo.  Em 2018, mais de 3,5 milhões de estudantes do ensino médio, nos EUA, disseram já ter experimentado o cigarro eletrônico. Seus efeitos deletérios ainda não são completamente conhecidos, mas o Centro de Controle de Doenças dos EUA divulgou recentemente várias mortes associadas diretamente ao uso do cigarro eletrônico.

Por isso, o dia 29 de agosto foi escolhido como Dia Nacional de Combate ao Fumo.  O objetivo é orientar e reforçar junto à população as consequências sociais, políticas e econômicas do hábito de fumar e chamar a atenção de todos para os malefícios e danos causados à saúde de quem fuma ou convive com quem fuma. Vamos alertar a todos sobre a importância de abandonar o cigarro! E para àqueles que realmente desejam parar, fica a orientação de procurar um profissional da área da saúde, seja no SUS, ou no ambiente privado, para obter auxílio contra esse que é, sem dúvida, o maior vilão da humanidade.

Respire essa ideia!

26 de agosto: Dia Internacional da Igualdade da Mulher

Diferença dos cuidados oncológicos da mulher nos serviços públicos e privados

Vitória da incorporação do medicamento Pertuzumab no SUS reflete um AVANÇO EFETIVO E MAIS IGUALDADE no tratamento de mulheres com câncer de mama avançado HER2 positivo

A partir de agosto de 2020, as pacientes com câncer de mama HER2-positivo metastático ganharão esperança e seus oncologistas, alívio. O Pertuzumabe, importante medicamento para tratamento de câncer de mama HER2 positivo avançado, foi incorporado para tratamento de pacientes do SUS e estará disponível a partir deste mês. É importante ressaltar que o Pertuzumabe estava incorporado ao SUS desde dezembro de 2017, conforme portaria publicada no diário Oficial da União (Portaria n°57, de 4 de dezembro de 2017), que tornou pública a decisão de incorporar o medicamento para uso no combate ao câncer de mama HER2 positivo metastático em primeira linha de tratamento. Porém, em quase três anos, a situação não se alterou, com a justificativa do SUS que não havia acordo para compra do medicamento.

O Pertuzumabe é um medicamento conhecido como terapia-alvo. Isso porque é capaz de localizar, especificamente nas células do tumor de mama que expressam a proteína HER2, o chamado câncer de mama HER2 positivo. Assim o Pertuzumabe é um anticorpo desenvolvido para tratar o subtipo de câncer de mama HER2 positivo. Em torno de 20 a 25% dos cânceres de mama são HER2 positivo. Nesta incorporação, o Pertuzumabe está sendo oferecido para pacientes com câncer de mama HER2 positivo em estádio avançado, com metástases. A sua utilização, associada ao Trastuzumabe (outro anticorpo/terapia-alvo) e Docetaxe (um quimioterápico), proporciona mais benefícios em termos de controle da doença, prolongando a vida com qualidade em comparação com outras terapias sem a associação de Pertuzumabe. O histórico das incorporações das terapias-alvo (Pertuzumabe Trastuzumabe) se encontra na tabela abaixo. Todas as incorporações de medicações passam por um processo na Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) no Ministério da Saúde. Especialmente a partir de 2016, houve um esforço e grande dedicação da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), com a participação dos oncologistas André Sasse e Vivian Antunes, ambos do Grupo SOnHe, em associação com entidades representativas da sociedade civil, para acelerar este processo de incorporação e acesso às medicações tão importantes.

O uso do bloqueio duplo – como é chamada a associação de Pertuzumabe e Trastuzumabe – é uma estratégia que amplia a efetividade do tratamento e garante imenso benefícios às pacientes.