86 milhões de casos e mais de 1.800.000 mortes no mundo. 8 milhões de casos e mais de 200.000 mortes no Brasil. Avanço sem precedentes da ciência. Enquanto a pandemia de COVID-19 se alastra como nunca antes, o mundo urge por uma solução. E essa solução tem nome: vacinação. Para todos, de forma rápida e com prioridades para os que estão em maior risco. E os nossos pacientes com câncer – em maior risco de desenvolver a COVID-19 – também precisam desta proteção. Mas o que podemos falar sobre as vacinas para COVID-19? E sobre a vacinação em pacientes com câncer.
As vacinas
Até o momento, há por volta de 150 vacinas em teste, sendo que 40 estão nas fases avançadas em humanos e apenas três têm publicações em revistas científicas. Isso é um histórico (extremamente importante) passo da ciência mundial: em menos de seis meses, foram desenvolvidas vacinas, as quais começaram a ser aplicadas em pessoas em menos de um ano da declaração da pandemia pela OMS, algo nunca antes visto (ou imaginado).
Existem diversos tipos de vacinas, sendo as principais: as de vírus inativos, as de proteínas recombinantes virais, as de vetores virais, as de RNA mensageiro, dentre outras menos utilizadas. Com a exceção do último tipo, todas as outras têm utilização prévia para outras doenças, sendo seus mecanismos bastante conhecidos e a sua segurança bem estabelecida. A OMS – e a maioria das agências reguladoras mundiais – preconiza uma eficácia mínima de 50% em estudos fase III – a mais avançada – para uma vacina ser considerada eficaz.
As três vacinas com resultados publicados e já aprovadas em países do ocidente são: Pfizer/BioNTech, Moderna e Oxford/AstraZeneca. Todas as três mostraram eficácias altas com uso de duas doses. As duas primeiras usam a tecnologia do RNA mensageiro, algo novo, mas muito eficaz e seguro, ao menos a curto prazo. Além disso, seus estudos incluíram mais de 30.000 pessoas. A última, de Oxford, é baseada em um vetor viral e, apesar de ter um estudo mostrando sua eficácia, entre 60 e 90%, o mesmo teve algumas questões ainda questionadas pelos cientistas, o que, porém, não a tira da lista de opções para uso emergencial.
Nos dias 7 e 12 de janeiro de 2021, foram apresentados os dados de fase III da Coronavac, vacina feita pelo Instituto Butantan em parceria com a Sinovac. O estudo foi conduzido no Brasil com mais de 12.000 profissionais de saúde. As taxas de eficácia foram muito satisfatórias (50,4% na população geral, 78% para casos leves e 100% para os graves) e correspondem ao limiar mínimo da OMS. Um ponto importante, foi que não houve casos graves nem mortes no grupo que tomou a vacina. Porém, para uma análise mais acurada, os dados ainda têm de ser revelados em publicação em revista científica, visto que os resultados estatísticos ainda não foram detalhados. Apesar disso, é uma vacina eficaz e segura e, portanto, deve ser aprovada para uso emergencial.
Em geral, as vacinas foram bem toleradas, com poucos (e esperados) efeitos colaterais. As contraindicações são apenas para pessoas com alergias a algum componente da fórmula ou, em algumas situações, a outras vacinas. E vale ressaltar que a análise das vacinas deve (e vai) continuar acontecendo após a aprovação das mesmas, pois ainda não se sabe a duração da proteção, se precisamos de um reforço, quais subpopulações podem ou não podem tomar, os efeitos colaterais a longo prazo e qual é o limiar para atingirmos uma imunidade de rebanho.
Sobre outras vacinas muito comentadas, aquela desenvolvida pela Janssen ainda não informou os dados de eficácia e segurança do estudo fase III e a russa Sputnik, além de ainda não ter publicado seus dados, também apresentou uma análise com um número muito pequeno de eventos, o que pode levar a resultados enviesados.
Aqui valem alguns esclarecimentos de fake news que circulam por aí: vacinas não causam câncer, não modificam o DNA de quem as recebe e não, não têm chips embutidos para controlar a todos. Fato é que vacinas salvam vidas e, portanto, o movimento antivacina é criminoso.
É salutar o entendimento de que as vacinas só funcionam quando dadas em uma porção grande da população (vacinação), ou seja, não servem como um mecanismo de defesa individual. Por isso, para o sucesso da vacina, os governos devem usar de uma estratégia que foque na vacinação do maior número de pessoas, no menor tempo possível, priorizando aqueles que estejam em maior risco de óbito ou de infecção. Acima de tudo devemos entender que o pensamento coletivo deve imperar em detrimento do individual, com foco em uma imunidade de rebanho, a fim de que todos possamos ficar livres dessa situação desastrosa.
Pacientes com câncer
Em geral, as sociedades internacionais (americana e europeia) de oncologia e a maioria dos especialistas defendem a vacinação dos pacientes com câncer tratado ou mesmo ativo em tratamento. Importante ressaltar que vacinas de vírus atenuados não devem ser dadas a estes últimos. Nesse caso, como não temos vacinas deste tipo para COVID-19 em fases avançadas, não nos preocupemos com isso nesse momento.
A decisão de tomar a vacina deve ser compartilhada com o médico que acompanha o paciente, com as ressalvas que, em geral, pacientes imunocomprometidos têm menos resposta imune às vacinas, que podem ter, então, uma menor eficácia nessa população. Não só isso, nenhum dos estudos já publicados incluiu pacientes com câncer, portanto, a segurança não é comprovada. Entretanto, como temos experiência com outras vacinas mais antigas, a segurança daquelas desenvolvidas para COVID-19 não deve diferir muito para os pacientes oncológicos.
Vacinação no Brasil
Já se passou um mês desde que a primeira pessoa foi vacinada no Reino Unido com uma das vacinas que demonstraram eficácia. Enquanto isso, o Brasil, infelizmente, patina e o vírus assola a população que, por sua vez, tem frequentemente desrespeitado as orientações para prevenção da disseminação do vírus.
No dia 8 de janeiro, dia em que escrevo, tanto a Coronavac quanto a vacina de Oxford foram submetidas para aprovação emergencial pela Anvisa, que tem dez dias para dar um parecer. Esperemos que consigamos começar a vacinar o quanto antes e utilizar a nossa expertise com o Programa Nacional de Imunização, que é (ou era) referência no mundo.
Apesar de toda essa novela, devemos estar confiantes e certos de que estamos vivendo uma revolução científica que poderá ajudar a acabar com esse grande terror que é uma pandemia. Vamos em frente e torçamos para a aprovação das vacinas no Brasil, sem ideologia, sem preconceito e com base única e exclusivamente na ciência. Até lá, devemos manter as medidas de distanciamento, máscara e lavagem de mãos. Vacinação, não vacina, salva vidas (inclusive a sua)!
https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019
https://www.who.int/publications/m/item/draft-landscape-of-covid-19-candidate-vaccines
https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2035389
https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2034577
https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)32623-4/fulltext
http://vacinacovid.butantan.gov.br/
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0140673620326611?via%3Dihub
https://www.esmo.org/covid-19-and-cancer/covid-19-vaccination
https://static.poder360.com.br/2021/01/Apresentacao_Coletiva_07-01-2021.pdf
Ano novo: nova opção de tratamento para câncer de bexiga no Brasil
Um ano novo começando e temos novidade para pacientes com câncer de bexiga! O Avelumabe (Bavencio®), uma imunoterapia, foi aprovada para uso pela Anvisa em 28/12/2020 e vem para trazer benefícios para pacientes em estágio avançado da doença.
O Avelumabe é um medicamento que inibe uma proteína (PD-L1), que está presente em diversos tipos de tumores, levando a uma maior ativação do sistema imune contra o câncer e, consequentemente, a um maior controle da doença.
Esta droga – assim como outros imunoterápicos – já são utilizados em tumores de bexiga avançados em linhas posteriores e pacientes que não têm condições de receber quimioterapia. Agora, o estudo JAVELIN BLADDER 100 mostrou que o seu uso também traz benefício quando feito logo na primeira linha, em sequência da quimioterapia.
No estudo, os pacientes com câncer urotelial de bexiga (o mais comum) avançado foram submetidos a quimioterapia padrão por 4 a 6 ciclos e, caso houvesse resposta ao tratamento, eram sorteados para receberem o Avelumabe ou não. Ao final, 700 pacientes foram incluídos e a sobrevida global mediana passou de 14,3 para 21,4 meses, o que representou uma redução do risco de morte de 31%. Depois de 1 ano, 71,3% pacientes que receberam Avelumabe – contra 58,4% do grupo controle – estavam vivos. Como esperado, a taxa de efeitos colaterais foi maior com Avelumabe, já que a comparação foi com suporte clínico sem medicação, porém o padrão de toxicidades não foi diferente do previsto.
Essa nova indicação já autoriza o uso em qualquer paciente do Brasil que cumpra os critérios de seleção do estudo, entretanto o acesso fica limitado aos pacientes com planos de saúde, tendo em vista que essa aprovação não se estende ao SUS. A notícia é, sim, boa, mas nos lembra da desigualdade entre setores privado e público e do nosso dever de tentar incorporar essas novas medicações também no SUS. Continuaremos com novidades nesse ano! Um Feliz Ano Novo!
Referências:
https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2002788
Câncer de endométrio e mulheres na menopausa
Há alguns dias, os jornais noticiaram que a apresentadora Fátima Bernardes, da Globo, havia recebido o diagnóstico de câncer de útero. Muito foi especulado sobre o caso dela, porém, após esse tempo, as informações foram filtradas e podemos falar melhor sobre o esse câncer, que atinge mais de 6.000 mulheres todo ano no país e leva à morte 25% delas.
Primeiramente, temos que lembrar que, quando se fala de câncer de “útero”, muitas vezes as pessoas se referem ao câncer do colo do útero. No caso da apresentadora, o câncer era no útero, mas não no colo e, sim, no endométrio, que é a camada interna que recobre o órgão.
Esse tipo de tumor é relativamente comum em mulheres, principalmente naquelas que entraram na menopausa. Nos países desenvolvidos, é o câncer ginecológico mais comum, enquanto que nos subdesenvolvidos, o do colo é o mais frequente por conta da falta de Papanicolau para todas.
O principal sintoma é o sangramento anormal vaginal (proveniente do útero) e, geralmente, não é algo difícil de suspeitar, tendo em vista que essas mulheres já pararam de menstruar.
Um ponto importante que deve ser lembrado é que o principal fator de risco é a obesidade, que vem crescendo no mundo (e no Brasil), aumentando consequentemente a incidência desse tipo de câncer. Outros fatores de risco são a ausência de gestações ao longo da vida, o uso de pílulas de estrógeno isolado, uso de tamoxifeno e não ter amamentado na vida. Tudo isso tem relação com a ação dos hormônios femininos nas células do endométrio.
Felizmente, o câncer de endométrio costuma ser curável quando em estágios localizados, sendo o tratamento principal a cirurgia de retirada do útero, seguida (ou não) de radioterapia e/ou quimioterapia. Quando está avançado, também há tratamentos efetivos que conseguem controlar a doença, incluindo terapias hormonais, terapias-alvo, quimioterapia e até mesmo a imunoterapia em alguns casos específicos.
E para prevenir? Não tem muito segredo! Já que a idade e a menopausa são fatores incontroláveis, a melhor atitude é praticar atividade física e manter um peso saudável com uma dieta balanceada.
A Fátima Bernardes, pelos dados que temos da imprensa, teve um tumor localizado e que foi operado, portanto, as chances de cura dela devem ser altas. Por isso, é importante sempre atentarmos a modificações no “normal” do nosso corpo e procurar um médico o quanto antes em caso de alguma anormalidade, principalmente o sangramento vaginal fora do esperado.
Referências:
Uptodate.com
https://agora.folha.uol.com.br/sao-paulo/2020/12/sangramento-e-o-principal-alerta-em-caso-de-cancer-de-endometrio.shtml
Resumo Simpósio de Câncer de Mama 2020 (SABCS)
Projeto T-Cell Brasil
O Projeto T-Cell Brasil é um registro em que participam mais de 40 centros de tratamento de doenças onco-hematológicas do Brasil. O objetivo principal do estudo é identificar as características clínicas e laboratoriais dos pacientes brasileiros portadores de Linfomas T. Trata-se de uma doença rara e que apresenta aspectos clínicos próprios. Os estudos desta doença em nossa população são poucos e sendo o Brasil um país muito diverso, dado ao seu tamanho e muitas diferenças regionais, espera-se que este registro demonstre de maneira mais fidedigna a nossa realidade. Neste trabalho, foram analisados um subtipo muito específico dos linfomas T, chamado Leucemia/ Linfoma de Células T do Adulto e que está relacionado ao vírus HTLV-1. É uma doença bastante agressiva, com altas taxas de mortalidade e os tratamentos ainda são restritos. Este trabalho foi aceito no 62º Congresso Anual da Sociedade Americana de Hematologia – ASH 2020, que começa no dia 2 de dezembro de 2020.
Link do estudo:
Nutrição e atividade física: aliados contra o câncer
Neste ano atípico e atribulado por uma pandemia, muitas vezes outros problemas relacionados à saúde são deixados de lado, a exemplo da obesidade e do sedentarismo. Para abordar essa questão e visando a uma maior acessibilidade da população brasileira às informações mais atualizadas, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) fez uma tradução para o português de um Relatório de Especialistas criado pelo Fundo Mundial de Pesquisa em Câncer (WCRF, em inglês) e pelo Instituto Americano para Pesquisa em Câncer (AICR, em inglês).
A obesidade e o sedentarismo continuam em crescimento no mundo e são um grande problema de saúde pública, contribuindo para mais de quatro milhões de mortes, anualmente, no mundo. O estilo de vida e a falta de estímulo à atividade física são os principais fatores associados a esse cenário. No Brasil, mais da metade da população está acima do peso, e essa epidemia vem aumentando também entre as crianças.
No documento traduzido pelo INCA, os autores dissertam de forma bem clara sobre os vários aspectos da alimentação e suas consequências para nosso organismo e sobre o risco de câncer, sempre embasado em evidências científicas. Há um quadro mostrando visualmente os alimentos que têm relação estabelecida com o desenvolvimento de neoplasias, além da força dessa relação. Como exemplo, alimentos em conserva e processados aumentam – com alta probabilidade – a incidência de câncer de estômago e cólon, respectivamente. Além disso, evidencia-se que a obesidade e o álcool são os fatores mais fortemente relacionados à ocorrência de diversos tipos de tumores.
A partir dos dados, o documento faz recomendações práticas para a prevenção do câncer e melhor saúde geral:
– Manter um peso saudável;
– Ser fisicamente ativo (pelo menos 150 minutos por semana);
– Consumir uma dieta rica em vegetais, cereais integrais, frutas e leguminosas;
– Limitar o consumo de comida processada (fast food), carne vermelha, bebidas com adição de açúcar e alcóolicas;
– NÃO usar suplementos para a prevenção do câncer;
– Amamentar, se a mulher puder.
Na análise brasileira, a nossa população não cumpre esses requisitos, com altos níveis não só de obesidade, mas também de sedentarismo e de consumo de alimentos pouco saudáveis. O INCA sugere que a abordagem na nossa população seja comportamental, incentivando a alimentação saudável por políticas públicas bem instituídas e, como exemplo, não estimulando padrões estéticos para a prática da atividade física, mas sim o prazer em praticá-las.
Por fim, há também uma abordagem de como implantar essas medidas em nível populacional, com ênfase nas ferramentas sociais, como marketing, limitando propagandas de produtos pouco saudáveis, estimulando a compra de alimentos saudáveis ou realizando aconselhamentos em equipamentos públicos à toda a população. Isso envolve toda a sociedade e traz a responsabilidade compartilhada para melhorar o cenário atual.
Esse documento é de livre acesso e é de grande interesse de todos. A prevenção do câncer passa não só por exames e consultas, mas também pela adoção de um estilo de vida saudável. Vamos tentar, então, segui-lo!
Referências:
https://www.inca.gov.br/publicacoes/relatorios/dieta-nutricao-atividade-fisica-e-cancer-uma-perspectiva-global-um-resumo-do
Câncer de próstata na população negra: mais uma face da desigualdade
Dados de estudo populacionais mostram que homens negros têm 50% mais chance de desenvolverem câncer de próstata do que homens brancos. Além disso, e pior, a chance de um paciente negro morrer por câncer de próstata é duas vezes e meia maior do que um branco.
Várias pesquisas clínicas foram conduzidas para tentar entender essa diferença. E até hoje não se conseguiu comprovar que há alguma diferença biológica, como por exemplo a existência de algum gene que predisporia um subtipo mais agressivo da doença. Indo mais a fundo, em estudos clínicos controlados, nas quais todos os pacientes seguem rigorosamente os mesmos processos de tratamento e seguimento, para avaliação de novas medicações, não se vê diferença na agressividade e mortalidade pela doença, de acordo com questões raciais.
Dados mais recentes sugerem que homens negros aparentemente não são portadores de doenças biologicamente e intrinsecamente mais agressivas. No entanto, fazem menos exames de rastreamento como PSA, e mais frequentemente fazem diagnósticos mais tardios, em estádios mais avançados. Homens negros também têm mais dificuldade de conseguir manter hábitos saudáveis de vida, como alimentação balanceada e atividades físicas regulares. E, por isso, também são mais portadores de doenças crônicas como hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares. Também têm menos acesso a especialistas após o diagnóstico, são mais dependentes do Sistema Único de Saúde e estão mais distantes de novas tecnologias. Ou seja, a disparidade devido às questões socioeconômicas e educacionais pode explicar os números vistos na população.
É importante lembrar que dados como esses são difíceis de serem levantados de forma confiável, tanto pela complexidade das iniquidades socioculturais relacionadas à heterogeneidade da população quanto até à dificuldade de definição de quem é branco e quem é negro, em populações em que a miscigenação ocorreu de forma tão intensa quanto no Brasil.
Considerando que ainda no ano de 2020, um quarto dos homens não fazem exames de rastreamento do câncer de próstata porque acreditam que os procedimentos afetariam sua masculinidade, o caminho a se percorrer é longo. Começa com educação da população a respeito da importância do diagnóstico precoce. E passa pela melhora nos processos de diagnóstico e tratamento no sistema de saúde público brasileiro.
Um dos exemplos mais evidentes está relacionado com a distribuição dos aparelhos de radioterapia, terapia importante e muito utilizada para cura de doenças localmente mais agressivas. Seis em cada dez pacientes vão ter, em algum momento, indicação de tratamento com radioterapia. Mas o número de aparelhos no país é insuficiente para atender a demanda. E são mal distribuídos: dos equipamentos disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS), 55% estão na região Sudeste, 19% na região Sul, 13% no Nordeste, 7% no Centro-Oeste e apenas 6% na região Norte.
Há muito o que se fazer, em busca da diminuição das desigualdades. A reflexão sobre como chegamos nesse ponto é importante, mas fundamentais são as iniciativas para ampliar as opções terapêuticas no SUS, para melhor distribuir as tecnologias no território do país, e principalmente para eliminar as barreiras de acessos a profissionais especializados para toda a população.
André Deeke Sasse é formado em oncologia clínica pela Unicamp, oncologista, professor de pós-graduação na FCM-Unicamp, membro titular da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) e da Sociedade Europeia de Oncologia (ESMO). Fundador do Grupo SOnHe – Sasse Oncologia e Hematologia, e atua na oncologia do Radium Instituto de Oncologia, do Hospital Santa Tereza e do Hospital Madre Theodora.
Mostre-me a evidência: Vinho e a recuperação do olfato após COVID-19
A atual pandemia que vivemos nos forçou a aprender sobre diversos temas que não fazem parte da nossa prática diária. O Grupo SOnHE, formado por médicos oncologistas e hematologistas, teve de incorporar na prática onco-hematológica o conhecimento e os cuidados sobre essa “não mais tão nova” doença causada pelo coronavírus. Muitos dos nossos pacientes se encaixam como grupo de risco para a afecção da COVID-19 e, portanto, cabe a nós orientá-los sobre as diversas situações que permeiam este assunto.
Muito se falou sobre as consequências da infecção do coronavírus. A disfunção respiratória é, de todas, a mais temida. Entretanto, a doença pode cursar com sintomas e até sequelas não tão usuais: é o caso da perda de olfato. 10 a 15% dos infectados pelo vírus poderão cursar com perda de olfato (conhecida tecnicamente como anosmia) por algum período. Em alguns casos, essa condição pode se estender e se tornar inclusive uma sequela.
O programa Mostre-me a Evidência de hoje (fugindo um pouco da Oncologia em si) traz a evidência que mostra como a perda de olfato pela COVID-19 pode ser tratada ou amenizada com o simples (e delicioso!) hábito de degustar vinhos.
Isso mesmo; vinho!
Um grupo de pesquisadores alemães, referência em tratamentos de distúrbios do olfato, desenvolveu pesquisas com uma técnica chamada de “smell training” (em português: treinamento do cheiro). Esta modalidade consiste no ato de cheirar substâncias que possuem um cheiro forte e marcante (como vinhos e outros: café, mostarda, perfumes, produtos de limpeza) com os olhos vendados para não poder para identificá-las com a visão. O desempenho dessa prática de maneira periódica e repetitiva mostrou impacto positivo na recuperação da anosmia por diversas causas, entre elas após infecções virais. Por isso, esta modalidade foi recentemente introduzida num guideline britânico de rinologia como uma das práticas para manejo dos distúrbios do olfato relacionados à COVID-19.
O hábito de beber e degustar vinhos é, sem sombra de dúvidas, muito agradável e prazeroso. Quando feito com moderação e respeitando as condições de saúde de cada indivíduo, pode ser estimulado e praticado. Quem já degustou vinhos certamente conhece a importância da olfação para a degustação. Utilizar o “smell training” pode, sim, auxiliar na recuperação pós-COVID.
É isso por hoje! Acompanhe o Grupo SOnHe nas redes sociais. E cuidem-se para que, em breve, esta pandemia seja somente uma lembrança.
Referência: HOPKINS, Claire; ALANIN, Mikkel; PHILPOTT, Carl; HARRIES, Phil; WHITCROFT, Katherine; QUREISHI, Ali; ANARI, Shahram; RAMAKRISHNAN, Yujay; SAMA, Anshul; DAVIES, Elgan. Management of new onset loss of sense of smell during the COVID‐19 pandemic ‐ BRS Consensus Guidelines. Clinical Otolaryngology, [S.L.], p. 1-18, 24 set. 2020.
Novembro Azul: muito além da prevenção e do diagnóstico precoce
As campanhas mais populares visam estimular o autocuidado, o diagnóstico precoce. O homem tradicional muitas vezes associa, mesmo que inconscientemente, cuidados com saúde à fraqueza, a uma menor masculinidade. Pesquisa recente mostra que cerca de um quarto dos pacientes com câncer de próstata já diagnosticados não faziam exames de rastreamento por associá-los à perda da virilidade.
Mas conhecer melhor as doenças permite que se participe das tomadas de decisão, como sociedade. E, pensando nos homens portadores de câncer de próstata recidivado, e que precisam de tratamento cronicamente, é importante aproveitar o mês de conscientização para alertar sobre uma possível mudança de cobertura de tratamentos pelos planos de saúde.
Está aberta, até 21 de novembro, a consulta pública número 81 da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Essa consulta pública visa apresentar e discutir com a sociedade propostas de atualização do Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde.
Esse Rol é a referência básica para a cobertura obrigatória pelas operadoras privadas de assistência à saúde, para os planos contratados a partir de 1º de janeiro de 1999. Quimioterapia convencional endovenosa e outros antineoplásicos injetáveis já têm cobertura obrigatória, definida por lei, desde que estejam registrados pela ANVISA e não sejam considerados experimentais. No entanto, antineoplásicos orais registrados no Brasil não são automaticamente cobertos, e dependem da inclusão da indicação após análise técnica da ANS. E essa avaliação é feita em ciclos, a cada dois anos.
No ciclo atual, foram analisadas 41 solicitações para indicações de antineoplásicos orais. Um documento técnico foi apresentado no início de 2020 e avaliado pela ANS ao longo do ano. A ANS apresentou um documento com 24 recomendações positivas e 17 recomendações pela não incorporação. No caso de uma não incorporação, os planos de saúde não são obrigados a fornecer o tratamento aos seus usuários e a aquisição daquele medicamento deve se dar por conta própria, com pagamento pelo próprio paciente.
Em câncer de próstata, foram solicitadas a inclusão de dois medicamentos para nos casos em que o PSA continua subindo após tratamento inicial com bloqueio hormonal, mas que não apresentam metástases. Esses medicamentos, Apalutamida e Enzalutamida, de mecanismo de ação semelhante, comprovadamente atrasam o surgimento de metástases, diminuem a necessidade de tratamentos mais agressivos, como quimioterapia, por exemplo, e aumentam significativamente a expectativa de vida dos pacientes.
A recomendação preliminar na nota técnica da ANS é favorável à incorporação e futura cobertura obrigatória pelos planos de saúde. Mas entidades e associações ligadas a algumas operadoras de saúde defendem a não incorporação desses medicamentos ao Rol, devido aos altos custos dos medicamentos. No entanto, especificamente pelos altos custos a incorporação é importante. Pois não havendo cobertura obrigatória, pacientes com câncer de próstata ou têm que comprar os medicamentos por conta própria ou ficam sem tratamento, aguardando o surgimento de metástases para enfim iniciar o tratamento.
Há preocupação de todos com o aumento dos custos dos tratamentos e o consequente aumento das mensalidades. Porém, muitas vezes tratar o câncer em uma fase não metastática pode até ajudar a reduzir os custos futuros, com complicações mais graves da doença.
Assim, a participação de todos é essencial. Não só no caso do câncer de próstata, em que é necessária uma reafirmação da recomendação preliminar positiva, mas também nos 17 casos em que houve recomendação contrária. A consulta pública é aberta no site da ANS (http://www.ans.gov.br/participacao-da-sociedade/consultas-e-participacoes-publicas/consulta-publica-n-81-atualizacao-do-rol-de-procedimentos-e-eventos-em-saude-ciclo-2019-2020/consulta-publica-n-81-contribuicao-para-recomendacoes-relacionadas-as-propostas-de-medicamentos). Especialistas e a população leiga podem e devem participar. Somente assim conseguiremos construir uma sociedade mais madura e lutar para futura inclusão desses medicamentos também no Sistema Único de Saúde (SUS).
É Proibido Fumar! Respire essa ideia no Novembro Branco
Como dito na música eternizada, composta por Roberto e Erasmo Carlos, em 1964, mais do que nunca, no ano de 2020, “é proibido fumar” ou, pelo menos, deveria. O cigarro tem o título de maior causador de mortes evitáveis no mundo e são cerca de 7,5 milhões de mortes por ano. Além disso, o cigarro é o principal responsável pelo aparecimento do câncer de pulmão, neoplasia que, sozinha, mata mais que o câncer de próstata, mama e intestino juntos. São mais de 1,8 milhão de casos por ano ao redor do globo. E novembro é lembrado como o mês de conscientização do câncer de pulmão, o chamado Novembro Branco.
O câncer de pulmão é o segundo mais comum entre homens e o quarto entre as mulheres. No Brasil, mas é o câncer que mais mata. No mundo, desde 1985, é o câncer mais mortal. Ele é responsável por 13% de todos os casos novos de câncer no planeta. E seu aparecimento está diretamente relacionado ao hábito de fumar. Quem fuma tem 60 vezes mais risco de desenvolver câncer de pulmão em comparação com quem não fuma, além de maior risco de outros tumores como cabeça e pescoço, bexiga e trato gastrointestinal.
Cerca de 90% dos diagnósticos de câncer de pulmão são em pessoas tabagistas ou ex-tabagistas, além de um número considerável em pessoas que nunca fumaram mas convivem de perto com quem fuma, os chamados tabagistas passivos. São mais de 4.800 compostos químicos em um único cigarro, dentre os quais mais de 70 são sabidamente cancerígenos.
Ainda com relação ao câncer de pulmão, 15% de quem fuma deverá desenvolver esse tipo de câncer em algum momento da vida. Ainda hoje, cerca de 80% dos tumores de pulmão são descobertos em fases avançadas, com metástases, quando o câncer já se espalhou pelo corpo e a chance de cura é muito baixa, com mais 1,6 milhão de mortes ao ano.
Por isso, tornou-se essencial discutirmos cada vez mais e alertar a população para os riscos desse tipo de câncer. O Novembro Branco marca o mês de conscientização sobre o câncer de pulmão. Esse mês, já amplamente conhecido pela cor azul, relacionado ao câncer de próstata, também traz o laço branco como símbolo para lembrar a neoplasia mais mortal de todas.
O câncer de pulmão, geralmente nas fases iniciais, é silencioso e pode não causar sintoma algum. À medida que cresce, pode provocar tosse, expectoração com sangue, falta de ar e cansaço, dores nas costas, perda de apetite e peso e inchaço no pescoço. O maior problema é que a maioria dos diagnósticos são feitos quando a doença já se espalhou pelo corpo e as chances de cura são baixas. Mas, diferente do câncer de próstata, cujo maior fator de risco é a idade e muitas vezes não pode ser evitado e, portanto, o foco está no diagnóstico precoce, o câncer de pulmão é, na quase totalidade, evitável uma vez que é associado ao tabagismo. Dessa forma é importante alertar para a necessidade de interromper o hábito de fumar, o grande responsável por esse mal.
Embora o Brasil, ao lado da Turquia, tenha alcançado excelentes resultados nos últimos anos no combate ao tabagismo, com uma redução expressiva no número de tabagistas – graças a medidas como o aumento de impostos sobre os cigarros, que chegaram a 83% em 2018, a proibição de propagandas em televisão e revistas, a obrigatoriedade de se estampar as embalagens de cigarro com fotos e frases que mostrassem os efeitos devastadores do vício e, por fim, a proibição do fumo em locais fechados de uso coletivo – ainda temos cerca de 10% da população fumante ativa, o que representa mais de 20 milhões de tabagistas .
Ocupamos a oitava posição no ranking da OMS dos países com maior número absoluto de tabagistas. Além disso, dados mais recentes e extremamente preocupantes, mostraram que durante a pandemia de COVID-19, as pessoas passaram a fumar e beber mais, reflexo do maior tempo de confinamento em casa sob altos níveis de estresse e ansiedade, o que certamente trará impactos importantes na saúde, em um futuro breve. Também foi publicada recentemente uma pesquisa que mostra que pacientes com câncer de pulmão que se infectam com vírus da COVID-19 tem altas chances de morrer: cerca de 30%.
A nicotina contida no cigarro atinge rapidamente o cérebro e em menos de 10 segundos libera vários neurotransmissores relacionados à sensação de bem-estar e prazer, como a dopamina. Por isso, o cigarro é tão viciante e um hábito difícil de abandonar. Daquelas pessoas que querem deixar o vício, menos de 5% tem sucesso sem ajuda de um profissional. Então, geralmente não basta querer parar o vício, é preciso ajuda de psicólogos, psiquiatras e uma rede de apoio
Estima-se que um terço da população adulta mundial seja tabagista, principalmente em países como China, Rússia e em países europeus. Destes, acredita-se que 60% desejem parar de fumar, mas não conseguem e não têm assistência para isso. Além disso, o hábito começa cedo, geralmente antes dos 20 anos, o que mostra a importância de orientar e alertar os jovens para os danos causados pelo tabaco.
Além do cigarro, existem os charutos, cachimbos, cigarros de palha, narguilés e mais recentemente os cigarros eletrônicos. Algumas pessoas defendem esses últimos, alegando ser menos prejudicial. No entanto, isso não é verdade. O uso de cigarro eletrônico vem crescendo no Brasil (onde a comercialização é proibida) e no mundo. Em 2018, mais de 3,5 milhões de estudantes do ensino médio, nos EUA, disseram já ter experimentado o cigarro eletrônico. Seus efeitos deletérios ainda não são completamente conhecidos, mas o Centro de Controle de Doenças dos EUA divulgou, em 2019, várias mortes associadas diretamente ao uso do cigarro eletrônico. Sua relação com o câncer de pulmão ainda não está totalmente comprovada, uma vez que os cigarros eletrônicos são de uso recente, porém é altamente provável que possa existir uma conexão
É importante dizer que para os casos avançados de câncer de pulmão, quando já existem metástases, os tratamentos mais novos com as chamadas terapias-alvo (que funcionam inibindo alguns genes que podem estar alterados no DNA das células) e a imunoterapia (que ativa o sistema imunológico contra o tumor) têm alcançado resultados extraordinários, tanto no aumento expressivo no tempo de vida quanto na qualidade de vida desses pacientes. Esses medicamentos estão revolucionando a Oncologia e trazendo novas perspectivas. De toda forma, infelizmente, são remédios caros e na maioria das vezes não disponíveis no SUS, o que limita o seu uso em uma grande parcela da população.
Que no Novembro Branco a sociedade tente “apagar” o cigarro da vida das pessoas e possa respirar ares mais saudáveis.