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Dia Internacional da Mulher na pandemia da COVID-19: liderança para um mundo mais igualitário

A ideia de criar o Dia da Mulher surgiu no final do Século XIX, nos Estados Unidos e na Europa, no contexto das lutas femininas por melhores condições de vida e de trabalho, além do direito de voto. Assim, a ONU designou o ano de 1975 como o Ano Internacional da Mulher. Em dezembro de 1977, o Dia Internacional da Mulher foi adotado pelas Nações Unidas para lembrar as conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres. Neste ano de 2021, o tema para o Dia Internacional da Mulher é: “Mulheres na liderança: alcançando um futuro igual em um mundo COVID-19”. O tema celebra os enormes esforços de mulheres e meninas em todo o mundo para moldar um futuro mais igualitário e a recuperação da pandemia da COVID-19.

As mulheres estão na vanguarda da batalha contra a COVID-19 como trabalhadoras da linha de frente e do setor de saúde, como cientistas, como profissionais de saúde e cuidadoras e agentes comunitárias. Porém, recebem – de maneira geral – 11% a menos do que seus colegas homens. Uma análise das equipes de combate a COVID-19 de 87 países revelou que apenas 3,5% delas tinham paridade de gênero 1

Além de estarem na linha de frente da crise da COVID-19, as mulheres representam alguns dos líderes nacionais mais exemplares e eficazes no combate à pandemia. Da Nova Zelândia à Alemanha, Taiwan ou Noruega, alguns países liderados por mulheres tem as menores taxas de óbitos pela COVID-19. De maneira geral, as mulheres representam 70% dos profissionais de saúde em todo o mundo. Em 2018, na política eram apenas 10 dos 153 chefes de Estado eleitos, de acordo com a União Interparlamentar.

Embora também haja diversos fatores sociais e econômicos implicados no bom desempenho destes países no enfrentamento à pandemia, também as trajetórias sociais destas líderes as diferencia. Condutas como resposta precoce, diversidade na tomada de decisões, comunicações transparentes e diretas são alguns exemplos.

A crise destacou tanto a centralidade e objetividade de suas contribuições quanto os fardos desproporcionais que as mulheres carregam. A pandemia está levando mais sobrecarga de trabalho para as mulheres no mundo todo. Mulheres são mais impactadas que os homens pela sobrecarga de trabalho. Dados do Brasil (IBGE/2019) indicam que a dupla jornada incide sobre a mulher, que semanalmente, na média, se dedica 18,5 horas ao cuidado da casa, crianças e idosos. Já a média dos homens é somente 10,3 horas semanais. Neste momento de pandemia com muitas famílias com vários membros em home office e muitas crianças sem frequentar regularmente a escola, percebe-se um acúmulo de tarefas e enorme sobrecarga de muitas mulheres.

Por que a sobrecarga de trabalho é maior para as mulheres? A desigualdade de gênero fica mais intensa neste momento de pandemia, já que estão diretamente na linha de frente da resposta e assumem custos físicos e emocionais. Devido à saturação dos sistemas de saúde e ao fechamento das escolas, as mulheres assumem o cuidado e a responsabilidade de familiares doentes, pessoas idosas e crianças3.

Assim, vamos celebrar este 8 de março de 2021, Dia Internacional da Mulher, no segundo ano de uma pandemia sem precedentes, refletindo sobre como melhorar a dinâmica de gênero, começando no local mais próximo possível, qual seja, na divisão mais igualitária das tarefas em casa. Simples assim!

 

Referências:

1 https://www.unwomen.org/en/news/in-focus/international-womens-day

2 https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52376867

3 https://www.onumulheres.org.br/wp-content/uploads/2020/03/ONU-MULHERES-COVID19_LAC.pdf

Prevenção do câncer de colo uterino

No panorama global atual das neoplasias malignas, o câncer de colo uterino é o quarto tipo de câncer mais comumente diagnosticado entre as mulheres, e a terceira causa de morte por câncer entre as mulheres. Anualmente, cerca de 311.000 mulheres morrem por câncer de colo uterino, sendo que aproximadamente 90% dessas mortes ocorrem em países de média a baixa renda. No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer estima para o triênio de 2020 a 2022 uma média 16.000 novos casos de câncer de colo uterino por ano, representando o terceiro câncer mais comum entre as mulheres brasileiras.

Apesar desse cenário, o câncer de colo uterino é uma doença evitável. Além disso, é potencialmente curável, quando diagnosticado precocemente e tratado de forma adequada. No ano de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou uma campanha mundial para o aceleramento da eliminação do câncer de colo uterino, com o compromisso de 194 países para a adoção de medidas que visam atingir esse objetivo. Tais medidas devem ser atingidas até o ano de 2030, com o objetivo de atingir uma incidência de no máximo 4 casos por 100.000 mulheres, fazendo com que o câncer de colo uterino deixe de ser um problema de saúde pública. Em estudo publicado recentemente, com base em uma análise de 78 países de baixa e média renda, estimou-se que, caso as metas da OMS sejam alcançadas, até o ano de 2120 serão evitadas quase 61 milhões de mortes por câncer de colo uterino. Ao longo dos próximos 10 anos, quase metade das mortes evitadas ocorreria na África sub-Sahariana.

 

Papilomavírus Humano (HPV)

O câncer de colo uterino é causado por uma infecção viral sexualmente transmissível. O vírus responsável é chamado papilomavírus humano (HPV), um vírus de DNA que apresenta mais de 200 sorotipos. Dentre eles, 14 tipos são causadores de câncer, sendo denominados de “alto risco”. Os tipos mais comumente associados ao câncer de colo uterino são o 16 e o 18, responsáveis por cerca de 70% dos casos desse tipo de câncer. A grande maioria das pessoas será infectada pelo HPV em algum momento da vida, sendo o maior pico de infecção logo após o início da vida sexual ativa. Além disso, sabe-se que algumas pessoas sofrerão infecções repetidas.

Frequentemente, a infecção pelo HPV sofre resolução espontânea, em um período que pode chegar a dois anos. No entanto, em alguns casos, a infecção pode persistir e levar ao desenvolvimento de lesões precursoras e, eventualmente, o câncer de colo uterino. O tempo médio entre a infecção e o desenvolvimento do câncer de colo uterino é de 15-20 anos. Existem alguns fatores de risco que estão associados a aumento do risco de persistência da infecção pelo HPV e, consequentemente, do desenvolvimento do câncer. São eles: deficiências do sistema imune, tabagismo (ativo e passivo), e concomitância de outras infecções sexualmente transmissíveis (como gonorreia e clamídia).

 

Estratégias de prevenção

A prevenção do câncer de colo uterino envolve a tomada de ações com o objetivo de reduzir o risco de desenvolvimento da doença. Com isso, é possível reduzir o número de novos casos da doença e, em última instância, reduzir também o número de mortes causadas pelo câncer em questão. O conhecimento da história natural da doença (Figura 1), incluindo sua causa infecciosa, os fatores de risco (deficiência imunológica, tabagismo, entre outros), o tempo para desenvolvimento de lesões precursoras e do câncer propriamente dito permitiu o delineamento de medidas que podem ser adotadas ao longo da vida da mulher, capazes de prevenir a doença.

Figura 1. História natural do desenvolvimento do câncer de colo uterino. Fonte: OPAS/OMS, 2013

As medidas de prevenção do desenvolvimento do câncer de colo uterino baseiam-se em dois pilares:

 

  1. Prevenção da infecção pelo HPV

A primeira vacina contra o HPV foi aprovada nos Estados Unidos da América (EUA) em 2006, pela Food and Drug Administration (FDA). Trata-se de uma vacina quadrivalente, que garante proteção contra os sorotipos 6, 11, 16 e 18. Mais recentemente, em 2014, foi aprovada nos EUA uma vacina nonavalente, que protege contra 9 sorotipos de HPV. No Brasil, a vacina quadrivalente foi introduzida no Programa Nacional de Imunização (PNI) no ano de 2014, inicialmente recomendada para meninas com idade entre 9 e 13 anos e, posteriormente, para meninos com idade de 11 a 13 anos.

As vacinas quadrivalente e nonavalente são capazes de prevenir mais de 95% das infecções pelo HPV tipos 16 e 18, mas também oferecem proteção cruzada com outros tipos menos comuns. A recomendação é que a vacina seja administrada antes do primeiro contato com o vírus, por isso a faixa etária recomendada no início da puberdade. Isso se deve ao fato de que o resultado obtido com a vacinação é melhor quando a menina ou o menino ainda não tiveram contato com o vírus.

Recomenda-se a aplicação de duas doses da vacina, com intervalo de seis meses. A Sociedade Brasileira de Imunizações recomenda que uma terceira dose (com intervalo de seis meses após a segunda) seja aplicada para aqueles adolescentes que recebem a primeira dose após os 15 anos. Outro grupo de meninas/mulheres nas quais se recomenda aplicação de uma terceira dose são aquelas infectadas pelo HIV. O esquema vacinal inicial, que foi adotado por diversos países, consistia na aplicação de 3 doses em um período de 6 meses (0, 1-2, 6 meses). No entanto, estudos posteriores mostraram que a quantidade de anticorpos produzida não era inferior quando se empregava um esquema de duas doses com intervalo de 6 meses. Uma estratégia que vem sendo adotada em alguns países consiste na aplicação de uma terceira dose após um intervalo de cinco anos desde a primeira dose, pois parece fornecer uma resposta imunológica mais sustentada ao longo do tempo.

As vacinas contra o HPV são bastante seguras. Os dados de ocorrência de efeitos colaterais são monitorados continuamente, não tendo sido identificadas reações graves e que causem preocupação.

 

  1. Detecção precoce e tratamento de lesões precursoras

O segundo pilar na prevenção do câncer de colo uterino baseia-se no rastreamento do câncer de colo uterino. A história do rastreamento começou no final da década de 1920, quando o patologista grego radicado nos EUA George Nicholas Papanicolaou publicou os resultados de seus estudos na diferenciação entre células normais e células cancerosas a partir de uma amostra coletada do colo uterino e colocada em uma lâmina de microscópio. Porém, somente após a publicação de seu célebre livro na década de 1940 que o teste – hoje conhecido pelo seu sobrenome – se tornou o padrão para rastreamento do câncer de colo uterino. Por ser um teste barato e de fácil coleta, foi rapidamente e amplamente implementado, levando à redução na incidência do câncer de colo uterino.

Mas em que consiste o rastreamento? O rastreamento refere-se à aplicação de um teste diagnóstico em pessoas sem sintomas da doença. O objetivo é detectar lesões precursoras de câncer ou mesmo o câncer, porém nos seus estágios mais iniciais. Atualmente, dispomos de três medidas para rastreamento: a. exame de Papanicolaou; b. inspeção visual do colo uterino com aplicação de ácido acético; c. exame para detecção de infecção por HPV de alto risco. A recomendação da OMS é de que todas as mulheres sejam submetidas a no mínimo um exame de rastreamento entre os 30 e 49 anos de idade.

No Brasil, o programa nacional de rastreamento está baseado principalmente na realização do exame de Papanicolaou, em um modelo oportunístico. Isso significa que as mulheres não são convocadas ativamente para serem submetidas ao exame, e sim aproveita-se a visita delas a uma unidade de saúde por outros motivos, para se oferecer o exame. A recomendação é de que o rastreamento seja iniciado aos 25 anos, sendo realizados dois exames com intervalo de um ano. Se ambos os exames forem negativos, os exames seguintes podem ser realizados a cada três anos. O rastreamento deve ser mantido até os 64 anos.

Inúmeros estudos evidenciam que os métodos de rastreamento são capazes de detectar as lesões precursoras de câncer de colo uterino, criando a oportunidade para que elas sejam tratadas e, com isso, evitamos que elas evoluam para o câncer. O tratamento dessas lesões é capaz de evitar a maioria dos casos de câncer de colo uterino. Por isso, o rastreamento deve sempre estar atrelado ao fornecimento de tratamento adequado.

Como vimos, a vacinação contra o HPV é altamente eficaz na prevenção da infecção pelo HPV, um vírus responsável pela grande maioria dos casos de câncer de colo uterino. Considerando-se o longo período para desenvolvimento da doença, após a infecção inicial, entendemos que o efeito da vacinação será percebido em 20-30 anos. Por esse motivo, o rastreamento do câncer de colo uterino deve ser reforçado, mesmo nos países que implementem a vacinação.

O programa da OMS para o aceleramento da eliminação do câncer de colo uterino envolve três medidas:

  1. Cobertura de vacinação de 90% das meninas até os 15 anos
  2. Cobertura de rastreamento do câncer de colo uterino de 70%, aos 35 anos e aos 45 anos, com testes adequados e de qualidade
  3. Garantia de que 90% das mulheres com doença de colo uterino (lesões precursoras ou câncer) recebam tratamento adequado e em tempo hábil

Em 2020, pesquisadores publicaram uma análise de modelos estatísticos considerando 78 países de baixa e média renda para a avaliação dos resultados de longo prazo da associação da vacinação contra HPV ao rastreamento. Estimou-se que quando realizada apenas a vacinação, 60% dos países atingiriam uma incidência de até 4 casos/100.000 mulheres (o alvo definido pela OMS). A combinação com o exame de rastreamento elevou essa porcentagem de países para 99%. Além disso, a eliminação do câncer de colo uterino seria alcançada 11-31 anos antes com a estratégia combinada (vacinação + rastreamento), quando comparada à vacinação apenas.

 

Referências

  1. International Agency for Research on Cancer. GLOBOCAN. Cancer today n.d. http://gco.iarc.fr/today. Acessado em 22 de fevereiro de 2021.
  2. Arbyn M, Weiderpass E, Bruni L, et al. Estimates of incidence and mortality of cervical cancer in 2018: a worldwide analysis. Lancet Glob Health. 2020;8(2):e191-e203.
  3. World Health Organization. Human papillomavirus (HPV) and cervical cancer.. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/human-papillomavirus-(hpv)-and-cervical-cancer. Acessado em 22 de fevereiro de 2021.
  4. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estatísticas de câncer. Disponível em: https://www.inca.gov.br/numeros-de-cancer. Acessado em 22 de fevereiro de 2021.
  5. Canfell K, Kim JJ, Brisson M, et al. Mortality impact of achieving WHO cervical cancer elimination targets: a comparative modelling analysis in 78 low-income and lower-middle-income countries. Lancet. 2020;395:591-603.
  6. Organização Pan-Americana da Saúde. Nota de orientação da OPAS/OMS: prevenção e controle de amplo alcance do câncer de colo do útero: um futuro mais saudável para meninas e mulheres. Washington, DC: OPAS, 2013.
  7. Programa Nacional de Imunizações. Ministério da Saúde. Calendário Nacional de Vacinação. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z-1/c/calendario-de-vacinacao. Acessado em 25 de fevereiro de 2021.
  8. Yong Tan S, Tatsumura Y. George Papanicolaou (1883-1962): discoverer of the Pap smear. Singapore Med J. 2015;56(10):586-7.
  9. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA). Coordenação de Prevenção e Vigilância. Divisão de Detecção Precoce e Apoio à Organização de Rede. Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer de colo uterino. 2. Ed. Rio de Janeiro: INCA, 2016.
  10. Brisson M, Kim JJ, Canfell K, et al. Impact of HPV vaccination and cervical screening on cervical cancer elimination: a comparative modelling analysis in 78 low-income and lower-middle-income countries. Lancet. 2020;395:575-90.

O câncer não espera! Março: mês de conscientização do câncer colorretal

Dentre todos os tumores, o câncer colorretal merece uma atenção especial. Atualmente, é o terceiro tumor mais frequente e a segunda maior causa de morte por câncer no mundo. O mês de março foi escolhido para conscientização e prevenção deste câncer, considerado um tumor evitável em uma grande parcela dos casos e quase sempre curável quando diagnosticado em estágios iniciais.

O Instituto Nacional do Câncer (INCA) estima 20.520 casos novos em homens e 20.470 casos em mulheres para ano de 2021, representando o segundo tumor mais frequente nos homens e também nas mulheres. Vale ressaltar que, mesmo dentro do Brasil, a incidência é variável de acordo com as regiões do nosso território. Nas regiões Sudeste e Sul, o tumor é mais frequente quando comparados com as regiões Norte e Nordeste. Essa diferença pode ser explicada porque o câncer colorretal está diretamente relacionado aos hábitos de vida como excesso de alimentos industrializados, sedentarismo e obesidade. Além disso, o acesso aos exames diagnósticos pode contribuir para essa disparidade.

Este tipo de câncer ocorre geralmente após os 50 anos, com predomínio na população idosa. Entretanto, um estudo divulgado pela American Cancer Society mostrou dados intrigantes. Revelou que na população norte-americana ocorreu uma redução no número de casos de câncer colorretal nas últimas décadas, porém um aumento em adultos jovens. A taxa de novos casos de câncer de cólon aumentou de 1 a 2,4% por ano desde meados da década de 1980 em adultos de 20 a 39 anos, e de 0,5 a 1,3% desde meados de 1990 em adultos de 40 a 50 anos. O aumento na taxa de câncer de reto foi ainda mais expressivo, 3,2% por anos de 1974 a 2013 em adultos de 20 a 29 anos. Essa alteração na faixa etária pode ser justificada pela mudança do estilo de vida do mundo atual, principalmente nos países mais desenvolvidos.

Mas é possível evitar esse tipo de câncer?  Na maioria dos casos sim. A predisposição genética individual para se desenvolver um câncer ainda não pode ser modificada, porém a minoria dos canceres tem origem hereditária. Sabemos que evitar a exposição aos fatores risco pode reduzir de forma significativa as chances de ter um câncer de intestino. Por isso, manter um estilo de vida saudável com atividade física no mínimo três vezes por semana, manter peso adequado, realizar dieta rica em fibras, evitar o tabagismo, etilismo e excesso de carne vermelha e embutidos, além de realizar os exames preventivos, é o que – ativamente – podemos fazer para mudar a nossa história.

Os principais sintomas do câncer de cólon e do reto são: dor abdominal, sangramento nas fezes, alteração do hábito intestinal (diarreia ou constipação) ou perda de peso, porém, infelizmente, quando esses sintomas estão presentes o tumor já está mais avançado e as chances de cura são menores. Logo, é de fundamental importância realizar os exames de rastreamento. Estes são exames realizados em pessoas assintomáticos, com intuito de diagnosticar lesões pré-malignas ou tumores iniciais, aumentando, assim, as chances de cura e reduzindo a agressividade do tratamento.  No Brasil, está indicado o rastreamento na população entre 50 a 74 anos, sendo a colonoscopia o exame de preferência.

Estamos passando por um grande desafio que é o combate à pandemia de COVID-19. Todos estamos focados em vencer essa batalha respeitando o isolamento social e tomando as medidas de proteção pessoal, porém não podemos esquecer que o câncer colorretal continua muito frequente e não espera.  Sendo assim, vamos aproveitar o mês de março para nos prevenir desse câncer e cuidar do que mais importa, a nossa saúde.

Novo rol da ANS 2021

Boa notícia para pacientes oncológicos

No dia 24 de fevereiro, a atualização do rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) foi aprovado pela Diretoria Colegiada. E por que isso é importante para os pacientes com câncer? Porque várias medicações foram incorporadas à lista de obrigatoriedades de cobertura pelos planos de saúde. Mais opções de tratamento com eficácia, agora, estarão mais facilmente disponíveis.

Foram 20 novas drogas oncológicas. Um destaque vai para a inclusão dos inibidores de CDK4/6 (Palbociclibe, Ribociclibe e Abemaciclibe) para tratamento do câncer de mama metastático. Eram drogas já comprovadamente eficazes e que já são utilizadas como padrão em diversos países, mas que aqui, no Brasil, ainda não eram padronizadas nos planos de saúde. Outra importante incorporação foi a de medicações para o câncer de pulmão metastático com alterações genéticas específicas (Alectinibe e Osimertinibe), um tratamento que faz grande diferença e ainda não estava disponível para todos os beneficiários de planos de saúde. Na tabela abaixo, há uma lista das medicações e suas respectivas indicações. No site da ANS é possível ver a lista completa, incluindo as medicações não-oncológicas e procedimentos.

Medicamento Indicação
Palbociclibe, Ribociclibe e Abemaciclibe Câncer de mama
Alectinibe, Osimertinibe e Nindetanibe Câncer de pulmão
Apalutamida e Enzalutamida Câncer de próstata
Cabozantinibe Câncer de rim
Regorafenibe e Lenvatinibe Câncer de fígado
Dabrafenibe em combinação com Trametinibe e Cobimetinibe Câncer de pele (melanoma)
Ixazomibe e Lenalidomida Mieloma múltiplo
Lenalidomia Síndrome mielodisplásica
Ibrutinibe Linfoma do manto
Ibrutinibe e Venetoclax LLC
Venetoclax e Midostaurina LMA
Nilotinibe LMC

 

Já falamos por aqui, em Alerta Oncologia, que a ANS regula as medicações ORAIS que terão cobertura obrigatória pelos planos de saúde no país e que essa lista – mais conhecida como rol – é atualizada a cada dois anos. As medicações injetáveis têm outra regulamentação e, geralmente, estão disponíveis mais rapidamente para os pacientes após aprovação em bula.

Esta atualização ocorre devido às novas evidências científicas que vão surgindo e mostrando que alguns medicamentos funcionam (ou não) para certas doenças. Porém, essa periodicidade é muito longa para os pacientes com doenças graves, como o câncer, já que muitas dessas drogas visam ao aumento de sobrevida e/ou qualidade de vida, algo que “não se pode esperar”.

 

Um ponto muito interessante foi que as aprovações deste ano vieram após uma consulta pública histórica, com um aumento de 500% na participação em relação às anteriores, atingindo cerca de 30.000 contribuições. A maioria foi realizada por profissionais de saúde, mas sociedades médicas, pacientes, familiares e amigos de pacientes também tiveram papel importante nesse processo. Isso mostra que a força da cooperação da sociedade transpassa barreiras e pode trazer benefício a toda a população.

Importante pontuar que, nesta atualização, a ANS levou também em conta as informações econômicas, tendo em vista o grande crescimento do custo dos tratamentos médicos. E também notamos uma tentativa de encurtar o período de novas incorporações, reduzindo assim o descompasso entre ciência e acesso pelos usuários de planos de saúde.

A vigência do novo rol ocorrerá a partir de 1º de abril e é sempre um marco para os pacientes com câncer. Continuaremos lutando não só para que mais drogas eficazes sejam incorporadas, mas também para que a atualização seja mais ágil e mais pessoas tenham acesso mais rapidamente às melhores terapias. É sempre bom ressaltar que a outra luta – talvez a mais difícil – continuará sendo a de também levar essas oportunidades para pacientes do SUS, que, cada vez mais têm seu cuidado oncológico mais longe do ideal.

 

Referências:

Link para a reunião da Diretoria Colegiada (24/02/2021):

https://www.youtube.com/watch?v=HoJL9HALyGE&t=7634s

http://www.ans.gov.br/aans/noticias-ans/consumidor/6207-ans-define-novas-coberturas-dos-planos-de-saudee

http://www.ans.gov.br/participacao-da-sociedade/consultas-e-participacoes-publicas/consultas-publicas-encerradas/consulta-publica-n-81-atualizacao-do-rol-de-procedimentos-e-eventos-em-saude-ciclo-2019-2020

Álcool: o vilão disfarçado de diversão

No dia 20 de fevereiro é celebrado o Dia de Combate ao Alcoolismo. O consumo de álcool é considerado um fator de risco para diversas doenças, em especial quando feito de maneira abusiva. Em contrapartida, alguns estudos tentaram comprovar o efeito protetor do álcool na doença cardiovascular quando consumido em pequena quantidade. Apesar deste suposto benefício, o que sabemos de fato é que o consumo em demasia é responsável por doenças crônicas do fígado (como a cirrose), transtornos psiquiátricos (com altos índices de internações por dependência química) e também por um elevado índice de acidentes de trânsito com vítimas graves.

No Brasil, o consumo de álcool per capita supera a média mundial, conforme dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS). Tal fato torna-se ainda mais preocupante ao passo que as políticas de prevenção primária de doenças são escassas e ineficazes em nosso país. Como agravante, vivemos um momento de pandemia em que hospitais e demais serviços de saúde estão voltados para o combate do coronavírus. Sendo assim, as doenças crônicas relacionadas ao uso excessivo do álcool e o próprio tratamento do alcoolismo como condição patológica certamente estão negligenciadas neste momento.

No que se refere ao câncer, o álcool está envolvido diretamente no processo de desenvolvimento de alguns tumores. O câncer de cabeça e pescoço, por exemplo, tem como principal fator de risco o consumo excessivo de álcool em associação ao cigarro. Essa combinação de hábitos (ou vícios) também está envolvida no surgimento do câncer de esôfago e de estômago. O risco de desenvolver tais cânceres tende a ser 4 a 6 vezes maior em indivíduos consumidores de bebidas alcoólicas de maneira abusiva. O risco de desenvolver câncer de intestino (de cólon e/ou reto) também é maior para pessoas consumidoras de álcool em grande quantidade e frequência. Este mesmo risco existe para mulheres com desenvolvimento do câncer da mama.

É importante que o alcoolismo seja visto como uma doença ou condição de saúde crônica e que seja devidamente tratada tal, como as demais citadas anteriormente. Devemos buscar entender as suas características biológicas, além dos aspectos comportamentais e socioeconômicos envolvidos na sua ocorrência. Não se trata apenas de um hábito ou diversão; o consumo abusivo de álcool está, sim, envolvido no adoecimento por causas diversas e precisa ser combatido diariamente.

Mamografia: aos 40 ou 50 anos?

Leonardo Roberto da Silva e

Vivian Castro Antunes de Vasconcelos

 

Os avanços no tratamento do câncer de mama obtidos ao longo das últimas décadas levaram a um aumento significativo na chance de cura e a uma redução no risco de morte pela doença. No entanto, ainda hoje, uma em cada oito mulheres receberá o diagnóstico de câncer de mama em algum momento da vida, até os 65 anos de idade. Esse dado alarmante é, porém, acompanhado de uma informação tranquilizadora: a disponibilidade de uma excelente ferramenta para o diagnóstico precoce da doença, a mamografia.

A mamografia é o exame mais importante na detecção precoce do câncer de mama, ou seja, o rastreamento. Sabemos que, quando diagnosticado em sua fase inicial, o câncer de mama tem mais de 90% de chance de cura. Isso pode ser conseguido com a realização do exame em mulheres assintomáticas e que se encontram em uma faixa etária na qual existe uma relação favorável entre benefícios e riscos do exame.

Grandes estudos clínicos que incluíram mais de 500 mil mulheres comprovaram esse benefício da mamografia. Os resultados mostraram que as mulheres que faziam mamografia regularmente apresentavam uma redução no risco de morte por câncer de mama entre 10% e 35%, quando comparadas às mulheres que não faziam a mamografia.

No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda que a mamografia seja realizada a cada dois anos entre os 50 e 69 anos de idade. No entanto, estudos recentes realizados na população brasileira, evidenciaram que 40% dos casos de câncer de mama são diagnosticados em mulheres com menos de 50 anos. Além disso, muitos desses casos são identificados em estados mais avançados da doença, o que reduz significativamente as chances de cura. Assim, as recomendações atuais do Ministério da Saúde excluem uma faixa importante da população do programa de rastreamento (mulheres com idade entre 40 e 49 anos), o que pode resultar em maior mortalidade por câncer de mama, uma doença que ainda não é facilmente evitável.

Nesse sentido, diversas sociedades médicas vêm recomendando a realização da mamografia a partir dos 40 anos. De acordo com estudos mais recentes, tal estratégia está associada a benefício em termos de diagnóstico precoce e redução do risco de morte por câncer de mama nessa faixa etária. Na prática, existe um Projeto de Decreto Legislativo (número 679/2019) que propõe assegurar a realização da mamografia de rastreamento para as mulheres a partir dos 40 anos, no Sistema Único de Saúde (SUS). O Projeto já foi aprovado no Senado Federal e, atualmente, se encontra em tramitação na Câmara dos Deputados.

Vacinação para COVID-19. Resumo das recomendações da SBOC

Na semana passada, a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) lançou um guia sobre a vacinação de pacientes oncológicos. Esse documento é de grande importância, tendo em vista a situação atual da pandemia no mundo e o maior risco dos pacientes com câncer ao serem infectados por COVID-19.

Importante ressaltar que o documento é continuamente atualizado e foi lançado com base nas evidências científicas que temos até o momento.

Vamos aos principais pontos:

  1. Os pacientes com câncer devem ser vacinados?
    1. Apesar de não terem sido testadas nestes pacientes, o benefício esperado de redução de mortalidade pelas vacinas é maior que os malefícios de possíveis das reações adversas. Além disso, esses pacientes estão sob maior risco de complicações pela COVID-19.
  1. As vacinas disponíveis no Brasil atualmente são seguras para pacientes com câncer?
    1. As vacinas contra a COVID-19 utilizam mecanismos semelhantes a outras vacinas já comprovadamente seguras e eficazes. No momento, os dois tipos de vacinas contraindicados para pacientes com câncer – a de vírus atenuado e a de vetor viral replicante – não estão entre aquelas disponíveis no mundo.
  1. E são eficazes para pacientes com câncer?
    1. Provavelmente sim. Apesar da evidência limitada, os dados de outras vacinas já utilizadas de rotina sugerem que aquelas contra COVID-19 são eficazes. Alguns tratamentos podem alterar a capacidade do sistema imune dos pacientes, levando a modificações na eficácia, mas nada que contraindique o uso ou torne a vacina ineficaz.
  1. Existe alguma vacina preferencial?
    1. Não. Ambas são indicadas, já que não contém vírus vivos e/ou replicantes.
  1. Qual o momento ideal para a vacinação dos pacientes com câncer?
    1. Idealmente, antes do início do tratamento. Porém, caso este já esteja em andamento, a indicação é de vacinar a qualquer momento, sempre com decisão compartilhada com o médico oncologista.
  1. Pacientes que já tiveram COVID-19 e/ou aqueles que têm anticorpos contra o vírus devem ser vacinados?
    1. A duração da proteção após infecção natural pelo COVID-19 ainda não é conhecida e a vacinação funciona também para esses pacientes.
  1. Os vacinados devem ser acompanhados com sorologia?
    1. Não. Os testes sorológicos não têm indicação para isso no presente momento.

 

Resumo: Em geral, há indicação de vacinação para todos os pacientes oncológicos, com exceção daquelas vacinas com vírus atenuados ou replicantes – inexistentes até o momento – e daqueles pacientes com contraindicação a algum componente da fórmula das vacinas.

Fale com seu oncologista e mantenha-se informado e imunizado!

 

Referências:

https://www.sboc.org.br/guias-e-infograficos/item/2150-covid-19-vacinacao-de-pacientes-oncologicos

4 de fevereiro: Dia Mundial de Combate ao Câncer. “Juntas, todas as nossas ações importam”

Hoje, 4 de fevereiro de 2021, é o Dia Mundial de Combate ao Câncer. Para nós, oncologistas e hematologistas do Grupo SOnHe, este dia parece “ser todo dia”. Mas é especificamente hoje, a data escolhida pela União Internacional Contra o Câncer (UICC) para celebrar todo o esforço no combate, prevenção e conscientização do câncer. Essa campanha se renova anualmente desde o ano 2000, assumindo diversos temas desde então. Para os anos de 2019 a 2021 o tema da campanha (que durou excepcionalmente três anos) foi “eu sou e eu vou” (“I am and I will”). O objetivo é nos questionar sobre “quem somos” e “o que vamos fazer” na luta contra o câncer.

Para o triênio de 2020 a 2022, são esperados 600 mil novos casos de câncer no Brasil. Diante deste crescente número, é, sim, importante que saibamos responder estes questionamentos feitos na campanha hoje celebrada. Felizmente, o tratamento do câncer evoluiu de maneira substancial nos últimos dez anos. O refinamento das técnicas de cirurgia e radioterapia, assim como o advento e a definitiva implementação de novos fármacos como a terapia alvo e a imunoterapia, trouxeram ganhos inimagináveis aos pacientes. Entretanto, é sabido que o acesso a todos esses recursos ainda não é uniforme. O financiamento de tais tecnologias é tema perene de discussão e ainda é insuficiente para garantir o tratamento ideal e no tempo adequado para todos os pacientes.

Ainda que a ciência tenha evoluído no tratamento do câncer, sabemos que o correto é investir e incentivar políticas de rastreamento e prevenção primária, visando a intervenção em lesões precursoras de câncer e o diagnóstico no estágio mais precoce possível. Neste quesito, ainda estamos muito aquém do que desejamos para o Brasil. Infelizmente, nossos programas de rastreamento são escassos e têm cobertura, abrangência e eficiência muito heterogêneas a depender da região de nosso país. Por tal motivo, ainda temos taxas elevadas de câncer colo de útero por exemplo, mesmo que este seja um câncer totalmente prevenível.

Mas afinal, quem somos nós e o que estamos fazendo contra o câncer?

Neste dia Mundial de Combate ao Câncer é necessário que façamos parte desta batalha que começa muito antes do diagnóstico e que agora enfrenta um desafio ainda maior com a pandemia da COVID-19. É necessário estimular uma rotina de hábitos mais saudáveis, além do combate ao tabagismo, ao alcoolismo e ao sedentarismo e obesidade (fatores de risco que muitas vezes passam despercebidos). É preciso difundir informações confiáveis e de qualidade sobre o câncer em geral, buscando desmitificá-lo e estimular sua prevenção. É também importante a cobrança pelo acesso uniforme às tecnologias envolvidas no tratamento do câncer. Por fim, é de suma importância que os pacientes sejam estimulados a manter a investigação, acompanhamento e tratamento oncológico. Finalizo parafraseando um dos slogans da campanha que hoje celebramos: “juntas, todas as nossas ações importam”. Que mesmo na pandemia, façamos diariamente o esforço para a prevenção e combate ao câncer.

Dia do Farmacêutico

“Farmacêuticos, em todos os tempos e lugares, trazem mesmo lições de amor às pessoas. Aliás para o farmacêutico, amar não é apenas o verbo transitivo direto que se aprende a conjugar, nas escolas.

Amar é ação, a ação de servir, a qualquer hora de qualquer dia e em qualquer lugar.

É cuidar, é promover a saúde, é salvar vidas!”

Carlos Drummond de Andrade

Poeta e Farmacêutico

Danielle Costa Ribeiro

Farmacêutica Responsável do Radium Instituto de Oncologia

 

Neste Dia do Farmacêutico é sempre bom recordar aquilo que nos dá razão de existir. Uma carreira milenar, cujo talento “é cuidar, é promover a saúde, é salvar vidas”. Ao longo dos séculos, sempre tivemos o dever de provar que a ciência é capaz de salvar vidas. E essa missão segue muito viva nesses tempos de pandemia. Além disso, fomos nos tornando cada vez mais necessários na composição de equipes de saúde em todas as áreas de atendimento. Inclusive na oncológica.

Desde a década de 90 o papel do farmacêutico na equipe multidisciplinar de terapia antineoplásica vem se fortalecendo e ocupando um importante espaço no tratamento do câncer e na atenção ao paciente oncológico. Resoluções do CFF e da Anvisa tornaram privativa ao farmacêutico a manipulação de medicamentos citotóxicos e, desde então, novas diretrizes foram desenvolvidas.

O farmacêutico garante toda a cadeia medicamentosa para o tratamento do câncer, atua na manipulação visando preservar as características do produto e garantir a esterilidade da operação, gerencia os medicamentos utilizados nas diferentes etapas e ainda garante que os procedimentos sejam realizados de maneira adequada, conforme os protocolos e doses prescritas. Além disso, o farmacêutico se tornou responsável por toda gestão da farmácia clínica, pois é um profundo conhecedor dos fármacos, que o possibilita acompanhar o resultado do tratamento. Neste contexto, nossa responsabilidade é evitar danos por erros de medicação e, assim, garantir a segurança do paciente.

Selecionar e padronizar medicamentos que atendam aos protocolos clínicos da instituição é a primeira etapa, que exige responsabilidade para garantir que os produtos atenderão às exigências legais. Garantir a divulgação das informações sobre medicamentos, como sua farmacodinâmica e farmacocinética, interações medicamentosas, meia vida dos fármacos, reações adversas e compatibilidades físico-químicas, auxilia a equipe multidisciplinar nas tomadas de decisões sobre a terapia antineoplásica. O preparo e a manipulação são fundamentais para diminuir os riscos associados ao manejo desses medicamentos, além de prevenir erros como seleção errônea do diluente.

O paciente oncológico é um potencial candidato a desenvolver importantes reações adversas devido a poliquimioterapia a que está submetido, ao baixo índice terapêutico dos fármacos, ao tratamento prolongado, entre outros. Torna-se imprescindível, portanto, o acompanhamento da farmacovigilância nestes casos, contribuindo, desta forma, para reduzir as taxas de morbidade e mortalidade relacionadas ao uso de medicamentos associada à detecção precoce de problemas relacionados à segurança.

O monitoramento e acompanhamento farmacoterapêutico estão no âmbito da atenção farmacêutica. De acordo com Linda Strand e Charles Hapler (EUA, 1990), a “atenção farmacêutica é a provisão responsável do tratamento farmacológico com o propósito de alcançar resultados terapêuticos concretos que melhorem a qualidade de vida dos pacientes”. Temos, então, o compromisso de assumir o cuidado ao paciente oncológico, por meio do aconselhamento e monitoramento da terapia, acompanhando todas as etapas do tratamento até o seu desfecho e, principalmente, traçando com o paciente uma relação de confiança e cumplicidade para o êxito à adesão do tratamento e a garantia da qualidade de vida do paciente.

Se analisarmos a linha do tempo na Oncologia, o profissional farmacêutico ainda é um jovem componente dentro da equipe multidisciplinar. Mas dentro de todas as responsabilidades que nos foi atribuída, fomos inseridos na equipe com muita ética e profissionalismo, por médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas e, juntos, buscamos um trabalho consistente e de qualidade ao nosso paciente.

 

Referências:

RDC 220/2004

Resolução CFF 288/96

www.sobrafo.com.br

www.inca.gov.br

Câncer de colo uterino

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que, em todo o mundo, em 2020, aproximadamente 604.000 mulheres receberam diagnóstico de câncer de colo uterino e 341.831 mulheres morreram devido à doença. Segundo as estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para os anos de 2020-2022, serão diagnosticados mais de 16.000 novos casos de câncer de colo uterino a cada ano, representando, no Brasil, o terceiro câncer mais comumente diagnosticado entre as mulheres.

O impacto do câncer de colo uterino guarda íntima relação com indicadores sociais e econômicos. De fato, 80% dos casos de câncer de colo uterino são detectados em países de baixa e média renda, nos quais a mortalidade pela doença também é maior quando comparados aos países ricos. No caso do Brasil, ao longo dos últimos 20 anos observou-se uma redução da incidência da doença, passando de 21,15 casos a cada 100.000 mulheres, no ano 2000, para 11,44 casos a cada 100.000 mulheres em 2015. No entanto, existem importantes diferenças regionais tanto em termos de incidência quanto em mortalidade por câncer de colo uterino. No período de 2000 a 2015, a taxa de incidência de câncer de colo uterino foi de 33,16/100.000 mulheres na região Norte do país, em comparação a 10,80/100.000 mulheres na região Sudeste. Além disso, a região Norte também apresenta a maior taxa de mortalidade por câncer de colo uterino, com 12,17 mortes/100.000 mulheres, em comparação a 3,71 mortes/100.000 mulheres na região Sudeste. Tal heterogeneidade reflete desigualdades socioeconômicas que são fatores determinantes da capacidade de cada região oferecer o cuidado de saúde adequado às mulheres.

O câncer de colo uterino é uma doença potencialmente evitável, o que é de extrema importância em termos de saúde pública. Programas de controle da doença foram implementados na grande maioria dos países, baseados inicialmente na realização de exames de rastreamento e, posteriormente, na introdução da vacinação contra o vírus HPV. Porém, o sucesso desses programas depende de uma complexa organização que garanta o amplo acesso à população, bem como campanhas educativas que tenham como foco melhorar o entendimento das mulheres quanto à importância do diagnóstico precoce e da vacinação, bem como a abordagem de outros fatores de risco (como hábitos de vida sexual e tabagismo).

O rastreamento do câncer de colo uterino pode ser feito de duas formas: pelo exame de Papanicolaou e pelo teste de HPV. O mais amplamente usado no Brasil, e incluído nas recomendações do Ministério da Saúde, é o exame de Papanicolaou. Trata-se de um exame indolor, de baixo custo, seguro e de fácil execução, que pode ser realizado em unidades básicas de saúde durante um exame ginecológico. No Brasil, recomenda-se a sua realização a partir dos 25 anos de idade para todas as mulheres que já tiveram ou têm atividade sexual. Deve ser feito anualmente nos dois primeiros anos e, caso os dois primeiros exames sejam normais, pode ser repetido a cada 3 anos até os 64 anos. O exame de Papanicolaou permite a detecção de lesões chamadas “precursoras” ou “pré-cancerosas”, e o adequado tratamento das mesmas evita o desenvolvimento de câncer de colo uterino no futuro. Além disso, é possível detectar o câncer de colo uterino em estágios muito iniciais, o que garante uma elevada chance de cura.

Infelizmente, a cobertura de rastreamento do câncer de colo uterino no Brasil ainda é inferior ao recomendado pela OMS (meta de 85%). Além disso, algumas regiões do país enfrentam problemas relacionados à baixa qualidade do teste, principalmente em cidades com menos recursos e populações socialmente e economicamente vulneráveis. Com base nos dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) conduzida no Brasil em 2013, 79,4% das mulheres relataram terem sido submetidas ao exame de Papanicolaou. Mulheres mais velhas (55-64 anos; 71%) e com menor nível de escolaridade (fundamental incompleto; 71%) apresentaram menores taxas de rastreamento. Diferenças regionais na cobertura do rastreamento enfatizam a necessidade de se levar em consideração questões culturais, sociais e econômicas na elaboração de medidas adequadas a cada população, de acordo com os recursos disponíveis.

A infecção pelo vírus HPV (papilomavírus humano) é responsável por cerca de 90% dos casos de câncer de colo uterino. Assim, a prevenção da infecção por esse vírus é uma estratégia potencial para a prevenção de lesões precursoras e do câncer de colo uterino. O HPV é um vírus de DNA altamente prevalente na população, de forma que se estima que, aos 50 anos de idade, 80% das mulheres já tenham tido contato com esse vírus em algum momento da vida. A despeito da recomendação da OMS de que a vacina contra o HPV seja incluída nos programas de imunização nacionais para crianças e adultos jovens, a cobertura mundial com a vacina é baixa (cerca de 1,4% das meninas na faixa etária recomendada). Desigualdades no acesso são evidentes entre os países, com uma cobertura de 33% em países ricos em comparação a apenas 2,7% em países de baixa renda.

No Brasil, a vacina quadrivalente contra o HPV foi introduzida no calendário vacinal do Programa Nacional de Imunização em 2014. Tal vacina protege contra quatro tipos de HPV com potencial de causar câncer de colo uterino (6, 11, 16 e 18). É recomendada para as meninas com 9-13 anos de idade, com duas doses aplicadas com intervalo de seis meses. Os meninos foram incluídos a partir de 2017, devendo ser aplicada entre os 11-13 anos. Entre os anos de 2014 e 2017, a cobertura entre as meninas foi de 72,4% para uma dose e de 45,1% para as duas doses. Para os meninos, a cobertura foi bastante inferior, da ordem de 20%. Assim como observado em outros países, a baixa cobertura vacinal poderia ser atribuída à recusa pelos pais, principalmente por preocupação quanto à ocorrência de efeitos colaterais. No entanto, um estudo realizado em sete capitais brasileiras, representando todas as regiões do país, mostrou que os principais fatores associados à baixa cobertura foram as dificuldades específicas de se vacinar adolescentes e questões relacionadas ao próprio sistema de saúde. No geral, a recusa pelos pais foi baixa.

Importante ressaltar que a vacina quadrivalente contra o HPV, empregada no Brasil, é segura e eficaz na prevenção da infecção por esse vírus. Inicialmente, foram reportados casos de reações neurológicas em algumas meninas. No entanto, diversas análises clínicas e laboratoriais foram realizadas, bem como pesquisados os resultados em outros países, concluindo-se que tais ocorrências não representavam efeitos colaterais aos componentes da vacina.

Os efeitos benéficos da vacinação contra o HPV na prevenção do câncer de colo uterino serão obtidos 15-20 anos após a vacinação, considerando o longo período observado entre a infecção e o desenvolvimento do câncer. Assim, a OMS reforça a necessidade de se melhorar a cobertura e a qualidade dos programas de rastreamento, com o exame de Papanicolaou e/ou o teste de HPV. A combinação das duas estratégias tem o potencial de reduzir significativamente o impacto do câncer de colo uterino no mundo.

Em 2020, a OMS lançou uma ambiciosa iniciativa mundial para acelerar a erradicação do câncer de colo uterino como um problema de saúde pública. O objetivo é que cada país atinja e mantenha uma incidência de 4 casos/100.000 mulheres. Para isso, três estratégias iniciais são recomendadas:

  1. Cobertura de vacinação de 90% das meninas até os 15 anos
  2. Cobertura de rastreamento do câncer de colo uterino de 70%, aos 35 anos e aos 45 anos, com testes adequados e de qualidade
  3. Garantia de que 90% das mulheres com doença de colo uterino (lesões precursoras ou câncer) recebam tratamento adequado e em tempo hábil

Estima-se que, caso essas metas sejam atingidas no ano de 2030, consiga-se reduzir a incidência do câncer de colo uterino em 10% já em 2030 e que, até 2120, tenham sido evitados 70 milhões de casos da doença (e 62 milhões de mortes).

A prevenção do câncer de colo uterino é um objetivo possível de ser atingido por todos os países, por meio de programas de controle desenvolvidos com base em especificidades locais e recursos disponíveis. Ação firme e conjunta dos governos, serviços de saúde e sociedade civil é essencial para que se atinja tal objetivo.

 

Referências

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