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Leucemias: cânceres hematológicos que acometem as células da medula óssea

As leucemias são cânceres hematológicos que acometem as células da medula óssea e, atualmente, se dividem em dois grandes grupos: as leucemias crônicas e agudas. As diferenças destas entidades são principalmente relacionadas ao tipo de células que estão doentes. Ambas possuem componentes genéticos associados ao seu aparecimento no individuo, mas não possuem fatores de riscos ambientais totalmente conhecidos e, infelizmente, não há exames de rastreio destas doenças, sendo seu curso acontecendo ao acaso.

Nas leucemias agudas, há aumento das células imaturas da medula óssea, dificultando a maturação dos demais setores celulares, portanto, fazendo com que o paciente apresente sintomas mais graves e proeminentes, como anemia mais intensas, alterações dos glóbulos brancos, aumento ou queda do numérico dessas células e alteração graves nos valores das plaquetas.

Nas leucemias crônicas, as células comprometidas são mais maduras e, normalmente, seu aparecimento é mais insidioso, ou seja, com manifestações clinicas se apresentam mais lentamente, fazendo com que os pacientes sejam pouco sintomáticos ou assintomáticos, podendo apresentar apenas alterações no hemograma. Quando sintomáticos, os pacientes podem apresentar cansaço prolongado e mantido, perda de peso, perda de apetite e aumento do tamanho do abdome as custas do aumento do baço.

Logo, apesar dessas doenças possuírem os mesmos nomes, as leucemias se diferenciam muito entre si em relação ao quadro clinico, refletindo também, no tipo do seu acompanhamento e tratamento. Sabe-se que as leucemias agudas são as doenças mais graves e precisam, necessariamente, de tratamento medicamentoso com base em quimioterapia, sendo a ausência de tratamento fatal para o paciente. Já as leucemias crônicas devem ser avaliadas pelo médico hematologista para a indicação da necessidade ou não de tratamento medicamentoso, visto que, existe um número importante de pacientes que ficarão apenas em acompanhamento clínico ambulatorial.

É preciso lembrar que sintomas mais importantes e mantidos exigem procura médica imediata, são: cansaço importante, infecções de repetição, sangramentos de mucosas, manchas roxas e vermelhas em excesso pelo corpo, aumento de baço e aumento dos linfonodos sem infecções vigentes aparentes. É importante lembrar que na vigência de qualquer um destes sintomas ou alterações importantes do hemograma é necessária a avaliação clínica do médico hematologista, pois somente assim, poderemos guiar a melhor forma de diagnóstico com a correta diferenciação do subtipo da leucemia e o qual será o seu acompanhamento e tratamento.

Jornalista Glória Maria tinha câncer de pulmão. O que devemos saber sobre esta doença

Nesta quinta-feira, 2 de fevereiro, a jornalista e apresentadora Glória Maria faleceu devido à um câncer de pulmão recidivado em sistema nervoso central (SNC), uma progressão da doença no cérebro.

O câncer de pulmão é bastante frequente no Brasil, com cerca de 32 mil novos casos para cada ano do triênio de 2023-2025. A mortalidade é alta, com quase 28 mil óbitos registrados em 2020.

Existem diferentes tipos histológicos de câncer de pulmão, com diferentes características morfológicas, moleculares e etiológicas. O tratamento é personalizado em função dessas características e, a depender de quão avançado estiver o tumor, define-se o tratamento mais indicado.

Cirurgia, quimioterapia e radioterapia foram os pilares do tratamento por muitos anos. Nas últimas décadas, a terapia-alvo e a imunoterapia ganharam destaque e mudaram a história natural da doença.

O comunicado da Globo informa que a jornalista passou por tratamento inicial com imunoterapia em 2019, promovendo uma ativação do sistema imune para combater o tumor, que ficou controlado por um tempo.

No momento que é evidenciado acometimento em SNC, avalia-se o volume de doença, tamanho e número das lesões, localização, condição clínica do paciente, a fim de definir a melhor estratégia. Glória Maria passou por cirurgia para ressecção das metástases cerebrais mas em 2022 novas lesões cerebrais surgiram a despeito do tratamento.

Em geral, pacientes com câncer de pulmão e doença cerebral metastática apresentam pior prognóstico. O manejo vai desde tratamentos localizados com cirurgia, radioterapia convencional e radiocirurgia, até combinações com tratamentos sistêmicos como quimioterapia, terapia alvo e imunoterapia.

Apesar dos avanços, ainda há muito o que compreender em relação a terapias mais eficazes. É importante ter em vista a importância de medidas de prevenção como cessação do tabagismo, responsável por cerca de 85% dos casos diagnosticados. E a questão de dificuldade de acesso, problema que deve ser debatido, visando maior democratização de tratamentos que aumentam a expectativa e qualidade de vida dos pacientes.

 

 

Mamografia: A história de um exame que pode mudar histórias de vida

A palavra rastreamento tem origem no verbo rastrear, que significa “acompanhar ou perseguir pistas, indícios e/ou rastros de algo ou alguém”, ou seja, carrega um sentido de investigação. No contexto do cuidado em saúde, rastreamento pode ser definido como qualquer estratégia que tem como objetivo identificar uma doença ou uma alteração precursora de doença, em uma pessoa considerada saudável. Trazendo esse conceito para a oncologia, duas condutas importantes podem ser tomadas a partir do rastreamento. Em primeiro lugar, a identificação de lesões precursoras permite o seu tratamento e, com isso, a prevenção do desenvolvimento de câncer. Por outro lado, podemos identificar câncer em seu estádio mais inicial, com elevada chance de cura. Para se ter uma ideia, a identificação de câncer de mama em seus estádios mais iniciais está associada a uma chance de cura que chega a mais de 95%.

A importância do diagnóstico precoce do câncer de mama já era reconhecida muito antes de termos exames adequados para esse propósito. Na década de 1920, em um congresso anual de radiologistas, nos EUA, especialistas já entendiam que o exame visual e a palpação das mamas eram muito limitados na identificação do câncer de mama inicial, bem como na diferenciação entre o câncer e lesões benignas. Já no início do século 20, foram realizadas diversas campanhas educativas nos Estados Unidos orientando as mulheres a não adiar a procura por atendimento médico caso apresentassem algum sintoma de câncer de mama. Infelizmente, tais campanhas não tiveram efeito na redução do risco de morte por câncer de mama. De fato, o diagnóstico precoce do câncer de mama envolve a detecção da doença antes do desenvolvimento de qualquer sinal ou sintoma da doença. Por isso, a importância dos exames de imagem.

A história da mamografia começa em 1913, quando um cirurgião alemão publicou um estudo no qual realizou radiografia de 3.000 mamas operadas, evidenciando diferenças entre mamas normais, mamas com lesões benignas e mamas com câncer. Nas décadas seguintes, a técnica do exame foi aprimorada, mas inicialmente o exame era utilizado principalmente na avaliação de mulheres que seriam submetidas a cirurgia da mama. O primeiro estudo que avaliou o uso da mamografia para a identificação de câncer de mama em mulheres sem suspeita para a doença foi publicado em 1960 por Robert Egan, um radiologista do MD Anderson Cancer Center. O potencial da mamografia na identificação de câncer de mama em mulheres sem sinais e sintomas da doença foi confirmado por outros estudos publicados alguns anos depois.

O primeiro estudo clínico randomizado que avaliou o benefício da mamografia para rastreamento do câncer de mama com objetivo de reduzir a mortalidade pela doença incluiu 60.000 mulheres que residiam na região da cidade de Nova Iorque e eram atendidas pelo mesmo plano de saúde. O estudo foi realizado entre os anos de 1966 e 1982. Já no início dos anos 70, os primeiros resultados do estudo indicavam que a mortalidade por câncer de mama entre as mulheres submetidas a repetidos exames de mamografia foi menor do que a de mulheres que não fizeram a mamografia. Na última publicação, após um acompanhamento de mais de 10 anos, os pesquisadores mostraram que a realização de mamografia em intervalos regulares foi associada a uma redução de 30% no risco de morte por câncer de mama. Os resultados desse importante estudo levaram à realização de diversos estudos randomizados nos Estados Unidos e na Europa, que confirmaram o benefício do rastreamento com mamografia na redução do risco de morte por câncer de mama.

Uma questão que gerou muito debate inicialmente era a idade ideal para início do rastreamento. Além de dúvidas quanto ao benefício do rastreamento para mulheres com idade de 40 a 49 anos, suspeitava-se de que em mulheres jovens a mamografia poderia trazer mais riscos pela radiação (lembrando que é um exame de radiografia). No entanto, diversos estudos evidenciam o benefício do rastreamento também nessa faixa etária, e não existem dados que indiquem um risco aumentado pela realização do exame em mulheres jovens.

No congresso anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) de 2022, um importante estudo foi apresentado, evidenciando a contribuição da mamografia e dos tratamentos para o câncer na redução do risco de morte por câncer de mama. Foi analisado um período de quase 20 anos, sendo observado que o rastreamento que a mamografia, na medida em que possibilita o diagnóstico precoce do câncer, foi associado a uma redução de aproximadamente 31% no risco de morte por câncer de mama. Quando consideramos mulheres que tem acesso aos mesmos tratamentos, sabemos que a maior parte das mortes por câncer de mama ocorre entre as mulheres que não faziam rastreamento. Isso deixa claro que tratamentos mais eficazes atuam em conjunto com o diagnóstico precoce, pela mamografia, para aumentar as taxas de cura do câncer de mama.

No Brasil, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), o Ministério da Saúde recomenda que o rastreamento com mamografia seja realizado a cada dois anos para mulheres com idade entre 50 e 69 anos. Tal recomendação é feita do ponto de vista de saúde pública e se baseia no fato de que essa faixa etária é a que apresenta maior benefício. Isso, porém, não significa que não há benefício do rastreamento em mulheres com idade de 40 a 49 anos. Alguns estudos, inclusive, sugerem benefício semelhante ao de mulheres mais velhas. Considerando esse benefício, e o fato de que temos observado aumento da incidência de câncer de mama em mulheres com menos de 50 anos, a Sociedade Brasileira de Mastologia recomenda que o rastreamento seja iniciado aos 40 anos de idade, e que o exame seja feito anualmente. Já existe um Projeto de Decreto Legislativo (número 679/2019) que propõe assegurar a realização da mamografia de rastreamento para as mulheres a partir dos 40 anos, no Sistema Único de Saúde (SUS). O projeto já foi aprovado no Senado Federal e, atualmente, aguarda o parecer do relator na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados.

Por fim, algumas palavras sobre o uso dos demais exames de imagem no rastreamento do câncer de mama. O ultrassom de mamas não é considerado um método adequado para rastreamento do câncer de mama, mas pode ser utilizado como exame complementar quando a mamografia é suspeita ou quando a mulher tem mamas muito densas. Além disso, o ultrassom permite a realização da biopsia da lesão suspeita. A ressonância magnética (RNM) das mamas tem seu principal papel no rastreamento de câncer de mama em mulheres com alto risco de desenvolvimento da doença, como por exemplo em mulheres portadoras de mutações genéticas de alto risco para câncer de mama. Nesses casos, a RNM é utilizada em conjunto com a mamografia.

 

Referências:

 

  1. Clopton MB. The difficulty of diagnosis of carcinoma of the breast. Radiology. 1925; 4(5):390-4.

 

  1. Bassett LW, Gold RH. The evolution of mammography. AJR Am J Roentgenol. 1988; 150(3):493-8.

 

  1. Egan RL. Experience with mammography in a tumor institution: evaluation of 1,000 studies. Radiology. 1960; 75(6):894-900.

 

  1. Shapiro S, Strax P, Venet L. Evaluation of periodic breast cancer screening with mammography: methodology and early observations. JAMA. 1966; 195(9):731-8.

 

  1. Shapiro S, Strax P, Venet L. Periodic breast cancer screening in reducing mortality from breast cancer. JAMA. 1971; 215(11):1777-85.

 

  1. Shapiro S, Venet W, Strax P, et al. Ten- to fourteen-year effect of screening on breast cancer mortality. J Natl Cancer Inst. 1982; 69(2):349-55.

 

  1. Kopans DB. Breast cancer screening: where have we been and where are we going? a personal perspective based on history, data and experience. Clin Imaging. 2018; 50:91-95.

 

  1. Joe BN, Sickles EA. The evolution of breast imaging: past to present. Radiology. 2014; 273(2 Suppl):S23-44.

 

  1. Caswell-Jin JL, Sun L, Munoz D, et al. Contributions of screening, early-stage treatment, and metastatic treatment to breast cancer mortality reduction by molecular subtype in U.S. women, 2000-2017. J Clin Oncol. 2022; 40(16_suppl):1008.

Anticorpos-droga conjugados: duas boas notícias para pacientes com câncer de mama

Anticorpo-droga conjugado (ADC): você sabe o que é? É um novo tipo de medicação com um mecanismo de ação diferente e que tenta aliar maior eficácia a menos efeitos colaterais. E o mês de outubro trouxe duas grandes novidades em ADCs para câncer de mama: um lançamento para câncer de mama e uma nova indicação de outro ADC para um tipo específico de câncer de mama. Na esteira do Outubro Rosa foram notícias importantes para as pacientes.

Para entender o que são ADC, temos que pensar um pouco como uma chave e uma fechadura. Para cada chave, existe uma fechadura em que ela se encaixa e abre a porta. No caso, o ADC, como o próprio nome diz, é composto por um anticorpo “grudado” em uma molécula de quimioterapia. Cada ADC tem um anticorpo (chave) direcionado para um tipo de célula tumoral (fechadura) que ele quer atacar. Então, ao entrar no corpo, o ADC se liga e entra naquele tipo de célula específico, levando junto a quimioterapia, o que resulta em morte celular. Isso faz com que menos células “normais” do corpo sejam afetadas e o tratamento seja, portanto, mais direcionado e efetivo, além de provocar menos efeitos colaterais.

Uma das aprovações foi de uma medicação para pacientes com câncer de mama do tipo HER-low, que são pacientes metastáticas que têm uma baixa expressão da proteína HER2. O transtuzumabe-deruxtecana (Enhertu®) chegou recentemente ao Brasil inicialmente para pacientes com tumores HER2 positivo e, agora no final de outubro, a ANVISA incluiu a nova indicação com base nos dados do estudo Destiny-Breast-04, o que vai fazer com que mais pacientes se beneficiem. O anticorpo trastuzumabe é direcionado à proteína HER2 e a deruxtecana é a quimioterapia que a acompanha. O estudo mostrou que pacientes com HER2-low, que receberam um ou mais linhas de tratamento, independentemente da expressão hormonal, tiveram uma redução de 36% do risco de morte. Esse dado é surpreendente, já que se trata de um cenário em que a sobrevida dos pacientes já é relativamente mais longa e essa nova opção de tratamento traz melhores perspectivas para elas.

A outra aprovação foi de uma medicação que ainda não era comercializada no Brasil, o Sacituzumabe-govitecana (Trodelvy®). É um ADC composto de um anticorpo anti-Trop2 e um inibidor de topoisomerase I (quimioterapia) e é indicado para pacientes com câncer de mama triplo negativo metastático. A ANVISA aprovou com base no estudo ASCENT comparou esta medicação com quimioterapia padrão para pacientes que tivessem progredido a duas ou mais linhas de tratamento e mostrou uma redução de 52% do risco de morte, quase duplicando o tempo mediano de sobrevida. Tal resultado é impressionante, já que se trata de um tipo de tumor agressivo e com tempo de vida mais curto. O medicamento ainda será precificado antes de poder ser oferecido aos pacientes, o que deve levar de 1 a 3 meses.

Essas duas novidades são de extrema importância para esses cenários e aumentam as oportunidades de estender cada vez mais a qualidade de vida das pacientes, preservando a qualidade de vida. Importante lembrar ambas as drogas, por serem endovenosas, são de cobertura obrigatória pelos planos nas suas respectivas indicações. Lembrando que, infelizmente, nenhuma dessas está disponível no SUS, o que aumenta cada vez mais a realidade dos pacientes do sistema público, sempre prejudicados com falta completa de acesso a diversos tratamentos novos.

 

Referências:

https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2203690

https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2028485

 

 

Dia Mundial de Cuidados Paliativos

No dia 08 de outubro, comemoramos o Dia de Cuidados Paliativos e, neste ano, o tema da Campanha Mundial é focada na experiência da dor do luto. É um assunto muito importante e que deve ser abordado de forma intensa e contínua por todos os médicos no mundo, já que milhões de pessoas morrem no mundo anualmente. Aliviar o sofrimento dos pacientes é primordial!

É muito triste que ainda haja um enorme preconceito em relação ao tema, tanto dos leigos quanto dos profissionais da saúde. Muitas vezes ouvimos que “cuidados paliativos” é “não fazer nada ao paciente” ou “é deixar o paciente morrer”. Essa ideia é ultrapassada e deve ser combatida com todas as nossas forças. Por este e outros motivos, o cuidado paliativo é uma necessidade não atendida no mundo inteiro.

Os cuidados paliativos são um conjunto de intervenções que auxiliam no bem-estar e qualidade de vida dos pacientes com doenças graves e incuráveis, o que inclui alguns pacientes com câncer. A abordagem deve incluir não só aspectos da doença, mas também espirituais, sociais, da vida cotidiana e dos valores de cada paciente e de seus familiares e amigos.

O início de cuidados paliativos mais precocemente está associado não só a um aumento da qualidade de vida, mas também do tempo de vida. Isso mesmo, os pacientes que recebem cuidados paliativos mais cedo vivem mais e melhor!

O luto é um tabu que temos que abordar. A vivência do luto é muitas vezes negligenciada, mas é um momento que os familiares e amigos precisam de um apoio da equipe, principalmente da parte psicológica.

Com as mais de 6 milhões de mortes por COVID-19 no mundo, o luto mal vivido tornou-se um grande problema que devemos tentar resolver com o apoio de toda a equipe multidisciplinar, além de muita empatia e compaixão. Muitas pessoas não conseguirem se despedir dos seus entes queridos.

A abordagem de saúde pública para o luto vai de terapias psicológicas específicas, passando por programas de apoio, e chegando a ao apoio compassivo. Toda a sociedade tem que se mobilizar para tornar essa experiência menos traumática. Políticas flexíveis nas empresas, grupos de apoio ao enlutado, educação sobre o assunto e um maior acesso a programas de cuidados paliativos são estratégias que podem ajudar.

Isso tudo depende também de investimentos dos governos em estrutura e recursos humanos, um outro objetivo da campanha. Promover o luto saudável ajuda a quem está vivendo e melhora o bem-estar da população.

Neste dia 8 de outubro, convidamos todos compartilharem experiências pessoais (anônimas) sobre o luto. O dividir ajuda a curar. A empatia gera empatia e, assim, podemos ajudar quem viveu ou vive um processo de luto da sua vida.

 

A queda do rol taxativo da ANS: o que muda para os pacientes?

No dia 21 de setembro foi publicada a Lei que torna o rol da ANS exemplificativo, não mais taxativo. Mas, o que isso muda na vida dos pacientes com câncer?

A queda de braço entre os planos de saúde, ANS e sociedade não é tão recente.

Desde a implantação do rol da ANS, na virada do século, muito tem se discutido sobre o seu papel, principalmente quando se notou que tratamentos eficazes estavam levando anos para chegar aos pacientes por conta da burocracia de incorporação no rol.

Como temos falado em outras matérias, o rol da ANS é uma lista de tratamentos que devem ser obrigatoriamente cobertos pelos planos de saúde do Brasil. Essa lista inclui desde dispositivos e procedimentos cirúrgicos, até medicações orais oncológicas.

Lembramos aqui que o processo para obrigar os planos a pagarem por tratamentos orais, até o início do ano, consistia em aprovação da Anvisa (geralmente levava 6 meses) e, em sequência, aprovação pela ANS (que podia se estender por mais de 3 ou 4 anos).

No ano passado, vimos o Projeto de Lei 6.330/2019 ser derrubado por veto presidencial. Este PL acabaria definitivamente com o rol e obrigaria os planos a cobrirem quaisquer tratamentos, desde que fossem aprovados pela Anvisa.

Como meio-termo, no início deste ano foi aprovada a Medida Provisória 1.067/2021, que vem mostrando resultado da redução do tempo para aprovação de drogas orais em Oncologia de muitos anos para poucos meses. O processo tem se mostrado mais ágil e deixa o cenário do sistema privado de saúde no Brasil mais alinhado com a melhor prática científica mundial. Mas o rol ainda persistia.

No dia 8 de junho, o Supremo Tribunal de Justiça havia decidido pela taxatividade do rol da ANS e houve bastante repercussão da mídia. Naquela oportunidade, segmentos da sociedade se manifestaram com indignação e isso gerou um novo Projeto de Lei, denominado PL 2.033/2022, que foi rapidamente aprovado tanto na Câmara quanto no Senado e, por fim, sancionado na semana passada, transformando-se na Lei 14.454 de 2022. Este é um marco para a saúde suplementar no Brasil e vamos entender o porquê.

Esta lei aprovada altera a função do rol da ANS. A lista, em vez de taxativa, tornou-se exemplificativa. Isto quer dizer que ela é agora um conjunto de tratamentos “básicos” que a operadora deve cobrir. Porém, a cobertura de outros tratamentos fora deste rol não deve ser negada, contanto que tenham eficácia comprovada cientificamente ou sejam recomendados por alguma diretriz científica de renome internacional ou sejam recomendados pela Conitec.

E isso melhora as coisas para os pacientes? Sim, é, sem dúvida, uma grande vitória. Entretanto, na prática, os oncologistas já têm para si que, quando uma medicação não está disponível no rol, não deve ser prescrita de rotina para pacientes de planos de saúde, a não ser que não haja outra opção adequada. Nesse caso, já é comum que haja solicitações extraordinárias, que – quando bem embasadas cientificamente – são muitas vezes aprovadas pelos planos de saúde, que o fazem a fim de não prejudicar o paciente e evitar judicializações, aprova o pedido. O que muda agora é que, muito provavelmente, o acesso ficará mais fácil, com a redução das negativas por parte das operadoras.

O lado sombrio disso tudo, infelizmente, existe. Tal mudança impactará em várias operadoras de saúde, o que provavelmente culminará em aumento de preços dos planos, falência de alguns – notadamente os menores – e, talvez, redução do acesso à saúde privada pela população brasileira, tão castigada com o aumento recente de preços. A discussão é longa e complexa.

Reforçamos aqui que a simples existência do rol já é algo que questionamos, pela diferenciação que ocorre entre tratamentos injetáveis (que não necessitam do rol) e orais. O caminho talvez seja um novo modelo de aprovação de medicamentos no Brasil, que abranja os sistemas privado e público e leve em consideração as capacidades financeiras do nosso país.

Enquanto temos essas discussões produtivas sobre o sistema privado, continuamos lembrando que, no SUS, o cenário tem se tornado cada vez mais sombrio, com acesso extremamente restrito a diversos tipos de tratamento contra o câncer, tendo em vista a falta de gestão e redução do financiamento.

Referências:

https://legis.senado.leg.br/norma/36359942/publicacao/36361187

https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2022/08/29/senado-aprova-obrigatoriedade-de-cobertura-de-tratamentos-fora-do-rol-da-ans

 

 

A prática regular de atividade física e o tempo de sedentarismo estão associados ao risco de câncer de mama

O câncer de mama é a neoplasia maligna mais diagnosticada entre as mulheres em todo o mundo. O câncer está incluído em um grupo de doenças chamado “Doenças Crônicas Não-Transmissíveis”, no qual estão incluídas também as doenças cardiovasculares, o diabetes e as doenças respiratórias crônicas. Em conjunto, essas doenças são responsáveis por mais de 70% de todas as mortes no mundo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), alguns fatores de risco são responsáveis pela maior parte dessas doenças: tabagismo, consumo alimentar inadequado, uso abusivo de bebidas alcoólicas e a inatividade física.

A OMS define atividade física como qualquer atividade de movimento corporal produzida pela musculatura esquelética e que requer gasto de energia. Sabemos que tanto a prática de atividade física de intensidade moderada quanto vigorosa são capazes de melhorar a saúde das pessoas. De fato, a prática regular de atividade física ajuda a prevenir e tratar doenças cardíacas, acidentes vasculares cerebrais, diabetes e, até mesmo, o câncer. Além disso, melhoram a saúde mental e a qualidade de vida.

A recomendação atual da OMS é de que os adultos pratiquem entre 150-300 minutos de atividade física moderada (caminhada, pilates, hidroginástica, dança) por semana, ou de 75-150 minutos de atividade física vigorosa (corrida, musculação, basquete, futebol, tênis, etc).

No Brasil, segundo o último levantamento do IBGE, metade dos adultos não atingem o nível de atividade física recomendado pela OMS. Apesar disso, observou-se uma melhora ao longo das últimas décadas, especialmente entre as mulheres. No caso delas, a porcentagem de mulheres que pratica atividade física pelo tempo mínimo recomendado pela OMS passou de 22,2% em 2009 para 31,3% em 2021. No entanto, ainda há muito espaço para melhora nessa questão.

Diversos estudos observacionais já nos mostraram que um maior nível de prática de atividade física e um menor tempo de sedentarismo estão associados a um menor risco de câncer de mama. No entanto, esses estudos apresentam algumas limitações na definição de causa e efeito entre a prática de atividade física e a redução do risco de câncer de mama. Nesse contexto, em um estudo publicado recentemente no periódico British Journal of Sports Medicine, os pesquisadores empregaram uma metodologia diferente, com o objetivo de avaliar com mais precisão essa relação, isolando potencialmente o efeito de outros fatores.

Foram avaliados os dados de 130.957 mulheres de origem europeia, das quais 69.838 haviam recebido diagnóstico de câncer de mama, 6.667 mulheres com carcinoma in situ de mama, e 54.452 mulheres sem diagnóstico de câncer. O diferencial do estudo foi a utilização de marcadores genéticos sabidamente associados à prática de atividade física global, à prática de atividade física vigorosa, e ao tempo de sedentarismo, determinados com base em um banco de dados do Reino Unido.

As mulheres com predisposição genética e maiores níveis de atividade física apresentaram um risco 41% menor de desenvolvimento de câncer de mama. A redução do risco ocorreu tanto em mulheres pré-menopausadas quanto pós-menopausadas, bem como foi observada para todos os tipos de câncer de mama. Além disso, a prática de atividade física vigorosa foi associada a uma redução de 38% no risco de câncer de mama, principalmente em mulheres mais jovens.

Por outro lado, a presença de marcadores genéticos de maior tempo de sedentarismo (tempo passado assentado ou deitado) foi associada a um aumento de 77% no risco de câncer de mama receptor hormonal negativo (sendo maior o risco de tumores triplo-negativos: aumento de 104% no risco). Os resultados foram mantidos mesmo após a exclusão de marcadores genéticos sabidamente associados a outros fatores de risco para câncer de mama, reforçando a relação de causa e efeito entre o nível de atividade física e o risco de desenvolvimento de câncer de mama.

Os autores concluem que os achados do estudo adicionam evidências mais robustas da relação de causa e efeito entre a prática de atividade física e o risco de câncer de mama. A prática de maior nível de atividade física e a redução do tempo de sedentarismo potencialmente reduzem o risco de câncer de mama, de forma consistente entre os subtipos de câncer. Pela metodologia utilizada, eles acreditam ter reduzido de forma significativa o impacto de outros fatores de confusão, estabelecendo uma relação mais direta de causa e efeito entre a atividade física e o câncer de mama.

Esses resultados têm impacto importante em termos de saúde pública e para o delineamento de estratégias de prevenção do câncer de mama por meio de mudanças do estilo de vida.

 

Referências

 

  1. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Global status report on noncommunicable diseases 2014. Geneva: WHO, 2014.

 

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  1. WORLD HEALTH ORGANIZATION. World Health Statistics 2018: monitoring

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  1. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Noncommunicable Diseases (NCD)

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  1. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise em Saúde e Vigilância de Doenças Não Transmissíveis. Vigitel Brasil 2006-2021. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 71p. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/vigitel_brasil_atividade_fisica_2006_2021.pdf

 

  1. Dixon-Suen SC, Lewis SJ, Martin RM, et al. Physical activity, sedentary time and breast cancer risk: a Mendelian randomization study. Br J Sports Med 2022, online first. Disponível em: https://bjsm.bmj.com/content/early/2022/07/17/bjsports-2021-105132

 

 

 

Novo tratamento incluído no rol da ANS para pacientes com câncer de ovário

Em 30 de agosto de 2022, a Agência Nacional de Saúde (ANS), por meio da Resolução Normativa número 542, incluiu como obrigatória a cobertura pelos planos de saúde do tratamento com Olaparibe para mulheres com câncer de ovário.

Tal medida coincide com o início do mês de conscientização sobre câncer de ovário e representa um importante avanço no cuidado a essas mulheres. O câncer de ovário é o sétimo câncer mais comumente diagnosticado nas mulheres brasileiras. A cada ano, mais de 6.600 novos casos são diagnosticados, a maior parte em estádios mais avançados e com menores chances de cura. É uma doença para a qual não temos exames de rastreamento e cujos sintomas são bastante inespecíficos, de forma que o diagnóstico e tratamento adequados devem ser iniciados o mais rapidamente possível.

O Olaparibe é um medicamento da classe dos inibidores de PARP, administrado por via oral, e que é recomendado para mulheres com câncer de ovário que apresentem mutação nos genes BRCA1 e/ou BRCA2, o que ocorre em cerca de um quinto dos casos. Além do câncer de ovário, o Olaparibe também é utilizado no tratamento de outros tipos de câncer, como mama e próstata. A Anvisa já havia aprovado o Olaparibe para tratamento do câncer de ovário, no Brasil, porém ainda não estava incluído na lista de medicamentos de cobertura obrigatória pelos planos de saúde, o que limitava enormemente o acesso a esse tratamento.

A recente inclusão no rol da ANS contempla dois cenários de uso do Olaparibe para câncer de ovário:

  1. Tratamento de manutenção após quimioterapia para mulheres com câncer de ovário seroso ou endometrioide de alto grau, com presença de mutação de BRCA1/2, recidivado e que responderam ao tratamento com platina (estudo SOLO-2)

 

  1. Tratamento de manutenção após quimioterapia para mulheres com câncer de ovário de alto grau, com mutação de BRCA1/2, recentemente diagnosticado, e que respondem à quimioterapia inicial com platina (estudo SOLO-1)

Além disso, a ANS incluiu como obrigatória a cobertura da pesquisa de mutação de BRCA1/2 no tecido do tumor (já existe a obrigatoriedade da pesquisa de cobertura da mutação germinativa – hereditária).

Essa nova inclusão é um avanço muito importante, pois os estudos que embasaram a aprovação do Olaparibe evidenciaram um benefício significativo no prolongamento do tempo para recidiva/progressão da doença. Além disso, especialmente no cenário de uso na doença recentemente diagnosticada, o uso de Olaparibe foi associado a um aumento muito importante do tempo de vida (sobrevida global). No acompanhamento de longo prazo, aproximadamente metade das mulheres que fizeram uso de Olaparibe não haviam apresentado progressão de doença ou morte em cinco anos. Tais achados são espetaculares e nunca tinham sido vistos com outros tratamentos para câncer de ovário.

Os esforços agora se voltam para a tentativa de inclusão do Olaparibe no tratamento do câncer de ovário em pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS).

 

Referências

 

  1. Ministério da Saúde/Agência Nacional de Saúde Suplementar. Resolução Normativa ANS N° 542, de 30 de agosto de 2022. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-normativa-ans-n-542-de-30-de-agosto-de-2022-426205935. Acessado em 04 de setembro de 2022.

 

  1. Pujade-Lauraine E, Ledermann JA, Selle F, et al; SOLO2/ENGOT-Ov21 investigators. Olaparib tablets as maintenance therapy in patients with platinum-sensitive, relapsed ovarian cancer and a BRCA1/2 mutation (SOLO2/ENGOT-Ov21): a double-blind, randomised, placebo-controlled, phase 3 trial. Lancet Oncol. 2017; 18(9):1274-1284. doi: 10.1016/S1470-2045(17)30469-2

 

  1. Poveda A, Floquet A, Ledermann JA, et al; SOLO2/ENGOT-Ov21 investigators. Olaparib tablets as maintenance therapy in patients with platinum-sensitive relapsed ovarian cancer and a BRCA1/2 mutation (SOLO2/ENGOT-Ov21): a final analysis of a double-blind, randomised, placebo-controlled, phase 3 trial. Lancet Oncol. 2021; 22(5):620-631. doi: 10.1016/S1470-2045(21)00073-5.

 

  1. Moore K, Colombo N, Scambia G, et al. Maintenance Olaparib in Patients with Newly Diagnosed Advanced Ovarian Cancer. N Engl J Med. 2018; 379(26):2495-2505. doi: 10.1056/NEJMoa1810858.

 

  1. Banerjee S, Moore KN, Colombo N, et al. Maintenance olaparib for patients with newly diagnosed advanced ovarian cancer and a BRCA mutation (SOLO1/GOG 3004): 5-year follow-up of a randomised, double-blind, placebo-controlled, phase 3 trial. Lancet Oncol. 2021; 22(12):1721-1731. doi: 10.1016/S1470-2045(21)00531-3.

 

 

29 de agosto: Dia Nacional de Combate ao Fumo

O tabagismo como vício vem acometendo a humanidade há mais de 200 anos

O tabagismo como vício vem acometendo a humanidade há mais de 200 anos. Já passou por diferentes fases, desde seu uso pelos povos pré-colombianos, na América Central, ou em rituais indígenas, na América do Sul, até sua exploração comercial na Europa durante a Revolução Industrial e sua banalização pela indústria cinematográfica de Hollywood, nas décadas de 80 e 90. Fato é que o cigarro se tornou popular e também o maior inimigo do ser humano, sendo o grande responsável por mortes evitáveis em todo mundo.

A partir do final da década de 90, com o entendimento dos mecanismos deletérios do cigarro no corpo humano e sua clara associação com dezenas de doenças cardiovasculares, respiratórias e neoplásicas, iniciou-se no mundo inteiro um movimento na tentativa de inibir e dificultar o seu uso. São mais de 4.000 compostos químicos em um único cigarro, dentre os quais mais de 50 são sabidamente cancerígenos. É disparado o maior fator de risco para o desenvolvimento de câncer e está relacionado a quase todos os tumores, com particular importância em cânceres de pulmão, cabeça e pescoço e bexiga. Além disso é o segundo fator de risco mais importante para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares (perdendo apenas para hipertensão arterial). Além de diversas outras doenças respiratórias.

As pessoas que fumam têm em média 14 anos menos de expectativa de vida em relação as que não fumam. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam para 7 milhões de mortes ao ano por doenças causadas pelo cigarro, sendo 12% dessas mortes em fumantes passivos. Só no Brasil são 400 mortes por dia pelo tabaco, o que causa um impacto gigantesco na saúde e na economia, visto que muitas pessoas atingidas são jovens e economicamente ativas, além de um grande custo para o sistema de saúde pública, com gastos bilionários em tratamentos de doenças relacionadas ao tabaco.

Na tentativa de diminuir o tabagismo e com isso as doenças a ele relacionadas, vários países passaram a adotar medidas que estimulassem o abandono do cigarro e outras que evitassem o início do tabagismo. Nesse contexto, o Brasil ganhou lugar de destaque ao conseguir reduzir de forma consistente o número de pessoas que fumam. Os esforços para essa redução começaram em 1990, quando profissionais de estados e municípios foram treinados pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA) para tratarem pacientes tabagistas no SUS e o tratamento começou a ser oferecido de forma gratuita, por exemplo, com a disponibilização de medicações como a bupropiona.

Além disso, foi disponibilizada uma linha telefônica para as pessoas tirarem dúvidas sobre o tabagismo, houve aumento dos impostos que chegaram a 83%, em 2018; as propagandas foram proibidas em televisão e revistas, tornou-se obrigatório estampar as embalagens de cigarro com fotos e frases que mostrassem os efeitos devastadores do cigarro e, por fim, a proibição do fumo em locais fechados de uso coletivo. Todas essas medidas levaram o Brasil a reduzir em mais de 50% o número de pessoas que fumam nos últimos 25 anos (34% da população em 1989 e 10% em 2017).

O Brasil, ao lado de Turquia, tornou-se referência ao mundo no combate ao cigarro, sendo o segundo país a conseguir implementar de forma eficaz todas as seis medidas sugeridas pela OMS chamadas de Mpower (plano para reverter a epidemia do tabaco) que são: monitorar o uso do tabaco e as políticas de prevenção, proteger as pessoas contra o tabagismo, oferecer ajuda para parar de fumar, avisar sobre os perigos do tabaco, aplicar proibições à publicidade, promoção e patrocínio do tabaco e aumentar os impostos sobre o tabaco.

A redução do tabagismo vem acontecendo, no Brasil em todas as faixas etárias, com redução de 50% entre os jovens com menos de 30 anos e também redução de 44% entre as mulheres. Segundo o INCA, mais de 1,5 milhão de pessoas fizeram tratamento na rede pública para parar de fumar nos últimos 10 anos.

Mas ainda não foi possível acabar completamente com esse vício. Dados mostram que as capitais onde mais se fuma são Porto Alegre, São Paulo e Curitiba, enquanto Salvador, São Luiz e Belém são as que tem menos fumantes. O Brasil ocupa hoje o 34º lugar entre os países que mais fumam em um ranking que engloba 149 nações.

Em paralelo à diminuição do tabaco, vem crescendo no Brasil (onde a comercialização é proibida) e no mundo o uso dos cigarros eletrônicos, cujos os efeitos deletérios ainda são desconhecidos. Em 2018, mais de 3,5 milhões de estudantes do ensino médio nos EUA disseram já ter experimentado o cigarro eletrônico. O Centro de Controle de Doenças dos EUA acabou de divulgar a morte de um morador e Illinois como potencial primeiro caso – do mundo – de morte associada diretamente ao uso do cigarro eletrônico. Por isso, o combate ao cigarro ganha novos inimigos que não podem ser esquecidos.

O Brasil tem o audacioso objetivo de se tornar o primeiro país do mundo livre do tabaco. E, por isso, o dia 29 de agosto ganha importância como o Dia Nacional de Combate ao Fumo para lembrar que essa guerra ainda terá vários capítulos e a atenção nunca deverá ser diminuída no intuito de manter o Brasil na rota do combate ao cigarro.

 

 

26 de agosto: Dia Internacional da Igualdade Feminina

Todas as mulheres são iguais! Pacientes do SUS e de planos privados merecem equidade de tratamento

No dia 26 de agosto é comemorado o Dia Internacional da Igualdade Feminina. Muito se tem falado a respeito da igualdade de gênero e de equidade salarial. Porém, e sobre a saúde da mulher, qual o tipo de igualdade é abordado? Infelizmente o acesso aos serviços de saúde e a qualidade da assistência ofertada às mulheres está longe de ser igual para todas. Desta forma, ainda existe, conforme apontado pelo médico, forte desigualdade entre as próprias mulheres no que diz respeito ao cuidado com a saúde.

Quando falamos sobre o câncer de mama no cenário brasileiro, por exemplo, as taxas de mortalidade estão diretamente relacionadas ao acesso aos serviços de saúde e à qualidade da assistência ofertada às mulheres. No mundo, as estimativas de sobrevida em cinco anos mostraram uma tendência de aumento em países desenvolvidos; no Brasil, principalmente entre as mulheres que dependem da saúde pública, isso não é observado.

Dados do importante estudo Concord-3 (ALLemANI, 2018) mostram que, no Brasil, as estimativas de sobrevida em cinco anos foram de 76,9% para o período de 2005 a 2009 e caíram para 75,2% para o período de 2010 a 2014.

Algumas diferenças são reveladas quando os casos são comparados por regiões do país nos últimos três anos de atualização da base de dados. A proporção de casos classificados como doença avançada (estádios III e IV) antes do início do tratamento é maior na região Norte (50,1%). Nas regiões Sul e Sudeste, a proporção de mulheres que chegam ao hospital com doença inicial (estádios 0, I e II) é de 66,6% e 65,1%, respectivamente.

Quando são analisadas as informações considerando a escolaridade da mulher o cenário muda consideravelmente. Conforme aumenta o nível de escolaridade, cresce a proporção de casos que iniciam o tratamento em até 60 dias após o diagnóstico. Claramente, as mulheres com mais acesso às informações e aos serviços de saúde recebem mais rapidamente o tratamento.

O câncer de mama é um dos desafios no cenário atual de envelhecimento populacional e enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis no Brasil. É o tipo de câncer que mais acomete as mulheres no Brasil e, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), as estimativas de incidência para o ano de 2022 são de 66.280 casos novos. Na mortalidade proporcional por câncer em mulheres, no período 2016-2020, os óbitos por câncer de mama ocupam o primeiro lugar no país, representando 16,3% do total.