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22 de setembro – Dia Mundial de Conscientização da Leucemia Mieloide Crônica – LMC: doença não tem cura, mas é possível atingir a cura funcional

A Leucemia Mieloide Crônica (LMC) é um tipo de câncer relativamente raro que afeta a medula óssea e a produção do sangue. Apesar de possuir um componente genético associado ao seu aparecimento no indivíduo, não é uma doença hereditária, com seus fatores de riscos ambientais não sendo totalmente conhecidos A doença acomete principalmente adultos e raramente é diagnosticada em crianças. Sua incidência é um pouco mais comum em homens.

A LMC possui uma característica singular, a presença da anormalidade genética no cromossomo Philadelphia. Este cromossomo é resultado da troca de material genético entre os genes ABL no cromossomo 9 e o gene BCR no cromossomo 22, formando o BCR/ABL. Por esse motivo o dia 22 de setembro (22/9) foi escolhido para simbolizar o Dia Mundial de Conscientização da Leucemia Mieloide Crônica. O cromossomo recebeu este nome porque foi descoberto nos anos de 1960 por pesquisadores da cidade de Philadelphia nos Estados Unidos.

A mutação leva a uma produção anormal e desenfreada de glóbulos brancos (leucócitos) maduros, que perdem a sua função e se acumulam no organismo impedindo a produção de células saudáveis do sangue. A doença é lenta e progressiva e pode causar palidez, cansaço, aumento do volume abdominal e dor no lado esquerdo do abdômen devido ao aumento do baço, suor noturno, perda de peso, dor óssea, infecções, hematomas e sangramentos.

Os primeiros indícios da doença são identificados por meio do exame clínico e do hemograma que evidencia o aumento no número de glóbulos brancos. A confirmação se faz por testes citogenéticos e de biologia molecular que identificam a alteração genética do gene BCR/ABL, o cromossomo Philadelphia.

O tratamento para cada paciente é baseado na fase da doença no momento do diagnóstico e na condição clínica do paciente. A maioria dos pacientes inicia o tratamento com medicamentos orais, os inibidores de tirosina quinase (ITKs), que atacam exatamente o alvo (o cromossomo Philadelphia), combatendo as células doentes. Os ITKs revolucionaram o prognóstico da doença, pois hoje em dia, os pacientes em tratamento apresentam uma doença crônica controlável com expectativa de vida igual à das pessoas livres desse diagnóstico. No entanto, o sucesso do tratamento depende da adesão do paciente ao uso dos medicamentos, afinal, quando tomados incorretamente podem gerar uma evolução da doença. Existem casos de evolução mais grave, cada vez mais raros, em que ainda é necessária a realização de quimioterapia endovenosa e do transplante de medula óssea.

Após o início do tratamento é muito importante realizar o acompanhamento do paciente para o monitoramento da doença residual mínima, que define a quantidade de células “doentes” ainda presentes no organismo durante as diferentes fases do tratamento. Esse monitoramento também é realizado por biologia molecular feito com uma simples coleta de sangue.

Em alguns casos, a interrupção do uso das medicações é possível para pacientes que atingiram níveis excelentes de controle da doença por tempo prolongado. Contudo, essa alternativa só é viável mediante supervisão médica pois caso seja detectado o reaparecimento das células leucêmicas, será necessário retomar o tratamento medicamentoso, o que ocorre em 50% dos casos. A LMC não é curável com as terapias atualmente disponíveis, mas atualmente, cada vez mais pacientes alcançam remissões extremamente profundas sendo usado o termo cura funcional.

 

 

Mostre-me a evidência – Musculação: realmente reduz o risco de morte?

Com a crescente longevidade da população mundial, os casos de câncer também aumentam, conforme destaca a OMS. Há estudos que mostram que atividades físicas podem diminuir o risco de morte por várias causas: 15% para todas as causas, 14% para câncer e 19% para doenças cardiovasculares. Surpreendentemente, algumas pesquisas destacam a musculação como uma atividade capaz de reduzir a incidência destas doenças, de forma independente de atividades aeróbicas. Contudo, é preciso cautela: muitos destes estudos se baseiam em amostras populacionais reduzidas, o que pode introduzir vieses significativos.

Quando focamos em pacientes oncológicos, a busca por medidas não farmacológicas, como a atividade física, tem ganhado espaço. Revisões de literatura, incluindo estudos randomizados, têm investigado os benefícios dos exercícios para aliviar sintomas. A boa notícia é que sintomas como fadiga, dores e insônia parecem melhorar com exercícios. A musculação, em particular, tem mostrado maior benefício neuromuscular e anti-inflamatório. No entanto, precisamos entender mais sobre a relação entre o tipo, duração e intensidade destes exercícios. E, infelizmente, as análises clínicas sobre estas relações ainda são escassas.

Já pacientes com neoplasias avançadas frequentemente enfrentam sarcopenia (perda de massa muscular), que impacta no prognóstico, resposta ao tratamento e recuperação após cirurgias. A sarcopenia é tão relevante que a OMS a reconheceu como uma doença em 2019, afetando entre 8% a 13% da população acima dos 60 anos. A musculação, que favorece o ganho de massa muscular, parece trazer benefícios para esses pacientes. Entretanto, basear tais afirmações em estudos observacionais, e não clínicos, é como andar em terreno movediço. Precisamos de pesquisas mais robustas para trazer certezas.

Em resumo, enquanto há indicações promissoras de que atividades físicas podem melhorar a qualidade de vida, especialmente em pacientes oncológicos, ainda precisamos de uma base de evidência mais sólida. Estimular a individualização dos exercícios para cada tipo de neoplasia parece sensato, mas sempre ancorados em dados concretos.

 

 

Mostre-me a evidência – Promessa de cura para câncer de próstata: a ciência pede provas

Recentemente, noticiários surpreenderam muitos com a divulgação da cura de um paciente com câncer de próstata avançado. O tratamento? Um intrigante aumento controlado da temperatura do cérebro, visando estimular proteínas de choque térmico.

Esta surpreendente proposta tem suas raízes na pesquisa do Dr. Marcio Aurelio Martins (Marc) Abreu. Em 2003, ele falou sobre o “túnel término do cérebro”, que supostamente permitiria ajustar a temperatura cerebral de forma não invasiva. De início, Abreu vislumbrou isso como uma potencial solução para doenças neurodegenerativas. Parecia promissor, mas algo não se encaixava.

Assim que a comunidade médica e científica tomou conhecimento, surgiram dúvidas legítimas. Onde estavam os estudos publicados? E as evidências sobre eficácia, segurança e possíveis efeitos adversos? Silêncio.

E aqui estamos em 2023, e mais uma vez os holofotes estão voltados para o Dr. Abreu, agora com uma promessa renovada: curar um paciente de 66 anos com câncer de próstata avançado. Desta vez, a proposta vai além do simples aumento da temperatura cerebral, prometendo erradicar células-tronco cancerígenas e neutralizar moléculas sinalizadoras. Fascinante, mas igualmente envolto em mistério. Continuamos sem ver artigos científicos que confirmem estas afirmações, mecanismos claros de ação ou possíveis efeitos adversos.

O que se pode afirmar, até o momento, é que, no mundo da medicina, promessas sem provas são, no mínimo, problemáticas. Antes de aceitar tais alegações como verdadeiras, a ciência exige evidências concretas. Estamos todos esperando.

 

 

 

17 de setembro: Dia Mundial da Segurança do Paciente – Dia de celebrar a segurança do cuidado de nossos pacientes

O Dia Mundial da Segurança do Paciente é celebrado em 17 de setembro e a Organização Mundial da Saúde (OMS) elegeu para este ano de 2023 o tema “Engajar pacientes para a segurança do paciente “, em reconhecimento ao papel crucial que pacientes, familiares e cuidadores desempenham na segurança dos cuidados de saúde. O slogan é “Amplifique a voz dos pacientes!”. A escolha da temática é extremamente acertada e oportuna.  E esse reconhecimento vai ao encontro da concepção de que o fundamento ético da segurança do paciente é o direito humano universal de todos, para não sofrerem danos associados aos cuidados em saúde. Importante: inexiste efetivação de tal direito sem a participação dos pacientes em seus cuidados.

Segundo a OMS, as evidências demonstram que quando os pacientes são considerados parceiros em seus cuidados, ganhos significativos são obtidos em segurança, satisfação e resultados de saúde. Ao se tornarem membros ativos da equipe de saúde, os pacientes podem contribuir para a segurança de seus cuidados e do sistema de saúde como um todo. Por meio do slogan “Amplifique a voz dos pacientes!”, a OMS clama pela adoção de medidas destinadas a assegurar a representatividade dos pacientes nos mecanismos de governança, o seu envolvimento na formulação de políticas públicas e no desenho de estratégias de segurança, bem como a sua participação ativa em seus cuidados em saúde. Para que essa aspiração seja alcançada, é fundamental a criação de meios efetivos para que pacientes, familiares e organizações amplifiquem suas vozes de modo a expressarem suas preocupações, expectativas e preferências em políticas, programas e estratégias de segurança do paciente.

 

Estes são os objetivos do Dia Mundial da Segurança do Paciente 2023:

 

  1. Aumentar a conscientização global sobre a necessidade de envolvimento ativo dos pacientes e suas famílias e cuidadores em todos os ambientes e níveis de assistência à saúde para melhorar a segurança do paciente;

 

  1. Envolver formuladores de políticas, líderes de saúde, profissionais de saúde e assistência, organizações de pacientes, sociedade civil e outras partes interessadas nos esforços para envolver pacientes e famílias nas políticas e práticas para cuidados de saúde seguros;

 

  1. Capacitar pacientes e familiares a se envolverem ativamente em seus próprios cuidados de saúde e na melhoria da segurança dos cuidados de saúde;

 

  1. Defender ações urgentes sobre o envolvimento do paciente e da família, alinhadas com o Plano Global de Ação para a Segurança do Paciente 2021–2030, a ser adotado por todos os parceiros.

 

Trabalhando juntos para tornar os cuidados de saúde mais seguros!

Fonte: Adaptado de World Health Organization (WHO). World Patient Safety Day 2023: Engaging Patients for Patient Safety. 2023. Disponível em: <https://www.who.int/news-room/events/detail/2023/09/17/default-calendar/world-patient-safety-day-2023–engaging-patients-for-patient-safety>. Acesso em 14 de setembro de. 2023.

 

Setembro Verde Claro – Mês de combate ao câncer de ovário

Perguntas e respostas importantes sobre câncer de ovário, doença que está associada à maior taxa de mortalidade por câncer ginecológico

 

Qual a incidência do câncer de ovário no Brasil?

É o oitavo câncer mais frequentemente diagnosticado, responsável por 7.310 novos casos a cada ano, segundo a estimativa do Instituto Nacional do Câncer (Inca) para o triênio 2023-2026. O câncer de ovário está associado à maior taxa mortalidade entre os cânceres ginecológicos. No Brasil, no ano de 2020 ocorreram quase 4.000 mortes por câncer de ovário.

 

Por que é alta a taxa de mortalidade do câncer de ovário?

A elevada mortalidade associada ao câncer de ovário se deve, em grande parte, ao fato de que a maioria dos casos é diagnosticado em estádios mais avançados. Sabemos que, a chance de cura do câncer é maior quando ele é diagnosticado quando a doença ainda está localizada ao órgão de origem. Dados brasileiros revelam que em 67% dos casos, o câncer de ovário é diagnosticado em estádios mais avançados, chamados III e IV.

 

Existem exames para rastrear o câncer de ovário?

Ao contrário do câncer de mama e do câncer de colo uterino, não dispomos de exames de rastreamento para o câncer de ovário. Diversos estudos já foram conduzidos avaliando diferentes métodos de rastreamento, como o exame físico pelo ginecologista, a ultrassonografia e um exame de sangue chamado CA125 (um marcador tumoral, que pode ou não ser produzido em excesso pelo câncer de ovário). No entanto, nenhuma dessas estratégias foi capaz de diagnosticar precocemente o câncer de ovário, de forma eficaz.

 

Quais os sintomas de alerta para as mulheres com relação ao câncer de ovário?

  • Aumento de volume do abdome
  • Dor abdominal/pélvica (região inferior do abdome)
  • Sensação de empachamento, dificuldade para se alimentar
  • Fadiga
  • Sintomas urinários: aumento da frequência das idas ao banheiro, sensação de urgência para urinar

 

Como é feito o diagnóstico do câncer de ovário?

Geralmente, a avaliação se inicia pelo exame físico pelo ginecologista, seguido de ultrassonografia e exames laboratoriais, incluindo o CA125. O achado de lesões ovarianas suspeitas, nódulos sólidos e/ou cistos, outros exames de imagem podem ser solicitados, como tomografia computadorizada e ressonância magnética, e a paciente é encaminhada para o ginecologista oncológico, especializado no tratamento cirúrgico dos cânceres ginecológicos.

 

Quais os tratamentos possíveis para o câncer de ovário?

– Vai depender de cada caso, mas pode ser:

  • Cirurgia
  • Quimioterapia
  • Anticorpo monoclonal
  • Inibidores de PARP.

 

Referências

Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estatísticas de câncer. Disponível em: https://www.inca.gov.br/numeros-de-cancer. Acessado em 4 de maio de 2023.

Paulino E, Melo AC, Silva-Filho AL, et al. Panorama of gynecologic câncer in Brazil. JCO Glocal Oncol. 2020; 6:1617-30.

Burger RA, Brady MF, Bookman MA, et al. Incorporation of bevacizumab in the primary treatment of ovarian cancer. N Engl J Med. 2011 Dec 29;365(26):2473-83.

Aghajanian C, Blank SV, Goff BA, et al. OCEANS: a randomized, double-blind, placebo-controlled phase III trial of chemotherapy with or without bevacizumab in patients with platinum-sensitive recurrent epithelial ovarian, primary peritoneal, or fallopian tube cancer. J Clin Oncol. 2012 Jun 10;30(17):2039-45.

Banerjee S, Moore KN, Colombo N, et al. Maintenance olaparib for patients with newly diagnosed advanced ovarian cancer and a BRCA mutation (SOLO1/GOG 3004): 5-year follow-up of a randomised, double-blind, placebo-controlled, phase 3 trial. Lancet Oncol. 2021 Dec;22(12):1721-1731.

Ray-Coquard I, Pautier P, Pignata S, et al. Olaparib plus Bevacizumab as First-Line Maintenance in Ovarian Cancer. N Engl J Med. 2019 Dec 19;381(25):2416-2428. doi: 10.1056/NEJMoa1911361.

González-Martín A, Pothuri B, Vergote I, et al. Niraparib in Patients with Newly Diagnosed Advanced Ovarian Cancer. N Engl J Med. 2019 Dec 19;381(25):2391-2402.

 

 

 

8 de setembro – Uma reflexão sobre o Dia Nacional da Luta por Medicamentos

4No Brasil e no mundo, a tecnologia médica avança a passos largos, trazendo esperança e novas possibilidades de tratamento. Do emprego de testes moleculares até a adoção da cirurgia robótica, somos testemunhas de uma revolução no diagnóstico e tratamento do câncer. No entanto, as sombras da burocracia, infraestrutura deficiente e desigualdade no acesso à saúde ainda lançam um véu sobre esses avanços.

É indiscutível: nosso orçamento para a saúde, seja pelo SUS ou pela saúde suplementar, é limitado. E em um cenário de escassez de recursos, a eficiência se torna imperativa. E, aqui, os profissionais de saúde encontram um novo desafio: como equilibrar as melhores práticas médicas com os recursos disponíveis?

Em tempos anteriores, o médico se preocupava unicamente com a busca pela excelência técnica, recomendando tratamentos que julgasse serem os melhores. Mas o panorama atual, com medicamentos e procedimentos de alto custo, exige mais do que apenas a busca pelo ideal; requer discernimento. Surge, então, a Medicina Baseada em Valores, um paradigma que busca harmonizar a evidência científica, a expertise do médico, a realidade do sistema de saúde e, claro, as necessidades e valores do paciente.

Neste cenário, agências reguladoras – como a Anvisa, ANS e Conitec – surgem como pilares na Avaliação de Tecnologias em Saúde (ATS). Mas, infelizmente, a integração entre esses órgãos deixa a desejar, resultando em políticas fragmentadas e por vezes contraditórias. A distância entre essas agências e os especialistas médicos também é grande, causando distorções em questões técnicas e econômicas.

O tratamento do câncer ilustra esse problema. Por exemplo, a diferenciação entre medicamentos injetáveis e orais afeta diretamente o acesso do paciente ao tratamento, dadas as distintas normativas de cobertura. Além disso, tratamentos inovadores e de alto custo, como terapias-alvo, anticorpos conjugados a drogas e imunoterapia, enfrentam barreiras no SUS, apesar de evidentes vantagens em segurança e eficácia em comparação a terapias hoje disponíveis.

Estas desigualdades ampliam o abismo entre os sistemas de saúde público e privado, deixando muitos pacientes em situações desesperadoras e sem acesso a tratamentos eficazes.

Porém, não podemos nos limitar a criticar ou desviar das adversidades. A solução exige um enfoque colaborativo. Os profissionais de saúde devem ser capacitados em Medicina Baseada em Valores, e todos os atores envolvidos – governo, indústria farmacêutica, médicos e pacientes – devem contribuir no debate. Afinal, escolhas informadas e unificadas iluminarão o caminho adiante.

 

29 de agosto -Dia Nacional de Combate ao Fumo – O mundo está ficando sem ar! Ajude-o a respirar

Desde 1986, o dia 29 de agosto foi escolhido como o Dia Nacional de Combate ao Fumo para conscientizar as pessoas dos malefícios que o cigarro traz para a saúde. O que nas décadas de 50 a 80 era considerado chique e glamoroso – pois o cigarro sempre estava nos filmes de Hollywood e nas propagandas de esportes – já logo no início da década de 1980 começou a mostrar que as consequências eram terríveis. Vários estudos já demonstravam as tragédias relacionadas ao hábito de fumar e as várias doenças relacionadas, como o enfisema pulmonar, fibrose pulmonar, câncer de pulmão, câncer de cabeça e pescoço e vários outros tipos de câncer. Mas, infelizmente, o cigarro já era usado por um enorme número de pessoas no mundo e com a altíssima dependência que a nicotina causava, o planeta já começava a ficar com dificuldade de respirar, asfixiado. Eram necessárias ações rápidas e eficazes para alertar as pessoas.

 O cigarro é a maior causa de morte, de doença e de empobrecimento no mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima para 2023 mais de 8 milhões de mortes por doenças causadas pelo hábito de fumar. Desses, cerca de 1,2 milhões são tabagistas passivos. Só no Brasil, são cerca de 430 mortes por dia relacionadas ao tabagismo. Mais de 170 mil mortes ao ano.

No mundo, são 1,1 bilhão de tabagistas e 80% deles estão em países de baixa ou média renda, onde os impactos do cigarro são ainda maiores. As pessoas que morrem prematuramente pelo cigarro, diminuem a renda de suas famílias, aumentam os gastos públicos com saúde e atrasam o desenvolvimento econômico, sem falar na parte social e emocional da perda de um familiar. O cigarro mata metade de seus usuários.

 São mais de 4.800 compostos químicos em um único cigarro, dentre os quais mais de 70 são sabidamente cancerígenos. É a maior causa evitável de morte e disparado o maior fator de risco para o desenvolvimento de câncer. Está relacionado a quase todos os tumores, com particular importância para as neoplasias de pulmão, cabeça e pescoço, bexiga e trato gastrointestinal. Especialmente, em relação ao câncer de pulmão, 15% de quem fuma deverá desenvolver esse tipo de câncer em algum momento da vida, além disso, 80 a 90% de quem tem o diagnóstico de neoplasia pulmonar é tabagista. Ainda, cerca de 80% dos tumores de pulmão são descobertos em fases avançadas, com metástases, quando o câncer já se espalhou pelo corpo e a chance de cura é muito baixa. São 2 milhões de casos novos de câncer de pulmão diagnosticados todos os anos no mundo, com 1,7 milhões de mortes.

Cerca de 80% dos tumores de cabeça e pescoço, que é o terceiro tipo de câncer mais comum no Brasil, e por volta de 70% das neoplasias de bexiga também estão relacionados ao tabagismo. O cigarro, portanto, tem um poder destrutivo imenso capaz de comprometer a qualidade de vida e ceifar vidas de pessoas ainda jovens e produtivas.

Além disso, o tabagismo é o segundo fator de risco mais importante para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares (perdendo apenas para hipertensão arterial), lembrando que essas doenças são as que mais matam no Brasil e no mundo. É ainda o principal fator relacionado a doenças respiratórias como asma, bronquite, enfisema pulmonar. Está associado a impotência sexual, infertilidade, menopausa precoce nas mulheres e uma série de outras enfermidades.

Os pacientes que fumam têm em média 14 anos menos de expectativa de vida em relação a quem não fuma. Além disso, está cada vez mais claro que os tabagistas passivos (aqueles que não fumam, mas convivem de perto com quem fuma) também tem mais chances de desenvolver câncer, doenças cardíacas e pulmonares. E as crianças são as mais atingidas pelo tabagismo passivo. Cerca de metade das crianças no mundo estão expostas e respiram o ar contaminado pela fumaça do cigarro. E são elas que mais sofrem com problemas pulmonares, especialmente as mais novas. De todas as mortes causadas pelo cigarro, 12% são de fumantes passivos. O impacto na economia é de mais de US$ 56 bilhões ao ano, com tratamentos de doenças tabaco correlacionadas e com a perda precoce de vidas.

 

Por que é tão viciante?

A nicotina contida no cigarro atinge rapidamente o cérebro e, em menos de 10 segundos, libera vários neurotransmissores relacionados à sensação de bem-estar e prazer, como a dopamina. Por isso, o cigarro é tão viciante e um hábito difícil de abandonar.  Daquelas pessoas que desejam abandonar o vicio menos de 5% tem sucesso sem ajuda de um profissional.

Por outro lado, alguns benefícios de parar de fumar são imediatos: em 20 minutos o ritmo cardíaco e a pressão arterial baixam; em 12 horas, o nível de monóxido de carbono no sangue cai para o normal; de duas a 12 semanas, a circulação sanguínea melhora e a função pulmonar aumenta; entre um a nove meses, a tosse e a falta de ar diminuem; em um ano, o risco de desenvolver uma doença coronariana cai pela metade (em relação a um fumante); entre cinco  e quinze anos, o risco de ter um acidente vascular cerebral é reduzido ao de um não fumante; em 10 anos, o risco de câncer de pulmão cai para cerca de metade em relação a um fumante e o risco de câncer de boca, garganta, esôfago, bexiga, colo do útero e pâncreas também diminui.

Na tentativa de diminuir o tabagismo e com isso as doenças a ele relacionadas, vários países passaram a adotar medidas que estimulassem o abandono do cigarro e outras que evitassem o início do tabagismo. Nesse contexto, o Brasil ganhou lugar de destaque ao ser o segundo país a conseguir implementar de forma eficaz todas as 6 medidas sugeridas pela OMS chamadas de Mpower (plano para reverter a epidemia do tabaco) e conseguir reduzir de forma consistente o número de pessoas que fumam. Os esforços para essa redução começaram em 1990, quando profissionais de estados e municípios foram   treinados pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA) para tratarem pacientes tabagistas no SUS e o tratamento começou a ser oferecido de forma gratuita.

Outras medidas importantes foram o aumento de impostos sobre os cigarros, que chegaram a 83%, em 2018, a proibição de  propagandas em televisão e revistas, a obrigatoriedade de se estampar as embalagens de cigarro com fotos e frases que mostrassem os efeitos devastadores do vício e, por fim, a proibição do fumo em locais fechados de uso coletivo. Todas essas medidas levaram o Brasil a reduzir em mais de 50% o número de pessoas que fumam nos últimos 25 anos (34% da população, em 1989, e 10%, atualmente), o que ainda corresponde a mais de 20 milhões de tabagistas.

Além do cigarro, existem os charutos, cachimbos, cigarros de palha, narguilés e, mais recentemente, os cigarros eletrônicos. Algumas pessoas defendem esses tipos de fumo, alegando serem menos prejudiciais. No entanto, isso não é verdade. Alguns deles, como narguilé, são ainda mais nocivos.

 

Cigarro eletrônico

O cigarro eletrônico tem servido de porta de entrada para os mais jovens no vício. O uso de cigarro eletrônico vem crescendo no Brasil (onde a comercialização é proibida, o que não impede o acesso fácil) e no mundo.  De acordo com relatório divulgado em maio de 2022 pelo sistema Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde, pelo menos um a cada cinco jovens de 18 a 24 anos usa cigarros eletrônicos no Brasil. Do mesmo modo, a última pesquisa Covitel, desenvolvida pela organização global de saúde pública Vital Strategies e pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), mostra que os adultos jovens apresentaram as maiores prevalências de experimentação de cigarro eletrônico (19,7%) e de narguilé (17%), no país, no ano passado. O consumo desses produtos é considerado modismo no Brasil e segue o comportamento observado em outros países, como Estados Unidos e Reino Unido, onde é permitida a comercialização.

Estudo recente, divulgado no fim de junho pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), informa que as vendas mensais de cigarros eletrônicos aumentaram 46,6%, passando de 15,5 milhões de unidades, vendidas em janeiro de 2020, para 22,7 milhões, em dezembro de 2022 naquele país. Esse incremento considera somente as vendas de varejo, excluindo o comércio online. Seus efeitos deletérios ainda não são completamente conhecidos, mas o Centro de Controle de Doenças dos EUA já divulgou várias mortes associadas diretamente ao uso do cigarro eletrônico.

Por isso, o dia 29 de agosto foi escolhido como Dia Nacional de Combate ao Cigarro, para orientar e reforçar junto à população as consequências sociais, políticas e econômicas do habito de fumar e chamar a atenção para os malefícios e danos causados a saúde de quem fuma ou convive com quem fuma. Vamos alertar a todos sobre a importância de abandonar o cigarro e para aqueles que realmente desejam parar, fica a orientação de procurar um profissional da área da saúde, seja no SUS, ou no ambiente privado, para obter auxílio contra esse que é, sem dúvida, o maior vilão da humanidade.

 

 

Inteligência artificial e mamografia: o que podemos saber até o momento?

Estudo publicado esta semana na revista The Lancet Oncology demonstrou que a triagem de mamografia por inteligência artificial (IA) resultou em uma taxa de detecção de câncer semelhante em comparação com a leitura dupla padrão, com uma carga de trabalho de leitura menor. O desfecho primário foi taxa de câncer de intervalo, que é a taxa de câncer de mama diagnosticado no período entre mamografias.

Trata-se de estudo randomizado, controlado, que inclui mulheres com idade entre 40 e 80 anos elegíveis para rastreamento por mamografia (incluindo rastreamento geral com intervalos de 1,5 a 2 anos e rastreamento anual para aquelas com risco hereditário moderado de câncer de mama ou histórico de câncer de mama) em quatro locais de triagem na Suécia.

Até o momento temos os resultados da análise de segurança clínica, realizada após 80.000 mulheres terem sido inscritas. O acompanhamento está em andamento para avaliar o desfecho primário do estudo, a taxa de câncer de intervalo.

O alerta que fica é de uma evidência inicial, porém com grande número de pacientes avaliadas, o que aumenta a relevância de certa forma. Vale aguardarmos novos resultados para observar possíveis benefícios às pacientes e ao sistema de saúde em si.

 

Ozonioterapia no Brasil: faltam evidências científicas

Diante da recente sanção que autoriza a prática da ozonioterapia no Brasil, sinto a necessidade de me posicionar. Faço isso baseado em princípios científicos sólidos, minha experiência médica e como avaliador de tecnologias, além da responsabilidade para com a saúde pública de nosso país. A sanção desta lei, a meu ver, é profundamente preocupante pelos seguintes motivos:

1. Falta de evidência científica robusta:
A essência da medicina moderna é a prática baseada em evidências. Hoje, não dispomos de estudos randomizados, com desenho robusto e revisados por pares, que respaldem a eficácia da ozonioterapia em qualquer condição clínica ou doença. Na pirâmide de confiabilidade das evidências, relatos isolados e testemunhos pessoais situam-se na base, servindo como pontos iniciais de investigação, e não como conclusões.

2. Monetização da esperança:
A decisão de liberar a ozonioterapia alimenta, infelizmente, uma indústria que se beneficia da vulnerabilidade dos pacientes. Que lucra com a esperança e desespero de pessoas doentes. A medicina exige ética, clareza e honestidade. Oferecer certezas quando só existem riscos e benefícios que devem ser balanceados, é, na melhor das hipóteses, antiético.

3. O incentivo à indústria predatória da medicina alternativa:
Esta lei pode inadvertidamente legitimar atividades que carecem de comprovação científica. A possibilidade de aplicação da ozonioterapia por profissionais não médicos fomenta um mercado já saturado de cursos de medicina alternativa sem fundamento na literatura. A promessa de eficácia sem a devida comprovação embasa-se em charlatanismo, e não em ciência.

4. Utilização de recursos públicos em tecnologias questionáveis:
Em um cenário de saúde pública com recursos limitados e desafios infinitos, a avaliação de custo-efetividade é fundamental, e cada investimento deve ser meticulosamente avaliado quanto ao seu custo comparado à sua eficácia. Mesmo tratamentos de “baixo custo” que não demonstram eficácia são, na realidade, caros para a sociedade, pois desviam recursos de intervenções comprovadamente benéficas.

5. Riscos associados:
A ausência de comprovação sobre a segurança da ozonioterapia é, por si só, alarmante. Mais preocupante ainda é a perspectiva a possibilidade de que pacientes vejam na ozonioterapia uma alternativa primária de tratamento, em detrimento de abordagens com eficácia conhecida, especialmente quando posicionada como uma terapia complementar, que pode ser vista como terapia alternativa.

Finalizo reforçando que o coração da medicina é, e sempre deve ser, o bem-estar do paciente, fundamentado em evidências confiáveis. Infelizmente, a ozonioterapia não se enquadra neste critério, e urge que profissionais médicos e a sociedade civil estejam cientes dos riscos inerentes à sua adoção sem o devido respaldo científico.

 

 

Em quem não se deve fazer um exame genético?

Debora Curi

CRM 173.184

Higor Mantovani

CRM 155.725

 

A ciência que permeia o entendimento do câncer está em constante evolução, em especial, no âmbito da oncogenética. Muito se fala sobre predisposição familiar (ou hereditária) aos diversos canceres que podem acometer os pacientes. Idade jovem, ocorrência de múltiplos tumores num mesmo indivíduo e diagnósticos de canceres raros são características que devem despertar a inquietude do profissional que assiste este paciente, e motivar uma avaliação de um oncogeneticista para se discutir testes de sequenciamento genético.

A solicitação de testes genéticos deve ser feita por um profissional capacitado e com habilidade no tema, e que, após uma consulta de aconselhamento genético, tenha um objetivo bem definido a ser elucidado pelo exame. É necessário especificar as metodologias do teste e flertar com os possíveis resultados, a fim de garantir um adequado manejo da informação acessada com o mesmo.

Pouco se fala sobre situações em que não é necessário ou apropriado fazer uma avaliação ou teste genético. A informação sobre eventuais mutações e/ou aspectos genéticos de um individuo é confidencial, de poder único e exclusivo daquela pessoa. Existem situações que podem ferir esses princípios e, de maneira ainda mais agravante, resultar num manejo inadequado das informações genéticas acessadas pelo exame.

Como exemplo de tais situações temos os testes genéticos em crianças ou indivíduos que ainda não atingiram a maioridade. Não é infrequente que pais e mães, motivados pelo medo do diagnóstico de câncer, busquem informações que os acalmem sobre o risco de seus filhos desenvolverem câncer no futuro. Neste caso, a motivação passional para um teste genético não deve gerir a indicação do exame. Sequenciamento genético em crianças são indicados em casos específicos e com grande cuidado no manejo da informação genética acessada, uma vez que se trata de um paciente ainda incapaz de gerir seus direitos de acesso a informação.

Uma outra situação frequente em que o teste genético merece cautela é em indivíduos que nunca tiveram histórico pessoal e/ou familiar de neoplasias. É comum a procura de exames que buscam evitar problemas de saúde no futuro. Entretanto, sabemos que o exame genético não previne o surgimento de canceres; ele nos auxilia na identificação de indivíduos com alto risco de câncer ao longo da vida. Um aspecto importante é a realização de exames genéticos de confiança, cuja técnica e confiabilidade são conhecidas. Existem relatos de condutas tomadas a partir de informações adquiridas a partir de testes de baixa confiabilidade; quando a informação fora revisitada com metodologias e testes validades, percebeu-se um falso diagnóstico genético.

As características genéticas (e todas as consequências delas em nossas vidas) não são passíveis de escolha; somos o que recebemos dos nossos genitores e progenitores. Pessoas que não estão adequadamente motivadas e orientadas sobre como lidar com o resultado de um exame genético devem ser aconselhadas a repensar sobre a realização do mesmo. Neste mesmo sentido, é necessário que se tenha acesso a profissionais que possam orientar e tomar condutas frente ao diagnóstico genético. Não se deve buscar ou acessar a informação sem que se tenha estruturado um cuidado com mesma a posteriori.

Por fim, é importante citar situações em que o indivíduo em que se quer investigar a informação genética pode não desejar fazer o exame sugerido. Nestes casos, a autonomia deve sempre ser respeitada, a despeito da forte suspeita de um quadro de predisposição hereditária ao câncer naquele indivíduo.