Saiba mais sobre o câncer de cérebro
Câncer de cérebro não é uma doença frequente. Corresponde a aproximadamente 2% dos cânceres. No entanto, pode ser potencialmente grave, já que atinge um órgão fundamental no controle das funções essenciais do corpo. O Grupo SOnHe convidou o neurocirurgião Victor Vasconcelos, para dar alguns esclarecimentos sobre o câncer de cérebro. A entrevista segue abaixo.
O que é câncer de cérebro?
Os tumores cerebrais podem surgir das células do próprio sistema nervoso, sendo – nesses casos – considerados tumores primários. Podem advir também de tumores preexistentes em outros órgãos do corpo, quando são secundários ou metástases cerebrais, e podem ser diferenciados entre benignos ou malignos. No primeiro caso, são lesões que têm o crescimento lento, podem causar sintomas com evolução gradual e, frequentemente, podem ser acompanhados por exames de imagem periódicos ou tratados com cirurgia. Já o crescimento dos tumores malignos é mais acelerado, tendem a causar mais sintomas e geralmente demandam de tratamento cirúrgico associado às demais modalidades de tratamentos complementares, como quimioterapia e radioterapia.
Quais são os fatores de risco do câncer no cérebro?
São fatores de risco comprovados: exposição à radiação, quadros de diminuição da imunidade, como em paciente portadores de Aids ou em uso de medicações que diminuem as defesas do corpo e algumas doenças genéticas raras, como neurofibromatose e Síndrome de Li-Fraumeni. Pacientes com câncer em outras partes do corpo têm maior chance de apresentar tumor metastático no cérebro, em especial em casos de câncer de pulmão, de mama, melanoma e de rim. O uso de aparelho celular vem sendo bastante estudado como fator de risco para surgimento de tumores, entretanto sua associação ainda não está comprovada.
Quais são os sintomas ou sinais de alerta?
Os sintomas do câncer cerebral são muito variados, já que diversas áreas cerebrais com funções diferentes podem ser acometidas. Geralmente, os sintomas podem decorrer da compressão ou da invasão que o tumor causa sobre as estruturas cerebrais ou de distúrbios hormonais causados pela lesão, como nos tumores da glândula hipófise. A dor de cabeça é o sintoma mais comum, surgindo entre 33% a 71% dos doentes. No entanto, nem todo quadro de cefaleia é sugestiva de tumor cerebral; se for um sintoma diário e persistente ao longo de dias, com intensidade crescente e mais comum à noite ou ao acordar, é sinal de alerta. E deve ser investigada especialmente quando é acompanhada de demais sinais e sintomas como como vômitos recorrentes, crises epilépticas, sonolência excessiva, confusão mental, deficiência gradual da movimentação ou da sensibilidade de alguma parte do corpo e dificuldades de fala e da visão.
Como é feito o diagnóstico? Há meios de prevenção ou rastreio?
Atualmente não existe comprovação de benefício de exames preventivos de rotina, como recomendados no câncer de mama, próstata ou de intestino. Os tumores geralmente são diagnosticados em pacientes com sintomas neurológicos persistentes, sem causa aparente ao realizarem avaliação neurológica específica ou em pacientes sem sintomas neurológicos que investigam outras queixas. Estudos radiológicos, preferencialmente ressonância de crânio com contraste, são capazes de identificar lesões, mas o diagnóstico definitivo necessita de uma biópsia, já que outras doenças de origem inflamatória ou infecciosa podem causar alterações semelhantes nos estudos de imagem cerebral.
Quais as opções de tratamento?
A conduta no câncer cerebral depende do tipo de tumor a ser tratado. Os tumores benignos que não causam nenhum sintoma são apenas acompanhados com exames radiológicos periódicos. Quando causam sintomas, são submetidos à cirurgia com o objetivo de máxima remoção tumoral, exceto quando as lesões se localizam em áreas cerebrais com grandes chances de sequelas. Nos tumores malignos, normalmente se realiza a cirurgia seguida de uma terapia complementar com quimioterapia e radioterapia para tratamento de todas as células tumorais não removidas, além de diminuir a chance de recaídas em tumores com características sugestivas de crescimento rápido. Outros tumores podem ser tratados apenas com medicamentos, como em alguns casos de tumores da glândula hipófise. Tratamentos alternativos com novas drogas, uso de vírus ou vacinas estão em desenvolvimento, mas ainda disponíveis apenas em protocolos de pesquisas.
Há cura para o câncer de cérebro? Quais os riscos de sequelas?
É possível curar tumores cerebrais dependendo do seu tipo específico. Geralmente são curados os tumores benignos removidos por cirurgia ou alguns tipos de tumores malignos muito sensíveis ao tratamento de quimioterapia ou radioterapia. No entanto, há tipos de tumores que não podem ser curados, mas podem ser controlados por períodos variáveis. O risco de sequelas depende principalmente da localização e do tamanho do tumor, da sua infiltração no tecido cerebral e da malignidade. Diversas tecnologias em neurocirurgia, como monitorização intraoperatória e métodos minimamente invasivos, estão disponíveis para diminuir o risco de sequelas do ato cirúrgico. Nos tratamentos complementares, variadas modalidades de quimioterapias e de radioterapias com fracionamento de doses e delimitação mais precisa de área a ser tratada têm sido desenvolvidas recentemente, reduzindo os efeitos colaterais do tratamento.
Dr. Victor Vasconcelos
Neurocirurgião
Convidado pelo Grupo SOnHe
Melanoma: o que há de novo?
Embora o melanoma não seja o câncer de pele mais comum, ele representa cerca de 4% de todos os tumores de pele. É considerado um dos mais agressivos pela sua capacidade de espalhar-se para qualquer órgão do corpo rapidamente. Como se origina dos melanócitos – que são células da pele produtoras de melanina – geralmente suas lesões são enegrecidas, às vezes, muito parecidas com uma pinta normal.
Pelos dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA), são esperados mais de 6.000 casos novos de melanoma no Brasil em 2018, com cerca de 1.500 mortes relacionadas ao seu diagnóstico. Nos EUA, já é a quinta neoplasia mais comum nos homens. Sua incidência é maior em adultos brancos, sendo um pouco mais comum nos homens em comparação com as mulheres e, diferente de outros tumores, sua incidência geral vem aumentando no mundo. O tratamento curativo deste tipo de tumor é a cirurgia para ressecção completa da lesão, quando o câncer não se disseminou.
Para os casos do melanoma metastático (quando o tumor já se espalhou para outros órgãos e a doença se torna mais agressiva), estamos vivenciando um “boom” de novas terapias com resultados excelentes. Até alguns anos atrás, o único tratamento para a doença avançada era a quimioterapia com muita toxicidade e com resultados pouco animadores, considerando que este tratamento não aumentava o tempo médio de vida dos pacientes.
Em 2009, pela primeira vez na história, um medicamento teve sua eficácia comprovada em estudos com pacientes portadores de melanoma avançado e aumentou o tempo de vida destes pacientes. Foi, também, a primeira vez que uma medicação do grupo das imunoterapias inibidores de Checkpoints mostrou benefício no tratamento do câncer. A droga foi o ipilumimab (Yervoy), aprovada pelo FDA, nos EUA, em 2011, e pela Anvisa, no Brasil, em 2012.
A imunoterapia age no nosso organismo fazendo com que o próprio sistema imunológico fique mais ágil e ativo contra o tumor. É como se o tumor ficasse mais “visível” ao sistema imune que começa a combatê-lo com mais força. Este tipo de medicação se mostrou eficaz no tratamento do melanoma e outras drogas que agem de forma semelhante já foram aprovadas e estão disponíveis no Brasil. É o caso da medicação nivolumabe (Opdivo) e pembrolizumabe (Keytruda). Mais recentemente, no final de 2017, tivemos a aprovação do uso combinado de duas drogas imunoterápicas: nivolumabe + ipilimumabe, que mostraram maior poder de ação quando usadas ao mesmo tempo, embora neste caso, com maiores efeitos colaterais.
Estas medicações vêm mudando a forma como vemos e tratamos o melanoma; são mais eficazes e, geralmente, menos tóxicas. Mas também trazem dois dilemas que agora precisam ser discutidos e enfrentados. O primeiro deles é o fato de que nem todos os pacientes vão responder à imunoterapia. Cerca de 20 a 25% dos pacientes terão excelentes respostas com diminuição e, em alguns casos, até desaparecimento do tumor e com respostas e benefício mantidos por longos períodos, chegando a vários anos. Mas, infelizmente, para cerca de 70% dos pacientes a resposta à imunoterapia será ruim e o desafio é saber – antes do início do tratamento – quem são os pacientes com maiores chances de responder à essas drogas.
O segundo desafio é o alto custo destas novas tecnologias, o que tem impactado diretamente no custo da medicina atual e justifica, até o momento, sua não disponibilidade no SUS (Sistema Único de Saúde). Portanto, quem trata melanoma no serviço público, ainda não tem acesso aos medicamentos.
Outro avanço importante no tratamento do melanoma aconteceu com o melhor entendimento genético da doença. Entendemos que, em algumas situações – como em pacientes jovens (com menos de 50 anos) – até em 50% dos casos de doença metastática, está presente uma mutação em um gene chamado BRAF. Desta forma, foram desenvolvidos medicamentos que funcionam desativando este gene.
Os medicamentos inibidores de BRAF, que são tratamentos orais, também se mostraram altamente eficientes para tratar o melanoma metastático com esta mutação. A diferença para a imunoterapia é que este tratamento só funciona para quem tem a mutação e geralmente as respostas, embora sejam rápidas, muitas fezes duram por menos tempo, em média de 13 a 15 meses. Os medicamentos (vemurafenib, dabrafenib, trametinib e cometinib) também não estão disponíveis no SUS, embora estejam todos aprovados pela Anvisa e alguns deles já sejam de uso obrigatório pelos convênios.
O fato é que avançamos muito no tratamento do melanoma metastático. Mas ainda temos campo e necessidade de avançar mais. As combinações e definições das melhores sequências de tratamento, provavelmente trarão melhores resultados nos próximos anos. O tratamento de outros cenários como a “adjuvância” (tratamento realizado após cirurgia) na doença curativa também deverá mudar com o uso da imunoterapia e terapia-alvo anti-BRAF, impactando diretamente no maior número de pacientes curados.
Câncer de Mama: novidades no tratamento, direto do Dana Farber Institute, em Boston
O câncer de mama continua sendo a neoplasia mais comum entre as mulheres no mundo, tornando-se um importante problema de saúde e atraindo, assim, a atenção de pesquisadores ao redor do globo todo.
O melhor conhecimento desta doença trouxe importantes avanços em seu tratamento e, como consequência, temos convivido com os dados cada vez mais expressivos de pacientes curadas do câncer de mama. E, mesmo as mulheres que ainda não podemos curar, as notícias de melhorias no tratamento têm trazido um impacto surpreendente nos desfechos clínicos e na vida de cada uma de nossas pacientes.
E vamos às novidades:
Consagra-se de forma cada vez mais perene a nova classe de medicação: os inibidores de CDK4 / 6, comprovando de forma robusta sua eficácia no tratamento do câncer de mama metastático do subtipo luminal.
Como esta medicação ainda não estava disponível no Brasil (sua aprovação acaba de ser confirmada), foi importante entender como os médicos de outros países – que já a usam no cotidiano – vem observando os efeitos colaterais e benéficos. O que concluímos é que o padrão de efeitos colaterais vistos na prática clínica é bastante condizente com o descrito nos estudos clínicos, que mostram um padrão de toxicidades manejáveis, com neutropenias afebris e sem grandes complicações clínicas. Também se ressalta que as pacientes estão apresentando boas taxas de resposta da doença, que se iniciam em um intervalo curto de tempo após início das medicações.
Outra classe de fármacos que ganha cada vez mais espaço são os inibidores da PARP, e, dessa vez, foram reapresentados os resultados dos estudos clínicos randomizados realizados no grupo de pacientes com câncer de mama hereditário (mutações no BRCA 1 e 2). Observamos que o benefício clínico com o uso de inibidores da PARP para pacientes com doença metastática é superior em todos os subconjuntos de pacientes, independente do subtipo molecular do tumor, número de linhas anteriores de quimioterapia, tipo de mutação BRCA ou presença de metástase no sistema nervoso central.
Outro interessante e importante tema discutido refere-se especificamente aos tumores do subtipo triplo negativo. Cada vez mais o conhecimento adquirido sobre esta doença nos faz caminhar na conclusão clara de que existem mesmo subtipos diferentes de tumores triplo negativos, incluindo uma vasta diversidade de caminhos moleculares e alterações genéticas e, por isso, há um comportamento clínico tão diverso nesse subgrupo de pacientes. Assim sendo, as novas estratégias terapêuticas para tratamento dos tumores triplo negativo já incluem terapias-alvo específicas para cada subtipo de tumor triplo negativo, como exemplo, o uso de antagonistas do receptor de andrógeno (enzalutamida e outros) e o sacituzumab-govitecan (anticorpo anti-TROP 2 associado ao metabólito ativo do irinotecano).
Por fim, é importante ressaltar que foi amplamente discutida a recente aprovação do uso de uma abordagem conjugada de dois anticorpos monoclonais no tratamento adjuvante das pacientes com câncer de mama do subtipo Her-2 amplificado (que representam aproximadamente 20% de todas as pacientes com câncer de mama), conforme dados do já apresentado estudo Aphinity. Já sabíamos que a associação de Pertuzumabe e Trastuzumabe foram capazes de mudar completamente os paradigmas deste subtipo de doença no cenário metastático. E, hoje, sabemos que as pacientes que têm linfonodos axilares positivos e são consideradas como tendo alto risco de recidiva, também se beneficiam da combinação no cenário da adjuvância.
Além destes dados, outros vários temas importantes sobre o câncer de mama foram abordados, tais como: individualização do tratamento do câncer de mama em idosas e em pacientes extremamente jovens, aspectos psicossociais das pacientes com câncer de mama, abordagem das síndromes genéticas envolvendo tumores mamários, entre outros.
Não há dúvidas de que além de todas as aulas apresentadas e de todo conhecimento adquirido, foi de extrema importância poder compartilhar um pouco sobre os casos dos nossos consultórios com outros experientes colegas que também são especialistas reconhecidos no tratamento do câncer de mama e, desta forma, conquistar melhores desfechos e boas decisões para as nossas pacientes.
Após este evento, retorno ainda mais animada e sigo cada vez mais motivada para continuar meu caminho no tratamento de pacientes com câncer de mama.
Os Avanços no Tratamento do Câncer de Cabeça e Pescoço
O câncer de cabeça e pescoço abrange todos os tumores que têm origem na boca (cavidade oral), nariz (nasofaringe, cavidade nasal e seios paranasais), garganta (orofaringe, hipofaringe, laringe) e nas glândulas salivares. Apesar de pouco discutido é um câncer frequente no Brasil. Os dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA) revelam que os tumores de cavidade oral são o quinto e os de laringe o oitavo cânceres mais frequentes no sexo masculino.
O fato do homem ser mais acometido está diretamente relacionado aos fatores de risco, sendo o tabagismo o principal deles. Esse hábito pode aumentar o risco de desenvolver o câncer em 5 a 25 vezes comparado aos não tabagistas. O segundo fator mais importante é o etilismo, aumentando o risco em até 6 vezes comparado aos não etilistas. Outros fatores conhecidos são as infecções virais pelo HPV relacionada com exposição sexual, dieta pobre em nutrientes, exposição ocupacional a produtos químicos como petróleo, plásticos, amianto e por fim síndromes genéticas.
O tratamento dessa neoplasia é dependente de muitas variáveis: localização e tamanho do tumor, presença de metástases, desejo do paciente e acesso as técnicas disponíveis. Diante de todos esses detalhes se faz necessário o tratamento através de uma equipe multidisciplinar (cirurgião, oncologista, radioterapeuta, dentista, psicóloga, nutricionista, fonoaudióloga e fisioterapeuta).
A cirurgia e a radioterapia são as opções de tratamento do tumor em fase inicial. Já em tumores maiores ou com disseminação para os linfonodos do pescoço, pode ser associada a quimioterapia. Essa forma de tratamento ganhou destaque na mídia brasileira em 2011 quando o ex presidente Lula foi diagnosticado com câncer de laringe. O tumor estava localizado próximo a corda vocal e caso a cirurgia fosse realizada não seria possível preservar a sua voz. Diante dessa complicação, a estratégia utilizada foi a técnica de preservação de laringe, na qual inicia-se quimioterapia por um período de 2 meses, seguido de radioterapia associado a quimioterapia. Conforme presenciamos, o objetivo desejado foi atingido, a cura do tumor com a manutenção da voz.
Em relação ao paciente que apresenta tumor com recidiva ou metástases (disseminação para outras partes do corpo), o tratamento é realizado com quimioterapia isolada ou associada a um anticorpo chamado cetuximabe. Essa combinação permitiu o aumento no tempo de vida dos pacientes comparado à quimioterapia isolada. No entanto, essa estratégia de tratamento não está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS).
A maior novidade no tratamento do câncer de cabeça e pescoço foi a aprovação da imunoterapia pela ANVISA em dezembro de 2017. Estes medicamentos estimulam o sistema imune a combater as células tumorais. Sua ação ocorre por bloquear a inibição das células de defesa (linfócitos), permitindo assim que estas reconheçam e destruam as células tumorais. A imunoterapia aprovada foi o nivolumabe, indicada para pacientes que apresentam progressão do tumor durante ou após o tratamento com quimioterapia inicial a base de platina. O estudo que levou a aprovação dessa medicação demostrou aumento de tempo de vida dos pacientes em 2 meses.
Sendo assim, tornam-se cada vez mais evidentes os avanços no tratamento do câncer de cabeça e pescoço. Eles têm permitido maiores chances de cura, preservando a funcionalidade dos órgãos e melhorando a qualidade de vida dos pacientes. Apesar dessa evolução a melhor estratégia continua sendo a não exposição aos fatores de risco, mantendo um estilo de vida saudável e com acompanhamento médico para um possível diagnóstico precoce.
Tratamento do câncer de ovário: Quais as novidades?
O câncer de ovário é um tema de extrema importância na saúde da mulher. O Instituto Nacional do Câncer estimou 6150 casos novos de câncer de ovário no Brasil em 2018, sendo a oitava causa de morte por câncer na mulher. Felizmente, o tratamento dessa neoplasia vem avançando nos últimos anos e, para acompanharmos essas atualizações, participamos no mês passado de um programa de educação médica continuada sobre esse tipo de câncer na Universidade de Navarra em Madri, Espanha.
Alguns conceitos antigos continuam sólidos, relacionados as maiores chances de cura com o diagnóstico precoce. A decisão de qual tratamento realizar depende do estágio da doença. Nos tumores restritos aos ovários ou mesmo com disseminação para os órgãos pélvicos a cirurgia continua sendo a base do tratamento, seguido de quimioterapia. Vale ressaltar que a cirurgia deve ser realizada por um cirurgião capacitado nesse procedimento. Um estudo americano revelou aumento de 30% nas chances de cura quando o procedimento é realizado por um profissional especialista nessa cirurgia. Já nos pacientes que o tumor compromete de forma extensa os órgãos abdominais ou existe a presença de grande quantidade de liquido, chamado de ascite, o tratamento pode ser iniciado com quimioterapia para reduzir o tumor e após realizar a cirurgia.
Por ser considerada uma doença silenciosa, com sintomas aparecendo em fases avançadas, é frequente a presença de metástases e recidivas após o tratamento inicial. Neste cenário, algumas estratégias de tratamento, além da tradicional quimioterapia, demostraram resultados positivos. Como opções temos a utilização de um anticorpo que inibe a formação dos vasos sanguíneos no tumor, os inibidores da angiogênese, que retardam o seu crescimento. A medicação aprovada é o bevacizumabe, indicada para pacientes com tumores de ovários epiteliais com metástases ou recorrentes, revelando aumento significativo de sobrevida livre de progressão do tumor.
Outra estratégia que foi incorporada mais recentemente são os inibidores de PARP, medicamentos ingeridos via oral, que mostraram resultados expressivos. As enzimas PARP estão relacionadas com via de reparo do DNA danificado e sua inibição pode causar a morte de células tumorais. Sabe-se que o gene BRCA também está relacionado com a via de reparo do DNA, sendo assim o uso dos inibidores de PARP em pacientes com a mutação deste gene revelou resultados ainda mais significativos.
Atualmente nos Estados Unidos existem 3 opções de inibidores de PARP para o tratamento do câncer de ovário: olaparibe, niraparibe e o rucaparibe. No Brasil temos disponível apenas o olaparibe, aprovado pela ANVISA em janeiro de 2017, indicado para tratamento de manutenção do câncer de ovário de alto grau recidivado, com mutação do BRCA, que apresentou resposta ao tratamento com quimioterapia a base de platina. Pacientes com essas características foram avaliados no estudo SOLO-2, que revelou ganho significativo em sobrevida livre de progressão de 19,1 meses versus 5,5 meses para pacientes tratados com olaparibe versus placebo. É importante ressaltar que os efeitos colaterais do tratamento são bem tolerados.
Como perspectivas futuras temos estudos avaliando a associação de tratamentos com imunoterapia com resultados possivelmente promissores. Esses avanços, associados ao tratamento com uma equipe multidisciplinar qualificada, estão propiciando um aumento nas chances de cura e na qualidade de vida dos pacientes.
Ponto de Encontro – Tabagismo – Entrevista com o Dr. David Pinheiro Cunha, médico oncologista do grupo SOnHe
Assista ao vídeo:
https://www.youtube.com/watch?v=mlxJxAKNP4k&feature=youtu.be
Câncer de rim : Incidência, fatores de risco e diagnóstico
O câncer de rim é o terceiro mais freqüente do aparelho geniturinário, ficando atrás em termos de incidência dos cânceres de próstata e bexiga. Representa aproximadamente 3% das neoplasias malignas do adulto. Estatísticas americanas estimam uma incidência anual em torno de 51 mil novos casos, sendo responsável por aproximadamente 13 mil mortes/ano. Infelizmente não temos dados oficiais de incidência e mortalidade no Brasil. Há ligeiro predomínio de incidência no sexo masculino na razão de 3:2.
O tipo histológico mais comum é o câncer renal de células claras, responsável por 85% dos tumores diagnosticados. A maioria dos pacientes são acometidos pela forma esporádica da doença, com pico de incidência entre a 6ª e 7ª década de vida. Contudo, 2% dos pacientes desenvolvem a doença em idades mais precoces, geralmente relacionada às síndromes genéticas como von Hippel-Lindau e Li-Fraumeni.
Os fatores etiológicos relacionados à predisposição da neoplasia renal podem ser divididos em fatores evitáveis, relacionados aos hábitos de vida da população, como o tabagismo e a obesidade e fatores não evitáveis, relacionados a doenças associadas como a hipertensão arterial crônica e doença renal cística adquirida associada à insuficiência renal crônica. O tabagismo isolado é responsável por 19% casos.
Aproximadamente 54% dos tumores renais diagnosticados hoje estão confinados ao rim, 20% são localmente avançados (acometendo gânglios regionais próximos ao rim) e 25% já apresentam metástases à distância da doença, principalmente para os pulmões, fígado e ossos.
A principal forma de apresentação clínica é o sangramento na urina (hematúria) que pode ser visível (macroscópica) ou microscópica, quando avaliada apenas no exame de urina. Aproximadamente 50% dos pacientes têm este sinal. Cerca de 10% dos pacientes abrem o quando com dor no flanco (região lateral das costas abaixo das costelas), sangue na urina e massa abdominal palpável – tríade clássica de Grawitz, porém nos dias atuais, a forma mais freqüente de diagnostico são os achados incidentais em exames de rotina feitos por outra causa como a ultrassonografia do abdome. Caso o ultrassom mostre alguma massa suspeita no rim, o próximo passo seria a realização de uma tomografia computadorizada do abdome. A tomografia, além de auxiliar no diagnóstico da doença, é bastante útil no seu estadiamento (verificação da extensão para outros órgãos) e no planejamento do tratamento mais adequado. A ressonância nuclear magnética é raramente utilizada na avaliação destes tumores, e só é realizada em situações muito específicas.
Ao contrário do que é o padrão para a maioria dos tumores, a biópsia pré-operatória não é realizada de rotina na suspeita de câncer de rim e só deve ser realizada em situações excepcionais quando os exames de imagem (como o ultrassom e a tomografia) não conseguem diferenciar entre uma tumoração de aspecto benigno de uma de aspecto maligno.
Por fim vale ressaltar que, por ser um tumor pouco prevalente, não há nenhuma recomendação médica formal de algum tipo de rastreamento na população geral para o diagnostico precoce do câncer de rim como acontece nos tumores de mama e colo de útero por exemplo. Porém devemos ficar atentos a alguns sinais e sintomas que quando presentes, em especial nas pessoas acima dos 50 anos, devem ser considerados: presença de sangue na urina, dor em flancos ou o achado de alguma tumoração nos rins vista em uma ultrasonografia de abdome de rotina por exemplo. Nestes casos, um médico deverá ser consultado para que se prossiga a investigação. Quanto mais inicial for o diagnóstico do tumor, maior a chance de cura.
Por que os diagnósticos de câncer colorretal são tardios?
O termo câncer colorretal representa os tumores do intestino grosso. É uma doença nas quais as células do revestimento do cólon ou do reto param de funcionar adequadamente e começam a se multiplicar sem controle.
O câncer colorretal é curável se diagnosticado precocemente. No entanto, vemos no Brasil um pouco mais de 30.000 casos novo por ano, e temos aproximadamente 15.000 mortes anuais por esta doença. Ou seja, cerca de metade dos pacientes diagnosticados com o câncer colorretal morrerão por causa dele.
A maioria desses tumores se originam em pólipos, que são pequenas lesões benignas que podem crescer na parede interna do intestino grosso. Alguns tipos de pólipos eventualmente se tornam cancerosos, com o passar de alguns anos. A melhor maneira de se prevenir o aparecimento seria a detecção e a remoção dos pólipos antes deles se tornarem malignos.
Um exame chamado colonoscopia é usado para fazer o diagnóstico do câncer colorretal. Mas ele também pode ser usado para descobrir a presença de pólipos, e fazer a sua retirada. Neste caso, o exame é mesmo preventivo, pois pode tratar lesões benignas, ou pré-malignas, antes delas se transformarem em câncer propriamente dito.
A maioria dos diagnósticos hoje no Brasil ocorre tardiamente, pela falta da disseminação da colonoscopia como método de rastreamento e prevenção. Nesses casos, os pacientes se apresentam já com sintomas, ou relacionados à obstrução do intestino (constipação intestinal ou mesmo diarreia), ou a sangramento (presença de sangue nas fezes, ou apenas anemia sem causa aparente). Nesses casos a doença já pode estar disseminada para outros órgãos, o que dificulta o tratamento e diminui as chances de cura.
A colonoscopia é pouco utilizada na prática médica porque apesar de salvar vidas é um exame relativamente caro, além de desconfortável e invasivo.
Uma das maneiras para diminuir o impacto negativo do exame seria indica-lo apenas em pacientes com maior risco de problemas intestinais. Neste caso, uma pesquisa de sangue oculto nas fezes poderia ser feita para checar se existe sangue não visível, relacionado à presença de pólipos ou câncer.
Nem sempre pólipos apresentam sangramento, mas especialmente no contexto de saúde pública, a pesquisa de sangue oculto poderia selecionar as pessoas mais predispostas à doença.
Independentemente do exame a ser feito, pela alta incidência da doença, é fundamental a realização de algum tipo de rastreamento, especialmente em pessoas com mais de 50 anos. Ou em pessoas mais jovens, mas com história de familiares com câncer colorretal.
É possível fazer diagnóstico precoce e salvar muitas vidas. Consulte seu médico regularmente, solicite exames preventivos e ajude a mudar as estatísticas você também!
Convidamos você para discutir os principais temas do ASCO 2017
Convidamos os profissionais da área médica para o evento que discutirá os principais trabalhos apresentados no Congresso Americano de Oncologia.
Faremos uma breve apresentação geral, com avaliação sobre aplicabilidade dos resultados no Brasil, além de comentar os principais estudos.
Depois seremos divididos em 4 mesas para discussão simultânea dos principais temas do ASCO por especialidades (uro-onco, melanoma/pulmão, mama e gastrointestinal).
Interessados deverão encaminhar nome completo, especialidade e número do conselho no email:
sonhe @sonhe.med.br