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O risco de câncer de mama com uso da terapia de reposição hormonal é maior que se esperava

Novo estudo publicado na prestigiosa revista Lancet confirma que a terapia de reposição hormonal aumenta o risco de câncer de mama. O estudo, coordenado por pesquisadores da Universidade de Oxford, na Inglaterra, demostrou que o risco de câncer de mama é maior que inicialmente se pensava e persiste por anos após o término da terapia de reposição hormonal.

Este estudo é uma atualização. O último artigo deste mesmo grupo de estudo foi publicado em 1997. Naquela época tinham sido analisados os resultados conjuntos de 51 estudos e, agora, nesta atualização, foram incluídos um total de 58 estudos.

Foram considerados para comparações mulheres na pós-menopausa e avaliados os casos de mulheres que tiveram câncer da mama, que não tiveram câncer de mama e se tinham feito terapia de reposição hormonal. Observou-se que 10.8647 mulheres na pós-menopausa desenvolveram câncer de mama, na média aos 65 anos de idade. Em torno de metade destas mulheres (51%) tinha usado terapia de reposição hormonal.

O risco varia de acordo com o tipo de hormônio e o tempo de uso

Os pesquisadores do estudo observaram que o risco de desenvolver câncer de mama durante e anos pós o uso varia, dependendo do tipo de hormônio(s) utilizado e a duração do uso, sendo maior para mulheres que usaram estrogênio e progesterona diários por cinco anos. Estima-se um aumento absoluto do risco de em torno de 6 a 8% para mulheres que utilizaram estrogênio e progesterona diários por cinco anos, iniciando aos 50 anos. O uso acima de cinco anos e acima de dez anos significam maior risco. O risco se mantém mesmo após dez anos de interrupção da terapia de reposição hormonal. O uso de de estrógenos vaginais não se associou com aumento de risco para câncer de mama.

Desde modo esse estudo é definitivo ao apontar que a terapia de reposição hormonal se associa com maior risco de câncer de mama. E que mulheres com câncer de mama que utilizaram a terapia de reposição hormonal têm maior risco de falecer do câncer da mama.

 

Riscos da reposição hormonal vs benefícios

Entende-se hoje que mulheres que sofrem de sintomas muito debilitantes da menopausa, como ondas de calor frequentes, insônia e alterações bruscas de humor, devem ser informadas e avaliar os riscos de câncer de mama contra os possíveis benefícios da terapia de reposição hormonal.

Cigarro eletrônico: menos problemas ou mais dúvidas?

A moda recente dos cigarros eletrônicos (e-cigarrettes) tem gerado discussões entre cientistas. Apesar da contribuição para a redução do número de fumantes de cigarros normais no mundo, há ainda muitas dúvidas quanto aos riscos e benefícios do aumento de usuários dos eletrônicos (aproximadamente 5% da população dos EUA faz uso).

Os e-cigarrettes são basicamente aparelhos vaporizadores de nicotina que utilizam substâncias associadas (água, solventes e aromatizantes) para produzir tal efeito. Ou seja, os efeitos extremamente danosos da nicotina – incluindo as doenças cardiovasculares e a dependência – continuam como riscos enormes à saúde. Ao mesmo tempo, uma questão-chave é que não há dados sobre as consequências à longo prazo, visto que a inalação de vapor quente associado às substâncias citadas são potencialmente causadores de doenças pulmonares e do trato respiratório, incluindo câncer de pulmão e de cabeça e pescoço.

Os defensores dos e-cigarrettes fiam-se no fato do número absoluto de substâncias carcinogênicas ser menor do que o cigarro normal. Além disso, os e-cigarrettes podem ajudar alguns tabagistas a pararem de fumar, porém a evidência ainda não é contundente. Entretanto, isso não justifica o uso indiscriminado, muito menos o seu estímulo, já que a ciência não demonstrou segurança à longo prazo.

A recomendação ideal continuará sendo sempre evitar uso de cigarros (eletrônicos ou não), visto que o impacto conhecido de ambos na saúde individual e populacional é gigantesco em função não só do câncer, mas também das doenças cardiovasculares, que ainda são a maior causa de morte em várias partes do mundo.

 

Referências:

Glasser AM, et al. Overview of Electronic Nicotine Delivery Systems: A Systematic Review. Am J Prev Med 2017;52(2):e33-e66

Martinez U, et al. How Does Smoking and Nicotine Dependence Change after Onset of Vaping? A Retrospective Analysis of Dual Users. Nicotine Tob Res 2019;pii:ntz043

Alerta Oncologia: fake news sobre menstruação e câncer

É “fake”, ou seja, são mentirosas as afirmações que vêm circulando em posts nas redes sociais. Segundo a publicação, bater no abdome com objetos duros, comer pepino, usar xampu na cabeça e beber água gelada, de coco ou com gás, enquanto a mulher está menstruada, causaria esterilidade, câncer de útero e “químicos”.

As informações são completamente falsas e sem qualquer embasamento científico. A esterilidade tem causas variadas, dentre as quais não se encontram nenhuma dessas situações listadas. Quanto ao câncer de útero, a sua ocorrência tem associação mais clara com fatores como obesidade (endométrio) e vírus HPV (colo do útero).

Devemos ficar atentos às notícias falsas, sensacionalistas e irresponsáveis e sempre duvidar de publicações cujas fontes não sejam citadas ou confiáveis. O ideal é procurar orientação médica com seu clínico ou ginecologista para obter informações cientificamente corretas.

Referências:

Onstad MA, et al. Addressing the Role of Obesity in Endometrial Cancer Risk, Prevention, and Treatment. J Clin Oncol 2016;34(35):4225-30.

Jose-Miller AB, et al. (2007). Infertility. Am Fam Physician 2007;75:849–56.

Ferlay J, et al (2018). Global Cancer Observatory: Cancer Today. Lyon, France: International Agency for Research on Cancer. Available from: https://gco.iarc.fr/today

Acesso ao diagnóstico e tratamento do câncer colorretal: igual para todos?

Março é o mês de conscientização e prevenção do câncer colorretal, uma doença que merece uma atenção especial! O Instituto Nacional do Câncer (INCA) estima 17.380 casos em homens e 18.980 em mulheres para cada ano do biênio 2018-2019, representando a terceira neoplasia mais frequentes nos homens e a segunda nas mulheres brasileiras. Em nível mundial, também apresenta papel de destaque, ocupando a terceira posição entre as neoplasias mais diagnosticadas e a quarta principal causa de morte por câncer em 2012. Vale ressaltar que, mesmo com os grandes avanços na medicina, é esperado um aumento de casos nos próximos anos, sendo estimado 2,2 milhões de novos casos e 1,1 milhões de mortes até 2030.

O aperfeiçoamento dos métodos de rastreamento, diagnóstico e tratamento dessa neoplasia foram fundamentais para o aumento significativo das chances de cura e do tempo de sobrevida. Porém, nem todos os pacientes são tratados iguais. Existe uma variação nas taxas de incidência e de mortalidade da doença no mundo, que está relacionada com o índice de desenvolvimento socioeconômico. Nos países com baixo e médio desenvolvimento, vivenciamos um aumento no número de novos casos, acompanhado de um maior número de mortes, como é o exemplo do Brasil. Inversamente, existe uma tendência a estabilidade ou queda de novos casos e mortalidade em países desenvolvidos, como nos Estados Unidos. Mas qual a justificativa para essa disparidade? A resposta é complexa e envolve diversos fatores.

Uma das explicações é a falta de acesso aos métodos de rastreamento. Esses exames são realizados em pacientes assintomáticos com intuito de diagnosticar lesões pré-malignas ou tumores iniciais, aumentando assim as chances de cura. No Brasil, o rastreamento está indicado na população geral entre 50 a 74 anos, porém uma grande parcela da população, principalmente os pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), não realizam os exames indicados por falta de políticas de saúde pública adequadas.

A demora para o fazer o diagnóstico em pacientes com sintomas também reduz as chances de cura. Seja por dificuldade para agendar consulta no sistema de saúde ou desinformação, o atraso para investigar sintomas como sangue nas fezes, alteração do hábito intestinal (diarreia ou constipação) e dor abdominal pode aumentar o risco de disseminação do tumor para outros órgãos, o que chamamos de metástases, e reduzir drasticamente as chances de cura. A atenção para esses sinais de alarme é importante para que a população procure avaliação médica no tempo adequado.

Outro fator de extrema importância está relacionado às opções de tratamento para o câncer colorretal. Estudos realizados nos últimos anos reforçam que a falta de acesso ao tratamento oncológico contribui para maior mortalidade. Um desses estudos, publicado em 2010, Altekruse et al, mostrou que a mortalidade por câncer colorretal é 10% maior em homens negros comparado com homens brancos e 7% maior em mulheres negras comparados com as brancas. No entanto, outro estudo (Bach et al., 1999; Dignam et al., 1999, 2003), mostrou taxas de sobrevida semelhantes em afrodescendentes e brancos que vivem nos Estados Unidos recebendo o mesmo tipo de tratamento. Esses dados sugerem então, que o acesso ao tratamento, é o fator de impacto no aumento da sobrevida.

Quando avaliamos a situação do Brasil, notamos uma disparidade no acesso ao tratamento entre o sistema de saúde privado e o SUS. Um exemplo, são as classes de medicamentos chamados anticorpos monoclonais, anti EGFR e os anti VEGF, que quando associados à quimioterapia na doença metastática, são capazes de aumentar o tempo de sobrevida. Atualmente, no Brasil, esses medicamentos são de fácil acesso no meio privado. Já no SUS, os pacientes não têm tal disponibilidade.

Fica claro que o acesso ao diagnóstico e tratamento do câncer colorretal não é igual para todos, difere entre países, regiões do mesmo país e entre classes sociais. Melhorias nas opções de tratamento e acessibilidade são essências principalmente em países subdesenvolvidos e em desenvolvimento. Faz-se necessário a priorização na prevenção primária, no diagnóstico precoce e nas estratégias de diminuição na disparidade de tratamento entre os sistemas de saúde público e privado para que todos tenham as mesmas chances de cura.

Simpósio Mundial de Câncer de Mama

Sobre a natureza do seu sofrimento

Quantas vezes não procuramos nosso médico buscando alívio para um sofrimento que não sabemos bem a que se refere, do que se trata, ou mesmo se é uma dor ou apenas um mal-estar? Muitas vezes até notamos que quando estamos inseguros, certos sintomas pioram ou, só de escutar a voz do médico, alentecem. Outras vezes, aquelas dores que desapareciam com analgésico comum, depois de recebida aquela má notícia, não melhoram mais.

O sofrimento humano pode ter inúmeras origens, assim como diversas concepções, a depender da cultura e da época na qual o mesmo está inserido. Está associado à presença de um estado de aflição severa, relacionado aos acontecimentos que possam ameaçar a integridade de uma pessoa. Usualmente, está ligado às emoções como tristeza, frustração, impotência e, para além de sintomas físicos e psicológicos, o indivíduo que sofre ainda tem preocupações direcionadas à comunidade na qual está inserido, à família e ao trabalho: “como ficarão com minha ausência (definitiva ou temporária)?”.

Considerando sua origem, sofrimento humano primeiramente é uma experiência individual, subjetiva, pessoal e exige consciência de si e de sua função no mundo. Só quem sofre sabe o que realmente está passando. Logo, tem efeitos nas relações interpessoais e impactos no corpo. Pode advir de qualquer dimensão do ser humano, (social/ familiar, física, psicológica, espiritual, ético-moral), ainda que quem sofra seja a pessoa no seu todo.

O sofrimento tem ligação direta com o tempo, uma vez que influencia a percepção de eventos presentes e futuros. O que está por vir também pode trazer medo e inseguranças, que inclusive podem acentuar sintomas físicos e psicológicos. Além disso, memórias do passado também podem interferir na maneira como entendemos e sentimos a doença atual. Vivências anteriores como hospitalizações, assistências médicas, sucessos e insucessos, contribuem para formar o sentido atual do que nos acontece e como enfrentamos e lidamos com uma situação nova. Da mesma forma, experiências prévias de enfermidades na família também corroboram para dar significado ao evento presente.

Além disso, o sofrimento traz questionamentos sobre o real sentido da vida, sobre o que é de valor ou sagrado para cada indivíduo, assim como inquietações filosóficas em momentos de vislumbre de finitude de vida, desintegração interna, despersonalização e descaracterização diante de uma enfermidade ameaçadora.

Por muito tempo, a medicina tradicional que conhecemos hoje contribuiu para que se dicotomizasse a relação mente-corpo, ignorando estas diversas dimensões que compreendem o ser humano em sua complexidade. Atualmente, cada vez mais profissionais de saúde têm buscado entender todos esses aspectos e a melhor maneira de abordá-los.

Este tem sido o objetivo primordial de uma especialidade multidisciplinar conhecida como Cuidado Paliativo, que integra todas estas facetas, buscando alívio e prevenção de sofrimento, assim como traça objetivos e planos de cuidado que realmente impactem na melhora da qualidade de vida tanto do paciente, como da família. É o respeito à autonomia e ao que é de valor para cada indivíduo, o reconhecimento do paciente na sua mais pura humanidade, com todas as suas nuances, e o olhar pela compaixão que permitem que a vivência de uma doença grave, oncológica, ressignifique uma existência e, com isso, a torne também mais leve.

O que tem feito você sofrer hoje?

Sexo e câncer de cabeça e pescoço: qual é a relação?

O dia 27 de julho é o Dia Mundial de Prevenção ao Câncer de Cabeça e Pescoço. Durante todo este mês são realizadas campanhas de conscientização sobre o tipo de câncer e vamos aproveitar para esclarecer um tema pouco discutido e intrigante: existe relação entre sexo e câncer de cabeça e pescoço? A resposta é SIM.

Este câncer compreende todos os tumores que têm origem na boca (cavidade oral), nariz (nasofaringe, cavidade nasal e seios paranasais), garganta (orofaringe, hipofaringe, laringe) e nas glândulas salivares. Estatísticas do Instituto Nacional do Câncer (INCA) estimam para 2018, 14.700 mil novos casos de câncer de cavidade oral e 7.670 mil novos casos de câncer de laringe, alcançando, quando somados, o posto de terceiro tumor mais frequente nos homens brasileiros.

Os dois principais fatores de risco são o tabagismo e o etilismo. Entretanto, a infecção pelo vírus HPV está ganhando cada vez mais destaque. É o HPV o responsável pela relação entre sexo e câncer de cabeça e pescoço. A transmissão ocorre durante o sexo oral não protegido. A infecção crônica pelo HPV tem maior relação com o desenvolvimento do câncer de orofaringe (garganta) e mais raramente em outros sítios da cabeça e pescoço.

Estudos epidemiológicos norte-americanos revelam uma diminuição de casos novos de câncer de laringe, hipofaringe e cavidade oral nas últimas décadas e isso se deve às campanhas antitabagismo. Na contramão desta tendência, os casos novos de câncer de orofaringe estão aumentando, com evidências relacionando a elevação à infecção por HPV. Dados sugerem que aproximadamente 70 a 80% dos pacientes com câncer de orofaringe na população norte americana e europeia são portadoras do HPV.

Este vírus é o mesmo relacionado ao câncer de colo de útero, vagina, vulva, ânus e pênis. Existem cerca de 150 subtipos de HPV, sendo o mais relacionado ao câncer de cabeça e pescoço o subtipo 16. Diferentemente dos outros fatores de risco, ele é responsável por câncer em pacientes mais jovens e sem hábito de tabagismo e etilismo. O vírus, assim como a incidência do câncer de orofaringe, é mais frequente em homens.
Os tumores relacionados à infecção pelo vírus apresentam uma melhor resposta ao tratamento, porém as estratégias são as mesmas para o câncer não relacionado ao vírus. As principais opções são cirurgia, radioterapia e quimioterapia, que são indicadas conforme o tamanho e disseminação do tumor.

Diante da agressividade do tratamento, que frequentemente causa sequelas permanentes, é importante a realização de medidas de prevenção. Temos duas estratégias efetivas para esse tipo de câncer relacionado ao vírus do HPV. A primeira delas é o sexo seguro, reforçando a necessidade de uso de preservativos em todos os tipos de prática sexual.

A segunda é a vacinação contra o HPV, que além de proteger contra o câncer de orofaringe, tem ação contra os cânceres de colo de útero, vagina, canal anal e pênis. A vacinação está disponível no setor privado e no SUS. As indicações para a vacinação de acordo com o Ministério da Saúde são: meninas e meninos dos 9 aos 14 anos, pacientes com câncer em quimioterapia ou radioterapia, transplantados e portadores de HIV entre 9 a 26 anos.

Vamos aproveitar o mês Julho Verde e participar desta campanha de conscientização dos tumores de cabeça e pescoço. Além de evitar os fatores de riscos mais conhecidos como cigarro e bebida alcoólica, é importante entender a relação entre sexo e este câncer, reforçando a importância do sexo seguro e a vacinação contra o HPV para o combate efetivo à esta neoplasia.

15 de julho – Dia do Homem. Como está a Saúde Masculina?

Dr. André Deeke Sasse

Por que há diferença na incidência de câncer nos homens no Estado de São Paulo em comparação ao Brasil? De acordo com os dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA), a incidência dos três tipos câncer mais frequentes nos homens para o ano de 2018 no Brasil, difere da realidade do Estado de São Paulo. Excluindo-se câncer de pele, o INCA estima para o Brasil os tumores de próstata, pulmão e colorretal como os mais incidentes, totalizando 104.340 novos casos, somente destes três tipos de câncer. O câncer de pulmão é o único que no Brasil e em São Paulo apresenta o mesmo percentual de incidência, conforme tabela abaixo:

Brasil São Paulo
Próstata  68.220 65% Próstata  14.890 59%
Colorretal  17.380 17% Colorretal  6.010 24%
Pulmão  18.740 18% Pulmão  4.550 18%
Total  104.340 100% Total  25.450 100%

A incidência de câncer colorretal é a segunda mais alta em homens no Estado de São Paulo, com 24% dos três tipos de câncer citados. Assim, proporcionalmente, a incidência de câncer de próstata em São Paulo, apesar de muito frequente, é menor do que no Brasil. O câncer colorretal está diretamente relacionado aos hábitos de vida que priorizam o consumo de alimentos industrializados, com elevada ingestão de carne vermelha e embutidos, além da associação com fatores de risco como sedentarismo e obesidade. O estilo de vida da população de São Paulo, que é tipicamente urbano, favorece as taxas maiores de incidência de câncer colorretal.

Por incrível que pareça, o alto PIB de São Paulo, o estilo de vida da população extremamente corrida, o trabalho estressante, a falta de tempo para atividade física e o incremento do uso de alimentos industrializados por muito tempo refletem diretamente nessa maior incidência de câncer colorretal em São Paulo quando comparado à incidência brasileira. Ou seja, 35% do total de novos casos de câncer colorretal do Brasil ocorrem em São Paulo.

O câncer colorretal é um dos tipos de tumores que mais se pode prevenir e também mais se pode fazer diagnóstico precoce. O conhecimento sobre fatores de risco e sobre como diminuir as chances da doença é importante para mudança dos comportamentos de risco e para tentar mudar essa triste estatística. Também é essencial a realização de um exame de rastreamento do câncer colorretal, pelo menos a partir dos 50 anos. Há diferentes formas de se fazer os exames, que vão desde a pesquisa de sangue oculto nas fezes até a colonoscopia. O melhor exame deve ser definido pelo médico.

Campanhas para conscientização sobre melhores hábitos alimentares, atividades físicas regulares, além da importância de uma rotina diária menos estressante são fundamentais.

No Dia do Homem, cuide de sua saúde, procure seu médico, pois esse é o melhor presente que você pode dar para sua família!

Cuidados paliativos diminuem a internação de pacientes oncológicos

Atualmente, em Oncologia, a busca por qualidade de vida durante toda a trajetória da doença e do tratamento tem sido um dos mais importantes objetivos de cuidado. Este tema tem sido amplamente discutido em fóruns científicos mundiais e nacionais, o que têm fomentado não só novas abordagens de cuidado, como também diversas políticas públicas, com a intenção de estimular uma atenção integral aos pacientes oncológicos.

Nesse sentido, o chamado cuidado paliativo – ou de suporte – vem ganhando espaço e demonstrando sua tamanha importância na assistência plena a esses pacientes. Trata-se, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), de uma abordagem capaz de melhorar a qualidade de vida de pacientes e famílias que enfrentam enfermidade ameaçadora da continuidade da vida. Além disso, tem função também na prevenção e no alívio de sofrimentos, por meio da identificação precoce, do manejo e do controle de dor, assim como de outras questões de cunho psicológico, psicossocial e espiritual.

Há quase dez anos, evidência científica robusta já demonstrou, com estudo científico randomizado realizado em pacientes com câncer de pulmão, que a introdução precoce dos cuidados paliativos levou a melhora não só do humor, como também da qualidade de vida e proporcionou sobrevida.

Diante dos benefícios tão expressivos que têm sido demonstrados em relação a esse tipo de cuidado ao longo do tempo, em 2017, na Reunião Anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO), foi atualizada a Opinião Clínica Provisória (PCO) de 2012 a respeito do melhor momento para integrar os cuidados paliativos no atendimento ao paciente. Assim, ficou recomendado que a equipe paliativista deveria ser consultada no máximo em até oito semanas após o diagnóstico de um câncer avançado, simultaneamente ao início do tratamento oncológico específico.

Para além disso, ainda em 2017, ganhou espaço em sessão de plenária da ASCO, onde são apresentados os trabalhos científicos mais relevantes em Oncologia, um estudo científico que teve como objetivo avaliar o impacto da avaliação proativa dos sintomas dos pacientes. Este tipo de abordagem melhorou qualidade de vida, diminuiu procura aos serviços de emergência de hospitais e aumentou tempo de sobrevida em cerca de cinco meses.

No mês passado, neste mesmo Congresso, o tema do cuidado paliativo foi novamente valorizado e os estudos de maior evidência trouxeram novos questionamentos a respeito do melhor momento para iniciar a abordagem, a melhor maneira de fazê-lo em diferentes contextos e cenários (intra ou extra-hospitalar, em diferentes regiões do mundo) e a alocação recursos para tal.

Um dos estudos ressaltados avaliou retrospectivamente o impacto da introdução ainda mais precoce do cuidado paliativo, com quatro semanas do diagnóstico, utilizando-se da base de dados americana SEER, em pacientes com câncer de pâncreas avançado. Como resultado, foi evidenciado uma diminuição expressiva da procura por serviços de emergência. Apesar da importância deste cuidado também na Medicina Intensiva estar bem consolidada, infelizmente neste estudo especificamente não foi possível demonstrar diminuição significativa do número de internações em UTI.

Outra análise retrospectiva importante avaliou o impacto da integração do cuidado paliativo em 810 pacientes com câncer avançado, no contexto intra-hospitalar, validando a importância do acompanhamento precoce também neste cenário e, principalmente, desde à admissão na internação. O trabalho ainda evidenciou que pacientes recebendo esse tipo de abordagem tinham 1,2 vezes mais chance de alta para casa.

Apesar dos resultados animadores em relação às pesquisas no contexto do cuidado paliativo, não podemos deixar de considerar os desafios da avaliação do real impacto dos estudos retrospectivos. No entanto, eles nos ajudam a saber como este tipo de abordagem tem sido feita ao redor do mundo. Faz-se necessário ainda definir o modelo mais efetivo de integração do cuidado, o melhor momento para isto, para quem e por qual motivo.

Diante do exposto, fica claro que cada vez mais o cuidado paliativo, associado às práticas que visem melhorar a qualidade de vida, tem se consolidado como abordagem essencial de cuidado a ser instituída cada vez mais precocemente na trajetória de um paciente oncológico e em diferentes contextos. Não podemos deixar de ter em mente que o médico oncologista e paliativista sempre devem ser consultados para avaliar e auxiliar na integração de práticas não convencionais de cuidado.

O paciente oncológico necessita – além do alívio e da prevenção dos seus sintomas físicos – de abordagem de outros tipos de sofrimentos, que têm suas origens também no espírito e na mente, considerando seu contexto familiar, sua biografia, suas novas prioridades de vida traçadas a partir do diagnóstico e o legado simbólico e/ou concreto que deseja deixar. O cuidado paliativo abre uma porta para um acolhimento diferenciado, por meio da criação de vínculos fortes e de redes de apoio amplas, que têm o poder de mudar não só a evolução da doença, como também a forma como o indivíduo se enxerga e se coloca no mundo.

 

LOF 2018: Latin America Oncology Forum 2018

Entre os dias 25 e 27 de abril de 2018, a Cidade do Panamá sediou o Fórum Latino-Americano de Oncologia (LOF 2018), evento que reuniu oncologistas da América do Sul, da América Central e do Caribe. Foram três dias de discussões, focadas especialmente nos cânceres de mama, de rim e de pulmão. Evento de alto nível científico, contou com a presença de especialistas e pesquisadores de países como EUA, Espanha, Áustria, Brasil, Argentina, México e Colômbia, que proferiram palestras e discussões de casos clínicos, sempre com a interação da plateia.

Câncer de mama

No primeiro dia, o tema foi o câncer de mama, com discussões focadas na doença hormônio-sensível, que corresponde à maioria dos casos. Foram apresentados dados de estudos clínicos sobre uma nova classe de drogas, os inibidores orais de tirosino-quinases dependentes de ciclinas 4 e 6 (CDK4/6), que quando associadas ao tratamento hormonal em pacientes com câncer de mama com positividade para receptores hormonais e com doença metastática (avançada/disseminada)  foi capaz de aumentar o tempo para progressão da doença quando comparado à pacientes que só fizeram uso do tratamento hormonal padrão. Ou seja: pacientes que usaram a combinação de hormonioterapia com a nova droga demoraram aproximadamente dez meses a mais para que a doença progredisse. Essa nova classe de medicação oncológica está indicada tanto para pacientes que estão fazendo o primeiro tratamento para doença metastática quanto para pacientes que falharam a uma linha inicial de tratamento hormonal.  A opinião de todos os especialistas presentes na mesa de discussão é que nos dias atuais, pacientes com câncer de mama com positividade para receptores hormonais e com metástases, o uso de quimioterapia convencional deverá ser adiado ao máximo e deve-se restringir às pacientes com grande volume de doença em órgãos-alvo – como fígado e pulmão, e que necessitam de uma resposta rápida (a chamada crise visceral) – ou para pacientes que eventualmente tenham apresentado progressão da doença em todas as linhas de tratamento hormonal.  O palpociclibe, um representante desta nova classe de medicações inibidoras do CDK4/6, deverá estar disponível no Brasil nos próximos meses e será mais uma arma no tratamento das pacientes com câncer de mama receptor hormonal positivo.  Um ponto bastante interessante para os médicos brasileiros presentes no evento foi ouvir a experiência de colegas de outros países que já usam os inibidores CDK4/6 em sua prática clínica. Saber como são manejados os eventos adversos e também quais os benefícios clínicos foi extremamente importante, uma vez que devemos começar a utilizar esta classe de mediações em breve no país.

Câncer de rim

O câncer de rim foi tema das discussões no segundo dia de evento. Apesar de pouco frequente, as opções de tratamento oncológico para esta neoplasia têm crescido nos últimos anos. Foram apresentadas novidades no tratamento cirúrgico que cada vez mais tende a ser menos agressivo para pacientes com tumores iniciais. Quanto ao tratamento farmacológico, foram apresentados dados atualizados dos estudos com os inibidores de tirosino-quinase, classe de drogas que revolucionou o tratamento dos pacientes com câncer renal metastático.  Em 2007, a primeira geração desta terapia-alvo – composta por drogas como o sunitinibe e o sorafenibe – foi disponibilizada no Brasil. Desde então, outras medicações da mesma classe como o pazopanibe e também de outras classes como os inibidores de mTOR se incorporaram ao arsenal terapêutico disponível contra o câncer renal metastático. Foram apresentados também dados dos estudos com imunoterapia para pacientes que progrediram a doença após uso dos inibidores de tirosino-quinases. Neste cenário, pacientes que receberam imunoterapia tiveram uma sobrevida maior em relação aos pacientes que receberam terapia-alvo com inibidor de mTOR, considerada o padrão até o momento.  Após as apresentações, os palestrantes se reuniram em uma mesa de discussão com apresentação de casos clínicos de pacientes tratados em serviços de diferentes países. Os oncologistas da plateia puderam participar com perguntas. Foi um momento de grande aprendizado e de troca de experiências.

Câncer de pulmão

O terceiro e último dia foi dedicado às discussões sobre câncer de pulmão, cujo tratamento tem evoluído muito nos últimos anos. Saímos de uma era na qual os pacientes com câncer de pulmão eram divididos em apenas dois grupos baseados no tipo de célula tumoral e que a base da terapia era a quimioterapia convencional, com muitos efeitos colaterais e respostas modestas, para uma era onde cada vez mais temos individualizado o tratamento destes pacientes baseados em características moleculares e genéticas do tumor. O foco das discussões do dia foi o uso das terapias-alvo no câncer de pulmão e a escolha do perfil de pacientes que se beneficiam com o uso dessas drogas. Pacientes mesmo com doença metastática avançada e que têm o perfil para uso de alguma terapia-alvo, vivem mais quando recebem este tratamento do que quando recebem a quimioterapia convencional. O desafio, portanto, é fazer o diagnóstico correto. Os palestrantes do dia apresentaram dados de estudos mostrando a eficácia e o perfil de eventos adversos das diversas terapias-alvo já disponíveis, além de explanarem sobre novas drogas ainda em desenvolvimento e o que podemos esperar no futuro próximo do tratamento do câncer de pulmão. Como nos dias anteriores, no final, os especialistas de reuniram numa mesa de discussão com apresentação de casos clínicos de pacientes e com a participação dos médicos da plateia, que puderam fazer perguntas.