Na semana passada, tínhamos falado sobre a inclusão de uma nova medicação para câncer de mama para pacientes do SUS. E hoje, felizmente, falaremos de mais uma ótima notícia para esses pacientes: a aprovação da primeira imunoterapia. No dia 8 deste mês, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias do SUS (Conitec) recomendou a incorporação de duas medicações imunoterápicas (Pembrolizumabe e Nivolumabe) para os pacientes com melanoma – um tipo maligno de tumor de pele – do SUS. E esta vitória teve grande contribuição do nosso CEO, Dr. André Sasse.
A novidade é muito importante, afinal a imunoterapia “moderna” passou a mostrar seus benefícios contra o câncer a partir de 2011, quando foi visto, pela primeira vez, um aumento do tempo de vida dos pacientes com melanoma metastático com o uso do Ipilimumabe. Desde então, várias outras medicações similares surgiram e se comprovaram eficazes contra diversos tipos de tumores, incluindo o Pembrolizumabe e o Nivolumabe. Ao redor do mundo, hoje, a imunoterapia já faz parte da rotina da Oncologia e é o tratamento-padrão em diversos cenários. Porém o SUS ainda não dispunha dessa tecnologia; para nenhum tumor.
Até agora, o tratamento disponível no SUS para quem tem melanoma metastático é a quimioterapia, que, no caso, nunca se mostrou eficaz para aumentar o tempo de vida. Esses pacientes têm prognósticos muito ruins e a imunoterapia mostrou que o tempo de vida dos mesmos mais que dobra com seu uso, além de evidenciar alguns pacientes com longos períodos sem doença, algo inimaginável até há pouco tempo.
Em 2018, o Ipilimumabe foi rejeitado e, em 2019, a Conitec, que avalia a inclusão de medicações no SUS, havia inicialmente recomendado a não-incorporação do Nivolumabe e do Pembrolizumabe para melanoma. Com as contribuições da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), a partir de análise de farmacoeconomia conduzida pelo Dr. André Sasse junto de outros colegas, associado às sugestões da população e de organizações de pacientes por meio de consulta pública, a recomendação foi alterada para defesa da inclusão das medicações. É importante lembrar que, apesar do benefício inegável, as drogas são extremamente caras e o custo nesse cenário pode chegar a R$ 1,8 bilhão.
É uma grande conquista para todos os brasileiros e mostra que a ação em conjunto da sociedade é de extrema importância para melhorar a saúde de todos. Porém, devemos ficar atentos, pois, como vimos no nosso último post, o tempo entre essa incorporação burocrática e a real chegada da medicação para os pacientes pode demorar muito tempo (até anos). Além disso, foi solicitada a inclusão de outras medicações (terapia-alvo), que, infelizmente, não foram aceitas pela Conitec. Para tanto, é importante continuarmos alertas e cobrando das autoridades o cumprimento dessa inclusão.
Referências:
Cada vez mais pessoas são acometidas pelo câncer de bexiga
O que é e por que aparece?
Embora seja um tumor mais raro se comparado ao câncer de mama nas mulheres ou ao câncer de próstata nos homens, cada vez mais pessoas estão sendo acometidas por essa doença, que já é o nono câncer mais comum no mundo e, no Brasil, é o sétimo câncer que mais acomete os homens. São esperados mais de 7.500 casos em homens e mais de 3.000 casos em mulheres para o ano de 2020 no país.
Estes números estão relacionados, principalmente, a dois importantes fatores: o envelhecimento da população. O câncer de bexiga é muito mais comum após os 60 anos, sendo a média de idade dos indivíduos acometidos de 73 anos. E, como a população esta vivendo por mais tempo, é natural que esse tipo doença apareça com maior frequência. Segundo, o tabagismo: sabemos que mais de 70% dos casos de tumores na bexiga estão diretamente relacionados ao uso de cigarro. Embora o número de fumantes venha caindo no país nos últimos 20 anos, ainda temos cerca de 10% da população tabagista, o que representa mais de 20 milhões de fumantes. Os homens são mais acometidos do que as mulheres na proporção de 3:1 e os negros tem um menor risco se comparado aos caucasianos.
A bexiga é o órgão das vias urinárias responsável por armazenar a urina até o momento de eliminá-la. Muitas substâncias tóxicas que podem estar presentes na urina ficam em contato com a parede de revestimento interno da bexiga e essas substâncias podem causar danos e alterações no DNA dessas células, possibilitando o aparecimento dos tumores. Algumas dessas substâncias estão presentes no cigarro, como já comentado, mas existem outras tais como os componentes químicos da indústria têxtil, tintas e outras fábricas que lidam com metal, couro, borracha, corantes e plásticos, além de adoçantes artificiais usados na dieta.
Sintomas e como fazer o diagnóstico?
Descobrir a doença nas fases iniciais não é tarefa fácil, porque nessa fase o tumor pode não causar qualquer sintoma ou os sintomas são confundidos com outras doenças menos graves, como infecção urinária ou cálculos renais ou de vias urinárias, já que as queixas de dor ao urinar, dor abdominal, vontade de urinar com muita frequência ou urina com mudança de coloração podem acontecer em todas essas enfermidades. Um sintoma que às vezes chama muita atenção é a presença de sangue na urina, mas nem sempre isso acontece. Todas as pessoas com mais de 55 anos que apresentem sangue na urina devem procurar um médico com urgência. A partir dessas alterações é importante a realização de exames de urina e de imagem, como ultrassom de abdome e pelve ou tomografias e, quando a suspeita for grande, a realização de uma cistoscopia (exame endoscópico das vias urinárias que permite ao médico olhar dentro da bexiga através de um conjunto óptico). Através da cistoscopia é possível fazer biópsias das áreas suspeitas.
Tratamento das fases iniciais
Cerca de 50% de todos os tumores de bexiga são diagnosticados em uma fase quando ainda não invadiu a musculatura da bexiga. Esse é o momento quando a chance de cura é maior com intervenções relativamente simples. É necessário fazer uma RTU (raspagem da área da bexiga acometida pelo tumor), podendo ou não ser necessário fazer algum tratamento local depois. Esses tratamentos locais podem ser com ONCO BCG (uma espécie de vacina, parecida com a BCG que é aplicada nos bebês para proteger contra a tuberculose). Especificamente sobre a ONCO BCG, o Brasil e o mundo vivem um problema de desabastecimento desse medicamento. No Brasil, o único laboratório que produz essa substância encontra-se fechado pela vigilância por não atender as normas adequadas de produção). Outra opção seria a realização de quimioterapia por infusão dentro da bexiga.
Medicamento desenvolvido na Unicamp traz esperança
Um medicamento desenvolvido na Unicamp e ainda em fase de testes, mostrou resultados animadores no tratamento de pacientes com doença inicial, sem invasão da musculatura da bexiga com mais de 80% dos pacientes tratados sem recidiva do tumor e, naqueles em que o tumor voltou, sua apresentação foi menos agressiva. O nome da medicação é Onco Therad e o seu desenvolvimento e estudo são conduzidos pelos professores Wagner Fávaro e Nelson Dúran. Embora os resultados iniciais sejam promissores, o medicamento ainda esta em fase de testes e não tem autorização da Anvisa ou FDA (órgão regulatório dos EUA) para ser comercializado.
Tratamento da doença localizada, mas que invade musculatura da bexiga
Nos casos em que o tumor já compromete a musculatura da bexiga, o tratamento padrão é a retirada cirúrgica da bexiga, podendo ser precedida de alguns ciclos de quimioterapia. Quando o paciente não pode ser submetido à cirurgia, uma outra opção é o tratamento combinado de quimioterapia com radioterapia.
Tratamento da doença metastática
Quando o tumor já provocou metástase, ou seja, já se espalhou para outros órgãos, o tratamento até há pouco tempo era a quimioterapia exclusiva, com resultados considerados ruins e com muita toxicidade. Novos tratamentos vinham ganhando espaço nesse cenário, principalmente a imunoterapia (medicamentos que ativam o sistema imunológico e o ajudam a combater melhor o câncer). Mas a imunoterapia sozinha também não tinha mostrado resultados tão expressivos como primeira opção de tratamento. Recentemente, em maio de 2020, no Congresso Americano de Oncologia (ASCO), o maior congresso do mundo neste assunto, realizado especialmente esse ano de forma virtual, mostrou os resultados de um estudo que combinou uma droga imunoterápica chamada Avelumabe com quimioterapia no começo do tratamento e, depois de alguns ciclos, mantém apenas a imunoterapia. Essa combinação alcançou resultados nunca vistos quando usado apenas quimio ou apenas imuno e, provavelmente, se tornará o padrão de tratamento quando este esquema estiver aprovado pela Anvisa para ser usado no Brasil.
Outro caminho que vem se mostrando promissor é a detecção de alterações moleculares no tumor e o desenvolvimento de medicamentos que agem diretamente nessas alterações, a chamada terapia-alvo. Já existe no Brasil um medicamento oral chamado Erdafetinib, que pode ser usado nos tumores avançados de bexiga que tenham alteração em um gene chamado FGFR.
Julho: mês de conscientização
O mês de julho é o mês de conscientização e combate ao câncer de bexiga. É importante alertar a população para a importância de se atentar para sinais de alerta e sintomas que muitas vezes são negligenciados, mas podem indicar algo mais grave como um câncer, especialmente em pessoas com mais de 60 anos e que são ou já foram fumantes. Esse é o compromisso do Grupo SOnHe, alertar e informar a população, para prevenção, que certamente é a melhor maneira de reduzir os números mostrados no início deste texto.
Medicamento para câncer de mama finalmente disponível no SUS
Hoje temos uma boa notícia que é – infelizmente – incomum: uma medicação para câncer de mama está disponível às pacientes no Sistema Único de Saúde. Após um longo esforço conjunto da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), do Instituto Oncoguia e da Femama, o Pertuzumabe está em processo de compra e distribuição para as secretarias estaduais de saúde.
O Pertuzumabe é um tipo de terapia-alvo que ataca células de alguns tipos de tumores de mama (com proteína HER2 alterada) de forma mais direcionada. Ele já é utilizado há mais de seis anos no âmbito privado no Brasil em diversos países do mundo, sendo considerado parte do tratamento padrão na primeira linha de tumores de mama HER2 positivos. No estudo CLEOPATRA, que embasou o seu uso, o Pertuzumabe reduziu em 31% o risco de morte, aumentando a sobrevida global mediana das pacientes de 40 para 57 meses, sem causar aumento importante de efeitos adversos graves. A droga é utilizada, neste contexto, em combinação com uma quimioterapia (Docetaxel) e uma outra terapia-alvo, o Trastuzumabe.
Apesar dos benefícios incontestáveis, o caminho até aqui foi longo. A submissão solicitando a aprovação, que contou com participação importante do Dr. André Sasse, ocorreu há mais de três anos, sendo que a aprovação da inclusão do medicamento no SUS ocorreu em dezembro de 2017, após importante pressão da sociedade na consulta pública aberta à época. Na teoria, a droga deveria estar disponível aos pacientes após 180 dias da publicação no Diário Oficial da União, que ocorreu naquele mesmo mês. Porém, na prática, não foi assim. Nos meses que se seguiram, a medicação continuava sem chegar aos maiores interessados: os pacientes. No ano passado, em abril, foi publicada uma portaria que incorporou Pertuzumabe nas Diretrizes do SUS (algo meramente protocolar, já que a situação não mudou: nada de acesso). Até hoje, o acesso ao Pertuzumabe não está disponível como rotina no SUS.
Agora, recebemos com muita alegria a notícia que a distribuição da medicação já está sendo feita para as secretarias e em breve chegará às pacientes, que mais que merecem, mas, sim, têm o direito a esse medicamento há mais de dois anos.
Em meio a tantas notícias ruins, esperamos que esta seja uma de muitas outras conquistas dos pacientes do SUS. E que todos nós saibamos da força da sociedade quando trabalha junta e por uma boa causa.
Referências:
Swain SM, et al. Pertuzumab, trastuzumab, and docetaxel for HER2- positive metastatic breast cancer (CLEOPATRA study): overall survival results from a randomised, double-blind, placebocontrolled, phase 3 study. Lancet Oncol. 2013 May;14(6):461-71
Swain SM, et al. End-of-study analysis from the phase III, randomized, double-blind, placebo-controlled CLEOPATRA study of first-line pertuzumab, trastuzumab, and docetaxel in patients with HER2-positive metastatic breast cancer. 2019 ASCO Annual Meeting. Abstract 1020. Presented June 2, 2019
http://conitec.gov.br/images/Protocolos/DDT/DDT-Carcinoma-de-mama_PORTARIA-CONJUNTA-N–5.pdf
https://www.femama.org.br/2018/br/noticia/artigo-denuncia-pertuzumabe-abril-2019?t=1581998165
8 de julho: Dia Nacional da Ciência
Afinal, de que vale a ciência, se não for para beneficiar e proporcionar qualidade de vida para a população?
Ciência é um substantivo feminino com significado de conhecimento atento e aprofundado de algo ou corpo de conhecimentos sistematizados adquiridos via observação, identificação, pesquisa e explicação de determinadas categorias de fenômenos e fatos, e formulados metódica e racionalmente.
Muitas vezes compreender a ciência não é tarefa fácil para profissionais de saúde e muito menos para a população em geral. Interpretar um artigo científico e entender sua relevância e aplicabilidade na prática clínica diária demanda muito estudo, conhecimento prévio, visão analítica e interpretação crítica da evidência apresentada.
Em momentos de insegurança da população, como é no caso da COVID-19, a tendência ao desespero na busca de resolução do problema, muitas vezes leva à interpretação errônea da ciência, o que favorece ao surgimento das chamadas fake news.
Entender o método científico, compreender a hierarquia de confiabilidade das informações, interpretar as evidências oriundas de estudos clínicos e aplicá-las à prática, seja de maneira individualizada ou para um grupo populacional, é fundamental para evitarmos consequências negativas de uso errôneo de medicamentos e estratégias de saúde pública.
Saber ler um estudo e transformar um linguajar técnico em um vocabulário coerente, compreensível a todos e que realmente faça a população entender benefícios ou riscos do medicamento proposto não é tarefa fácil. Mas só desta forma, quando há comprometimento com o ser humano e com a divulgação de informações de qualidade e relevantes para população, evitaremos informações sensacionalistas, muitas vezes erradas, e prestaremos um real serviço para as pessoas.
O profissional da saúde precisa saber se comunicar, precisa transformar o conteúdo da ciência para o dia a dia de seu consultório, estabelecendo uma relação de confiança com o paciente. Mas além do paciente, transformar a ciência em palavras de entendimento da população sem dúbia interpretação também é fundamental, principalmente em momentos como o que o mundo está passando hoje.
Opção terapêutica para pacientes com câncer de cólon chega ao Brasil
Os pacientes com câncer de cólon têm tratamentos eficazes disponíveis já faz algum tempo. Porém, quando o tumor não responde mais às terapias atuais – que geralmente compreendem duas linhas – poucas opções restam com comprovação científica de benefício. Além disso, uma dessas terapias ainda nem estava disponível no Brasil, mas agora foi aprovada pela Anvisa.
A medicação é a triflurdina/tipiracila, mais conhecida como TAS-102, que atua reduzindo a capacidade de proliferação do câncer por ser similar a um composto formador do DNA, o qual, ao ser combinado com essa molécula, não é funcional. Essa medicação é aprovada nos EUA e na Europa há mais de dois anos, porém não era comercializada ainda no nosso país.
O TAS-102 foi testado no trial RECOURSE, publicado inicialmente em 2015, que foi um estudo clínico randomizado de fase 3, que comparou o uso do TAS-102 contra o placebo em 800 pacientes com câncer de cólon que tivessem progredido a pelo menos duas linhas de tratamento anteriores.
Os resultados mostraram uma redução do risco de morte de 32%, apesar do ganho absoluto na sobrevida global mediana ter sido pequeno (5,3 para 7,1 meses). O benefício do TAS-102 foi principalmente secundário a uma estabilização da doença, mais do que uma redução do tumor. Vale ressaltar que mais da metade dos pacientes já haviam recebido quatro linhas ou mais de tratamento, o que condiciona um prognóstico mais reservado e geralmente menores sobrevidas.
É importante lembrar que o nível de efeitos adversos importantes foi elevado (69%), porém, como ocorre no cenário de pacientes politratados, essa frequência foi alta mesmo no grupo placebo (52%), e, além disso, as toxicidades que tiveram diferença entre os grupos foram as de alterações laboratoriais, como neutropenia (redução de glóbulos brancos).
O TAS-102 chega ao Brasil como uma nova opção de tratamento para pacientes com câncer de cólon e uma nova terapia para quem já teve progressão aos vários tratamentos anteriores. Nesse contexto, deve ser usado sempre balanceando riscos e benefícios. Contudo, como é uma droga oral, ainda não será obrigatoriamente coberta pelos planos de saúde e, como não foi incorporada pelo SUS, também não estará disponível para os pacientes do sistema público. Por isso, devemos sempre lembrar dos projetos para mudança da legislação sobre a quimioterapia oral já discutidos no Alerta Oncologia (https://sonhe.med.br//2020/06/04/projeto-de-acesso-a-quimioterapia-oral-e-aprovado-pelo-senado/) e também da necessidade do SUS promover a incorporação de diversas drogas com benefício comprovado, dando benefício para a toda população.
Referências:
Mayer RJ, et al. Randomized Trial of TAS-102 for Refractory Metastatic Colorectal Cancer. N Engl J Med. 2015;372:1909-19
Uso medicinal da maconha para paciente com câncer: mito ou realidade?
A Cannabis, popularmente conhecida como maconha, é a substância psicoativa ilegal mais consumida no mundo. É estimado que aproximadamente 4% da população mundial entre 15 e 64 anos fazem ou já fizeram uso recreativo dessa planta. Entretanto, nos últimos anos, muito vem sendo discutido sobre sua utilização medicinal. Os potenciais benefícios e as indicações são crescentes, porém, o tema ainda é alvo de grande debate.
Dentre as mais de 500 substâncias bioativas encontrada na Cannabis, as duas que merecem maior destaque são o tetrahidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD). O THC apresenta afinidade aos receptores do canabinoide no cérebro e é o responsável pelos seus efeitos psicoativos. Alguns estudos sugerem sua ação no controle de dor, redução de náuseas e relaxamento muscular, porém com efeitos colaterais como psicose, sonolência e intoxicação. Já o CBD, devido à menor afinidade a esses receptores, apresenta baixo risco de causar euforia ou intoxicação e está relacionado ao controle de dor, náuseas, vômitos, ansiedade e crises convulsivas. Apesar das potenciais ações terapêuticas, ainda são escassas as evidências científicas confirmando o real benefício.
No Brasil, essa discussão tornou-se mais intensa após a Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovar o primeiro registro e autorização de comercialização de um produto à base de Cannabis em abril/2020. O produto está indicado para pacientes com sintomas refratários mesmo após o tratamento com todas as outras opções terapêuticas disponíveis. Quando indicada, a compra poderá ser feita em farmácias ou drogarias com a prescrição médica.
Mas, então, em relação aos pacientes com câncer, existem benefícios comprovados? Sabe-se que no câncer avançado é frequente a queixa de náuseas, vômitos, perda de apetite, ansiedade e dor refratária. Logo, ter medicamentos que possam aliviar esses sintomas e propiciar melhor qualidade de vida é de extrema importância. Neste contexto, alguns estudos com medicamentos à base de Cannabis vem sendo realizados, porém com resultados ainda conflitantes. Uma revisão sistemática e metanálise publicada por um grupo alemão em 2018, não mostrou benefício de medicamentos à base Cannabis para aumentar o apetite, controle de náuseas/vômitos, redução de dor ou insônia em pacientes em cuidados paliativos.
Um outro estudo publicado na revista JAMA, em 2015, sugeriu benefício em redução de dor crônica com uso de canabioides, porém com baixo nível de evidência para recomendação do tratamento de náuseas/ vômitos secundários à quimioterapia ou melhora de distúrbios do sono, além de apresentar maiores efeitos colaterais.
É evidente que tivemos grandes avanços no entendimento do potencial benefício do uso medicinal da Cannabis em diversas doenças, porém a indicação em pacientes com câncer necessita de estudos mais robustos. Existe uma grande expectativa de novos medicamentos para o conforto dos pacientes oncológicos. Mas, por enquanto, não podemos dizer que o uso dos derivados da Cannabis seja uma realidade no Brasil. Ainda se faz necessária uma clara comprovação de benefício e segurança.
Como a yoga pode ajudar pacientes com câncer?
A yoga é uma forma milenar de exercício para o corpo e a mente. Seu principal objetivo é criar conexão e harmonia entre corpo, mente e espírito. É uma filosofia tão antiga que historiadores têm dificuldade em datar com precisão seu início. Alguns arqueólogos encontraram os traços mais antigos da yoga há 5.500 anos. É surpreendente perceber que essa prática atravessou tantos anos e se mantém tão viva nos tempos de hoje, o que nos refletir sobre sua força.
Algumas formas de yoga são bastante árduas, enquanto outras são mais leves e se concentram mais no trabalho de meditação e respiração. A prática da yoga pode não apenas tornar nossos músculos e articulações mais flexíveis, mas também promover relaxamento intenso e maior controle das emoções. É nesse ponto que as coisas passam a se conectar: o câncer e yoga.
Pacientes com câncer frequentemente experimentam sensações desagradáveis e aversivas, sejam físicas pela própria doença ou pelos efeitos do tratamento, ou emocionais, com aumento de ansiedade, angústia e sintomas depressivos. Nesse sentido, buscar maneiras de ter bem-estar físico e emocional dentro das condições que o adoecimento traz, são medidas importantes para melhorar a qualidade de vida durante e após o tratamento. A yoga pode ser, portanto, uma importante terapia complementar e forte aliada do paciente com câncer.
A ciência há tempos estuda a relação entre a yoga e a saúde humana. Especificamente com relação ao câncer, existe razoável evidência na ciência de que essa prática possa estar relacionada com melhorias no bem-estar e redução de sintomas desagradáveis.
Em 2010 foi publicada uma revisão sistemática que avaliou justamente a relação entre os potenciais benefícios da yoga para pacientes com câncer: “An evidence-based review of yoga as a complementary intervention for patients with cancer”. Como resultado, os pesquisadores concluíram que a yoga pode ajudar a reduzir a ansiedade, a depressão, o cansaço (fadiga) e estresse. Foi também capaz de melhorar a qualidade do sono, humor e bem-estar espiritual.
Adicionalmente, um estudo específico sobre o uso de yoga em pacientes tratando câncer de mama comprovou que além da redução do cansaço, as pacientes passaram a ter um melhor enfrentamento do processo de adoecimento, com significativa redução da percepção de sofrimento. Nesse estudo, 191 mulheres com câncer de mama foram distribuídas aleatoriamente em três grupos: 1) yoga; 2) alongamento simples; ou 3) nenhuma instrução sobre yoga ou alongamento.
Como resultado, as mulheres que praticaram yoga durante o período de tratamento relataram maiores benefícios ao seu funcionamento físico e em sua saúde geral, como redução de fadiga. Também foram mais propensas a encontrar significado de vida a partir de sua experiência com o câncer do que os outros grupos.
Umas das possíveis explicações para esses desfechos positivos seria a redução do hormônio cortisol (hormônio do stress), que foi comprovado por meio de amostras de saliva no mesmo estudo.
É importante reconhecer o crescente número de pesquisas indicando que intervenções baseadas no relaxamento podem contribuir para o bem-estar das pessoas com câncer.
É possível ter qualidade de vida e câncer ao mesmo tempo e a yoga pode ser uma saudável, bem-vinda e importante aliada nesse processo.
Mostre-me a evidência: Assistir filmes da Disney® durante a quimioterapia pode melhorar o status emocional e a qualidade de vida dos pacientes
A quimioterapia faz parte da rotina de tratamento de muitos pacientes que são diagnosticados com câncer. É nítido para nós, oncologistas, que esse processo de receber a quimioterapia (o qual geralmente consome pelo menos duas horas do dia dos pacientes) associado à rotina que o tratamento exige (consultas, exames, etc.) é muito desgastante física e emocionalmente. Cabe à equipe multidisciplinar, em sincronia com o paciente e sua família, encontrar uma maneira de minimizar o impacto dessa rotina do tratamento na qualidade de vida do paciente.
Muitos estudos foram desenvolvidos para tentar quantificar a qualidade de vida dos pacientes nos mais diversos rituais do tratamento oncológico, em especial durante a quimioterapia. Parece “exótico”, mas como nós do Grupo SOnHe temos o paciente como o “ator principal” deste drama chamado câncer, achamos (muito!) interessante trazer para o programa “Mostre-me a Evidência” o artigo que foi publicado este ano no JAMA Network, que avaliou a qualidade de vida de pacientes em quimioterapia e o hábito de assistir filmes da Disney® (isso mesmo!).
Este estudo acompanhou 50 mulheres em tratamento para câncer ginecológico, as quais foram divididas em dois grupos: 25 delas assistiram filmes da Disney® durante as sessões de quimioterapia e as outras 25, não. As pacientes responderam questionários sobre qualidade de vida e sensações como fadiga e estresse físico e emocional; os resultados são muito interessantes.
O estudo mostrou que assistir filmes da Disney® durante a quimioterapia pode, sim, melhorar o status emocional e a qualidade de vida dos pacientes, além de reduzir o estado de fadiga comumente relatado após as sessões. E o motivo disso vai alem da distração naquele momento “desagradável”: se pararmos para refletir, os filmes da Disney® nos contam histórias de superação de dificuldades sem necessariamente resolvê-las. Nos trazem roteiros sobre vencer (de maneira heroica) as dificuldades, tendendo a um final feliz, mas sempre com um pouco de tristeza. Frequentemente, os personagens lidam com morte e perda, condições estas que muitas vezes vem à tona com o diagnóstico de câncer na vida real. Mas, ao fim, os protagonistas dos filmes amadurecem e as coisas melhoram.
Essa intersecção entre o mundo da ficção e a vida real das pacientes que estão sentadas esperando o término daquele soro é algo que certamente acalma e torna a circunstância menos desagradável. É possível dizer que um pouco do “felizes para sempre” ou do “final feliz” dos filmes é passado ao paciente que está vivendo um momento delicado. Finalizo lembrando que saúde não se resume apenas ao estado físico; o bem-estar mental e social também estão incluídos nesta definição.
É isso por hoje!
O inimigo por trás do sol
O câncer de pele é o mais comum no Brasil e no mundo, representando 25% de todos os tumores sólidos. Nos últimos dez anos o número de casos aumentou cerca de 50%. Dentre todos os tumores de pele, o melanoma, embora mais raro (representa por volta de 4% do total) é, sem sombra de dúvida, o mais agressivo. Por isso mesmo, apesar de dezembro ser considerado o mês mundial de conscientização para o câncer de pele, o melanoma reserva uma data à parte, no mês de junho, para chamar a atenção sobre seus riscos e desafios. Mesmo em um momento tão complicado, como este que estamos passando com a pandemia da COVID-19, é extremamente importante lembramos sobre os riscos de se desenvolver melanoma. Os inimigos novos não mudam a necessidade de se combater os inimigos antigos!
O melanoma é o câncer de pele mais agressivo e o que mais mata. Se não diagnosticado no início, pode dar metástases (quando um tumor se espalha para outros órgãos) rapidamente. Infelizmente muitas pessoas descobrem esse tumor já nessas fases mais avançadas. O Instituto Nacional do Câncer (INCA) estima que em 2020 teremos cerca de oito mil casos novos de melanoma, com 1.700 mortes ao longo do ano, só no Brasil. Os dados nos EUA são ainda mais impressionantes com mais de 100 mil casos novos esperados para 2020.
O melanoma é um tumor que surge a partir de danos causados nas células da pele produtoras de melanina (o pigmento que dá cor à pele) e pode aparecer não só na pele, mas também em mucosas e nas unhas. Esses danos são causados pela exposição direta ao sol, sem proteção. Os raios UVB são os grandes vilões, causando queimaduras na pele mais superficial e, quando essa exposição se dá de forma prolongada, as células da pele podem sofrer alterações em seu DNA levando ao desenvolvimento do câncer. Pessoas de pele e olhos mais claros têm um risco maior. Geralmente se apresentam como manchas enegrecidas e nem sempre é fácil diferenciar um melanoma de uma mancha ou uma “pinta” comum.
Um dado interessante é que a incidência de melanoma no mundo vem aumentando nos últimos anos, mas a mortalidade está diminuindo. Ou seja, mais pessoas têm diagnosticado a doença, mas também mais pessoas têm se curado ou controlado a doença. Isso tem ocorrido graças o desenvolvimento de tratamentos mais eficazes e menos tóxicos.
Até o início desta década, o único tratamento disponível para tratar a doença mais avançada era a quimioterapia citotóxica, que causava muitos efeitos colaterais e era pouco eficiente contra esse tipo de tumor. Com a descoberta e desenvolvimento das imunoterapias e das terapias-alvo, isso mudou radicalmente. A imunoterapia age no organismo fazendo com que o sistema imunológico do próprio paciente reconheça as células malignas e atue de forma mais eficaz em destruí-las. Já a terapia-alvo funciona em uma parcela dos pacientes que possuem uma mutação especifica em um gene chamado BRAF. As terapias-alvo são medicamentos em comprimidos que inibem a ação desse gene.
Estes tratamentos trouxeram resultados impressionantes no controle do melanoma, que deixou de ser um tumor altamente letal para ter resultados muito semelhantes aos de outros canceres considerados menos agressivos. Além de um maior tempo de vida na doença avançada, os tratamentos mais modernos melhoraram substancialmente a qualidade de vida dos pacientes. Reiterando que alguns desses tratamentos são feitos com medicações orais.
Mesmo com todos esses avanços é primordial alertar a população para buscar diagnósticos em fases mais precoces, quando a chance de cura é real. Portanto, alertamos às pessoas para que conheçam o seu corpo e façam uma autoavaliação sempre que possível, além de se protegerem do sol, evitando exposições prolongadas, principalmente sem o uso de protetores solares ou roupas adequadas. E, sempre que notarem alguma mancha estranha ou nova, que procurem o dermatologista para uma avaliação mais detalhada.
Para a autoavalição ou autoexame usamos a chamada regra do ABCDE. A letra “A” é assimetria. O paciente pode observar se a pinta, ao ser dividida em duas metades, tem estas metades simétricas. Caso tenha um formato irregular, é uma suspeita. A letra “B” se refere às bordas da lesão, pois toda pinta deve ter suas bordas lisas. Pintas com bordas recortadas, como um mapa, podem ser suspeitas. A letra “C” refere-se às cores da pinta. Existem diversos tons normais, do marrom claro ao escuro. Entretanto, quando mais cores diferentes (vermelho, branco, preto, tons cinza-azulados), mais suspeita é a pinta. O “D” é o diâmetro dos sinais, considerados com maior risco quando estão maiores de 0,6 cm. A última é a letra “E”, de evolução: uma pinta que progressivamente tem algum crescimento ou modificação deve ser investigada.
Algumas atitudes podem ajudar a prevenir esse tumor. O uso de roupas de mangas cumpridas e chapéus, uso de protetores solares que devem ser repassados a cada três horas e evitar o sol entre as 9 horas e as 16 horas. Existem dois principais tipos de raios solares, o UVA e o UVB (os raios UVB, como dito anteriormente, são os mais associados ao desenvolvimento do melanoma) e os protetores solares têm diferentes FPS (Fatores de Proteção Solar). Os protetores ideais são contra os raios UVA e UVB e pelo menos fator 30 pelo corpo e fator 50 no rosto, local em que a pele é mais sensível e frágil. Crianças devem usar protetores específicos, com produtos que geram uma barreira química e física.
O melanoma, quando descoberto precocemente tem chances de 95% de cura e seu tratamento é essencialmente cirúrgico no início. O problema é quando o tumor já se espalhou para os gânglios e para outros órgãos, o que dificulta a cura e exige tratamentos mais sistêmicos (que agem em todo o organismo). O mês de junho é o mês de alerta ao melanoma. E todas as pessoas, com medidas simples, podem evitar o aparecimento desse tumor. Não deixe essa doença marcar você. Procure marcas e pintas estranhas em seu corpo e, em caso de dúvidas ou alterações, procure um dermatologista.
Como se proteger do coronavírus com evidência?
No meio da pandemia, estamos sendo bombardeados com informações sobre o que fazer (e não fazer) para evitar ser contaminado pelo novo coronavírus. E, hoje, vamos falar de um artigo publicado numa das maiores revistas científicas do mundo, a The Lancet, e que é atualmente a melhor evidência sobre a “etiqueta da proteção”.
Já sabemos de forma clara que o isolamento social é o método mais efetivo e, que, portanto, enquanto o número de casos e óbitos não iniciar sua curva decrescente, o ideal é que fiquemos em casa, o máximo possível. Entretanto, sabemos que muitas pessoas não têm opção: seja porque trabalham em serviços (realmente) essenciais ou mesmo porque (realmente) necessitam do trabalho para manter seu sustento e não passar fome. E é nessa situação devemos lembrar o que já está sendo repetido inúmeras vezes: devemos praticar o distanciamento entre as pessoas e usar máscaras.
E foi isso que o artigo publicado neste mês mostrou. Os cientistas fizeram uma revisão de todos os estudos que tinham avaliado o uso e máscara, distanciamento social e proteção ocular como formas de evitar o contágio pelos coronavírus (não só o atual, mas também o da SARS e da MERS). Foram ao todo 44 estudos analisados, com mais de 25.000 pacientes.
A partir daí, conduziram uma análise estatística, chamada de metanálise. Eles concluíram que manter distância entre as pessoas de pelo menos um metro reduziu em mais de 80% a chance de contaminação pelo vírus. E mais ainda, que a proteção dobra a cada metro a mais. Em relação às máscaras, a redução foi de 86%, sendo consideradas as de pano ou cirúrgicas. No caso de trabalhadores da saúde, o uso de óculos também teve papel importante na diminuição do contágio. É bom reforçar que todas as intervenções reduziram, mas não eliminaram a chance de infecção.
Este estudo é atualmente a melhor evidência científica que temos, já que compila vários outros menores que abordaram a questão. E ele serve para lembrarmos que, apesar da orientação nesse momento da pandemia seja de ficar em casa, caso você tenha que sair, o melhor é que use máscara e mantenha distância de pelo menos um metro das outras pessoas, além, é claro, de lavar sempre as mãos, evitar tocar o rosto e manter a etiqueta respiratória. Só assim, poderemos, num futuro próximo abraçar com muita força quem mais amamos.
Referências:
Chu DK, et al. Physical distancing, face masks, and eye protection to
prevent person-to-person transmission of SARS-CoV-2 and
COVID-19: a systematic review and meta-analysis. Lancet. 2020;36(20):31142-9 https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)31142-9