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Abril é o mês de conscientização sobre o câncer de esôfago

David Pinheiro Cunha

CRM 146.260

 

O esôfago é um tubo muscular que leva o alimento desde a garganta até o estômago. No Brasil, o câncer de esôfago é o 6º mais frequente entre os homens e o 15º entre as mulheres. Aproveitando o mês de abril, vamos ressaltar alguns sinais de alerta:

Os três principais fatores de risco são:

  • Tabagismo (responsável por 25% dos casos);
  • Consumo excessivo de bebida alcoólica;
  • Obesidade.

 

Sintomas mais frequentes:

  • Sensação de obstrução a passagem de alimentos;
  • Dor para engolir;
  • Dor no tórax;
  • Náuseas, vômitos e perda de peso.

 

Curiosidades:

  • É duas vezes mais frequente nos homens comparado às mulheres;
  • O consumo de chimarrão e a relação sexual desprotegida são fatores risco;
  • O exame de rastreamento não é recomendado de rotina na população em geral.

 

Como é feito o diagnóstico:

  • Geralmente após início dos sintomas;
  • Exame mais indicado é a endoscopia digestiva alta;
  • A biópsia confirma o diagnóstico.

 

Como prevenir:

  • Não fumar;
  • Evitar o consumo de bebida alcoólica;
  • Manter o peso adequado;
  • Tratar a doença do refluxo gastroesofágico quando presente;
  • Não consumir bebidas quentes em excesso (acima de 60%);
  • Utilizar preservativo durante a relação sexual.

 

Tratamento:

  • Combinação de radioterapia, quimioterapia e cirurgia;
  • A imunoterapia é uma forma de tratamento aprovada no Brasil;
  • As chances de cura estão relacionadas ao diagnóstico precoce.

 

A prevenção continua sendo a melhor maneira de evitar este tipo de câncer. Mas, caso tenha algum dos sintomas, não deixe de procurar um médico para o diagnóstico precoce e aumentar as chances de cura.

 

31 de março: Dia da Saúde e da Nutrição

Atividade física, alimentação equilibrada e hidratação são aliadas da saúde

 

Dr. Rafael Luís – oncologista

CRM 156.336

Dra. Thaize Polizelli – nutricionista

CRN 344.807

 

No Dia da Saúde e da Nutrição, gostaríamos de relembrar a cartilha que o Instituto Nacional de Câncer (INCA) fez, baseada em uma tradução para o português de um Relatório de Especialistas criado pelo Fundo Mundial de Pesquisa em Câncer (WCRF, em inglês) e pelo Instituto Americano para Pesquisa em Câncer (AICR, em inglês).

A obesidade e o sedentarismo continuam em crescimento no mundo e são um grande problema de saúde pública, contribuindo para mais de quatro milhões de mortes, anualmente, no mundo. O estilo de vida e a falta de estímulo à atividade física são os principais fatores associados a este cenário. No Brasil, mais da metade da população está acima do peso e essa epidemia vem aumentando também entre as crianças.

No documento traduzido pelo INCA, os autores dissertam de forma bem clara sobre os vários aspectos da alimentação e suas consequências para o nosso organismo e sobre o risco de câncer, sempre embasado em evidências científicas. Há um quadro mostrando visualmente os alimentos que têm relação estabelecida com o desenvolvimento de neoplasias, além da força desta relação. Como exemplo, alimentos em conserva e processados aumentam – com alta probabilidade – a incidência de câncer de estômago e cólon, respectivamente. Além disso, evidencia-se que a obesidade e o álcool são os fatores mais fortemente relacionados à ocorrência de diversos tipos de tumores.

A partir dos dados, o documento faz recomendações práticas para a prevenção do câncer e melhor saúde geral:

– Manter um peso saudável;

– Ser fisicamente ativo (pelo menos 150 minutos por semana);

– Consumir uma dieta rica em vegetais, cereais integrais, frutas e leguminosas;

– Limitar o consumo de comida processada (fast food), carne vermelha, bebidas com adição de açúcar e alcóolicas;

– NÃO usar suplementos para a prevenção do câncer;

– Amamentar, se a mulher puder.

Na análise brasileira, a nossa população não cumpre esses requisitos, com altos níveis não só de obesidade, mas também de sedentarismo e de consumo de alimentos pouco saudáveis. O INCA sugere que a abordagem na nossa população seja comportamental, incentivando a alimentação saudável por políticas públicas bem instituídas e, como exemplo, não estimulando padrões estéticos para a prática da atividade física, mas sim o prazer em praticá-las.

Por fim, há também uma abordagem de como implantar essas medidas em nível populacional, com ênfase nas ferramentas sociais, como marketing, limitando propagandas de produtos pouco saudáveis, estimulando a compra de alimentos saudáveis ou realizando aconselhamentos em equipamentos públicos à toda a população. Isso envolve toda a sociedade e traz a responsabilidade compartilhada para melhorar o cenário atual.

Esse documento é de livre acesso e é de grande interesse de todos. A prevenção do câncer passa não só por exames e consultas, mas também pela adoção de um estilo de vida saudável.

 

Cuidados e dicas de hidratação

 

Toda população precisa ficar atenta à ingestão de líquidos. No caso dos pacientes oncológicos, a atenção na hidratação deve ser ainda maior, já que a dieta precisa ser equilibrada para suas necessidades durante o tratamento, sendo rica em frutas, verduras e legumes diversificados, alimentos integrais, gorduras boas e fontes proteicas. Sem esquecermos da HIDRATAÇÃO.

Devemos sempre nos atentar à quantidade de água ingerida no dia a dia para mantermos toda a funcionalidade do nosso organismo. A Organização Mundial da Saúde recomenda a ingestão de 2 a 2,5 litros de água ao longo do dia e, para atingirmos a recomendação, o verão pode ser nosso aliado por meio de:

 

Sucos de frutas: as frutas cítricas são bem toleradas durante o período de tratamento; então, faça suco com as frutas da estação que, além de mais doces, possuem mais nutrientes por sua sazonalidade adequada. Abacaxi, caju, melancia, melão, limão, manga, maracujá, tangerina, kiwi, uva, maçã, entre outras.

Utilize água filtrada ou água de coco para o preparo; chá preparado em casa com gengibre e batido com fruta é uma ótima opção para os pacientes nauseados.

A dica também está em preparar o suco utilizando a casca dos alimentos, que deve estar higienizada corretamente. O suco não deve ser coado antes do consumo, assim as fibras ficam garantidas.

Combinar frutas com verduras (e até legumes!) é uma opção interessante, pois além de hidratar, diversifica e aumenta a quantidade de frutas, verduras e legumes ingeridos no dia. Maçã, limão e couve pode ser uma das combinações, assim como maracujá e um pouco de manjericão. Use a criatividade!

Carregue sempre com você uma garrafinha com água, pois o consumo de água é um hábito. Temos o péssimo costume de beber água apenas quando temos sede, mas esquecemos que sede é o primeiro sinal de desidratação.

 

Sacolé, picolé e gelo de fruta: uma outra forma de consumir as frutas no verão é na forma de sacolé, picolé e até gelo.

 

Para o sorvete, podemos apenas picar as frutas da nossa preferência, dispô-las em fôrmas próprias para picolé ou copos descartáveis com um palito de sorvete, completar com água de coco, chás naturais de ervas claras preparados em casa como: hortelã, camomila, erva-doce e gengibre e ou suco de fruta e levar para o congelador. Temos outra opção de picolé: faça uma massa, batendo a fruta da sua preferência com um pouco de líquido, incluindo o leite.

Já para o sacolé e o gelo, deve-se bater a fruta com pouca água (ou outro líquido) até obter uma consistência mais pastosa e dispor tudo em suas respectivas embalagens.

 

Lanches naturais: se preparado adequadamente, pode substituir uma refeição completa. Utilize patês feitos em casa como os de frango, de sardinha, de grão de bico, entre outros. Recheie o pão, tapioca ou outra fonte de carboidrato com o patê escolhido, folhas e legumes.

Lembre-se de procurar sempre um nutricionista especialista na área para melhor adequação da sua dieta ao seu tratamento.  E mantenha-se hidratado!

 

 

Março Azul Marinho: Mês de conscientização e prevenção do câncer colorretal

David Pinheiro Cunha

CRM 146.260

 

O câncer colorretal compreende todos os tumores que acometem o intestino grosso e o reto. Atualmente, ocupa a segunda posição entre os tumores mais frequentes nos homens e também nas mulheres no Brasil. Diante da sua importância, aproveitando mês de março, vamos trazer alguns fatos importantes sobre esse tipo de câncer.

 

– É possível reduzir o risco de desenvolver o câncer colorretal.

 

A predisposição genética individual para se desenvolver um câncer ainda não pode ser modificada, porém a minoria dos canceres tem origem hereditária. Sabemos que evitar a exposição aos fatores risco pode reduzir de forma significativa as chances de ter um câncer de intestino. Por isso, é importante um estilo de vida saudável, com atividade física regulares, manter o peso adequado, realizar dieta rica em fibras, evitar o tabagismo, etilismo, o excesso de carne vermelha e embutidos.

 

– A idade avançada é o principal fator de risco para o câncer colorretal.

 

A maioria dos tumores de intestino ocorrem após os 50 anos. Outros fatores de risco importantes são a história familiar de câncer colorretal, obesidade, sedentarismo, tabagismo, consumo excessivo de carne vermelha (acima de 500 gramas por semana) ou alimentos processados, dieta pobre em frutas ou fibras.

Outras condições como a polipose adenomatosa familiar, câncer hereditário sem polipose, doença de Crohn e retocolite ulcerativa, também aumentam de forma expressiva o risco.

 

– Na fase inicial o câncer colorretal é uma doença silenciosa, não causa sintomas.

 

Na fase inicial o câncer de intestino pode ser assintomático. Com o aumento do tamanho da lesão os sintomas podem se desenvolver. As principais queixas são: alteração do hábito intestinal (diarreia e prisão de ventre alternados), dor ou desconforto abdominal, fraqueza ou anemia, perda de peso sem causa aparente, alteração na forma das fezes, massa abdominal ou sangue nas fezes. É importante salientar que muitas vezes esses sintomas também estão relacionados a doenças benignas, por isso a importância de sempre passar por uma avaliação médica.

 

– A colonoscopia pode prevenir o câncer colorretal.

 

O câncer de cólon na maioria das vezes tem origem a partir de um pólipo no intestino. Essas lesões são inicialmente benignas, mas podem sofrer atipias durantes os anos e desenvolver o câncer. Durante o exame de colonoscopia pode ser realizada a retirada dos pólipos ainda nos estágios iniciais, evitando a formação do câncer. No Brasil, esse exame é recomendado para homens e mulheres entre 50 a 74 anos. Em casos de história familiar para câncer de intestino, o exame deve ser realizado 10 anos antes da idade que o familiar apresentou o diagnóstico.

 

– A maioria dos casos são curados com o tratamento.

 

Quando o diagnóstico é realizado em fases iniciais a chance de cura é acima de 80%. Por isso a importância de realizar o exame de rastreamento como a colonoscopia e sempre investigar precocemente os sintomas relacionados à alteração do hábito intestinal ou sangramento. O tratamento depende de diversos fatores como localização tumor, tamanho e se ocorreu a disseminação para outros órgãos (metástase). Na doença localizada, a cirurgia é o tratamento, podendo ser associada a quimioterapia no pós-operatório. Já na presença de metástase, o tratamento geralmente se inicia com quimioterapia associada a anticorpos.

 

– O fígado é o local mais frequente de metástase.

 

Metástase é quando o câncer dissemina do local de origem para outros órgãos. Quando isso ocorre as chances de cura reduzem de forma significativa. O principal local de metástase do câncer de intestino é o fígado, seguido pelo pulmão. Nestes casos, os tratamentos mais empregados são as quimioterapias, associadas ou não aos anticorpos monoclonais. Recentemente foi aprovado no Brasil o uso da imunoterapia para pacientes com metástase com deficiência em genes relacionados ao reparo do DNA, com excelentes resultados!

 

10 de março é o Dia Mundial do Rim

Higor Mantovani

CRM 155.725

 

A campanha tem enfoque na prevenção e diagnóstico precoce da doença renal crônica; importante destacar também a atenção ao câncer renal

 

No dia 10 de março de 2022 é celebrado o Dia Mundial do Rim. Uma em cada dez pessoas terá algum tipo de problema relacionado a saúde dos rins, seja ele cálculos renais, mal funcionamento dos rins (também chamado de doença renal crônica) ou até mesmo o câncer do rim. O Dia Mundial do Rim foi criado para que profissionais de saúde e a população como um todo pudessem trocar informações sobre as doenças que acometem este órgão.

A campanha tem enfoque principal na prevenção e diagnóstico precoce da doença renal crônica (ou insuficiência renal), condição frequente em pacientes que acumulam comorbidades como hipertensão e diabetes mellitus, e que pode resultar na necessidade de terapias renais substitutivas como a hemodiálise. Mas é importante lembrar sobre o câncer do rim e suas peculiaridades.

O câncer renal é relativamente raro e corresponde a aproximadamente 5% de todos os tumores do indivíduo adulto. Em geral, acomete mais os homens, em idade entre 50 e 70 anos, e quase sempre não dá sintomas. Por isso, é frequentemente diagnosticado ao acaso, após a realização de exames de imagem do abdome (ultrassom ou tomografia). Apenas 10% dos pacientes vão apresentar sintomas, sugerindo um quadro mais avançado. Podem surgir sangramento urinário, dor abdominal, perda de peso, ou até mesmo o aumento do volume renal configurando uma massa (tumoração) que pode ser palpada no abdome.

O tipo mais comum de câncer renal é o carcinoma de células claras. Ele tem esse nome pelas características das células do câncer quando vistas ao microscópio. Para os tumores localizados (restritos ao rim), o tratamento de escolha e que leva a cura é cirurgia de retirada rim, que pode ser parcial ou total. O tratamento com remédios está reservado para o cenário avançado do câncer de rim, quando já existem metástases. Felizmente, os avanços na oncologia trouxeram o advento da imunoterapia e de terapias-alvos orais que revolucionaram a história do câncer de rim avançado.

Para evitar o câncer do rim (e os demais problemas da saúde dele) é importante estar sempre cultivando um estilo de vida saudável; hidratar-se bem, combater o sedentarismo e a obesidade, e controlar doenças crônicas como hipertensão e diabetes fazem parte de um roteiro básico de uma boa saúde. Manter uma rotina de avaliações médicas também é importante. O monitoramento de exames de sangue (como ureia e creatinina), o exame clínico do abdome e a complementação com exames de imagem nos permite acompanhar a saúde dos rins. Eventualmente, esses exames podem evidenciar achados suspeitos em um dos rins e deflagrar o processo de investigação de um possível câncer de rim.

 

Mudança no rol da ANS é avanço com sensação de derrota

Uma nova Medida Provisória (MP 1067/2021) foi aprovada pelo Congresso em 10 de fevereiro e visa garantir acesso mais ágil às drogas orais contra o câncer pelos usuários de planos de saúde. Sem dúvida, é um avanço, porém foi uma solução “intermediária” para o que era esperado.

Em diversas oportunidades, já discutimos sobre o processo de incorporação de medicamentos orais para pacientes de planos de saúde (links abaixo).

Também no ano passado, falamos do projeto que tentava garantir a obrigatoriedade de cobertura pelos planos de saúde de medicações orais para tratamento do câncer, assim que houvesse aprovação na Anvisa. A chamada Lei da Droga Oral (PL6330/2019) foi aprovada no Congresso em julho de 2021, mas, infelizmente, foi vetada pelo presidente Bolsonaro e, agora, em fevereiro, o veto foi (estranhamente) mantido pelo Congresso.

Sendo assim, o acesso a essas drogas continua restrito e atrasado em até 3-4 anos em relação a sua comprovação de benefício. As medicações injetáveis não passam por essa barreira; elas são cobertas pelos planos tão logo são aprovadas pela Anvisa em bula.

Agora, a nova MP aprovada estabelece que a atualização da lista de medicamentos com cobertura obrigatória pelos planos deve ser feita de forma mais frequente: ao invés de ser atualizada a cada dois anos, deverá ser feita “continuamente”, ou seja, as empresas solicitantes da aprovação podem enviar a requisição a qualquer momento e a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) terá até 180 dias para analisar, recomendando a aprovação ou rejeição daquele produto. Após aprovada, a medicação em questão deverá ser fornecida ao paciente em até dez dias após a prescrição médica.

Além disso, a MP cria uma Comissão de Atualização do Rol, com membros de conselhos e entidades relacionadas ao assunto, com poder de deliberação e análise dos dados científicos e econômicos.

Não há como negar que é uma evolução no processo, que pode reduzir em mais de 75% o tempo para aprovação de uma medicação contra o câncer. Entretanto, ainda é uma regulação morosa e redundante, e cujo ônus do atraso é única e exclusivamente dos pacientes, que deveriam ser o foco de toda a discussão. Não faz sentido haver distinção entre remédios orais e injetáveis, pois cada doença tem um tipo de tratamento.

A solução talvez seja uma regulação única, mais racional e ágil, que leve em conta não só a realidade econômica brasileira, mas também o interesse da população. Seguimos na expectativa de que isso seja o primeiro passo de uma revolução maior na Oncologia: ofertar o mais eficaz para nossos pacientes viverem mais e melhor.

A MP ainda vai à sanção presidencial.

 

Referências:

https://legis.senado.leg.br/sdleg-getter/documento?dm=9069137&ts=1645034714274&disposition=inline

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9656.htm

https://noticias.r7.com/brasilia/congresso-mantem-veto-a-inclusao-de-remedios-para-cancer-em-planos-08022022

https://noticias.r7.com/brasilia/mp-dos-planos-de-saude-e-aprovada-com-duas-emendas-e-vai-a-sancao-10022022

https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/140096

https://sonhe.med.br//2021/07/01/a-um-passo-de-uma-revolucao-da-oncologia-no-brasil/

https://sonhe.med.br//2021/02/26/novo-rol-da-ans-2021/

https://sonhe.med.br//2020/06/04/projeto-de-acesso-a-quimioterapia-oral-e-aprovado-pelo-senado/

https://sonhe.med.br//2019/09/03/simparaquimiooral/

Existe relação entre álcool e câncer? Quais os tipos de câncer?

Sim, as bebidas alcoólicas podem causar câncer. É confirmado pela ciência. Um novo estudo acaba de atualizar essa relação direta depois de analisar dados da última década: em todo o mundo, o álcool foi responsável por cerca de 740.000 tumores apenas em 2020. Isso significa que mais de 4% dos cânceres globais se devem à ingestão de bebidas alcoólicas, sendo, portanto, totalmente evitáveis e passíveis de prevenção.

O estudo, publicado pela revista The Lancet Oncology, aponta diferenças importantes por região e sexo: três em cada quatro cânceres provocados pelo álcool atingiram homens e as regiões do planeta mais afetadas são o Extremo Oriente e a Europa Central e de Leste.

O estudo destaca a contribuição de, inclusive, níveis relativamente baixos de consumo de álcool para as taxas de câncer, o que é preocupante, mas também sugere que pequenas mudanças no comportamento público em relação à bebida poderiam ter um impacto positivo nas futuras taxas de câncer.

Lamenta-se que a população não saiba o suficiente sobre essa associação direta entre as bebidas alcoólicas e o câncer de mama, de boca, de garganta, de laringe, de esôfago, de fígado, de cólon e de reto.

Há pouca consciência da relação entre o álcool e o risco de câncer no público em geral, mas acrescentar advertências sobre o câncer nos rótulos das bebidas, semelhantes às usadas nos cigarros, poderia dissuadir as pessoas de comprar produtos alcoólicos e aumentar a consciência sobre a relação causal com o câncer. Além disso, a indústria do álcool se empenha em confundir a população sobre esse risco.

Diante dos fatos apresentados é imprescindível medidas de combate ao uso abusivo de álcool; regulamentação de venda e de propagandas do produto e, ainda, a estruturação de medidas preventivas e rastreamento para priorizar diagnóstico precoce da população exposta ao fator de risco mencionado. Priorizar hábitos saudáveis é eficaz no combate ao câncer.

 

Referências Bibliográficas:

  1. https://www.thelancet.com/journals/lanonc/article/PIIS1470-2045(21)00279-5/fulltext
  2. https://www.inca.gov.br/causas-e-prevencao/prevencao-e-fatores-de-risco/bebidas-alcoolicas#:~:text=Estudos%20mostram%20que%20consumir%20bebidas,para%20todas%20as%20bebidas%20alco%C3%B3licas.
  3. https://pebmed.com.br/pesquisadores-associam-consumo-de-alcool-a-risco-de-cancer/

 

Mas, afinal, o que é transplante de medula óssea e para quem é indicado?

Lorena Bedotti Ribeiro

CRM: 158055

Hematologista

 

O transplante de células tronco hematopoéticas (TCTH) é um tratamento potencialmente curativo para uma variedade de neoplasias hematológicas (leucemias, linfomas, mieloma múltiplo, etc), distúrbios benignos da medula óssea (anemia falciforme, anemia aplásica, talassemia, etc), neoplasias oncológicas (tumor de células germinativas, neuroblastoma), doenças autoimunes e de erros inatos do metabolismo. É um procedimento no qual o paciente é condicionado com quimioterapia e/ou radioterapia e/ou agentes imunoterápicos, seguido pela infusão de células progenitoras hematopoiéticas de qualquer fonte ou doador para reconstituir a medula óssea.

O TCTH pode ser dividido em subtipos baseados no doador de células hematopoiéticas, na fonte de células progenitoras hematopoiéticas e no regime preparativo. Cada um desses fatores influencia a eficácia e as toxicidades de curto e longo prazo associadas ao procedimento.

Fontes das células progenitoras hematopoiéticas:

  • Sangue periférico – coletadas por aférese após aplicação de fatores de crescimento hematopoiético.
  • Sangue do cordão umbilical.
  • Medula óssea – colhidas diretamente após punção dos ossos da bacia.

Tipos de TCTH relacionado aos doadores:

  • Autólogo – células progenitoras hematopoiéticas são coletadas do paciente antes da administração de quimioterapia em altas doses projetadas para atingir uma neoplasia subjacente.
  • Alogênico – células progenitoras hematopoiéticas coletadas de um parente ou de um doador não relacionado que apresente compatibilidade com o paciente. A análise é realizada a partir de amostras de sangue do doador e do paciente, chamado de exame de histocompatibilidade (HLA). Os irmãos do paciente, de mesmo pai e mesma mãe, são os familiares que têm a maior chance de serem 100% compatíveis (HLA-idêntico). Caso não apresente doador aparentado HLA-idêntico pode-se encontrar um doador não aparentado no REDOME (Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea), realizar um transplante com doador aparentado haploidêntico (50% compatível) ou com células do banco de cordão umbilical.

Apenas cerca de 25% dos pacientes apresentam doador ideal (aparentado HLA-idêntico). No restante dos casos torna-se necessário procurar um doador alternativo. Pessoas saudáveis, com 18-35 anos, sem doenças infecciosas, incapacitantes, neoplasias, doenças hematológicas ou autoimunes podem se cadastrar nos bancos de sangue/ Hemocentros para serem doadores não aparentados no REDOME e, assim, ajudar esses pacientes a aumentarem suas chances de cura.

 

Leucemia: informações importantes para população

Lorena Bedotti Ribeiro

CRM: 158.055

Hematologista

 

A medula óssea é o local de fabricação das células sanguíneas. Na medula óssea saudável as células-tronco nascem, amadurecem e passam por um processo de diferenciação, formando os diversos tipos de células do sangue: glóbulos brancos (leucócitos), glóbulos vermelhos (hemácias) e plaquetas.

As leucemias são cânceres hematológicos decorrentes de mutações genéticas nas células-tronco da medula óssea, gerando glóbulos brancos doentes que não funcionam normalmente, se multiplicam mais rápido e morrem menos, atrapalhando a produção saudável das demais células da medula.

Podem ser classificadas em crônicas ou agudas conforme a velocidade de crescimento das células leucêmicas. Quando crônica há produção de células maduras, capazes de realizar algumas funções normais, progredindo lentamente.  Quando aguda, produz células imaturas, incapazes de realizar suas funções normais, progredindo rapidamente. Sua classificação também depende do tipo de glóbulo branco acometido podendo ser mieloides ou linfoides. Tipos:

  • Leucemia Mieloide Crônica (LMC)
  • Leucemia Linfocítica Crônica (LLC)
  • Leucemia Mieloide Aguda (LMA)
  • Leucemia Linfoblástica Aguda (LLA)

 

Pelo site do INCA, em 2020 foram diagnosticados 10.810 casos novos de leucemia no Brasil, sendo 5.920 em homens e 4.890 em mulheres.

Podem apresentar como fatores de risco a exposição a produtos químicos e irradiação, tratamento prévio de outros cânceres, exposição a cigarro e desordens genéticas. Vale ressaltar que a maioria dos casos não apresentam fatores de risco conhecidos, não podendo ser evitados.

Podem apresentar como sintomas fraqueza, cansaço, tontura, palidez, inapetência, perda de peso, falta de ar, febre, suor a noite, dor óssea, hematomas e sangramentos, infecções, aumento do baço, do fígado e dos linfonodos (ínguas).

Para diagnóstico, são realizados exames com coleta de sangue e/ou punção da medula óssea, como hemograma, mielograma, imunofenotipagem por citometria de fluxo, citogenética, testes moleculares, FISH, biópsia de medula. Tomografias computadorizadas, ressonâncias magnéticas e punção lombar para coleta de líquor também podem ser necessárias.

O tipo de tratamento e a duração vão depender do tipo de leucemia, podendo ser feito com quimioterapia (injetável ou oral), terapias-alvo (substâncias que bloqueiam proteínas ou moléculas envolvidas no crescimento das células cancerígenas), radioterapia, transplante de medula óssea e imunoterapia (anticorpos monoclonais ou CAR T cell).

O diagnóstico precoce proporciona melhores resultados no tratamento, sendo indicada avaliação médica em todo paciente com quadro clínico sugestivo.

 

Mamografia: em todas as idades?

O câncer de mama é o tumor mais frequente entre as mulheres no Brasil e no mundo. É também a primeira causa de morte por câncer no Brasil e no mundo. Dados de países com alta renda demostram uma queda de mortalidade atribuída aos programas de rastreamento e terapias mais efetivas. No Brasil não observamos diminuição da mortalidade por câncer de mama. A dificuldade de acesso aos tratamentos e o diagnóstico tardio podem ser as causas.

Em que idade começar o rastreamento?

É importante não esquecermos: a mamografia é o único exame que, quando realizado rotineiramente pela mulher a partir dos 40 anos, na ausência de quaisquer sintomas nas mamas, diminui o risco de falecer por um câncer de mama. Isso foi comprovado em grandes estudos realizados em mais de 500 mil mulheres, com redução da mortalidade entre 10% e 35% no grupo de mulheres que faziam mamografias regularmente comparada às que não faziam. A ultrassonografia e a ressonância magnética podem complementar o rastreamento, especialmente em mulheres de alto risco ou com mamas densas.

No Brasil, as sociedades médicas recomendam o rastreamento mamográfico anual para as mulheres entre 40 a 75 anos. Temos uma proporção maior de diagnósticos em pacientes jovens do que em outros países, como Alemanha e Estados Unidos, com 41% de pacientes com diagnóstico de câncer de mama em idade inferior a 50 anos. Já o Ministério da Saúde indica a mamografia de rastreamento para mulheres de 50 a 69 anos sem sinais e sintomas de câncer de mama, a cada dois anos. A mamografia diagnóstica, diferente da mamografia de rastreamento, é indicada para avaliar lesões mamárias suspeitas e pode ser realizada em qualquer idade, inclusive em homens. A mamografia de rastreamento é para mulheres assintomáticas, já a mamografia diagnóstica é indicada quando há uma lesão mamária suspeita.

Nenhum teste de rastreamento é perfeito e a mamografia não é exceção. Fatores como a densidade mamária e a idade influenciam a efetividade da mamografia, dificultando a detecção dos tumores. A mamografia de rastreamento é menos efetiva em mulheres mais jovens por possuírem mamas mais densas. Em torno de 25% dos cânceres de mama em mulheres entre 40-49 anos não são detectados pela mamografia. Em mulheres com lesões suspeitas e especialmente com nódulos palpáveis, a investigação rápida com avaliação, mamografia, ultrassonografia e, se indicado biopsia, são primordiais para um diagnóstico precoce.

 

Em que idade parar o rastreamento?

Como recomendação, a mamografia de rastreamento em mulheres com mais de 75 anos deveria ser interrompida. Os benefícios do rastreamento mamográfico com diminuição de risco de morte nesta faixa etária não foi demonstrado. A maioria dos tumores em mulheres idosas tem crescimento lento, podendo não afetar a expectativa de vida e, assim, não impactar na mortalidade. O recomendado, em casos selecionados, é uma avaliação individual, se possível de acordo com a saúde e doenças existentes que impactam na expectativa de vida de cada mulher. Segundo o IBGE a expectativa de vida dos brasileiros vem aumentando e a das mulheres é 80,3 anos. Temos, portanto, uma população cada vez mais idosa e com melhor expectativa de vida. Assim, o seguimento com mamografia de rastreamento deveria ser descontinuado em mulheres com expectativa de vida menor que 5 anos e avaliada individualmente em mulheres acima de 75 anos.

Além da importância da vacinação contra a COVID-19, saiba porque vacinar contra o HPV é fundamental para prevenir o câncer de colo uterino

No ano de 1989, durante um período sabático na Universidade de Cambridge, o médico e imunologista Ian H. Frazer conheceu o virologista chinês Dr. Jian Zhou, ambos interessados no estudo do papilomavírus humano (HPV). Foi o início de uma parceria que levou o Dr Jian a se mudar para a Austrália menos de um ano após esse encontro para trabalharem juntos no desenvolvimento de modelos laboratoriais de HPV. Dezessete anos depois, em 2006, a primeira dose de uma vacina contra o HPV era administrada na Austrália, marcando um importante momento para todas as mulheres ao redor do mundo.

A associação entre a infecção pelo HPV e o desenvolvimento de câncer em seres humanos foi inicialmente sugerida na década de 1970 e, cerca de 13 anos depois, pesquisadores conseguiram demonstrar em laboratório que o vírus era capaz de transformar diferentes tipos de células em células com capacidade de desenvolver tumores. Foi o primeiro vírus causador de câncer descrito. Desde então, a associação entre a infecção pelo HPV e o desenvolvimento de diversos outros tumores foi também estabelecida. E, se nós conhecemos a causa de uma doença, temos nas mãos uma ferramenta essencial para a sua prevenção.

 

Hoje, o câncer de colo uterino ocupa a quarta posição entre os cânceres mais frequentemente diagnosticados em mulheres e representa a terceira causa de morte por câncer entre elas. A cada ano, mais de 300.000 mulheres em todo o mundo morrem em decorrência desse tipo de câncer e cerca de 90% dessas mortes ocorrem em países de média e baixa renda. Trazendo o foco para o Brasil, estima-se que a cada ano mais de 16.000 mulheres são diagnosticadas com câncer de colo uterino. No ano de 2019, mais de 6.500 mulheres morreram em decorrência dessa doença. E, embora tenhamos observado redução significativa no número de novos casos de câncer de colo uterino no Brasil, nos últimos 20 anos, ainda persistem importantes diferenças regionais. E, tão surpreendente quanto esses números, é o fato de que o câncer de colo uterino pode ser evitado.

No final de 2020, a OMS lançou um projeto global ambicioso com o objetivo de acelerar o processo para a eliminação do câncer de colo uterino. O alvo a ser atingido até o ano de 2030 é garantir a vacinação de 90% das meninas contra o HPV antes dos 15 anos de idade, o rastreamento de 70% das mulheres, e o tratamento adequado e em tempo hábil para os casos de lesões precursoras (pré-cancerosas) e de câncer propriamente dito. A OMS estima que, se atingirmos esses três objetivos, seremos capazes de reduzir em 40% o número de novos casos de câncer de colo uterino e evitar 5 milhões de mortes pela doença até o ano de 2050.

De fato, um grupo de pesquisadores colaboradores da OMS conduziram estudo no qual empregaram modelos estatísticos para estimar a viabilidade e o tempo para eliminação do câncer de colo uterino em 78 países de média e baixa renda, de acordo com a adoção do rastreamento e da vacinação contra o HPV. Segundo esse estudo, se tais países conseguirem vacinar 90% das meninas haveria uma redução de 89% no número de casos novos da doença nos próximos 100 anos. Essa redução é muito mais significativa se associamos o rastreamento, resultando no diagnóstico de menos de 1 caso por cada 100.000 mulheres a cada ano. Obviamente tais modelos estatísticos apresentam limitações, mas o que essas estimativas nos mostram é que é possível reduzirmos drasticamente a ocorrência do câncer de colo uterino a níveis de quase erradicação.

No Brasil, estratégias de saúde pública para combate ao câncer de colo uterino vêm sendo desenvolvidas desde a década de 1980, sendo reforçadas a partir de meados da década seguinte. Inicialmente baseado na realização dos testes de rastreamento de Papanicolaou (citologia oncótica do colo uterino), que são realizados de forma oportunista quando a mulher procura uma unidade de atenção básica para a realização do teste ou por outros motivos. Outros métodos de rastreamento, incluindo a pesquisa de material genético do HPV, já existem e estudos estão sendo conduzidos analisando a viabilidade de sua utilização no programa do Sistema Único de Saúde (SUS).

A vacina contra o HPV já está disponível no Brasil e incluída no Programa Nacional de Imunização desde 2014. A vacina administrada é a chamada tetravalente, e tem cobertura principalmente contra quatro cepas de HPV sabidamente causadores de câncer: 6, 11, 16 e 18. Além disso, ela é capaz de oferecer certo grau de proteção cruzada contra outras cepas menos comuns. Inicialmente, a vacina estava recomendada apenas para meninas de 9 a 13 anos, porém em 2017 a vacinação foi expandida para incluir também os meninos de 11 a 13 anos. A vacinação dos meninos, além de proteger contra certos tipos de câncer associados ao HPV, também evita que eles sejam portadores assintomáticos do vírus e possam transmitir o HPV para outras pessoas durante a relação sexual sem proteção.

Nos primeiros seis meses de implementação da vacinação, a vacina era administrada nas escolas, o que garantiu uma cobertura muito alta. A recomendação era que fossem aplicadas duas doses com intervalo de seis meses, seguidas de uma terceira dose após cinco anos. Posteriormente, a terceira dose foi eliminada e mantidas apenas as duas primeiras doses. No entanto, apesar da disponibilidade da vacina gratuitamente no Brasil, a cobertura vacinal ainda é considerada baixa. Os dados oficiais mostram que, no período de 2014 a 2017, 72% das meninas haviam recebido uma dose, mas apenas 45% completaram o esquema de duas doses. Os dados para os meninos são ainda piores, com uma cobertura de apenas 20%. Um fator agravante recente foi a pandemia de COVID-19, que teve impacto direto na atenção à saúde, incluindo a cobertura vacinal contra o HPV.

Idealmente, a vacina deve ser aplicada antes do primeiro contato com o HPV, ou seja, antes da primeira relação sexual. Por isso a faixa etária definida para as meninas e os meninos. No entanto, estudos mais recentes têm mostrado também eficácia da vacina quando administrada mesmo após um primeiro contato com o vírus. Isso talvez impacte as recomendações futuramente. Um outro ponto importante é que sabemos que o tempo transcorrido entre a infecção pelo vírus e o desenvolvimento do câncer de colo do útero é em média de 20 a 30 anos. Sendo assim, os efeitos benéficos da vacinação contra o HPV serão percebidos de forma mais significativa daqui algumas décadas. Nesse contexto, fica clara a importância de fortalecermos concomitantemente o programa de rastreamento do câncer de colo uterino.

Mas os efeitos já estão sendo notados. No Reino Unido, a vacinação contra o HPV foi iniciada no ano de 2008 e, no final de 2021, pesquisadores ingleses publicaram um estudo no qual relataram uma redução do número de diagnósticos de câncer de colo uterino e de lesões precursoras em mulheres jovens (20-30 anos), sendo a estimativa de redução da ordem de 87% quando essas mulheres foram vacinadas entre os 12 e 13 anos. Esses resultados precisam ser analisados com cautela, visto que o câncer de colo uterino geralmente é diagnosticado em idades mais avançadas e raramente em mulheres tão jovens. Mas a observação de uma redução importante nos casos de lesões precursoras alimenta a esperança na possibilidade de reduzirmos drasticamente os casos de câncer de colo uterino e as mortes decorrentes dessa doença.

 

Referências

 

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