É “fake”, ou seja, são mentirosas as afirmações que vêm circulando em posts nas redes sociais. Segundo a publicação, bater no abdome com objetos duros, comer pepino, usar xampu na cabeça e beber água gelada, de coco ou com gás, enquanto a mulher está menstruada, causaria esterilidade, câncer de útero e “químicos”.
As informações são completamente falsas e sem qualquer embasamento científico. A esterilidade tem causas variadas, dentre as quais não se encontram nenhuma dessas situações listadas. Quanto ao câncer de útero, a sua ocorrência tem associação mais clara com fatores como obesidade (endométrio) e vírus HPV (colo do útero).
Devemos ficar atentos às notícias falsas, sensacionalistas e irresponsáveis e sempre duvidar de publicações cujas fontes não sejam citadas ou confiáveis. O ideal é procurar orientação médica com seu clínico ou ginecologista para obter informações cientificamente corretas.
Referências:
Onstad MA, et al. Addressing the Role of Obesity in Endometrial Cancer Risk, Prevention, and Treatment. J Clin Oncol 2016;34(35):4225-30.
Jose-Miller AB, et al. (2007). Infertility. Am Fam Physician 2007;75:849–56.
Ferlay J, et al (2018). Global Cancer Observatory: Cancer Today. Lyon, France: International Agency for Research on Cancer. Available from: https://gco.iarc.fr/today
Novo biossimilar para tratamento do câncer de mama
No dia 20 de maio, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o medicamento biossimilar Herzuma®, cuja referência é o Herceptin®. Ambos são indicados no tratamento do câncer de mama, tanto nas fases iniciais quanto nas avançadas.
Os dois compostos são nomes comerciais do anticorpo monoclonal Trastuzumabe, que é uma molécula complexa produzida em laboratório com um alvo específico, no caso, a proteína Her2, presente em maior quantidade em alguns tipos de tumores de mama. Em relação ao Herzuma®, esta é uma medicação conhecida como biossimilar, uma cópia do composto de referência com eficácia e segurança semelhantes. O Herzuma® foi testado e aprovado no estudo CT-P6 3.2, publicado em 2017.
A principal vantagem dos biossimilares é o preço, que, geralmente, é mais reduzido. Dessa forma, a incorporação ao arsenal terapêutico no Brasil é um avanço, já que pode aumentar o acesso das pacientes com câncer de mama ao tratamento mais adequado.
O Herzuma® ainda passará pela precificação na Câmara de Regulação de Mercado de Medicamentos (CMED) e deverá estar disponível comercialmente nos próximos meses.
Referências:
Stebbing J, et al. CT-P6 compared with reference trastuzumab for HER2-positive breast cancer: a randomised, double-blind, active-controlled, phase 3 equivalence trial. Lancet Oncol 2017;18(7):917-28.
O grande mal dos últimos séculos. Todo mundo conhece alguém que morreu por causa do cigarro
O uso do tabaco para fumo é com certeza o maior mal instalado na sociedade moderna. E quando digo moderna, me refiro há mais de 200 anos de vício contínuo, dizimando anualmente milhões de vidas. É controverso quando tudo começou, mas os astecas e maias, na América Central, já fumavam substâncias psicoativas, enroladas em folhas de plantas como o tabaco. A partir da dominação espanhola no Novo Continente, o tabaco chegou à Europa e em 1830 ganhou a França, onde se popularizou. A partir de 1845 foi lançado à escala industrial sob a tutela do estado francês, que geria a produção e comercialização. No Brasil, os indígenas já usavam o fumo em alguns rituais e colaboraram para sua chegada em Portugal após as grandes navegações.
Os efeitos deletérios e o grande mal causado pelo cigarro só seriam conhecidos e combatidos mais tarde. Até o fim da década de 1970 e início de 1980, o cigarro esteve relacionado ao glamour, ao status financeiro e a maior sexualidade. O tabagismo era amplamente divulgado pelos filmes de Hollywood e as propagandas eram sempre atreladas aos estilos de vida saudáveis e às práticas esportivas, principalmente àquelas mais elitizadas. Fumar era “bonito” e estava na moda.
Somente no fim dos anos 80, o inimigo começou a mostrar como era traiçoeiro e muitas vezes mortal. São mais de 7.000 compostos químicos em um único cigarro, dentre os quais, pelo menos 250 são reconhecidamente prejudiciais e mais de 50 são sabidamente cancerígenos. É disparado o maior fator de risco para o desenvolvimento de câncer e está relacionado a quase todos os tumores, com particular importância em neoplasias de pulmão, cabeça e pescoço, esôfago e bexiga. De cada 100 casos de câncer, cerca de 40 estão associados ao cigarro. Portanto, se a população mundial parasse de fumar, um terço dos casos de câncer seriam evitados. Além disso é o segundo fator de risco mais importante para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares (perdendo apenas para hipertensão arterial), sem contar as diversas outras doenças respiratórias.
Os pacientes que fumam têm em média 14 anos menos de expectativa de vida em relação a quem não fuma. Está cada vez mais claro que os tabagistas passivos (aqueles que não fumam, mas convivem de perto com quem fuma) também têm mais chances de desenvolver câncer, doenças cardíacas e pulmonares. O tabagismo é considerado a maior causa evitável de morte no mundo. Estima-se que 100 milhões de pessoas tenham morrido no século XX em decorrência do fumo. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam para 7 milhões de mortes ao ano, sendo 12% dessas mortes em fumantes passivos. Só no Brasil, são 400 mortes por dia, 20 mortes por hora, por doenças causadas pelo tabaco, um impacto gigantesco na saúde e na economia.
Geralmente, os tumores associados ao cigarro tendem a ser mais agressivos devido à biologia associada ao surgimento do câncer nessa situação. As várias substâncias cancerígenas do cigarro causam danos no DNA da célula normal, produzindo muitas mutações genéticas. Quanto maior o número de mutações, pior tende a ser o tumor e menor sua resposta ao tratamento.
O câncer de pulmão, o segundo mais comum e aquele que mais mata, está diretamente relacionado ao tabagismo: cerca de 90% dos pacientes fumam ou já fumaram. Trata-se de uma das neoplasias mais agressivas, acometendo cerca de 1,8 milhões de pessoas no mundo e em mais de 80% dos casos a doença é diagnosticada em fases avançadas com metástases, quando a cura é praticamente impossível. Até aqueles que param de fumar precisam de 20 anos para terem seus riscos diminuídos para próximo de uma pessoa que nunca fumou. Mesmo com os avanços no tratamento com as terapias-alvo e a imunoterapia, a prevenção continua sendo o melhor caminho.
O câncer de cabeça e pescoço, conhecido como carcinoma epidermoide, que representa o terceiro tipo mais comum de câncer nos homens no Brasil (quando contamos os tumores de cavidade oral, faringe, hipofaringe e laringe juntos), está intimamente relacionado ao tabagismo, sendo acompanhado logo em seguida pelo álcool e depois pelo vírus do HPV. Esses tumores exigem tratamentos agressivos com cirurgias muitas vezes mutiladoras ou quimioterapias associadas à radioterapia com muitos efeitos colaterais.
Outro tipo de câncer muito relacionado ao tabagismo ė o de bexiga, cada vez mais comum nos países em desenvolvimento e também extremamente agressivo nas fases mais avançadas. Se não diagnosticado muito precocemente exige cirurgias extremamente invasivas, que comprometem diretamente a qualidade e tempo de vida do indivíduo. Em 2018, foram quase 10.000 casos novos dessa doença com quase 4.000 mortes no Brasil.
O tabagismo também está associado a outros tumores, como câncer de estômago, pâncreas, mama, rins, intestinos e sangue. Embora sua prática venha caindo nos países desenvolvidos e no Brasil, estima-se que um em cada quatro homens e uma em cada vinte mulheres ainda fumem. Em países como China, EUA e Rússia, a mortalidade pelo cigarro aumentou nos últimos anos.
No Brasil, hoje, 12% da população é tabagista, menos da metade de duas décadas atrás. Isso foi conquistado com políticas mais duras como aumento dos impostos sobre o cigarro, proibição de propagandas, restrição do uso em ambientes fechados e uso de fotos nas embalagens que mostram os efeitos deletérios causados pelo hábito. Outra boa notícia é que o número de fumantes passivos também vem diminuindo assim como o uso entre os jovens. Ainda assim, ocupamos a oitava posição no ranking em número absoluto de tabagistas.
E, no mundo moderno, os riscos podem simplesmente mudar de roupagem. É o caso do uso crescente do narguilé (que vem ganhando adeptos entre os jovens) e pode equivaler a 100 cigarros fumados em uma única sessão. E os cigarros eletrônicos, que contém menos substâncias tóxicas pois não queimam o tabaco, mas ainda não se sabe os danos que podem causar a longo prazo. Além disso, foi sugerido recentemente pelo governo brasileiro a diminuição do imposto sobre o cigarro, o que seria uma tragédia anunciada.
O fato é que o câncer é a segunda maior causa de morte no mundo e em poucos anos se tornará a primeira. E pelo menos um terço dos casos estão relacionados ao tabagismo e, portanto, poderiam ser evitados. Além disso, o cigarro é individualmente o maior fator de risco para mortes no mundo. Bilhões em dinheiro são gastos anualmente em tratamentos relacionados ao tabaco e milhões de pais, mães e filhos têm as suas vidas ceifadas por esse que é o grande mal dos últimos séculos! A prevenção continua sendo o melhor caminho.
Aberta consulta pública sobre proposta de incorporação de medicamento para câncer de próstata no SUS
No último dia 9, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC) abriu uma consulta pública sobre a proposta de incorporação da Abiraterona no tratamento de pacientes com câncer de próstata metastático no sistema público.
A indicação solicitada é para pacientes que tenham a doença não controlada após terapia hormonal e quimioterapia. Hoje, no SUS, a defasagem do arsenal de terapêuticas para o câncer de próstata é alta e a Abiraterona já é largamente conhecida, estudada e utilizada em todo o mundo. O principal estudo para o contexto é de 2011 e mostrou, em sua análise final, uma redução do risco de morte de 25% e boa tolerância, além de melhora em qualidade de vida.
A recomendação preliminar da CONITEC é pela inclusão do medicamento e a consulta pública convida tanto cientistas quanto a população geral (como pacientes e sua experiência) a participarem. A data-limite para envio de pareceres é dia 28 de maio de 2019 e o envio pode ser feito pelo site http://conitec.gov.br/consultas-publicas (Consulta Pública nº 26).
Esse passo é muito importante e a previsão de aprovação traz novas possibilidades para tratamento dos pacientes do SUS, o que é sempre um avanço. Vamos continuar alertas e informaremos quando o parecer final for emitido.
Referências:
De Bono JS, Logothetis CJ, Molina A, Fizazi K, North S, Chu L, et al. Abiraterone and increased survival in metastatic prostate cancer. N Engl J Med 2011;364(21):1995-2005.
Logothetis C, De Bono JS, Molina A, Basch EM, Fizazi K, North SA, et al. Effect of abiraterone acetate (AA) on pain control and skeletal-related events (SRE) in patients (pts) with metastatic castration-resistant prostate cancer (mCRPC) post docetaxel (D): results from the COU-AA-301 phase III study. Journal of clinical oncology. 2011;29(15 SUPPL. 1).
Publicação do Diário Oficial da União (DOU):
Nova indicação de tratamento em câncer de mama HER2 positivo
A agência de regulação de medicamentos dos Estados Unidos, o FDA (Food and Drug Administration) – que corresponde à ANVISA brasileira – aprovou, em 03 de maio passado, a indicação do medicamento Kadcyla® (trastuzumabe-entansina, conhecida como TDM-1) para tratamento adjuvante de mulheres com câncer de mama localizado. A aprovação de baseou nos dados recentemente apresentados do estudo KATHERINE, recém-publicado, que selecionou mulheres com tumor de mama do tipo HER2 positivo, que tivessem recebido quimioterapia pré-cirurgia baseada em 2 drogas específicas (taxanos e trastuzumabe) e, na avaliação da peça cirúrgica, apresentassem tumor residual. As pacientes selecionadas eram aleatorizadas a receberem o TDM-1 ou o padrão de tratamento atual (trastuzumabe) por 14 ciclos de 21 dias. Os resultados mostraram um aumento de 50% da sobrevida livre de recorrência de doença invasiva, ou seja, aumentou o tempo que as pacientes demoravam para apresentar recidiva da doença ou para morrer. Os efeitos adversos mais comuns foram fadiga, alterações hematológicas, náuseas e neuropatia.
Este é um avanço importante para as mulheres com câncer de mama e seguimos atentos para termos a aprovação também no Brasil.
Referências:
Von Mickwitz G, et al. Trastuzumab Emtansine for Residual Invasive HER2-Positive Breast Cancer. N ENgl J Med 2019;380:617-28.
Bula FDA: https://www.accessdata.fda.gov/drugsatfda_docs/label/2019/125427s105lbl.pdf
Aprovada primeira imunoterapia para o câncer de mama no Brasil
No dia 13 de maio último, a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou a indicação do primeiro tratamento baseado em medicação imunoterápica para pacientes com câncer de mama no nosso país.
Os indivíduos beneficiados serão aquelas pacientes com tumores do tipo triplo negativo, que têm um comportamento mais agressivo e, consequentemente, uma mortalidade maior, além de opções de tratamento com menos eficácia quando comparado aos outros tipos de tumores.
O medicamento aprovado foi o Atezolizumabe (Tecentriq®) em combinação com quimioterapia-padrão e a eficácia foi comprovada pelo estudo IMPassion130, recentemente apresentado e publicado. Os resultados mostram uma redução significativa de 20% do risco de morte ou progressão de doença. Este benefício foi ainda maior nas pacientes que tinham PDL-1 (um marcador das células do tumor que pode sugerir sensibilidade aumentada à imunoterapia) maior que 1%; nestas pacientes, a redução de morte ou progressão foi de 38%.
Esses dados são bastante importantes para este grupo de pacientes e reforçam a necessidade de pesquisas. Reiteram também, que a imunoterapia pode ajudar muito no tratamento do câncer.
Em 15 de março, a Dra. Vivian havia anunciado a aprovação nos EUA e, hoje, felizmente, anunciamos aqui no Brasil. Uma notícia boa, melhor ainda pela celeridade em que a ANVISA o fez, permitindo acesso às brasileiras aos tratamentos mais eficazes de forma mais rápida.
Schmid P, et al. Atezolizumab and Nab-Paclitaxel in Advanced Triple-Negative Breast Cancer. N Engl J Med 2018;379:2108-21;
http://www.in.gov.br/web/dou/-/resolu%C3%87%C3%83o-re-n%C2%BA-1.222-de-9-de-maio-de-2019-92473593
Maio é um mês realmente da mulher: Dia Mundial do Câncer de Ovário (8 de maio), Dia das Mães (12 de maio) e Dia Internacional de Luta Pela Saúde da Mulher (28 de maio)
Por isso, o Grupo SOnHe escolheu maio para falar da saúde da Mulher no II Simpósio de Tumores Femininos de Campinas, que acontece entre os dias 17 e 18 de maio.
Quem é a mulher que adoece no Brasil?
Não é de costume começar um texto por sua resposta principal ou mais importante. Mas faço aqui uma exceção à regra e inicio pela parte que mais me toca nessa resposta: a mulher que adoece no Brasil é a mesma que sonha, que ama, que gesta, que trabalha, que cuida de tantos e de tudo.
Essa mulher é a que está ao seu lado. A que te ama, a que te cuida ou a que está dentro de você. Ela é cada uma de nós ou cada uma que está ao seu lado apoiando sua vida.
No Brasil, uma em cada oito mulheres nascidas hoje terão câncer de mama durante a vida, se viverem até os 60 anos. Dessas, 82% não tem nenhum antecedente familiar de câncer de mama.
O câncer de mama é ainda o principal tumor nas mulheres e também o responsável pelo maior número de óbitos no Brasil e no mundo. Mas, e no nosso Brasil, quem é a mulher que adoece de câncer de mama? Alguns pesquisadores iniciaram, em 2008, uma pesquisa com o objetivo principal de descrever quem são, como são e como é a doença nas mamas dessas brasileiras.
Numa série de estudos intitulada “AMAZONA I-III”, pesquisadores do Brasil todo nos deram a oportunidade única de conhecer melhor esse cenário. Uma das informações mais importantes foi que no Brasil temos 41% de pacientes com diagnóstico de câncer de mama em idade inferior a 50 anos, o que é uma proporção maior de diagnósticos em pacientes jovens do que em outros países, como Alemanha e Estados Unidos.
Esse número chama atenção para uma reflexão nas estratégias de rastreamento adotadas atualmente no nosso país, em que se recomenda a mamografia de rotina a partir dos 50 anos. A informação mostra que é necessário pensar em estratégias eficazes de rastreamento em idade inferior aos 50 anos na nossa população.
Outro dado que chama muito a atenção e traz preocupação é que o diagnóstico das nossas mulheres é feito em fase mais tardia da doença. Em torno de 71% das pacientes são diagnosticadas nos estádios II (46,8%) e III (24,6%), quando a doença já é localmente avançada, o que certamente impacta direta e negativamente na mortalidade das brasileiras. Esse número é consideravelmente mais alto do que em países desenvolvidos, como os Estados Unidos, com dados que mostram apenas 31% de pacientes com diagnóstico na fase localmente avançada da doença.
Em Campinas, o maior centro de tratamento de saúde feminina, com atendimento 100% público, recebe 500 novos casos de câncer de mama a cada ano, sendo que 40% dessas pacientes têm doença localmente avançada (estádio III) e 60% delas já têm sintomas ao diagnóstico. É um dado muito alarmante, pois é sabido e divulgado que o diagnóstico precoce de câncer de mama, no estádio I, quando ainda não existe nenhum sinal ou sintoma da doença, traz chance de cura superior à 90%.
No Brasil, apenas 18% das pacientes são diagnosticadas no estádio I, o mais precoce. Quando olhamos comparativamente e retrospectivamente, os dados de 2001 são muito semelhantes aos de 2018, sem melhoras nesse cenário.
Não menos importante é a constatação de que a saúde da mulher brasileira vive a mesma desigualdade que banha o Brasil por inteiro. As mulheres que são dependentes do Sistema Único de Saúde (SUS) têm consideravelmente diagnósticos mais tardios, em fase mais avançada da doença do que as que são tratadas na medicina privada, 36,9% versus 16,2%, respectivamente.
Isso mostra que apesar da estratégia de rastreamento para diagnóstico precoce estar disponível no Brasil, não está atingindo a nossa população de mulheres de forma eficaz, seja por que as mulheres não aderem ao exame oferecido, ou por heterogeneidade na distribuição desse recurso.
Outro tipo de câncer importante entre as mulheres e que também marca um tipo de desigualdade no nosso país é o câncer de colo uterino. Em estados da região Norte do Brasil esse é o primeiro câncer em incidência na mulher, ultrapassando o câncer de mama, que é o primeiro em incidência em todas as outras regiões, sendo um triste marco das diferenças socioeconômicas desse nosso país continental.
Esse dado vem carregado de um “pesar” que já nos acompanha há décadas, pois apesar de ser um câncer bastante prevenível, por meio da vacinação contra o vírus HPV e pelo teste de citologia oncótica do colo (exame papanicolau), temos uma altíssima incidência e mortalidade por essa doença no Brasil, em comparação aos países desenvolvidos, onde sua incidência é bastante baixa. Para 2018, a estimativa esperada foi de 16.370 casos novos, com um risco de 17,11 casos a cada 100 mil mulheres.
Outro tumor que também atinge as mulheres é o de ovário, com menor incidência (estima-se 6.150 casos novos no Brasil) mas que também merece atenção.
Voltando a falar da nossa mulher que sonha, que ama, que gesta, que trabalha, e que “cuida”, paro minha reflexão no verbo “cuidar”. O mesmo cuidado que nossas mulheres têm com seus filhos, netos, maridos e trabalho, deve ser destinado a ela, seja por parte da ciência, que tem o dever de melhorar o cenário da doença com novas descobertas (cada vez mais frequentes, é verdade!), seja por parte do governo, com melhor gestão assistencial, ou por ela mesma, voltando seu olhar para o seu próprio cuidado como forma de amor à vida.
Estou em tratamento contra o câncer. Posso me vacinar?
Quando uma pessoa é diagnosticada com câncer, a prioridade é o tratamento da doença e durante esse período o paciente pode ter dúvidas sobre o que pode e o que não pode fazer. Tomar ou não uma vacina é uma delas.
As vacinas agem estimulando o sistema imunológico para combater doenças infecciosas, tornando o indivíduo imune às mesmas. O objetivo das imunizações é estimular o organismo a produzir anticorpos contra determinados germes, principalmente bactérias e vírus. O nosso sistema imunológico cria anticorpos específicos sempre que entra em contato com algum germe. Portanto, para que uma determinada vacina tenha sucesso, é necessário que nosso sistema imunológico esteja funcionando bem. Pacientes oncológicos podem ter seu sistema de defesa funcionando de forma ineficaz tanto pela doença quanto pelo tratamento empregado como, por exemplo, a quimioterapia.
Há diferentes tipos de vacinas. As chamadas vacinas atenuadas, como o próprio nome indica são fabricadas com formas enfraquecidas ou atenuadas do agente etiológico de certa patologia: vacina contra sarampo, rubéola, varicela, febre amarela, herpes zoster, poliomielite, rotavírus e BCG. Outras vacinas são feitas de microrganismos mortos, toxinas ou proteínas de microrganismos (gripe, hepatite A, hepatite B, HPV, pneumonia).
As vacinas atenuadas têm o potencial de causar a doença a qual foram designadas a proteger se o organismo no qual forem inoculadas também estiver enfraquecido, ou seja, se o sistema imunológico do receptor da vacina não estiver forte o suficiente para formar uma resposta e memória imunológicas. Pacientes oncológicos – em especial os que estão em tratamento de quimioterapia – devem evitar tomar essas vacinas pois seu sistema imune pode estar “enfraquecido”. O mesmo vale para pacientes transplantados. Os que já terminaram o tratamento há mais de três meses e estão sem evidência de doença, a princípio, podem se vacinar normalmente desde que tenham liberação médica.
A dúvida mais frequente de pacientes e familiares principalmente nesta época do ano é referente a vacinação contra gripe. O Ministério da Saúde (MS) deu início à campanha nacional de vacinação no dia 10 de abril de 2019. Todos os anos, a Organização Mundial da Saúde define quais as cepas de vírus da gripe (influenza) vão entrar na composição da vacina. Por este motivo, a população de risco deve se vacinar anualmente. Para 2019, a vacina trivalente fornecida pelo MS é composta por proteínas dos vírus H1N1, H3N2 e influenza tipo B Victoria. Já as versões tetravalentes, disponíveis apenas na rede particular, resguardam contra os subtipos da vacina trivalente e também o vírus B Yamagata.
A Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) emitiu parecer técnico em 2018 em relação à vacinação contra influenza nos pacientes oncológicos. Dentre as principais recomendações estão:
– Pacientes com tumores sólidos ou hematológicos estão incluídos no grupo de pacientes de risco maior para a infecção e complicações de influenza, tendo prioridade e recomendação formal para vacinação;
– Como recomendação geral, pacientes recebendo radioterapia, quimioterapia venosa ou oral, terapia-alvo (incluindo rituximabe) ou pacientes pós-transplante podem receber a vacina com segurança;
– A resposta à vacina para influenza pode ser variável em pacientes em uso de terapia imunossupressora. Embora os dados sejam escassos, recomenda-se, quando possível, administrar a vacina entre os ciclos de quimioterapia e utilizar medidas adicionais de proteção (exemplo: lavar sempre as mãos, evitar locais com aglomeração de pessoas, utilizar álcool gel nas mãos e, caso julgue necessário, máscara de proteção);
– Pacientes utilizando imunoterapia (anticorpos anti-PD-L1 e anti-CTLA4) podem receber a vacina;
– Pessoas em contato frequente com pacientes com câncer e profissionais de saúde, que não apresentem contraindicação, devem receber também a vacina.
Portanto, todos os pacientes oncológicos podem e devem ser imunizados anualmente contra gripe. Em relação às demais vacinas, em especial as feitas com microrganismos atenuados a recomendação é sempre perguntar ao seu oncologista antes de se vacinar.
Cigarro eletrônico, cigarro light e narguilé: soluções ou novos vilões para o câncer de cabeça e pescoço?
O câncer de cabeça e pescoço, apesar de pouco discutido, apresenta um papel de destaque entre as neoplasias mais frequentes no Brasil. Estatísticas do Instituto Nacional do Câncer (INCA) estimam para os anos de 2018-2019, 14.700 novos casos de câncer de cavidade oral e 7.670 novos casos de câncer de laringe e, quando somados, ocupam o posto de terceiro tumor mais frequente nos homens brasileiros.
Essa neoplasia abrange todos os tumores que têm origem na boca (cavidade oral), nariz (nasofaringe, cavidade nasal e seios paranasais), garganta (orofaringe, hipofaringe, laringe) e nas glândulas salivares. O seu principal fator de risco é o tabagismo, sendo o risco de desenvolver câncer de cabeça e pescoço dependente do número de cigarros fumados por dia e seu tempo de uso. Tabagistas pesados têm o risco de desenvolver câncer de 5 a 25 vezes maior do que os não tabagistas. Diante desses dados é inevitável o questionamento: Podemos substituir o cigarro tradicional pelo cigarro eletrônico, cigarro light ou narguilé para evitar esse tipo de câncer? A resposta é NÃO.
O cigarro eletrônico é um dispositivo composto por um cartucho que armazena nicotina líquida, água, substâncias aromatizantes e solventes que, alimentado por uma bateria, produz um vapor com tais compostos. Erroneamente utilizado como uma ferramenta para cessar o tabagismo ou uma forma segura de “fumar”, o cigarro eletrônico vem ganhando mais adeptos em todo o mundo. Um estudo na população norte americana no período de 2010 a 2013 mostrou um aumento de 3,3 para 8,5 % de adultos que já fizerem o uso de cigarro eletrônico (King BA et al, Nicotine Tob Res. 2015).
O maior problema é que não existe evidência cientifica que comprove que o cigarro eletrônico é eficaz para cessar o tabagismo e que seja um hábito seguro para a saúde. Está comprovado que pode aumentar o risco de doenças cardiopulmonares, como infarto agudo do miocárdio e asma, e que contém substâncias potencialmente cancerígenas. A consequência da inalação crônica do vapor e das substâncias carcinogênicas ainda é pouco conhecida em relação ao risco de desenvolvimento do câncer de cabeça e pescoço. É provável que os malefícios causados pelo cigarro tradicional sejam maiores, porém isso não justifica o uso indiscriminado do cigarro eletrônico.
Já o cigarro light, desenvolvido na década de 1960, apresenta menores teores de alcatrão e nicotina e supostamente deveria ser mais “fraco” e com menor potencial de riscos à saúde. Infelizmente isso não é verdade. Para permitir uma maior diluição da fumaça, os filtros possuem pequenos orifícios/perfurações para a ventilação, permitindo a inalação de mais fumaça com taxas mais concentradas de carcinógenos e outras toxinas. Um estudo publicado em 2017 mostrou maior risco de câncer de pulmão, sub tipo adenocarcinoma, em pacientes tabagistas que fizerem uso do cigarro light (Song MA et al, J Natl Cancer Inst. 2017). Quando falamos especificamente sobre câncer de cabeça e pescoço, ainda não temos estudos avaliando a sua segurança, desta forma, assim como os cigarros tradicionais deve ser evitado.
Outra forma de consumo de tabaco que ganhou popularidade na última década é o narguilé. Uma espécie de cachimbo de água no qual o tabaco aromatizado é queimado, atravessa um recipiente com água e a fumaça é aspirada por uma mangueira até a boca.
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde revelam um espantoso aumento de 139% no consumo de narguilé no período de 2008 a 2013 entre homens de 18 a 24 anos no Brasil.
Considerado inofensivo pela grande maioria dos usuários, pode ser mais perigoso que o tabagismo. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), consumir uma rodada do cachimbo é equivalente a fumar 100 cigarros. Os riscos para a saúde estão relacionados com inalação de monóxido de carbono, hidrocarbonetos aromáticos e aldeídos voláteis, que também são encontrados no cigarro. Estudo publicado em 2015 pelo Dr Teja Munshi, revelou aumento de lesões pré-malignas e câncer de cabeça e pescoço em usuários de narguilé (Munshi T et al, J Am Dent Assoc. 2015). O subtipo de câncer mais frequente foi carcinoma epidermóide, o mesmo encontrado nos pacientes tabagistas.
Tendo em vista tais pontuações, o cigarro eletrônico, cigarro light e o narguilé não são formas adequadas para o combate ao câncer de cabeça e pescoço. Muitas vezes difundidos como hábitos inofensivos, na realidade não são seguros e devem ser evitados. A melhor alternativa para reduzir o risco do câncer continua sendo a mesma: suspender o tabagismo, manter hábitos de vida saudáveis e fazer acompanhamento médico de rotina.
Acesso ao diagnóstico e tratamento do câncer colorretal: igual para todos?
Março é o mês de conscientização e prevenção do câncer colorretal, uma doença que merece uma atenção especial! O Instituto Nacional do Câncer (INCA) estima 17.380 casos em homens e 18.980 em mulheres para cada ano do biênio 2018-2019, representando a terceira neoplasia mais frequentes nos homens e a segunda nas mulheres brasileiras. Em nível mundial, também apresenta papel de destaque, ocupando a terceira posição entre as neoplasias mais diagnosticadas e a quarta principal causa de morte por câncer em 2012. Vale ressaltar que, mesmo com os grandes avanços na medicina, é esperado um aumento de casos nos próximos anos, sendo estimado 2,2 milhões de novos casos e 1,1 milhões de mortes até 2030.
O aperfeiçoamento dos métodos de rastreamento, diagnóstico e tratamento dessa neoplasia foram fundamentais para o aumento significativo das chances de cura e do tempo de sobrevida. Porém, nem todos os pacientes são tratados iguais. Existe uma variação nas taxas de incidência e de mortalidade da doença no mundo, que está relacionada com o índice de desenvolvimento socioeconômico. Nos países com baixo e médio desenvolvimento, vivenciamos um aumento no número de novos casos, acompanhado de um maior número de mortes, como é o exemplo do Brasil. Inversamente, existe uma tendência a estabilidade ou queda de novos casos e mortalidade em países desenvolvidos, como nos Estados Unidos. Mas qual a justificativa para essa disparidade? A resposta é complexa e envolve diversos fatores.
Uma das explicações é a falta de acesso aos métodos de rastreamento. Esses exames são realizados em pacientes assintomáticos com intuito de diagnosticar lesões pré-malignas ou tumores iniciais, aumentando assim as chances de cura. No Brasil, o rastreamento está indicado na população geral entre 50 a 74 anos, porém uma grande parcela da população, principalmente os pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), não realizam os exames indicados por falta de políticas de saúde pública adequadas.
A demora para o fazer o diagnóstico em pacientes com sintomas também reduz as chances de cura. Seja por dificuldade para agendar consulta no sistema de saúde ou desinformação, o atraso para investigar sintomas como sangue nas fezes, alteração do hábito intestinal (diarreia ou constipação) e dor abdominal pode aumentar o risco de disseminação do tumor para outros órgãos, o que chamamos de metástases, e reduzir drasticamente as chances de cura. A atenção para esses sinais de alarme é importante para que a população procure avaliação médica no tempo adequado.
Outro fator de extrema importância está relacionado às opções de tratamento para o câncer colorretal. Estudos realizados nos últimos anos reforçam que a falta de acesso ao tratamento oncológico contribui para maior mortalidade. Um desses estudos, publicado em 2010, Altekruse et al, mostrou que a mortalidade por câncer colorretal é 10% maior em homens negros comparado com homens brancos e 7% maior em mulheres negras comparados com as brancas. No entanto, outro estudo (Bach et al., 1999; Dignam et al., 1999, 2003), mostrou taxas de sobrevida semelhantes em afrodescendentes e brancos que vivem nos Estados Unidos recebendo o mesmo tipo de tratamento. Esses dados sugerem então, que o acesso ao tratamento, é o fator de impacto no aumento da sobrevida.
Quando avaliamos a situação do Brasil, notamos uma disparidade no acesso ao tratamento entre o sistema de saúde privado e o SUS. Um exemplo, são as classes de medicamentos chamados anticorpos monoclonais, anti EGFR e os anti VEGF, que quando associados à quimioterapia na doença metastática, são capazes de aumentar o tempo de sobrevida. Atualmente, no Brasil, esses medicamentos são de fácil acesso no meio privado. Já no SUS, os pacientes não têm tal disponibilidade.
Fica claro que o acesso ao diagnóstico e tratamento do câncer colorretal não é igual para todos, difere entre países, regiões do mesmo país e entre classes sociais. Melhorias nas opções de tratamento e acessibilidade são essências principalmente em países subdesenvolvidos e em desenvolvimento. Faz-se necessário a priorização na prevenção primária, no diagnóstico precoce e nas estratégias de diminuição na disparidade de tratamento entre os sistemas de saúde público e privado para que todos tenham as mesmas chances de cura.