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Leucemias: cânceres hematológicos que acometem as células da medula óssea

As leucemias são cânceres hematológicos que acometem as células da medula óssea e, atualmente, se dividem em dois grandes grupos: as leucemias crônicas e agudas. As diferenças destas entidades são principalmente relacionadas ao tipo de células que estão doentes. Ambas possuem componentes genéticos associados ao seu aparecimento no individuo, mas não possuem fatores de riscos ambientais totalmente conhecidos e, infelizmente, não há exames de rastreio destas doenças, sendo seu curso acontecendo ao acaso.

Nas leucemias agudas, há aumento das células imaturas da medula óssea, dificultando a maturação dos demais setores celulares, portanto, fazendo com que o paciente apresente sintomas mais graves e proeminentes, como anemia mais intensas, alterações dos glóbulos brancos, aumento ou queda do numérico dessas células e alteração graves nos valores das plaquetas.

Nas leucemias crônicas, as células comprometidas são mais maduras e, normalmente, seu aparecimento é mais insidioso, ou seja, com manifestações clinicas se apresentam mais lentamente, fazendo com que os pacientes sejam pouco sintomáticos ou assintomáticos, podendo apresentar apenas alterações no hemograma. Quando sintomáticos, os pacientes podem apresentar cansaço prolongado e mantido, perda de peso, perda de apetite e aumento do tamanho do abdome as custas do aumento do baço.

Logo, apesar dessas doenças possuírem os mesmos nomes, as leucemias se diferenciam muito entre si em relação ao quadro clinico, refletindo também, no tipo do seu acompanhamento e tratamento. Sabe-se que as leucemias agudas são as doenças mais graves e precisam, necessariamente, de tratamento medicamentoso com base em quimioterapia, sendo a ausência de tratamento fatal para o paciente. Já as leucemias crônicas devem ser avaliadas pelo médico hematologista para a indicação da necessidade ou não de tratamento medicamentoso, visto que, existe um número importante de pacientes que ficarão apenas em acompanhamento clínico ambulatorial.

É preciso lembrar que sintomas mais importantes e mantidos exigem procura médica imediata, são: cansaço importante, infecções de repetição, sangramentos de mucosas, manchas roxas e vermelhas em excesso pelo corpo, aumento de baço e aumento dos linfonodos sem infecções vigentes aparentes. É importante lembrar que na vigência de qualquer um destes sintomas ou alterações importantes do hemograma é necessária a avaliação clínica do médico hematologista, pois somente assim, poderemos guiar a melhor forma de diagnóstico com a correta diferenciação do subtipo da leucemia e o qual será o seu acompanhamento e tratamento.

Leucemia: informações importantes para população

Lorena Bedotti Ribeiro

CRM: 158.055

Hematologista

 

A medula óssea é o local de fabricação das células sanguíneas. Na medula óssea saudável as células-tronco nascem, amadurecem e passam por um processo de diferenciação, formando os diversos tipos de células do sangue: glóbulos brancos (leucócitos), glóbulos vermelhos (hemácias) e plaquetas.

As leucemias são cânceres hematológicos decorrentes de mutações genéticas nas células-tronco da medula óssea, gerando glóbulos brancos doentes que não funcionam normalmente, se multiplicam mais rápido e morrem menos, atrapalhando a produção saudável das demais células da medula.

Podem ser classificadas em crônicas ou agudas conforme a velocidade de crescimento das células leucêmicas. Quando crônica há produção de células maduras, capazes de realizar algumas funções normais, progredindo lentamente.  Quando aguda, produz células imaturas, incapazes de realizar suas funções normais, progredindo rapidamente. Sua classificação também depende do tipo de glóbulo branco acometido podendo ser mieloides ou linfoides. Tipos:

  • Leucemia Mieloide Crônica (LMC)
  • Leucemia Linfocítica Crônica (LLC)
  • Leucemia Mieloide Aguda (LMA)
  • Leucemia Linfoblástica Aguda (LLA)

 

Pelo site do INCA, em 2020 foram diagnosticados 10.810 casos novos de leucemia no Brasil, sendo 5.920 em homens e 4.890 em mulheres.

Podem apresentar como fatores de risco a exposição a produtos químicos e irradiação, tratamento prévio de outros cânceres, exposição a cigarro e desordens genéticas. Vale ressaltar que a maioria dos casos não apresentam fatores de risco conhecidos, não podendo ser evitados.

Podem apresentar como sintomas fraqueza, cansaço, tontura, palidez, inapetência, perda de peso, falta de ar, febre, suor a noite, dor óssea, hematomas e sangramentos, infecções, aumento do baço, do fígado e dos linfonodos (ínguas).

Para diagnóstico, são realizados exames com coleta de sangue e/ou punção da medula óssea, como hemograma, mielograma, imunofenotipagem por citometria de fluxo, citogenética, testes moleculares, FISH, biópsia de medula. Tomografias computadorizadas, ressonâncias magnéticas e punção lombar para coleta de líquor também podem ser necessárias.

O tipo de tratamento e a duração vão depender do tipo de leucemia, podendo ser feito com quimioterapia (injetável ou oral), terapias-alvo (substâncias que bloqueiam proteínas ou moléculas envolvidas no crescimento das células cancerígenas), radioterapia, transplante de medula óssea e imunoterapia (anticorpos monoclonais ou CAR T cell).

O diagnóstico precoce proporciona melhores resultados no tratamento, sendo indicada avaliação médica em todo paciente com quadro clínico sugestivo.

 

Nova indicação para pacientes com leucemia linfocítica crônica

No fim do mês passado, a Anvisa aprovou a indicação do medicamento Venetoclax (Venclexta®) para pacientes com Leucemia Linfocítica Crônica (LLC) como tratamento inicial em combinação a uma outra droga, o Obinutuzumabe.

A LLC é um tipo de leucemia de crescimento lento e que acomete geralmente pessoas mais idosas. O Venetoclax é um inibidor de BCL2, uma proteína que impede a morte celular, sendo assim o medicamento estimula a apoptose, ou morte programada, das células do tumor.

No estudo CLL14, publicado no New England Journal of Medicine, os pacientes foram randomizados para receber Venetoclax + Obinutuzumabe ou Clorambucil + Obinutuzumabe. O Clorambucil é um tratamento-padrão e é um tipo de quimioterapia. Além disso, o tempo de tratamento foi estabelecido em 12 meses, ou seja, após esse tempo, o tratamento era interrompido e os pacientes mantinham seguimento com seu hematologista.

Os resultados mostraram uma redução de 67% da chance de progressão ou morte, além de maiores chances de ter uma resposta e de alcançar doença residual mínima. Em relação à sobrevida global, a mesma não pode ser analisada ainda em função do baixo número de eventos. Os efeitos colaterais foram semelhantes no geral, porém mais eventos fatais foram detectados no grupo de Venetoclax, ainda que não tenha atingido significância estatística. Esse é um ponto importante para se ter em conta ao utilizar essa medicação.

Essa nova indicação significa uma opção mais eficaz e um tempo de tratamento menor para os pacientes com LLC, o que é, sem dúvida, um benefício e deve levar a uma melhora da qualidade de vida. Numa população que costuma ser mais idosa e ter outros problemas de saúde associados, isso é de grande importância.

Lembramos, entretanto, que, apesar da aprovação na Anvisa, os planos de saúde não estão obrigados a reembolsar o medicamento, já que é uma terapia oral. Como sempre, reforçamos, a necessidade de mudança na rotina de aprovação destas terapias no nosso país é urgente. Em um post anterior (https://sonhe.med.br//2019/09/03/simparaquimiooral/) falamos sobre isso.

Continuamos atentos às novidades.

 

Referências:

Fischer K, Al-sawaf O, Bahlo J, et al. Venetoclax and Obinutuzumab in Patients with CLL and Coexisting Conditions. N Engl J Med. 2019;380(23):2225-2236

http://www.anvisa.gov.br/datavisa/fila_bula/frmVisualizarBula.asp?pNuTransacao=7169012019&pIdAnexo=11368511