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Novo tratamento incluído no rol da ANS para pacientes com câncer de ovário

Em 30 de agosto de 2022, a Agência Nacional de Saúde (ANS), por meio da Resolução Normativa número 542, incluiu como obrigatória a cobertura pelos planos de saúde do tratamento com Olaparibe para mulheres com câncer de ovário.

Tal medida coincide com o início do mês de conscientização sobre câncer de ovário e representa um importante avanço no cuidado a essas mulheres. O câncer de ovário é o sétimo câncer mais comumente diagnosticado nas mulheres brasileiras. A cada ano, mais de 6.600 novos casos são diagnosticados, a maior parte em estádios mais avançados e com menores chances de cura. É uma doença para a qual não temos exames de rastreamento e cujos sintomas são bastante inespecíficos, de forma que o diagnóstico e tratamento adequados devem ser iniciados o mais rapidamente possível.

O Olaparibe é um medicamento da classe dos inibidores de PARP, administrado por via oral, e que é recomendado para mulheres com câncer de ovário que apresentem mutação nos genes BRCA1 e/ou BRCA2, o que ocorre em cerca de um quinto dos casos. Além do câncer de ovário, o Olaparibe também é utilizado no tratamento de outros tipos de câncer, como mama e próstata. A Anvisa já havia aprovado o Olaparibe para tratamento do câncer de ovário, no Brasil, porém ainda não estava incluído na lista de medicamentos de cobertura obrigatória pelos planos de saúde, o que limitava enormemente o acesso a esse tratamento.

A recente inclusão no rol da ANS contempla dois cenários de uso do Olaparibe para câncer de ovário:

  1. Tratamento de manutenção após quimioterapia para mulheres com câncer de ovário seroso ou endometrioide de alto grau, com presença de mutação de BRCA1/2, recidivado e que responderam ao tratamento com platina (estudo SOLO-2)

 

  1. Tratamento de manutenção após quimioterapia para mulheres com câncer de ovário de alto grau, com mutação de BRCA1/2, recentemente diagnosticado, e que respondem à quimioterapia inicial com platina (estudo SOLO-1)

Além disso, a ANS incluiu como obrigatória a cobertura da pesquisa de mutação de BRCA1/2 no tecido do tumor (já existe a obrigatoriedade da pesquisa de cobertura da mutação germinativa – hereditária).

Essa nova inclusão é um avanço muito importante, pois os estudos que embasaram a aprovação do Olaparibe evidenciaram um benefício significativo no prolongamento do tempo para recidiva/progressão da doença. Além disso, especialmente no cenário de uso na doença recentemente diagnosticada, o uso de Olaparibe foi associado a um aumento muito importante do tempo de vida (sobrevida global). No acompanhamento de longo prazo, aproximadamente metade das mulheres que fizeram uso de Olaparibe não haviam apresentado progressão de doença ou morte em cinco anos. Tais achados são espetaculares e nunca tinham sido vistos com outros tratamentos para câncer de ovário.

Os esforços agora se voltam para a tentativa de inclusão do Olaparibe no tratamento do câncer de ovário em pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS).

 

Referências

 

  1. Ministério da Saúde/Agência Nacional de Saúde Suplementar. Resolução Normativa ANS N° 542, de 30 de agosto de 2022. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-normativa-ans-n-542-de-30-de-agosto-de-2022-426205935. Acessado em 04 de setembro de 2022.

 

  1. Pujade-Lauraine E, Ledermann JA, Selle F, et al; SOLO2/ENGOT-Ov21 investigators. Olaparib tablets as maintenance therapy in patients with platinum-sensitive, relapsed ovarian cancer and a BRCA1/2 mutation (SOLO2/ENGOT-Ov21): a double-blind, randomised, placebo-controlled, phase 3 trial. Lancet Oncol. 2017; 18(9):1274-1284. doi: 10.1016/S1470-2045(17)30469-2

 

  1. Poveda A, Floquet A, Ledermann JA, et al; SOLO2/ENGOT-Ov21 investigators. Olaparib tablets as maintenance therapy in patients with platinum-sensitive relapsed ovarian cancer and a BRCA1/2 mutation (SOLO2/ENGOT-Ov21): a final analysis of a double-blind, randomised, placebo-controlled, phase 3 trial. Lancet Oncol. 2021; 22(5):620-631. doi: 10.1016/S1470-2045(21)00073-5.

 

  1. Moore K, Colombo N, Scambia G, et al. Maintenance Olaparib in Patients with Newly Diagnosed Advanced Ovarian Cancer. N Engl J Med. 2018; 379(26):2495-2505. doi: 10.1056/NEJMoa1810858.

 

  1. Banerjee S, Moore KN, Colombo N, et al. Maintenance olaparib for patients with newly diagnosed advanced ovarian cancer and a BRCA mutation (SOLO1/GOG 3004): 5-year follow-up of a randomised, double-blind, placebo-controlled, phase 3 trial. Lancet Oncol. 2021; 22(12):1721-1731. doi: 10.1016/S1470-2045(21)00531-3.

 

 

Importância da atividade física como prevenção do câncer

Atividade física é qualquer movimentação do dia a dia que resulte em estímulo dos músculos e gasto energético, como andar, correr ou subir escadas. Já exercícios físicos são práticas programadas, com sequência de movimentos que buscam um objetivo concreto, seja ligado à saúde ou à estética (ou aos dois). Ou seja, todo exercício é uma atividade física, mas nem toda atividade física é um exercício. “Ser fisicamente ativo pode adicionar anos à vida e vida aos anos”, disse Tedros Adhanom, diretor geral da OMS.

Em 2020, a OMS atualizou suas diretrizes sobre atividade física. Baseada em evidências científicas dos últimos anos, orienta que adultos (18 a 65 anos) façam semanalmente atividade física aeróbica de intensidade moderada de 150 a 300 minutos ou de 75 a 150 minutos de atividade física aeróbica intensa, quando não houver contraindicação.

O guia atual reforça que o comportamento sedentário pode afetar negativamente a saúde. A ideia é quebrar longos períodos de inatividade. As dicas vão desde falar no celular andando até trocar a escada rolante pela normal. Todo movimento conta e quanto mais, melhor.

Para benefícios adicionais, o indivíduo pode aumentar o tempo e fazer atividades que envolvam todos os principais grupos musculares em intensidade moderada ou alta, pelo menos dois dias da semana. O manual contempla recomendações específicas a indivíduos com doenças crônicas, como o câncer. Estes, devem começar fazendo pequenas quantidades e aumentar gradualmente a frequência, intensidade e duração.

Os idosos (acima de 65 anos), devem ser tão ativos fisicamente quanto sua capacidade funcional permitir. Devem realizar atividades que enfatizem equilíbrio e treinamento de força em três ou mais dias da semana, aumentando a capacidade funcional e prevenindo quedas.

 

Relação entre atividade física e câncer

Desde 1990, aumentaram as pesquisas que avaliam a associação entre atividade física e câncer. As evidências sugerem que a atividade física pode reduzir o risco de desenvolver alguns cânceres, além de auxiliar os sobreviventes do câncer a se recuperarem dos tratamentos, estender a sobrevida e reduzir o risco de recidiva ou surgimento de novo tumor primário.

A prática de atividade física para sobreviventes do câncer é segura, inclusive quando praticada durante o tratamento oncológico (quimioterapia, radioterapia, terapia hormonal ou outros). Devem ser consideradas as particularidades de cada tipo de câncer, contraindicações e possíveis efeitos adversos causados pelo tratamento ao recomendar a prática.

O relatório do Comitê Consultivo para as diretrizes estadunidenses de atividade física (PAGAC, 2018), classificou como forte a evidência de proteção da atividade física em relação aos seguintes cânceres: bexiga, mama, cólon, endométrio, esôfago, estômago e rim. Vale destacar que a atividade física é eficaz para diminuir a adiposidade corporal, sendo que o sobrepeso e a obesidade estão associados a, pelo menos, uma dezena de tipos de câncer.

Mesmo que não se atinja o tempo recomendado, a prática regular reduz o risco de desenvolver câncer e a mortalidade por câncer, além de trazer outros benefícios para a saúde, como a diminuição da mortalidade por todas as causas, mortalidade por doenças cardiovasculares, incidência de hipertensão, incidência do diabetes tipo 2, melhora a saúde mental (redução dos sintomas de ansiedade e depressão), a saúde cognitiva e o sono.

Devem ser consideradas preferências, disponibilidade de tempo e local apropriado para a prática. As possibilidades são muitas, desde aquelas que fazemos no dia a dia, como caminhar, andar de bicicleta, dançar, passear com o animal de estimação e praticar esportes recreativamente, até aquelas mais sistematizadas, como musculação.

Nesse sentido, a prática de atividade física deve ser estimulada como um hábito, ou seja, deve ser incorporada na rotina das pessoas. É fundamental na prevenção e controle do câncer, assim como para a saúde de uma forma geral. MOVIMENTE-SE. Descubra a atividade com a qual mais se identifica e procure orientação sempre que optar por atividades físicas intensas.

 

Referências:

– Diretrizes da OMS para atividade física e comportamento sedentário, 2020.

– Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Promoção da Saúde. Guia de Atividade Física para a População Brasileira [recurso eletrônico]. Brasília: Ministério da Saúde, 2021.

– ROCK, C. L. American Cancer Society guideline for diet and physical activity for cancer prevention. CA: A Cancer Journal for Clinicians, 2020.

– THE LANCET. Editorial. A sporting chance: physical activity as part of everyday life. v. 398, n. 10298, p. 365, 2021.

– Relatório do Comitê Consultivo para as Diretrizes Estadunidenses de Atividade Física (PAGAC, 2018).

 

 

29 de agosto: Dia Nacional de Combate ao Fumo

O tabagismo como vício vem acometendo a humanidade há mais de 200 anos

O tabagismo como vício vem acometendo a humanidade há mais de 200 anos. Já passou por diferentes fases, desde seu uso pelos povos pré-colombianos, na América Central, ou em rituais indígenas, na América do Sul, até sua exploração comercial na Europa durante a Revolução Industrial e sua banalização pela indústria cinematográfica de Hollywood, nas décadas de 80 e 90. Fato é que o cigarro se tornou popular e também o maior inimigo do ser humano, sendo o grande responsável por mortes evitáveis em todo mundo.

A partir do final da década de 90, com o entendimento dos mecanismos deletérios do cigarro no corpo humano e sua clara associação com dezenas de doenças cardiovasculares, respiratórias e neoplásicas, iniciou-se no mundo inteiro um movimento na tentativa de inibir e dificultar o seu uso. São mais de 4.000 compostos químicos em um único cigarro, dentre os quais mais de 50 são sabidamente cancerígenos. É disparado o maior fator de risco para o desenvolvimento de câncer e está relacionado a quase todos os tumores, com particular importância em cânceres de pulmão, cabeça e pescoço e bexiga. Além disso é o segundo fator de risco mais importante para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares (perdendo apenas para hipertensão arterial). Além de diversas outras doenças respiratórias.

As pessoas que fumam têm em média 14 anos menos de expectativa de vida em relação as que não fumam. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam para 7 milhões de mortes ao ano por doenças causadas pelo cigarro, sendo 12% dessas mortes em fumantes passivos. Só no Brasil são 400 mortes por dia pelo tabaco, o que causa um impacto gigantesco na saúde e na economia, visto que muitas pessoas atingidas são jovens e economicamente ativas, além de um grande custo para o sistema de saúde pública, com gastos bilionários em tratamentos de doenças relacionadas ao tabaco.

Na tentativa de diminuir o tabagismo e com isso as doenças a ele relacionadas, vários países passaram a adotar medidas que estimulassem o abandono do cigarro e outras que evitassem o início do tabagismo. Nesse contexto, o Brasil ganhou lugar de destaque ao conseguir reduzir de forma consistente o número de pessoas que fumam. Os esforços para essa redução começaram em 1990, quando profissionais de estados e municípios foram treinados pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA) para tratarem pacientes tabagistas no SUS e o tratamento começou a ser oferecido de forma gratuita, por exemplo, com a disponibilização de medicações como a bupropiona.

Além disso, foi disponibilizada uma linha telefônica para as pessoas tirarem dúvidas sobre o tabagismo, houve aumento dos impostos que chegaram a 83%, em 2018; as propagandas foram proibidas em televisão e revistas, tornou-se obrigatório estampar as embalagens de cigarro com fotos e frases que mostrassem os efeitos devastadores do cigarro e, por fim, a proibição do fumo em locais fechados de uso coletivo. Todas essas medidas levaram o Brasil a reduzir em mais de 50% o número de pessoas que fumam nos últimos 25 anos (34% da população em 1989 e 10% em 2017).

O Brasil, ao lado de Turquia, tornou-se referência ao mundo no combate ao cigarro, sendo o segundo país a conseguir implementar de forma eficaz todas as seis medidas sugeridas pela OMS chamadas de Mpower (plano para reverter a epidemia do tabaco) que são: monitorar o uso do tabaco e as políticas de prevenção, proteger as pessoas contra o tabagismo, oferecer ajuda para parar de fumar, avisar sobre os perigos do tabaco, aplicar proibições à publicidade, promoção e patrocínio do tabaco e aumentar os impostos sobre o tabaco.

A redução do tabagismo vem acontecendo, no Brasil em todas as faixas etárias, com redução de 50% entre os jovens com menos de 30 anos e também redução de 44% entre as mulheres. Segundo o INCA, mais de 1,5 milhão de pessoas fizeram tratamento na rede pública para parar de fumar nos últimos 10 anos.

Mas ainda não foi possível acabar completamente com esse vício. Dados mostram que as capitais onde mais se fuma são Porto Alegre, São Paulo e Curitiba, enquanto Salvador, São Luiz e Belém são as que tem menos fumantes. O Brasil ocupa hoje o 34º lugar entre os países que mais fumam em um ranking que engloba 149 nações.

Em paralelo à diminuição do tabaco, vem crescendo no Brasil (onde a comercialização é proibida) e no mundo o uso dos cigarros eletrônicos, cujos os efeitos deletérios ainda são desconhecidos. Em 2018, mais de 3,5 milhões de estudantes do ensino médio nos EUA disseram já ter experimentado o cigarro eletrônico. O Centro de Controle de Doenças dos EUA acabou de divulgar a morte de um morador e Illinois como potencial primeiro caso – do mundo – de morte associada diretamente ao uso do cigarro eletrônico. Por isso, o combate ao cigarro ganha novos inimigos que não podem ser esquecidos.

O Brasil tem o audacioso objetivo de se tornar o primeiro país do mundo livre do tabaco. E, por isso, o dia 29 de agosto ganha importância como o Dia Nacional de Combate ao Fumo para lembrar que essa guerra ainda terá vários capítulos e a atenção nunca deverá ser diminuída no intuito de manter o Brasil na rota do combate ao cigarro.

 

 

26 de agosto: Dia Internacional da Igualdade Feminina

Todas as mulheres são iguais! Pacientes do SUS e de planos privados merecem equidade de tratamento

No dia 26 de agosto é comemorado o Dia Internacional da Igualdade Feminina. Muito se tem falado a respeito da igualdade de gênero e de equidade salarial. Porém, e sobre a saúde da mulher, qual o tipo de igualdade é abordado? Infelizmente o acesso aos serviços de saúde e a qualidade da assistência ofertada às mulheres está longe de ser igual para todas. Desta forma, ainda existe, conforme apontado pelo médico, forte desigualdade entre as próprias mulheres no que diz respeito ao cuidado com a saúde.

Quando falamos sobre o câncer de mama no cenário brasileiro, por exemplo, as taxas de mortalidade estão diretamente relacionadas ao acesso aos serviços de saúde e à qualidade da assistência ofertada às mulheres. No mundo, as estimativas de sobrevida em cinco anos mostraram uma tendência de aumento em países desenvolvidos; no Brasil, principalmente entre as mulheres que dependem da saúde pública, isso não é observado.

Dados do importante estudo Concord-3 (ALLemANI, 2018) mostram que, no Brasil, as estimativas de sobrevida em cinco anos foram de 76,9% para o período de 2005 a 2009 e caíram para 75,2% para o período de 2010 a 2014.

Algumas diferenças são reveladas quando os casos são comparados por regiões do país nos últimos três anos de atualização da base de dados. A proporção de casos classificados como doença avançada (estádios III e IV) antes do início do tratamento é maior na região Norte (50,1%). Nas regiões Sul e Sudeste, a proporção de mulheres que chegam ao hospital com doença inicial (estádios 0, I e II) é de 66,6% e 65,1%, respectivamente.

Quando são analisadas as informações considerando a escolaridade da mulher o cenário muda consideravelmente. Conforme aumenta o nível de escolaridade, cresce a proporção de casos que iniciam o tratamento em até 60 dias após o diagnóstico. Claramente, as mulheres com mais acesso às informações e aos serviços de saúde recebem mais rapidamente o tratamento.

O câncer de mama é um dos desafios no cenário atual de envelhecimento populacional e enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis no Brasil. É o tipo de câncer que mais acomete as mulheres no Brasil e, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), as estimativas de incidência para o ano de 2022 são de 66.280 casos novos. Na mortalidade proporcional por câncer em mulheres, no período 2016-2020, os óbitos por câncer de mama ocupam o primeiro lugar no país, representando 16,3% do total.

DNA Circulante e Rastreamento de Mama

– O câncer de mama é o câncer mais diagnosticado em todo o mundo e é a principal causa de morte por câncer entre as mulheres

– O objetivo do rastreamento do câncer é diagnosticar a doença precocemente, em mulheres que não apresentam sintomas

– Quando o câncer de mama é diagnosticado em seus estádios iniciais (precocemente), a taxa de cura pode chegar a 99%

– De fato, os programas de rastreamento do câncer de mama contribuíram significativamente para a redução das mortes por câncer de mama nas últimas décadas

– O exame recomendado para o rastreamento do câncer de mama é a mamografia, realizada anualmente a partir dos 40 anos

– No entanto, a mamografia apresenta algumas limitações, especialmente em mulheres mais jovens e com mamas densas

– Células tumorais circulantes (CTCs) são células que se separam do tumor, entram nos vasos e circulam na corrente sanguínea

– As CTCs podem ser encontradas no sangue de mulheres com câncer de mama inicial, mesmo antes do surgimento de sintomas ou da detecção do tumor nos exames de imagem, e por isso tem potencial para uso no rastreamento

– Em um estudo publicado recentemente, pesquisadores descreveram um novo método para detecção de CTCs de câncer de mama e avaliaram o desempenho dessa nova tecnologia na detecção do câncer de mama em mulheres com e sem sintomas/sinais da doença

– O exame apresentou elevada acurácia na diferenciação entre mulheres com e sem câncer de mama, mesmo nos casos de mulheres com doenças benignas da mama. Importante ressaltar que o exame foi negativo em todas as mulheres SEM câncer de mama

– Os resultados foram adequados independente da idade das mulheres, da etnia, do estádio da doença e das características dos tumores

– Os resultados deste estudo e de estudos prévios mostram que a pesquisa de CTCs de câncer de mama poderia ser bastante útil como estratégia de rastreamento e diagnóstico precoce do câncer de mama, isoladamente ou em associação aos exames de imagem

– No entanto, essa tecnologia ainda tem um custo muito elevado. Cada teste custa, em média, R$ 10.000,00, o que inviabiliza seu uso em escala populacional

– Talvez essa seja uma ferramenta que poderá ser usada em grupos especiais, nos quais a mamografia não tem um desempenho ótimo, bem como em mulheres de alto risco para câncer de mama

Linfoma: mais chances de cura e aumento de expectativa de vida

Receber o diagnóstico de linfoma não é fácil, porém a história dos linfomas vem mudando ao longo das décadas. Este tipo câncer tem sua gênese no acometimento dos órgãos linfáticos e foi descrito pela primeira vez em 1892, por um médico patologista britânico, que avaliou características típicas de linfonodos daquelas pessoas que foram a óbito e, naquela época, essas mortes não possuíam causas conhecidas. Desde a sua descrição até os dias de hoje, houve uma evolução importante em relação ao conhecimento sobre os linfomas.

Descobriu-se mais sobre como esta doença se manifesta no corpo humano e sobre sua gravidade. Constatou-se a necessidade de diferenciar seus subtipos, identificando que cada tipo de linfoma possui características e com evoluções clínicas distintas, levando a tratamentos diferentes entre si.

O avanço do conhecimento geral da doença fez com que mais médicos aumentem a expertise na suspeita e no diagnóstico, levando a diagnóstico mais rápidos e mais direcionados. Além disso, houve uma evolução exponencial nas terapias com o surgimento novas drogas quimioterápicas, adição de medicamentos direcionadas a cada biologia tumoral (terapias-alvo) e o acréscimo da imunoterapia. Portanto, o que anteriormente eram considerados tratamentos restritos e com efeitos colaterais significativos, hoje dispomos de novas tecnologias com melhores repostas para os pacientes.

É importante lembrar que houve também uma melhoria no tratamento para os pacientes que não responderam inicialmente ao tratamento padrão ou inicial. Estes pacientes são aqueles considerados pacientes com doenças refratárias, com recaída de doença. Há, ainda, diferentes tipos de medicamentos para os pacientes idosos e/ou portadores de outras doenças sistêmicas, que merecem melhores respostas com menor quantidade de efeitos colaterais.

Apesar do diagnóstico de um câncer ser um momento difícil, sabe-se que, atualmente, os pacientes portadores de linfoma contam com a evolução da ciência e das terapias modernas, aumentando, portanto, suas chances de cura e expectativa de vida.

 

Dia Mundial de Enfrentamento ao Câncer de Cabeça e Pescoço

Julho Verde é o mês de conscientização e prevenção do câncer de cabeça e pescoço. Este tipo de câncer compreende todos os tumores que têm origem na boca (cavidade oral), nariz (nasofaringe, cavidade nasal e seios paranasais), garganta (orofaringe, hipofaringe, laringe), tireoide e nas glândulas salivares. No Brasil, é o terceiro câncer mais frequente nos homens e nas mulheres (quando somados, o câncer de boca, garganta e glândula tireoide). Aproveitando o momento, vamos responder algumas perguntas importantes sobre o tema:

Existem formas de prevenir?

Para reduzir as chances de desenvolver qualquer tipo de doença é necessário evitar a exposição aos fatores de riscos. Em alguns cânceres, os fatores para seu desenvolvimento não podem ser evitados, como é o caso da idade ou predisposição genética. Quando falamos do câncer de cabeça e pescoço, com exceção ao câncer de tireoide, os seus fatores de risco podem ser evitados. As formas de prevenção são:

– Evitar o tabagismo e consumo excessivo de bebidas alcoólicas.

– Usar preservativo durante o ato sexual.

– Tomar a vacina contra o HPV.

– Manter alimentação equilibrada.

– Realizar higiene oral.

 

Quais são os sintomas da doença?

Os sintomas relacionados ao câncer dependem do local que ele tem origem. Na fase inicial, a maioria dos casos é uma doença silenciosa e não causa nenhum sintoma, por isso a importância de consultas regulares com dentista ou médico. Com o crescimento do tumor surgem os principais sintomas como:

– Rouquidão ou alteração na voz.

– Dificuldade/dor para engolir.

– Feridas persistentes na boca.

– Emagrecimento sem causa definida.

– Nódulo no pescoço.

– Dor de ouvido ou na cabeça.

– Tosse persistente.

 

Quais são os vilões para o desenvolvimento deste tipo de câncer?

Temos três vilões bem reconhecidos. Em primeiro lugar, está o tabagismo. O cigarro é a maior causa evitável de morte no mundo e para o câncer de cabeça e pescoço não é diferente. As pessoas que fumam têm o risco que varia de 5 a 25 vezes maior do que os não fumam. É importante reforçar que a inalação do tabaco, por cachimbo ou narguilé, e o hábito de mascar fumo também aumentam o risco desse câncer.

Em segundo lugar está o uso abusivo de bebidas alcoólicas. Este hábito pode aumentar o risco desse tipo de câncer em 5 a 6 vezes, a depender da quantidade ingerida durante a vida. Quando associado ao tabagismo, o risco aumenta ainda mais.

Em terceiro lugar, mas cada vez mais importante, está a infecção pelo HPV. É o mesmo vírus que pode causar o câncer de colo de útero, vagina, vulva, anus e pênis.  Sua relação é mais importante com o câncer de orofaringe (garganta), sendo o subtipo HPV 16 o maior vilão. O câncer relacionado com o HPV apresenta algumas diferenças comparado aos relacionados ao cigarro e bebidas alcoólicas, geralmente ocorre em pessoas mais jovens, os tumores primários são menores e apresentam maiores chances de cura. Uma das formas de contaminação é o sexo oral desprotegido, por isso a importância do uso de preservativo durante essa prática sexual. Outra forma de prevenção é a vacinação.  No Brasil, as indicações para a vacinação pelo Ministério da Saúde são para meninas de 9 a 14 anos e para meninos de 11 a 14.

 

Como é feito o diagnóstico?

No Brasil por volta de 70% dos casos de câncer de cabeça e pescoço são descobertos já em estágios avançados em razão da falta de informação das pessoas sobre a doença. O diagnóstico tardio aumenta a possibilidade de sequelas e diminui as chances de cura.  Quando descoberto em fase inicial, as chances de cura são de aproximadamente 90%. Para o diagnóstico é preciso realizar uma avaliação da cavidade oral e exames de imagens (tomografia ou ressonância). Mas para a confirmação será sempre necessária uma biópsia.

 

Quais são os maiores avanços no tratamento do câncer de cabeça e pescoço nos últimos anos?

Grandes avanços foram atingidos no tratamento do câncer de cabeça e pescoço nos últimos anos. Basicamente, temos três formas de combater esse tipo de tumor: cirurgia, radioterapia e terapia sistêmica (quimioterapia, anticorpos monoclonais e imunoterapia). Na cirurgia, a incorporação da cirurgia robótica possibilitou procedimentos menos invasivos e com menores sequelas. Na radioterapia, as novas técnicas trouxeram maior precisão de tratamento nas áreas acometidas pelo tumor, possibilitando maiores doses e poupando os tecidos e órgãos saudáveis. Na Oncologia, tivemos a aprovação da imunoterapia para os pacientes com metástases ao início do tratamento. Estes medicamentos estimulam o sistema imune a combater as células tumorais, proporcionando aumento no tempo de vida associado a menores efeitos colaterais.

 

Dia do Homem: o que você tem feito pela sua saúde?

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os homens vivem 7,1 anos a menos do que as mulheres, sendo a taxa de mortalidade maior em praticamente todas as faixas etárias. Mas qual seria a justificativa? A resposta é a associação de vários motivos, mas entre os principais estão a maior exposição a alguns fatores de risco e a menor aderência aos exames preventivos. Dentre os fatores de risco destacamos o tabagismo, etilismo, falta de prática de atividade física e obesidade.  Outro dado preocupante revelado pelo Ministério da Saúde é que 31% dos homens não têm o hábito de ir ao médico e 55% destes afirmam que não precisam. Esta conjunção está diretamente relacionada ao risco de desenvolver diversas doenças nos homens, com maior destaque para o câncer.

Dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA) apontam como os cânceres mais frequentes nos homens os de pele, próstata, intestino, pulmão e de cabeça e pescoço. E o que todos eles têm em comum? A maioria dos casos pode ser prevenido.

Vamos começar falando do câncer de pele, que é o tumor mais frequente. Felizmente, este tipo de tumor apresenta uma baixa taxa de mortalidade, mas pode deixar sequelas secundárias: a cirurgia para sua retirada. Os dois tumores de pele mais frequentes são o carcinoma basocelular e o carcinoma epidermóide, ambos diretamente relacionados à exposição não protegida ao sol. O cuidado com a exposição solar e o uso de protetor solar seriam o suficiente para reduzir o desenvolvimento destes tumores.

O segundo tumor mais frequente é o câncer de próstata. Dados do INCA estimam 65.840 novos casos em 2022 no Brasil, sendo o responsável pela segunda maior causa de morte por câncer. O seu principal fator de risco é o envelhecimento, algo que não podemos evitar, mas por um outro lado é um câncer altamente curável quando diagnosticado precocemente. Identificar este tumor na fase inicial é possível pela realização dos exames preventivos de toque retal e PSA. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Urologia, recomenda que homens a partir de 50 anos devem procurar um profissional especializado para avaliação individualizada. Aqueles da raça negra ou com parentes de primeiro grau com câncer de próstata devem começar aos 45 anos, por já possuírem um risco aumentado.

Na terceira posição está o câncer de intestino. Este câncer está relacionado à idade mais avançada, histórico familiar e aos hábitos de vida como excesso de alimentos industrializados, sedentarismo e obesidade. Sabemos que evitar a exposição a estes fatores risco pode reduzir de forma significativa as chances de ter um câncer de intestino. Por isso, é importante manter um estilo de vida saudável com atividade física no mínimo três vezes por semana, manter peso adequado, realizar dieta rica em fibras, evitar o tabagismo, etilismo e excesso de carne vermelha e embutidos, além de realizar o exame preventivo de colonoscopia.  No Brasil, esse exame é recomendado para homens e mulheres entre 50 a 74 anos. Em casos de história familiar para câncer de intestino, o exame deve ser realizado dez anos antes da idade que o familiar apresentou o diagnóstico.

O câncer de pulmão é o quarto câncer mais frequente nos homens, com 17.760 casos novos ao ano de acordo com o INCA. É o câncer que mais mata homens. Infelizmente, sua incidência vem aumentando no mundo o que o torna um problema de saúde pública em razão do impacto dos altos custos do seu tratamento. A maioria dos casos deste tipo de câncer seriam evitados se as pessoas não fumassem. Aproximadamente 80% dos casos estão diretamente ligados ao tabagismo, hábito considerado como a maior causa evitável de mortes no mundo todo. Os pacientes que fumam têm em média 14 anos a menos de expectativa de vida em relação a quem não fuma. Além disso, está cada vez mais claro que os tabagistas passivos (quem não fuma, mas convive de perto com quem fuma) também têm mais chances de desenvolver câncer, doenças cardíacas e pulmonares.

Em quinto lugar está o câncer de cabeça e pescoço, que compreende todos os tumores que têm origem na boca (cavidade oral), nariz (nasofaringe, cavidade nasal e seios paranasais), garganta (orofaringe, hipofaringe, laringe) e nas glândulas salivares. Os fatores de risco para o desenvolvimento desta neoplasia já são bem estabelecidos. O principal é o tabagismo. O risco é dependente do número de cigarros fumados por dia e do tempo de uso. Os tabagistas têm o risco de desenvolver câncer de 5 a 25 vezes a mais do que os que não fumam. O segundo fator de risco de destaque é o etilismo. Um estudo revelou o aumento de 5 a 6 vezes no risco de desenvolver o câncer de cabeça e pescoço com consumo de álcool superior a 50 g/dia versus menos de 10 g/dia (aproximadamente uma lata de cerveja). Suspender o consumo de álcool reduz em 4% ao ano o risco de doença maligna da laringe ou a faringe.

Como vimos, uma grande parte dos cânceres que afetam o homem poderiam ser evitados com medidas de prevenção e um diagnóstico precoce. O Dia do Homem tem como objetivo conscientizar a população masculina sobre os cuidados que deve tomar com a sua saúde. Vamos aproveitar esse dia para iniciar hábitos de vida mais saudáveis e lembrar de colocar os exames preventivos em dia!

 

Yoga: terapia integrativa em pacientes com câncer

A medicina integrativa é uma especialidade da medicina que busca abordar o indivíduo de forma completa, ou holística (do grego holos, que significa “todo” ou “inteiro”). Denomina-se “integrativa” pois envolve o uso de terapias complementares em associação ao cuidado médico convencional (e não em substituição ao mesmo). Assim, o objetivo é lidar com a saúde tanto do ponto de vista físico, quando emocional e espiritual. Mais do que tratar uma doença específica, as técnicas de medicina integrativa buscam melhorar a sensação global de saúde e bem-estar. Para atingir esse objetivo, ela atua em cinco domínios (Figura 1).

Figura 1. Os cinco domínios da medicina integrativa (Adaptado de: Viscuse PV, et al. Curr Opin Oncol. 2017 Jul;29(4):235-242)

 

Em todo o mundo, estima-se que entre 33% e 47% das pessoas diagnosticadas com câncer façam uso de alguma forma de tratamento complementar, alternativo ou integrativo, sendo esse uso mais comum entre as mulheres diagnosticadas com câncer de mama (até 80% das mulheres diagnosticadas com câncer de mama nos EUA), com tendência a uso cada vez mais frequente nos anos mais recentes. Estes pacientes buscam técnicas de medicina integrativa, especialmente, para melhora dos sintomas da doença e dos tratamentos, como dor, insônia, depressão, ansiedade, náusea (enjoos) e limitação de movimentos.

Uma das terapias integrativas mais estudadas é a yoga. A palavra “yoga” deriva do sânscrito yug, que significa “união”. De acordo com a filosofia tradicional da yoga, o objetivo dessa prática seria a união do indivíduo com a consciência universal. É uma prática milenar, com origem no sul da Ásia há mais de 5.000 anos, compreendendo diversas correntes filosóficas. Classicamente, a prática da yoga se caracteriza por oito eixos principais: a ética social (yama), a ética pessoal (niyama), as posturas (asana), a respiração (pranayama), o voltar-se para o interior (pratyahara), a concentração (dharana), a meditação (dhyana), e a contemplação do absoluto (samadhi). Existem diversos estilos de yoga, sendo o mais comum a Hatha Yoga, que combina a prática das posturas e dos exercícios de respiração.

Pacientes oncológicos recebem tratamentos que frequentemente levam a efeitos colaterais que impactam negativamente em sua qualidade de vida, como mudanças corporais, queda de cabelo, fadiga, náusea, e comprometimento da saúde sexual. Além disso, coexistem sentimentos de medo e ansiedade quanto ao risco de recidiva e progressão (piora) da doença e, em último caso, de morte. Além do impacto negativo na qualidade de vida, a combinação destes fatores pode levar a sentimentos negativos, ansiedade, depressão, desesperança e sensação de abandono, o que reduz ainda mais a capacidade de tolerância à dor e a outros sintomas. A quebra desse ciclo de sintoma-angústia/sofrimento-sintomas é fundamental no tratamento desses pacientes.

A yoga tem sido cada vez mais praticada por pacientes com câncer como terapia para redução de estresse, controle de humor, melhora dos sintomas e da qualidade de vida. De fato, evidências mostram que a prática regular de yoga auxilia na regulação de sistemas hormonais envolvendo a hipófise e a pituitária, reduzindo a secreção de hormônios relacionados ao estresse (como o cortisol) e melhorando a resposta corporal a fatores estressantes e o controle sobre as situações diárias. Além de contribuir para a redução da secreção de cortisol, a prática da yoga também foi associada a redução na secreção de citocinas pró-inflamatórias e a melhora no funcionamento do sistema imune.

Diversos estudos mostram que a yoga tem efeito benéfico em pacientes com câncer, reduzido sintomas de depressão, ansiedade e estresse psicológico, especialmente quando praticada durante o tratamento. Vale lembrar que a maior parte dessas evidências é proveniente de estudos com mulheres com diagnóstico de câncer de mama. Em uma metanálise que agregou os resultados de 13 estudos, pacientes que praticavam yoga apresentaram redução significativa na ansiedade, depressão e no estresse, bem como melhora moderada na fadiga, nas funções sociais e na qualidade de vida. Além disso, a prática de yoga mostrou benefício na redução de problemas de memória em pacientes que finalizaram tratamento oncológico.

Os benefícios da yoga parecem não se limitar à saúde mental, e essa prática pode auxiliar no controle de alguns sintomas e efeitos colaterais relacionados aos tratamentos do câncer. Como já mencionado, a yoga tem o potencial de melhorar a sensação de fadiga em pacientes com câncer, com efeito mais pronunciado na fadiga física. Além disso, a yoga também auxilia na melhora da insônia e da qualidade do sono em pacientes oncológicos. Determinadas técnicas de yoga também parecem ter efeito benéfico no controle das náuseas e vômitos induzidos por quimioterapia, bem como quadros que denominamos de neuropatia periférica (acometimento das terminações nervosas dos membros, caracterizado por sensação de choques, adormecimento e dificuldade de movimentação).

Vale destacar que, apesar dos benefícios já demonstrados para a yoga em pacientes com câncer, o potencial benefício dessa prática ainda não tenha sido avaliado de forma completa. A filosofia da yoga envolve outros aspectos além dos exercícios de postura e respiração, incluindo mudanças relacionadas à alimentação, à prática de atividade física, à abstenção de hábitos maléficos à saúde (como tabagismo), e relacionamentos interpessoais. Intervenções mais amplas em termos de estilo de vida parecem ser mais eficazes quando associadas ao tratamento tradicional do câncer, e tem maior potencial de benefícios a longo prazo. Assim, o aconselhamento dos pacientes com diagnóstico de câncer deve sempre levar em conta que a combinação de intervenções relacionadas ao estilo de vida (dieta, atividade física, redução de estresse, suporte social) leva aos melhores resultados, e que a medicina integrativa é, hoje, uma aliada fundamental na promoção e manutenção de mudanças positivas no comportamento relacionado à saúde.

 

Referências

 

  1. Viscuse PV, Price K, Millstine D, et al. Integrative medicine in cancer survivors. Curr Opin Oncol. 2017 Jul;29(4):235-242.
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Melanoma: o câncer cujo tratamento revolucionou a Oncologia

O câncer de pele é a neoplasia mais frequente no Brasil e corresponde a 30% de todos os tumores malignos. Como a pele – maior órgão do corpo humano – é heterogênea, o câncer de pele pode apresentar tumores de diferentes linhagens. Os mais frequentes são o carcinoma basocelular e o carcinoma epidermoide.

O melanoma representa 3% de todos os tumores de pele, mas é o mais agressivo por ter alta possibilidade de dar metástases (se espalhar pelo corpo). O melanoma se origina nos melanócitos, células da pele que produzem melanina, substancia que determina a cor da pele. É mais comum em adultos após os 40 anos e brancos e pode acometer qualquer local da pele ou mucosas, além de raramente poder ocorrer na coroide, estrutura que fica dentro dos olhos. Nos indivíduos de pele negra o melanoma é mais comum nas áreas mais claras como palmas das mãos e plantas dos pés.

No Brasil, os dados do INCA, estimam mais de 8.000 casos novos ao ano, com quase 2.000 mortes por ano. São as estimativas mais recentes. No passado, o melanoma metastático já foi considerado um dos tumores mais difíceis de tratar por conta de sua baixa resposta à quimioterapia e à radioterapia. As chances de se curar e de ter uma vida com boa qualidade, usando a quimioterapia, eram muito baixas. E até pouco tempo não haviam outros tratamentos eficazes.

Essa história começou a mudar quando, em 2010, no maior congresso de Oncologia do mundo, realizado em Chicago – EUA, foi apresentando os resultados do primeiro estudo com uma medicação chamada Ipilimumab, uma imunoterapia, com mecanismo de ação conhecido como um inibidor de checkpoint imunológico, nesse caso um Anti-CTLA4. Resumindo: uma medicação que conseguia ativar o nosso sistema imunológico permitindo ao próprio organismo “enxergar” melhor as células tumorais e, assim, ativar os linfócitos (nossas células “soldados”) para atacar o câncer. Foi a primeira vez na história que uma medicação mostrou em estudos a capacidade de aumentar o tempo de vida das pessoas com diagnóstico de melanoma metastático.

Isso foi uma revolução no tratamento do melanoma, mas também no tratamento de praticamente todos os outros tumores. A imunoterapia, hoje, é usada em vários momentos e para vários tipos de câncer e trouxe uma expectativa que até então era quase inimaginável: curar pacientes com tumores que já se espalharam pelo corpo. Claro que nem todos pacientes se beneficiam deste tratamento. Mas a possibilidade de estacionar a doença e de curar doenças avançadas foi possível apenas com a imunoterapia.

Hoje, existem vários outros medicamentos com mecanismos de ação parecidos, além do ANTI-CTLA4, temos os ANTI- PD1, ANTI-PDL1, e outros vem surgindo, além da possibilidade de combinação com esses agentes. Foi uma mudança de paradigma na Oncologia e trouxe esperanças para as pessoas acometidas por tumores avançados como melanoma, pulmão, rim, bexiga, cabeça e pescoço, estômago e vários outros.

Mas as revoluções não pararam na Imunoterapia. Um outro grupo de medicamentos chamados de inibidores de tirosina kinase, medicamentos orais que são direcionados contra alguns grupos de genes, também transformaram o tratamento do melanoma.

O desenvolvimento do melanoma pode estar relacionado à ativação de um gene chamado BRAF. Este gene deveria estar desativado (como um interruptor que deveria estar desligado), mas que em algum momento se ativa (se liga!), ocasionando a proliferação de células tumorais e crescimento do tumor. Nem todos os melanomas tem a ativação desse gene.

Cerca de 50-60% dos pacientes com melanoma e que tem idade menor de 60 anos, tem mutação do BRAF, isso cai para cerca de 20% nos pacientes com mais de 70 anos. Mas para aqueles pacientes que tem melanoma e tem essa mutação, existem medicamentos que são inibidores de BRAF, portanto, que tentam frear a ação desse gene. E estes medicamentos mostraram imensa eficácia.

Essas duas classes de drogas mudaram o tratamento na Oncologia e em especial no melanoma. A terapia-alvo, funciona para aqueles pacientes que tem mutação do BRAF, enquanto a imunoterapia pode funcionar para quem tem ou não a mutação. Esses medicamentos já foram aprovados no Brasil, pela Anvisa, e já passaram por todos os testes e estudos necessários e confirmaram serem eficazes.

Infelizmente, em um país tão desigual e com acesso a saúde também tão desigual, aquelas pessoas que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS), não têm acesso a essas drogas. São medicamentos extremamente caros e que não foram incorporados no SUS. Portanto, essas medicações só estão ao alcance de pacientes que tenham planos de saúde (a maioria dessas medicações são de cobertura obrigatória pelos planos ou para quem possa pagar por eles, mas lembrando que estamos falando de tratamentos que podem chegar a mais de R$ 40 mil por mês).

Portanto, essas novas terapias trouxeram novas esperanças, como chance real de controle e até cura de um câncer muito avançado. Mas nos trouxeram também diversas reflexões e desafios: como equalizar o sistema e permitir que aquelas pessoas que dependem do SUS possam ter acesso a um tratamento tão caro?  Não existe ainda uma resposta e uma fórmula para resolver esse dilema. Não é uma questão apenas vivenciada no Brasil. Mesmo países ricos têm dificuldade em suportar o custo destes tratamentos na saúde pública e essa discussão depende efetivamente da participação de todos: pacientes, médicos, governo, indústria farmacêutica, para definir como gerir melhor os recursos e permitir que mais pacientes sejam beneficiados. Enquanto isso, infelizmente muitos pacientes ainda dependem da quimioterapia para seu tratamento do melanoma, o que já mostrou baixa eficácia e maior toxicidade.

O melanoma certamente é o câncer com maiores ganhos com a imunoterapia e terapia-alvo. Mas, ao mesmo tempo, também é o câncer com maior desigualdade de tratamento entre o serviço de saúde público e privado.