O Grupo SOnHe Equipe Médica Onde Atuamos Conteúdos Contato Eventos

Higienização das mãos e o paciente com câncer: muito além da COVID-19

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), recomenda-se que a lavagem das mãos seja feita de modo frequente e ao longo do dia. Pesquisas mostram que essa prática pode reduzir doenças relacionadas às diarreias entre 30% e 40% e às infecções respiratórias em até 20%.

Anualmente, no dia 5 de maio, comemora-se o Dia Mundial da Higienização de Mãos. Esta é uma campanha liderada pela OMS, visando a prevenção da transmissão de infecções, relacionadas a assistência à saúde.

É de conhecimento geral que um dos temas muito abordados durante a pandemia de SARS-COVID foi sobre a correta higienização das mãos para a prevenção da transmissão do vírus. Diversos estudos mostraram a maior adoção e preocupação na higienização das mãos e de forma correta após a pandemia.

Sabemos também que esse é um tema de suma importância para os pacientes oncológicos, já que eles, durante alguns tratamentos, podem ter queda da imunidade, o que propicia a infecção por doenças tanto virais quanto bacterianas. Desta forma, a prática da higienização das mãos é uma medida rápida, barata, segura e eficaz para diminuição dessas infecções.

Para os profissionais da saúde, a Anvisa preconiza cinco momentos para a higienização das mãos: antes de tocar o paciente, antes de realizar procedimento limpa/asséptico, após o risco de exposição a fluídos corporais, após tocar o paciente e após tocar superfícies próximas ao paciente

Além disso o protocolo novo da Anvisa para reduzir a carga microbiana das mãos orienta a utilização de gel alcoólico a 70% ou de solução alcoólica a 70% com 1-3% de glicerina para substituir a higienização com água e sabão quando as mãos não estiverem visivelmente sujas. Duração do procedimento: 20 a 30 segundos. Caso seja optado pela lavagem com água e sabão, o procedimento deve durar entre 40-60 segundos.

Se você faz parte do grupo de risco ou está passando por algum tratamento ou, ainda, convive ou trabalha com alguém de risco, você também deverá adotar essas medidas de prevenção como parte da sua rotina diária.

 

Referências:

  1. WHO document: Evidence of hand hygiene to reduce transmission and infections by multidrug resistant organisms in health-care settings. Accessed March 2, 2022. http://www.who.int/gpsc/country_work/en/.
  2. Pada S, Chee P, Rathenam S, et al. Effectiveness of a Ward level target accountability strategy for hand hygiene. Antimicrob Resist Infect Control. 2019;15(8):177. [PMC free article] [PubMed] [Google Scholar]
  3. https://www.anvisa.gov.br/hotsite/higienizesuasmaos/index.htm

 

Câncer de testículo – Os bonzinhos também matam

O câncer de testículo é uma neoplasia rara e representa cerca de 5% de todos os casos de câncer em homens. Na grande maioria, quando diagnosticados no início, as chances de cura são muito elevadas. E, exatamente por isso, muitas vezes deixamos de falar ou nos preocupar com ele. Mas mesmo tendo altas taxas de cura, não podemos nos enganar! O câncer de testículo pode matar ou deixar sequelas por toda vida.

A primeira coisa que precisamos ter em mente é que existem diferentes tipos de câncer de testículo. Seminoma, carcinoma embrionário, teratoma, tumor de saco vitelino: são apenas alguns exemplos. Cada um deles tem características diferentes, o que pode levar a necessidades de tratamentos também diferentes.

Os sintomas podem ser muito vagos ou frustos, como um pequeno incômodo em um dos testículos, aumento de tamanho e volume, sensação de peso. Dor geralmente não é muito comum e, quando acontece, costuma ser de fraca a moderada intensidade. Por serem sintomas relativamente leves e, às vezes, de progressão lenta, pode levar a um atraso no diagnóstico.

Outro aspecto importante é que não são neoplasias muito preveníveis, uma vez que não estão associadas a fatores externos e, sim, a algumas condições do próprio paciente.  Um dos fatores relacionados a um maior risco de câncer de testículo é a chamada criptorquidia (fato da criança nascer com um ou os dois testículos dentro da cavidade abdominal e não dentro da bolsa escrotal). Não existem muitos outros fatores bem estabelecidos como causadores desse câncer.

Também é importante nos atentarmos ao fato de que esse tipo de tumor é mais comum em homens jovens: entre os 20 e 30 anos. E, nessa faixa etária, outras doenças benignas com inflamações do testículo ou torções de testículo são muito mais comuns.

O diagnóstico pode ser sugerido por exames de imagem como ultrassom da bolsa escrotal e por exames de sangue que podem mostrar aumento de proteínas que são produzidas por células tumorais. Mas o diagnóstico definitivo é dado pela análise direta do testículo doente pelo patologista, após cirurgia. Aqui, dois pontos são cruciais. Primeiro: quando a suspeita é de câncer de testículo, geralmente não é indicado fazer biopsia e, sim, ir direto para cirurgia, chamada orquiectomia (retirada do testículo). Segundo: a cirurgia é o tratamento mais importante e que cura uma grande parte dos casos. Dependendo do tipo e da extensão do tumor, apenas a cirurgia será necessária.

Outros tratamentos podem ser necessários, em alguns casos, como quimioterapia e radioterapia, principalmente se o tumor já tiver se espalhado para outros órgãos. Os principais órgãos acometidos são os pulmões, os linfonodos, o fígado e os ossos. Diferente de outros canceres, cuja chance de cura quando as células tumorais já se espalharam pelo corpo é pequena, no caso das neoplasias testiculares, mesmo com metástase (doença espalhada), a chances de cura são altas.

Embora os tratamentos sejam altamente curativos podem trazer sequelas por toda a vida. Uma grande parte dos pacientes são jovens, por volta da segunda ou terceiras décadas de vida, e muitos ainda não tiveram filhos. Um tratamento de quimioterapia nessa faixa etária, principalmente associado à necessidade da retirada de um dos testículos, tem grandes chances de provocar infertilidade. Por isso os pacientes precisam ser sempre orientados sobre esses riscos e, quando desejarem, fazer congelamento de espermatozoides para uma possível fertilização in vitro no futuro, caso necessária.

Outro aspecto importante é que tumores de características semelhantes aos tumores de testículo, chamados de tumores germinativos, podem acometer outras áreas do corpo, não apenas os testículos. Podem aparecer dentro da cavidade abdominal ou mesmo no tórax. Essas neoplasias germinativas também podem acometer mulheres.

A prevenção e o diagnóstico precoce sempre são o melhor caminho. Saber reconhecer mudanças no seu corpo, valorizar qualquer alteração – por mais simples que possa parecer – e ter consultas regulares com um médico são recomendados. As meninas, assim que chegam na puberdade, são frequentemente levadas a uma consulta com o ginecologista. O mesmo não acontece com os meninos, que deveriam também nessa faixa etária passarem por avaliações com um urologista ou hebiatra (medico especialista nos cuidados de adolescentes).

O mês de abril é reconhecido como o Abril Lilás para conscientização do câncer de testículo e é importante frisar que, embora considerado por muitos um câncer “bonzinho”, ele também pode matar se não diagnosticado precocemente.

 

 

 

Prevenção e combate à hipertensão. O que muda no paciente em tratamento do câncer?

No Dia Nacional de Prevenção e Combate à Hipertensão Arterial – 26 de abril –, destaco o problema que, em 2019, foi responsável por 110,5 óbitos a cada 100 mil habitantes no Brasil. A data é para conscientizar a população sobre a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e do tratamento da doença. Dados do Ministério da Saúde apontam que em 2021 foram realizados cerca de 6,1 milhões de atendimentos para hipertensão a mais que em 2020.

Por isso, a importância de políticas, programas, estratégias, diretrizes e outros materiais técnicos como formas de promoção da saúde e prevenção, rastreamento, diagnóstico e tratamento da doença.

A HAS – hipertensão arterial sistêmica – é caracterizada pela elevação sustentada dos níveis de pressão arterial e é um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares e renais. Ela também é frequentemente associada a outras doenças crônicas e a eventos como morte súbita, acidente vascular encefálico, infarto agudo do miocárdio, insuficiência cardíaca e doença arterial periférica.

A hipertensão arterial pode ser primária, quando surge sem causa clara; ou secundária, quando decorrente de outros problemas de saúde. Por isso, é fundamental diagnosticar a origem do problema para que seja realizado o tratamento mais adequado. Dentre os sintomas mais comuns estão dor de cabeça, tontura, palpitações e alteração na visão. Entretanto, a hipertensão, geralmente, é silenciosa, sendo importante aferir regularmente a pressão arterial.

O conjunto das doenças cardiovasculares e os vários tipos de câncer representam, respectivamente, a primeira e a segunda maiores causas de morte no Brasil e no mundo. Esses grupos distintos de doenças que crescem a cada dia, compartilham, contudo, muitas causas comuns, como o envelhecimento e o aumento de peso da população, alimentação inadequada, tabagismo, poluição, hereditariedade, genética, estresse, entre outros.

Os objetivos do tratamento do paciente hipertenso com câncer não diferem dos demais hipertensos, ou seja, deve-se focar em três alvos: 1) identificar as causas da HAS; 2) avaliar o estilo de vida e reconhecer fatores de risco cardiovascular ou comorbidades que possam afetar o prognóstico ou guiar a escolha do tratamento; e 3) avaliar a presença ou ausência de lesão em órgão-alvo associada a HA. Medidas higiênicas dietéticas devem ser sempre encorajadas, orientando a prática de atividade física, dieta hipossódica e controle do peso corporal.

A despeito de múltiplos mecanismos fisiopatológicos envolvidos na doença, o tratamento da hipertensão arterial é efetivo, conta com mudança de hábitos de vida e tratamento farmacológico com múltiplas drogas disponíveis, atuando em vários sistemas, muita das vezes em sinergismo, com intenção de prevenir desfechos como o infarto agudo do miocárdio, o acidente vascular encefálico, câncer, entre outros.

 

Referências:

  1. Rosa LV, Issa JS, Salemi VM, Yones RN, Kalil Filho R. Epidemiologia das doenças cardiovasculares e neoplásicas: quando vai ocorrer o cruzamento das curvas? Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo. 2009;19(4):525-34.
  2. Suter TM, Ewer MS. Cancer drugs and the heart: importance management. Eur Heart J. 2013;34(15):1102-11.
  3. Kalil Filho R, Hajjar LA, Bacal F, Hoff PM, Diz MD, Galas RB, et al. I Diretriz Brasileira de cardio-oncologia da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Arq Bras Cardiol. 2011;96(2):1-52.
  4. Souza, V. B. de ., Silva, E. N., Ribeiro, M. L., & Martins, W. de A.. (2015). Hypertension in Patients with Cancer. Arquivos Brasileiros De Cardiologia, 104(3), 246–252. https://doi.org/10.5935/abc.20150011

 

 

Câncer de esôfago: mês de conscientização

O esôfago é um tubo muscular que leva o alimento desde a garganta até o estômago. No Brasil, o câncer de esôfago é o 5º mais frequente entre os homens e o 15º entre as mulheres, com estimativa de 11.000 casos e 8.000 mortes por ano, sendo mais de 80% em homens. Aproveitando o mês de abril, mês de conscientização do câncer de esôfago, vamos falar um pouco sobre esse tipo de tumor.

Existem dois tipos:

  • Carcinoma escamoso;

O primeiro está mais relacionado aos principais fatores de risco, que são:

  • o tabagismo (25% dos casos);
  • o uso de álcool;
  • além do consumo de bebidas muito quentes (como o chimarrão).

 

Já o segundo tem uma relação mais estreita com:

  • a obesidade;
  • dieta com poucos vegetais;
  • e refluxo.

Sendo um tipo com aumento do número de casos nos últimos anos.

Muito importante destacar os sintomas mais frequentes, que são, principalmente:

  • dificuldade de deglutição de comida;
  • dor ao engolir;
  • dor no peito;
  • vômitos;
  • perda de peso.

 

O diagnóstico é feito normalmente após o paciente reclamar de sintomas como os descritos acima e realizar uma endoscopia digestiva alta com biopsia.

O tratamento baseia-se em várias estratégias, desde a cirurgia, passando pela radioterapia e até quimioterapia e imunoterapia.

Quanto mais cedo diagnosticado, maiores são as chances de cura. Mesmo se o câncer de esôfago for metastático e incurável, os tratamentos atuais conseguem aumentar o tempo de vida significativamente.

Não existe um exame de rotina para detectar o câncer de esôfago, portanto, o melhor caminho é a prevenção e evitar os fatores de risco.

 

E quais seriam as principais dicas?

  • Não fumar;
  • Evitar o consumo de bebida alcoólica em excesso;
  • Evitar o sobrepeso e a obesidade;
  • Tratar a doença do refluxo gastroesofágico quando presente;
  • Não consumir bebidas quentes em excesso, como café muito quente e chimarrão (acima de 60%).

 

Se você tem algum sintoma, o importante é sempre procurar seu médico!

 

 

7 de abril – Dia Mundial da Saúde – O que realmente previne o câncer?

O câncer é um dos principais problemas de saúde pública no mundo. Segundo o relatório global sobre o câncer da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (International Agency for Research on Cancer – IARC), no ano de 2020 foram diagnosticados em todo o mundo mais de 19 milhões de novos casos de câncer. Nesse mesmo ano, aproximadamente 10 milhões de mortes ocorreram por causa desse grupo de doenças, colocando o câncer como uma das principais causas de morte em todo o mundo. Até meados do século passado, o câncer era considerado uma doença “incurável”, “terminal”, um estigma que ainda faz parte do imaginário de muitas pessoas sobre a doença. Felizmente, a segunda metade do século XX testemunhou um rápido desenvolvimento do conhecimento sobre os mecanismos de desenvolvimento do câncer, seus fatores de risco, bem como da biologia dessas doenças, permitindo o desenvolvimento de estratégias de diagnóstico precoce (rastreamento) e tratamento, contribuindo para a redução da mortalidade por câncer observada em todo o mundo. De fato, se pegarmos os EUA como exemplo, a porcentagem de pessoas vivas 5 anos após o diagnóstico de câncer passou de 49% há 50 anos, para cerca de 70% atualmente. No entanto, esta não é a realidade de muitos países do mundo.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima um aumento de 60% no número de casos de câncer no mundo nas próximas duas décadas, sendo que mais de 80% desses novos casos ocorrerão nos países de média e baixa renda. Isso pode ser atribuído ao aumento da expectativa de vida nesses países, ao controle de outras causas de morte como doenças infecciosas e doenças materno-fetais, ao aceleramento da urbanização das cidades e às mudanças no estilo de vida. Nos países mais pobres, grande parte dos recursos vêm sendo empregados no combate às doenças infecciosas e na melhora da saúde materna e infantil, limitando o acesso da população a programas eficazes de prevenção e tratamento do câncer. Nesse contexto, os esforços no controle do câncer devem ter como foco a ampliação do acesso ao diagnóstico precoce e tratamento do câncer, mas também a adoção de medidas para a prevenção do desenvolvimento dessas doenças. Existem diversas estratégias de prevenção contra o câncer, algumas delas referem-se a procedimentos médicos como vacinação e rastreamento, enquanto outras estão relacionadas ao controle dos fatores de risco ambientais e de hábitos de vida.

Hoje, estimamos que entre 30-50% dos casos de câncer podem ser prevenidos pelo controle de fatores de risco e adoção de estratégias preventivas baseadas no conhecimento médico atual. Você não leu errado, até METADE dos casos de câncer podem ser prevenidos se os conhecimentos que temos hoje sobre o assunto forem aplicados.

No que diz respeito aos fatores de risco, sabemos que aproximadamente um terço dos casos de câncer podem ser atribuídos a cinco principais fatores de risco relacionados ao estilo de vida:

  • Dieta pobre em frutas e vegetais
  • Sedentarismo/Falta de atividade física
  • Sobrepeso/Obesidade
  • Tabagismo
  • Consumo de álcool

 

  1. Dieta

Os hábitos dietéticos têm impacto importante no risco de desenvolvimento de diversos tipos de câncer. Vários estudos mostraram um aumento do risco de determinados tipos de câncer em populações que consomem dietas ricas em carne vermelha, carne processada, gordura animal, sal e açúcares refinados. Elevado consumo de carne vermelha está associado a aumento do risco de câncer de cólon, estômago, esôfago, mama, pulmão e próstata.

Quando falamos em medidas dietéticas para prevenção do câncer, a maioria das evidências aponta para o benefício de se adotar uma dieta rica em frutas e vegetais. Interessante notar que alguns estudos mostraram menor risco de câncer entre pessoas de hábito vegetariano ou vegano. Muitas pessoas acreditam que aumentando o consumo de um alimento específico é suficiente para prevenir o desenvolvimento do câncer. Muito pelo contrário, o real benefício provavelmente será obtido através da adoção de um padrão global de dieta, seguido ao longo de vários anos ou décadas.

Mas qual dieta eu devo seguir? A recomendação atual pela OMS e demais sociedades médicas e de nutrição é de que se adote uma dieta com mesmo padrão da chamada Dieta do Mediterrâneo. Ela se caracteriza por ser rica em frutas, vegetais, grãos integrais, sementes e castanhas, e pobre em carnes processadas, açúcar e grãos refinados. Existem evidências de que a adoção desse padrão de dieta está associada a redução do risco de diferentes tipos de câncer, principalmente aqueles que se originam no trato gastrintestinal (estômago, intestino).

E finalmente, mas não menos importante, há que se reforçar que até o momento não temos evidências consistentes de que o uso de suplementos alimentares, incluindo vitaminas, reduza o risco de desenvolvimento de câncer.

 

  1. Atividade física / Sedentarismo

A relação entre a prática regular de atividade física e a prevenção do câncer já é conhecida desde os anos 1920. Diversos estudos corroboraram os primeiros achados e, mais recentemente, uma análise combinada de mais de 1,44 milhão de pessoas na Europa e nos EUA, sugeriu que indivíduos com maiores níveis de prática de atividade física apresentam um risco 10-40% menor de desenvolverem câncer, quando comparados àqueles com menor nível de atividade. Tal benefício foi observado em relação a uma ampla gama de cânceres, incluindo mama, cólon, útero, estômago, rim, pulmão, bexiga, entre outros. Tal efeito protetor é observado não apenas para o nível de atividade física na idade adulta, mas se estende à prática de atividade física ao longo de toda a vida.

Outro aspecto importante nesse contexto é o tempo de sedentarismo, definido como o tempo em que se permanece assentado ou deitado, frequentemente assistindo televisão ou utilizando computador e dispositivos móveis (smart phone, tablet). Estudos mais recentes, envolvendo a observação de grande número de pessoas, evidenciou que os indivíduos com maiores períodos de sedentarismo chegaram a apresentar aumento de quase 80% no risco de determinado subtipo de câncer de mama.

A OMS publicou, em 2020, as novas recomendações para a prática de atividade física para crianças, adolescentes e adultos. Tais recomendações se baseiam em evidências científicas associando a atividade física regular a benefício não só em relação à prevenção do câncer, mas também benefícios para a saúde cardiovascular, prevenção de diabetes tipo 2, melhora da saúde cognitiva e do sono, bem como da saúde mental. Cabe ressaltar que a atividade física regular também reduz o risco de morte por todas as causas. Seguem as recomendações para adultos:

  • Pelo menos 150-300 minutos/semana de atividade física aeróbica moderada

OU

  • Pelo menos 75-150 minutos/semana de atividade física aeróbica vigorosa

 

Para obter benefício adicional, recomenda-se acrescentar atividades de fortalecimento muscular pelo menos 2 vezes por semana.

 

  1. Sobrepeso / Obesidade

A obesidade está entre os fatores de risco de câncer com maior potencial de prevenção. Estima-se que a obesidade seja responsável por até 50% do risco de câncer entre as pessoas com menos de 65 anos. Segundo o IARC, cerca de 13 tipos de câncer têm a obesidade como um dos principais fatores desencadeantes, entre eles o câncer gástrico, de ovário, mama após a menopausa, útero, rim, cólon, reto e pâncreas. Uma relação pouco falada é a associação entre a obesidade e a doença hepática não-relacionada ao álcool, uma condição com elevado risco de câncer hepático (carcinoma hepatocelular).

Os mecanismos pelos quais a obesidade leva ao desenvolvimento de câncer variam entre os diferentes cânceres, e existe também uma diferença em termos de gênero. Sabemos hoje que a obesidade é um fator contribuinte para o risco de câncer de forma mais importante entre as mulheres (55%) do que nos homens (24%). Além disso, estudos sugerem uma associação mais forte para o ganho de peso que ocorre na idade adulta. Variações cíclicas no peso corporal, ou seja, períodos de perda e ganho de peso, também estão associadas a aumento do risco de câncer.

Por outro lado, evidências nos mostram que a redução de peso e a manutenção dessa perda está associada a redução do risco de câncer. Por exemplo, os resultados do estudo WHS (Women’s Health Study) sugeriram que mulheres que perderam 10 Kg ou mais durante a vida adulta, e mantiveram o peso, apresentaram um risco 57% menor de câncer.

 

  1. Tabagismo

Os produtos do tabaco contêm mais de 70 substâncias químicas que podem causar danos no DNA, sendo que 16 deles estão reconhecidamente associados ao risco de câncer em humanos. O uso de tabaco, o fator de risco mais prevenível para câncer, é responsável por mais de 20% das mortes por câncer em todo o mundo. Cerca de 80% dos casos de câncer de pulmão em homens e 50% em mulheres podem ser diretamente atribuídos ao cigarro. No entanto, o tabagismo está associado a aumento do risco de diversos outros cânceres, como bexiga, laringe, cavidade oral, estômago, pâncreas, cólon e reto, e colo uterino.

O benefício com a cessação do tabagismo já se inicia no primeiro ano após a interrupção do uso e aumenta ao longo do tempo. Tais benefícios são mais pronunciados quando a cessação do tabagismo acontece antes dos 40 anos de vida, situação na qual estima-se uma redução de 90% do risco de mortalidade precoce associada ao tabagismo. A interrupção do tabagismo antes dos 50 anos leva a uma redução de 62% no risco de morte por câncer de pulmão.

Não existe consumo seguro de produtos do tabaco, de forma que a OMS recomenda que todos os indivíduos que consumam esses produtos cessem o uso. Em diversos países, programas de prevenção e controle do tabagismo foram implantados nas últimas décadas, levando a redução significativa e sustentada ao longo do tempo nas taxas de tabagismo.

 

  1. Álcool

O consumo de álcool é responsável por cerca de 4% dos casos de câncer no mundo, o que representou 740.000 casos no ano de 2020. Os principais tipos associados ao consumo de álcool são os cânceres de esôfago, fígado, mama e estômago. A magnitude de aumento do risco de câncer varia de acordo com a quantidade de álcool consumida, o tipo de bebida e a associação a outros fatores de risco, como o tabagismo. Ao contrário do tabagismo, existe pouca atenção pública à relação entre o consumo de álcool e o câncer.

Até mesmo o consumo de pequenas quantidades de álcool pode aumentar o risco de câncer. Por exemplo, alguns estudos mostraram que o consumo de uma dose por dia (6-8g de álcool) aumenta o risco de câncer de mama em 11%, e o consumo de duas doses por dia aumenta em 8% o risco de câncer de cólon e reto.

Com o objetivo de reduzir os malefícios do consumo de álcool, não somente em relação à prevenção de câncer, os especialistas do Dietary Guidelines for Americans recomendam que adultos em idade legal prefiram não consumir álcool, ou o faça em quantidade moderada. Isso corresponde ao consumo de uma dose por dia para as mulheres ou duas doses por dia para os homens. Uma dose equivaleria aproximadamente a uma taça de vinho, um copo de cerveja ou uma pequena taça de destilado. Mas reforça-se que o consumo de até menos de uma dose por dia está associado a aumento do risco de câncer.

 

  1. Infecções

Devido ao cada vez mais reconhecido papel de diferentes tipos de agentes infecciosos e o risco de câncer, é importante reduzir a exposição a esses patógenos. Nesse sentido, além da adoção de medidas para melhora das condições de saneamento, acesso a água tratada, educação quanto à prática de relação sexual protegida, a vacinação representa uma das principais estratégias preventivas.

A infecção pelo HPV, ou vírus do papiloma humano, é responsável por mais de 90% dos casos de câncer de colo uterino. A primeira vacina contra o HPV foi disponibilizada em 2006 e, atualmente, 125 países incluem a vacina contra o HPV em seus calendários vacinais. O potencial de prevenção do câncer de colo uterino, entre outros, é tão importante que a OMS classifica essa vacina na lista de tratamentos essenciais. De fato, a vacinação contra o HPV tem o potencial de contribuir para a erradicação do câncer de colo uterino no mundo, com um potencial de redução de 100% na mortalidade por essa doença.

A infecção crônica pelo vírus da hepatite B está associada ao desenvolvimento de câncer hepático (carcinoma hepatocelular). A vacina contra esse vírus está disponível no calendário vacinal brasileiro, tendo ela um potencial de redução do risco de morte por doença hepática e por câncer hepático da ordem de 90%.

 

Referências

 

  1. Sung H, Ferlay J, Siegel RL, Laversanne M, Soerjomataram I, Jemal A, et al. Global cancer statistics 2020: GLOBOCAN estimates of incidence and mortality worldwide for 36 cancers in 185 countries. CA Cancer J Clin 2021;71:209–49.

 

  1. Schilsky RL, Nass S, Le Beau MM, Benz EJ Jr. Progress in cancer research, prevention, and care. N Engl J Med 2020;383:897–900.

 

  1. Pott P. Cancer Scroti. In: Chirurgical observations relative to the cataract, the polypus of the nose, cancer of the scrotum, different kinds of ruptures, and the mortification of the toes and feet. London: Hawes, Clarke, Collins; 1775. p. 63–8.

 

  1. WHO. Cancer Key Facts. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/cancer. Acessado em: 04 de abril de 2023.

 

  1. Moore SC, Lee IM, Weiderpass E, et al. Association of leisure-time physical activity with risk of 26 types of cancer in 1.44 million adults. JAMA Intern Med. 2016; 176(6):816–825.

 

  1. Dixon-Suen SC, Lewis SJ, Martin RM, et al. Physical activity, sedentary time and breast cancer risk: a Mendelian randomisation study. Br J Sports Med. 2022 Oct;56(20):1157-1170.

 

  1. WHO guidelines on physical activity and sedentary behaviour. Geneva: World Health Organization; 2020. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240015128. Acessado em: 04 de abril de 2023.

 

  1. Massetti GM, Dietz WH, Richardson LC. Excessive weight gain, obesity, and cancer: opportunities for clinical intervention. JAMA. 2017; 318(20):1975–1976.

 

  1. Shen C, Zhao CY, et al. Obesity-related hepatocellular carcinoma: roles of risk factors altered in obesity. Front Biosci (Landmark Ed). 2016; 17:2356–2370.

 

  1. Chen Y, Wang X, Wang J, et al. Excess body weight and the risk of primary liver cancer: an updated meta-analysis of prospective studies. Eur J Cancer. 2012; 48(14):2137–2145.

 

  1. Eliassen AH, Colditz GA, Rosner B, et al. Adult weight change and risk of postmenopausal breast cancer. JAMA. 2006; 296(2):193–201.

 

  1. Jemal A, Bray F, Center MM, et al. Global cancer statistics. CA Cancer J Clin. 2011; 61(2):69–90.

 

  1. Jha P, Ramasundarahettige C, Landsman V, et al. 21st century hazards of smoking and benefits of cessation in the United States. N Engl J Med. 2013; 368:341–350.

 

  1. U.S. Department of Agriculture and U.S. Department of Health and Human Services. Dietary Guidelines for Americans, 2020-2025. 9th Edition. December 2020. Disponível em: https://www.dietaryguidelines.gov/resources/2020-2025-dietary-guidelines-online-materials. Acessado em 04 de abril de 2023.

 

  1. Brotherton JM, Fridman M, May CL, et al. Early effect of the HPV vaccination programme on cervical abnormalities in Victoria, Australia: an ecological study. Lancet. 2011; 377: 2085-92.

 

  1. Chiang CJ, Yang YW, You SL, et al. Thirty-year outcomes of the national hepatitis B immunization program in Taiwan. JAMA. 2013; 310: 974-6.

 

Para o combate ao câncer, é preciso caminhar junto!

André Deeke Sasse – CRM 91.384

 e Vinícius Conceição – CRM 120.034

O dia 8 de abril é lembrado no mundo todo como Dia Mundial de Combate ao Câncer. Como oncologistas clínicos, nunca nos sentimos à vontade em usar expressões como combate, luta, guerra ou batalha. Ao diagnosticar um paciente, buscamos alertá-lo sobre os caminhos que vamos percorrer juntos ao longo do tratamento da doença. Falamos da jornada, das dificuldades, dos acertos, dos dias bons e dos dias ruins que virão pela frente. Nunca é simples ou fácil, mas sempre é possível.

Os números relacionados ao câncer impressionam, seja pela abrangência e aumento de casos, seja pelos altos custos envolvidos na busca de melhores tratamentos. O Brasil deve diagnosticar entre 2023 e 2025 mais de 700 mil casos da doença por ano. As regiões Sul e Sudeste concentram 70% da incidência. O câncer de pele não melanoma ainda é o mais comum no país, representando 31,3% da incidência, seguido pelos cânceres de mama (10,5%), próstata (10,2%), cólon e reto (6,5%) e pulmão (4,2%).

O câncer é uma das principais causas de morte em todo o mundo, sendo responsável por 10 milhões em 2019. A incidência do câncer e a mortalidade estão aumentando em todo o mundo e esse crescimento reflete o envelhecimento da população global e a atuação de fatores de risco, como uso de tabaco, álcool, dieta pouco saudável, inatividade física e poluição do ar.

Um artigo publicado no Jama Oncology, em fevereiro de 2023, mostra as estimativas e projeções do custo econômico global de 29 cânceres em 204 países e territórios de 2020 a 2050. O custo econômico global estimado do câncer de 2020 a 2050 é de US$ 25,2 trilhões, equivalente a um imposto anual de 0,55% sobre o produto interno bruto global. Os 5 tipos de câncer com maior custo econômico são o câncer de traqueia, brônquios e pulmão (15,4%); câncer de cólon e reto (10,9%); câncer de mama (7,7%); câncer de fígado (6,5%); e leucemia (6,3%). A China e os EUA enfrentam os maiores custos econômicos do câncer em termos absolutos, respondendo por 24,1% e 20,8% da carga global total, respectivamente.

Embora 75,1% das mortes por câncer ocorram em países de baixa e média renda, sua participação no custo econômico do câncer é menor em 49,5%. O que significa que o custo econômico do câncer é distribuído de forma desigual entre os tipos da doença, países e regiões. No Brasil, os encargos macroeconômicos anuais de 2020 a 2050 representaram 0,26% do PIB. A perda de produtividade, relacionada ao capital humano, representa 0,24%, do PIB total de 2020 a 2050.

O Estudo apresentado no JAMA reforça que investir em intervenções eficazes de saúde pública para reduzir os gastos com câncer é essencial para proteger a saúde global e o bem-estar econômico. O que o estudo chama de intervenção, nós, do Grupo SOnHe, chamamos de filosofia. Como oncologistas clínicos, acreditamos que a relação médico-paciente seja fundamental tanto na prevenção quanto no tratamento do câncer.  Precisamos de investimento em pesquisa médica para reduzir a incidência, prevalência e mortalidade do câncer, bem como em pesquisa, para identificar intervenções de saúde pública com boa relação custo-benefício. Devemos fortalecer a atenção primária e facilitar a inclusão de programas de rastreamento de câncer com boa relação custo-benefício nos pacotes de benefícios do seguro e adotar formas inovadoras de prestação de cuidados de saúde. E essas devem ser as nossas lutas!

 

André Sasse é oncologista e CEO do Grupo SOnHe. Formado em Medicina e com residência em Oncologia Clínica pela Unicamp. É diretor médico do Radium e coordenador da oncologia dos Hospitais Madre Theodora, Santa Tereza e PUC-Campinas.

Vinícius Conceição é oncologista e sócio do Grupo SOnHe. Formado em Medicina e com residência em Oncologia Clínica pela Unicamp. Tem título de especialista em Cancerologia e Oncologia Clínica pela Sociedade brasileira de Oncologia.

 

 

 

CHOCOLATE X CÂNCER – Vilão ou mocinho?

O chocolate é apreciado por pessoas de todo o mundo. É feito a partir dos grãos do cacaueiro e está disponível em várias formas, incluindo chocolate ao leite, chocolate amargo e chocolate branco. Embora não haja evidências definitivas de que o chocolate possa prevenir ou contribuir com o tratamento do câncer, alguns estudos sugerem que ele contenha certos componentes que podem trazer benefícios à saúde.

Um dos componentes mais promissores do chocolate são os flavonóides. Estes compostos naturais encontrados nos grãos demonstraram ter propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Os antioxidantes podem ajudar a proteger as células dos danos causados ​​pelos radicais livres, que, por sua vez, podem contribuir para o desenvolvimento do câncer. Já as propriedades anti-inflamatórias podem ajudar a reduzir a inflamação no corpo, o que também pode ser um fator no desenvolvimento do câncer.

Vários estudos sugeriram que os flavonóides do cacau podem ter um efeito protetor contra o câncer. Um estudo de 2015 publicado no Journal of Nutrition descobriu que os flavonóides do cacau podem inibir o crescimento de células cancerígenas e reduzir o risco de câncer. Outro estudo publicado na revista Cancer Prevention Research descobriu que consumir flavonóides de cacau pode reduzir o risco de câncer colorretal, reduzindo a inflamação no cólon. Uma meta-análise de 2022 observou relação inversamente proporcional entre consumo de chocolate e mortalidade por doença cardiovascular e câncer.

No entanto, é importante observar que esses estudos ainda são preliminares e são necessárias mais pesquisas para confirmar os benefícios potenciais. Além disso, a maioria dos produtos de chocolate contém outros ingredientes, como açúcar e leite, que podem ter efeitos adversos à saúde quando consumidos em excesso, levando à obesidade, inflamação e, assim, aumentando o risco de câncer e piorando desfechos em pacientes já em tratamento. Saliento aqui que nenhum alimento é capaz de causar câncer por si só, mas sim, a obesidade decorrente do abuso de açúcar, farinhas e consumo excessivo de calorias.

Dessa forma, é importante consumir chocolate com moderação como parte de uma dieta balanceada. Escolher o chocolate amargo com alto teor de cacau é uma opção melhor do que o chocolate ao leite ou o chocolate branco, pois contém mais flavonóides de cacau e menos açúcar. É importante lembrar que os pacientes com câncer devem consultar seu médico e nutricionista para desenvolver um plano nutricional personalizado que leve em consideração suas necessidades e preferências individuais.

 

8 de março – Dia Internacional da Mulher – O desafio de cuidar das mulheres que vivenciam o diagnóstico de tumores femininos

“Ser oncologista é acompanhar com empatia as dores das Mulheres quando recebem o diagnóstico, acolhendo e caminhando juntas.”

(Dia da Mulher)

 

O Dia da Mulher começou com uma greve, ainda no início dos anos 1900, de mulheres da indústria de vestuário demandando melhores condições de trabalho. Desde então, e especialmente a partir dos anos 1970, a ONU declara 8 de março o Dia da Mulher. Com o foco em igualdade e empoderamento muitos caminhos foram abertos, especialmente no mercado de trabalho. Assim sendo, hoje assumimos diversos papéis, com múltiplas jornadas que englobam: trabalho, família, cuidados com filhos, pais e avós.

Nesse sentido, tenho há quase 15 anos a possibilidade de cuidar de mulheres que vivenciam diagnósticos e tratamentos de tumores femininos e seus desafios. Meu cotidiano é permeado pela aprendizagem em ajudar os pacientes a administrar todo o peso de um tratamento oncológico e o manejo da sobrecarga dessa experiência: transmissão de diagnósticos, acolhimento de angústias de mulheres e seus familiares. São ocasiões em que estou presente totalmente, olho no olho, momento de segurar nas mãos, considerando cada passo e planejando como lidar e seguir em frente.

Esta semana, particularmente, foi um desafio lidar com questões de saúde de minha família, reuniões importantes de pesquisa, supervisão e aulas para meus residentes… tudo junto, muito intenso, em poucos dias e com muita correria.

Passados estes dias, fiquei pensando: o que me move como oncologista e o cuidado com mulheres, o que me inspira? Como é possível abraçar tantas demandas, algumas externas, mas muitas minhas, de estudo, de ensinar, de dar aulas e fazer pesquisas? No fim das contas, percebo que é o atender, é o cuidar no dia a dia que me inspira. O momento da porta do consultório fechando e o olhar nos olhos das mulheres que cuido, a escuta de cada uma, o exercício da arte de individualizar os tratamentos, cuidando da pessoa, ajustando funcionalidades, idade, outros diagnósticos. É um trabalho árduo construir um percurso com expectativas realistas, enquadrando o conhecimento terapêutico e molecular em que eu, oncologista, e a mulher que estou cuidando e sua família possamos percorrer junto, escolhendo palavras com foco no que é possível, razoável e mesmo doloroso.

E, assim, depois de uma semana tão corrida, eu estava de volta no consultório, conversando, olhando seus últimos exames escutando seus medos e também as histórias das últimas viagens, de como estão os filhos, netos, como vão na escola, trabalho, faculdade e o que tem gostado de fazer… Enfim, sou fascinada e patologicamente encantada por cuidar de mulheres fantásticas que estão no processo difícil e transformador de diagnósticos oncológicos. E é isso que me motiva, inspira mesmo!

 

 

4 de março – Dia Mundial da Obesidade – Qual a relação da obesidade e o câncer?

Além do envelhecimento da população, o aumento na incidência de câncer provavelmente é impulsionado em parte pelo aumento da prevalência de sobrepeso e obesidade. Um estudo de 2019 revelou que entre 82 fatores de risco ambientais e ocupacionais, comportamentais e metabólicos, o índice de massa corporal (IMC) alto (≥25 kg/m2) foi o terceiro principal fator de risco para morte por câncer em todo o mundo, após tabagismo e uso de álcool.

 Globalmente, a prevalência da obesidade quase triplicou desde 1975, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Afeta adultos e crianças e não apenas aqueles que vivem em países de alta renda; as taxas de obesidade aumentaram dramaticamente em países de renda média e baixa. Em crianças e adolescentes, a obesidade aumentou de 0,7 para 5,6% em meninos e de 0,9 para 7,8% em meninas em todo o mundo entre 1975 e 2016.

Recentemente, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) identificou 13 locais de câncer associados ao aumento do IMC: esôfago (adenocarcinoma); estômago (cárdia); cólon e reto; fígado; vesícula biliar; pâncreas; mama (pós-menopausa); corpo uterino; ovário; rim; meningioma; tireóide e mieloma múltiplo.

Existem vários mecanismos pelos quais a obesidade pode contribuir para o crescimento e progressão do câncer. A obesidade está associada à hiperinsulinemia sistêmica e a diferenças nos fatores de crescimento circulantes semelhantes à insulina, adipocinas, citocinas, biodisponibilidade hormonal e alterações no microbioma, todos os quais foram propostos como contribuintes para o câncer. O aumento do tecido adiposo no microambiente tumoral é uma fonte de lipídios que podem ser utilizados pelos tumores para o metabolismo e como moléculas estruturais e de sinalização. A obesidade também leva a alterações na matriz extracelular, nas células estromais adiposas e nas células imunes, criando um microambiente permissivo ao câncer. O tecido adiposo da medula óssea potencialmente contribui para cânceres hematológicos e metástases ósseas.

Apesar das fortes associações entre obesidade e câncer e da compreensão crescente dos mecanismos envolvidos, não se sabe se a perda de peso pode reduzir o risco e quais são as melhores estratégias para implementar a perda de peso sustentada. Várias intervenções de estilo de vida, que incluem componentes comportamentais, mostraram algum benefício na redução do risco de câncer. Intervenções dietéticas, como restrição calórica, jejum intermitente, jejum de curto prazo e dietas cetogênicas, estão sendo amplamente examinadas quanto aos seus efeitos sobre o câncer. Estudos pré-clínicos e clínicos de curto prazo mostram que algumas dessas estratégias são potencialmente benéficas, podem afetar os genes do ritmo circadiano e o sistema imunológico; no entanto, a sustentabilidade a longo prazo e os benefícios de tais intervenções no câncer ainda precisam ser determinados.

Intervenções farmacológicas para promover a perda de peso também são um tópico de interesse. Até o momento, o tratamento mais amplamente estudado é a metformina, embora tenha efeitos modestos na redução de peso. Em maio de 2022, foram publicados os resultados do estudo MA.32, um grande ensaio clínico prospectivo. O estudo examinou o efeito da metformina versus placebo nos resultados do câncer de mama. Apesar de uma riqueza de estudos pré-clínicos e observacionais sugerindo benefícios da metformina no câncer, o estudo foi amplamente negativo.

Novas terapias de perda de peso mais eficazes, como agonistas do receptor do peptídeo 1 semelhante ao glucagon (GLP-1) e agonistas combinados do polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP)/GLP-1, foram aprovadas para o tratamento da obesidade e do diabetes. No entanto, os indivíduos com histórico de câncer geralmente são excluídos dos ensaios clínicos com esses novos medicamentos para perda de peso; portanto, levará algum tempo para descobrir se essas terapias reduzem o risco de câncer e a mortalidade. É notável que um medicamento para perda de peso (locaserina) foi retirado do mercado dos EUA em 2020 devido ao aumento do risco de câncer, destacando a necessidade de avaliar cuidadosamente os medicamentos para perda de peso e seus efeitos no câncer.

Já a cirurgia bariátrica alcança uma perda de peso significativa e de longo prazo e parece ser eficaz na redução dos riscos de certos tipos de câncer. No estudo de coorte SPLENDID, publicado recentemente, a maior perda de peso decorrente da cirurgia bariátrica reduziu a incidência de câncer associada à obesidade. No entanto, de uma perspectiva global, o acesso à cirurgia bariátrica é limitado a uma pequena fração da população, portanto, pode não ser uma estratégia viável para reduzir significativamente os cânceres associados à obesidade em todo o mundo.

Ainda existem algumas lacunas de conhecimento e desafios no desenvolvimento de métodos para mitigar o câncer causado pela obesidade. Muitas questões epidemiológicas importantes precisam ser melhor compreendidas, incluindo se o risco genético de obesidade está associado ao risco de câncer, se a obesidade no início da vida contribui para o risco de câncer ou se o ganho de peso em fases específicas da vida aumenta o risco.

Dada a escalada da obesidade adulta e infantil em todo o mundo, espera-se que a proporção de câncer causada pelo excesso de gordura corporal aumente. Há, portanto, uma necessidade urgente de identificar maneiras eficientes no nível individual e social para abordar esse importante problema de saúde pública e melhorar os padrões de dieta e atividade física para reduzir o excesso de adiposidade e doenças associadas, incluindo o câncer.

 

Referências:

  1. Gallagher, E.J., LeRoith, D. Obesity and cancer. Cancer Metastasis Rev 41, 463–464. 2022.
  2. Larsson SC, Spyrou N, Mantzoros CS. Body fatness associations with cancer: evidence from recent epidemiological studies and future directions. 2022.

Começa uma nova fase de vacinação contra a COVID-19 em todo o Brasil

Começou na segunda-feira (27/02) mais uma etapa da campanha de vacinação contra a COVID-19 no Brasil. Nesta nova fase, as pessoas estão sendo vacinadas com o reforço do imunizante bivalente da Pfizer.

Segundo o informe técnico operacional divulgado pelo Ministério da Saúde, nesta primeira fase, serão imunizadas as pessoas acima de 70 anos, pessoas que vivem em instituições de longa permanência (ILP), pacientes imunocomprometidos e comunidades indígenas, ribeirinhos e quilombolas (veja datas abaixo).

Em seguida, serão imunizadas as pessoas com mais de 60 anos, gestantes e puérperas, trabalhadores de saúde, pessoas com deficiência e população privada de liberdade. Estados e municípios podem definir seus próprios calendários. Por isso, vale checar as datas antes de se deslocar para o posto de saúde.

Esta vacina é uma atualização em relação aos primeiros imunizantes fabricados contra a COVID-19 e protege contra a cepa original do coronavírus e as subvariantes ômicron.

O objetivo do reforço com a bivalente é expandir a resposta imune específica à variante ômicron e melhorar a proteção da população.

A meta é vacinar 90% da população-alvo. Veja calendário:

 

27/02: Pessoas acima de 70 anos; pessoas vivendo em instituições de longa permanência (ILP); pacientes imunocomprometidos (entenda mais abaixo) a partir de 12 anos; e comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas;

06/03: Pessoas de 60 a 69 anos;

20/03: Gestantes e puérperas;

17/04: Trabalhadores da saúde, pessoas com deficiência permanente (a partir de 12 anos), população privada de liberdade, adolescentes cumprindo medidas socioeducativas e funcionários do sistema de privação de liberdade.

 

Demais grupos

Além dos grupos prioritários, o ministério também quer intensificar a campanha com a vacina monovalente para os maiores de 12 anos. A ideia é aumentar a cobertura vacinal nesses outros públicos. A recomendação é:

– Uma dose de reforço para quem tem até 40 anos.

– Duas doses de reforço para quem tem mais de 40 anos.

A Pfizer, assim como a Anvisa, reforça que a vacina monovalente original continua sendo importante instrumento no combate à COVID-19.

 

Quem são os imunossuprimidos?

As pessoas com baixa imunidade são chamadas de imunossuprimidas ou imunocomprometidas:

– Pessoas transplantadas de órgão sólido ou de medula óssea;

– Pessoas com HIV e CD4 <350 células/mm3;

– Pessoas com doenças reumáticas imunomediadas sistêmicas em atividade e em uso de dose de prednisona ou equivalente > 10 mg/dia ou recebendo pulsoterapia com corticoide e/ou ciclofosfamida;

– Pessoas em uso de imunossupressores ou com imunodeficiências primárias;

– Pessoas com neoplasias hematológicas, como leucemias, linfomas e síndromes mielodisplásicas;

– Pacientes oncológicos que realizaram tratamento quimioterápico ou radioterápico nos últimos seis meses.

Os imunossuprimidos são todas aquelas pessoas que recebem ou receberam tratamento que mexe com o sistema imunológico ou que têm alguma doença que deprime o sistema imunológico.

 

Vacinação é um ato de cuidado consigo e com todos ao seu redor. Vamos aderir a nova oportunidade e aumentar nossa proteção contra a COVID-19.

Referências

  1. Ministério da Saúde
  2. FioCruz
  3. SBIM – sociedade brasileira de imunizações.