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Dia Internacional do Yoga – Buscar bem-estar físico e emocional no adoecimento é importante para melhorar a qualidade de vida durante e após o tratamento

Já não é de hoje que é de amplo conhecimento que práticas de atividade física regulares e hábitos de vida saudável estão relacionados tanto com a prevenção de alguns tipos de câncer quanto com a diminuição da recorrência em pacientes que já foram tratados.

O exercício físico também se mostra benéfico como auxílio em tratamentos como no intuito de aumentar a capacidade pulmonar para cirurgias em pacientes com câncer de pulmão e de suma importância para auxílio de prevenção e manutenção de massa óssea em pacientes com câncer de mama e próstata, quando ficam por longos períodos em tratamentos em que há supressão hormonal.

Também é de conhecimento geral que pacientes com câncer muitas vezes experimentam sensações e sentimentos desagradáveis e incômodos, sejam físicas, pela própria doença ou pelos efeitos do tratamento, ou emocionais, com aumento de ansiedade, angústia e sintomas depressivos.

Neste sentido, buscar maneiras de bem-estar físico e emocional dentro das condições que o adoecimento traz são medidas importantes para melhorar a qualidade de vida durante e após o tratamento.

Levando a essa necessidade de unir, corpo e mente, surge o yoga ou ioga. A palavra significa controlar, unir. É um termo de origem sânscrita, uma língua presente na Índia, em especial na religião hinduísta. Yoga é um conceito é uma filosofia, que trabalha o corpo e a mente por meio de disciplinas tradicionais de quem a pratica.

De fato, o yoga tem sido cada vez mais praticado por pacientes com câncer como terapia para redução de estresse, controle de humor, melhora dos sintomas e da qualidade de vida.

Em 2011, um dos maiores centros de Oncologia do mundo, o MD Anderson Cancer Center, realizou um estudo com portadoras de câncer de mama, mostrando que a prática do Yoga, além de reduzir os níveis de cortisol (hormônios do estresse), promoveu a melhora no funcionamento do organismo das mulheres como um todo. Aumentou a capacidade de executar as tarefas do dia-a-dia, reduziu o cansaço e fez com que elas ‘encarassem’ a doença com menos sofrimento.

Ainda, segundo o estudo, a prática do Yoga estimulou a produção de um neurotransmissor conhecido como GABA, que está ligado à depressão e outros transtornos de ansiedade, quando em baixos níveis.

Além de contribuir para a redução da secreção de cortisol, a prática do yoga também foi associada a redução na secreção de citocinas pró-inflamatórias e a melhora no funcionamento do sistema imune.

Também já sabemos que a insônia é um problema que aflige muitas pessoas pelo mundo, incluindo pacientes com câncer. E o yoga mostrou benefício neste cenário.

A filosofia do yoga envolve outros aspectos além dos exercícios de postura e respiração, incluindo mudanças relacionadas à alimentação, à prática de atividade física, à abstenção de hábitos maléficos à saúde (como tabagismo), e relacionamentos interpessoais. Intervenções mais amplas em termos de estilo de vida parecem ser mais eficazes quando associadas ao tratamento tradicional do câncer, e tem maior potencial de benefícios a longo prazo.

Assim, o aconselhamento dos pacientes com diagnóstico de câncer deve sempre levar em conta que a combinação de intervenções relacionadas ao estilo de vida (dieta, atividade física, redução de estresse, suporte social) leva aos melhores resultados.

Em dezembro de 2014, a ONU declarou o dia 21 de junho como o Dia Internacional do Yoga, como intenção de levar a mais pessoas o conhecimento sobre uma ferramenta simples e acessível, capaz de trazer relaxamento e tonicidade ao corpo e positividade à mente, além de melhorar a memória, concentração, criatividade, disposição física e o nível de energia vital como um todo.

Visto isso, é possível ter qualidade de vida e câncer ao mesmo tempo e o yoga pode ser uma saudável, bem-vinda e importante aliada nesse processo.

 

Referências:

  1. Mao JJ, Palmer CS, Healy KE, et al. Complementary and alternative medicine use among cancer survivors: a population-based study. J Cancer Surviv. 2011 Mar;5(1):8-17.
  2. Vadiraja HS, Raghavendra RM, Nagarathna R, et al. Effects of a yoga program on cortisol rhythm and mood states in early breast cancer patients undergoing adjuvant radiotherapy: a randomized controlled trial. Integr Cancer Ther. 2009 Mar;8(1):37-46.
  3. Carlson LE, Speca M, Patel KD, Goodey E. Mindfulness-based stress reduction in relation to quality of life, mood, symptoms of stress and levels of cortisol, dehydroepiandrosterone sulfate (DHEAS) and melatonin in breast and prostate cancer outpatients. 2004 May;29(4):448-74.
  4. Rao RM, Nagendra HR, Raghuram N, et al. Influence of yoga on mood states, distress, quality of life and immune outcomes in early stage breast cancer patients undergoing surgery. Int J Yoga. 2008 Jan;1(1):11-20.
  5. Cramer H, Lauche R, Klose P, et al. Yoga for improving health-related quality of life, mental health and cancer-related symptoms in women diagnosed with breast cancer. Cochrane Database Syst Rev. 2017 Jan 3;1(1):CD010802.
  6. Buffart LM, van Uffelen JG, Riphagen II, et al. Physical and psychosocial benefits of yoga in cancer patients and survivors, a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. BMC Cancer. 2012 Nov 27;12:559.
  7. Janelsins MC, Peppone LJ, Heckler CE, et al. YOCAS©® Yoga Reduces Self-reported Memory Difficulty in Cancer Survivors in a Nationwide Randomized Clinical Trial: Investigating Relationships Between Memory and Sleep. Integr Cancer Ther. 2016 Sep;15(3):263-71.
  8. Raghavendra RM, Nagarathna R, Nagendra HR,. Effects of an integrated yoga programme on chemotherapy-induced nausea and emesis in breast cancer patients. Eur J Cancer Care (Engl). 2007 Nov;16(6):462-74.
  9. Knoerl R, Giobbie-Hurder A, Berfield J, et al. Yoga for chronic chemotherapy-induced peripheral neuropathy pain: a pilot, randomized controlled trial. J Cancer Surviv. 2021 Sep 15:1–10.

 

Dia Mundial do Doador de Sangue. No Brasil, desde 2021, não há impedimento para doadores com qualquer orientação sexual. Nos EUA, a liberação ocorreu este ano

Dia 14 de junho é comemorado o Dia Mundial do Doador de Sangue. Por isso, neste mês acontece a campanha “Junho Vermelho”, que visa conscientizar, sensibilizar e estimular a população sobre a importância de ser um doador. 

Ressalta-se que não há um substituto para o sangue e sua disponibilidade é essencial em diversas situações. Uma única doação pode ajudar a salvar até quatro vidas.

A doação de sangue é um gesto voluntário, altruísta e não remunerado por meio de um processo realizado em etapas. Os voluntários realizam um cadastro, passando por avaliação de pré-triagem (sendo verificado sinais vitais, peso e dosagem de hemoglobina) e triagem clínica, momento em que o candidato passa por uma entrevista individual e sigilosa para verificar se a doação é segura ao doador e ao paciente. Nesse processo é fundamental a sinceridade do voluntário para garantir que o processo ocorra com segurança para o doador, pois determinados problemas de saúde podem gerar complicações no ato da doação e com o paciente que está suscetível a doenças infecciosas que podem ser transmitidas pela doação. 

A doação de sangue é um procedimento extremamente seguro, que acarreta pouco risco para a população em geral, com a coleta sendo feita por profissionais especializados com material estéril, descartável e de uso individual.

No Brasil, a lei permite doação a partir dos 16 anos de idade – sendo que para aqueles que ainda não completaram 18 é necessária aprovação por escrito de um responsável legal – até os 69 anos de idade, desde que a primeira doação tenha ocorrido antes dos 60 anos. É necessário também ter peso mínimo de 50kg. Gestantes não podem doar e mulheres que estão amamentando só podem doar se o parto tiver ocorrido há mais de 12 meses. Em mulheres que não estão amamentando, a doação pode ser feita três meses após o parto (ou aborto). 

O intervalo entre as doações de sangue atualmente recomendado é de 90 dias para mulheres e 60 dias para homens.

O doador deve ter boas condições de saúde sendo permitida a doação de portadores de algumas doenças como hipertensão, dislipidemia, hipotiroidismo, entre outras, desde que controladas. Já antecedente de neoplasia maligna, mesmo que curada, diabetes insulino-dependente, infecção prévia por HIV, hepatite C ou B e doença de chagas, doença cardíaca importante e outras doenças graves excluem definitivamente o candidato à doação. Etilistas crônicos e usuários de drogas injetáveis também são inaptos a doação. Tatuagem, piercing, vacinas e procedimentos cirúrgicos podem gerar inaptidão à doação por um período.

Este ano, nos Estados Unidos, o Food and Drug Administration (FDA) emitiu novas recomendações na avaliação de elegibilidade do doador de sangue independentemente da orientação sexual, sexo ou gênero do doador. No Brasil, desde 2021, após aprovação de um projeto no Senado, a doação é permitida independente da orientação sexual, de candidatos com parceiro(a) sexual fixo, sem relações ocasionais com terceiros, há pelo menos doze meses.

No dia da doação recomenda-se no mínimo 6 horas de sono, ter realizado uma alimentação leve, apenas evitando refeições gordurosas 3 horas antes da doação e deve-se também evitar bebida alcoólica por pelo menos 12 horas antes da doação. Levar documento de identificação com foto emitido por órgão oficial.

Doe! E se você não pode doar, você pode ajudar ao divulgar e apoiar campanhas de doação. Todo auxílio é válido para continuar a permitir que este ato de solidariedade continue a salvar vidas por todo o mundo.

 

Melanoma: O bicho-papão dos cânceres de pele

O câncer de pele é a neoplasia mais frequente no Brasil e corresponde a 30% de todos os tumores malignos. Como a pele é heterogênea, o câncer de pele pode apresentar tumores de diferentes linhagens. Os mais frequentes são o carcinoma basocelular e o carcinoma epidermoide.

O melanoma representa 4% de todos os tumores de pele, mas é o mais agressivo por ter alta possibilidade de metástases (se espalhar pelo corpo). O melanoma se origina nos melanócitos, células da pele que produzem melanina, substancia que determina a cor da pele. É mais comum em adultos de pele branca, após os 40 anos e pode acometer qualquer local da pele ou mucosas, além de raramente, ocorrer na coroide, estrutura que fica dentro dos olhos. Nos indivíduos de pele negra o melanoma é mais comum nas áreas mais claras como palmas das mãos e plantas dos pés.       

No Brasil, os dados do INCA, estimam cerca de 9.000 casos novos em 2023 com 2.000 mortes no ano. Sendo as maiores incidências nos estados das regiões Sudeste e Sul. 

Há pouco tempo, os tratamentos contra o melanoma eram pouco eficazes e muito tóxicos com a quimioterapia sendo quase a única opção. A mudança ocorreu em 2010, com a apresentação dos resultados do primeiro estudo com imunoterapia, com uma medicação chamada Ipilimumab. Resumindo: uma medicação que conseguia ativar o nosso sistema imunológico permitindo ao próprio organismo “enxergar” melhor as células tumorais e, assim, ativar os linfócitos (nossas células “soldados”) para atacar o câncer. Hoje, existem vários outros medicamentos com mecanismos de ação parecidos, além do ANTI-CTLA4, temos os ANTI- PD1, ANTI-PDL1, ANTI -LAG, e outros vem surgindo, além da possibilidade de combinação com esses agentes. Foi uma mudança de paradigma na Oncologia.           

O aparecimento do melanoma

O desenvolvimento do melanoma também pode estar relacionado à ativação de um gene chamado BRAF. Este gene deveria estar desativado (como um interruptor que deveria estar desligado), mas que em algum momento se ativa (se liga!), ocasionando a proliferação de células tumorais e crescimento do tumor. Cerca de30 % dos pacientes com melanoma tem mutação do BRAF. Para aqueles pacientes que tem essa mutação, existem medicamentos que são inibidores de BRAF, portanto, que tentam frear a ação desse gene.

Mas, investir em prevenção ainda é o caminho mais eficiente, visto que o melanoma é um câncer associado à exposição solar e, portanto, pode ser, na maioria das vezes, prevenido. O uso recorrente de protetor solar, que deve ser passado diariamente e repassado a cada 2-3 horas, mesmo em dias pouco ensolarados. Uso de roupas mais longas, chapéus e evitar o sol nos períodos de maior incidência de radiação UV, entre as 9h e 16h são medidas simples que podem evitar um dos piores tipos de câncer. 

Diagnóstico precoce

Outra coisa muito importante é o diagnóstico precoce. Quanto mais cedo o diagnóstico, menor o tumor, maiores as chances de cura. Para isso, é importante a visita regular a um dermatologista, especialmente para aquelas pessoas de pele clara ou com manchas crônicas pelo corpo. Mas cada pessoa também pode examinar e observar sua pele e suas manchas. 

Pode-se usar a regra do ABCDE para alertar sobre as manchas que devem ser melhor observadas: A= assimetria | B =bordas irregulares | C= cores de vários tons e heterogêneas | D=diâmetro maior 6mm | E=evolução com crescimento ou mudanças de aspecto.  Manchas ou lesões de pele que tenham essas características devem ser avaliadas por um dermatologista.

O melanoma é um dos tumores mais agressivos! Deve-se investir em prevenção e diagnóstico precoce. O tratamento ganhou, nos últimos anos, importantes medicamentos de grande eficácia, mas também de alto custo, sendo muitos deles não disponíveis no SUS. Todas as pessoas devem sempre examinar o próprio corpo em busca de manchas que tenham características de alerta.  O melanoma continua sendo o bicho-papão dos tumores de pele e talvez de todos os tumores.

 

CAR-T Cell: o início de um novo tratamento oncológico

M 158.05Há alguns dias, esteve em evidência na mídia o caso de um paciente com câncer há 13 anos que apresentou resposta ao tratamento com CAR-T Cell. Células CAR-T (linfócitos T com receptores antigênicos quiméricos), uma opção inovadora no tratamento de alguns tipos de cânceres, já está disponível no Brasil.

Os linfócitos são um dos tipos de glóbulos brancos do nosso sistema imune que reconhecem antígenos na superfície celular de agentes externos, infecciosos e tumorais, produzindo anticorpos para combater estes invasores e defender o nosso organismo. As células CAR-T são linfócitos retirados do próprio paciente, através da coleta por uma máquina de leucoaférese, que passam por um processo em laboratório de modificação genética que lhes confere a capacidade de, ao serem reintroduzidos no corpo do paciente, reconhecer e eliminar as células tumorais. É um tratamento que traz benefícios para os pacientes com respostas potencialmente duradouras e até mesmo curativas para doenças até então sem opções terapêuticas.

Há duas formas de CAR-T Cell no Brasil; o CAR-T farmacêutico comerciais e o CAR-T acadêmico.

Os CAR-T farmacêuticos foram aprovados pela Anvisa e são produzidos por empresas farmacêuticas que os comercializam. Atualmente são feitos para pacientes com linfoma não Hodgkin difuso de grandes células B e leucemia linfoblástica aguda B (LLA-B) recidivados ou refratários. Espera-se ainda a aprovação em breve de CAR-T para pacientes com outros tipos de linfoma não Hodgkin e com mieloma múltiplo. O custo da CAR-T comercial é alto, podendo chegar a R$ 2 milhões por paciente.

Os CAR-T acadêmicos estão sendo desenvolvidos em parceria do Butantã com a Universidade de São Paulo (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e de São Paulo) e o Hemocentro de Ribeirão Preto. São feitos para pacientes com linfomas não Hogkin B e LLA-B. Atualmente, são realizados em forma de uso compassivo, porém estão desenvolvendo um estudo clinico fase 1/2 a ser iniciado em breve. Este estudo estaria disponível para toda a população brasileira pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Essas novas terapias transformam a oncohematologia, conferindo um melhor prognóstico, expectativa e qualidade de vida aos pacientes. Com o tempo e o andamento das pesquisas saberemos melhor como trabalhar com essa estratégia promissora.

20 de maio – Dia Nacional do Medicamento Genérico – Mas, afinal, o que é o genérico e como ele surgiu no Brasil?

Medicamentos são itens de primeira necessidade, principalmente para portadores de doenças crônicas que demandam tratamentos contínuos. Para facilitar o acesso dos brasileiros aos medicamentos, criou-se o medicamento genérico, uma opção que pode chegar a preço 70% mais barato que o medicamento original com o mesmo princípio ativo e eficácia.

No dia 20 de maio de 2023, o Brasil celebra 24 anos de comercialização de medicamentos genéricos. Mas, afinal, o que é o genérico e como ele surgiu no Brasil?

O medicamento genérico é aquele que contém o mesmo princípio ativo, na mesma dose e forma farmacêutica, e é administrado pela mesma via, com mesma posologia e indicação terapêutica do medicamento de referência. O genérico apresenta eficácia e segurança equivalente à do medicamento de referência. Para assegurar a equivalência terapêutica dos genéricos, testes de comparação in vitro e in vivo são apresentados à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Em 1999, houve a instituição do medicamento genérico por meio da Lei 9.787 de 10 de fevereiro deste ano. Essa lei garante a comercialização, por qualquer laboratório, de medicamentos cujas patentes estejam expiradas. Essas patentes são concedidas aos respectivos laboratórios que pesquisam um determinado princípio ativo e documentam cientificamente e clinicamente suas propriedades, estabelecendo parâmetros de utilização do mesmo. Em geral, as patentes são concedidas por até 20 anos. Uma vez vencida, a tecnologia passa a ser de domínio público, quando podem ser registrados medicamentos genéricos. O preço do medicamento genérico passa a ser menor pois os fabricantes não precisam realizar todas as pesquisas envolvidas no desenvolvimento de um medicamento inovador, visto que suas características são as mesmas do medicamento de referência.

Atualmente, cerca de 50% de todos os medicamentos de referência já estão disponíveis na sua forma genérica. A lista desses medicamentos está disponível no acervo digital da Anvisa e as farmácias e drogarias são obrigadas por lei a manter uma lista atualizada em local de fácil leitura para os consumidores. Para identificar os medicamentos genéricos, basta certificar-se de que na embalagem tenha escrito: “Medicamento Genérico – Lei 9.787/99” e uma tarja amarela com a letra G.

Quando falamos de medicamentos genéricos em Oncologia, ainda temos uma longa caminhada a percorrer, visto que muitas das medicações antineoplásicas (em especial as mais custosas) foram recentemente desenvolvidas e, portanto, ainda tem a patente vigente. Alguns medicamentos já estão disponíveis na sua forma genérica; é o caso do Anastrozol e do Tamoxifeno, medicamentos amplamente utilizados no tratamento do câncer de mama. Alguns quimioterápicos também já estão disponíveis como genéricos; a Doxorrubicina (conhecida por ser sua cor vermelha) é um dos exemplos.

Os genéricos representam pouco mais de 35% do total de medicamentos comercializados no país e já geraram uma economia de R$ 241 bilhões desde sua implantação, em 1999. Os dados são da Associação Brasileira das Indústrias de Medicamentos Genéricos e Biossimilares (PróGenéricos). Em 2022, mais de 1,8 bilhão de caixas de genéricos foram comercializadas no Brasil. O número mostra um aumento de mais de 7% quando comparado ao ano anterior, o que denota confiança nessa modalidade de medicamentos por parte dos laboratório, comerciantes e da população que o consome.

 

 

 

 

Estudo para vacina terapêutica contra câncer de pâncreas tem resultado promissor

As vacinas têm sido estudadas como uma forma de prevenir certos tipos de câncer, mas não são consideradas uma forma de tratamento para a maioria dos tipos de câncer. Ou seja, não há vacina disponível atualmente para o tratamento do câncer, mas existem várias vacinas terapêuticas em desenvolvimento que visam ajudar o sistema imunológico a combater o câncer. Essas vacinas são diferentes das vacinas que ajudam a prevenir doenças infecciosas, como o sarampo ou a gripe.

As vacinas terapêuticas para o câncer funcionam estimulando o sistema imunológico a atacar as células cancerosas. Elas podem ser feitas a partir das próprias células cancerosas do paciente, ou a partir de antígenos específicos encontrados em células cancerosas. As vacinas terapêuticas também podem ser combinadas com outros tratamentos contra o câncer, como quimioterapia e radioterapia.

No entanto, vale ressaltar que essas vacinas terapêuticas ainda estão em fase de pesquisa e desenvolvimento, e sua eficácia e segurança ainda precisam ser comprovadas por meio de estudos clínicos rigorosos.

Um recente estudo, publicado na Nature trouxe uma descoberta promissora. Há cerca de cinco anos um grupo de cientistas vem estudando uma vacina contra o câncer de pâncreas, um câncer notório por recidivas precoces em pacientes cujos tumores foram removidos. A rápida velocidade com que a doença frequentemente reaparece, poderia ser uma vantagem para os cientistas: eles rapidamente descobririam se a vacina funciona.

Pesquisadores do Memorial Sloan Kettering Cancer Center em Nova York, extraíram tumores de pacientes e enviaram amostras deles para a Alemanha. Lá, cientistas da BioNTech, empresa que produziu uma vacina contra a COVID-19 em conjunto com a Pfizer, analisaram a composição genética de proteínas na superfície das células cancerígenas.

A vacina provocou uma resposta imune em metade dos pacientes tratados no estudo. Usando esses dados genéticos, os cientistas da BioNTech produziram vacinas personalizadas projetadas para ensinar o sistema imunológico de cada paciente a atacar os tumores. Como as vacinas da COVID-19 da BioNTech, as vacinas contra o câncer dependiam do RNA mensageiro. Nesse caso, as vacinas instruíram as células dos pacientes a produzir algumas das mesmas proteínas encontradas em seus tumores ressecados, provocando uma resposta imune que seria útil contra células cancerígenas.

O estudo foi pequeno: apenas 16 pacientes receberam a vacina, parte de um regime de tratamento que também incluía quimioterapia e um medicamento destinado a impedir que os tumores escapassem das respostas imunes.

Ainda é um estudo preliminar e o custo pode ser uma grande barreira para que esses tipos de vacinas sejam mais amplamente utilizados. Mas o simples fato de os cientistas poderem criar, verificar a qualidade e distribuir vacinas personalizadas contra o câncer tão rapidamente – os pacientes começaram a receber as vacinas por via intravenosa cerca de nove semanas após a remoção dos tumores – é um sinal promissor.

 

 

Câncer de Ovário: tumor silencioso e agressivo é o 8º entre as brasileiras

O câncer de ovário acomete mais de 300.000 mulheres anualmente em todo o mundo. No Brasil, é o oitavo câncer mais frequentemente diagnosticado, responsável por 7.310 novos casos a cada ano segundo a estimativa do Instituto Nacional do Câncer para o triênio 2023-2026. A despeito de sua colocação em incidência de novos casos, o câncer de ovário está associado à maior taxa mortalidade entre os cânceres ginecológicos. No Brasil, no ano de 2020 ocorreram quase 4.000 mortes por câncer de ovário. Em todo o mundo, mais de 207.000 mulheres morrem a cada ano em função da doença.

Diante desse quadro, fica clara a importância do dia 8 de maio, como o Dia Mundial do Câncer de Ovário. Essa iniciativa tem o objetivo de lançar luz ao problema e atrair a atenção da sociedade, dos profissionais de saúde e dos governantes, para que unam esforços na luta contra o câncer de ovário.

A elevada mortalidade associada ao câncer de ovário se deve, em grande parte, ao fato de que a maioria dos casos é diagnosticada em estádios mais avançados. Sabemos que, a chance de cura do câncer é maior quando ele é diagnosticado quando a doença ainda está localizada ao órgão de origem. Dados brasileiros revelam que em 67% dos casos, o câncer de ovário é diagnosticado em estádios mais avançados, chamados III e IV. Um dado bastante alarmante! Colocando em perspectiva, apenas 29% das mulheres com diagnóstico de câncer de ovário avançado sobrevivem até os 5 anos após o diagnóstico.

Em primeiro lugar, precisamos chamar a atenção para o fato de que, ao contrário do câncer de mama e do câncer de colo uterino, não dispomos de exames de rastreamento para o câncer de ovário. Diversos estudos já foram conduzidos avaliando diferentes métodos de rastreamento, como o exame físico pelo ginecologista, a ultrassonografia e um exame de sangue chamado CA125 (um marcador tumoral, que pode ou não ser produzido em excesso pelo câncer de ovário). No entanto, nenhuma dessas estratégias foi capaz de diagnosticar precocemente o câncer de ovário, de forma eficaz. Sendo assim, o diagnóstico na grande maioria das vezes é feito em mulheres com sintomas da doença.

Aqui se coloca a segunda questão importante. O câncer de ovário, na maioria das vezes, não causa sintomas nos seus estádios iniciais, o que faz com que as mulheres sintomáticas tenham uma grande chance de apresentarem a doença mais avançada. Além disso, os sintomas associados ao câncer de ovário são inespecíficos e podem ser confundidos com outros problemas de saúde. Isso faz com que as mulheres não suspeitem inicialmente da doença e acabem atrasando a procura pelo profissional de saúde. 

 

Os sintomas mais comumente relatados pelas pacientes são:

  • Aumento de volume do abdome
  • Dor abdominal/pélvica (região inferior do abdome)
  • Sensação de empachamento, dificuldade para se alimentar
  • Fadiga
  • Sintomas urinários: aumento da frequência das idas ao banheiro, sensação de urgência para urinar

 

Assim, é importante reforçar o conhecimento sobre esses sintomas e a necessidade de buscar atendimento médico caso se instalem e sejam persistentes. 

Diante da suspeita de câncer de câncer de ovário, a mulher será submetida a exames para investigação e confirmação diagnóstica. Geralmente, a avaliação se inicia pelo exame físico pelo ginecologista, seguido de ultrassonografia e exames laboratoriais, incluindo o CA125. O achado de lesões ovarianas suspeitas, nódulos sólidos e/ou cistos, outros exames de imagem podem ser solicitados, como tomografia computadorizada e ressonância magnética, e a paciente é encaminhada para o ginecologista oncológico, especializado no tratamento cirúrgico dos cânceres ginecológicos. 

Após avaliação pelo ginecologista oncológico, uma decisão será tomada: iniciar o tratamento pela cirurgia ou pela quimioterapia. Geralmente, quando possível fazer a retirada completa do tumor e de todas as outras lesões, sem atraso para o tratamento posterior com quimioterapia, a cirurgia é realizada como primeiro tratamento. Do contrário, o tratamento é iniciado com a quimioterapia para reduzir o tamanho dos tumores e permitir uma cirurgia ótima posteriormente. 

Durante algumas décadas, o tratamento do câncer de ovário se resumia à cirurgia e à quimioterapia. Isso mudou nos últimos 10 anos, com a introdução de novos tratamentos que vêm mudando a história da doença e oferecendo um novo horizonte para as pacientes com câncer de ovário. O primeiro desses novos tratamentos é a associação de um medicamento chamado Bevacizumabe à quimioterapia. O Bevacizumabe atua nos vasos sanguíneos que nutrem o tumor, melhorando os efeitos da quimioterapia e prolongando o tempo para progressão da doença. 

Um segundo grupo de medicamentos recentemente incluídos no tratamento do câncer de ovário são os chamados inibidores de PARP. São eles o Olaparibe, o Niraparibe, o Rucaparibe e o Veliparibe. Mas o que é a PARP? A PARP é uma proteína que está envolvida na correção de defeitos no DNA da célula. Essa ação é extremamente importante, pois sabemos que as células que não conseguem corrigir esses defeitos acabam morrendo. Existem diferentes mecanismos de correção de defeitos no DNA, de forma que o efeito desses medicamentos contra o câncer de ovário é maior naquelas pacientes em que os tumores apresentam desses mecanismos de correção, no que chamamos de “Deficiência de Recombinação Homóloga” (ou HRD). Nesse grupo de defeitos, encontramos as mutações dos genes BRCA1 e BRCA2. Muito conhecidas por sua associação ao aumento do risco de desenvolvimento do câncer de mama, as mutações de BRCA1 e BRCA2 também aumentam o risco de câncer de ovário, entre outros. 

Os inibidores de PARP estão modificando de forma significativa o cenário do tratamento do câncer de ovário. Eles podem ser usados sozinhos ou após a quimioterapia, no que chamamos de “tratamento de manutenção”. Os benefícios que esses medicamentos trouxeram nunca haviam sido vistos no cenário de tratamento do câncer de ovário. Lembrem-se que comentamos que entre as pacientes com diagnóstico de doença avançada cerca de 29% apenas sobreviviam aos primeiros 5 anos após o diagnóstico. Nas pacientes com câncer de ovário e mutação de BRCA1 ou BRCA2, que fazem uso de quimioterapia e inibidor de PARP, esse número chega a quase 50%. Algumas pacientes apresentam resposta completa ao tratamento, com desaparecimento de todas as lesões, sem apresentarem nenhum sinal de recidiva/progressão de doença após 5 anos de tratamento. Hoje já chegamos a vislumbrar a cura para essas pacientes. 

O cenário está mudando muito rapidamente e para melhor. Diversos outros tratamentos estão sendo testados em câncer de ovário, como a imunoterapia, vacinas, conjugados anticorpo-quimioterapia, terapia gênica, entre outros. Os avanços no desenvolvimento de novas terapias cada vez mais eficazes, partindo de um melhor entendimento da doença, bem como campanhas de conscientização sobre o câncer de ovário, como o Dia Mundial do Câncer de Ovário, são peças fundamentais para que possamos melhorar o prognóstico da doença, melhorando as chances de cura e mantendo a qualidade de vida das mulheres.

 

Referências

 

Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estatísticas de câncer. Disponível em: https://www.inca.gov.br/numeros-de-cancer. Acessado em 04 de maio de 2023.

Paulino E, Melo AC, Silva-Filho AL, et al. Panorama of gynecologic câncer in Brazil. JCO Glocal Oncol. 2020; 6:1617-30.

Burger RA, Brady MF, Bookman MA, et al. Incorporation of bevacizumab in the primary treatment of ovarian cancer. N Engl J Med. 2011 Dec 29;365(26):2473-83.

Aghajanian C, Blank SV, Goff BA, et al. OCEANS: a randomized, double-blind, placebo-controlled phase III trial of chemotherapy with or without bevacizumab in patients with platinum-sensitive recurrent epithelial ovarian, primary peritoneal, or fallopian tube cancer. J Clin Oncol. 2012 Jun 10;30(17):2039-45.

Banerjee S, Moore KN, Colombo N, et al. Maintenance olaparib for patients with newly diagnosed advanced ovarian cancer and a BRCA mutation (SOLO1/GOG 3004): 5-year follow-up of a randomised, double-blind, placebo-controlled, phase 3 trial. Lancet Oncol. 2021 Dec;22(12):1721-1731.

Ray-Coquard I, Pautier P, Pignata S, et al. Olaparib plus Bevacizumab as First-Line Maintenance in Ovarian Cancer. N Engl J Med. 2019 Dec 19;381(25):2416-2428. doi: 10.1056/NEJMoa1911361.

González-Martín A, Pothuri B, Vergote I, et al. Niraparib in Patients with Newly Diagnosed Advanced Ovarian Cancer. N Engl J Med. 2019 Dec 19;381(25):2391-2402.

 

 

Quais medicamentos oncológicos pedem uma atenção especial aos olhos?

O aumento dos casos de câncer e o rápido desenvolvimento de novos tratamentos oncológicos ressaltam a necessidade dos oncologistas e oftalmologistas trabalharem de forma multidisciplinar, identificando e manejando possíveis toxicidades oculares.

O amplo espectro de complicações oftálmicas induzidas por medicamentos oncológicos inclui distúrbios agudos e crônicos, reversíveis e irreversíveis. Complicações oftálmicas leves a moderadas são muito comuns e reversíveis após a interrupção do tratamento. Algumas toxicidades oculares importantes podem exigir uma redução da dose ou a descontinuação da medicação para prevenir a perda visual e preservar a qualidade de vida.

Abaixo alguns medicamentos oncológicos que podem causar efeitos colaterais nos olhos e requerem atenção especial durante o tratamento:

  1. Tamoxifeno: comumente usado para tratar o câncer de mama. Pode causar problemas oculares, incluindo catarata e retinopatia.
  2. 5-fluorouracil: pode causar efeitos colaterais oculares como olhos secos, irritação, vermelhidão, lacrimejamento, sensibilidade à luz e visão turva. Em casos raros, o 5-FU pode causar danos à córnea ou à retina, resultando em alterações na visão.
  3. Imatinibe: este medicamento é usado para tratar alguns tipos de neoplasias sólidas e hematológicas. Pode causar visão turva, diplopia (visão dupla) e edema palpebral.
  4. Paclitaxel: muito comumente utilizado no tratamento do câncer de mama, entre outros. Pode causar visão turva, mudanças na cor da visão e sensibilidade à luz.
  5. Cisplatina: medicamento usado para tratar diversos tipos de neoplasias, como pulmão, bexiga e colo de útero. Pode causar problemas oculares, incluindo catarata e diplopia.
  6. Enfortumabe vedotina: é um medicamento utilizado no tratamento de certos tipos de câncer, como bexiga. Os efeitos colaterais oculares mais comuns incluem visão turva, olhos secos, sensibilidade à luz, dor nos olhos e inflamação da conjuntiva.

Comunique-se com seu médico oncologista, é importante mantê-lo informado sobre quaisquer sintomas oculares que você possa estar enfrentando!

 

Abaixo algumas medidas simples e eficazes para otimizar os cuidados com os olhos durante o tratamento oncológico, evitando complicações mais graves:

1. Proteção contra a luz solar: Pacientes submetidos a quimioterapia e radioterapia podem ter a pele e os olhos mais sensíveis à luz solar. É importante usar óculos escuros e/ou chapéus para proteger seus olhos da exposição solar direta.

  1. Hidratação dos olhos: Alguns tratamentos oncológicos podem levar à secura ocular, o que pode causar desconforto e aumentar o risco de infecções oculares. Usar colírios lubrificantes pode ajudar.
  2. Atenção à higiene: a quimioterapia pode reduzir a imunidade do paciente, o que pode aumentar o risco de infecções oculares. Lavar as mãos regularmente e evitar tocar os olhos podem ajudar a prevenir a propagação de infecções.
  3. Exames oftalmológicos regulares: é importante realizar exames oftalmológicos regulares durante o tratamento oncológico para monitorar a saúde ocular e detectar precocemente quaisquer problemas que possam surgir.

    É essencial lembrar que cada paciente é único e que o tratamento oncológico pode afetar os olhos de maneiras diferentes em cada um. Por isso, é fundamental conversar com seus médicos oncologista e oftalmologista para desenvolver um plano de cuidados específico para suas necessidades.

    Referências:

1. Ali A, Shah AA, Jeang LJ, Fallgatter KS, George TJ, DeRemer DL. Emergence of ocular toxicities associated with novel anticancer therapeutics: What the oncologist needs to know. Cancer Treat Rev. 2022 Apr;105:102376. doi:               10.1016/j.ctrv.2022.102376. Epub 2022 Mar 12. PMID: 35303547.

2. Kunkler AL, Binkley EM, Mantopoulos D, Hendershot AJ, Ohr MP, Kendra KL, Davidorf FH, Cebulla CM. Known and novel ocular toxicities of biologics, targeted agents, and traditional chemotherapeutics. Graefes Arch Clin Exp Ophthalmol. 2019 Aug;257(8):1771-1781. doi: 10.1007/s00417-019-04337-8. Epub 2019 May 16. PMID: 31098752.

 

 

 

Uso racional de medicamentos: Como a Medicina baseada em valor ajuda na decisão mais correta?

Dia 5 de maio é o Dia Nacional do Uso Racional de Medicamentos e este é, sem dúvida, um problema mundial. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 50% das prescrições são inadequadas ou irracionais. Tal fato traz prejuízo não só para saúde das pessoas, mas também para o sistema econômico mundial. Nesse contexto, a Medicina Baseada em Valor (MBV) pode ser um importante aliado para melhorar a situação.

O uso irracional de medicamentos abrange diversas situações, dentre elas estão: a polifarmácia, o uso inadequado de antimicrobianos, o uso de medicações injetáveis em vez de orais quando estas poderiam ser mais apropriadas, o não seguimento das diretrizes clínicas, automedicação e o uso da dosagem incorreta. Dados da OMS mostram que mais de 50% dos pacientes tomam seus remédios incorretamente e 77% dos brasileiros costumam se automedicar.

Essas práticas levam a consequências facilmente identificáveis (aumento de efeitos adversos, alergias, maiores gastos), mas também a desdobramentos “camuflados” (geração de bactérias resistentes, infecção de corrente sanguínea e até mesmo dependência química, por exemplo).

Atualmente, existe, inclusive, um comitê relacionado ao assunto ligado ao Ministério da Saúde, que atua, entre outras frentes, promovendo estratégias para difundir o uso das evidências científicas e de conscientização dos profissionais e dos pacientes. E é nesse contexto que a MBV pode auxiliar.

Mas o que é a MBV? Nada mais é que o uso consciencioso, ou seja, com bom senso, das melhores evidências científicas aliadas ao benefício clínico desejado para cada população ou paciente, levando em conta também os fatores econômicos para o sistema e, também, para o indivíduo. Por meio dela, tenta-se encontrar um equilíbrio entre eficácia dos tratamentos, seu custo e a vantagem real para o paciente.

Com a MBV, diretrizes personalizadas para cada cenário podem ser criadas para guiar os profissionais de saúde a usar os recursos e prescrever medicamentos de forma mais racional. Com isso, os pacientes são tratados de forma mais adequada e com menores custos.

Algumas dicas para os pacientes são:

  • Seguir a indicação médica;
  • Tomar o medicamento pelo tempo adequado;
  • Evitar a automedicação recorrente;
  • Cuidado ao armazenar os medicamentos;
  • Descartar corretamente.

 

Tais diretrizes devem ser utilizadas pelos médicos na hora de decidir que tratamento dar para seu paciente e, nós, como pacientes, devemos também exigir que isso seja feito, para que a nossa saúde seja tratada como deve ser: racionalmente e, claro, sem faltar afeto.

O Ministério da Saúde disponibiliza uma cartilha sobre o assunto em https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cartilha_promocao_uso_racional_medicamentos.pdf

 

 

Tumores do sistema nervoso central: nem toda dor de cabeça é tumor!

O câncer do sistema nervoso central (SNC) resulta do crescimento anormal e desordenado das células do cérebro, medula espinal e meninges. Sua incidência é maior entre os 75 e 84 anos de idade, porém histologias como tumores de células germinativas, meduloblastomas e astrocitoma pilocíticos são mais comuns em crianças.1,2

Representam 1,4 a 1,8% de todos os tumores malignos do mundo, conforme o INCA, o qual estima que para cada ano de 2023 a 2025 sejam diagnosticados no Brasil 11.490 novos casos, sendo 6.110 em homens e 5.380 em mulheres.

Entre 1975 e 1987, houve aumento na incidência dos tumores de SNC, o qual se estabilizou entre 1991 a 2006. Entretanto, o número de casos de glioblastoma aumentou, com a sobrevida apresentando taxas discretas de melhora.

A classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS) dos tumores de SNC é baseada na histologia e celularidade: astrocitoma IDH mutante, oligodendroma IDH mutante e 1p/19q codeletado e glioblastoma IDH selvagem. O uso da classificação molecular tornou-se relevante pois permitiu a inclusão de pacientes em ensaios clínicos baseados no perfil genético do tumor. 3

O principal fator de risco é a radiação ionizante exógena para tumores em SNC em crianças. Outros fatores associados, porém, com relação inconclusiva são exposição ao citomegalovírus e o contato com substâncias químicas (N-nitrosaminas, solventes orgânicos, pesticidas). 1,2

A maioria dos casos são esporádicos, mas acredita-se que 2% são síndromes hereditárias (neurofibromatose tipo 1 e 2, síndrome de von-Hippel-Lindau, síndrome de Li-Fraumeni). 1,2

Os principais sinais e sintomas apresentados pelos pacientes com tumores do SNC são cefaleia, com predominância de 50%, convulsões, alterações comportamentais, fadiga, náuseas, vômitos, desequilíbrios e alterações cognitivas, alteração na memória e tromboembolismo venoso. 1,4,5

O diagnóstico é realizado por meio de exames de imagem como ressonância magnética, padrão ouro, tomografia computadorizada, espectroscopia por ressonância magnética, cintilografia de perfusão de sistema nervoso central e PETCT (apenas para tumores como glioblastomas, linfomas, oligodendrogliomas e meningiomas malignos). 4

O tratamento consiste na ressecção cirúrgica, com objetivo de estabelecer a histologia da lesão, reduzir o efeito de massa e realizar ressecção completa quando possível ou o maior volume para maior eficácia dos tratamentos como radioterapia e quimioterapia, que são geralmente indicadas como tratamento adjuvante nos tumores primários de sistema nervoso central, visando retardar recidiva e prolongar sobrevida. 4.

Importante ressaltar que a eficácia do tratamento dos tumores de sistema nervoso central depende do manejo multidisciplinar.

 

Referências:

  1. Devita, V., Lawrence, T. & Rosenberg, S. Cancer: principles & practice of Oncology.
  2. Niederhuber, J., Armitage, J., Doroshow, J., Michael, K. & Tepper, J. Abeloff’s: Clinical Oncology.
  3. Gritsch, S., Batchelor, T. T. & Gonzalez Castro, L. N. Diagnostic, therapeutic, and prognostic implications of the 2021 World Health Organization classification of tumors of the central nervous system. Cancer 128, 47–58 (2022).
  4. Central Nervous System Cancers. J. Natl. Compr. Cancer Netw. 6, 456–456 (2008).
  5. Nabors, L. B. et al. NIH Public Access. 11, 1114–1151 (2014).