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Inteligência artificial e mamografia: o que podemos saber até o momento?

Estudo publicado esta semana na revista The Lancet Oncology demonstrou que a triagem de mamografia por inteligência artificial (IA) resultou em uma taxa de detecção de câncer semelhante em comparação com a leitura dupla padrão, com uma carga de trabalho de leitura menor. O desfecho primário foi taxa de câncer de intervalo, que é a taxa de câncer de mama diagnosticado no período entre mamografias.

Trata-se de estudo randomizado, controlado, que inclui mulheres com idade entre 40 e 80 anos elegíveis para rastreamento por mamografia (incluindo rastreamento geral com intervalos de 1,5 a 2 anos e rastreamento anual para aquelas com risco hereditário moderado de câncer de mama ou histórico de câncer de mama) em quatro locais de triagem na Suécia.

Até o momento temos os resultados da análise de segurança clínica, realizada após 80.000 mulheres terem sido inscritas. O acompanhamento está em andamento para avaliar o desfecho primário do estudo, a taxa de câncer de intervalo.

O alerta que fica é de uma evidência inicial, porém com grande número de pacientes avaliadas, o que aumenta a relevância de certa forma. Vale aguardarmos novos resultados para observar possíveis benefícios às pacientes e ao sistema de saúde em si.

 

Ozonioterapia no Brasil: faltam evidências científicas

Diante da recente sanção que autoriza a prática da ozonioterapia no Brasil, sinto a necessidade de me posicionar. Faço isso baseado em princípios científicos sólidos, minha experiência médica e como avaliador de tecnologias, além da responsabilidade para com a saúde pública de nosso país. A sanção desta lei, a meu ver, é profundamente preocupante pelos seguintes motivos:

1. Falta de evidência científica robusta:
A essência da medicina moderna é a prática baseada em evidências. Hoje, não dispomos de estudos randomizados, com desenho robusto e revisados por pares, que respaldem a eficácia da ozonioterapia em qualquer condição clínica ou doença. Na pirâmide de confiabilidade das evidências, relatos isolados e testemunhos pessoais situam-se na base, servindo como pontos iniciais de investigação, e não como conclusões.

2. Monetização da esperança:
A decisão de liberar a ozonioterapia alimenta, infelizmente, uma indústria que se beneficia da vulnerabilidade dos pacientes. Que lucra com a esperança e desespero de pessoas doentes. A medicina exige ética, clareza e honestidade. Oferecer certezas quando só existem riscos e benefícios que devem ser balanceados, é, na melhor das hipóteses, antiético.

3. O incentivo à indústria predatória da medicina alternativa:
Esta lei pode inadvertidamente legitimar atividades que carecem de comprovação científica. A possibilidade de aplicação da ozonioterapia por profissionais não médicos fomenta um mercado já saturado de cursos de medicina alternativa sem fundamento na literatura. A promessa de eficácia sem a devida comprovação embasa-se em charlatanismo, e não em ciência.

4. Utilização de recursos públicos em tecnologias questionáveis:
Em um cenário de saúde pública com recursos limitados e desafios infinitos, a avaliação de custo-efetividade é fundamental, e cada investimento deve ser meticulosamente avaliado quanto ao seu custo comparado à sua eficácia. Mesmo tratamentos de “baixo custo” que não demonstram eficácia são, na realidade, caros para a sociedade, pois desviam recursos de intervenções comprovadamente benéficas.

5. Riscos associados:
A ausência de comprovação sobre a segurança da ozonioterapia é, por si só, alarmante. Mais preocupante ainda é a perspectiva a possibilidade de que pacientes vejam na ozonioterapia uma alternativa primária de tratamento, em detrimento de abordagens com eficácia conhecida, especialmente quando posicionada como uma terapia complementar, que pode ser vista como terapia alternativa.

Finalizo reforçando que o coração da medicina é, e sempre deve ser, o bem-estar do paciente, fundamentado em evidências confiáveis. Infelizmente, a ozonioterapia não se enquadra neste critério, e urge que profissionais médicos e a sociedade civil estejam cientes dos riscos inerentes à sua adoção sem o devido respaldo científico.

 

 

Em quem não se deve fazer um exame genético?

Debora Curi

CRM 173.184

Higor Mantovani

CRM 155.725

 

A ciência que permeia o entendimento do câncer está em constante evolução, em especial, no âmbito da oncogenética. Muito se fala sobre predisposição familiar (ou hereditária) aos diversos canceres que podem acometer os pacientes. Idade jovem, ocorrência de múltiplos tumores num mesmo indivíduo e diagnósticos de canceres raros são características que devem despertar a inquietude do profissional que assiste este paciente, e motivar uma avaliação de um oncogeneticista para se discutir testes de sequenciamento genético.

A solicitação de testes genéticos deve ser feita por um profissional capacitado e com habilidade no tema, e que, após uma consulta de aconselhamento genético, tenha um objetivo bem definido a ser elucidado pelo exame. É necessário especificar as metodologias do teste e flertar com os possíveis resultados, a fim de garantir um adequado manejo da informação acessada com o mesmo.

Pouco se fala sobre situações em que não é necessário ou apropriado fazer uma avaliação ou teste genético. A informação sobre eventuais mutações e/ou aspectos genéticos de um individuo é confidencial, de poder único e exclusivo daquela pessoa. Existem situações que podem ferir esses princípios e, de maneira ainda mais agravante, resultar num manejo inadequado das informações genéticas acessadas pelo exame.

Como exemplo de tais situações temos os testes genéticos em crianças ou indivíduos que ainda não atingiram a maioridade. Não é infrequente que pais e mães, motivados pelo medo do diagnóstico de câncer, busquem informações que os acalmem sobre o risco de seus filhos desenvolverem câncer no futuro. Neste caso, a motivação passional para um teste genético não deve gerir a indicação do exame. Sequenciamento genético em crianças são indicados em casos específicos e com grande cuidado no manejo da informação genética acessada, uma vez que se trata de um paciente ainda incapaz de gerir seus direitos de acesso a informação.

Uma outra situação frequente em que o teste genético merece cautela é em indivíduos que nunca tiveram histórico pessoal e/ou familiar de neoplasias. É comum a procura de exames que buscam evitar problemas de saúde no futuro. Entretanto, sabemos que o exame genético não previne o surgimento de canceres; ele nos auxilia na identificação de indivíduos com alto risco de câncer ao longo da vida. Um aspecto importante é a realização de exames genéticos de confiança, cuja técnica e confiabilidade são conhecidas. Existem relatos de condutas tomadas a partir de informações adquiridas a partir de testes de baixa confiabilidade; quando a informação fora revisitada com metodologias e testes validades, percebeu-se um falso diagnóstico genético.

As características genéticas (e todas as consequências delas em nossas vidas) não são passíveis de escolha; somos o que recebemos dos nossos genitores e progenitores. Pessoas que não estão adequadamente motivadas e orientadas sobre como lidar com o resultado de um exame genético devem ser aconselhadas a repensar sobre a realização do mesmo. Neste mesmo sentido, é necessário que se tenha acesso a profissionais que possam orientar e tomar condutas frente ao diagnóstico genético. Não se deve buscar ou acessar a informação sem que se tenha estruturado um cuidado com mesma a posteriori.

Por fim, é importante citar situações em que o indivíduo em que se quer investigar a informação genética pode não desejar fazer o exame sugerido. Nestes casos, a autonomia deve sempre ser respeitada, a despeito da forte suspeita de um quadro de predisposição hereditária ao câncer naquele indivíduo.

 

4 de agosto- Dia Nacional da Campanha Educativa de Combate ao Câncer – Dia do “eu também estou com você”

As datas chamativas e comemorativas que se relacionam ao diagnóstico e tratamento do câncer percorrem o ano todo. Em algumas delas o ponto alto é a prevenção, ou o impacto do diagnóstico precoce. Em outras a ênfase está no acolhimento ao paciente, e, não raramente, tem se mencionado nas mídias o “combate científico”, mais pronunciado com as discussões acerca de novas terapias e descobertas promissoras.

É mesmo verdadeiro que uma doença complexa como o câncer demande de muitas atenções e ações. Em partes, o que vemos veiculado é a forma como conseguimos nos organizar enquanto sociedade para enfrentar essa condição tão desafiadora. Considero cada pontinha de ação pensada em qualquer parte do mundo como muito valiosa.

Mas e o que eu vejo enquanto médica que trata pacientes com câncer?

Eu vejo pessoas que tem toda a sua perspectiva de vida mudada, seja com o diagnóstico de doença inicial ou em fase avançada, com desafios muito intensos de diversas ordens.

Eu vejo mães que adoecem e seguem cuidando de seus filhos, carregando suas angustias e efeitos colaterais junto com eles. Vejo pacientes que colocam o medo numa gaveta a ser aberta um dia, e se enchem de sacolas de exames, que são mesmo, na maioria das vezes, tão necessários para que nós médicos consigamos propor um bom plano terapêutico. Vestem a coragem que tem para ouvir o que pode ser feito, o que quase sempre é algo que impactará suas vidas para sempre.

Ao prescrever os remédios contra o câncer jamais me esqueço dos cientistas que se debruçam em bancadas para descobrir uma possível cura, ou um tratamento que faça um semelhante viver mais longamente ou viver melhor.

E ao falar dos remédios que tratam o câncer também se faz necessário lembrar que a complexidade da doença e dos tratamentos extravasa para a discussão de fontes de pagamento, fontes regulatórias e acesso, já que os custos estão cada vez mais onerosos.

E nesse enfrentamento todo, o que cada um de nós pode fazer que ajude a prosperar o bem, a calma e o acalento de quem adoece?

É necessário estar junto. Estar presente na hora que o familiar, ou o amigo adoecido recebe uma notícia difícil. Estar lá onde outro corpo carece de um abraço, de companhia ou mesmo de distração. Agendar os tantos exames que chegam a se emaranhar. Segurar a mão. Enxugar lágrimas. Ligar uma música. Levar os filhos para passear. Propor uma massagem. Achar um centro de pesquisa promissor.

Sendo conhecedora das estatísticas do câncer, é certo que existe alguém que você conheça que está enfrentando um adoecimento ameaçador. Esteja com essa pessoa. E nos dias de hoje nem é necessário estar perto para estar junto, temos a tecnologia nos aproximando e facilitando nosso convívio. Existem inúmeras formas de ser apoio.

No enfrentamento do câncer, o cientista continuará seu lindo trabalho com novas descobertas, os profissionais de saúde seguirão buscando trazer a cura ou alívio, os órgãos regulatórios devem assegurar o acesso ao que há de melhor, e, não menos importante, que você possa ser apoio para alguém. Que esteja presente onde presença também é uma forma de cura.

 

Agosto Verde Claro – Conscientização sobre os linfomas e a importância do diagnóstico precoce

Agosto foi o mês escolhido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para conscientização sobre o linfoma. Trata-se de uma iniciativa que tem como objetivo atrair a atenção de pessoas em todo o mundo para promover o diagnóstico precoce, visando uma melhor resposta ao tratamento.

Apesar de poucos conhecidos pela população, os linfomas não são infrequentes. Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA) deste ano, os linfomas não-Hodgkin (LNH) são o nono câncer mais comum com número estimado de casos novos, para cada ano do triênio de 2023 a 2025, sendo de 12.040 casos. Já o linfoma de Hodgkin (LH) ocupa a 20ª posição entre os tipos de câncer mais frequentes, com número estimado de casos novos de 3.080 casos por ano. Podem afetar pessoas de qualquer idade, com o LNH tornando-se mais comum com o envelhecimento e o LH sendo mais comum entre adolescentes, adultos jovens e idosos.

Entre os principais fatores de risco, para alguns tipos de linfoma, estão sistema imune comprometido por doenças hereditárias, doenças autoimunes, uso de drogas imunossupressoras ou infecção pelo HIV; e a presença de infecções virais pelo vírus Epstein-Barr (EBV), o vírus linfotrópico de células-T humanas do tipo 1 (HTLV-1) e a bactéria Helicobacter pylori.

Mas o que são os linfomas? Os linfomas são um tipo de câncer que se originam no sistema linfático, composto por linfonodos e tecidos que produzem as células (linfócitos) responsáveis pela defesa do nosso organismo por meio da produção de anticorpos e vasos linfáticos que conduzem essas células pelo corpo. O tecido linfoide está presente em todos os órgãos do nosso organismo. Conforme o subtipo celular, são divididos em linfomas Hodgkin (LH) e linfomas não Hodgkin (LNH). O LH apresenta dois subgrupos de acordo com a OMS: linfoma de Hodgkin clássico, que se subdivide em quatro subtipos; e linfoma de Hodgkin predomínio linfocitário nodular. Os LNH não têm um tipo celular característico, podendo representar mais de 50 tipos diferentes de linfoma.

Manifestam-se com ínguas (linfonodomegalias) endurecidas e indolores, podendo apresentar febre, suores noturnos, emagrecimento, cansaço e coceira no corpo. Conforme os locais acometidos, podem ainda apresentar tosse, falta de ar, dor no peito, aumento do volume abdominal e lesões cutâneas.

Os sintomas variam entre os subtipos de linfoma e órgãos acometidos: alguns são extremamente agressivos, causando sintomas logo no início e progressão rápida; já outros subtipos apresentam progressão mais lenta, indolentes, podendo ficar assintomáticos por anos.

O diagnóstico requer a realização de biópsia, com a retirada do tecido para análise microscópica das características. O estadiamento da doença pode ser feito através de tomografia por Emissão de Pósitrons (PET-CT), tomografia computadorizada, ressonância magnética, biópsia de medula óssea e punção de liquor (realizados conforme quadro clínico).

Com relação ao tratamento, o LH na maioria dos casos, é uma doença curável apresentando uma taxa de cura de mais de 85%. O tratamento clássico é a poliquimioterapia (múltiplas drogas) com ou sem radioterapia associada. Em alguns casos, pode também ser realizada a imunoterapia: medicamentos (anticorpos monoclonais produzidos em laboratório) que têm um alvo específico para um componente que há nas células do linfoma, induzindo o sistema imune a reagir contra ele; ou com medicamentos inibidores do ponto de controle imunológico que aumentam a resposta imunológica do corpo contra as células. Para pacientes que sofrem recaídas ou que não respondem ao tratamento inicial pode ainda ser indicado o transplante de células hematopoiéticas.

O tratamento dos LNH é pode ser feito com quimioterapia, imunoterapia, radioterapia, terapias-alvo (substâncias que bloqueiam proteínas ou moléculas envolvidas no crescimento das células cancerígenas) e o transplante de células hematopoiéticas. No caso dos LNH indolentes pode ser indicada apenas observação clínica até quando houver progressão clínica com necessidade de tratamento. Para os pacientes que sofrem recaídas ou que não respondem ao tratamento inicial, existe ainda a opção do tratamento pioneiro com as células CAR-T (linfócitos T com receptores antigênicos quiméricos), que são linfócitos retirados do paciente que são processados em laboratório, adquirindo a capacidade de perseguir e eliminar as células do linfoma ao serem reintroduzidos no paciente.

Apesar do diagnóstico de um câncer ser um momento difícil, sabe-se que, atualmente, os pacientes portadores de linfoma contam com a evolução da ciência e das terapias modernas, que promovem melhores respostas, com menor quantidade de efeitos colaterais, aumentando as chances de cura e a qualidade de vida dos pacientes.

 

 

Câncer ósseo não é metástase óssea

Julho também é conhecido como o mês de conscientização do câncer ósseo. Os cânceres ósseos primários incluem osteossarcoma, sarcoma de Ewing e condrossarcoma, estes afetam principalmente crianças e adolescentes. Já o mieloma múltiplo, afeta principalmente adultos. Eles representam menos de 1% dos cânceres diagnosticados a cada ano e estão associados à morbidade e mortalidade significativas. Podem ser localizados em qualquer osso; entretanto é frequentemente encontrado em ossos mais longos, como o fêmur (localizado na coxa) e na tíbia (localizado na perna), próximo dos joelhos, em que acontece mais crescimento dos membros.

O diagnóstico oportuno é desafiador devido à apresentação tardia do paciente, sintomas inespecíficos que simulam lesões musculoesqueléticas comuns e baixa suspeita pelos médicos. Os sinais podem incluir dor persistente nos ossos, inchaço, fraturas ósseas inexplicáveis e fadiga. A radiografia simples é o teste diagnóstico preferido. A suspeita radiográfica de malignidade óssea deve levar ao encaminhamento rápido a um centro oncológico para atendimento multidisciplinar.  O tratamento deles geralmente envolve quimioterapia  em combinação com a cirurgia, que melhorou as taxas de sobrevida em quase 80% para pacientes com doença localizada. 90% a 95% dos pacientes não necessitam de amputação de membro.

É importante salientar que as neoplasias ósseas primitivas estão entre as cinco mais frequentes na faixa etária entre 5 a 15 anos. Em casos de lesão óssea acima dos 40 anos, a primeira suspeita é de estarmos diante de uma lesão óssea metastática.

Os tumores mais incidentes tanto na população feminina quanto masculina – como câncer de mama, próstata e pulmão – são os que tem maior predileção para darem metástases ósseas, ou seja, podem se espalhar para os ossos. Por isso, sempre que presente uma lesão óssea suspeita deve-se investigar os sítios primários mais comuns já citados anteriormente, para que se faça exames de imagem e biópsia, afim de identificar se é um tumor ósseo primário ou metástase óssea proveniente de outro tumor.

É de suma importância que as pessoas estejam cientes dos sintomas relacionados aos tumores ósseos e que procurem assistência médica se apresentarem algum deles. O diagnóstico precoce pode levar a um tratamento mais eficaz e melhores resultados para os pacientes.

 

Julho Verde: o que todos precisam saber sobre o câncer de cabeça e pescoço?

A campanha Julho Verde é focada no mês de conscientização e prevenção do câncer de cabeça e pescoço, uma neoplasia que apresenta papel de destaque entre as mais frequentes no Brasil. Estatísticas do Instituto Nacional do Câncer (INCA) estimam 10.900 novos casos de câncer de cavidade oral e 6.570 novos casos de câncer de laringe para o ano de 2023, quando somados, ocupam a quarta posição entre os tumores mais frequente nos homens brasileiros.

Essa neoplasia abrange todos os tumores que têm origem na boca (cavidade oral), nariz (nasofaringe, cavidade nasal e seios paranasais), garganta (orofaringe, hipofaringe, laringe) e nas glândulas salivares. O seu principal fator de risco é o tabagismo, sendo o risco de desenvolver câncer de cabeça e pescoço dependente do número de cigarros fumados por dia e seu tempo de uso. Tabagistas pesados têm o risco de desenvolver câncer de 5 a 25 vezes maior do que os não tabagistas

É importante destacar que o uso de narguilé também é potencialmente um risco. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), consumir uma rodada do narguilé é equivalente a fumar 100 cigarros.

O etilismo é o segundo fator de risco mais importante. Também está relacionado com a quantidade ingerida durante a vida. Um estudo revelou o aumento de 5 a 6 vezes no risco de desenvolver o câncer de cabeça e pescoço com consumo de álcool superior a 50 g/dia versus menos de 10 g/dia (aproximadamente uma lata de cerveja).

O terceiro fator que ganha cada vez mais importância é a infecção pelo vírus HPV. Esse vírus é o mesmo relacionado ao câncer de colo de útero, vagina, vulva, ânus e pênis. Dentre os 150 subtipos, o mais relacionado ao câncer de cabeça e pescoço é o subtipo 16, sendo a orofaringe (garganta) o local mais acometido. Diferentemente dos outros fatores de risco, ele é responsável por câncer em pacientes mais jovens e sem hábito de tabagismo e etilismo

Os sintomas relacionados ao câncer dependem do local que ele tem origem. Na fase inicial, a maioria dos casos é uma doença silenciosa e não causa nenhum sintoma, por isso a importância de consultas regulares com dentista ou médico. Com o crescimento do tumor surgem os principais sintomas como: rouquidão ou alteração na voz, dificuldade/dor para engolir, feridas persistentes na boca, emagrecimento sem causa definida, nódulo no pescoço, dor de ouvido ou na cabeça e tosse persistente.

Para reduzir as chances de desenvolver esse tipo de câncer, deve-se evitar o tabagismo, o consumo excessivo de bebidas alcoólica, usar preservativo durante o ato sexual, tomar a vacina contra o HPV, manter alimentação equilibrada e realizar higiene oral.

Infelizmente, no Brasil, por volta de 70% dos casos de câncer de cabeça e pescoço são descobertos já em estágios avançados em razão da falta de informação das pessoas sobre a doença. O diagnóstico tardio aumenta a possibilidade de sequelas e diminui as chances de cura.  Quando descoberto em fase inicial, as chances de cura são de aproximadamente 90%. Para o diagnóstico, é preciso realizar uma avaliação da cavidade oral e exames de imagens (tomografia ou ressonância), mas para a confirmação será sempre necessária uma biópsia.

Grandes avanços foram atingidos no tratamento do câncer de cabeça e pescoço nos últimos anos. Na cirurgia, a incorporação da cirurgia robótica possibilitou procedimentos menos invasivos e com menores sequelas. Na radioterapia, as novas técnicas trouxeram maior precisão de tratamento nas áreas acometidas pelo tumor, possibilitando maiores doses e poupando os tecidos e órgãos saudáveis. Na Oncologia, tivemos a aprovação da imunoterapia para os pacientes com metástases ao início do tratamento. Estes medicamentos estimulam o sistema imune a combater as células tumorais, proporcionando aumento no tempo de vida associado a menores efeitos colaterais.

Os avanços no tratamento têm permitido maiores chances de cura, preservando a funcionalidade dos órgãos e melhorando a qualidade de vida dos pacientes. Apesar dessa evolução, a melhor estratégia continua sendo a não exposição aos fatores de risco, manter um estilo de vida saudável e fazer acompanhamento médico para o diagnóstico precoce.

 

O que há de novo no tratamento do câncer de bexiga?

Durante muito tempo o tratamento padrão do câncer de bexiga foi embasado em abordagens cirúrgicas e quimioterapia com base em compostos derivados de platina. Essas estratégias ainda compõem o arsenal de combate ao câncer urotelial; entretanto, a Oncologia moderna passou a contar com novas tecnologias que, gradativamente, vem ganhando espaço no tratamento desta neoplasia.

A primeira (e não tão recente) incorporação foi a imunoterapia. Inicialmente, ela foi estudada e incorporada a prática clínica no cenário avançado (isto é, com metástases). Alguns estudos comprovaram a eficácia dos imunoterápicos após a falha de quimioterapia com platina. Mais recentemente, ela passou a integrar uma estratégia de manutenção após a algumas doses de tratamento com quimioterapia com platina; este tratamento é, hoje, o padrão de escolha para os pacientes que se apresentam com câncer de bexiga com metástases, ou que recidivam após algum tempo do tratamento definitivo deste câncer.

A imunoterapia também ganhou espaço no cenário inicial do câncer urotelial. É sabido que a maioria dos casos de câncer de bexiga se apresenta inicialmente como uma doença restrita as camadas superficiais da bexiga. Neste contexto, a ressecção transuretral é parte majoritária do tratamento e alguns pacientes terão indicação de terapias intravesicais com a Onco-BCG. Em casos não cirúrgicos e refratários a terapia intravesical com Onco-BCG, o uso de Pembrolizumabe (um imunoterápico muito conhecido por aplicabilidade em diversos tipos de tumores) mostrou resultados interessantes e vem sendo incorporado a prática clínica.

A terapia-alvo também trouxe avanços no tratamento do câncer de bexiga. É sabido que 15 a 20% dos pacientes com câncer urotelial tem alterações em genes do FGFR (receptor de fator de crescimento de fibroblastos). Neste sentido, foram desenvolvidos medicamentos que tem como alvo as células com tais alterações genéticas; é o caso do Erdafitinibe. A última edição do Congresso Americano de Oncologia Clínica (ASCO 2023) trouxe resultados consistentes deste medicamento em segunda linha de tratamento do câncer urotelial avançado com alterações genéticas em FGFR. Este medicamento já está disponível no Brasil, mas ainda com cobertura restrita pelos planos de saúde e sem perspectivas de chegada ao SUS.

Mais recentemente, o arsenal terapêutico para combate ao câncer de bexiga ganhou mais um combatente; os chamados ADC’s (anticorpos conjugados a droga). Essa tecnologia foi recentemente incorporada no tratamento de câncer de mama no Brasil. Esse tipo de tratamento tem um mecanismo de ação diferente, no qual um composto antineoplásico é “entregue” dentro do microambiente celular, através de um anticorpo específico que tem afinidade pela célula tumoral.  Para este mecanismo de ação, faz-se uma analogia à história do Cavalo de Troia, em que os gregos enviaram um “presente” para os troianos, supostamente reconhecendo a perda na Guerra de Troia. Dentro do cavalo estavam soldados espartanos que, à noite, saíram de dentro dele e atacaram a cidade de Troia, vencendo a guerra. Dois fármacos com este mecanismo de “Cavalo de Troia” vêm sendo amplamente estudados no tratamento do câncer de bexiga.

O Enfortumabe Vedotin foi o primeiro ADC aprovado e comercializado no Brasil para tratamento do câncer de bexiga. Hoje, é indicado em segunda linha terapêutica, após a falha de quimioterapia com platina e manutenção de imunoterapia. O Sacituzumabe Govitecan (já aprovado para tratamento do câncer de mama) deve chegar em breve como uma outra opção de ADC para o câncer urotelial avançado que falhou ao tratamento com quimioterapia e imunoterapia. Combinações de ADC’s com imunoterapias estão sendo estudadas em cenários diversos, inclusive como substitutos da quimioterapia em pacientes que não podem recebê-la.

Felizmente, a Oncologia caminha a passos largos no desenvolvimento de novos fármacos e alvos terapêuticos para o câncer de bexiga. Resta saber como será a incorporação destas tecnologias na prática do dia a dia. Ainda existe um grande desafio de tornar universal e igualitário o acesso a estes tratamentos no Brasil.

 

 

 

2 de julho: Dia do Hospital – A importância do hospital no cuidado dos pacientes oncológicos

A grande maioria dos pacientes com câncer necessita de internações hospitalares ao longo de sua trajetória de doença. O hospital é imprescindível quando pensamos em tratar essas pessoas, não só porque é lugar-comum a realização de cirurgias, mas também porque os tratamentos são tóxicos, os pacientes têm média de idade mais avançada e, por ser uma doença grave, leva muitas pessoas a falecerem, o que geralmente ocorre durante uma internação.

Os pacientes com câncer comumente descobrem sua doença a partir de uma biópsia ou mesmo uma cirurgia, de urgência ou não, e, portanto, são internados para tais procedimentos. Ao longo da trajetória da doença, podem precisar de novos procedimentos cirúrgicos, levando a novas visitas ao hospital.

Após o diagnóstico, inicia-se o tratamento e, então, podem ocorrer os efeitos colaterais do mesmo. Como exemplo, algumas vezes pacientes têm vômitos e diarreia intensos com quimioterapia, ficando desidratados e necessitando comparecer ao pronto socorro.

As emergências oncológicas também contribuem para internações, que geralmente são prolongadas. A neutropenia febril, uma complicação da quimioterapia, é um diagnóstico recorrente em pacientes em tratamento com quimioterapia. Outro exemplo, a compressão medular é um quadro em que a equipe deve atuar rapidamente a fim de evitar sequelas como a paraplegia.

Além disso, os pacientes com câncer têm, felizmente, vivido mais tempo com os tratamentos mais avançados. Além disso, o câncer e suas terapias muitas vezes aumentam o risco de trombose, problemas renais, hepáticos ou cardíacos. Sendo assim – e adicionando o fato de que a maioria são idosos – outros problemas de saúde, como pressão alta e diabetes, podem piorar o quadro clínico e também ensejar internações.

Mais à frente, quando a doença está aumentando e torna-se resistente aos tratamentos disponíveis, os sintomas decorrentes dela levam a quadros de infecções, desnutrição, incapacidade de deglutição, comprometimento neurológico, dentre outros problemas. Nesse ponto, a internação muitas vezes torna-se prolongada e a alta para casa, mais difícil de conquistar. Os pacientes, na grande maioria das vezes, vão a óbito na internação e a capacidade de oferecer uma morte digna é um importante indicador de qualidade hospitalar.

Dados do SUS mostram que mais de R$ 13 bilhões foram gastos em 10 anos com 7,5 milhões de internações de pacientes oncológicos. A maioria desses pacientes são de estágios avançados da doença.

No grupo SOnHe, tivemos 1.000 internações em 3 anos, com média de idade de 52 anos, 55% mulheres e 20% com câncer de mama. Mais de 50% têm estágio avançado de doença e temos orgulho de termos indicadores de óbito dentro dos padrões internacionais.

Por conta dessa diversidade de situações que envolvem a internação do paciente com câncer, é muito importante que todo o hospital esteja preparado para oferecer o melhor tratamento. Para isso, a equipe multidisciplinar é fundamental, com o apoio da psicologia, nutrição, fisioterapia, serviço social, fonoaudiologia, farmácia e enfermagem. Não só isso: a capacitação dos médicos do pronto socorro faz a diferença na agilidade para identificação de tratamento dos mais variados quadros clínicos.

Por fim, a equipe médica oncológica dedicada é de suma importância para conduzir cada caso da melhor forma possível, ponderando quais tratamentos vão trazer mais benefícios que malefícios em cada fase da doença, com base, claro, em evidências científicas atualizadas. Tudo isso sempre pensando no melhor para nosso paciente, que está em um momento difícil, principalmente quando está internado, e, por isso, deve receber o melhor cuidado possível.

 

Origem da data

O Dia do Hospital é celebrado em 2 de julho em homenagem à reinauguração da Santa Casa de Misericórdia de Santos-SP, realizada em 1945. Este é considerado o primeiro hospital do Brasil. Em 1543, a Santa Casa de Misericórdia de Santos foi fundada por Brás Cubas (1507-1592), um fidalgo português. Ao longo dos séculos foram sendo reconstruídos e inaugurados vários conjuntos no Hospital, mas apenas aquele inaugurado por Getúlio Vargas em 1945 existe ainda hoje.

 

Referências:

https://rbc.inca.gov.br/index.php/revista/article/view/992/688

 

 

 

15 de julho: Dia do Homem – Câncer no homem: quais os desafios?

A saúde masculina ainda é um tabu para muitos homens. Quando o assunto é câncer, então, os mitos e preconceitos ficam mais evidentes. Tal motivo nos incentiva à divulgação de informações para conscientização e prevenção dos tipos de câncer mais incidentes em homens.

No Brasil, cerca de 225 mil homens são diagnosticados com câncer todos os anos, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA). Este número ainda não considera o câncer de pele, que é o mais recorrente no país.

Segundo as estimativas do Instituto, os cinco principais tipos de câncer em homens são o de próstata, de cólon e reto, da traqueia, brônquio e/ou pulmão, de estômago e da cavidade oral. Veja a seguir quais os sintomas mais comuns de cada um deles.

 – Próstata: O câncer da próstata é a neoplasia mais frequente, atingindo cerca de 65 mil homens a cada ano, especialmente após os 50 anos. Ele é caracterizado pelo crescimento descontrolado de células nesta glândula. Esse tipo da doença tem desenvolvimento lento e, normalmente, assintomático. Os principais sinais de alerta para o câncer de próstata estão ligados às alterações no fluxo urinário (dificuldade ou frequência) e dores na região pélvica, costas e costelas. No entanto, eles costumam aparecer já em um estado mais avançado do tumor. Por isso, é fundamental manter a regularidade dos exames preventivos.

– Cólon e reto: Tanto o câncer de cólon quanto o retal têm origens bastante parecidas. Por isso, costumam ser chamados de câncer colorretal. Ele se inicia no revestimento do cólon ou do reto e pode estar relacionado a presença anterior de alguma patologia na região. Porém, estudos indicam que a dieta rica em gordura, carne e alimentos processados e pobre em fibras são o fator mais importante no surgimento deste tipo de câncer. Entre os principais sintomas, podemos destacar sangue nas fezes, alteração do trânsito intestinal e na forma das fezes, perda de peso repentina, sensação de fraqueza e dor abdominal.

– Pulmão: A cada 100 novos casos de câncer entre homens brasileiros, cerca de 8 são no sistema respiratório. Entre os sintomas dos cânceres no sistema respiratório estão tosse, chiado e ruído ao respirar, falta de ar, infecções de repetição das vias aéreas superiores, tosse com sangue e, em estágio avançado, dificuldade em engolir, rouquidão, fadiga e perda de peso. Contudo, os locais mais comuns de câncer nas vias aéreas são o pulmão e os brônquios. Esse tipo da doença é dividido em dois grandes grupos: as pequenas células e os não pequenas células. Esse último, é subdivido em adenocarcinoma, carcinoma escamoso e carcinoma de grandes células. Eles geralmente têm como sintoma tosse, podendo estar acompanhada de escarro com hemoptise e falta de ar. Esse tipo de neoplasia é diretamente relacionado com o tabagismo.

– Estômago: Também conhecido como câncer gástrico, esse tipo de doença se desenvolve lentamente, a partir de alterações no revestimento interno do estômago. Dependendo de onde ele começa a se desenvolver, o câncer pode ter resultados diferentes. O mais comum é o adenocarcinoma, que totaliza quase 95% dos casos da doença nessa região. Ele se origina na mucosa estomacal, que é a camada mais interna do órgão. Apesar de raramente apresentar sintomas na fase inicial, o câncer de estômago pode causar falta de apetite, perda de peso, azia, náuseas ou indigestão, vômitos e distensão abdominal.

– Cavidade oral: Este tipo de câncer é detectado em aproximadamente 11,2 mil homens brasileiros todos os anos. Ele é caracterizado pelo desenvolvimento de células tumorais nos lábios, gengivas, bochechas, céu da boca, bordas e embaixo da língua. As estatísticas do INCA mostram que ele é mais comum em homens a partir dos 40 anos e está intimamente ligado ao tabagismo e ao consumo de bebidas alcoólicas. Para a detecção precoce, é fundamental estar alerta a sinais como feridas sem cicatrização na boca ou nos lábios, manchas vermelhas ou esbranquiçadas na língua, gengivas, céu da boca ou bochechas, além de nódulos no pescoço e rouquidão persistente.

 

Como prevenir?

Ainda que o fator genético possa influenciar o surgimento dos diversos tipos de câncer em homens, a grande maioria dos casos da doença está relacionada a fatores externos, que podem ser controlados ao se adotar hábitos mais saudáveis no dia a dia.

Confira como é possível reduzir os riscos de desenvolvimento do câncer:

– Abandonar o tabagismo;

– Moderar o consumo de bebidas alcoólicas;

– Manter uma dieta equilibrada (evitando gorduras em excesso);

– Controlar o peso corporal;

– Praticar atividades físicas

– Evitar exposição à radiação ionizante, substâncias químicas nocivas e metais pesados.

 

Referências

  1. Ministério da Saúde. Estimativa 2023: incidência de câncer no Brasil / Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva – Rio de Janeiro: INCA, 2023.
  2. Dorak, M. T., & Karpuzoglu, E. (2012). Gender differences in cancer susceptibility: an inadequately addressed issue. Front Genet, 3, 268.