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20 DE MARÇO – Dia Mundial da Saúde Bucal – Saúde bucal do paciente com câncer

Bruna Sabino

Cirurgiã Dentista

CRO 105.586

 

A saúde bucal é sempre um assunto que merece muita atenção; entretanto, o tema é ainda mais importante quando falamos de pacientes com câncer, que requerem cuidados especiais para manter sua qualidade de vida e bem-estar.

As manifestações ou complicações orais mais frequentes são: mucosite (inflamação da mucosa), candidíase oral, xerostomia (boca seca), cárie de radiação, disgeusia (perda e/ou alterações do paladar), trismo muscular, alterações vasculares e osteorradionecrose.

Muitos pacientes, no intervalo de 7 a 15 dias após o início do tratamento, apresentam risco de desenvolvimento de lesões bucais, dentárias e periodontais, que podem estar relacionados à quimioterapia, radioterapia e com os focos odontogênicos preexistentes.

Em pacientes que recebem quimioterapia mielosupressiva, os efeitos adversos mais comuns são representados por: neutropenia, imunidade comprometida, que deixa o paciente mais susceptível às infecções bacterianas, virais e fúngicas, e a trombocitopenia, diminuição das plaquetas, podendo ocorrer sangramento gengival durante a escovação e até mesmo espontaneamente.

A xerostomia é quando a boca fica excessivamente seca. Isso acontece devido às alterações nas glândulas salivares, causadas principalmente pela radioterapia. Com a ausência do efeito protetor da saliva, pode ocorrer mau hálito, aumento da ocorrência de cáries, dificuldade na mastigação e mucosa mais vulnerável às infecções. Outras consequências da xerostomia são a atrofia das papilas da língua, inflamação e fissuras, resultando em maior sensibilidade bucal, provocando sensação de ardência e em alguns casos dor. Com a diminuição da salivação pode ocorrer má adaptação de próteses e traumas sucessivos na mucosa oral.

Além disso, durante o tratamento pode haver complicações na gengiva, como a doença periodontal, que é uma inflamação gengival que, em casos extremos, pode provocar mobilidade dentária e a perda dos dentes.

Já a mucosite é uma inflamação da mucosa, de condição ulcerativa, que se manifesta não somente na boca, mas em todo o trato gastrointestinal. Suas lesões podem ser extremamente dolorosas, podendo dificultar ou impedir que o paciente consiga ingerir alimentos sólidos e, em casos extremos, até mesmo a água.

Alguns agentes modificadores ósseos – bifosfonatos –, prescritos para a prevenção de eventos ósseos, como fraturadas patológicas, em pacientes com metástases ósseas, apresentam risco de causarem osteonecrose dos maxilares.

Por esses motivos, é aconselhável que todo paciente com diagnóstico de câncer seja encaminhado para uma avaliação odontológica antes de iniciar o tratamento e, principalmente, para aqueles em que o tratamento for para câncer de cabeça e pescoço ou se for prevista uma imunossupressão profunda e prolongada, no caso do transplante medula óssea. Além disso, o cirurgião dentista também irá acompanhar o paciente em todo o processo do tratamento, durante e após a quimioterapia e radioterapia, de modo a diagnosticar e tratar as alterações bucais decorrentes do tratamento.

O acompanhamento odontológico é importante de modo que o paciente seja orientado em relação ao uso correto do fio dental, técnicas de escovação, características das cerdas das escovas, uso e tipo de enxaguatórios bucais, utilização de saliva artificial para o tratamento da xerostomia, cuidados com os aparelhos protéticos, orientação quanto à higiene oral para a manutenção da cavidade oral livre de infecção, reduzindo e prevenindo os riscos de desenvolver infecção localizada e sistêmica durante períodos de neutropenia. Mais ainda: o cirurgião dentista, também utilizará da laserterapia, uma modalidade de tratamento para os efeitos colaterais da quimioterapia e radioterapia, que tem como objetivo a reparação celular, acelerar o processo de cicatrização, analgesia, prevenção e tratamento da mucosite oral.

O importante é saber que é possível prevenir e controlar cada um destes sintomas e a principal ferramenta para isso é a manutenção rigorosa da higiene bucal e o cuidado odontológico antes, durante e após as terapias para o câncer. O trabalho multidisciplinar é fundamental para o sucesso do tratamento oncológico. Logo, o acompanhamento odontológico, proporcionará mais conforto e bem-estar durante as diversas fases do tratamento, impactando positivamente na qualidade de vida do paciente.

 

 

14 de março – Dia Mundial do Rim – O que devo saber sobre câncer de rim?

Qual a data comemorativa para o “Dia do Rim” em 2024?

– 14/03/2024.

– Esta data foi idealizada pela Sociedade Internacional de Nefrologia.

 

Quais os profissionais que cuidam da saúde do rim?

– Os nefrologistas e urologistas são os profissionais responsáveis por cuidar das diversas doenças que podem afetar os rins.

 

Existe câncer de rim?

– Sim.

– O câncer de rim é um tumor relativamente raro; responde por aproximadamente 5% dos canceres em indivíduos adultos.

– No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer (INCA) não dispõe de dados estatísticos sobre incidência do câncer renal.

 

O câncer de rim aparece mais em homens ou mulheres?

– O câncer de rim é duas vezes mais frequente em homens do que em mulheres.

 

Quais são os sintomas do câncer do rim?

– Na maioria das vezes, o câncer de rim não apresenta sintomas.

– É frequentemente diagnosticado ao acaso, após a realização de exames de imagem do abdome (ultrassom ou tomografia).

– A presença de sintomas sugere um quadro mais avançado. Dentre os sintomas, estão sangramento urinário, dor abdominal, perda de peso e até mesmo o aumento do volume renal, configurando uma massa (tumoração) que pode ser palpada no abdome.

 

Qual é o câncer de rim mais comum?

– O tipo de câncer renal mais comum é o carcinoma renal de células claras.

– Ele tem este nome pelas características das células cancerígenas quando vistas ao microscópio.

 

O câncer de rim é genético?

– Na maioria das vezes não.

– Existem síndrome genéticas (a maioria delas raras) que cursam com tumores no rim, às vezes de maneira recorrente. A mais conhecida é a síndrome de Von Hippel Lindau.

 

O câncer de rim pode gerar metástases?

– Sim. Todo câncer pode, teoricamente.

– Os locais mais frequentes de metástases são os ossos e os pulmões

 

Como é o tratamento do câncer do rim?

– É importante procurar profissionais especialistas.

– O tratamento do câncer de rim deve ser conduzido por urologistas, oncologistas e nefrologistas.

– A cirurgia tem um papel importante, uma vez que retira a doença. Existem urologistas especialistas em uro-oncologia.

– Às vezes, é necessário retirar todo o rim e, portanto, o monitoramento da saúde do rim que fica é muito importante. Aí entra o nefrologista.

– Após a cirurgia, alguns pacientes vão precisar de tratamento complementar com medicamentos. O oncologista é quem orienta essa parte do tratamento.

 

E para o câncer de rim com metástases? Existe tratamento?

– Felizmente, a oncologia evoluiu muito e, hoje, conta com medicamentos que conseguem controlar a doença por um longo tempo.

– A imunoterapia tem grande papel no tratamento do câncer do rim. Existem tratamentos com associação de imunoterápicos.

– Existem também medicamentos orais (como os inibidores de tirosina quinase) que podem ser utilizados para controle do câncer de rim; eles também podem ser combinados a imunoterapia.

 

 

20 de fevereiro – Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo

Álcool e câncer: relação direta e indireta. Até que ponto o consumo é seguro?

 

No dia 20 de fevereiro, acontece o Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo. Especificamente sobre o álcool, a data tem como objetivo alertar a população sobre os malefícios do consumo de bebidas alcóolicas. Consumido desde 7.000 anos antes da era comum, o álcool é a substância psicoativa utilizada há mais tempo na história, fazendo parte da rotina de mais de 40% da população e, portanto, incluindo pessoas de todas as idades e classes sociais.

No entanto, o consumo de álcool pode trazer diversos riscos à saúde, incluindo o câncer. E, nessa temática, sempre temos duas perguntas recorrentes: qual a relação entre álcool e câncer? Existe uma dose segura de álcool?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o consumo de álcool é responsável por cerca de 7% de todas as mortes por câncer no mundo, o que representa mais de 700 mil mortes por ano. No Brasil, o consumo de álcool é responsável por cerca de 5% de todas as mortes por câncer.

Uma coisa é certa: sim, o consumo de álcool, mesmo em pequenas quantidades, aumenta o risco de câncer. Existem evidências científicas sólidas que indicam uma ligação direta entre o consumo de álcool e vários tipos de tumores, entre eles, o câncer de esôfago, boca, garganta, mama, fígado e cólon são os mais notáveis. O álcool em grandes quantidades aumenta em mais de cinco vezes o risco destes tumores. Os compostos químicos resultantes da metabolização do álcool no corpo podem causar danos ao DNA das células, levando a mutações genéticas e, consequentemente, ao desenvolvimento de células cancerosas. Não só isso, atuando como solvente, ele pode aumentar a penetração de substâncias tóxicas nas células do trato digestivo.

A relação indireta entre álcool e câncer também é significativa. O consumo excessivo de álcool pode levar a comportamentos prejudiciais à saúde, como tabagismo e escolhas alimentares desfavoráveis, aumentando ainda mais o risco de câncer. Além disso, o álcool compromete o sistema imunológico, tornando o organismo mais suscetível a diversas doenças, incluindo o câncer.

A questão crítica é: até que ponto o consumo de álcool é seguro? Não há um limite universalmente aceito. Idealmente, como defendem o INCA e a Sociedade Americana de Câncer, o álcool não deve ser consumido em nenhuma quantidade. No entanto, outras organizações de saúde recomendam moderação como a chave. O que existe de evidência científica mostra que o consumo de álcool deve ser limitado a quantidades consideradas seguras, como uma bebida por dia para mulheres não-grávidas e até duas para homens. Entretanto, algumas pessoas, como as grávidas e aquelas com histórico de alcoolismo na família ou que já tenham alguma doença relacionada ao álcool, devem evitar completamente o consumo da substância.

É importante salientar que o alcoolismo é uma doença grave que pode ter consequências devastadoras para a saúde física e mental da pessoa. É importante buscar ajuda profissional se você ou alguém que você conhece está lutando contra esta situação. Sem dúvida, o abuso de álcool deve ser combatido.

Também é vital destacar que o álcool não é essencial para uma vida saudável e que há alternativas saudáveis para celebrar e relaxar. Priorizar hábitos de vida saudáveis, como uma dieta balanceada, exercícios regulares e a abstenção do tabaco, é crucial na prevenção do câncer.

Neste Dia Nacional de Combate ao Alcoolismo, é fundamental promover a conscientização sobre os riscos do consumo excessivo de álcool e incentivar escolhas saudáveis. O consumo de álcool é um fator de risco importante para o câncer e o alcoolismo, uma doença grave. A melhor maneira de prevenir o câncer relacionado ao álcool é evitar o consumo de bebidas alcoólicas. Cada indivíduo tem o poder de fazer escolhas informadas que afetam sua saúde a longo prazo. Ao compreender a relação direta e indireta entre o álcool e o câncer, podemos trabalhar coletivamente para reduzir os casos relacionados ao álcool e melhorar a qualidade de vida da sociedade como um todo.

 

Dietary Guidelines for Americans, 2020-2025 9th Edition. U.S. Department of Agriculture and U.S. Department of Health and Human Services, 2020. https://www.dietaryguidelines.gov/sites/default/files/2021-03/Dietary_Guidelines_for_Americans-2020-2025.pdf

 National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism. Drinking Levels Defined. Available at: https://www.niaaa.nih.gov/alcohol-health/overview-alcohol-consumption/moderate-binge-drinking (Accessed on July 14, 2021).

 Mukamal KJ. A safe level of alcohol consumption: the right answer demands the right question. J Intern Med. 2020;288(5):550. Epub 2020 Jun 29.

Rock CL, et al. American Cancer Society guideline for diet and physical activity for cancer prevention.

CA Cancer J Clin. 2020;70(4):245. Epub 2020 Jun 9

Zhao J, Stockwell T, Naimi T, Churchill S, Clay J, Sherk A. Association Between Daily Alcohol Intake and Risk of All-Cause Mortality: A Systematic Review and Meta-analyses. JAMA Netw Open. 2023;6(3):e236185. Epub 2023 Mar 1.

LoConte NK, Brewster AM, Kaur JS, Merrill JK, Alberg AJ. Alcohol and Cancer: A Statement of the American Society of Clinical Oncology. J Clin Oncol. 2018;36(1):83. Epub 2017 Nov 7.

 

 

 

14 de Fevereiro – Dia da Amizade – Amigos: válvula propulsora de incentivo! Do momento do diagnóstico do câncer ao tratamento

Os estigmas do câncer referem-se ao sofrimento, à dor, ao medo da morte, à preocupação com a autoimagem, bem como à perda do atrativo sexual, da capacidade produtiva e de peso¹. Mesmo com todos os avanços em relação ao diagnóstico e ao tratamento, o estigma em relação ao câncer ainda é forte, tanto na sociedade como em equipes de saúde com pouca afinidade pelo tema.

No diagnóstico oncológico, os estigmas trazem ansiedade e tristeza aos pacientes. Como podemos lidar com isso? O acolhimento é a chave para reverter isso. E acolher é a especialidade dos amigos.

Muitos estudos descobriram que pacientes oncológicos com forte apoio emocional tendem a se ajustar melhor às mudanças que a doença traz, têm uma visão mais positiva e frequentemente relatam uma melhor qualidade de vida. Por este motivo, as pessoas com câncer precisam do apoio de seus amigos.

Uma situação comum é o relato de pessoas próximas sobre não saber como agir nessas situações, por isso, trago aqui, algumas possibilidades:

  • Certifique-se de que seu amigo saiba que ele é importante para você.
  • Envie mensagens de texto breves e frequentes ou faça chamadas curtas e regulares.
  • Verifique com a pessoa que ajuda com seus cuidados diários (cuidador) para ver o que mais ele pode precisar.
  • Sempre ligue antes de visitar. Seja compreensivo se seu amigo não puder vê-lo naquele momento.
  • Faça visitas curtas e regulares em vez de longas e infrequentes.
  • Entenda que seu amigo pode não querer falar, mas também pode não gostar de ficar sozinho.
  • Não tenha receio de tocar, abraçar ou apertar a mão de seu amigo.
  • Ajude seu amigo a se concentrar em tudo o que desperta bons sentimentos, como viagens ou animais de estimação.
  • Ajude seu amigo a manter um papel ativo na amizade, pedindo conselhos, opiniões e perguntas.
  • Pergunte ao seu amigo se ele está sentindo algum desconforto. Sugira novas maneiras de ficar mais confortável, como usar mais travesseiros ou mover os móveis de lugar.
  • Faça elogios honestos, como “você parece descansado hoje.”
  • Certifique-se de incluir seu amigo ao falar com outras pessoas na sala.
  • Respeite as decisões dele sobre o tratamento do câncer, mesmo se você discordar. ²

 

Além daqueles velhos e bons amigos que dividimos a trajetória de vida, surgem novas amizades durante o tratamento com aqueles que dividem a rotina oncológica: a pessoa que se senta ao lado durante a infusão da quimioterapia, aquele (a) que aguarda com você a consulta médica, aquele (a) que realiza sessões de radioterapia em horário próximo ao do paciente. Essa conexão com quem está experimentando momentos desafiadores pode ser extremamente valiosa. É o momento de compartilhar emoções, sentimentos, pensamentos e vivencias do tratamento oncológico. Acredito que esse laço é forte e duradouro, além de permitir ao paciente conhecer outras vivências dentro do mesmo contexto.

A presença dos amigos, seja os antigos ou os novos, é fundamental para uma vida feliz e completa e isso não muda durante a jornada oncológica.

 

Referências

  1. Chiattone, H. B. C. (1992). Uma vida para o câncer. In V. A. Angerami-Camon (Org). O doente, a psicologia e o hospital(pp. 71-107). São Paulo: Pioneira.
  2. Stan Goldberg. Loving, Supporting, and Caring for the Cancer Patient: A Guide to Communication, Compassion, and Courage. November 16, 2017.

 

 

5 de Fevereiro – Dia Nacional da Mamografia – Mamografia: 40 x 50 anos

O câncer de mama é o mais incidente nas mulheres. Para o triênio de 2023-2025, são esperados aproximadamente 74 mil novos casos de câncer de mama no Brasil, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA).

A chance de cura e de sobreviver ao câncer mama está diretamente relacionada ao momento do diagnóstico da doença; quanto mais avançado o câncer está quando é descoberto, maior a complexidade dos tratamentos e menor a chance de cura. Tal diferença de sobrevida também pode se relacionar com outros fatores, como a falta de acesso aos serviços de saúde, o atraso na investigação de lesões mamárias suspeitas e na realização do tratamento.

Há um grande esforço dos profissionais envolvidos no cuidado do câncer em conscientizar a população da importância de hábitos que buscam prevenir o câncer; atividade física e alimentação saudável são os principais exemplos para isso.

Além da prevenção, existem estratégias que buscam o diagnóstico precoce do câncer de mama. O rastreamento com a mamografia é a principal arma que pode auxiliar na detecção precoce das doenças da mama, quando realizado em mulheres assintomáticas, numa faixa etária em que haja um balanço favorável entre benefícios e riscos dessa prática. Dentre as vantagens da mamografia estão: a redução da mortalidade pelo câncer, menores sequelas relacionadas aos tratamentos oncológicos, maior sobrevida, e o menores custos para sociedade relacionados aos investimentos em saúde de alta complexidade e perda de um indivíduo produtivo.

Os primeiros estudos científicos que demonstraram haver diminuição da mortalidade por câncer de mama entre as mulheres submetidas ao rastreamento com mamografia foram relatados há cerca de 60 anos. Alguns estudos mostraram um percentual de até 30% de redução na mortalidade no grupo de mulheres submetidas ao rastreamento; outras evidências científicas apontaram percentual de 15-20% de redução das mortes por câncer de mama.

Por outro lado, pesquisas observacionais demonstraram resultados inconsistentes, questionando os reais benefícios do rastreamento com mamografia e destacando também certos riscos que precisam ser conhecidos e ponderados: realização de biópsias excessivas, diagnóstico de patologias que não mudariam o curso de vida da mulher, a realização de tratamentos dispensáveis e a exposição à radiação (que raramente causa câncer, mas há um discreto aumento do risco quanto mais frequente é a exposição).

 

Recomendações de rastreamento

Diante de um cenário científico que dá margem a dúvida, existem divergências entre as recomendações de rastreamento, especialmente quanto a idade de início (40 ou 50 anos) e quanto a periodicidade (anual ou a cada 2 anos). No Brasil, a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), o Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) recomendam a mamografia anual para as mulheres a partir dos 40 anos de idade. Tal medida difere das recomendações do Ministério da Saúde, que preconiza o rastreamento bianual, a partir dos 50 anos, excluindo dos programas de rastreamento uma faixa importante da população (mulheres entre 40-49 anos), responsável por cerca de 15-20% dos casos de câncer de mama.

Não há um consenso absoluto sobre quando iniciar a mamografia: se aos 40 ou aos 50 anos. Alguns protocolos de rastreamento defendem que essa decisão seja compartilhada com a paciente, explicando potenciais riscos e benefícios. O fato é que a oncologia mamária vem avançando diariamente, construindo um cenário muito diferente daquele em que se desenvolveu as evidências (favoráveis ou não) sobre rastreamento no passado. Um grande e importante estudo foi publicado há poucos dias em um jornal científico internacional, mostrando que rastreamento contribuiu em 25% na redução da mortalidade de câncer de mama nos Estados Unidos. Este dado atual sustenta a prática do rastreamento, e reforça a importância do diagnóstico precoce.

O câncer de mama permanece como uma doença desafiadora, exigindo avanços científicos e terapêuticos para melhoria das taxas de cura e mantendo-se como uma condição que exige diagnóstico precoce. O exame clínico das mamas, associado à mamografia periódica anualmente a partir dos 40 anos parece ser a melhor estratégia a ser adotada. A detecção em um estágio inicial permite um tratamento menos agressivo, determinando melhor qualidade de vida, com menores sequelas e efeitos colaterais, e aumentando as taxas de cura pela doença.

 

 

 

5 de Fevereiro – Dia do Dermatologista – A importância do dermatologista na prevenção e no diagnóstico do câncer de pele

Gabriel Peres
Dermatologista

CRM 150.185 | RQE 71.440

O dermatologista é o médico especialista no cuidado da pele, cabelos e unhas. Eles diagnosticam e tratam uma variedade de condições, como acne, eczemas, câncer de pele, lúpus, psoríase, entre outras. “No dia do dermatologista, homenageamos o especialista em cuidar do maior órgão do corpo, prevenindo, diagnosticando e tratando o câncer de pele e demais condições”, comenta o Dr Gabriel Peres, dermatologista especialista em câncer de pele.

Os cânceres de pele (não melanoma) são os tipos mais comuns de câncer e há dois tipos mais prevalentes: o carcinoma basocelular e o carcinoma espinocelular, geralmente associados à exposição crônica ao sol.

Um outro tipo mais agressivo é o melanoma, também relacionado à exposição solar, mas que pode ocorrer em áreas não expostas. Fatores de risco incluem pele clara, histórico familiar e exposição prolongada ao sol, no padrão daquelas queimaduras solares agudas.

O diagnóstico precoce é crucial para um prognóstico favorável!

Dr. Gabriel compartilha um pouco sobre sua rotina: “Na prática, há pacientes que já me procuram por terem notado uma lesão específica ou acabo identificando lesões suspeitas no momento em que realizo o exame dermatológico e biopsiando lesões suspeitas”.

Consultar um dermatologista regularmente é fundamental para monitorar a saúde da pele. Realizando exames regulares, identificando lesões suspeitas e fornecendo orientações sobre proteção solar, o especialista contribui significativamente para a saúde cutânea e para detecção precoce de possíveis problemas.

 

 

4 de Fevereiro – Dia Mundial do Câncer – O câncer em 2024: estamos realmente avançando?

Anualmente, a “American Cancer Society” publica as estimativas para o câncer nos Estados Unidos, compilando os dados mais recentes de incidência e mortalidade. Os dados para o ano de 2024 foram recentemente divulgados.

Até 2021, os números apontavam para uma queda na mortalidade por câncer, com a estimativa de mais de 4 milhões de mortes evitadas desde 1991. Essa redução foi atribuída à diminuição significativa do tabagismo, à detecção cada vez mais precoce de alguns tipos de câncer e às melhores opções de tratamento, tanto no cenário adjuvante (quando a intenção é de cura), quanto nos casos de doença metastática (quando a intenção principal é o controle de doença e prolongamento da vida).

Contudo, esses avanços estão ameaçados pelo aumento da incidência em 6 dos 10 tipos mais comuns de câncer: mama, próstata, corpo uterino, pâncreas, colorretal e do colo do uterino.

Os atrasos no diagnóstico e tratamento decorrentes da pandemia pela COVID-19, em 2020, também devem resultar em um aumento de diagnósticos em estágios avançados e, consequentemente, em maior mortalidade, o que será respondido ao longo dos anos, e também se mostram uma ameaça aos dados que já foram mais animadores. O que já está bem estabelecido é o impacto desproporcional direto e indireto da pandemia na população negra, podendo agravar ainda mais as disparidades no âmbito do câncer, que já são bastante grandes.

Embora o avançar da idade seja o fator mais influente no risco de desenvolver câncer ao longo da vida, a proporção de novos diagnósticos em adultos com 65 anos ou mais vem diminuindo. Em contraste, a proporção de adultos entre 50 e 64 anos com a doença aumentou. Essa mudança reflete, em parte, reduções marcantes na incidência de câncer de próstata e câncer relacionado ao tabagismo entre homens mais velhos, e ao aumento do risco de câncer em pessoas nascidas a partir de 1950, pelas mudanças nos padrões de exposições durante a vida, como maior obesidade, por exemplo.

Como melhor exemplo de câncer com notável crescimento entre adultos com menos de 50 anos, está o câncer colorretal, que se tornou a principal causa de morte por câncer em homens e a segunda principal causa em mulheres, ficando atrás apenas do câncer de mama.

As taxas de incidência de câncer de mama têm apresentado um aumento gradual de cerca de 0,6% anual desde 2000. Na última década, o aumento na incidência foi mais pronunciado em mulheres jovens, com menos de 50 anos (1,1% ao ano) em comparação com aquelas com 50 anos ou mais (0,5% ao ano). Esse crescimento na incidência é atribuído, em parte, à diminuição da taxa de fertilidade e ao aumento da obesidade.

Ainda sobre as mulheres, foi demonstrado que a incidência do câncer do corpo uterino continua a aumentar cerca de 1% ao ano desde meados da década de 2000. E embora as taxas possam estar se estabilizando para mulheres brancas, elas continuam a aumentar em mais de 2% ao ano entre mulheres negras e hispânicas.

A incidência do câncer do colo do útero diminuiu em mais da metade desde meados da década de 1970, devido à ampla adesão ao rastreamento e tratamento de lesões precursoras. Os declínios se aceleraram nas coortes mais jovens e, portanto, mais vacinadas contra o HPV desde 2006. Em contrapartida, a incidência segue aumentando entre as mulheres de 30-44 anos. Espera-se que com o envelhecimento das mulheres vacinadas, o efeito protetor seja transferido para grupos etários mais velhos. Surpreendentemente, a grande imunidade de rebanho e a eficácia de dose única podem facilitar a proteção contra todos cânceres associados ao HPV. Em contraste, os dados mais discrepantes, com enormes diferenças em incidência e mortalidade entre os estados americanos são vistos para esse tipo de câncer, já classificado como passível de prevenção.

Os dados apresentados alertam para uma mudança no perfil demográfico dos pacientes com câncer, com mais pessoas de meia-idade sendo diagnosticadas em comparação com os idosos. Conclui-se também, que os avanços na prevenção do câncer estão aquém do desejado, uma vez que a incidência continua a aumentar para 6 dos 10 principais tipos de câncer.

O progresso na redução das disparidades no câncer também está estagnado, especialmente entre mulheres negras, que apresentam taxas de mortalidade 40% mais elevadas para o câncer de mama e o dobro para o câncer do corpo uterino, a despeito de ter uma incidência semelhante.

Os dados apontam para a necessidade de iniciativas que acelerarem o progresso global contra o câncer, sendo crucial aumentar os investimentos em prevenção e em mitigar as disparidades.

 

 

Por que o fevereiro é laranja?

A campanha Fevereiro Laranja visa conscientizar e apoiar a comunidade no entendimento da leucemia, uma doença que, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), ocupa a décima posição entre os tipos de câncer mais frequentes no Brasil, sem considerar os tumores de pele não melanoma.

As leucemias são cânceres hematológicos decorrentes de alterações genéticas nas células-tronco da medula óssea e fatores ambientais, ainda não totalmente esclarecidos. Podem ser classificadas em crônicas ou agudas conforme a velocidade de crescimento das células leucêmicas. Quando crônica há produção de células maduras, capazes de realizar algumas funções normais, progredindo lentamente, com pacientes pouco sintomáticos ou assintomáticos.  Quando aguda, produz células imaturas, incapazes de realizar suas funções normais, progredindo rapidamente. Sua classificação também depende do tipo de glóbulo branco acometido, podendo ser mieloides ou linfoides.

Podem apresentar como sintomas fraqueza, cansaço, tontura, palidez, inapetência, perda de peso, falta de ar, febre, suor a noite, dor óssea, hematomas e sangramentos, infecções, aumento do baço, do fígado e dos linfonodos (ínguas).

Para diagnóstico, são realizados exames com coleta de sangue e/ou punção da medula óssea.

O tipo de tratamento e a duração vão depender do tipo de leucemia. As leucemias agudas são mais graves e precisam de tratamento imediato pois a ausência de tratamento é fatal para o paciente. Já as leucemias crônicas devem ser avaliadas pelo médico hematologista para a indicação da necessidade ou não de tratamento medicamentoso, pois um grande número de pacientes com Leucemia Linfocitica Crônica, por exemplo, fica em seguimento clínico sem necessitar de tratamento inicialmente.

O tratamento por ser feito com quimioterapia (injetável ou oral), terapias-alvo (substâncias que bloqueiam proteínas ou moléculas envolvidas no crescimento das células cancerígenas), radioterapia, transplante de medula óssea e imunoterapia (anticorpos monoclonais ou CAR-T Cell).

Pacientes com boa performance clínica, conforme o risco da leucemia aguda, podem ter indicação de transplante de medula óssea alogênico como consolidação do tratamento inicial, para uma maior chance de cura. Para ser realizado o transplante alogênico, o paciente precisa de um doador compatível. Alguns casos de Leucemia Mieloide Crônica refratários ao tratamento inicial também podem ter a indicação de transplante de medula alogênico.

Pacientes com indicação de transplante alogênico iniciam a busca do doador entre os membros da família. Irmãos germanos têm a maior chance de serem 100% compatíveis. Caso não apresente doador aparentado compatível pode-se encontrar um doador não aparentado no REDOME (Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea). Pessoas saudáveis, com 18-35 anos, podem se cadastrar nos bancos de sangue/ Hemocentros para serem doadores e, assim, ajudar esses pacientes a aumentarem suas chances de cura.

 

 

19 de janeiro – Dia do Terapeuta Ocupacional e 20 de janeiro – Dia do Farmacêutico: Multidisciplinaridade: importância da terapia ocupacional e do farmacêutico na rotina do oncologista

A prestação da assistência ao paciente oncológico inclui várias especialidades integradas, dentre as quais podemos citar os serviços de diagnóstico, cirurgia oncológica, oncologia clínica, radioterapia, medidas de suporte (nutricional, psicológico, terapia ocupacional), reabilitação (fisioterapia, fonoaudiologia) e cuidados paliativos. Para que o atendimento integral a esse paciente seja eficiente, se faz necessária a integração e reciprocidade entre esta equipe multidisciplinar, em que cada profissional contribui com suas habilidades. Desta forma, cabe aqui falarmos um pouco da importância do farmacêutico e da terapia ocupacional.

Desde a década de 90, o papel do farmacêutico na equipe multidisciplinar de terapia antineoplásica vem se fortalecendo e ocupando um importante espaço no tratamento do câncer e na atenção ao paciente oncológico. Resoluções do CFF e da Anvisa tornaram privativa ao farmacêutico a manipulação de medicamentos citotóxicos e, desde então, novas diretrizes foram desenvolvidas.

O farmacêutico garante toda a cadeia medicamentosa para o tratamento do câncer, atua na manipulação visando preservar as características do produto e garantir a esterilidade da operação, gerencia os medicamentos utilizados nas diferentes etapas e ainda garante que os procedimentos sejam realizados de maneira adequada, conforme os protocolos e doses prescritas. Além disso, o farmacêutico se tornou responsável por toda gestão da farmácia clínica, pois é um profundo conhecedor dos fármacos e isso o possibilita acompanhar o resultado do tratamento. Neste contexto, nossa responsabilidade é evitar danos por erros de medicação e, assim, garantir a segurança do paciente.

Selecionar e padronizar medicamentos que atendam aos protocolos clínicos da instituição é a primeira etapa, que exige responsabilidade para garantir que os produtos atenderão às exigências legais. Garantir a divulgação das informações sobre medicamentos, como sua farmacodinâmica e farmacocinética, interações medicamentosas, meia vida dos fármacos, reações adversas e compatibilidades físico-químicas, auxiliam a equipe multidisciplinar nas tomadas de decisões sobre a terapia antineoplásica. O preparo e a manipulação são fundamentais para diminuir os riscos associados ao manejo desses medicamentos, além de prevenir erros como seleção errônea do diluente.

O paciente oncológico é um potencial candidato a desenvolver importantes reações adversas em razão da poliquimioterapia a que está submetido, ao baixo índice terapêutico dos fármacos, ao tratamento prolongado, entre outros. Torna-se imprescindível, portanto, o acompanhamento da farmacovigilância nestes casos, contribuindo, desta forma, para reduzir as taxas de morbidade e mortalidade relacionadas ao uso de medicamentos, associado à detecção precoce de problemas relacionados à segurança.

Já a prática da terapia ocupacional em oncologia cuida não somente do corpo, mas também da alma e equilíbrio dos pacientes. Atualmente, o papel do terapeuta ocupacional é ligado à intervenção em saúde, em educação e na esfera social. Seu objetivo é focado em proporcionar melhor bem-estar e qualidade de vida a pacientes que apresentam limitações funcionais e/ou dificuldades na inserção e participação da vida social.

As intervenções em terapia ocupacional têm como foco principal as atividades cotidianas e ocupações, elemento centralizador e orientador, na construção complexa e contextualizada do processo terapêutico, facilitando e garantindo o desempenho do sujeito nas suas atividades e ocupações e na manutenção de sua participação ativa na vida.

A terapia ocupacional está inserida nos diversos serviços ofertados, participando da atividade de acolhimento multiprofissional, atendimento ambulatorial, acompanhamento de pacientes internados e, quando necessário, visitas domiciliares.

Especificamente na oncologia, como exemplo, a terapia ocupacional pode orientar a realização de atividades que ajudam a controlar dores e incômodos, sejam elas monitoradas ou não. Muitas vezes, o câncer, os tratamentos e os procedimentos realizados podem deixar sequelas no paciente e, assim, o trabalho estará voltado para a melhora da capacidade motora (força, amplitude de movimento, coordenação, destreza), a prevenção e/ou minimização de deformidades. E o objetivo maior deve estar na qualidade de vida global do paciente com câncer, para permitir a ele a realização de suas atividades significativas, de maneira autônoma.

Além disso, nos estágios terminais da doença e no momento da morte, o terapeuta ocupacional, terá o papel de dar continuidade aos sentidos que a vida tem para o paciente, mesmo que esta vida seja de poucos dias. Toda a atuação estará voltada a adicionar vida aos dias remanescentes do paciente.

Portanto, sabemos que o câncer implica em rupturas na vida do indivíduo acometido pela doença: o tratamento passa a ocupar posição central no cotidiano, a rotina se transforma, alguns projetos precisam ser adiados. Muitas vezes há dores e outros sintomas, decorrentes da doença e/ou do tratamento, que impossibilitam ao sujeito plena autonomia e independência na realização de suas tarefas e ocupações. Desta forma, sabemos que um trabalho multidisciplinar, é de suma importância, para que a jornada do paciente oncológico seja mais fácil e o tratamento realizado de forma mais adequada e com menos riscos e toxicidades.

 

Janeiro: mês de prevenção do câncer do colo do útero

No Brasil, mais de 17 mil mulheres receberão o diagnóstico de câncer do colo uterino a cada ano pelos próximos três anos, sendo a estimativa do Instituto Nacional do Câncer (INCA). Esse tipo de câncer, o terceiro mais comum entre as mulheres brasileiras (quando excluídos os casos de câncer de pele não-melanoma) foi o responsável por 6.600 mortes no Brasil no ano de 2020. O câncer de colo uterino se coloca como um problema de saúde pública, afetando mais de 600 mil mulheres em todo o mundo a cada ano, com uma mortalidade anual estimada de 342 mil mulheres. E mais de 85% dessas mortes acontece em países de média e baixa renda. Mas salvar essas vidas está ao alcance de nossas mãos.

O câncer de colo uterino é causado, em mais de 90% das vezes, pela infecção persistente pelo vírus chamado HPV (papilomavírus humano). Existem mais de 200 tipos de HPV, alguns deles associados ao desenvolvimento de doenças benignas, como as verrugas genitais. Por outro lado, cerca de 13 tipos de HPV são considerados de alto risco, ou seja, capazes de induzir o desenvolvimento de diferentes tipos de câncer, entre eles o de colo uterino. Dentre os tipos de alto risco, o 16 e o 18 são os mais frequentemente associados ao câncer de colo uterino. A infecção pelo HPV é transmitida por via sexual, ou seja, é uma infecção sexualmente transmissível extremamente comum. Sabe-se que 80% dos homens e das mulheres já foram expostos/infectados pelo HPV pelo menos uma vez até os 50 anos de idade. Mas nem todas as mulheres que entram em contato com o HPV vão desenvolver câncer de colo uterino. Isso porque na grande maioria das vezes o organismo consegue desenvolver uma resposta imune eficaz que leva à eliminação do vírus. A persistência da infecção leva, ao longo de vários anos, ao desenvolvimento de lesões pré-cancerosas que, se não diagnosticadas e tratadas, podem evoluir para o câncer.

O conhecimento de todo esse processo envolvendo infecção pelo HPV, formação de alterações celulares e lesões pré-cancerosas, culminando no surgimento do câncer de colo uterino, permitiu o desenvolvimento de estratégias de rastreamento do câncer de colo uterino. E esse é um dos pilares do programa da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a erradicação do câncer de colo uterino. No Brasil, o programa de rastreamento com o exame de Papanicolaou já está estabelecido há várias décadas e a nossa experiência junto com a de outros países, especialmente países mais ricos, nos mostra que é um método eficaz na detecção de lesões pré-cancerosas e do câncer em estádios mais precoces, permitindo a cura da doença. Mas, e se fosse possível evitar a persistência da infecção pelo HPV, cortando, assim, o mal pela raiz?

Isso não só é possível, como já é realidade em cerca de 114 países, inclusive no Brasil. E melhor ainda, via Sistema Único de Saúde. Voltemos um pouco à relação entre infecção pelo HPV e o câncer de colo uterino. Quando o indivíduo é infectado pelo HPV, o sistema imunológico desenvolve um certo grau de resposta imunológica que, com grande frequência consegue eliminar o vírus. No entanto, essa resposta imune não é duradoura e protege muito pouco contra reinfecções pelo HPV. Em homens, inclusive, essa resposta imune é ainda mais escassa. Faz sentido então pensarmos em uma forma de potencializar essa resposta imune para garantirmos uma proteção mais robusta e duradoura, capaz de prevenir a persistência da primeira infecção, bem como das reinfecções. Como é possível fazer isso? Muito simples, com uma vacina contra o HPV!

No mundo, hoje existem 5 vacinas contra o HPV licenciadas para uso, 3 delas disponíveis no Brasil. Todas essas vacinas são compostas por partículas que simulam o HPV e carregam algumas proteínas virais mas, por não se tratar de vírus completos e vivos, elas não são capazes de causar infecção viral. Tais vacinas são capazes de induzir uma resposta imunológica que chega a ser 10 vezes superior à resposta imune natural do nosso organismo. Além disso, a produção de anticorpos protetores é bastante duradoura, com alguns estudos mostrando positividade por mais de 15 anos após a aplicação da vacina.

A eficácia das vacinas na prevenção contra as lesões pré-cancerosas e o câncer propriamente dito já está comprovada em diversos estudos bem conduzidos. Alguns países, inclusive, já estão apresentando redução no número de casos de câncer de colo uterino em razão da aplicação da vacina contra o HPV. Por isso, a vacinação contra HPV compreende o segundo pilar do programa da OMS para a erradicação do câncer de colo uterino.

No Brasil, a vacina contra o HPV está disponível no Programa de Imunizações do Ministério da Saúde desde 2014. A vacina disponível é a chamada quadrivalente, pois protege contra quatro tipos de HPV: 6, 11, 16 e 18, os mais comuns na nossa população.

Recentemente, foi aprovada para uso no Brasil uma nova versão da vacina contra HPV chamada nonavalente, que protege contra 9 tipos de HPV. Essa nova vacina ainda não é fornecida pelo Ministério da Saúde, somente em serviços privados.

A recomendação é de que a vacina contra o HPV seja administrada às meninas e aos meninos com idade entre 9 e 14 anos, com duas doses com intervalo de seis meses. A segunda dose pode ser administrada com intervalo maior, caso o tempo correto de seis meses não tenha sido respeitado. Se a primeira dose for feita a partir dos 15 anos, deve-se administrar três doses, a segunda com intervalo de 2 meses e a terceira com intervalo de 6 meses (contando a partir da primeira). Além disso, indivíduos que vivem com o HIV, transplantados (órgãos ou medula) e pacientes oncológicos podem receber a vacina entre os 9 e 45 anos de idade, com o esquema de três doses. O ideal é que a vacina seja administrada antes do primeiro contato com o vírus, ou seja, antes do início da vida sexual ativa. No entanto, hoje já sabemos que mesmo após o início da vida sexual há benefício da vacinação na redução do risco de infecção persistente.

É muito importante falarmos sobre o assunto e conscientizarmos as pessoas sobre os benefícios potenciais da vacinação contra o HPV na prevenção de um câncer que acomete ainda tantas mulheres no Brasil e no mundo. Dados do Ministério da Saúde mostram que nos últimos anos houve uma redução da cobertura vacinal contra o HPV no Brasil. Em 2019, 87% das meninas e 61,5% dos meninos com idade entre 9 e 14 anos receberam a primeira dose da vacina contra o HPV. Em 2022, a cobertura caiu para 75,8% e 51,1%, respectivamente. É necessário um esforço conjunto do governo e da sociedade no sentido de atingirmos a meta estipulada pela OMS de atingirmos uma cobertura vacinal de 90% até o ano 2030, no caminho para a erradicação do câncer de colo uterino.

O combate ao câncer de colo uterino pode salvar a vida de milhares de mulheres em todo o mundo. As ferramentas para isso estão disponíveis. Nosso desafio é fazer com que elas estejam ao alcance de todas as mulheres.

 

Referências

 

  1. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Dados e números sobre câncer do colo do útero. Relatório Anual 2023. Disponível em: https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files/media/document/dados_e_numeros_colo_22marco2023.pdf. Acessado em 07 de janeiro de 2024.

 

  1. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estimativa 2023. Incidência de Câncer no Brasil. Disponível em: https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files//media/document//estimativa-2023.pdf. Acessado em 07 de janeiro de 2024.

 

  1. Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Informações sobre a vacinação contra o HPV. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/pt/noticias/item/1621-informacoes-sobre-a-vacinacao-contra-hpv. Acessado em 07 de janeiro de 2024.

 

  1. Ministério da Saúde. Queda da cobertura vacinal contra o HPV representa risco de aumento de casos de cânceres evitáveis no Brasil. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2023/fevereiro/queda-da-cobertura-vacinal-contra-o-hpv-representa-risco-de-aumento-de-casos-de-canceres-evitaveis-no-brasil. Acessado em 07 de janeiro de 2024.

 

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