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Alerta sobre a relação entre vitamina C e câncer

Nos últimos dias, algumas reportagens têm sugerido uma possível ligação entre a vitamina C e o estímulo ao crescimento do câncer. Isso está ocorrendo em função de um estudo publicado recentemente na revista Free Radical Biology and Medicine e, pelo modo que a imprensa noticia, poderia haver um alarde desnecessário.

Sempre devemos ter muito cuidado para não tomarmos atitudes sem justificativa científica contundente. Primeiramente, o estudo em questão foi in vitro, ou seja, realizou testes em laboratório, não em seres humanos ou animais. Os pesquisadores avaliaram o comportamento e as concentrações de vitamina C (e derivados da mesma) em células de câncer de mama desenvolvidas em meios de cultura artificiais e controlados. Os resultados mostraram que as estas células apresentavam maior expressão de um receptor (SVCT2), o qual é responsável por utilizar a vitamina C para produção de energia e proliferação. Além disso, os achados sugerem que estas células do câncer de mama são –  ao contrário daquelas normais – capazes de captar a vitamina C em uma forma diferente no sangue. Tais características podem, segundo os autores, promover uma vantagem para célula cancerígena: uma maior taxa de crescimento celular.

Entretanto, as evidências anteriores a este estudo mostram o oposto, que a vitamina C é um antioxidante potente e talvez possa ser um aliado no combate ao câncer. Infelizmente, os trabalhos anteriores tampouco apresentam conclusões definitivas. Mesmo assim, há médicos que, irresponsavelmente, indicam o uso de altas doses de vitamina C antes da quimioterapia. Essa prática também não tem suporte científico e é temerária, já que mais estudos são necessários para tal.

Uma das principais críticas ao trabalho em discussão é que o comportamento de substâncias e células fora do corpo muitas vezes é diferente do que realmente ocorre num organismo vivo, o qual tem muitos outros fatores que tornam a análise infinitamente mais complexa.

É muito interessante ressaltar que os autores, responsavelmente, concluem em seu artigo que esse achado sugere uma possibilidade da relação da vitamina C com o câncer, e não que seria uma panaceia ou uma grande revolução. Tal afirmação contrasta com as notícias divulgadas pela imprensa, que passam a impressão de que o estudo conclui algo muito mais definitivo e revolucionário.

Seja por má interpretação, por sensacionalismo ou por incapacidade dos autores em transmitir a informação corretamente, fato é que o alarde é completamente desnecessário e o mais importante é que não há qualquer evidência que suporte a redução (nem o aumento excessivo) do consumo de vitamina C por seres humanos. O que temos a fazer é aguardar por novas pesquisas que possam esclarecer o assunto, enquanto seguimos orientações dos nossos médicos e nutricionistas, mantendo a ingestão recomendada de vitaminas – inclusive a C – sem decisões precipitadas.

Referências:

Peña E, et al. Increased expression of mitochondrial sodium-coupled ascorbic acid transporter-2 (mitSVCT2) as a central feature in breast cancer. Free Radical Biol Med 2019;135:283-92.

Gillberg L, et al. Vitamin C – A new player in regulation of the cancer epigenome. Semin Cancer Biol 2018;51:59-67.

Terapia-alvo inovadora aprovada no Brasil

A Anvisa aprovou na última semana o medicamento Larotrectinibe (Vitravki®) para utilização no Brasil. Esta não é uma novidade qualquer, pois trata-se da primeira terapia-alvo liberada em solo brasileiro que tem indicação independente do tipo de tumor. No caso, esta droga atua em uma proteína que está alterada em diferentes tipos de câncer, o que tem se tornado uma tendência da Oncologia nos últimos anos e trazido benefícios a cada vez mais pacientes.

O Larotrectinibe é um inibidor de uma proteína mutada (de fusão) chamado receptor TRK (Tropomyosin receptor kinase), presente na membrana celular de algumas neoplasias malignas (1% do total, aproximadamente). Esse receptor na sua forma normal NTRK (Neurotrophic receptor tyrosine kinase) está presente em células do sistema nervoso (neurônios), nas quais sua ação é a de promover o crescimento e sobrevivência celular de forma controlada. Entretanto, por uma alteração genética (fusão de partes de 2 genes) que surge durante alguma divisão celular, os tumores malignos podem apresentar a forma mutada deste gene, o qual leva à produção da proteína TRK alterada. Esta, por sua vez, tem um comportamento diferente do habitual e promove a divisão celular de forma contínua e descontrolada, desenvolvendo o câncer.

A aprovação do Larotrectinibe se baseou em um estudo publicado em 2018 no New England Journal of Medicine, uma das mais conceituadas revistas científicas médicas do mundo. Os pesquisadores avaliaram a ação da medicação em questão em 55 pacientes (adultos e crianças) com diversos tipos de tumores, que apresentavam a mutação do gene TRK e que tivessem falhado aos tratamentos-padrão para a sua doença. Os resultados mostraram altíssimas chance de diminuição do câncer (75%) e duração de resposta (71% com resposta mantida após 12 meses), associadas a uma taxa de efeitos colaterais graves muito baixa (7%).

Interessante destacar que esse foi um estudo pequeno, de fase precoce e que não comparou pacientes com ou sem a medicação, porém, como o efeito é muito claro e racional, tornou-se suficiente para a aprovação no mundo (nos EUA e na Europa, foi aprovado em novembro do ano passado).

Vale lembrar que a liberação pela ANVISA não supõe a obrigatoriedade de disponibilização pelos planos de saúde, já que tal deliberação depende de outras diretrizes legais (inclusão no rol da ANS).

O Larotrectinibe é um exemplo da personalização da Oncologia que tem ocorrido e que deve crescer rapidamente nos próximos anos. O objetivo é dar o tratamento certo para o paciente certo, promovendo sobrevida e qualidade de vida, pois o foco é sempre o paciente.

Referências:

http://www.in.gov.br/web/dou/-/resolucao-re-n-1.739-de-27-de-junho-de-2019-180788963?inheritRedirect=true&redirect=%2Fsearch%3FqSearch%3Dlarotrectinibe

Drilon A, et al. Efficacy of Larotrectinib in TRK Fusion–Positive Cancers in Adults and Children. N Engl J Med 2018;378:731-9

Cigarro eletrônico: menos problemas ou mais dúvidas?

A moda recente dos cigarros eletrônicos (e-cigarrettes) tem gerado discussões entre cientistas. Apesar da contribuição para a redução do número de fumantes de cigarros normais no mundo, há ainda muitas dúvidas quanto aos riscos e benefícios do aumento de usuários dos eletrônicos (aproximadamente 5% da população dos EUA faz uso).

Os e-cigarrettes são basicamente aparelhos vaporizadores de nicotina que utilizam substâncias associadas (água, solventes e aromatizantes) para produzir tal efeito. Ou seja, os efeitos extremamente danosos da nicotina – incluindo as doenças cardiovasculares e a dependência – continuam como riscos enormes à saúde. Ao mesmo tempo, uma questão-chave é que não há dados sobre as consequências à longo prazo, visto que a inalação de vapor quente associado às substâncias citadas são potencialmente causadores de doenças pulmonares e do trato respiratório, incluindo câncer de pulmão e de cabeça e pescoço.

Os defensores dos e-cigarrettes fiam-se no fato do número absoluto de substâncias carcinogênicas ser menor do que o cigarro normal. Além disso, os e-cigarrettes podem ajudar alguns tabagistas a pararem de fumar, porém a evidência ainda não é contundente. Entretanto, isso não justifica o uso indiscriminado, muito menos o seu estímulo, já que a ciência não demonstrou segurança à longo prazo.

A recomendação ideal continuará sendo sempre evitar uso de cigarros (eletrônicos ou não), visto que o impacto conhecido de ambos na saúde individual e populacional é gigantesco em função não só do câncer, mas também das doenças cardiovasculares, que ainda são a maior causa de morte em várias partes do mundo.

 

Referências:

Glasser AM, et al. Overview of Electronic Nicotine Delivery Systems: A Systematic Review. Am J Prev Med 2017;52(2):e33-e66

Martinez U, et al. How Does Smoking and Nicotine Dependence Change after Onset of Vaping? A Retrospective Analysis of Dual Users. Nicotine Tob Res 2019;pii:ntz043

Alerta Oncologia: fake news sobre menstruação e câncer

É “fake”, ou seja, são mentirosas as afirmações que vêm circulando em posts nas redes sociais. Segundo a publicação, bater no abdome com objetos duros, comer pepino, usar xampu na cabeça e beber água gelada, de coco ou com gás, enquanto a mulher está menstruada, causaria esterilidade, câncer de útero e “químicos”.

As informações são completamente falsas e sem qualquer embasamento científico. A esterilidade tem causas variadas, dentre as quais não se encontram nenhuma dessas situações listadas. Quanto ao câncer de útero, a sua ocorrência tem associação mais clara com fatores como obesidade (endométrio) e vírus HPV (colo do útero).

Devemos ficar atentos às notícias falsas, sensacionalistas e irresponsáveis e sempre duvidar de publicações cujas fontes não sejam citadas ou confiáveis. O ideal é procurar orientação médica com seu clínico ou ginecologista para obter informações cientificamente corretas.

Referências:

Onstad MA, et al. Addressing the Role of Obesity in Endometrial Cancer Risk, Prevention, and Treatment. J Clin Oncol 2016;34(35):4225-30.

Jose-Miller AB, et al. (2007). Infertility. Am Fam Physician 2007;75:849–56.

Ferlay J, et al (2018). Global Cancer Observatory: Cancer Today. Lyon, France: International Agency for Research on Cancer. Available from: https://gco.iarc.fr/today

Novo biossimilar para tratamento do câncer de mama

No dia 20 de maio, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o medicamento biossimilar Herzuma®, cuja referência é o Herceptin®. Ambos são indicados no tratamento do câncer de mama, tanto nas fases iniciais quanto nas avançadas.

Os dois compostos são nomes comerciais do anticorpo monoclonal Trastuzumabe, que é uma molécula complexa produzida em laboratório com um alvo específico, no caso, a proteína Her2, presente em maior quantidade em alguns tipos de tumores de mama. Em relação ao Herzuma®, esta é uma medicação conhecida como biossimilar, uma cópia do composto de referência com eficácia e segurança semelhantes. O Herzuma® foi testado e aprovado no estudo CT-P6 3.2, publicado em 2017.

A principal vantagem dos biossimilares é o preço, que, geralmente, é mais reduzido. Dessa forma, a incorporação ao arsenal terapêutico no Brasil é um avanço, já que pode aumentar o acesso das pacientes com câncer de mama ao tratamento mais adequado.

O Herzuma® ainda passará pela precificação na Câmara de Regulação de Mercado de Medicamentos (CMED) e deverá estar disponível comercialmente nos próximos meses.

Referências:

Stebbing J, et al. CT-P6 compared with reference trastuzumab for HER2-positive breast cancer: a randomised, double-blind, active-controlled, phase 3 equivalence trial. Lancet Oncol 2017;18(7):917-28.

O grande mal dos últimos séculos. Todo mundo conhece alguém que morreu por causa do cigarro

O uso do tabaco para fumo é com certeza o maior mal instalado na sociedade moderna. E quando digo moderna, me refiro há mais de 200 anos de vício contínuo, dizimando anualmente milhões de vidas. É controverso quando tudo começou, mas os astecas e maias, na América Central, já fumavam substâncias psicoativas, enroladas em folhas de plantas como o tabaco. A partir da dominação espanhola no Novo Continente, o tabaco chegou à Europa e em 1830 ganhou a França, onde se popularizou. A partir de 1845 foi lançado à escala industrial sob a tutela do estado francês, que geria a produção e comercialização. No Brasil, os indígenas já usavam o fumo em alguns rituais e colaboraram para sua chegada em Portugal após as grandes navegações.

Os efeitos deletérios e o grande mal causado pelo cigarro só seriam conhecidos e combatidos mais tarde. Até o fim da década de 1970 e início de 1980, o cigarro esteve relacionado ao glamour, ao status financeiro e a maior sexualidade. O tabagismo era amplamente divulgado pelos filmes de Hollywood e as propagandas eram sempre atreladas aos estilos de vida saudáveis e às práticas esportivas, principalmente àquelas mais elitizadas. Fumar era “bonito” e estava na moda.

Somente no fim dos anos 80, o inimigo começou a mostrar como era traiçoeiro e muitas vezes mortal. São mais de 7.000 compostos químicos em um único cigarro, dentre os quais, pelo menos 250 são reconhecidamente prejudiciais e mais de 50 são sabidamente cancerígenos. É disparado o maior fator de risco para o desenvolvimento de câncer e está relacionado a quase todos os tumores, com particular importância em neoplasias de pulmão, cabeça e pescoço, esôfago e bexiga. De cada 100 casos de câncer, cerca de 40 estão associados ao cigarro. Portanto, se a população mundial parasse de fumar, um terço dos casos de câncer seriam evitados. Além disso é o segundo fator de risco mais importante para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares (perdendo apenas para hipertensão arterial), sem contar as diversas outras doenças respiratórias.

Os pacientes que fumam têm em média 14 anos menos de expectativa de vida em relação a quem não fuma. Está cada vez mais claro que os tabagistas passivos (aqueles que não fumam, mas convivem de perto com quem fuma) também têm mais chances de desenvolver câncer, doenças cardíacas e pulmonares. O tabagismo é considerado a maior causa evitável de morte no mundo. Estima-se que 100 milhões de pessoas tenham morrido no século XX em decorrência do fumo. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam para 7 milhões de mortes ao ano, sendo 12% dessas mortes em fumantes passivos. Só no Brasil, são 400 mortes por dia, 20 mortes por hora, por doenças causadas pelo tabaco, um impacto gigantesco na saúde e na economia.

Geralmente, os tumores associados ao cigarro tendem a ser mais agressivos devido à biologia associada ao surgimento do câncer nessa situação. As várias substâncias cancerígenas do cigarro causam danos no DNA da célula normal, produzindo muitas mutações genéticas. Quanto maior o número de mutações, pior tende a ser o tumor e menor sua resposta ao tratamento.

O câncer de pulmão, o segundo mais comum e aquele que mais mata, está diretamente relacionado ao tabagismo: cerca de 90% dos pacientes fumam ou já fumaram. Trata-se de uma das neoplasias mais agressivas, acometendo cerca de 1,8 milhões de pessoas no mundo e em mais de 80% dos casos a doença é diagnosticada em fases avançadas com metástases, quando a cura é praticamente impossível. Até aqueles que param de fumar precisam de 20 anos para terem seus riscos diminuídos para próximo de uma pessoa que nunca fumou. Mesmo com os avanços no tratamento com as terapias-alvo e a imunoterapia, a prevenção continua sendo o melhor caminho.

O câncer de cabeça e pescoço, conhecido como carcinoma epidermoide, que representa o terceiro tipo mais comum de câncer nos homens no Brasil (quando contamos os tumores de cavidade oral, faringe, hipofaringe e laringe juntos), está intimamente relacionado ao tabagismo, sendo acompanhado logo em seguida pelo álcool e depois pelo vírus do HPV. Esses tumores exigem tratamentos agressivos com cirurgias muitas vezes mutiladoras ou quimioterapias associadas à radioterapia com muitos efeitos colaterais.

Outro tipo de câncer muito relacionado ao tabagismo ė o de bexiga, cada vez mais comum nos países em desenvolvimento e também extremamente agressivo nas fases mais avançadas. Se não diagnosticado muito precocemente exige cirurgias extremamente invasivas, que comprometem diretamente a qualidade e tempo de vida do indivíduo. Em 2018, foram quase 10.000 casos novos dessa doença com quase 4.000 mortes no Brasil.

O tabagismo também está associado a outros tumores, como câncer de estômago, pâncreas, mama, rins, intestinos e sangue. Embora sua prática venha caindo nos países desenvolvidos e no Brasil, estima-se que um em cada quatro homens e uma em cada vinte mulheres ainda fumem. Em países como China, EUA e Rússia, a mortalidade pelo cigarro aumentou nos últimos anos.

No Brasil, hoje, 12% da população é tabagista, menos da metade de duas décadas atrás. Isso foi conquistado com políticas mais duras como aumento dos impostos sobre o cigarro, proibição de propagandas, restrição do uso em ambientes fechados e uso de fotos nas embalagens que mostram os efeitos deletérios causados pelo hábito. Outra boa notícia é que o número de fumantes passivos também vem diminuindo assim como o uso entre os jovens. Ainda assim, ocupamos a oitava posição no ranking em número absoluto de tabagistas.

E, no mundo moderno, os riscos podem simplesmente mudar de roupagem. É o caso do uso crescente do narguilé (que vem ganhando adeptos entre os jovens) e pode equivaler a 100 cigarros fumados em uma única sessão. E os cigarros eletrônicos, que contém menos substâncias tóxicas pois não queimam o tabaco, mas ainda não se sabe os danos que podem causar a longo prazo. Além disso, foi sugerido recentemente pelo governo brasileiro a diminuição do imposto sobre o cigarro, o que seria uma tragédia anunciada.

O fato é que o câncer é a segunda maior causa de morte no mundo e em poucos anos se tornará a primeira. E pelo menos um terço dos casos estão relacionados ao tabagismo e, portanto, poderiam ser evitados. Além disso, o cigarro é individualmente o maior fator de risco para mortes no mundo. Bilhões em dinheiro são gastos anualmente em tratamentos relacionados ao tabaco e milhões de pais, mães e filhos têm as suas vidas ceifadas por esse que é o grande mal dos últimos séculos! A prevenção continua sendo o melhor caminho.

Aberta consulta pública sobre proposta de incorporação de medicamento para câncer de próstata no SUS

No último dia 9, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC) abriu uma consulta pública sobre a proposta de incorporação da Abiraterona no tratamento de pacientes com câncer de próstata metastático no sistema público.

A indicação solicitada é para pacientes que tenham a doença não controlada após terapia hormonal e quimioterapia. Hoje, no SUS, a defasagem do arsenal de terapêuticas para o câncer de próstata é alta e a Abiraterona já é largamente conhecida, estudada e utilizada em todo o mundo. O principal estudo para o contexto é de 2011 e mostrou, em sua análise final, uma redução do risco de morte de 25% e boa tolerância, além de melhora em qualidade de vida.

A recomendação preliminar da CONITEC é pela inclusão do medicamento e a consulta pública convida tanto cientistas quanto a população geral (como pacientes e sua experiência) a participarem. A data-limite para envio de pareceres é dia 28 de maio de 2019 e o envio pode ser feito pelo site http://conitec.gov.br/consultas-publicas (Consulta Pública nº 26).

Esse passo é muito importante e a previsão de aprovação traz novas possibilidades para tratamento dos pacientes do SUS, o que é sempre um avanço. Vamos continuar alertas e informaremos quando o parecer final for emitido.

 

Referências:

De Bono JS, Logothetis CJ, Molina A, Fizazi K, North S, Chu L, et al. Abiraterone and increased survival in metastatic prostate cancer. N Engl J Med 2011;364(21):1995-2005.

Logothetis C, De Bono JS, Molina A, Basch EM, Fizazi K, North SA, et al. Effect of abiraterone acetate (AA) on pain control and skeletal-related events (SRE) in patients (pts) with metastatic castration-resistant prostate cancer (mCRPC) post docetaxel (D): results from the COU-AA-301 phase III study. Journal of clinical oncology. 2011;29(15 SUPPL. 1).

Publicação do Diário Oficial da União (DOU):

Nova indicação de tratamento em câncer de mama HER2 positivo

A agência de regulação de medicamentos dos Estados Unidos, o FDA (Food and Drug Administration) – que corresponde à ANVISA brasileira – aprovou, em 03 de maio passado, a indicação do medicamento Kadcyla® (trastuzumabe-entansina, conhecida como TDM-1) para tratamento adjuvante de mulheres com câncer de mama localizado. A aprovação de baseou nos dados recentemente apresentados do estudo KATHERINE, recém-publicado, que selecionou mulheres com tumor de mama do tipo HER2 positivo, que tivessem recebido quimioterapia pré-cirurgia baseada em 2 drogas específicas (taxanos e trastuzumabe) e, na avaliação da peça cirúrgica, apresentassem tumor residual. As pacientes selecionadas eram aleatorizadas a receberem o TDM-1 ou o padrão de tratamento atual (trastuzumabe) por 14 ciclos de 21 dias. Os resultados mostraram um aumento de 50% da sobrevida livre de recorrência de doença invasiva, ou seja, aumentou o tempo que as pacientes demoravam para apresentar recidiva da doença ou para morrer. Os efeitos adversos mais comuns foram fadiga, alterações hematológicas, náuseas e neuropatia.

Este é um avanço importante para as mulheres com câncer de mama e seguimos atentos para termos a aprovação também no Brasil.

Referências:

Von Mickwitz G, et al. Trastuzumab Emtansine for Residual Invasive HER2-Positive Breast Cancer. N ENgl J Med 2019;380:617-28.

Bula FDA: https://www.accessdata.fda.gov/drugsatfda_docs/label/2019/125427s105lbl.pdf

Aprovada primeira imunoterapia para o câncer de mama no Brasil

No dia 13 de maio último, a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou a indicação do primeiro tratamento baseado em medicação imunoterápica para pacientes com câncer de mama no nosso país.

Os indivíduos beneficiados serão aquelas pacientes com tumores do tipo triplo negativo, que têm um comportamento mais agressivo e, consequentemente, uma mortalidade maior, além de opções de tratamento com menos eficácia quando comparado aos outros tipos de tumores.

O medicamento aprovado foi o Atezolizumabe (Tecentriq®) em combinação com quimioterapia-padrão e a eficácia foi comprovada pelo estudo IMPassion130, recentemente apresentado e publicado. Os resultados mostram uma redução significativa de 20% do risco de morte ou progressão de doença. Este benefício foi ainda maior nas pacientes que tinham PDL-1 (um marcador das células do tumor que pode sugerir sensibilidade aumentada à imunoterapia) maior que 1%; nestas pacientes, a redução de morte ou progressão foi de 38%.

Esses dados são bastante importantes para este grupo de pacientes e reforçam a necessidade de pesquisas. Reiteram também, que a imunoterapia pode ajudar muito no tratamento do câncer.

Em 15 de março, a Dra. Vivian havia anunciado a aprovação nos EUA e, hoje, felizmente, anunciamos aqui no Brasil. Uma notícia boa, melhor ainda pela celeridade em que a ANVISA o fez, permitindo acesso às brasileiras aos tratamentos mais eficazes de forma mais rápida.


Referências:

Schmid P, et al. Atezolizumab and Nab-Paclitaxel in Advanced Triple-Negative Breast Cancer. N Engl J Med 2018;379:2108-21;

http://www.in.gov.br/web/dou/-/resolu%C3%87%C3%83o-re-n%C2%BA-1.222-de-9-de-maio-de-2019-92473593

Maio é um mês realmente da mulher: Dia Mundial do Câncer de Ovário (8 de maio), Dia das Mães (12 de maio) e Dia Internacional de Luta Pela Saúde da Mulher (28 de maio)

Por isso, o Grupo SOnHe escolheu maio para falar da saúde da Mulher no II Simpósio de Tumores Femininos de Campinas, que acontece entre os dias 17 e 18 de maio.

Quem é a mulher que adoece no Brasil?

Não é de costume começar um texto por sua resposta principal ou mais importante. Mas faço aqui uma exceção à regra e inicio pela parte que mais me toca nessa resposta: a mulher que adoece no Brasil é a mesma que sonha, que ama, que gesta, que trabalha, que cuida de tantos e de tudo.

Essa mulher é a que está ao seu lado. A que te ama, a que te cuida ou a que está dentro de você. Ela é cada uma de nós ou cada uma que está ao seu lado apoiando sua vida.

No Brasil, uma em cada oito mulheres nascidas hoje terão câncer de mama durante a vida, se viverem até os 60 anos. Dessas, 82% não tem nenhum antecedente familiar de câncer de mama.

O câncer de mama é ainda o principal tumor nas mulheres e também o responsável pelo maior número de óbitos no Brasil e no mundo. Mas, e no nosso Brasil, quem é a mulher que adoece de câncer de mama? Alguns pesquisadores iniciaram, em 2008, uma pesquisa com o objetivo principal de descrever quem são, como são e como é a doença nas mamas dessas brasileiras.

Numa série de estudos intitulada “AMAZONA I-III”, pesquisadores do Brasil todo nos deram a oportunidade única de conhecer melhor esse cenário. Uma das informações mais importantes foi que no Brasil temos 41% de pacientes com diagnóstico de câncer de mama em idade inferior a 50 anos, o que é uma proporção maior de diagnósticos em pacientes jovens do que em outros países, como Alemanha e Estados Unidos.

Esse número chama atenção para uma reflexão nas estratégias de rastreamento adotadas atualmente no nosso país, em que se recomenda a mamografia de rotina a partir dos 50 anos. A informação mostra que é necessário pensar em estratégias eficazes de rastreamento em idade inferior aos 50 anos na nossa população.

Outro dado que chama muito a atenção e traz preocupação é que o diagnóstico das nossas mulheres é feito em fase mais tardia da doença. Em torno de 71% das pacientes são diagnosticadas nos estádios II (46,8%) e III (24,6%), quando a doença já é localmente avançada, o que certamente impacta direta e negativamente na mortalidade das brasileiras. Esse número é consideravelmente mais alto do que em países desenvolvidos, como os Estados Unidos, com dados que mostram apenas 31% de pacientes com diagnóstico na fase localmente avançada da doença.

Em Campinas, o maior centro de tratamento de saúde feminina, com atendimento 100% público, recebe 500 novos casos de câncer de mama a cada ano, sendo que 40% dessas pacientes têm doença localmente avançada (estádio III) e 60% delas já têm sintomas ao diagnóstico. É um dado muito alarmante, pois é sabido e divulgado que o diagnóstico precoce de câncer de mama, no estádio I, quando ainda não existe nenhum sinal ou sintoma da doença, traz chance de cura superior à 90%.

No Brasil, apenas 18% das pacientes são diagnosticadas no estádio I, o mais precoce. Quando olhamos comparativamente e retrospectivamente, os dados de 2001 são muito semelhantes aos de 2018, sem melhoras nesse cenário.

Não menos importante é a constatação de que a saúde da mulher brasileira vive a mesma desigualdade que banha o Brasil por inteiro. As mulheres que são dependentes do Sistema Único de Saúde (SUS) têm consideravelmente diagnósticos mais tardios, em fase mais avançada da doença do que as que são tratadas na medicina privada, 36,9% versus 16,2%, respectivamente.

Isso mostra que apesar da estratégia de rastreamento para diagnóstico precoce estar disponível no Brasil, não está atingindo a nossa população de mulheres de forma eficaz, seja por que as mulheres não aderem ao exame oferecido, ou por heterogeneidade na distribuição desse recurso.

Outro tipo de câncer importante entre as mulheres e que também marca um tipo de desigualdade no nosso país é o câncer de colo uterino. Em estados da região Norte do Brasil esse é o primeiro câncer em incidência na mulher, ultrapassando o câncer de mama, que é o primeiro em incidência em todas as outras regiões, sendo um triste marco das diferenças socioeconômicas desse nosso país continental.

Esse dado vem carregado de um “pesar” que já nos acompanha há décadas, pois apesar de ser um câncer bastante prevenível, por meio da vacinação contra o vírus HPV e pelo teste de citologia oncótica do colo (exame papanicolau), temos uma altíssima incidência e mortalidade por essa doença no Brasil, em comparação aos países desenvolvidos, onde sua incidência é bastante baixa. Para 2018, a estimativa esperada foi de 16.370 casos novos, com um risco de 17,11 casos a cada 100 mil mulheres.

Outro tumor que também atinge as mulheres é o de ovário, com menor incidência (estima-se 6.150 casos novos no Brasil) mas que também merece atenção.

Voltando a falar da nossa mulher que sonha, que ama, que gesta, que trabalha, e que “cuida”, paro minha reflexão no verbo “cuidar”. O mesmo cuidado que nossas mulheres têm com seus filhos, netos, maridos e trabalho, deve ser destinado a ela, seja por parte da ciência, que tem o dever de melhorar o cenário da doença com novas descobertas (cada vez mais frequentes, é verdade!), seja por parte do governo, com melhor gestão assistencial, ou por ela mesma, voltando seu olhar para o seu próprio cuidado como forma de amor à vida.