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Mostre-me a evidência: Vinho e a recuperação do olfato após COVID-19

A atual pandemia que vivemos nos forçou a aprender sobre diversos temas que não fazem parte da nossa prática diária. O Grupo SOnHE, formado por médicos oncologistas e hematologistas, teve de incorporar na prática onco-hematológica o conhecimento e os cuidados sobre essa “não mais tão nova” doença causada pelo coronavírus. Muitos dos nossos pacientes se encaixam como grupo de risco para a afecção da COVID-19 e, portanto, cabe a nós orientá-los sobre as diversas situações que permeiam este assunto.

Muito se falou sobre as consequências da infecção do coronavírus. A disfunção respiratória é, de todas, a mais temida. Entretanto, a doença pode cursar com sintomas e até sequelas não tão usuais: é o caso da perda de olfato. 10 a 15% dos infectados pelo vírus poderão cursar com perda de olfato (conhecida tecnicamente como anosmia) por algum período. Em alguns casos, essa condição pode se estender e se tornar inclusive uma sequela.

O programa Mostre-me a Evidência de hoje (fugindo um pouco da Oncologia em si) traz a evidência que mostra como a perda de olfato pela COVID-19 pode ser tratada ou amenizada com o simples (e delicioso!) hábito de degustar vinhos.

Isso mesmo; vinho!

Um grupo de pesquisadores alemães, referência em tratamentos de distúrbios do olfato, desenvolveu pesquisas com uma técnica chamada de “smell training” (em português: treinamento do cheiro). Esta modalidade consiste no ato de cheirar substâncias que possuem um cheiro forte e marcante (como vinhos e outros: café, mostarda, perfumes, produtos de limpeza) com os olhos vendados para não poder para identificá-las com a visão. O desempenho dessa prática de maneira periódica e repetitiva mostrou impacto positivo na recuperação da anosmia por diversas causas, entre elas após infecções virais. Por isso, esta modalidade foi recentemente introduzida num guideline britânico de rinologia como uma das práticas para manejo dos distúrbios do olfato relacionados à COVID-19.

O hábito de beber e degustar vinhos é, sem sombra de dúvidas, muito agradável e prazeroso. Quando feito com moderação e respeitando as condições de saúde de cada indivíduo, pode ser estimulado e praticado. Quem já degustou vinhos certamente conhece a importância da olfação para a degustação. Utilizar o “smell training” pode, sim, auxiliar na recuperação pós-COVID.

É isso por hoje! Acompanhe o Grupo SOnHe nas redes sociais. E cuidem-se para que, em breve, esta pandemia seja somente uma lembrança.

Referência: HOPKINS, Claire; ALANIN, Mikkel; PHILPOTT, Carl; HARRIES, Phil; WHITCROFT, Katherine; QUREISHI, Ali; ANARI, Shahram; RAMAKRISHNAN, Yujay; SAMA, Anshul; DAVIES, Elgan. Management of new onset loss of sense of smell during the COVID‐19 pandemic ‐ BRS Consensus Guidelines. Clinical Otolaryngology, [S.L.], p. 1-18, 24 set. 2020. 

Novembro Azul: muito além da prevenção e do diagnóstico precoce

As campanhas mais populares visam estimular o autocuidado, o diagnóstico precoce. O homem tradicional muitas vezes associa, mesmo que inconscientemente, cuidados com saúde à fraqueza, a uma menor masculinidade. Pesquisa recente mostra que cerca de um quarto dos pacientes com câncer de próstata já diagnosticados não faziam exames de rastreamento por associá-los à perda da virilidade.

Mas conhecer melhor as doenças permite que se participe das tomadas de decisão, como sociedade. E, pensando nos homens portadores de câncer de próstata recidivado, e que precisam de tratamento cronicamente, é importante aproveitar o mês de conscientização para alertar sobre uma possível mudança de cobertura de tratamentos pelos planos de saúde.

Está aberta, até 21 de novembro, a consulta pública número 81 da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Essa consulta pública visa apresentar e discutir com a sociedade propostas de atualização do Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde.

Esse Rol é a referência básica para a cobertura obrigatória pelas operadoras privadas de assistência à saúde, para os planos contratados a partir de 1º de janeiro de 1999. Quimioterapia convencional endovenosa e outros antineoplásicos injetáveis já têm cobertura obrigatória, definida por lei, desde que estejam registrados pela ANVISA e não sejam considerados experimentais. No entanto, antineoplásicos orais registrados no Brasil não são automaticamente cobertos, e dependem da inclusão da indicação após análise técnica da ANS. E essa avaliação é feita em ciclos, a cada dois anos.

No ciclo atual, foram analisadas 41 solicitações para indicações de antineoplásicos orais. Um documento técnico foi apresentado no início de 2020 e avaliado pela ANS ao longo do ano. A ANS apresentou um documento com 24 recomendações positivas e 17 recomendações pela não incorporação. No caso de uma não incorporação, os planos de saúde não são obrigados a fornecer o tratamento aos seus usuários e a aquisição daquele medicamento deve se dar por conta própria, com pagamento pelo próprio paciente.

Em câncer de próstata, foram solicitadas a inclusão de dois medicamentos para nos casos em que o PSA continua subindo após tratamento inicial com bloqueio hormonal, mas que não apresentam metástases. Esses medicamentos, Apalutamida e Enzalutamida, de mecanismo de ação semelhante, comprovadamente atrasam o surgimento de metástases, diminuem a necessidade de tratamentos mais agressivos, como quimioterapia, por exemplo, e aumentam significativamente a expectativa de vida dos pacientes.

A recomendação preliminar na nota técnica da ANS é favorável à incorporação e futura cobertura obrigatória pelos planos de saúde. Mas entidades e associações ligadas a algumas operadoras de saúde defendem a não incorporação desses medicamentos ao Rol, devido aos altos custos dos medicamentos. No entanto, especificamente pelos altos custos a incorporação é importante. Pois não havendo cobertura obrigatória, pacientes com câncer de próstata ou têm que comprar os medicamentos por conta própria ou ficam sem tratamento, aguardando o surgimento de metástases para enfim iniciar o tratamento.

Há preocupação de todos com o aumento dos custos dos tratamentos e o consequente aumento das mensalidades. Porém, muitas vezes tratar o câncer em uma fase não metastática pode até ajudar a reduzir os custos futuros, com complicações mais graves da doença.

Assim, a participação de todos é essencial. Não só no caso do câncer de próstata, em que é necessária uma reafirmação da recomendação preliminar positiva, mas também nos 17 casos em que houve recomendação contrária. A consulta pública é aberta no site da ANS (http://www.ans.gov.br/participacao-da-sociedade/consultas-e-participacoes-publicas/consulta-publica-n-81-atualizacao-do-rol-de-procedimentos-e-eventos-em-saude-ciclo-2019-2020/consulta-publica-n-81-contribuicao-para-recomendacoes-relacionadas-as-propostas-de-medicamentos). Especialistas e a população leiga podem e devem participar. Somente assim conseguiremos construir uma sociedade mais madura e lutar para futura inclusão desses medicamentos também no Sistema Único de Saúde (SUS).

É Proibido Fumar! Respire essa ideia no Novembro Branco

Como dito na música eternizada, composta por Roberto e Erasmo Carlos, em 1964, mais do que nunca, no ano de 2020, “é proibido fumar” ou, pelo menos, deveria. O cigarro tem o título de maior causador de mortes evitáveis no mundo e são cerca de 7,5 milhões de mortes por ano. Além disso, o cigarro é o principal responsável pelo aparecimento do câncer de pulmão, neoplasia que, sozinha, mata mais que o câncer de próstata, mama e intestino juntos. São mais de 1,8 milhão de casos por ano ao redor do globo. E novembro é lembrado como o mês de conscientização do câncer de pulmão, o chamado Novembro Branco.

O câncer de pulmão é o segundo mais comum entre homens e o quarto entre as mulheres. No Brasil, mas é o câncer que mais mata. No mundo, desde 1985, é o câncer mais mortal. Ele é responsável por 13% de todos os casos novos de câncer no planeta. E seu aparecimento está diretamente relacionado ao hábito de fumar. Quem fuma tem 60 vezes mais risco de desenvolver câncer de pulmão em comparação com quem não fuma, além de maior risco de outros tumores como cabeça e pescoço, bexiga e trato gastrointestinal.

Cerca de 90% dos diagnósticos de câncer de pulmão são em pessoas tabagistas ou ex-tabagistas, além de um número considerável em pessoas que nunca fumaram mas convivem de perto com quem fuma, os chamados tabagistas passivos.  São mais de 4.800 compostos químicos em um único cigarro, dentre os quais mais de 70 são sabidamente cancerígenos.

Ainda com relação ao câncer de pulmão, 15% de quem fuma deverá desenvolver esse tipo de câncer em algum momento da vida.  Ainda hoje, cerca de 80% dos tumores de pulmão são descobertos em fases avançadas, com metástases, quando o câncer já se espalhou pelo corpo e a chance de cura é muito baixa, com mais 1,6 milhão de mortes ao ano.

Por isso, tornou-se essencial discutirmos cada vez mais e alertar a população para os riscos desse tipo de câncer. O Novembro Branco marca o mês de conscientização sobre o câncer de pulmão. Esse mês, já amplamente conhecido pela cor azul, relacionado ao câncer de próstata, também traz o laço branco como símbolo para lembrar a neoplasia mais mortal de todas.

O câncer de pulmão, geralmente nas fases iniciais, é silencioso e pode não causar sintoma algum. À medida que cresce, pode provocar tosse, expectoração com sangue, falta de ar e cansaço, dores nas costas, perda de apetite e peso e inchaço no pescoço. O maior problema é que a maioria dos diagnósticos são feitos quando a doença já se espalhou pelo corpo e as chances de cura são baixas. Mas, diferente do câncer de próstata, cujo maior fator de risco é a idade e muitas vezes não pode ser evitado e, portanto, o foco está no diagnóstico precoce, o câncer de pulmão é, na quase totalidade, evitável uma vez que é associado ao tabagismo. Dessa forma é importante alertar para a necessidade de interromper o hábito de fumar, o grande responsável por esse mal.

Embora o Brasil, ao lado da Turquia, tenha alcançado excelentes resultados nos últimos anos no combate ao tabagismo, com uma redução expressiva no número de tabagistas – graças a medidas como o aumento de impostos sobre os cigarros, que chegaram a 83% em 2018, a proibição de  propagandas em televisão e revistas, a obrigatoriedade de se estampar as embalagens de cigarro com fotos e frases que mostrassem os efeitos devastadores do vício e, por fim, a proibição do fumo em locais fechados de uso coletivo – ainda temos cerca de 10% da população fumante ativa, o que representa mais de 20 milhões de tabagistas .

Ocupamos a oitava posição no ranking da OMS dos países com maior número absoluto de tabagistas. Além disso, dados mais recentes e extremamente preocupantes, mostraram que durante a pandemia de COVID-19, as pessoas passaram a fumar e beber mais, reflexo do maior tempo de confinamento em casa sob altos níveis de estresse e ansiedade, o que certamente trará impactos importantes na saúde, em um futuro breve. Também foi publicada recentemente uma pesquisa que mostra que pacientes com câncer de pulmão que se infectam com vírus da COVID-19 tem altas chances de morrer: cerca de 30%.

A nicotina contida no cigarro atinge rapidamente o cérebro e em menos de 10 segundos libera vários neurotransmissores relacionados à sensação de bem-estar e prazer, como a dopamina. Por isso, o cigarro é tão viciante e um hábito difícil de abandonar.  Daquelas pessoas que querem deixar o vício, menos de 5% tem sucesso sem ajuda de um profissional. Então, geralmente não basta querer parar o vício, é preciso ajuda de psicólogos, psiquiatras e uma rede de apoio

Estima-se que um terço da população adulta mundial seja tabagista, principalmente em países como China, Rússia e em países europeus. Destes, acredita-se que 60% desejem parar de fumar, mas não conseguem e não têm assistência para isso. Além disso, o hábito começa cedo, geralmente antes dos 20 anos, o que mostra a importância de orientar e alertar os jovens para os danos causados pelo tabaco.

Além do cigarro, existem os charutos, cachimbos, cigarros de palha, narguilés e mais recentemente os cigarros eletrônicos. Algumas pessoas defendem esses últimos, alegando ser menos prejudicial. No entanto, isso não é verdade. O uso de cigarro eletrônico vem crescendo no Brasil (onde a comercialização é proibida) e no mundo.  Em 2018, mais de 3,5 milhões de estudantes do ensino médio, nos EUA, disseram já ter experimentado o cigarro eletrônico. Seus efeitos deletérios ainda não são completamente conhecidos, mas o Centro de Controle de Doenças dos EUA divulgou, em 2019, várias mortes associadas diretamente ao uso do cigarro eletrônico. Sua relação com o câncer de pulmão ainda não está totalmente comprovada, uma vez que os cigarros eletrônicos são de uso recente, porém é altamente provável que possa existir uma conexão

É importante dizer que para os casos avançados de câncer de pulmão, quando já existem metástases, os tratamentos mais novos com as chamadas terapias-alvo (que funcionam inibindo alguns genes que podem estar alterados no DNA das células) e a imunoterapia (que ativa o sistema imunológico contra o tumor) têm alcançado resultados extraordinários, tanto no aumento expressivo no tempo de vida quanto na qualidade de vida desses pacientes. Esses medicamentos estão revolucionando a Oncologia e trazendo novas perspectivas. De toda forma, infelizmente, são remédios caros e na maioria das vezes não disponíveis no SUS, o que limita o seu uso em uma grande parcela da população.

Que no Novembro Branco a sociedade tente “apagar” o cigarro da vida das pessoas e possa respirar ares mais saudáveis.

17 de outubro: Dia Nacional da Vacinação

Há 224 anos, um médico inglês injetava pus de uma vaca com varíola bovina em uma criança de 8 anoshttps://academic.oup.com/annonc/issue/30/Supplement_4?page=3#905486-5529524. Dois meses depois, injetava na mesma criança secreção com varíola humana. O menino sobreviveu. Assim – e com a contribuição de vários cientistas anteriormente – foi “inventada” a técnica para a primeira vacina. E isso mudou o mundo.

O ato de vacinar é importante para a pessoa vacinada – claro – mas devemos nos lembrar também que é uma questão de saúde pública. O freio da contaminação por doenças infecciosas reduz a mortalidade da população em geral, principalmente daqueles considerados como grupos de risco. Inclusive, existem pessoas que não podem ser vacinadas por alguma doença que contraindica, ou que ainda não têm idade (recém-nascidos); essas pessoas talvez sejam as mais beneficiadas pela vacinação em massa de quem pode.

As vacinas protegem contra a ocorrência de diversas doenças infecciosas, desde a poliomielite, que pode deixar pessoas sem movimentos, até a pneumonia, que pode levar pessoas, principalmente idosos, à morte. Não só isso, temos também as vacinas que podem prevenir o câncer, no caso, a do HPV evita tumor de colo do útero. Muitas das patologias foram erradicadas, como a varíola e a poliomielite, enquanto outras – como a gripe, o tétano e a coqueluche – tiveram seu impacto na saúde da população consideravelmente reduzido (>90%).

Criado há 47 anos, o Programa Nacional de Imunização do Brasil é uma das referências mundiais da área, principalmente por sua universalidade, ou seja, a capacidade que tem de atingir a quase totalidade da população do país. Além disso, estimula uma indústria interna de alta tecnologia, com mais de 90% das vacinas sendo produzidas nacionalmente.

E, no dia 17 de outubro, é realizado o Dia Nacional da Vacinação (ou Dia D), uma data de extrema importância, não só pelos benefícios das vacinas, mas também para o combate às notícias falsas, que têm recriado um movimento antivacina, que é altamente letal e coloca em risco a vida de muitas pessoas.

Nos últimos anos, temos visto uma redução da cobertura vacinal, muito em consequência do movimento antivacina, levando ao reaparecimento de casos de sarampo, por exemplo. Porém, agora temos um agravante: a pandemia de coronavírus. A situação atual reduziu a vacinação no país de forma considerável e, por isso, é ainda mais importante o dia 17.

O Dia D está inserido dentro da Campanha Nacional de Vacinação, que visa atualizar o calendário vacinal das crianças de até 15 anos e conscientizar a população, incluindo adultos e idosos, sobre a necessidade de atualização das suas vacinas. Mais de 40 mil postos de saúde participarão do evento.

Atualmente, são 18 as vacinas disponibilizadas para crianças e adolescentes. A da poliomielite já é velha conhecida, com a mudança nos últimos anos de incluir não só a do “zé gotinha”, mas também a injetável. A ausência de casos desde 1990 é uma vitória e deve ser mantida a todo custo. A do sarampo, incluída na tríplice viral, é de grande importância, já que surtos de sarampo têm ocorrido nos últimos anos no país. Mais recentemente, a vacina contra o vírus HPV entrou no calendário brasileiro para meninas e meninos. Entretanto, a abrangência está longe do esperado e isso preocupa, pois o câncer de colo de útero é um dos mais incidentes no nosso país e atinge muitas mulheres jovens, podendo levar à morte.

Num momento em que todos têm comentado (e desejado) a vacina contra a COVID-19, tão ou mais importante é garantir que a vacinação contra doenças que já são comprovadamente prevenidas seja feita de forma ideal. Por isso, vamos participar desse movimento, sempre com responsabilidade de respeitar as regras de higiene, com distanciamento social, lavagem das mãos e uso de máscara, afinal, a pandemia de COVID-19 ainda mata mais de 500 pessoas por dia no nosso país. Não precisamos que outras 500 (ou mais) morram por doenças facilmente evitáveis.

Lavar as mãos hoje e sempre!

Lavar as mãos é um ato básico do nosso cotidiano, que aprendemos desde a infância!  Mas, nem sempre foi assim… a conhecida história do Dr. Ignaz Semmelweis, médico húngaro que, em 1847, percebeu que havia menos mortes das crianças ao nascimento e menor número de complicações infecciosas pós-parto das mães que eram assistidas pelas mãos limpas das parteiras do que daquelas vindas das mãos dos médicos. Percebeu, então, que, de alguma maneira, o ato da lavagem das mãos assegurava a vida da mãe e da criança. Obviamente, apenas nas décadas seguintes, com a evolução das pesquisas sobre micro-organismos, que a prática da higienização de mãos passou a ser difundida pelos profissionais de saúde e a ser adotada cada vez mais pelas instituições. Ao fim do século XIX já era um protocolo de praticamente todas as unidades de saúde.

Em 15 de outubro de 2008 uma iniciativa público-privada criou o Dia Mundial da Lavagem das Mãos (Global Hand Washing Day). Uma campanha educativa pela lavagem das mãos de forma correta, com água e sabão, com o objetivo de diminuir o número de doenças e até de mortes causadas por doenças infecciosas.

A lavagem das mãos é, sem dúvida, a rotina mais simples, mais eficaz, e de maior importância na prevenção e controle da disseminação de infecções, devendo ser praticada por todos!

Ficam algumas dicas: lavar as mãos antes de comer, de beber ou de manusear alimentos; ao chegar em casa, ao utilizar o banheiro, ao coçar nariz e olhos e ao espirrar; ao término de cada tarefa, ao término de sua jornada de trabalho e após brincar com aninais!

Utilize água corrente e sabão.

O ideal é retirar anéis, pulseiras e relógio.

Lave também os antebraços.

Lave por 15 segundos, ao menos.

Mais de um século após a descoberta de Semmelweis sobre a importância da lavagem das mãos, ainda precisamos reforçar este ato.

Portanto, pela sua saúde, pela saúde de nossas crianças e entes queridos, LAVE AS MÃOS, SEMPRE!

E compartilhe este ato.

A importância da Fisioterapia para os pacientes com câncer

Alaís Camargo Corcioli, fisioterapeuta

Crefito 3 / 173506-F

 

Estamos em outubro, mês que fortalece a campanha internacional contra o câncer de mama simbolizada pela fita cor de rosa, lançada na década de 90 pela Fundação Susan G. Komen durante uma corrida de rua em Nova York, a afamada Race for the Cure . Mas, falando em movimento, você sabia que nesse mês também celebramos o Dia Nacional do Fisioterapeuta?

Foi no dia 13 de outubro de 1969, há 51 anos (!), que o Decreto-Lei 938 foi expedido regulamentando a profissão no Brasil. Somos a ciência do movimento e da funcionalidade, que previne e trata os distúrbios cinéticos funcionais, adquiridos, por exemplo, em razão do câncer! Ao todo, temos quinze especialidades reconhecidas pelo Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional, dentre elas, a Fisioterapia Oncológica.

A assistência profissional aos pacientes oncológicos é bastante ampla no que diz respeito a: nível de atenção à saúde (complexidade), objetivos e recursos terapêuticos, variando conforme localização do câncer, estadiamento e possíveis disfunções associadas à doença e ao tratamento (clínicos e/ou cirúrgico). Grosso modo, busca-se a manutenção ou a recuperação da capacidade funcional e da qualidade de vida, seja nos serviços ambulatoriais, domiciliares ou hospitalares (enfermarias clínicas ou cirúrgicas e unidades de terapia intensiva).

Algumas das disfunções passíveis de serem tratadas (com resolução completa ou parcial), por meio da Fisioterapia, são: dor, redução da força muscular e da amplitude de movimento articular, fadiga oncológica, náusea/vômito, linfedema, fibroses (como o cordão axilar), incontinência urinária, paresia facial periférica, redução das trocas gasosas, colapso alveolar, redução da força diafragmática e inabilidade de tosse.

Controlar ou reverter tais sintomas implica em ganho de autonomia, conforto e habilidade física, redução no risco de queda e de infecções e retorno ao trabalho, além de contribuir com a continuidade do tratamento médico. Vale ressaltar que a relevância da Fisioterapia vai além da reabilitação, destacando-se o trabalho preventivo na pré-habilitação, por exemplo, cria-se uma reserva funcional, especialmente naqueles pacientes com risco aumentado de complicações no pós-operatório (sarcopenia, pneumonia, atelectasia, trombose venosa profunda, embolia pulmonar, insuficiência respiratória, etc.), reduzindo a incidência ou a gravidade de sequelas, tempo de internação e readmissões hospitalares.

Ao nosso alcance estão, entre outros recursos, os exercícios terapêuticos (assistidos, resistidos e aeróbicos), a terapia manual, a eletroestimulação, o treinamento muscular respiratório, a oxigenoterapia, o suporte ventilatório não invasivo, a drenagem linfática, o enfaixamento compressivo e a mobilização e educação em saúde. As condutas são escolhidas após avaliação e elaboração do projeto terapêutico, que é individualizado, e as sessões de acordo com a condição clínica do paciente, respeitando seus limites, porém incentivando novas conquistas.

Integrando à equipe multidisciplinar, somos mãos e ciência, que acolhem e cuidam, para oferecer um suporte humanizado e de excelência.

Obesidade e Câncer

É relativamente fácil notar que a sociedade caminha e se organiza para a inércia de seus indivíduos. A tecnologia (com o smartphone e demais dispositivos), a televisão, o fast food, os meios de transportes e diversos outros produtos e serviços a nossa volta se dispõem em prol da praticidade e da comodidade, nos colocando cada vez menos em movimento. Sendo assim, o sobrepeso e a obesidade tornaram-se condições de saúde muito frequentes e que, até outrora, havia quem os via como um problema exclusivamente estético. O que se tem, na verdade, é uma gama de doenças crônicas relacionadas ao excesso de peso e ao sedentarismo que, de maneira preocupante, ocupa as posições mais altas de hospitalização, com altíssimas taxas de morbimortalidade. Estamos falando não somente da hipertensão, diabetes e das doenças cardiovasculares; o câncer, de uma maneira geral, está diretamente relacionado a fatores ambientais e estilo de vida, tal como o sobrepeso e obesidade.

De acordo com números da American Cancer Society, o excesso de peso corporal é considerado responsável por cerca de 15% dos cânceres em mulheres e cerca de 10% dos cânceres em homens nos Estados Unidos. No que tange aos óbitos envolvendo câncer, estima-se que 7% deles estejam relacionadas às condições de obesidade e/ou sobrepeso. É sabido, ainda, que o risco de falecimento por câncer é maior em pacientes obesos.  Diversos estudos mostraram correlação entre o excesso de peso de câncer. Embora a intensidade desta associação com os diversos tipos de câncer varie entre eles, existem metanálises que encontraram fortes evidências que sustentam a associação entre obesidade e o câncer do útero (endométrio), do rim, do estomago, do ovário e do pâncreas.  O câncer colorretal (o terceiro mais comum em homens e mulheres) é também relacionado a obesidade (em especial nos homens) e tem como um dos fatores de risco o consumo excessivo de carne vermelha e de embutidos, o que comumente auxilia no ganho de peso corporal.  No câncer da mama (que detém a hegemonia nos números de cânceres femininos) a obesidade parece incrementar a incidência especialmente nas mulheres no período pós-menopausa. Dados sugerem que o sobrepeso não aumenta o risco de câncer de mama antes da menopausa, mas as razões para isso ainda não são claras. O que já se sabe é que, após o tratamento do câncer da mama, manter-se ativa e reduzir o peso corporal para níveis adequados para cada individuo é um fator “protetor” e reduz a chance de recidiva do tumor.     O excesso de peso pode aumentar o risco de câncer de diversas maneiras. Biologicamente falando, a obesidade é uma condição que cursa com maiores índices de inflamação no corpo, podendo ainda estimular o crescimento das células e vasos sanguíneos. Certos hormônios, como insulina e estrogênio, estão em níveis elevados no paciente com excesso de peso e tendem a estimular o crescimento das células. Ainda neste contexto, outros mecanismos que regulam o crescimento celular podem se alterar em indivíduos obesos e culminar no crescimento anômalo e desorganizado da célula, o que gera o ambiente ideal para o surgimento de tumores diversos. Sempre é tempo de iniciar uma mudança de hábitos e de estilo de vida em prol da saúde. Embora ainda tenhamos muito a aprender sobre como o ganho (e também a perda) de peso se relacionam com o risco de câncer, as pessoas com sobrepeso ou obesas devem ser encorajadas a se exercitar e mudar hábitos para o controle do peso corpóreo. Além de, possivelmente reduzir o risco de câncer, combater a obesidade e o sobrepeso certamente traz muitos outros benefícios à saúde.

Mostre-me a evidência: Pets e pacientes com câncer

É bem conhecido o fato de que o tratamento do câncer implica em muitas mudanças na vida dos pacientes. Alguns hábitos são deixados de lado; novas rotinas são criadas; novos “normais” surgem. Os pacientes são convidados a se adaptar repentinamente a uma realidade com restrições diversas em prol da segurança em um período de baixa da imunidade durante a quimioterapia. Assim, não incomumente, o simples ato de brincar com seu cachorro ou gato de estimação pode se transformar em uma situação de risco para contrair infecções.

Além de apaixonados pelos nossos pets de estimação, nós, do Grupo SOnHe, respeitamos a importância que os animais domésticos têm no cultivo da saúde emocional de nossos pacientes. Buscamos sempre nos pautar pelo conhecimento técnico-científico para mediar com segurança essa relação de afeto e carinho. Hoje, o programa Mostre-me a Evidência traz um pouco da evidência que norteia esta condição.

Afinal, é perigoso se manter próximo do seu pet durante o tratamento do câncer?

A resposta para este questionamento não é uma constante; porém, na maioria das vezes, ela é não!

A literatura não é muito clara sobre este assunto e os poucos estudos existentes não conseguiram de fato comprovar um aumento de infecções em pacientes com câncer que mantiveram contato com seus animais domésticos. Há, entretanto, um alerta quanto aos hábitos corriqueiros relacionados ao cuidado e à rotina com o animal que são considerados de risco para aquisição de infecções, tais como mordeduras, arranhaduras, contato com fezes/urinas, entre outras.

Um estudo australiano monitorou a rotina de um grupo de pacientes considerados imunocomprometidos (em especial com neoplasias hematológicas – linfoma e leucemia) com seus respectivos pets. Dos 137 pacientes, 53% dos pacientes realizavam diariamente a limpeza das escorias do animal (fezes e urina), 37% relatavam que deixavam o animal dormir na sua cama, e 28% tinham o hábito de deixar o animal lamber a região facial e áreas próximas da boca. Quando questionados, apenas 16% (21 pacientes) relataram ter recebido alguma orientação profissional sobre esses hábitos durante o tratamento oncológico.

É seguro e saudável conviver com animais de estimação durante o tratamento do câncer. É necessário, entretanto, perguntar para o seu médico oncologista sobre as rotinas com o seu pet, mesmo que isso pareça uma dúvida simples ou “boba”. Dessa forma, com boas orientações, é possível tornar esta relação mais segura e garantir a continuidade do tratamento necessário.

É isso por hoje!

Para finalizar de maneira alegre, tal como os pets nos fazem sentir, acompanhe o grupo SOnHe nas midas sociais, poste uma foto com seu animal de estimação e nos marque. Será um prazer conhecê-los e tê-los conosco em prol deste tema.

Segue abaixo a literatura: 

Gurry, Greta A, et al. High rates of potentially infectious exposures between immunocompromised patients and their companion animals: an unmet need for education. Internal Medicine Journal, [S.L.], v. 47, n. 3, p. 333-335, mar. 2017

Cancer.Net. Food safety during and after cancer treatment. 2018. Accessed at https://www.cancer.net/survivorship/healthy-living/food-safety-during-and-after-cancer-treatment on August 30, 2019

Freifeld AG, Kaul DR. Infection in the patient with cancer. In Niederhuber JE, Armitage JO, Kastan MB, Doroshow JH, Tepper JE, eds. Abeloff’s Clinical Oncology. 6th ed. Philadelphia, PA: Elsevier; 2020: 544-562.

NIH U.S. National Library of Medicine. MedlinePlus. Pets and the immunocompromised person. 2019.

A pandemia afeta os tratamentos de pacientes com câncer

Já entrando no sexto mês de pandemia de coronavírus, a situação não parece perto do fim. E ao longo desse tempo, lamentamos sempre as vítimas da doença, mas não devemos nos esquecer daquelas pessoas afetadas de forma indireta: pacientes com câncer.

Sabemos que a saturação dos serviços de saúde em função da COVID-19 impactou diretamente o cuidado a pessoas com outras patologias, como infarto, AVC, problemas ortopédicos, entre muitos outros. Ademais, lembramos que esse cuidado deficiente leva a descompensação dessas doenças e, algumas vezes, até à morte.

E uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) mostrou que os pacientes com câncer foram também prejudicados de uma forma expressiva. Segundo a pesquisa com 120 oncologistas de todas as regiões do país, 74% dos pacientes com câncer interromperam ou adiaram seus tratamentos por mais de um mês durante a pandemia. Os procedimentos mais afetados foram as cirurgias (70%), seguidas dos exames de avaliação de resposta (22%). E um número ainda mais preocupante: menos de 1% dos oncologistas consideram que seus pacientes não tiveram nenhum problema. Esse cenário não se limita ao Brasil, é mundial.

Além disso, existem dados ao redor do mundo mostrando que a redução da oferta de exames de imagem reduziu de forma considerável os diagnósticos de câncer neste período. Mas isso não é bom? Não, pois o câncer não espera e esses pacientes serão, sim, diagnosticados, porém de forma tardia e, consequentemente, em um estágio mais avançado. Tal situação preocupa a todos, pacientes e equipe, pois pode aumentar a mortalidade, reduzir as possibilidades de tratamento e influenciar muitas vidas.

Em resumo, devemos ficar vigilantes, sim, para combater o novo coronavírus; entretanto, não podemos trabalhar com retirada de suporte àqueles que também precisam e que tem doenças tão (ou muitas vezes mais) graves quanto a COVID-19. O câncer é melhor tratado quanto mais cedo identificado e atrasos no diagnóstico e no tratamento impactam na vida de muitos. Por isso, a orientação é de que os pacientes não deixem de manter seu tratamento/acompanhamento nesta pandemia, claro, tomando os cuidados necessários para não se contaminarem. Não podemos tratar um problema e esquecer dos outros.

 

Referências:

https://www.sboc.org.br/noticias/item/2027-folha-de-s-paulo-destaca-pesquisa-da-sboc-sobre-covid-19-e-cancer

https://www.thelancet.com/journals/lanonc/article/PIIS1470-2045(20)30388-0/fulltext

Terapia por feixe de prótons: a evolução tecnológica da radioterapia

Dr. Rodrigo Marotta
Radio-oncologista
Radium Instituto e Oncologia

 

A radioterapia é uma modalidade de tratamento essencial no combate ao câncer. Ao longo das décadas, houve uma grande evolução na forma de entregar a radiação aos tumores. Atualmente, a radiação por feixe de fótons é a forma mais utilizada. Apesar da radioterapia tridimensional conformada ser a técnica padrão, novas tecnologias para reduzir a exposição de órgãos normais à radiação têm sido implementadas. Dentre elas, a radioterapia por intensidade modulada (IMRT), disponível em diversas instituições no Brasil, reduz a dose nos tecidos normais e, consequentemente, pode reduzir a morbidade cardiopulmonar relacionada ao tratamento.

Outra forma de entregar radiação aos tecidos é a terapia por feixe de prótons, uma partícula pesada descoberta em 1919 por Rutherford. Os primeiros experimentos na área médica datam de 1946 e, desde então, o domínio desta radiação e seu uso na prática clínica nos pacientes oncológicos tem evoluído constantemente. Do ponto de vista físico, os feixes de prótons se caracterizam por menor energia de entrada, com menor dispersão por se tratar de partículas pesadas, e maior pico de energia de saída no final dos feixes, com uma maximização da energia nos milímetros finais. Este efeito é chamado de Bragg Peak. Na prática, este tipo de radiação entrega a dose alta no volume alvo com maior precisão e reduz drasticamente a dose espalhada nos órgãos adjacentes, o que, em teoria, reduz os efeitos colaterais relacionados ao tratamento.

Então, se este tratamento é dosimetricamente superior aos feixes de fótons, por que não utilizamos na prática clínica? A resposta é simples: custo-efetividade. O acelerador de partículas de prótons é diferente dos aceleradores lineares que geram fótons. Tais aparelhos têm um custo de instalação exorbitante (dez vezes maior que o acelerador linear de fótons), custos operacionais e de manutenção fora da nossa realidade, além de necessitar de pessoal altamente especializado e capacitado.

Isto justifica o número reduzido de centros que fornecem este tratamento ao redor do mundo. Atualmente são quase 100, sendo que a maior parte deles foram inaugurados na última década e um terço encontra-se nos EUA. Outros 41 estão em construção, com previsão de inauguração nos próximos três anos. Destes, somente um está localizado da América do Sul, na Argentina.

Soma-se ao custo elevado a escassez de evidência científica que comprove a sua equivalência, superioridade ou menor toxicidade quando comparado aos fótons, além da dificuldade de condução de ensaios clínicos randomizados e recrutamento de pacientes muito abaixo do esperado. Além disso, o aumento do uso dos prótons em tumores prevalentes, como mama, pulmão e próstata, aumentou drasticamente os custos das operadoras de saúde, porém, devido à falta de comprovação científica, muitos têm questionado e exigido justificativa plausível para investir neste tratamento. Há inclusive alguns artigos que comentam sobre o risco de causar uma “bolha de prótons” com uma possível diminuição da sua indicação.

No entanto, existem nichos com benefício já comprovados com o uso de prótons. O maior benefício tem sido observado em tumores pediátricos, principalmente na radiação do neuro-eixo, na qual há diferença em toxicidade aguda e tardia, bem como um menor risco de neoplasia secundárias. Nos adultos, tumores do sistema nervoso central, da base de crânio (cordomas e sarcoma), para-espinhais e melanoma uveal também têm benefício comprovado. Evidências mais recentes demonstram menor toxicidade em tumores do esôfago, conforme publicação recente de um estudo fase IIB comparando próton versus IMRT.

Por esta e outras razões, o Brasil – onde habitam mais de 200 milhões de habitantes – merece, sim, um centro de protonterapia. Mas não com apelo comercial e, sim, com objetivo de tratar aqueles pacientes que possuem o benefício comprovado. Porém, pelo seu alto custo de implementação, esta tarefa não é fácil. Em 2017, foi registrado e liberado pela ANVISA o primeiro sistema de protonterapia no Brasil. Talvez, a melhor maneira de investimento e gestão é uma parceria entre diversas entidades, sejam elas filantrópicas/privadas e até mesmo público-privada. Desta forma, a seleção dos pacientes ideais fica facilitada, assim como a diluição de todos os custos inerentes a este tratamento.

Ref.: https://ascopubs.org/doi/abs/10.1200/JCO.19.02503