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Câncer de esôfago: como ficarão as estatísticas após COVID?

Consumo de álcool, obesidade e cigarro estão diretamente relacionados ao câncer de esôfago

No Brasil, o câncer de esôfago (tubo que liga a garganta ao estômago) é o sexto mais frequente entre os homens e o 15º entre as mulheres, excetuando-se o câncer de pele não melanoma. É o oitavo mais frequente no mundo e a incidência em homens é cerca de duas vezes maior do que em mulheres.

O tipo de câncer de esôfago mais frequente é o carcinoma epidermoide escamoso, responsável por 96% dos casos. Outro tipo, o adenocarcinoma, vem aumentando significativamente. É um tipo de tumor com alta mortalidade: 8.716, sendo 6.802 homens e 1.914 mulheres (2019 – Atlas de Mortalidade por Câncer – SIM).

 

Os principais fatores de riscos relacionados ao câncer de esôfago, são:

  • O consumo de bebidas: não só o consumo regular, como também o consumo excessivo e esporádico de qualquer tipo de bebida alcóolica.
  • O excesso de gordura corporal. A obesidade também facilita o desenvolvimento da doença do refluxo gastroesofagiano (DRGE), importante fator de risco para o desenvolvimento da doença.
  • O tabagismo isoladamente é responsável por 25% dos casos de câncer de esôfago. O risco aumenta rapidamente com a quantidade de cigarros consumida. Mesmo as pessoas que já fumaram, mas interromperam, possuem risco aumentado de desenvolver este câncer quando comparadas aos que nunca fumaram.

 

Efeitos da pandemia

Uma pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais, e a Universidade Estadual de Campinas teve a finalidade de verificar como a pandemia afetou ou mudou a vida da população.

Análises das mudanças nos estilos de vida relacionados aos hábitos de fumar, consumo de bebidas alcoólicas, prática de atividades físicas e de alimentação, foram realizadas, com resultados alarmantes:

Cigarro:

  • Total da população avaliada que fumava: 12%
  • Entre os fumantes:
    • 23% aumentou em 10 cigarros o consumo diário e 5% aumentou em 5 cigarros diários.

Álcool:

  • Do total da população avaliada, 18% relatou aumento no consumo de álcool, sendo em adultos entre 30-39 anos o aumento foi de 25%.

Atividade Física:

  • Essa é uma situação extremamente alarmante, pois 62% da população relatou não estar fazendo atividade física. Entre as que faziam 3-4 vezes por semana, na pandemia 46% delas parou. E entre as que faziam 5 vezes por semana, 33% parou.
  • Antes da pandemia 35,5% faziam 150 minutos de atividades por semana, e na pandemia esse percentual caiu para 16%.

O diagnóstico de novos casos de câncer caiu até 50% no país em 2020. E passamos novamente por um terror hospitalar relacionado à COVID-19 em todo Brasil, agora em 2021.

Segundo levantamento do Radar do Câncer, do Instituto Oncoguia, as biópsias tiveram uma redução de 39,11% (de 737.804 para 449.275), entre março e dezembro do ano passado, em comparação ao mesmo período de 2019. As maiores quedas ocorreram nos meses de abril (-63,3%) e maio (-62,6%). Em outros exames de diagnóstico, como o papanicolau e a mamografia, as reduções foram de 50% e 49,81%, respectivamente. O radar reúne informações compiladas do DataSUS.

Um outro estudo da Sociedade Brasileira de Urologia em cinco grandes instituições de São Paulo, mostra uma redução média de 26% no número de novos casos de tumores de rim, próstata e bexiga, em 2020, em comparação aos diagnósticos feitos em 2019.

No HC da Unicamp, por exemplo, houve queda de 52% nos casos de câncer de bexiga, 61,04% nos de próstata e 63% nos de rim.

 

Câncer de esôfago: como ficarão as estatísticas após COVID?

O diagnóstico do câncer de esôfago é feito por meio da endoscopia digestiva, um exame que investiga o interior do tubo digestivo e permite a realização de biópsias para confirmação do diagnóstico. Quando o tumor é detectado precocemente, as chances de cura aumentam muito.

Ao analisarmos os dados do DataSUS, para o exame que pode detectar câncer de esôfago, observou-se uma diminuição de cerca de 40% em 2020 x 2019.

Diagnóstico por endoscopia realizados de acordo com o DataSUS:

2019 2.133.245

2020

1.315.531

 

Precisamos alertar a população, aproveitarmos o mês de abril: prevenção do câncer de esôfago e chamar atenção aos sintomas de alerta:

  • dificuldade ou dor ao engolir;
  • dor retroesternal (atrás do osso do meio do peito);
  • dor torácica;
  • refluxo;
  • sensação de obstrução à passagem do alimento;
  • náuseas, vômitos e perda do apetite.

Sabemos do caos hospitalar, mas o câncer e outras doenças não esperam!

Abril: mês de conscientização sobre câncer de testículo

Abril é o mês de conscientização sobre câncer de testículo. É sabido que se trata de um tipo de câncer raro, que responde por aproximadamente 2 a 3% de todos os canceres em homens. Entretanto, é um tumor que frequentemente acomete pacientes jovens (entre 20-40 anos), que pode ser agressivo e que, por isso, deve ser diagnosticado o mais precocemente possível.

Na maioria das vezes, o câncer de testículo se manifesta por um caroço no órgão (que pode ou não doer) e que altera as suas características (tamanho, consistência e cor). O exame clínico do testículo pode facilmente detectar tais alterações e deflagrar o processo de investigação e diagnóstico. Entretanto, a palpação do órgão genital masculino é vista por muitos homens como um motivo de vergonha; por isso, existe uma tendência em hesitar a procura do médico logo no início dos sintomas, o que pode atrasar a detecção precoce de um possível câncer. Não incomumente, a parceira do paciente é a responsável por notar as alterações descritas anteriormente e incentivar que ele procure um médico.

O principal fator de risco para o desenvolvimento de câncer de testículo é a criptorquidia, popularmente conhecida como o “testículo que não desceu” ou “mal posicionado”. A criptorquidia é quando se tem a ausência ou a não localização do testículo na bolsa escrotal. Esta condição pode aumentar de 3 a 5% a chance de desenvolver o câncer do testículo e geralmente é reconhecida desde o nascimento, podendo ser acompanhada por um médico urologista.

O câncer de testículo já foi pauta da mídia quando atletas internacionalmente conhecidos do mundo do basquete, futebol e ciclismo tiveram o diagnóstico. A fama foi temporária e ele ainda é lembrado por ser um câncer raro, o que pode gerar a falsa impressão de que ele não existe. É importante ressaltar que o câncer de testículo, quando diagnosticado em estágios iniciais, é potencialmente curável com a cirurgia de retirada do órgão acometido. A quimioterapia pode ser necessária para complementar o tratamento e aumentar o percentual de cura, reduzindo as chances de recidiva da doença. Até mesmo quando o câncer se apresenta com metástases em outros órgãos, o tratamento com quimioterapia tem grande eficácia e pode controlar a doença por um longo período.

Em resumo: é de extrema importância conscientizar a população masculina sobre a existência e as características do câncer de testículo. O diagnóstico precoce possibilita a cura na maioria dos casos e, por isso, os homens devem ser incentivados a procurar um médico ao primeiro sinal que gere a suspeita deste câncer.

11 de março: Dia Mundial do Rim

Ponto importante a ser destacado é que a incidência do câncer de rim aumentou três vezes mais do que a mortalidade, pois o diagnóstico tem sido cada vez mais precoce

No dia 11 de março de 2021, será celebrado o Dia Mundial do Rim, com uma campanha que visa à conscientização sobre a doença renal crônica (DRC), com orientações de como lidar com os principais sintomas e ter uma melhor qualidade de vida, promovendo a inclusão mais afirmativa desses indivíduos na sociedade. O tema deste ano é “Vivendo bem com a doença renal” e o evento é promovido mundialmente pela Sociedade Internacional de Nefrologia e, no Brasil, pela Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN).

A agenda de eventos relacionados ao Dia Mundial do Rim abrange mais de 700 atividades, incluindo a iluminação do Cristo Redentor (Rio de Janeiro-RJ) e do Elevador Lacerda (Salvador-BA) e uma audiência pública no Senado Federal, sempre respeitando os protocolos para prevenção da transmissão da COVID-19. A divulgação se dará através de rádios, influenciadores digitais e programas de televisão. Como novidade, haverá a disponibilização de episódios de podcasts e videoaulas da Semana da Nefrologia pelas das redes sociais da SBN.

A DRC é a falha do funcionamento dos rins por três meses ou mais, sendo muitas vezes irreversível, mas, geralmente, controlável. O rim é um órgão multifuncional, sendo o responsável por controlar a pressão arterial, filtrar impurezas do sangue, regular o equilíbrio de sal e água do corpo, promover a proliferação de células do sangue, evitando a anemia, dentre outras funções. Hoje, 10% da população tem alguma disfunção renal e os números seguem aumentando.

Um grande problema é que a DRC é uma doença silenciosa e, portanto, o diagnóstico geralmente é tardio, em estágio avançado, o que leva à necessidade de diálise e/ou transplante renal. Com isso em vista, o diagnóstico precoce é crucial para que a doença seja controlada em seu início e não evolua para consequências tão graves. Os maiores fatores de risco são a hipertensão arterial, a diabetes, a obesidade, o tabagismo e história familiar de doença renal ou cardiovascular.

A prevenção da DRC inclui não só o controle das comorbidades citadas acima, mas também evitar tomar medicações sem prescrição médica, beber água ao longo do dia e fazer acompanhamento médico regular. Em algumas situações, pode ser indicada a coleta de exames de creatinina e/ ou de urina, que podem detectar alterações renais de forma incipiente.

Nesse contexto, apesar de não ser o foco da campanha, vamos falar também sobre o câncer de rim, que acomete 403.000 e mata 175.000 pessoas por ano no mundo. Infelizmente, o Brasil não tem dados oficiais, nem divulga a estimativa de câncer renal no país. A maioria são homens por volta dos 64 anos. Dos pacientes diagnosticados, 16% apresentam-se com metástases desde o início e 25% morrem em 5 anos – um número alto, mas que apresentou redução de quase 70% nas últimas 5 décadas.

Um ponto importante a ser destacado é que a incidência aumentou três vezes mais do que a mortalidade, pois o diagnóstico tem sido cada vez mais precoce, em consequência do uso mais corriqueiro de exames de imagem como tomografia ou ressonância. Entretanto, apesar destes exames muitas vezes detectarem o tumor renal, não há indicação de rastreamento populacional para câncer de rim, ou seja, pacientes sem sintomas suspeitos não devem fazer exames de imagem para detectar a neoplasia mais cedo, como acontece, por exemplo, com o a mamografia no câncer de mama.

E o que aumenta a chance de alguém ter câncer de rim? A esmagadora maioria das neoplasias renais ocorrem ao acaso, ou seja, sem um fator causal definido. Os fatores de risco não são tão relevantes como em outros tumores, mas o que se sabe é que o tabagismo aumenta o risco em 30% de desenvolver a doença e, ademais, leva a diagnósticos em estágios mais avançado. O uso de anti-inflamatórios também é outro fator importante, porém muitas vezes relevado pela população. Alguns estudos sugerem um aumento de até 51% no risco de câncer de rim em consequência do uso rotineiro e crônico dessa classe de medicação. Obesidade, doença policística renal, hipertensão e exposição a asbesto e gasolina são outros contribuintes que devem ser evitados.  Sendo assim, a prevenção do câncer renal é baseada em evitar os fatores de risco já conhecidos para outros tumores e para a própria DRC.

Bom saber, mas e quais são os principais sintomas do câncer renal? Em geral, a doença é assintomática até se tornar avançada, o que, como já dito, dificulta o diagnóstico precoce. O quadro clínico geralmente inclui um ou mais dos seguintes: hematúria (sangue na urina), dor/massa abdominal e perda de peso. Entretanto, apenas 9% dos pacientes têm os 3 sintomas conjuntamente. Além disso, o indivíduo pode apresentar sinais como anemia e hipercalcemia, o que denota um quadro mais avançado.

Depois de receber o diagnóstico, há tratamento? Sim, sem dúvida! O câncer de rim, quando descoberto precocemente e limitado ao órgão, tem altas taxas de cura com a cirurgia, que é o tratamento indicado – quando factível – em virtualmente todos os casos. Já quando a doença é avançada, seja por não ser ressecável ou por ter metástases, o tratamento torna-se sistêmico, com uso de medicações diversas, principalmente terapias-alvo e imunoterapia. Notadamente, o tratamento desse tipo de neoplasia não costuma incluir quimioterapia convencional, visto que esta é pouco efetiva para o controle tumoral.

Vimos então que o Dia Mundial do Rim promove a conscientização sobre as doenças renais, melhorando assim a qualidade de vida das pessoas. Não só isso, enseja o alerta também para o câncer de rim e suas peculiaridades. O que devemos tirar disso tudo é que o controle de comorbidades (como obesidade e tabagismo), o uso correto de medicações e o acompanhamento médico regular são atitudes que podem ajudar a prevenir problemas renais e ajudar a vivermos mais e melhor!

 

Referências:

https://www.sbn.org.br/dia-mundial-do-rim/dia-mundial-do-rim-2021/sobre/

https://www.pro-renal.org.br/2021/02/01/dia-mundial-do-rim-2/

https://www.inca.gov.br/estimativa

uptodate.com

Dia Internacional da Mulher na pandemia da COVID-19: liderança para um mundo mais igualitário

A ideia de criar o Dia da Mulher surgiu no final do Século XIX, nos Estados Unidos e na Europa, no contexto das lutas femininas por melhores condições de vida e de trabalho, além do direito de voto. Assim, a ONU designou o ano de 1975 como o Ano Internacional da Mulher. Em dezembro de 1977, o Dia Internacional da Mulher foi adotado pelas Nações Unidas para lembrar as conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres. Neste ano de 2021, o tema para o Dia Internacional da Mulher é: “Mulheres na liderança: alcançando um futuro igual em um mundo COVID-19”. O tema celebra os enormes esforços de mulheres e meninas em todo o mundo para moldar um futuro mais igualitário e a recuperação da pandemia da COVID-19.

As mulheres estão na vanguarda da batalha contra a COVID-19 como trabalhadoras da linha de frente e do setor de saúde, como cientistas, como profissionais de saúde e cuidadoras e agentes comunitárias. Porém, recebem – de maneira geral – 11% a menos do que seus colegas homens. Uma análise das equipes de combate a COVID-19 de 87 países revelou que apenas 3,5% delas tinham paridade de gênero 1

Além de estarem na linha de frente da crise da COVID-19, as mulheres representam alguns dos líderes nacionais mais exemplares e eficazes no combate à pandemia. Da Nova Zelândia à Alemanha, Taiwan ou Noruega, alguns países liderados por mulheres tem as menores taxas de óbitos pela COVID-19. De maneira geral, as mulheres representam 70% dos profissionais de saúde em todo o mundo. Em 2018, na política eram apenas 10 dos 153 chefes de Estado eleitos, de acordo com a União Interparlamentar.

Embora também haja diversos fatores sociais e econômicos implicados no bom desempenho destes países no enfrentamento à pandemia, também as trajetórias sociais destas líderes as diferencia. Condutas como resposta precoce, diversidade na tomada de decisões, comunicações transparentes e diretas são alguns exemplos.

A crise destacou tanto a centralidade e objetividade de suas contribuições quanto os fardos desproporcionais que as mulheres carregam. A pandemia está levando mais sobrecarga de trabalho para as mulheres no mundo todo. Mulheres são mais impactadas que os homens pela sobrecarga de trabalho. Dados do Brasil (IBGE/2019) indicam que a dupla jornada incide sobre a mulher, que semanalmente, na média, se dedica 18,5 horas ao cuidado da casa, crianças e idosos. Já a média dos homens é somente 10,3 horas semanais. Neste momento de pandemia com muitas famílias com vários membros em home office e muitas crianças sem frequentar regularmente a escola, percebe-se um acúmulo de tarefas e enorme sobrecarga de muitas mulheres.

Por que a sobrecarga de trabalho é maior para as mulheres? A desigualdade de gênero fica mais intensa neste momento de pandemia, já que estão diretamente na linha de frente da resposta e assumem custos físicos e emocionais. Devido à saturação dos sistemas de saúde e ao fechamento das escolas, as mulheres assumem o cuidado e a responsabilidade de familiares doentes, pessoas idosas e crianças3.

Assim, vamos celebrar este 8 de março de 2021, Dia Internacional da Mulher, no segundo ano de uma pandemia sem precedentes, refletindo sobre como melhorar a dinâmica de gênero, começando no local mais próximo possível, qual seja, na divisão mais igualitária das tarefas em casa. Simples assim!

 

Referências:

1 https://www.unwomen.org/en/news/in-focus/international-womens-day

2 https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52376867

3 https://www.onumulheres.org.br/wp-content/uploads/2020/03/ONU-MULHERES-COVID19_LAC.pdf

Prevenção do câncer de colo uterino

No panorama global atual das neoplasias malignas, o câncer de colo uterino é o quarto tipo de câncer mais comumente diagnosticado entre as mulheres, e a terceira causa de morte por câncer entre as mulheres. Anualmente, cerca de 311.000 mulheres morrem por câncer de colo uterino, sendo que aproximadamente 90% dessas mortes ocorrem em países de média a baixa renda. No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer estima para o triênio de 2020 a 2022 uma média 16.000 novos casos de câncer de colo uterino por ano, representando o terceiro câncer mais comum entre as mulheres brasileiras.

Apesar desse cenário, o câncer de colo uterino é uma doença evitável. Além disso, é potencialmente curável, quando diagnosticado precocemente e tratado de forma adequada. No ano de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou uma campanha mundial para o aceleramento da eliminação do câncer de colo uterino, com o compromisso de 194 países para a adoção de medidas que visam atingir esse objetivo. Tais medidas devem ser atingidas até o ano de 2030, com o objetivo de atingir uma incidência de no máximo 4 casos por 100.000 mulheres, fazendo com que o câncer de colo uterino deixe de ser um problema de saúde pública. Em estudo publicado recentemente, com base em uma análise de 78 países de baixa e média renda, estimou-se que, caso as metas da OMS sejam alcançadas, até o ano de 2120 serão evitadas quase 61 milhões de mortes por câncer de colo uterino. Ao longo dos próximos 10 anos, quase metade das mortes evitadas ocorreria na África sub-Sahariana.

 

Papilomavírus Humano (HPV)

O câncer de colo uterino é causado por uma infecção viral sexualmente transmissível. O vírus responsável é chamado papilomavírus humano (HPV), um vírus de DNA que apresenta mais de 200 sorotipos. Dentre eles, 14 tipos são causadores de câncer, sendo denominados de “alto risco”. Os tipos mais comumente associados ao câncer de colo uterino são o 16 e o 18, responsáveis por cerca de 70% dos casos desse tipo de câncer. A grande maioria das pessoas será infectada pelo HPV em algum momento da vida, sendo o maior pico de infecção logo após o início da vida sexual ativa. Além disso, sabe-se que algumas pessoas sofrerão infecções repetidas.

Frequentemente, a infecção pelo HPV sofre resolução espontânea, em um período que pode chegar a dois anos. No entanto, em alguns casos, a infecção pode persistir e levar ao desenvolvimento de lesões precursoras e, eventualmente, o câncer de colo uterino. O tempo médio entre a infecção e o desenvolvimento do câncer de colo uterino é de 15-20 anos. Existem alguns fatores de risco que estão associados a aumento do risco de persistência da infecção pelo HPV e, consequentemente, do desenvolvimento do câncer. São eles: deficiências do sistema imune, tabagismo (ativo e passivo), e concomitância de outras infecções sexualmente transmissíveis (como gonorreia e clamídia).

 

Estratégias de prevenção

A prevenção do câncer de colo uterino envolve a tomada de ações com o objetivo de reduzir o risco de desenvolvimento da doença. Com isso, é possível reduzir o número de novos casos da doença e, em última instância, reduzir também o número de mortes causadas pelo câncer em questão. O conhecimento da história natural da doença (Figura 1), incluindo sua causa infecciosa, os fatores de risco (deficiência imunológica, tabagismo, entre outros), o tempo para desenvolvimento de lesões precursoras e do câncer propriamente dito permitiu o delineamento de medidas que podem ser adotadas ao longo da vida da mulher, capazes de prevenir a doença.

Figura 1. História natural do desenvolvimento do câncer de colo uterino. Fonte: OPAS/OMS, 2013

As medidas de prevenção do desenvolvimento do câncer de colo uterino baseiam-se em dois pilares:

 

  1. Prevenção da infecção pelo HPV

A primeira vacina contra o HPV foi aprovada nos Estados Unidos da América (EUA) em 2006, pela Food and Drug Administration (FDA). Trata-se de uma vacina quadrivalente, que garante proteção contra os sorotipos 6, 11, 16 e 18. Mais recentemente, em 2014, foi aprovada nos EUA uma vacina nonavalente, que protege contra 9 sorotipos de HPV. No Brasil, a vacina quadrivalente foi introduzida no Programa Nacional de Imunização (PNI) no ano de 2014, inicialmente recomendada para meninas com idade entre 9 e 13 anos e, posteriormente, para meninos com idade de 11 a 13 anos.

As vacinas quadrivalente e nonavalente são capazes de prevenir mais de 95% das infecções pelo HPV tipos 16 e 18, mas também oferecem proteção cruzada com outros tipos menos comuns. A recomendação é que a vacina seja administrada antes do primeiro contato com o vírus, por isso a faixa etária recomendada no início da puberdade. Isso se deve ao fato de que o resultado obtido com a vacinação é melhor quando a menina ou o menino ainda não tiveram contato com o vírus.

Recomenda-se a aplicação de duas doses da vacina, com intervalo de seis meses. A Sociedade Brasileira de Imunizações recomenda que uma terceira dose (com intervalo de seis meses após a segunda) seja aplicada para aqueles adolescentes que recebem a primeira dose após os 15 anos. Outro grupo de meninas/mulheres nas quais se recomenda aplicação de uma terceira dose são aquelas infectadas pelo HIV. O esquema vacinal inicial, que foi adotado por diversos países, consistia na aplicação de 3 doses em um período de 6 meses (0, 1-2, 6 meses). No entanto, estudos posteriores mostraram que a quantidade de anticorpos produzida não era inferior quando se empregava um esquema de duas doses com intervalo de 6 meses. Uma estratégia que vem sendo adotada em alguns países consiste na aplicação de uma terceira dose após um intervalo de cinco anos desde a primeira dose, pois parece fornecer uma resposta imunológica mais sustentada ao longo do tempo.

As vacinas contra o HPV são bastante seguras. Os dados de ocorrência de efeitos colaterais são monitorados continuamente, não tendo sido identificadas reações graves e que causem preocupação.

 

  1. Detecção precoce e tratamento de lesões precursoras

O segundo pilar na prevenção do câncer de colo uterino baseia-se no rastreamento do câncer de colo uterino. A história do rastreamento começou no final da década de 1920, quando o patologista grego radicado nos EUA George Nicholas Papanicolaou publicou os resultados de seus estudos na diferenciação entre células normais e células cancerosas a partir de uma amostra coletada do colo uterino e colocada em uma lâmina de microscópio. Porém, somente após a publicação de seu célebre livro na década de 1940 que o teste – hoje conhecido pelo seu sobrenome – se tornou o padrão para rastreamento do câncer de colo uterino. Por ser um teste barato e de fácil coleta, foi rapidamente e amplamente implementado, levando à redução na incidência do câncer de colo uterino.

Mas em que consiste o rastreamento? O rastreamento refere-se à aplicação de um teste diagnóstico em pessoas sem sintomas da doença. O objetivo é detectar lesões precursoras de câncer ou mesmo o câncer, porém nos seus estágios mais iniciais. Atualmente, dispomos de três medidas para rastreamento: a. exame de Papanicolaou; b. inspeção visual do colo uterino com aplicação de ácido acético; c. exame para detecção de infecção por HPV de alto risco. A recomendação da OMS é de que todas as mulheres sejam submetidas a no mínimo um exame de rastreamento entre os 30 e 49 anos de idade.

No Brasil, o programa nacional de rastreamento está baseado principalmente na realização do exame de Papanicolaou, em um modelo oportunístico. Isso significa que as mulheres não são convocadas ativamente para serem submetidas ao exame, e sim aproveita-se a visita delas a uma unidade de saúde por outros motivos, para se oferecer o exame. A recomendação é de que o rastreamento seja iniciado aos 25 anos, sendo realizados dois exames com intervalo de um ano. Se ambos os exames forem negativos, os exames seguintes podem ser realizados a cada três anos. O rastreamento deve ser mantido até os 64 anos.

Inúmeros estudos evidenciam que os métodos de rastreamento são capazes de detectar as lesões precursoras de câncer de colo uterino, criando a oportunidade para que elas sejam tratadas e, com isso, evitamos que elas evoluam para o câncer. O tratamento dessas lesões é capaz de evitar a maioria dos casos de câncer de colo uterino. Por isso, o rastreamento deve sempre estar atrelado ao fornecimento de tratamento adequado.

Como vimos, a vacinação contra o HPV é altamente eficaz na prevenção da infecção pelo HPV, um vírus responsável pela grande maioria dos casos de câncer de colo uterino. Considerando-se o longo período para desenvolvimento da doença, após a infecção inicial, entendemos que o efeito da vacinação será percebido em 20-30 anos. Por esse motivo, o rastreamento do câncer de colo uterino deve ser reforçado, mesmo nos países que implementem a vacinação.

O programa da OMS para o aceleramento da eliminação do câncer de colo uterino envolve três medidas:

  1. Cobertura de vacinação de 90% das meninas até os 15 anos
  2. Cobertura de rastreamento do câncer de colo uterino de 70%, aos 35 anos e aos 45 anos, com testes adequados e de qualidade
  3. Garantia de que 90% das mulheres com doença de colo uterino (lesões precursoras ou câncer) recebam tratamento adequado e em tempo hábil

Em 2020, pesquisadores publicaram uma análise de modelos estatísticos considerando 78 países de baixa e média renda para a avaliação dos resultados de longo prazo da associação da vacinação contra HPV ao rastreamento. Estimou-se que quando realizada apenas a vacinação, 60% dos países atingiriam uma incidência de até 4 casos/100.000 mulheres (o alvo definido pela OMS). A combinação com o exame de rastreamento elevou essa porcentagem de países para 99%. Além disso, a eliminação do câncer de colo uterino seria alcançada 11-31 anos antes com a estratégia combinada (vacinação + rastreamento), quando comparada à vacinação apenas.

 

Referências

  1. International Agency for Research on Cancer. GLOBOCAN. Cancer today n.d. http://gco.iarc.fr/today. Acessado em 22 de fevereiro de 2021.
  2. Arbyn M, Weiderpass E, Bruni L, et al. Estimates of incidence and mortality of cervical cancer in 2018: a worldwide analysis. Lancet Glob Health. 2020;8(2):e191-e203.
  3. World Health Organization. Human papillomavirus (HPV) and cervical cancer.. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/human-papillomavirus-(hpv)-and-cervical-cancer. Acessado em 22 de fevereiro de 2021.
  4. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estatísticas de câncer. Disponível em: https://www.inca.gov.br/numeros-de-cancer. Acessado em 22 de fevereiro de 2021.
  5. Canfell K, Kim JJ, Brisson M, et al. Mortality impact of achieving WHO cervical cancer elimination targets: a comparative modelling analysis in 78 low-income and lower-middle-income countries. Lancet. 2020;395:591-603.
  6. Organização Pan-Americana da Saúde. Nota de orientação da OPAS/OMS: prevenção e controle de amplo alcance do câncer de colo do útero: um futuro mais saudável para meninas e mulheres. Washington, DC: OPAS, 2013.
  7. Programa Nacional de Imunizações. Ministério da Saúde. Calendário Nacional de Vacinação. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z-1/c/calendario-de-vacinacao. Acessado em 25 de fevereiro de 2021.
  8. Yong Tan S, Tatsumura Y. George Papanicolaou (1883-1962): discoverer of the Pap smear. Singapore Med J. 2015;56(10):586-7.
  9. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA). Coordenação de Prevenção e Vigilância. Divisão de Detecção Precoce e Apoio à Organização de Rede. Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer de colo uterino. 2. Ed. Rio de Janeiro: INCA, 2016.
  10. Brisson M, Kim JJ, Canfell K, et al. Impact of HPV vaccination and cervical screening on cervical cancer elimination: a comparative modelling analysis in 78 low-income and lower-middle-income countries. Lancet. 2020;395:575-90.

O câncer não espera! Março: mês de conscientização do câncer colorretal

Dentre todos os tumores, o câncer colorretal merece uma atenção especial. Atualmente, é o terceiro tumor mais frequente e a segunda maior causa de morte por câncer no mundo. O mês de março foi escolhido para conscientização e prevenção deste câncer, considerado um tumor evitável em uma grande parcela dos casos e quase sempre curável quando diagnosticado em estágios iniciais.

O Instituto Nacional do Câncer (INCA) estima 20.520 casos novos em homens e 20.470 casos em mulheres para ano de 2021, representando o segundo tumor mais frequente nos homens e também nas mulheres. Vale ressaltar que, mesmo dentro do Brasil, a incidência é variável de acordo com as regiões do nosso território. Nas regiões Sudeste e Sul, o tumor é mais frequente quando comparados com as regiões Norte e Nordeste. Essa diferença pode ser explicada porque o câncer colorretal está diretamente relacionado aos hábitos de vida como excesso de alimentos industrializados, sedentarismo e obesidade. Além disso, o acesso aos exames diagnósticos pode contribuir para essa disparidade.

Este tipo de câncer ocorre geralmente após os 50 anos, com predomínio na população idosa. Entretanto, um estudo divulgado pela American Cancer Society mostrou dados intrigantes. Revelou que na população norte-americana ocorreu uma redução no número de casos de câncer colorretal nas últimas décadas, porém um aumento em adultos jovens. A taxa de novos casos de câncer de cólon aumentou de 1 a 2,4% por ano desde meados da década de 1980 em adultos de 20 a 39 anos, e de 0,5 a 1,3% desde meados de 1990 em adultos de 40 a 50 anos. O aumento na taxa de câncer de reto foi ainda mais expressivo, 3,2% por anos de 1974 a 2013 em adultos de 20 a 29 anos. Essa alteração na faixa etária pode ser justificada pela mudança do estilo de vida do mundo atual, principalmente nos países mais desenvolvidos.

Mas é possível evitar esse tipo de câncer?  Na maioria dos casos sim. A predisposição genética individual para se desenvolver um câncer ainda não pode ser modificada, porém a minoria dos canceres tem origem hereditária. Sabemos que evitar a exposição aos fatores risco pode reduzir de forma significativa as chances de ter um câncer de intestino. Por isso, manter um estilo de vida saudável com atividade física no mínimo três vezes por semana, manter peso adequado, realizar dieta rica em fibras, evitar o tabagismo, etilismo e excesso de carne vermelha e embutidos, além de realizar os exames preventivos, é o que – ativamente – podemos fazer para mudar a nossa história.

Os principais sintomas do câncer de cólon e do reto são: dor abdominal, sangramento nas fezes, alteração do hábito intestinal (diarreia ou constipação) ou perda de peso, porém, infelizmente, quando esses sintomas estão presentes o tumor já está mais avançado e as chances de cura são menores. Logo, é de fundamental importância realizar os exames de rastreamento. Estes são exames realizados em pessoas assintomáticos, com intuito de diagnosticar lesões pré-malignas ou tumores iniciais, aumentando, assim, as chances de cura e reduzindo a agressividade do tratamento.  No Brasil, está indicado o rastreamento na população entre 50 a 74 anos, sendo a colonoscopia o exame de preferência.

Estamos passando por um grande desafio que é o combate à pandemia de COVID-19. Todos estamos focados em vencer essa batalha respeitando o isolamento social e tomando as medidas de proteção pessoal, porém não podemos esquecer que o câncer colorretal continua muito frequente e não espera.  Sendo assim, vamos aproveitar o mês de março para nos prevenir desse câncer e cuidar do que mais importa, a nossa saúde.

Novo rol da ANS 2021

Boa notícia para pacientes oncológicos

No dia 24 de fevereiro, a atualização do rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) foi aprovado pela Diretoria Colegiada. E por que isso é importante para os pacientes com câncer? Porque várias medicações foram incorporadas à lista de obrigatoriedades de cobertura pelos planos de saúde. Mais opções de tratamento com eficácia, agora, estarão mais facilmente disponíveis.

Foram 20 novas drogas oncológicas. Um destaque vai para a inclusão dos inibidores de CDK4/6 (Palbociclibe, Ribociclibe e Abemaciclibe) para tratamento do câncer de mama metastático. Eram drogas já comprovadamente eficazes e que já são utilizadas como padrão em diversos países, mas que aqui, no Brasil, ainda não eram padronizadas nos planos de saúde. Outra importante incorporação foi a de medicações para o câncer de pulmão metastático com alterações genéticas específicas (Alectinibe e Osimertinibe), um tratamento que faz grande diferença e ainda não estava disponível para todos os beneficiários de planos de saúde. Na tabela abaixo, há uma lista das medicações e suas respectivas indicações. No site da ANS é possível ver a lista completa, incluindo as medicações não-oncológicas e procedimentos.

Medicamento Indicação
Palbociclibe, Ribociclibe e Abemaciclibe Câncer de mama
Alectinibe, Osimertinibe e Nindetanibe Câncer de pulmão
Apalutamida e Enzalutamida Câncer de próstata
Cabozantinibe Câncer de rim
Regorafenibe e Lenvatinibe Câncer de fígado
Dabrafenibe em combinação com Trametinibe e Cobimetinibe Câncer de pele (melanoma)
Ixazomibe e Lenalidomida Mieloma múltiplo
Lenalidomia Síndrome mielodisplásica
Ibrutinibe Linfoma do manto
Ibrutinibe e Venetoclax LLC
Venetoclax e Midostaurina LMA
Nilotinibe LMC

 

Já falamos por aqui, em Alerta Oncologia, que a ANS regula as medicações ORAIS que terão cobertura obrigatória pelos planos de saúde no país e que essa lista – mais conhecida como rol – é atualizada a cada dois anos. As medicações injetáveis têm outra regulamentação e, geralmente, estão disponíveis mais rapidamente para os pacientes após aprovação em bula.

Esta atualização ocorre devido às novas evidências científicas que vão surgindo e mostrando que alguns medicamentos funcionam (ou não) para certas doenças. Porém, essa periodicidade é muito longa para os pacientes com doenças graves, como o câncer, já que muitas dessas drogas visam ao aumento de sobrevida e/ou qualidade de vida, algo que “não se pode esperar”.

 

Um ponto muito interessante foi que as aprovações deste ano vieram após uma consulta pública histórica, com um aumento de 500% na participação em relação às anteriores, atingindo cerca de 30.000 contribuições. A maioria foi realizada por profissionais de saúde, mas sociedades médicas, pacientes, familiares e amigos de pacientes também tiveram papel importante nesse processo. Isso mostra que a força da cooperação da sociedade transpassa barreiras e pode trazer benefício a toda a população.

Importante pontuar que, nesta atualização, a ANS levou também em conta as informações econômicas, tendo em vista o grande crescimento do custo dos tratamentos médicos. E também notamos uma tentativa de encurtar o período de novas incorporações, reduzindo assim o descompasso entre ciência e acesso pelos usuários de planos de saúde.

A vigência do novo rol ocorrerá a partir de 1º de abril e é sempre um marco para os pacientes com câncer. Continuaremos lutando não só para que mais drogas eficazes sejam incorporadas, mas também para que a atualização seja mais ágil e mais pessoas tenham acesso mais rapidamente às melhores terapias. É sempre bom ressaltar que a outra luta – talvez a mais difícil – continuará sendo a de também levar essas oportunidades para pacientes do SUS, que, cada vez mais têm seu cuidado oncológico mais longe do ideal.

 

Referências:

Link para a reunião da Diretoria Colegiada (24/02/2021):

https://www.youtube.com/watch?v=HoJL9HALyGE&t=7634s

http://www.ans.gov.br/aans/noticias-ans/consumidor/6207-ans-define-novas-coberturas-dos-planos-de-saudee

http://www.ans.gov.br/participacao-da-sociedade/consultas-e-participacoes-publicas/consultas-publicas-encerradas/consulta-publica-n-81-atualizacao-do-rol-de-procedimentos-e-eventos-em-saude-ciclo-2019-2020

Álcool: o vilão disfarçado de diversão

No dia 20 de fevereiro é celebrado o Dia de Combate ao Alcoolismo. O consumo de álcool é considerado um fator de risco para diversas doenças, em especial quando feito de maneira abusiva. Em contrapartida, alguns estudos tentaram comprovar o efeito protetor do álcool na doença cardiovascular quando consumido em pequena quantidade. Apesar deste suposto benefício, o que sabemos de fato é que o consumo em demasia é responsável por doenças crônicas do fígado (como a cirrose), transtornos psiquiátricos (com altos índices de internações por dependência química) e também por um elevado índice de acidentes de trânsito com vítimas graves.

No Brasil, o consumo de álcool per capita supera a média mundial, conforme dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS). Tal fato torna-se ainda mais preocupante ao passo que as políticas de prevenção primária de doenças são escassas e ineficazes em nosso país. Como agravante, vivemos um momento de pandemia em que hospitais e demais serviços de saúde estão voltados para o combate do coronavírus. Sendo assim, as doenças crônicas relacionadas ao uso excessivo do álcool e o próprio tratamento do alcoolismo como condição patológica certamente estão negligenciadas neste momento.

No que se refere ao câncer, o álcool está envolvido diretamente no processo de desenvolvimento de alguns tumores. O câncer de cabeça e pescoço, por exemplo, tem como principal fator de risco o consumo excessivo de álcool em associação ao cigarro. Essa combinação de hábitos (ou vícios) também está envolvida no surgimento do câncer de esôfago e de estômago. O risco de desenvolver tais cânceres tende a ser 4 a 6 vezes maior em indivíduos consumidores de bebidas alcoólicas de maneira abusiva. O risco de desenvolver câncer de intestino (de cólon e/ou reto) também é maior para pessoas consumidoras de álcool em grande quantidade e frequência. Este mesmo risco existe para mulheres com desenvolvimento do câncer da mama.

É importante que o alcoolismo seja visto como uma doença ou condição de saúde crônica e que seja devidamente tratada tal, como as demais citadas anteriormente. Devemos buscar entender as suas características biológicas, além dos aspectos comportamentais e socioeconômicos envolvidos na sua ocorrência. Não se trata apenas de um hábito ou diversão; o consumo abusivo de álcool está, sim, envolvido no adoecimento por causas diversas e precisa ser combatido diariamente.

Mamografia: aos 40 ou 50 anos?

Leonardo Roberto da Silva e

Vivian Castro Antunes de Vasconcelos

 

Os avanços no tratamento do câncer de mama obtidos ao longo das últimas décadas levaram a um aumento significativo na chance de cura e a uma redução no risco de morte pela doença. No entanto, ainda hoje, uma em cada oito mulheres receberá o diagnóstico de câncer de mama em algum momento da vida, até os 65 anos de idade. Esse dado alarmante é, porém, acompanhado de uma informação tranquilizadora: a disponibilidade de uma excelente ferramenta para o diagnóstico precoce da doença, a mamografia.

A mamografia é o exame mais importante na detecção precoce do câncer de mama, ou seja, o rastreamento. Sabemos que, quando diagnosticado em sua fase inicial, o câncer de mama tem mais de 90% de chance de cura. Isso pode ser conseguido com a realização do exame em mulheres assintomáticas e que se encontram em uma faixa etária na qual existe uma relação favorável entre benefícios e riscos do exame.

Grandes estudos clínicos que incluíram mais de 500 mil mulheres comprovaram esse benefício da mamografia. Os resultados mostraram que as mulheres que faziam mamografia regularmente apresentavam uma redução no risco de morte por câncer de mama entre 10% e 35%, quando comparadas às mulheres que não faziam a mamografia.

No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda que a mamografia seja realizada a cada dois anos entre os 50 e 69 anos de idade. No entanto, estudos recentes realizados na população brasileira, evidenciaram que 40% dos casos de câncer de mama são diagnosticados em mulheres com menos de 50 anos. Além disso, muitos desses casos são identificados em estados mais avançados da doença, o que reduz significativamente as chances de cura. Assim, as recomendações atuais do Ministério da Saúde excluem uma faixa importante da população do programa de rastreamento (mulheres com idade entre 40 e 49 anos), o que pode resultar em maior mortalidade por câncer de mama, uma doença que ainda não é facilmente evitável.

Nesse sentido, diversas sociedades médicas vêm recomendando a realização da mamografia a partir dos 40 anos. De acordo com estudos mais recentes, tal estratégia está associada a benefício em termos de diagnóstico precoce e redução do risco de morte por câncer de mama nessa faixa etária. Na prática, existe um Projeto de Decreto Legislativo (número 679/2019) que propõe assegurar a realização da mamografia de rastreamento para as mulheres a partir dos 40 anos, no Sistema Único de Saúde (SUS). O Projeto já foi aprovado no Senado Federal e, atualmente, se encontra em tramitação na Câmara dos Deputados.

Vacinação para COVID-19. Resumo das recomendações da SBOC

Na semana passada, a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) lançou um guia sobre a vacinação de pacientes oncológicos. Esse documento é de grande importância, tendo em vista a situação atual da pandemia no mundo e o maior risco dos pacientes com câncer ao serem infectados por COVID-19.

Importante ressaltar que o documento é continuamente atualizado e foi lançado com base nas evidências científicas que temos até o momento.

Vamos aos principais pontos:

  1. Os pacientes com câncer devem ser vacinados?
    1. Apesar de não terem sido testadas nestes pacientes, o benefício esperado de redução de mortalidade pelas vacinas é maior que os malefícios de possíveis das reações adversas. Além disso, esses pacientes estão sob maior risco de complicações pela COVID-19.
  1. As vacinas disponíveis no Brasil atualmente são seguras para pacientes com câncer?
    1. As vacinas contra a COVID-19 utilizam mecanismos semelhantes a outras vacinas já comprovadamente seguras e eficazes. No momento, os dois tipos de vacinas contraindicados para pacientes com câncer – a de vírus atenuado e a de vetor viral replicante – não estão entre aquelas disponíveis no mundo.
  1. E são eficazes para pacientes com câncer?
    1. Provavelmente sim. Apesar da evidência limitada, os dados de outras vacinas já utilizadas de rotina sugerem que aquelas contra COVID-19 são eficazes. Alguns tratamentos podem alterar a capacidade do sistema imune dos pacientes, levando a modificações na eficácia, mas nada que contraindique o uso ou torne a vacina ineficaz.
  1. Existe alguma vacina preferencial?
    1. Não. Ambas são indicadas, já que não contém vírus vivos e/ou replicantes.
  1. Qual o momento ideal para a vacinação dos pacientes com câncer?
    1. Idealmente, antes do início do tratamento. Porém, caso este já esteja em andamento, a indicação é de vacinar a qualquer momento, sempre com decisão compartilhada com o médico oncologista.
  1. Pacientes que já tiveram COVID-19 e/ou aqueles que têm anticorpos contra o vírus devem ser vacinados?
    1. A duração da proteção após infecção natural pelo COVID-19 ainda não é conhecida e a vacinação funciona também para esses pacientes.
  1. Os vacinados devem ser acompanhados com sorologia?
    1. Não. Os testes sorológicos não têm indicação para isso no presente momento.

 

Resumo: Em geral, há indicação de vacinação para todos os pacientes oncológicos, com exceção daquelas vacinas com vírus atenuados ou replicantes – inexistentes até o momento – e daqueles pacientes com contraindicação a algum componente da fórmula das vacinas.

Fale com seu oncologista e mantenha-se informado e imunizado!

 

Referências:

https://www.sboc.org.br/guias-e-infograficos/item/2150-covid-19-vacinacao-de-pacientes-oncologicos