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Novo tratamento para câncer de ovário aprovado no Brasil

No dia 8 de março, foi aprovada no Brasil, pela Anvisa, a medicação Niraparibe (Zejula®) para uso em pacientes com câncer de ovário avançado. Com isso, surge mais um opção para essas pacientes e a indicação deve se ampliar para um número maior de pacientes.

Os estudos que embasaram a aprovação foram dois: PRIMA e NOVA. No PRIMA, o Niraparibe foi testado contra placebo como 1ª linha em 733 mulheres com câncer de ovário que tiveram resposta ao tratamento com quimioterapia. Os resultados mostraram um redução de quase 40% do risco de morte ou progressão. Nesse estudo, o benefício foi independente da mutação do BRCA ou outras alterações genéticas e tal dado é importante por amplia a população que pode utilizar a droga.

No estudo NOVA, o Niraparibe foi testado como 2ª linha, em pacientes com recidiva após tratamento com quimioterapia com platina. Nesse caso, a redução do risco de morte ou progressão foi de 55 a 78%

Os resultados são animadores e trazem mais probabilidade de sobrevida para as pacientes com câncer de ovário.

Deve-se lembrar que é uma medicação oral e, portanto, apesar da aprovação na Anvisa, ainda não é obrigatória a cobertura pelos planos de saúde. Abordamos esse assunto em post anterior (acesse aqui https://sonhe.med.br//2019/09/03/simparaquimiooral/).

Não só isso, ainda não está (e tardará a estar) disponível no SUS, ou seja, o acesso a esse tratamento é limitado, uma situação que temos que batalhar para mudar.

 

Referências:

González-Martin, et al. Niraparib in Patients with Newly Diagnosed Advanced Ovarian Cancer. N Engl J Med. 2019;381:2391-402

Mirza MR, et al. Niraparib Maintenance Therapy in Platinum-Sensitive, Recurrent Ovarian Cancer. N Engl J Med. 2016;375:2154-64

https://consultas.anvisa.gov.br/#/medicamentos/25351232639202055/

O mundo asfixiado

Desde final de 2019, o mundo vive um dos momentos mais dramáticos da sua história com o surgimento e explosão do Sars CoV-2. Nada ocupou mais o noticiário e nossas vidas nos últimos meses do que essa crise sanitária que vem mudando nossa forma de se relacionar, interagir e viver. Já foram mais de 400 mil mortes no Brasil por COVID-19 desde o início da pandemia e mais de 3 milhões de mortes no mundo. Mas, ainda assim, temos que lembrar de outra pandemia, que atravessa séculos, e que mata sozinha mais de 7,5 milhões de pessoas ao ano. É mais do que o dobro de mortes causadas pela COVID-19, e isso vem acontecendo ano após ano, causando um impacto monstruoso na nossa sociedade. Estamos falando do tabagismo.

O tabaco já era usado pelas tribos indígenas na América do Sul, quando os colonizadores europeus aqui chegaram. Os indígenas acreditavam que a fumaça tinha poderes mágicos e terapêuticos. Depois com as colonizações portuguesas na África e Ásia, o tabaco chegou a todos os continentes. Durante os séculos XVI e XVII, o tabaco era usado basicamente para fins médicos. Achava-se que combatia a ansiedade e melhorava a atenção, mas com a Revolução Industrial e a ascensão do capitalismo, o habito de fumar tornou-se constante. A partir das duas grandes Guerras Mundiais, o uso de tabaco na forma de cigarro começou a se popularizar.

A partir do século XX, o uso do cigarro atingiu níveis epidêmicos. Mas foi apenas no final dos anos 80, que os efeitos negativos do cigarro se tornaram mais conhecidos e evidentes. E, então, pudemos entender os estragos e cicatrizes que esse problema trouxe à humanidade. O cigarro é a maior causa evitável de morte no mundo todo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) espera para 2021, algo próximo de 8 milhões de mortes em todo mundo por doenças causadas pelo hábito de fumar. Só no Brasil são cerca de 430 mortes ao dia relacionadas ao tabagismo, cerca de 160 mil mortes ao ano.

São mais de 4.800 compostos químicos em um único cigarro, dentre os quais mais de 70 são sabidamente cancerígenos. É disparado o maior fator de risco para o desenvolvimento de câncer e está relacionado a quase todos os tumores, com particular importância para as neoplasias de pulmão, cabeça e pescoço, bexiga e trato gastrointestinal. Especialmente em relação ao câncer de pulmão, 15% de quem fuma deverá desenvolver esse tipo de câncer em algum momento da vida, além disso, 80 a 90% de quem tem o diagnóstico de neoplasia pulmonar é tabagista. Ainda, cerca de 80% dos tumores de pulmão são descobertos em fases avançadas, com metástases, quando o câncer já se espalhou pelo corpo e a chance de cura é muito baixa. São 1,8 milhões de casos novos de câncer de pulmão diagnosticados todos os anos no mundo, com 1,6 milhões de mortes.

Cerca de 80% dos tumores de cabeça e pescoço, que é o terceiro tipo de câncer mais comum no Brasil, e por volta de 70% das neoplasias de bexiga também estão relacionados ao tabagismo. O cigarro, portanto, tem um poder destrutivo imenso capaz de comprometer a qualidade de vida e ceifar vidas de pessoas, muitas vezes, ainda jovens e produtivas.

Além disso, o tabagismo é o segundo fator de risco mais importante para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares (perdendo apenas para hipertensão arterial), lembrando que essas doenças são as que mais matam no Brasil e no mundo. Em 29 de setembro (Dia Mundial do Coração) de 2020, a OMS divulgou que 2 milhões de pessoas morrem ao ano por doenças cardíacas provocas pelo cigarro. O cigarro aumenta o risco de infarto agudo do miocárdio, de arritmias cardíacas, miocardites e de mortes súbitas.

O cigarro é, ainda, o principal fator relacionado a doenças respiratórias como asma, bronquite e enfisema pulmonar. E nesse caso, não tem como não associar o cigarro com a COVID-19. É inegável que a “pandemia” do cigarro agrava a COVID-19. Logo no início da pandemia, em 2020, a Convenção Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT/OMS) informou que pesquisadores da Universidade de Ciência e Tecnologia de Huazhong, em Wuhan, na China, haviam constatado que as chances de progressão da doença e de óbitos entre fumantes eram 14 vezes maiores do que em não fumante.

O cigarro provoca uma inflamação crônica nos pulmões, causando distúrbios pulmonares graves, além de sabidamente reduzir a imunidade de quem fuma. Se o coronavírus provoca pneumonia e afeta os pulmões, é claro que o dano é maior naqueles pacientes que já tem comprometimento do tecido pulmonar causado pelo tabaco. Portanto, uma parcela das pessoas que morreram em decorrência da COVID-19, indiretamente são vítimas do cigarro.

De acordo com boletim informativo do Ministério da Saúde, desde a primeira contaminação notificada no Brasil até a 53ª semana epidemiológica, período que compreendeu de 27 de dezembro de 2020 a 02 de janeiro de 2021, 191.552 óbitos em decorrência da COVID-19 haviam sido registrados, sendo que 42% das vítimas eram cardiopatas (lembrando que o cigarro é a segunda maior causa de doenças cardiovasculares) e 6% tinham problemas crônicos pulmonares. Uma pesquisa conduzida pela Universidade de Stanfort, na primeira fase da pandemia mostrou que jovens que usam cigarros eletrônicos tinhas de 5 a 7 vezes mais risco de terem COVID-19, provavelmente em razão dos danos pregressos das vias aéreas.

Uma analogia feita por Jaqueline Scholz, cardiologista e diretora do Programa de Tratamento do Tabagismo do Incor, do Hospital das Clínicas da USP exemplifica bem essa relação do cigarro com a COVID-10. “A COVID-19 é um cigarro mais apressado. Os mesmos malefícios que o cigarro causa no indivíduo, que demoram anos para aparecer, são uma avalanche com o vírus, que desencadeia essas mesmas alterações, mas em questão de dias. É uma doença inflamatória pulmonar grave com insuficiência respiratória, alterando todo o sistema de coagulação, fazendo com que os indivíduos tenham trombose, tendo complicações isquêmicas e hemorrágicas, assim como acontece com quem fuma ao longo de anos, com um fator de agressão extremamente elevado”.

O uso do tabaco esta associado, ainda, a impotência sexual, infertilidade, menopausa precoce nas mulheres e uma série de outras enfermidades. Os pacientes que fumam têm, em média,14 anos menos de expectativa de vida em relação a quem não fuma. Além disso, é muito claro que os tabagistas passivos (aqueles que não fumam, mas convivem de perto com quem fuma) também têm mais chances de desenvolver câncer, doenças cardíacas e pulmonares. De todas as mortes causadas pelo cigarro, 12% são em fumantes passivos.

Tudo isso traz um grande impacto não apenas nas vidas daquelas pessoas que perderam entes queridos por conta do cigarro, mas também impacto na economia com perdas de mais de R$ 60 bi ao ano (considerando o que as pessoas doentes ou que morreram, deixaram de produzir e os custos diretos e indiretos com tratamentos das doenças causadas pelo habito de fumar. O que se arrecada com impostos com a venda de cigarros não ultrapassa os R$ 13 bi ao ano, mostrando haver um grande desbalanço nessa equação.

O cigarro é tão prejudicial e viciante, que a nicotina nele contida atinge rapidamente o cérebro e em menos de 10 segundos libera vários neurotransmissores relacionados à sensação de bem-estar e prazer, como a dopamina. Por isso, é um hábito difícil de abandonar. Daquelas pessoas que desejam abandonar o vício menos de 10% tem sucesso sem ajuda de um profissional.

Na tentativa de diminuir, vários países passaram a adotar medidas que estimulassem o abandono do cigarro e outras que evitassem o início do tabagismo. Neste contexto, o Brasil ao lado da Turquia, ganhou lugar de destaque ao ser o segundo país a conseguir implementar de forma eficaz todas as seis medidas sugeridas pela OMS chamadas de Mpower (plano para reverter a epidemia do tabaco) e conseguir reduzir de forma consistente o número de pessoas que fumam. Os esforços para essa redução começaram em 1990, quando profissionais de estados e municípios foram treinados pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA) para tratar pacientes tabagistas no SUS, de forma gratuita.

Outras medidas importantes foram o aumento de impostos sobre os cigarros que chegaram a 83%, em 2018, a proibição de propagandas em televisão e revistas, a obrigatoriedade de se estampar as embalagens de cigarro com fotos e frases que mostrassem os efeitos devastadores do vício e, por fim, a proibição do fumo em locais fechados de uso coletivo. Todas essas medidas levaram o Brasil a reduzir em mais de 50% o número de pessoas que fumam nos últimos 25 anos (34% da população, em 1989, e 10%, atualmente) em todas as faixas etárias; mas ainda temos mais de 20 milhões de tabagistas.

O grande problema é que, em agosto de 2020, um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostrou que 34% dos fumantes no Brasil declararam ter aumentado o número de cigarros fumados durante a pandemia, um crescimento associado à deterioração da saúde mental dos tabagistas em meio ao isolamento social. Além disso, a forma de comprar e obter o cigarro foi ainda mais facilitada na pandemia de COVID-19. As pessoas podem comprar e solicitar o cigarro por meio de aplicativos como iFood, Rappi e James, ter o produto entregue em casa e, na maioria das vezes, sem a verificação da idade do comprador.

Estima-se que um terço da população adulta mundial seja tabagista, principalmente em países como China, Rússia e em países europeus. Destes, acredita-se que 60% desejam parar de fumar, mas não conseguem e não tem assistência para isso. Além disso, o hábito de fumar começa cedo, geralmente antes dos 20 anos, o que mostra a importância de orientar e alertar os jovens para os danos causados pelo tabaco

Além do cigarro, existem os charutos, cachimbos, cigarros de palha, narguilés e mais recentemente os cigarros eletrônicos. Algumas pessoas defendem esses tipos de fumo, alegando serem menos prejudiciais. No entanto, isso não é verdade. Algumas delas, como o narguilé por exemplo, são ainda mais nocivos, e o cigarro eletrônico, embora em geral não contenham nicotina, vem se mostrando um grande perigo. O uso de cigarro eletrônico vem crescendo no Brasil (onde a comercialização é proibida) e no mundo. O cigarro eletrônico está associado a danos irreparáveis ao pulmão e a um pior prognóstico nos pacientes que contraem COVID-19.

Por isso, o dia 31 de maio foi escolhido, em 1987 pela OMS como Dia Mundial Sem Tabaco, para orientar e reforçar junto à população as consequências sociais, políticas e econômicas do hábito de fumar e chamar a atenção de todos para os malefícios e danos causados a saúde de quem fuma ou convive com quem fuma. O mundo esta asfixiado e sem oxigênio, mas isso não vem apenas da pandemia de COVID-19. A pandemia de tabaco é maior, mais duradoura e mata muito mais do que qualquer outra e está na hora de começarmos a respirar e viver melhor!

28 de maio: Luta pela saúde da mulher

Dra. Vivian Antunes

Dra. Susana Ramalho

 

Quem é a mulher que adoece no Brasil?

A mulher que adoece no Brasil é a mesma que sonha, que ama, que gesta, que trabalha e que é cuidadora principal de tantas famílias.

Essa mulher é a que está ao seu lado. A que te ama, a que te cuida ou a que está dentro de você. Ela é cada uma de nós ou cada uma que está ao seu lado apoiando sua vida.

No Brasil, uma em cada oito mulheres nascidas hoje terão câncer de mama durante a vida, se viverem até os 60 anos. Dessas, 82% não tem nenhum antecedente familiar de câncer de mama.

O câncer de mama é o tumor mais comum entre as mulheres e também o responsável pelo maior número de óbitos no Brasil e no mundo. Mas, e no nosso Brasil, quem é a mulher que adoece de câncer de mama? Alguns pesquisadores iniciaram, em 2008, uma pesquisa com o objetivo principal de descrever quem são, como são e como é a doença nas mamas dessas brasileiras.

Numa série de estudos intitulada “AMAZONA I-III”, pesquisadores do Brasil todo nos deram a oportunidade única de conhecer melhor esse cenário. Uma das informações mais importantes foi que no Brasil temos 41% de pacientes com diagnóstico de câncer de mama em idade inferior a 50 anos, o que é uma proporção maior de diagnósticos em pacientes jovens do que em outros países, como Alemanha e Estados Unidos.

Outro dado que chama muito a atenção e traz preocupação é que o diagnóstico das nossas mulheres é feito em fase mais tardia da doença. Em torno de 71% das pacientes são diagnosticadas nos estádios II (46,8%) e III (24,6%), quando a doença já é localmente avançada geralmente atingindo os gâglios linfáticos da axila, o que certamente impacta direta e negativamente na mortalidade das brasileiras. Esse número é consideravelmente mais alto do que em países desenvolvidos, como os Estados Unidos, com dados que mostram apenas 31% de pacientes com diagnóstico na fase localmente avançada da doença.

No Brasil, apenas 18% das pacientes são diagnosticadas no estádio I, o mais precoce, o estádio que geralmente se consegue diagnosticar quando se faz exames de mamografia de rotina(o chamado rastreamento). Quando olhamos comparativamente e retrospectivamente, os dados de 2001 são muito semelhantes aos de 2018, ou seja, infelizmente sem melhoras nesse cenário.

Isso mostra que apesar da estratégia de rastreamento para diagnóstico precoce estar disponível no Brasil, não está atingindo a nossa população de mulheres de forma eficaz, seja por que as mulheres não aderem ao exame oferecido, ou por dificuldade de acesso a esse recurso.

Outro tipo de câncer importante entre as mulheres e que também marca um a imensa desigualdade no nosso país é o câncer de colo uterino. Em estados da região Norte do Brasil esse é o câncer mais incidente entre as mulheres, ultrapassando o câncer de mama, que é o primeiro em incidência em todas as outras regiões. Assim observamos que este é um triste marco das diferenças socioeconômicas desse nosso país continental.

Esse dado vem carregado de um “pesar” que já nos acompanha há décadas. Apesar do câncer de colo de útero ser bastante prevenível, através da vacinação contra o vírus HPV e através do exame de rastreamento de citologia oncótica (o conhecido preventivo – exame papanicolau), temos uma altíssima incidência e mortalidade no Brasil. A incidência de câncer de colo de útero no Brasil é muito maior que vários países desenvolvidos onde a incidência é bastante baixa. Para 2018, a estimativa esperada no Brasil foi de 16.370 casos novos, com um risco de 17,11 casos a cada 100 mil mulheres.

Outro tumor que também atinge as mulheres é o de ovário, com menor incidência (estima-se 6.150 casos novos no Brasil) porém alto risco por escasso métodos de prevenção e necessidade de tratamento adequado e precoce. Também o tumor de endométrio vem crescendo sua incidência principalmente associado a obesidade, sedentarismo e síndromes metabólicas cada vez mais frequentes em nossa população feminina.

Voltando a falar da nossa mulher que sonha, que ama, que gesta, que trabalha, e que “cuida”, paro minha reflexão no verbo “cuidar”. O mesmo cuidado que nossas mulheres têm com seus filhos, netos, maridos e trabalho, deve ser destinado a ela, seja por parte da ciência, que tem o dever de melhorar o cenário da doença com novas descobertas (cada vez mais frequentes, é verdade!), seja por parte do governo, com melhor gestão assistencial, ou por ela mesma, voltando seu olhar para o seu próprio cuidado como forma de amor à vida.

 

Quais as perspectivas para as mulheres brasileiras?

 É importante ressaltar que os casos de câncer irão dobrar até 2035 no mundo todo. E o maior aumento será nos países em desenvolvimento com população relativamente jovem. Assim, os sistemas de saúde devem estar preparados, já que se estima que 60% dos casos de câncer ocorrerão nesses países, precisarão planejar e alocar recursos.

O impacto que o adoecimento de uma mulher em uma família – em que muitas vezes ela é a fonte principal de sustento – é enorme e pouco se tem feito para melhorar os programas de rastreamento e o acesso ao diagnóstico e ao tratamento, o que reflete a grande disparidade das taxas de mortalidade observadas entre os dados Brasil e EUA.

No Dia da Luta pela Saúde da Mulher, precisamos mostrar esta disparidade e cobrar do governo mais atitudes de prevenção em saúde feminina para que possamos, em um futuro breve, chegar perto das estatísticas de países desenvolvidos como os Estados Unidos, diminuindo a mortalidade por câncer em todo o país.

O diferencial de um cuidado humanizado em Oncologia

Keila Eunice Pereira,

enfermeira do Hospital e Maternidade Santa Tereza

Descobrir um câncer é sempre um susto. Pode trazer muitas dúvidas, medos e tristeza nos pacientes, familiares e amigos, pois é um momento que se deparam com sua saúde bem frágil.

Por isso, desde os tempos da Florence Nightingale, humanizar a assistência de enfermagem é de extrema importância.  O paciente oncológico não deve ser considerado como mais um caso a ser tratado em mais um dia de trabalho e, sim, devemos ter empatia no cuidado desses pacientes, proporcionando um atendimento digno e capaz de contribuir com sua saúde e qualidade de vida. Ao dar um atendimento diferenciado, muitas vezes revertemos a situação delicada que estão passando nesse momento.

Sentimos em nosso dia a dia que ao estarmos atentos, conseguindo ouvir, tendo bom humor, proporcionando um ambiente acolhedor e levando alegria e otimismo vamos, aos poucos, criando uma relação mais próxima de confiança e respeito, conseguindo reduzir o medo e a ansiedade não só dos pacientes, mas também dos familiares.

A missão de todo profissional de saúde é cuidar, acolher, confortar e oferecer um tratamento humanizado para cada paciente, dando atenção individual no momento que estão tão vulneráveis. Quando entendemos melhor a profundidade da experiência de receber um diagnóstico e tratar o câncer, conseguimos nos colocar ao menos um pouco no lugar desses pacientes para, então, podermos prestar uma assistência integral, segura e humanizada.

Assim enfatizamos que, a jornada com ânimo e esperança faz parte dessa caminhada em busca de uma importante meta, a vitória que é a cura.

Parabéns a todos os enfermeiros que no cuidado dos pacientes oncológicos, conseguem unir ciência, excelência e humanização!

 

Oncologia oftalmológica: o que eu preciso saber?

Guilherme Armbrust Araújo

 

O câncer de olho pode se referir a qualquer câncer que começa no olho. O tipo mais comum é o melanoma. Mas existem outros tipos de câncer que afetam diferentes tipos de células do olho. O olho tem três partes principais:

  • O globo ocular, que é principalmente preenchido com um material gelatinoso chamado humor vítreo e tem três camadas principais (a esclera, a úvea e a retina).
  • A órbita (os tecidos ao redor do globo ocular).
  • As estruturas acessórias, como as pálpebras e as glândulas lacrimais.

Diferentes tipos de câncer começam em cada uma dessas áreas. Os cânceres que afetam o próprio olho são chamados de cânceres intraoculares (dentro do olho). Aqueles que começam no olho são chamados de cânceres intraoculares primários. São cânceres intraoculares secundários aqueles que começam em outro lugar e se espalham para o olho.

Em adultos, os cânceres intraoculares primários mais comuns são:

  • Melanoma;
  • Linfoma não Hodgkin.

Em crianças, os cânceres intraoculares primários mais comuns são:

  • Retinoblastoma, um câncer que começa nas células da retina (as células sensíveis à luz na parte posterior do olho);
  • Meduloepitelioma (este é o segundo mais comum, mas ainda é extremamente raro).

Cânceres intraoculares secundários (cânceres que começam em algum outro lugar do corpo e depois se espalham para o olho):

 à mais comuns são os cânceres de mama e de pulmão . Na maioria das vezes, esses cânceres se espalham para a parte do globo ocular chamada úvea: 2% a 7% irão evoluir com metástase ocular.

O tumor metastático para o olho e anexos representa de 4% a 12% de todos os tipos de cânceres que cursam com doença avançada (carcinomas).

O melanoma intraocular é o tipo mais comum de câncer que se desenvolve no globo ocular em adultos, mas ainda é bastante raro. Os melanomas que começam na pele são muito mais comuns do que os melanomas que começam no olho.

A maioria dos outros melanomas intraoculares começa na íris. Esses são os mais fáceis para uma pessoa (ou seu médico) ver, porque geralmente começam em uma mancha escura na íris, que está presente há muitos anos e, em seguida, têm crescimento.

Cânceres da órbita e anexos se desenvolvem a partir de tecidos como músculos, nervos e pele ao redor do globo ocular e são como cânceres em outras partes do corpo. Por exemplo:

O diagnóstico é feito por meio de uma avaliação oftalmológica completo e o tipo de tratamento adequado varia de acordo com cada caso. O aparecimento de tumores no olho é relativamente raro, mas pode acometer desde crianças nos primeiros meses de vida até adultos e idosos. Muitos casos não são diagnosticados em razão da apresentação assintomática das lesões. Um diagnóstico precoce pode resultar numa maior chance de tratamento bem-sucedido.

Importante salientar que o necessário tratamento oncológico pode trazer sintomas que devem ser acompanhados, por isso é importante visitar o oftalmologista periodicamente.

 

Novas esperanças para as mulheres com câncer de Ovário

Desde o ano de 2013, o dia 8 de maio é considerado o Dia Mundial do Câncer de Ovário, uma iniciativa que tem como objetivo atrair a atenção de pessoas em todo o mundo e reunir esforços na luta contra esse tipo de câncer. Tal ação é de extrema importância, visto que a cada ano mais de 300.000 mulheres recebem o diagnóstico de câncer de ovário, em todo o mundo. Além disso, os pesquisadores do Observatório Global do Câncer (GLOBOCAN) estimam um aumento de 42% no número anual de casos de câncer de ovário até 2040, chegando a um total de 445.721 novos casos.

No Brasil, o câncer de ovário é a sétima neoplasia maligna mais comumente diagnosticada nas mulheres. Para os anos de 2020 a 2022, o Instituto Nacional do Câncer (INCA) estima que 6.650 novos casos serão diagnosticados a cada ano. Isso representa 3% de todos os cânceres detectados nas mulheres brasileiras.

Além da incidência, outro dado alarmante é a alta mortalidade associada à doença. O câncer de ovário é o câncer ginecológico associado à maior mortalidade, com um número anual de mortes que chega a 207.000 em todo o mundo. No Brasil, no ano de 2017, o câncer de ovário foi a causa da morte de 3.879 mulheres. Comparado a outros tipos de câncer, como o de mama por exemplo, as taxas de cura e sobrevivência a longo prazo são muito inferiores para as pacientes com câncer de ovário. E por que isso acontece?

Um dos principais determinantes dessa alta mortalidade relacionada ao câncer de ovário é o fato de que a grande maioria dos casos é diagnosticada em estádios mais avançados da doença. Importante lembrar que a chance de cura do câncer é maior quando a doença é diagnosticada em estádio inicial, ou seja, quando a doença ainda está localizada no órgão onde ela se inicia, sem disseminação para outros locais (metástases). No caso do câncer de ovário, dados dos EUA mostram que o diagnóstico de doença inicial só é feito em 15% dos casos, ao passo que em 59% das vezes a doença já está avançada ao diagnóstico. Cinco anos após o diagnóstico, 92% das mulheres com diagnóstico em estádio inicial ainda estão vivas, em comparação a apenas 29% daquelas com diagnóstico em estádio avançado. Precisamos mudar essa situação!

Dois fatores são responsáveis pelo diagnóstico na maioria das vezes tardio do câncer de ovário:

  1. Não dispomos de exames de rastreamento para o câncer de ovário

O rastreamento tem o objetivo de diagnosticar o câncer em indivíduos que não apresentam sintomas da doença. É o caso da mamografia para o câncer de mama, e do exame de Papanicolaou para o câncer de colo uterino. No caso do câncer de ovário, os exames já avaliados não foram bem-sucedidos. Por exemplo, o ultrassom transvaginal pode mostrar a presença de lesões nos ovários, no entanto ele não consegue dizer se a lesão é benigna ou maligna. Da mesma forma, o exame de sangue para dosagem do CA125 (uma proteína) pode se encontrar alterado em diversas condições que não o câncer (por exemplo, endometriose, doença inflamatória pélvica). Além disso, mesmo durante o exame físico feito pelo médico ginecologista, a palpação de tumores muito pequenos é virtualmente impossível.

  1. Os sintomas do câncer de ovário são inespecíficos e ocorrem principalmente quando a doença está mais avançada

Os sintomas relacionados ao câncer de ovário podem ocorrer em estádios mais iniciais, porém são mais frequentes em estádios mais avançados. Além disso, são sintomas que as mulheres muitas vezes acabam associando a outros problemas de saúde e não suspeitam de que podem ter a doença. Os mais comuns são:

– aumento de volume do abdome;

– dor abdominal/pélvica;

– dificuldade para se alimentar, sensação de empachamento;

– sintomas urinários (a paciente urina mais vezes que o normal; sente urgência para urinar);

– fadiga.

Importante salientar que, quando causados pelo câncer, esses sintomas tendem a ser persistentes, podendo evoluir com piora com o passar do tempo.

Por esses motivos, a recomendação é de que as mulheres façam visitas regulares ao seu ginecologista e que procurem atendimento médico na presença dos sintomas relatados acima, especialmente se os mesmos persistirem por mais de algumas semanas. Além disso, importante ficarem atentas aos fatores de risco para a doença:

– idade: o risco aumenta com o passar da idade, sendo maior entre os 55 e os 74 anos, embora mulheres jovens também podem desenvolver a doença;

– nuliparidade: mulheres que não tiveram filhos tem maior risco;

– endometriose: associa-se a aumento do risco de alguns subtipos de câncer de ovário (endometrioide, por exemplo);

– exposição a asbestos;

– tabagismo: aumenta o risco do subtipo mucinoso;

– início dos ciclos menstruais em idade mais jovem e menopausa em idade mais tardia;

– fatores genéticos: entre 20% e 25% das mulheres com câncer de ovário apresentam um componente genético hereditário, na maioria das vezes mutações nos genes chamados BRCA1 e BRCA2; outra condição hereditária associada a risco de câncer de ovário é a chamada síndrome de Lynch.

O tratamento do câncer de ovário envolve a associação de cirurgia e quimioterapia. Embora seja uma doença que responde muito bem à quimioterapia, a recorrência da doença ocorre muito frequentemente, eventualmente desenvolvendo resistência à quimioterapia.

Apesar desse cenário, ao longo dos últimos dez anos, observamos uma revolução no entendimento do câncer de ovário e a introdução de novos tratamentos, inaugurando uma nova era no tratamento da doença.

No desenvolvimento do câncer de ovário, há a necessidade da formação de novos vasos sanguíneos que vão garantir que os nutrientes presentes na corrente sanguínea possam chegar a todas as células do tumor. Nesse processo, uma proteína tem importância fundamental, que é chamada VEGF. A partir desse conhecimento, pesquisadores avaliaram o uso de um medicamento chamado Bevacizumabe no tratamento do câncer de ovário. O Bevacizumabe bloqueia a proteína VEGF, e é capaz de reduzir a velocidade de crescimento do tumor ou até mesmo interromper esse crescimento, principalmente quando é usado associado à quimioterapia. Embora o Bevacizumabe não tenha mostrado efeito no aumento do tempo de vida das pacientes, ele foi capaz de prolongar significativamente o tempo que o tumor leva para crescer de novo. Atualmente, o Bevacizumabe é usado principalmente no cenário de doença recidivada (quando o tumor volta após ter sido submetido ao tratamento inicial). No entanto, com o tempo pode ser que esse medicamento seja trazido também para uso em estádios mais precoces da doença.

Um segundo grupo de medicamentos recentemente incluídos no tratamento do câncer de ovário são os chamados inibidores de PARP. São eles o Olaparibe, o Niraparibe, o Rucaparibe e o Veliparibe. Mas o que é a PARP? A PARP é uma proteína que está envolvida na correção de defeitos no DNA da célula. Essa ação é extremamente importante, pois sabemos que as células que não conseguem corrigir esses defeitos acabam morrendo. Existem diferentes mecanismos de correção de defeitos no DNA, de forma que o efeito desses medicamentos contra o câncer de ovário é maior naquelas pacientes em que os tumores apresentam outros defeitos dos mecanismos de correção do DNA, no que chamamos de “Deficiência de Recombinação Homóloga” (ou HRD). Nesse grupo de defeitos, encontramos as mutações dos genes BRCA1 e BRCA2, já comentadas anteriormente.

Os inibidores de PARP estão modificando de forma significativa o cenário do tratamento do câncer de ovário. Eles podem ser usados sozinhos ou após a quimioterapia, no que chamamos de “tratamento de manutenção”. Um resultado muito significativo foi a observação de que quase metade das pacientes com câncer de ovário com mutação de BRCA que receberam manutenção com inibidor de PARP, após terem tido boa resposta com a primeira quimioterapia feita ao diagnóstico da doença, ainda não haviam apresentado crescimento/piora da doença após cinco anos de acompanhamento. Se lembrarmos das baixas taxas de sobrevivência em cinco anos que comentamos anteriormente, podemos ter uma dimensão da importância desse resultado. Outro dado celebrado foi a observação mais recente de que o tratamento de manutenção com Bevacizumabe associado ao inibidor de PARP trouxe um benefício muito significativo para o grupo de pacientes com tumores com HRD. Tal resultado nunca havia sido demonstrado em câncer de ovário nesse contexto.

Atualmente, diversos outros tratamentos estão sendo testados em câncer de ovário, como a imunoterapia, vacinas, conjugados anticorpo-quimioterápico, terapia gênica, entre outros.

Os tempos mudaram! As novas descobertas sobre os mecanismos de desenvolvimento e progressão do câncer de ovário e os resultados obtidos com a introdução do Bevacizumabe e dos inibidores de PARP trouxeram uma nova esperança para as pacientes. Hoje, já é possível começarmos a pensar na possibilidade de cura para essas pacientes ou de, pelo menos, na remissão a longo prazo, convertendo uma doença letal em uma doença crônica, com qualidade de vida.

 

Referências

  1. International Agency for Research on Cancer. GLOBOCAN. Cancer today n.d. http://gco.iarc.fr/today. Acessado em 04 de maio de 2021.
  2. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estatísticas de câncer. Disponível em: https://www.inca.gov.br/numeros-de-cancer. Acessado em 04 de maio de 2021.
  3. Siegel RL, Miller KD, Jemal A. Cancer statistics, 2020. CA Cancer J Clin. 2020 Jan;70(1):7-30. doi: 10.3322/caac.21590
  4. Banerjee S, Moore KN, Colombo N, et al: Maintenance olaparib for patients with newly diagnosed, advanced ovarian cancer and a BRCA mutation: 5-year follow-up from SOLO-1. ESMO Virtual Congress 2020. Abstract 811MO.
  5. Ray-Coquard I, Pautier P, Pignata S, et al. Olaparib plus Bevacizumab as First-Line Maintenance in Ovarian Cancer. N Engl J Med. 2019 Dec 19;381(25):2416-2428. doi: 10.1056/NEJMoa1911361.

Um ato simples mais que pode salvar vidas

Enfermeira Vania Mansur

Hospital Madre Theodora

 

Você sabia que a higienização das mãos como uma ação simples de prevenção pode salvar vidas ou evitar a transmissão de vírus e bactérias? Quando falamos em prevenção esse é um tema importante, principalmente, nos dias de hoje.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), recomenda-se que a lavagem das mãos seja feita de modo frequente e ao longo do dia. Pesquisas mostram que essa prática pode reduzir doenças relacionadas às diarreias entre 30% e 40% e às infecções respiratórias em até 20%.

Anualmente, no dia 05 de maio comemora-se o Dia Mundial da Higienização de Mãos. Esta é uma campanha liderada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), visando a prevenção da transmissão de infecções, relacionadas a assistência à saúde.

A campanha tem como objetivo alertar toda à comunidade de como higienizar as mãos de forma adequada e de acordo com os 5 momentos preconizados pela OMS.

O grupo SOnHe, preocupado com a saúde da população, apoia essa campanha como modo de enfatizar a importância da prática da higiene das mãos, usando técnica adequada e nos momentos corretos.

Se você faz parte do grupo de risco ou esteja passando por algum tratamento, você também deverá adotar essas medidas de prevenção como parte da sua rotina diária.

Você poderá realizar de duas maneiras: utilizando água e sabão ou também com álcool 70% gel ou solução.

Vale lembrar de seguir essas regrinhas básicas: ao realizar as lavagens das mãos com água e sabão, o processo deve durar pelo menos um minuto. Se optar pelo uso do álcool em gel ou solução, deve realizar pelo menos durante 20 segundos.

Lembre-se trata-se de um ato simples, mas que pode salvar vidas!

 

Referências:

https://www.anvisa.gov.br/hotsite/higienizesuasmaos/index.htm

http://www.blog.saude.gov.br/index.php/promocao-da-saude/53342-dia-mundial-da-higiene-das-maos-5-de-maio

Maio Cinza: um alerta para o câncer de cérebro!

Maio é o mês de conscientização do câncer de cérebro, um tumor potencialmente grave por atingir o órgão responsável pelo controle de todas as funções do nosso corpo. Atualmente, ocupa a décima posição entre os tumores mais frequentes nas mulheres brasileiras e a décima primeira posição entre os homens.

É considerado um grupo heterogêneo de tumores que podem ser divididos em primários, que têm origem nas células do próprio cérebro, ou secundários, que têm origem em outros órgãos e disseminam para o cérebro. Estes são mais frequentes, sendo os cânceres de mama, pulmão e melanoma os maiores causadores de metástase.

No que se refere à agressividade do tumor, podemos dividir também em dois grupos. Os tumores benignos, que apresentam crescimento lento podendo ser acompanhados por exames de imagem periódicos ou tratados com cirurgia com altíssimas chances de cura. E os tumores malignos, que apresentam crescimento rápido, presença de sintomas e necessitam de tratamentos mais agressivos. Dentre os tumores malignos, o glioblastoma multiforme é o que apresenta menores chances de cura, apesar do avanço do tratamento nos últimos anos.

As causas dos tumores de cérebro continuam sendo motivo de muito estudo. Sabemos que algumas síndromes genéticas, consideradas raras, como a neurofibromatose e Li-Fraumeni aumentam o risco deste tipo de câncer. Outro fator é a exposição à radiação ionizante, como por exemplo, em profissionais que lidam com raio-x, pessoas que se submetem à radioterapia ou aos exames excessivos com radiação.  Além desses, temos a deficiência do sistema imunológico, seja ela causada pelo vírus do HIV ou uso de medicamentos que suprimem o sistema imunológico. Por fim, há ainda alguns fatores de risco controversos. A exposição excessiva ao telefone celular, traumas cranianos e o consumo de aspartame (adoçante artificial) já foram levantados como potenciais causadores desse câncer, mas até hoje nada ficou comprovado.

O tumor no cérebro pode ter apresentações variáveis. É frequente nos benignos o paciente permanecer assintomático por um período prolongado, isso porque o tumor cresce lentamente e o cérebro vai se adaptando. Podem ocorrer também sintomas focais, que são dependentes do local em que está localizado o tumor, podendo cursar com perda de força em alguma parte do corpo, alteração na visão, audição, fala e comportamento. Porém, vale ressaltar que as manifestações, na maioria dos casos, são inespecíficas como sonolência, náuseas, vômitos, crise convulsiva ou dor de cabeça.

Então, quando devo me preocupar com uma dor de cabeça? A cefaleia, conhecida como dor de cabeça, é o sintoma mais comum do câncer de cérebro, acontecendo em 33 a 71% dos casos.  No entanto, nem todo quadro de cefaleia é sugestivo de tumor cerebral; se for um sintoma diário e persistente ao longo de dias, com intensidade crescente e mais comum à noite ou ao acordar, é um sinal de alerta. Deve também ser sempre investigada quando acompanhada de sinais e sintomas como vômitos recorrentes, crises epilépticas, sonolência excessiva, confusão mental, deficiência gradual da movimentação ou da sensibilidade de alguma parte do corpo e dificuldades de fala e da visão.

O diagnóstico precoce é essencial para aumentar as chances de cura do câncer e evitar sequelas. Mas, muitas vezes, identificar o tumor na fase inicial é um desafio. Isso porque não existe um exame de rastreamento, os chamados exames preventivos, por isso é fundamental dar atenção aos sinais de alerta já mencionados. Na presença destes deve-se fazer uma investigação com exames de imagens, preferencialmente a ressonância de crânio. Este exame é capaz de identificar a presença de uma lesão no cérebro e diferenciar entre tumores benignos ou potencialmente malignos. Porém, para a confirmação diagnóstica é necessária a biópsia.

A boa notícia é que a maioria dos tumores cerebrais podem ser curados. É importante que o tratamento seja individualizado e realizado por uma equipe completa composta por neurocirurgião, oncologista, radioterapeuta, patologista e radiologista. De uma forma geral, a cirurgia é o principal tratamento. Atualmente diversas tecnologias foram incorporadas na neurocirurgia como monitorização intra-operatória e métodos minimamente invasivos, possibilitando a diminuição do risco de sequelas no ato cirúrgico.  A associação de radioterapia e quimioterapia geralmente é necessária nos tumores mais agressivos, considerados de alto grau.

Vale ressaltar que, apesar dos avanços nas técnicas de tratamento, o diagnóstico precoce ainda é a principal arma para aumentar as chances de cura e reduzir as sequelas.  Por isso a importância do Maio Cinza, que tem como objetivo conscientizar a todos sobres os sintomas que devem ser investigados. Mesmo durante o período de pandemia, importante lembrar que a COVID-19 não é a única vilã!

 

Câncer de estômago: como prevenir?

Você já pensou que o consumo de conservas e defumados pode aumentar o risco de um câncer que, até a década de 1980, era o que mais matava no mundo? Sim, e hoje vamos falar sobre esse tumor: o câncer de estômago, já que na semana do dia 5 de abril, acontece a Semana de Prevenção e Combate ao Câncer de Estômago.

Conhecido pelos humanos como uma doença desde 3.000 a.C., o câncer gástrico afeta 21.000 pessoas por ano no Brasil e leva à morte mais de 50% delas. Essa estatística já foi maior: antes do câncer de pulmão – em decorrência do cigarro – se tomar a primeira posição em mortalidade, o de estômago era o mais mortal. E um dos principais fatores que têm feito a incidência mundial reduzir (apesar de não ser baixa) foi a invenção e popularização de um aparelho que, hoje, parece tão essencial, mas que não era tão comum antigamente: a geladeira.

Evidências científicas mostram que o consumo de produtos processados, em conserva, defumados e/ou com alto teor de sal tem relação com aumento expressivo da incidência de câncer gástrico. O mecanismo por trás disso parece ter a ver com a presença de compostos chamados nitritos, que estão presentes nesses produtos e podem induzir alterações nas células da parede do estômago e promover o surgimento de neoplasias. Alguns estudos mostram incremento de mais de 40% no risco de câncer de estômago, sendo maior quanto maior a quantidade ingerida.

Com o uso da geladeira para preservação de alimentos, as técnicas de conservar em “salmouras”, salgar a carne e a defumação foram sendo menos utilizadas, contribuindo para uma redução da ocorrência de câncer gástrico na população. Em relação à comida rica em sal, um dos exemplos mais importantes é a associação entre a culinária asiática e a alta incidência desse tipo de tumor, visto que a gastronomia da região é rica em alimentos com alto teor de sal.

Mas não são apenas os alimentos processados e salgados que aparecem como fatores de risco. A infecção pela bactéria H. pylori no trato intestinal humano também guarda relação com uma maior chance de neoplasia gástrica. Essa bactéria é comum, principalmente em países menos desenvolvidos e com saneamento mais precário (incluindo o Brasil), e a sua presença no estômago leva a aumento de seis vezes no risco de lesões na parede do órgão e, consequentemente, ao surgimento de tumores.

Ainda como fatores de risco, a obesidade e o tabagismo, assim como em vários outros tumores, devem ser lembrados. Cirurgia prévia do estômago, anemia perniciosa e trabalho em indústrias de carvão e borracha mostram alguma relação.

Em relação à herança genética, síndromes como a de Lynch e a do câncer gástrico difuso aumentam de forma expressiva a ocorrência, mas são menos comuns e atingem famílias específicas.

Certo. Depois de todos esses fatores de risco, como fazer para prevenir o câncer de estômago? Aí voltamos para o que sempre falamos: alimentação saudável. Não é “chatice” dos médicos, é provado que uma dieta balanceada reduz o risco de tumores. Especificamente no caso em questão, evitar consumir alimentos processados, em conserva, defumados e/ou com alto teor de sal é um grande avanço. Claro que, em uma festa ou outra, ninguém está proibido de comer um salame, mas ter consciência da composição do que nós comemos é muito importante.

Muitas comidas que nem imaginamos têm alto teor de sal e usam métodos de conservação que produzem nitritos. Não só isso, já é claro para os cientistas que comer vegetais e frutas frescos e em abundância reduz o risco de diversos tipos de câncer, inclusive o gástrico. A alimentação saudável ajuda também no combate à obesidade e, junto com a atividade física, parar de fumar e reduzir o consumo de álcool, formam o “quadrado mágico” da prevenção do câncer.

Quanto ao H. pylori, a melhor maneira de evitar a contaminação é a higiene e o saneamento adequados, lavando alimentos e as mãos antes de comer. Em caso de sintomas de dor de estômago, o médico pode indicar um exame de endoscopia, que, caso identifique a bactéria, leva à necessidade de tratamento com alguns tipos de antibióticos, prevenindo assim a lesão da parede gástrica.

Por fim, como em várias áreas da ciência, o combate a outro mal do mundo atual é muito importante: as fake news. O chá verde e as vitaminas ainda não se provaram eficazes na prevenção do câncer para a população geral. Lembrando, algumas vitaminas têm indicações específicas, como pacientes desnutridos, ou aqueles com gastrite perniciosa ou mesmo para aqueles que fizeram cirurgia bariátrica.

Depois disso tudo, caso o câncer de estômago seja diagnosticado, o ideal é procurar o médico o quanto antes, pois existe tratamento, seja para o tumor localizado ou metastático. Mas lembre-se: prevenir é, sem dúvida, o melhor remédio!

COVID-19: a relação entre a obesidade e o câncer

Larissa Arial Oliveira Santos

Nutricionista

Radium – Instituto de Oncologia

 

A obesidade é um problema de saúde pública que vem crescendo consideravelmente nos últimos anos. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o percentual de pessoas obesas na população adulta passou de 12,2% para 26,8%, entre o período de 2003 a 2019.

O ganho de peso excessivo aumenta o tecido adiposo (formado por gordura), promovendo a alteração da função e estrutura das células presentes nele. Essas células, chamadas adipócitos, atraem células do sistema imunológico e, quando isso ocorre de forma exacerbada e crônica, pode levar a um estado inflamatório aumentado.

A obesidade é fator de risco para alguns tipos de cânceres, como por exemplo, o câncer de mama e o câncer de reto. Isso porque a inflamação pode aumentar a proliferação celular e contribuir para o desenvolvimento de alguns tumores.

O estado de inflamação presente em indivíduos obesos também tem sido associado a outros diversos problemas de saúde, como aumento da pressão arterial, diabetes, dislipidemias (aumento dos níveis de gordura no sangue). Essas condições clínicas que frequentemente estão associadas à obesidade são os principais fatores de risco para a gravidade da doença e mortalidade associadas à COVID-19.

Em um estudo realizado em 2020, em 88 hospitais com 7.606 pacientes internados por COVID-19, foi observado que mais de 50% da amostra tinha sobrepeso ou obesidade; e a obesidade foi o fator de maior associação com maior risco de mortalidade intra-hospitalar e ventilação mecânica quando comparados a pessoas com peso dentro do considerado normal de acordo com o Índice de Massa Corporal (IMC).

Se pensarmos num cenário de uma pessoa obesa com câncer, seria este risco aumentado? Alguns artigos científicos mostraram que pacientes com tumores hematológicos, por exemplo, podem ter um nível aumentado de inflamação, o que contribuiria para uma resposta exagerada à infecção causada pela COVID-19. Outro estudo realizado em 2020 com pacientes oncológicos observou que a taxa de admissão na Unidade de Terapia Intensiva foi maior em pacientes obesos e com tumores hematológicos, entretanto, quando avaliado o prognóstico, a obesidade não foi associada à mortalidade nestes pacientes. Todavia, a falta de dados na literatura nos leva a entender que a relação entre obesidade e câncer no contexto da COVID-19 ainda não está bem elucidada e faltam dados científicos para esclarecer melhor essa associação.

É importante ressaltar que, para pacientes oncológicos é necessário investigar além da obesidade, a composição corporal (associação entre alteração da massa muscular e adiposa) e a condição do sistema imunológico (geralmente prejudicada em pacientes em tratamento sistêmico, como a quimioterapia e, também pelo tipo de tumor, como os hematológicos) o que aumenta o risco por infecções virais oportunistas.

Enquanto há uma escassez de estudo neste assunto, deve-se enfatizar a importância de hábitos saudáveis a fim de prevenir a obesidade. Em caso de pacientes oncológicos, uma alimentação bem equilibrada e variada pode auxiliar a preservar a imunidade e prevenir possíveis infecções associadas à queda do sistema imune.