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Câncer de bexiga: uma avalanche de novidades, um emaranhado de complexidades

O câncer de bexiga é um tipo de tumor geralmente agressivo e que, até há poucos anos, tinha poucos tratamentos eficazes quando a doença estava avançada. Hoje, a história está mudando, apesar de alguns entraves da pandemia de COVID-19 e de questões regulatórias do Brasil.

Anualmente, 437.000 casos são descobertos no mundo, levando a 186.000 mortes. Esses números fazem da neoplasia a nona mais comum no planeta. Mais de 70% dos casos ocorrem em pessoas com mais de 65 anos.

O principal fator de risco é o tabagismo. O cigarro é composto de mais de 60 substâncias carcinogênicas e aumenta em quase 5 vezes a chance de uma pessoa desenvolver o tumor. Além disso, o tumor de quem fuma geralmente é mais agressivo quando comparado com de quem não fuma.

O principal sintoma do tumor de bexiga é a hematúria, que significa sangue na urina. 20% dos pacientes com hematúria macroscópica (visível a olho nu) são diagnosticados com câncer de bexiga. Além desse, sintomas de obstrução urinária e dor também podem ocorrer.

Geralmente o diagnóstico deste tumor começa com exames de imagem para investigar hematúria, como ultrassom ou tomografia. Após, para confirmação, é necessária biópsia por raspagem da bexiga com cistoscopia, que é a inserção de uma câmera dentro da bexiga. Na maioria das vezes, o tumor é pequeno, localizado e superficial (75%).

Durante a pandemia de COVID-19 tem ocorrido uma grande preocupação com o atraso no diagnóstico de diversos tipos de câncer, incluindo o de bexiga. É muito importante lembrar que no início da pandemia, em 2020, havia uma tendência mundial de postergar alguns exames e procedimentos, o que incluía intervenções para tumor de bexiga iniciais. Porém, com a duração da pandemia tendo se estendido mais do que a população imaginava, hoje não se orienta esse adiamento.

Um estudo na Turquia mostrou que o atraso de 2,5 meses na realização de exames de seguimento mais que dobrou as chances de recidiva e chegou a aumentar em mais de 6 vezes a chance de progressão do tumor.

Um outro estudo, austríaco, evidenciou um aumento significativo de tumores mais avançados e agressivos. Nele, houve também a identificação de uma redução do número de procedimentos de cistoscopia, que serve tanto para diagnosticar quanto para fazer o seguimento.

Desse modo, hoje, os sintomas devem ser imediatamente investigados e o tumor tratado como deve ser num cenário normal. Isso visa evitar que os pacientes cheguem ao oncologista com a doença mais avançada. O cenário tornou-se mais comum para este tipo de tumor pelo fato da população ser mais idosa.

Um outro problema enfrentado, além do atraso no diagnóstico, é o da falta de leitos para procedimentos em virtude da saturação por internações COVID-19. Portanto, é importante sempre lembrar que as medidas de prevenção da disseminação do vírus e a vacinação são medidas imprescindíveis, já que achatam a curva de contágio e mortes, liberando leitos para pacientes que precisem.

Em relação ao tratamento, quando o tumor está bem pequeno e superficial, o padrão é fazer a raspagem dentro da bexiga e imunoterapia com BCG (sim, a mesma da vacina infantil), a fim de evitar que o tumor volte. Quando o tumor está maior, mas ainda localizado, o ideal é realizar cirurgia com quimioterapia (antes ou depois). Essas duas terapias são consagradas e antigas, e continuam sendo utilizadas nos dias atuais. Nesse cenário, poucas mudanças significativas ocorreram.

No caso da doença com metástases, porém, houve uma revolução. Geralmente, o quadro é incurável e os tratamentos envolvem medicações endovenosas que retardam o crescimento do tumor, aumento assim o tempo de vida do paciente. Nos últimos 5 anos, surgiram várias novas opções. A imunoterapia chegou inicialmente para pacientes que tivessem falhado com a quimioterapia. O benefício mostrado foi de 30% de redução de risco de morte, com pacientes vivendo quase o dobro do que anteriormente, após 2 anos. Mais recentemente, também passou a ser indicada em cenários mais precoces, para aqueles que tivessem contraindicação à quimioterapia e mesmo para aqueles que tivessem respondido ao tratamento inicial com a mesma. Nesta última situação, por exemplo, o Avelumabe reduziu em 31% a chance de morte dos pacientes.

Essas novas indicações mostraram que o tumor de bexiga é mais um para o qual a imunoterapia pode trazer mais tempo de vida, preservando a qualidade de vida.

Mas não só a imunoterapia trouxe benefícios para os pacientes com câncer de bexiga. As terapias-alvo também se mostraram eficazes. Notadamente, duas drogas foram testadas e aprovadas no cenário de segunda linha: o Enfortumabe e o Erdafitinibe. O primeiro, para qualquer paciente após quimioterapia com platina. O segundo, para pacientes com uma alteração específica no gene FGFR. Essas medicações entram para aumentar o arsenal desses pacientes E trazem um alento aos pacientes com esse tipo de tumor.

Entretanto, ambas as drogas têm acesso restrito no Brasil: o Enfortumabe ainda não foi aprovado pela Anvisa para comercialização e o Erdafitinibe, que é oral, não está na lista da ANS de coberturas obrigatórias. Ademais, no SUS, o acesso a qualquer uma dessas terapias ou mesmo à imunoterapia é apenas uma ilusão. Os pacientes do sistema público ainda não podem contar com nenhuma dessas terapias, infelizmente.

Todo esse cenário, apesar de animador em função das novidades, traz à tona diversas discussões: o alto custo das medicações vem pressionando a sustentabilidade dos planos de saúde e, assim, a saúde vai ficando cada vez mais desigual, mesmo dentro da própria realidade privada. Fato é que a ciência avançou a passos largos nos últimos anos para o câncer de bexiga, trazendo esperança aos pacientes de uma vida mais longa e com mais qualidade. Porém, o cenário da saúde no Brasil ainda alimenta desafios cada vez mais complexos que só serão resolvidos com muita seriedade na condução política.

 

Referências:

https://www.scielo.br/j/ibju/a/c35YybdnjhdGscdJdrL7qkw/?lang=en

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34117682/

 

8 de julho: Dia Nacional da Ciência e do Pesquisador

Hoje, dia 8 de julho, celebramos o Dia Nacional da Ciência e do Pesquisador Científico. Não é novidade que a ciência tem sido assunto recorrente em nossas rotinas. Aliás, estamos vivendo (ou melhor, sobrevivendo) a uma pandemia que certamente tem sido o maior desafio para a ciência moderna. Em muito pouco tempo, vimos um vírus novo surgir e, com ele, perdemos nossa liberdade, nossa tranquilidade e, infelizmente, muitas vidas. Mas é também neste mesmo tempo que vimos a ciência brilhar com o desenvolvimento das vacinas contra o coronavirus; vacinas estas que estão trazendo de volta a esperança de um mundo “normal”.

Apesar de toda a gratidão que devemos aos pesquisadores e cientistas que trabalharam pelas vacinas, é frequente nos depararmos com uma desconfiança de parte da população quanto à eficácia, segurança e até procedência dos imunizantes. E foi aí que presenciamos o surgimento do termo não científico de “sommelier de vacinas”. O termo “sommelier” é frequentemente utilizado no mundo dos vinhos e, geralmente, denomina profissionais especializados em degustação e apreciação desta bebida. Vale ressaltar que para adquirir essa titulação é necessário um vasto conhecimento sobre a produção dos vinhos, o cultivo das uvas, as técnicas de fermentação, e as formas de harmonização dos diversos vinhos. Em contrapartida, para ser “sommelier de vacinas” pouco se faz necessário; basta uma pequena dose de ignorância e muita confiança num “desconhecimento científico” sobre os imunizantes.

O retorno a vida “normal” depende diretamente do avanço da imunização em massa da população. O indivíduo que se acha no direito de escolher a vacina que vai tomar baseando-se na marca, fabricante ou alguma característica do imunizante está justamente remando contra essa onda de vacinação que tanto estamos precisando. E evidentemente, está contra a ciência.

Todos os imunizantes disponíveis e em aplicação no mercado foram devidamente testados em ensaios clínicos randomizados e aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), comprovando sua eficácia contra formas graves da doença que há mais de um ano vem superlotando os hospitais do Brasil. Estamos vendo o efeito das vacinas nos países cuja vacinação está avançada, com o retorno da socialização, dos eventos, dos jogos de futebol e demais esportes. Hoje, no Dia Nacional da Ciência e do Pesquisador, tudo que queremos é que a vacina (qualquer que seja ela) seja devidamente disponibilizada e aplicada. E, claro, queremos que ela funcione, assim com está funcionando em outros lugares do mundo. Só assim, apoiados em boa ciência, venceremos a pandemia.

Fica aqui os parabéns do Grupo SOnHe aos cientistas e pesquisadores que, de forma direta ou indireta, estiveram envolvidos no desenvolvimento e aprimoramento das vacinas. Que saibamos valorizar e respeitar ciência!

 

A um passo de uma revolução da oncologia no Brasil

Falta pouco! Em um dia histórico, a Câmara dos Deputados aprovou hoje (01/07/2021) um dos projetos mais esperados pelos pacientes com câncer: o PL 6.330/2019. Agora, vai para a sanção presidencial para entrar em vigor.

Já havíamos falado antes sobre ele, quando havia sido aprovado pelo Senado. Para quem não se lembra, este projeto consiste na mudança no processo de cobertura de medicações orais contra o câncer pelos planos de saúde.

As medicações orais têm se tornado cada vez mais comuns no tratamento do câncer, com muitas demonstrando benefício nos mais diversos tipos de neoplasias. Restringir o seu uso é, portanto, um prejuízo enorme aos paciente.

Como explicado em posts anteriores, (https://sonhe.med.br//2019/09/03/simparaquimiooral/), hoje, quando uma medicação oral mostra benefício para o tratamento de um tipo de tumor, ela tem que passar por duas aprovações para ser coberta pelos planos de saúde:

– Primeiro, a Anvisa tem que autorizar a comercialização daquela droga – caso ela ainda não seja comercializada no país – e incluir a indicação específica na bula;

– Em seguida, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), deve incluir a medicação em uma lista, chamada “Rol da ANS”.

Contrariamente, lembramos também que a aprovação de medicações injetáveis é diferente e muito mais rápida: a partir do momento em que a ANVISA faz a inclusão em bula, os planos tornam-se obrigados a cobri-las.

Caso a ANS não faça a inclusão no seu Rol, os planos não estão obrigados a pagar aquela medicação, que geralmente tem preços muito elevados e, frequentemente, não tem similares injetáveis. E o maior problema vem do fato de que esta lista é atualizada a cada dois anos; sendo assim, com as questões burocráticas de submissão e aprovação, uma droga que funciona para um tipo de câncer pode demorar mais de dois anos para estar disponível na prática para os pacientes. Ademais, com a evolução rápida da Medicina – notadamente da Oncologia – as novidades não param de surgir, portanto, a necessidade de maior rapidez na aprovação é urgente.

E é essa situação que o PL 6.330/2019 vai mudar. Segundo o projeto, a Lei obrigaria as operadoras de saúde a cobrirem o uso de qualquer medicação oral a partir da sua inclusão na bula, retirando a etapa de aprovação pela ANS e, assim, antecipando – e muito – o acesso a terapias benéficas. Não só isso, a nova Lei estabelece um prazo de 48 horas para os planos liberarem a medicação.

Hoje, após muita batalha, é uma data crucial e que, esperamos, mudará em muito o acesso aos tratamentos oncológicos no Brasil. Esperamos a aprovação agora do Presidente da República.

Lembramos, aqui, que essa Lei não valerá para os pacientes do SUS e, portanto, infelizmente aumentará o abismo que existe em relação ao acesso aos tratamentos entre o SUS e os planos de saúde. A Câmara rejeitou inclusive um adendo que expandiria esse projeto ao SUS.

 

Referências:

www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2255608

http://ladoaladopelavida.org.br/detalhe-noticia-ser-informacao/manifesto-pacientes-oncologicos-acesso-aos-tratamentos-antineoplasicos-orais

https://www.simparaquimiooral.org.br/

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9656.htm

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2013/Lei/L12880.htm#art2

http://www.ans.gov.br/component/legislacao/?view=legislacao&task=TextoLei&format=raw&id=MzUwMg==

http://www.ans.gov.br/images/stories/parecer_tecnico/uploads/parecer_tecnico/_PARECER_27-2018_MEDICAMENTOS%20ANTINEOPLSICOS%20ORAIS_VERSO%20FINAL_27122017.pdf

 

 

Terapia personalizada para câncer de pulmão no Brasil

Os pacientes com câncer de pulmão têm agora uma nova opção de tratamento. No dia 29 de junho, a Anvisa aprovou a comercialização da medicação Tepotinibe no Brasil. Esta droga é mais uma terapia-alvo, tipo de terapia que vem cada vez mais trazendo benefícios para os pacientes.

A indicação da droga é para paciente com câncer de pulmão de não-pequenas células avançado com mutação skipping no éxon 14 gene MET. O estudo que embasou essa indicação foi o VISION, que tinha um único grupo de 152 pacientes. A resposta objetiva foi de 46% e a sobrevida mediana foi de 17,1 meses, ambos os dados independentes de tratamentos prévios. Os efeitos colaterais foram bem tolerados.

Apesar de não ser um estudo grande, esse tipo de análise é feita com menos pacientes em razão da raridade da alteração genética.

A novidade traz mais uma possibilidade de tratamento para os pacientes com câncer de pulmão, que, na última década, ganharam uma gama enorme de novos caminhos, levando a um aumento de sobrevida, sempre tentando manter a qualidade de vida. Lembrando que, sendo uma medicação oral, ela não está disponível de forma rotineira, já que não está inclusa no rol da ANS. Além disso, também não está disponível no SUS.

 

Referências:

Paik PK, Felip E, Veillon R, Sakai H, Cortot AB, Garassino MC, Mazieres J, Viteri S, Senellart H, Van Meerbeeck J, Raskin J. Tepotinib in Non–Small-Cell LungCancer with MET Exon 14 Skipping Mutations. New England Journal of Medicine. 2020 May 29.

 

26 de junho: Dia Internacional de Combate às Drogas

O dia 26 de junho marca a data escolhida pela Organização das Nações Unidas (ONU) para o Dia Internacional de Combate às Drogas. O uso de drogas é um mal social em todo o mundo. O Relatório Mundial sobre Drogas da ONU aponta a existência de uma média de 27 milhões de usuários de drogas – aqueles que consomem drogas regularmente ou que apresentam distúrbios ou dependência.

O número corresponde a 0,6% da população adulta mundial, ou seja, cerca de uma a cada 200 pessoas. No Brasil, estima-se 5,7% da população, isto é, mais de 8 milhões de pessoas podem ser consideradas usuárias de drogas.

O vício não se origina na falta de princípios morais ou falta de vontade. Na verdade, trata-se de uma doença complexa e crônica, visto o alto índice de recorrências e recaídas. As drogas modificam a química do cérebro, tornando um desafio o autocontrole para resistir aos impulsos de uso da substância.

No Brasil, temos políticas nacionais de atendimento aos usuários de drogas inseridas no Sistema Único de Saúde (SUS). Este é oferecido nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e nos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas III (CAPS AD 24 horas); e conta com equipes multiprofissionais compostas por médico psiquiatra, clínico geral, psicólogos, dentre outros.

O CAPS AD, por exemplo, é um serviço específico para o cuidado, atenção integral e continuada às pessoas com necessidades em decorrência do uso de álcool, crack e outras drogas. Os centros oferecem diversos atendimentos à população, com acompanhamento clínico e a reinserção social dos usuários pelo acesso ao trabalho, lazer, exercício dos direitos civis e fortalecimento dos laços familiares e comunitários.

Os CAPS também atendem aos usuários em seus momentos de crise, podendo oferecer acolhimento noturno por um período curto de dias. Além de apoiar os usuários, as famílias também recebem atendimento na busca de independência e responsabilidade para com o tratamento. Este apoio muitas vezes ultrapassa a estrutura física do local. Busca-se uma rede de suporte social que possa garantir o sucesso do tratamento, pensando na pessoa, em sua história, cultura e vida cotidiana.

Este dia é importante para nos lembrar dos desafios envolvidos no combate às drogas e no cuidado de seus usuários. As políticas de combate a elas devem refletir sobre a complexidade que o tema necessita, considerando os aspectos da sociedade atual, fatores sociais e suas peculiaridades.

 

Referências:

UNIAD – Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas.

UNODC – Agência das Nações Unidas contra drogas e o crime.

Blog da Saúde – Ministério da Saúde.

KARAM, Maria Lucia. Drogas: Legalizar para respeitar os direitos humanos. Conferência do Seminário Redução de Danos: Saúde, Justiça e Direitos Humanos. Salvador-BA. 2015).

 

Tratar o câncer sem esquecer do coração

Isabela de Lima Pinheiro

Com a melhora na sobrevida de pacientes com câncer, alguns efeitos adversos das terapias contra os tumores se tornaram mais evidentes. E esse é o principal foco da cardio-oncologia: o estudo da cardiotoxicidade dos tratamentos oncológicos. A radioterapia e alguns tipos de quimioterapia são destinados a atingir o tecido tumoral, mas podem afetar os tecidos saudáveis, causando efeitos colaterais indesejáveis.

A cardiotoxicidade pode se apresentar de forma aguda, subaguda ou crônica. Nos casos crônicos, a manifestação mais típica é a disfunção ventricular, que pode levar à insuficiência cardíaca. De acordo com informações da Sociedade Internacional de Cardio-oncologia, somente nos EUA há sete milhões de pessoas tratadas com sucesso para o câncer com drogas com potencial cardiotóxico. A identificação dos primeiros sinais de células cardíacas intoxicadas pela quimioterapia é feita por meio de testes relativamente simples: exame de sangue para dosar algumas proteínas e/ou hormônios e ecocardiograma. Além disso, algumas manifestações clínicas como insuficiência cardíaca, arritmias e hipertensão arterial precisam ser monitoradas.

Em relação às escolhas terapêuticas, algumas drogas reconhecidamente apresentam maior cardiotoxicidade. Destacam-se os quimioterápicos da família das antraciclinas, mais usados no tratamento de linfomas e tumores da mama.

Os grupos mais suscetíveis para apresentarem algum problema cardíaco durante o tratamento do câncer são as crianças, os idosos e os indivíduos que já tenham feito algum tratamento cardíaco, como ponte de safena, colocação de marca-passo e, ainda, pessoas que já apresentam previamente insuficiência cardíaca ou aqueles indivíduos com algum tipo de miocardiopatia, que são doenças do músculo cardíaco.

Nesse sentido, a atuação precoce e conjunta do cardio-oncologista é fundamental para evitar sequelas no sistema cardiovascular, permitindo que o tratamento do câncer continue de forma segura e sem prejuízo ao coração. A atuação ocorre com medidas de cuidado integral: controle da ingestão de sódio, exercícios físicos e a perda de peso prudente. Em alguns casos é indicado o uso de medicamentos específicos como os diuréticos e betabloqueadores. Além da manutenção da prevenção dos fatores de risco cardiovasculares típicos como em qualquer outro momento de vida.

A cardio-oncologia vem ganhando espaço entre as especialidades médicas visto que a integração entre cardiologistas e oncologistas oferece ao paciente o melhor cuidado integral possível durante e após o tratamento oncológico.

 

  1. Kalil Filho, R et al. I Diretriz Brasileira de Cardio-Oncologia da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Arquivos Brasileiros de Cardiologia [online]. 2011, v. 96, n. 2 suppl 1 [Acessado 16 junho 2021], pp. 01-52. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0066-782X2011000700001
  2. Hajjar LA, Costa IBSS, Lopes MACQ, Hoff PMG, Diz MDPE, Fonseca SMR, Bittar CS, et al. Diretriz Brasileira de Cardio-oncologia – 2020. Arq. Bras. Cardiol. 2020;115(5):1006-43.
  1. Lenihan D.J.; Cardinale D.; Cipolla C.M.; The compelling need for a cardiology and oncology partnership and the birth of the International Cardioncology Society. Prog Cardiovasc Dis. 2010; 53: 88-93

21 de Junho: Dia Mundial da Yoga

Rafael Luís

Vivian Antunes

A yoga é uma forma milenar de exercício para o corpo e a mente. Seu principal objetivo é criar conexão e harmonia entre corpo, mente e espírito. É uma filosofia tão antiga que historiadores têm dificuldade em datar com precisão seu início. Alguns arqueólogos encontraram os traços mais antigos da yoga há 5.500 anos. É surpreendente perceber que essa prática atravessou tantos anos e se mantém tão viva nos tempos de hoje, o que nos refletir sobre sua força.

Algumas formas de yoga são bastante árduas, enquanto outras são mais leves e se concentram mais no trabalho de meditação e respiração. A prática da yoga pode não apenas tornar nossos músculos e articulações mais flexíveis, mas também promover relaxamento intenso e maior controle das emoções. É nesse ponto que as coisas passam a se conectar: o câncer e yoga.

Pacientes com câncer frequentemente experimentam sensações desagradáveis e aversivas, sejam físicas pela própria doença ou pelos efeitos do tratamento, ou emocionais, com aumento de ansiedade, angústia e sintomas depressivos. Nesse sentido, buscar maneiras de bem-estar físico e emocional dentro das condições que o adoecimento traz, são medidas importantes para melhorar a qualidade de vida durante e após o tratamento. A yoga pode ser, portanto, uma importante terapia complementar e forte aliada do paciente com câncer.

Em 2010 foi publicada uma revisão sistemática que avaliou justamente a relação entre os potenciais benefícios da yoga para pacientes com câncer. Como resultado, os pesquisadores concluíram que a yoga pode ajudar a reduzir a ansiedade, a depressão, o cansaço (fadiga) e estresse. Foi também capaz de melhorar a qualidade do sono, humor e bem-estar espiritual.

Adicionalmente, um estudo específico sobre o uso de yoga em pacientes tratando câncer de mama comprovou que, além da redução do cansaço, as pacientes passaram a ter um melhor enfrentamento do processo de adoecimento, com significativa redução da percepção de sofrimento. Nesse estudo, 191 mulheres com câncer de mama foram distribuídas aleatoriamente em três grupos: 1) yoga; 2) alongamento simples; ou 3) nenhuma instrução sobre yoga ou alongamento.

Como resultado, as mulheres que praticaram yoga durante o período de tratamento relataram maiores benefícios ao seu funcionamento físico e em sua saúde geral, como redução de fadiga. Também foram mais propensas a encontrar significado de vida a partir de sua experiência com o câncer do que os outros grupos. Umas das possíveis explicações para esses dados positivos seria a redução do hormônio cortisol (hormônio do stress), que foi comprovado por meio de amostras de saliva no mesmo estudo.

Também já sabemos que a insônia é um problema que aflige muitas pessoas pelo mundo, incluindo pacientes com câncer. E a yoga mostrou benefício neste cenário.

Foi feita uma metanálise (análise estatística da combinação de dados dos estudos disponíveis) que tentou responder se yoga era mais ou menos eficaz que caminhada para melhorar problemas de sono de pacientes com neoplasias malignas. Os autores encontraram 25 estudos – o que representou quase 2.000 pacientes. A maioria dos pacientes tinham câncer de mama (72%) e, portanto, quase 86% eram mulheres. A análise demonstrou que a ambos os exercícios são eficazes em promover uma boa noite de sono, mas a caminhada – de intensidade moderada – parece levar uma vantagem na comparação.

Apesar das limitações, o que podemos tirar desse estudo é que atividade física regular é importante em razão de inúmeros aspectos, inclusive para ajudar a melhorar a insônia. Não só isso: os resultados reforçam que a caminhada é um exercício fácil de fazer, não precisa de estrutura específica e tem eficácia até maior que outras atividades mais complexas. Lembrando sempre que pacientes com problemas graves pulmonares e/ou cardíacos devem ter orientação do médico para liberação para realização de exercícios.

Pratique yoga (ou qualquer atividade física): faz bem para a saúde e ajuda a dormir melhor!

 

Referências:
Smith KB, et al. An evidence-based review of yoga as a complementary intervention for patients with cancer. Psychooncology. 2009 May;18(5):465-75.

Tang MF, et al. Walking is more effective than yoga at reducing sleep disturbance in cancer patients: A systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Sleep Med Rev. 2019;47:1-8

Doar sangue: um ato de solidariedade

Todos os anos, em junho, ocorre a campanha Junho Vermelho, que tem como objetivo conscientizar a população sobre a importância da doação de sangue. Este ano não poderia ser diferente! A situação das reservas de sangue do Hemocentro da Unicamp é caótica, conforme site deles no dia 9 de junho:

Nesse contexto, muitas pessoas procuram centros de doação com intuito de ajudar e acabam se frustrando com a lista de requisitos para ser doador. Para entendermos o porquê de tanto cuidado com a seleção de doadores, precisamos ter em mente dois pontos: primeiro, a doação de sangue é um procedimento extremamente seguro, que costuma acarretar pouco ou nenhum risco para a população em geral. Porém, em grupos específicos, como pacientes com doenças cardíacas, a retirada do volume de sangue necessário pode acarretar efeitos colaterais. Para nós, médicos, a segurança do doador é prioridade, tornando esse risco inaceitável. O segundo ponto é entendermos que os receptores desse sangue costumam estar em estado de saúde ruim; muitos, inclusive, com estado imunológico reduzido (como por exemplo, pacientes com câncer pós-quimioterapia), e, assim, devemos minimizar ao máximo o risco de complicações associadas à transfusão.

Um dos primeiros pontos que devem ser observados é a idade do candidato à doação: no Brasil, a lei permite doação a partir dos 16 anos de idade, sendo que para aqueles que ainda não completaram 18 anos é necessária aprovação por escrito de um responsável legal. É preciso também ter peso mínimo de 50kg. Isso porque, por motivos técnicos, a quantidade de sangue doada é padronizada (ou seja, independente de pesar 50kg ou 100kg, o volume de sangue retirado é o mesmo, que pode não ser tolerado caso o doador tenha baixo peso). A doação de sangue também não é permitida durante a gestação e nos 12 primeiros meses após o parto, caso a candidata esteja amamentando. Não é necessário jejum para doar sangue, apenas é recomendado que se evite refeições gordurosas antes da doação.

Com relação aos hábitos de vida, é necessário que o candidato tenha parceiro (a) sexual fixo, sem relações ocasionais com terceiros, há pelo menos seis meses. O candidato deve ter boas condições de saúde. Porém, algumas doenças não impedem a doação, desde que controladas, tais como hipertensão, dislipidemia (o famoso “colesterol alto”), hipotiroidismo, entre outras. Já antecedente de neoplasia maligna, mesmo que curada, diabetes insulino-dependente, infecção prévia por HIV, hepatite C ou B e doença de chagas, doença cardíaca importante e outras doenças graves excluem definitivamente o candidato à doação.

“Mas doutor, mesmo se meu câncer estiver curado, não posso doar sangue?”: Infelizmente, pela legislação brasileira atual, não. Os únicos tipos de tumores que não contraindicam a doação são o carcinoma basocelular (um tipo de tumor de pele) e carcinoma de colo uterino in situ. Tal proibição deve-se ao risco teórico de que células cancerígenas do doador possam ser transmitidas pelo sangue e se implantem no receptor. Tal proibição é alvo de debates frequentes, pois, até o momento, não há comprovações científicas contundentes de que pacientes curados de suas neoplasias sejam capazes de transmiti-las pela doação de sangue. Inclusive, alguns países como EUA e Austrália permitem a doação de pacientes com história prévia de câncer, desde que este estejam curados e o tratamento tenha acabado há mais de um ano. Esperamos que a demanda crescente do uso de sangue, e, com isso, a necessidade cada vez maior de doadores, leve à revisão dos critérios atuais, permitindo que pacientes com neoplasias curadas e tantas outras restrições sem embasamento científico claro sejam incluídas no pool de doador.

Ah! E vacina para imunizar da COVID-19 não é contraindicação para doar, não! Basta aguardar o intervalo de 48 horas da vacina se você tiver recebido Coronavac/Pfizer e 7 dias se você tiver recebido da Astrazeneca/Fiocruz.

Se você tiver chegado ao final desse texto e ter descoberto que não pode ser um doador de sangue, não fique triste ou frustrado. Existem outros meios extremamente válidos de ajudar nesta causa, como conversar com amigos e familiares sobra a importância de ser doador, divulgar e apoiar campanhas de doação, compartilhar informações de qualidade, entre várias outras formas. Todo auxílio é válido para continuar a permitir que este ato de solidariedade continue a salvar vidas por todo o mundo.

 

Referências

Imunoterapia para câncer de estômago

No último dia 10 de maio, a Anvisa aprovou em bula a indicação de uso de Nivolumabe combinado à quimioterapia para pacientes com câncer gástrico ou da junção gastroesofágica avançados. Esse tipo de tumor é agressivo e com altos índices de mortalidade quando metastático. É semelhante ao que, infelizmente, levou ao ex-prefeito de São Paulo, Bruno Covas, a falecer recentemente de forma tão precoce.

O estudo que embasa a indicação é o Checkmate-649, que comparou o uso combinado de quimioterapia e imunoterapia com a quimioterapia isolada em 1.581 pacientes, mostrando uma redução de 29% do risco de morte para os pacientes com marcador PD-L1 > 5%. Além disso, a taxa de resposta foi consideravelmente maior (60 x 45%) nesses indivíduos. Os dados também confirmaram o benefício para a população geral, independente do PD-L1. Quanto à segurança, os efeitos colaterais foram toleráveis, apesar de frequentes em ambos os grupos.

A imunoterapia já tinha indicação em linhas posteriores de tratamento, mas, na primeira linha, é a primeira vez que é aprovada no Brasil.

Esses dados são importantes pois adicionam uma opção para esses pacientes e promovem um aumento significativo, apesar de pequeno, em sobrevida global, que é curta nesse cenário.

Vale lembrar que essa aprovação em bula promove acesso aos pacientes com plano de saúde, mas não aos dependentes do SUS. A medicação, muito cara, ainda será pouco disponível para a nossa população, um cenário contra o qual devemos sempre nos esforçar para mudar.

Referências:

https://oncologypro.esmo.org/meeting-resources/esmo-virtual-congress-2020/nivolumab-nivo-plus-chemotherapy-chemo-versus-chemo-as-first-line-1l-treatment-for-advanced-gastric-cancer-gastroesophageal-junction-cancer

Dia Nacional da Imunização: vacinas salvam vidas

Vacinas salvam vidas. E é muito importante repetir essa frase para nos lembrarmos desse ato tão valioso para humanidade, principalmente agora durante a pandemia de COVID-19.

No dia 9 de junho, é celebrado o Dia Nacional da Imunização. O foco da campanha é conscientizar a população da necessidade de manter a carteira vacinal atualizada. Atualmente, obviamente, a principal é a contra a COVID-19, que está, a passos lentos, em andamento. Porém, devemos lembrar que várias outras doenças têm vacinas direcionadas, mesmo em adultos vacinados na infância.

As vacinas protegem contra a ocorrência de diversas doenças infecciosas, desde a poliomielite, que pode deixar pessoas sem movimentos, até a pneumonia, que pode levar pessoas, principalmente idosos, à morte. Não só isso, temos também as vacinas que podem prevenir o câncer, no caso, a do HPV evita tumor de colo do útero. Muitas patologias foram erradicadas, como a varíola e a poliomielite, enquanto outras – como a gripe, o tétano e a coqueluche – tiveram seu impacto na saúde da população consideravelmente reduzido (>90%) e são doenças controladas atualmente.

O ato de vacinar é importante não só para a pessoa vacinada, mas também para a população em geral de um país. O freio da contaminação por doenças infecciosas reduz a mortalidade da população em geral, principalmente daqueles considerados como grupos de risco. Inclusive, existem pessoas que não podem ser vacinadas por alguma doença que contraindica, ou que ainda não têm idade (recém-nascidos); essas pessoas talvez sejam as mais beneficiadas pela vacinação em massa de quem pode.

Infelizmente, alguns dados recentes mostram que a cobertura vacinal para essas doenças tem caído, chegando a níveis preocupantes abaixo de 80%. Isso pode levar a um recrudescimento de casos e também a mortes. Um dos motivos é a própria pandemia, mas também há um número crescente de pessoas contrárias às vacinas, ou seja, que não acreditam na ciência. Essa situação é muito perigosa.

Criado há 47 anos, o Programa Nacional de Imunização do Brasil é uma das referências mundiais da área, já que atinge uma população de mais de 200 milhões de habitantes de forma gratuita e eficiente.

Atualmente, são 18 as vacinas disponibilizadas para crianças e adolescentes. No caso de adultos, as principais são a de febre amarela, a dupla adulto (difteria e tétano, renovada a cada 10 anos), a de hepatite B e a de sarampo-caxumba-rubéola (as duas últimas, caso não tenha sido vacinado na infância).

Agora, com a vacina para COVID-19 disponível, devemos reforçar que qualquer uma das disponíveis no país são eficazes e seguras. Todas já foram testadas e aprovadas cientificamente. Em relação ao medo de efeitos colaterais, como trombose, a vacina Oxford/Astrazeneca não promove um risco considerável de complicações quando comparada, por exemplo, aos anticoncepcionais.

As contraindicações são poucas e, caso tenha dúvida, pergunte ao seu médico. Porém, geralmente apenas pessoas com deficiências muito específicas ou alergias a componentes das vacinas não podem tomá-las. Importante lembrar que as duas doses são necessárias para que a vacina realmente funcione, portanto, não perca seu dia de retorno! Além disso, deve-se observar um espaço de 15 dias entre a da COVID-19 e a da gripe.

No site https://portalarquivos.saude.gov.br/campanhas/pni/ todos podem consultar o calendário nacional de vacinação e checar quais vacinas devem ser atualizadas. Leia, converse com seu médico e VACINE-SE! Proteger um é proteger todos!