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Por que devemos ter um mês de conscientização para o câncer de bexiga?

O número estimado de casos novos de câncer de bexiga para o Brasil, para cada ano do triênio de 2023 a 2025, é de 11.370 casos, sendo 7.870 casos em homens e 3.500 em mulheres. Sem considerar os tumores de pele não melanoma, o câncer de bexiga ocupa a 12ª posição entre os tipos de câncer mais frequentes, e a Região Sudeste apresenta as maiores taxas de incidência estimadas. Nessa região, o câncer de bexiga em homens ocupa a 6ª posição e nas mulheres é o 15º mais frequente.

Para o interior de São Paulo, neste mesmo período, estima-se o número de casos novos de: 1.610 para homens e 810 para mulheres. A faixa etária da maioria dos casos ocorre em pessoas com mais de 55 anos.

 

Fatores de risco

– Tabagismo: fumar é o principal fator de risco para o câncer de bexiga, sendo responsável por cerca de metade dos casos.

– Exposição a substâncias químicas: a exposição a certos produtos químicos utilizados nas indústrias de tintas, borracha e outros pode aumentar o risco.

– História familiar: ter um histórico familiar de câncer de bexiga também pode aumentar o risco.

– Infecções crônicas: infecções urinárias crônicas e o uso prolongado de sondas urinárias podem ser fatores de risco.

 

Diagnóstico

– Sintomas: sangue na urina (hematúria) é o sintoma mais comum. Outros sintomas podem incluir dor ao urinar, necessidade frequente de urinar e dor abdominal.

– Exames: a cistoscopia é um exame essencial para o diagnóstico, permitindo a visualização direta da bexiga e a biopsia do tumor. Outros exames incluem exames de urina, ultrassonografia e tomografia computadorizada para avaliar se o tumor apresenta metástases.

 

Tratamento

– Cirurgia: a ressecção transuretral do tumor vesical (RTUV) é comum para tumores superficiais. Em casos mais avançados, pode ser necessária a cistectomia (remoção da bexiga).

– Terapia intravesical: instilação de medicamentos diretamente na bexiga, como o BCG (Bacillus Calmette-Guérin), pode ser utilizada para tratar e prevenir a recidiva de tumores superficiais. Nos últimos anos, há uma escassez dessa medicação por falta de interesse da indústria em produzi-la. Felizmente, no último ano houve uma regularização da disponibilidade.

– Quimioterapia e imunoterapia: podem ser utilizadas antes ou depois da cirurgia ou mesmo em casos metastáticos.

– Terapia-alvo: este tratamento menos tóxico e mais eficaz tem seu papel quando o tumor é metastático e tem algumas mutações específicas.

 

Prevenção e controle

– Cessação do tabagismo: a principal medida preventiva é parar de fumar.

– Exames regulares: pessoas com alto risco devem realizar exames regulares para detecção precoce. O médico urologista é o melhor profissional para determinar a necessidade desses exames

– Saúde ocupacional: medidas de proteção para trabalhadores expostos a produtos químicos são essenciais.

 

A abordagem do câncer de bexiga envolve uma equipe multidisciplinar para oferecer o melhor tratamento possível e aumentar as chances de cura e qualidade de vida do paciente.

 

2 de julho: Dia do Hospital – A importância do hospital no cuidado dos pacientes oncológicos

A grande maioria dos pacientes com câncer necessita de internações hospitalares ao longo de sua trajetória de doença. O hospital é imprescindível quando pensamos em tratar essas pessoas, não só porque é lugar-comum a realização de cirurgias, mas também porque os tratamentos são tóxicos, os pacientes têm média de idade mais avançada e, por ser uma doença grave, leva muitas pessoas a falecerem, o que geralmente ocorre durante uma internação.

Os pacientes com câncer comumente descobrem sua doença a partir de uma biópsia ou mesmo uma cirurgia, de urgência ou não, e, portanto, são internados para tais procedimentos. Ao longo da trajetória da doença, podem precisar de novos procedimentos cirúrgicos, levando a novas visitas ao hospital.

Após o diagnóstico, inicia-se o tratamento e, então, podem ocorrer os efeitos colaterais do mesmo. Como exemplo, algumas vezes pacientes têm vômitos e diarreia intensos com quimioterapia, ficando desidratados e necessitando comparecer ao pronto socorro.

As emergências oncológicas também contribuem para internações, que geralmente são prolongadas. A neutropenia febril, uma complicação da quimioterapia, é um diagnóstico recorrente em pacientes em tratamento com quimioterapia. Outro exemplo, a compressão medular é um quadro em que a equipe deve atuar rapidamente a fim de evitar sequelas como a paraplegia.

Além disso, os pacientes com câncer têm, felizmente, vivido mais tempo com os tratamentos mais avançados. Além disso, o câncer e suas terapias muitas vezes aumentam o risco de trombose, problemas renais, hepáticos ou cardíacos. Sendo assim – e adicionando o fato de que a maioria são idosos – outros problemas de saúde, como pressão alta e diabetes, podem piorar o quadro clínico e também ensejar internações.

Mais à frente, quando a doença está aumentando e torna-se resistente aos tratamentos disponíveis, os sintomas decorrentes dela levam a quadros de infecções, desnutrição, incapacidade de deglutição, comprometimento neurológico, dentre outros problemas. Nesse ponto, a internação muitas vezes torna-se prolongada e a alta para casa, mais difícil de conquistar. Os pacientes, na grande maioria das vezes, vão a óbito na internação e a capacidade de oferecer uma morte digna é um importante indicador de qualidade hospitalar.

Dados do SUS mostram que mais de R$ 13 bilhões foram gastos em 10 anos com 7,5 milhões de internações de pacientes oncológicos. A maioria desses pacientes são de estágios avançados da doença.

No grupo SOnHe, tivemos 1.000 internações em 3 anos, com média de idade de 52 anos, 55% mulheres e 20% com câncer de mama. Mais de 50% têm estágio avançado de doença e temos orgulho de termos indicadores de óbito dentro dos padrões internacionais.

Por conta dessa diversidade de situações que envolvem a internação do paciente com câncer, é muito importante que todo o hospital esteja preparado para oferecer o melhor tratamento. Para isso, a equipe multidisciplinar é fundamental, com o apoio da psicologia, nutrição, fisioterapia, serviço social, fonoaudiologia, farmácia e enfermagem. Não só isso: a capacitação dos médicos do pronto socorro faz a diferença na agilidade para identificação de tratamento dos mais variados quadros clínicos.

Por fim, a equipe médica oncológica dedicada é de suma importância para conduzir cada caso da melhor forma possível, ponderando quais tratamentos vão trazer mais benefícios que malefícios em cada fase da doença, com base, claro, em evidências científicas atualizadas. Tudo isso sempre pensando no melhor para nosso paciente, que está em um momento difícil, principalmente quando está internado, e, por isso, deve receber o melhor cuidado possível.

 

Origem da data

O Dia do Hospital é celebrado em 2 de julho em homenagem à reinauguração da Santa Casa de Misericórdia de Santos-SP, realizada em 1945. Este é considerado o primeiro hospital do Brasil. Em 1543, a Santa Casa de Misericórdia de Santos foi fundada por Brás Cubas (1507-1592), um fidalgo português. Ao longo dos séculos foram sendo reconstruídos e inaugurados vários conjuntos no Hospital, mas apenas aquele inaugurado por Getúlio Vargas em 1945 existe ainda hoje.

 

Referências:

https://rbc.inca.gov.br/index.php/revista/article/view/992/688

 

 

 

Uso racional de medicamentos: Como a Medicina baseada em valor ajuda na decisão mais correta?

Dia 5 de maio é o Dia Nacional do Uso Racional de Medicamentos e este é, sem dúvida, um problema mundial. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 50% das prescrições são inadequadas ou irracionais. Tal fato traz prejuízo não só para saúde das pessoas, mas também para o sistema econômico mundial. Nesse contexto, a Medicina Baseada em Valor (MBV) pode ser um importante aliado para melhorar a situação.

O uso irracional de medicamentos abrange diversas situações, dentre elas estão: a polifarmácia, o uso inadequado de antimicrobianos, o uso de medicações injetáveis em vez de orais quando estas poderiam ser mais apropriadas, o não seguimento das diretrizes clínicas, automedicação e o uso da dosagem incorreta. Dados da OMS mostram que mais de 50% dos pacientes tomam seus remédios incorretamente e 77% dos brasileiros costumam se automedicar.

Essas práticas levam a consequências facilmente identificáveis (aumento de efeitos adversos, alergias, maiores gastos), mas também a desdobramentos “camuflados” (geração de bactérias resistentes, infecção de corrente sanguínea e até mesmo dependência química, por exemplo).

Atualmente, existe, inclusive, um comitê relacionado ao assunto ligado ao Ministério da Saúde, que atua, entre outras frentes, promovendo estratégias para difundir o uso das evidências científicas e de conscientização dos profissionais e dos pacientes. E é nesse contexto que a MBV pode auxiliar.

Mas o que é a MBV? Nada mais é que o uso consciencioso, ou seja, com bom senso, das melhores evidências científicas aliadas ao benefício clínico desejado para cada população ou paciente, levando em conta também os fatores econômicos para o sistema e, também, para o indivíduo. Por meio dela, tenta-se encontrar um equilíbrio entre eficácia dos tratamentos, seu custo e a vantagem real para o paciente.

Com a MBV, diretrizes personalizadas para cada cenário podem ser criadas para guiar os profissionais de saúde a usar os recursos e prescrever medicamentos de forma mais racional. Com isso, os pacientes são tratados de forma mais adequada e com menores custos.

Algumas dicas para os pacientes são:

  • Seguir a indicação médica;
  • Tomar o medicamento pelo tempo adequado;
  • Evitar a automedicação recorrente;
  • Cuidado ao armazenar os medicamentos;
  • Descartar corretamente.

 

Tais diretrizes devem ser utilizadas pelos médicos na hora de decidir que tratamento dar para seu paciente e, nós, como pacientes, devemos também exigir que isso seja feito, para que a nossa saúde seja tratada como deve ser: racionalmente e, claro, sem faltar afeto.

O Ministério da Saúde disponibiliza uma cartilha sobre o assunto em https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cartilha_promocao_uso_racional_medicamentos.pdf

 

 

Câncer de esôfago: mês de conscientização

O esôfago é um tubo muscular que leva o alimento desde a garganta até o estômago. No Brasil, o câncer de esôfago é o 5º mais frequente entre os homens e o 15º entre as mulheres, com estimativa de 11.000 casos e 8.000 mortes por ano, sendo mais de 80% em homens. Aproveitando o mês de abril, mês de conscientização do câncer de esôfago, vamos falar um pouco sobre esse tipo de tumor.

Existem dois tipos:

  • Carcinoma escamoso;

O primeiro está mais relacionado aos principais fatores de risco, que são:

  • o tabagismo (25% dos casos);
  • o uso de álcool;
  • além do consumo de bebidas muito quentes (como o chimarrão).

 

Já o segundo tem uma relação mais estreita com:

  • a obesidade;
  • dieta com poucos vegetais;
  • e refluxo.

Sendo um tipo com aumento do número de casos nos últimos anos.

Muito importante destacar os sintomas mais frequentes, que são, principalmente:

  • dificuldade de deglutição de comida;
  • dor ao engolir;
  • dor no peito;
  • vômitos;
  • perda de peso.

 

O diagnóstico é feito normalmente após o paciente reclamar de sintomas como os descritos acima e realizar uma endoscopia digestiva alta com biopsia.

O tratamento baseia-se em várias estratégias, desde a cirurgia, passando pela radioterapia e até quimioterapia e imunoterapia.

Quanto mais cedo diagnosticado, maiores são as chances de cura. Mesmo se o câncer de esôfago for metastático e incurável, os tratamentos atuais conseguem aumentar o tempo de vida significativamente.

Não existe um exame de rotina para detectar o câncer de esôfago, portanto, o melhor caminho é a prevenção e evitar os fatores de risco.

 

E quais seriam as principais dicas?

  • Não fumar;
  • Evitar o consumo de bebida alcoólica em excesso;
  • Evitar o sobrepeso e a obesidade;
  • Tratar a doença do refluxo gastroesofágico quando presente;
  • Não consumir bebidas quentes em excesso, como café muito quente e chimarrão (acima de 60%).

 

Se você tem algum sintoma, o importante é sempre procurar seu médico!

 

 

Anticorpos-droga conjugados: duas boas notícias para pacientes com câncer de mama

Anticorpo-droga conjugado (ADC): você sabe o que é? É um novo tipo de medicação com um mecanismo de ação diferente e que tenta aliar maior eficácia a menos efeitos colaterais. E o mês de outubro trouxe duas grandes novidades em ADCs para câncer de mama: um lançamento para câncer de mama e uma nova indicação de outro ADC para um tipo específico de câncer de mama. Na esteira do Outubro Rosa foram notícias importantes para as pacientes.

Para entender o que são ADC, temos que pensar um pouco como uma chave e uma fechadura. Para cada chave, existe uma fechadura em que ela se encaixa e abre a porta. No caso, o ADC, como o próprio nome diz, é composto por um anticorpo “grudado” em uma molécula de quimioterapia. Cada ADC tem um anticorpo (chave) direcionado para um tipo de célula tumoral (fechadura) que ele quer atacar. Então, ao entrar no corpo, o ADC se liga e entra naquele tipo de célula específico, levando junto a quimioterapia, o que resulta em morte celular. Isso faz com que menos células “normais” do corpo sejam afetadas e o tratamento seja, portanto, mais direcionado e efetivo, além de provocar menos efeitos colaterais.

Uma das aprovações foi de uma medicação para pacientes com câncer de mama do tipo HER-low, que são pacientes metastáticas que têm uma baixa expressão da proteína HER2. O transtuzumabe-deruxtecana (Enhertu®) chegou recentemente ao Brasil inicialmente para pacientes com tumores HER2 positivo e, agora no final de outubro, a ANVISA incluiu a nova indicação com base nos dados do estudo Destiny-Breast-04, o que vai fazer com que mais pacientes se beneficiem. O anticorpo trastuzumabe é direcionado à proteína HER2 e a deruxtecana é a quimioterapia que a acompanha. O estudo mostrou que pacientes com HER2-low, que receberam um ou mais linhas de tratamento, independentemente da expressão hormonal, tiveram uma redução de 36% do risco de morte. Esse dado é surpreendente, já que se trata de um cenário em que a sobrevida dos pacientes já é relativamente mais longa e essa nova opção de tratamento traz melhores perspectivas para elas.

A outra aprovação foi de uma medicação que ainda não era comercializada no Brasil, o Sacituzumabe-govitecana (Trodelvy®). É um ADC composto de um anticorpo anti-Trop2 e um inibidor de topoisomerase I (quimioterapia) e é indicado para pacientes com câncer de mama triplo negativo metastático. A ANVISA aprovou com base no estudo ASCENT comparou esta medicação com quimioterapia padrão para pacientes que tivessem progredido a duas ou mais linhas de tratamento e mostrou uma redução de 52% do risco de morte, quase duplicando o tempo mediano de sobrevida. Tal resultado é impressionante, já que se trata de um tipo de tumor agressivo e com tempo de vida mais curto. O medicamento ainda será precificado antes de poder ser oferecido aos pacientes, o que deve levar de 1 a 3 meses.

Essas duas novidades são de extrema importância para esses cenários e aumentam as oportunidades de estender cada vez mais a qualidade de vida das pacientes, preservando a qualidade de vida. Importante lembrar ambas as drogas, por serem endovenosas, são de cobertura obrigatória pelos planos nas suas respectivas indicações. Lembrando que, infelizmente, nenhuma dessas está disponível no SUS, o que aumenta cada vez mais a realidade dos pacientes do sistema público, sempre prejudicados com falta completa de acesso a diversos tratamentos novos.

 

Referências:

https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2203690

https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2028485

 

 

Dia Mundial de Cuidados Paliativos

No dia 08 de outubro, comemoramos o Dia de Cuidados Paliativos e, neste ano, o tema da Campanha Mundial é focada na experiência da dor do luto. É um assunto muito importante e que deve ser abordado de forma intensa e contínua por todos os médicos no mundo, já que milhões de pessoas morrem no mundo anualmente. Aliviar o sofrimento dos pacientes é primordial!

É muito triste que ainda haja um enorme preconceito em relação ao tema, tanto dos leigos quanto dos profissionais da saúde. Muitas vezes ouvimos que “cuidados paliativos” é “não fazer nada ao paciente” ou “é deixar o paciente morrer”. Essa ideia é ultrapassada e deve ser combatida com todas as nossas forças. Por este e outros motivos, o cuidado paliativo é uma necessidade não atendida no mundo inteiro.

Os cuidados paliativos são um conjunto de intervenções que auxiliam no bem-estar e qualidade de vida dos pacientes com doenças graves e incuráveis, o que inclui alguns pacientes com câncer. A abordagem deve incluir não só aspectos da doença, mas também espirituais, sociais, da vida cotidiana e dos valores de cada paciente e de seus familiares e amigos.

O início de cuidados paliativos mais precocemente está associado não só a um aumento da qualidade de vida, mas também do tempo de vida. Isso mesmo, os pacientes que recebem cuidados paliativos mais cedo vivem mais e melhor!

O luto é um tabu que temos que abordar. A vivência do luto é muitas vezes negligenciada, mas é um momento que os familiares e amigos precisam de um apoio da equipe, principalmente da parte psicológica.

Com as mais de 6 milhões de mortes por COVID-19 no mundo, o luto mal vivido tornou-se um grande problema que devemos tentar resolver com o apoio de toda a equipe multidisciplinar, além de muita empatia e compaixão. Muitas pessoas não conseguirem se despedir dos seus entes queridos.

A abordagem de saúde pública para o luto vai de terapias psicológicas específicas, passando por programas de apoio, e chegando a ao apoio compassivo. Toda a sociedade tem que se mobilizar para tornar essa experiência menos traumática. Políticas flexíveis nas empresas, grupos de apoio ao enlutado, educação sobre o assunto e um maior acesso a programas de cuidados paliativos são estratégias que podem ajudar.

Isso tudo depende também de investimentos dos governos em estrutura e recursos humanos, um outro objetivo da campanha. Promover o luto saudável ajuda a quem está vivendo e melhora o bem-estar da população.

Neste dia 8 de outubro, convidamos todos compartilharem experiências pessoais (anônimas) sobre o luto. O dividir ajuda a curar. A empatia gera empatia e, assim, podemos ajudar quem viveu ou vive um processo de luto da sua vida.

 

A queda do rol taxativo da ANS: o que muda para os pacientes?

No dia 21 de setembro foi publicada a Lei que torna o rol da ANS exemplificativo, não mais taxativo. Mas, o que isso muda na vida dos pacientes com câncer?

A queda de braço entre os planos de saúde, ANS e sociedade não é tão recente.

Desde a implantação do rol da ANS, na virada do século, muito tem se discutido sobre o seu papel, principalmente quando se notou que tratamentos eficazes estavam levando anos para chegar aos pacientes por conta da burocracia de incorporação no rol.

Como temos falado em outras matérias, o rol da ANS é uma lista de tratamentos que devem ser obrigatoriamente cobertos pelos planos de saúde do Brasil. Essa lista inclui desde dispositivos e procedimentos cirúrgicos, até medicações orais oncológicas.

Lembramos aqui que o processo para obrigar os planos a pagarem por tratamentos orais, até o início do ano, consistia em aprovação da Anvisa (geralmente levava 6 meses) e, em sequência, aprovação pela ANS (que podia se estender por mais de 3 ou 4 anos).

No ano passado, vimos o Projeto de Lei 6.330/2019 ser derrubado por veto presidencial. Este PL acabaria definitivamente com o rol e obrigaria os planos a cobrirem quaisquer tratamentos, desde que fossem aprovados pela Anvisa.

Como meio-termo, no início deste ano foi aprovada a Medida Provisória 1.067/2021, que vem mostrando resultado da redução do tempo para aprovação de drogas orais em Oncologia de muitos anos para poucos meses. O processo tem se mostrado mais ágil e deixa o cenário do sistema privado de saúde no Brasil mais alinhado com a melhor prática científica mundial. Mas o rol ainda persistia.

No dia 8 de junho, o Supremo Tribunal de Justiça havia decidido pela taxatividade do rol da ANS e houve bastante repercussão da mídia. Naquela oportunidade, segmentos da sociedade se manifestaram com indignação e isso gerou um novo Projeto de Lei, denominado PL 2.033/2022, que foi rapidamente aprovado tanto na Câmara quanto no Senado e, por fim, sancionado na semana passada, transformando-se na Lei 14.454 de 2022. Este é um marco para a saúde suplementar no Brasil e vamos entender o porquê.

Esta lei aprovada altera a função do rol da ANS. A lista, em vez de taxativa, tornou-se exemplificativa. Isto quer dizer que ela é agora um conjunto de tratamentos “básicos” que a operadora deve cobrir. Porém, a cobertura de outros tratamentos fora deste rol não deve ser negada, contanto que tenham eficácia comprovada cientificamente ou sejam recomendados por alguma diretriz científica de renome internacional ou sejam recomendados pela Conitec.

E isso melhora as coisas para os pacientes? Sim, é, sem dúvida, uma grande vitória. Entretanto, na prática, os oncologistas já têm para si que, quando uma medicação não está disponível no rol, não deve ser prescrita de rotina para pacientes de planos de saúde, a não ser que não haja outra opção adequada. Nesse caso, já é comum que haja solicitações extraordinárias, que – quando bem embasadas cientificamente – são muitas vezes aprovadas pelos planos de saúde, que o fazem a fim de não prejudicar o paciente e evitar judicializações, aprova o pedido. O que muda agora é que, muito provavelmente, o acesso ficará mais fácil, com a redução das negativas por parte das operadoras.

O lado sombrio disso tudo, infelizmente, existe. Tal mudança impactará em várias operadoras de saúde, o que provavelmente culminará em aumento de preços dos planos, falência de alguns – notadamente os menores – e, talvez, redução do acesso à saúde privada pela população brasileira, tão castigada com o aumento recente de preços. A discussão é longa e complexa.

Reforçamos aqui que a simples existência do rol já é algo que questionamos, pela diferenciação que ocorre entre tratamentos injetáveis (que não necessitam do rol) e orais. O caminho talvez seja um novo modelo de aprovação de medicamentos no Brasil, que abranja os sistemas privado e público e leve em consideração as capacidades financeiras do nosso país.

Enquanto temos essas discussões produtivas sobre o sistema privado, continuamos lembrando que, no SUS, o cenário tem se tornado cada vez mais sombrio, com acesso extremamente restrito a diversos tipos de tratamento contra o câncer, tendo em vista a falta de gestão e redução do financiamento.

Referências:

https://legis.senado.leg.br/norma/36359942/publicacao/36361187

https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2022/08/29/senado-aprova-obrigatoriedade-de-cobertura-de-tratamentos-fora-do-rol-da-ans

 

 

9 de junho: Dia Nacional da Imunização. Vacinas estão salvando vidas

Vacinas estão salvando vidas. Há muitas décadas. E a imunização tem sido primordial para conseguirmos, aos poucos, vencer a batalha contra a COVID-19 e várias outras doenças. Entretanto, a absurda campanha antivacina de partes da sociedade tem trazido de volta fantasmas como o sarampo, a gripe e, possivelmente, a COVID-19 novamente.

No dia 9 de junho é celebrado o Dia Mundial da Imunização. O foco da campanha é conscientizar a população da necessidade de manter a carteira vacinal atualizada. Na atualidade, apesar da vacinação contra a COVID-19 ainda ser a prioridade, devemos lembrar que várias outras doenças têm vacinas direcionadas, mesmo em adultos vacinados na infância.

As vacinas protegem contra a ocorrência de diversas doenças infecciosas, desde a poliomielite, que pode deixar pessoas sem movimentos, até a pneumonia, que pode levar pessoas, principalmente idosos, à morte. Não só isso, temos também as vacinas que podem prevenir o câncer, no caso, a do HPV evita tumor de colo do útero. Muitas patologias foram erradicadas, como a varíola e a poliomielite, enquanto outras – como a gripe, o tétano e a coqueluche – tiveram seu impacto na saúde da população consideravelmente reduzido (>90%) e são doenças controladas atualmente.

O ato de vacinar é importante não só para a pessoa vacinada, mas também para a população em geral de um país. O freio da contaminação por doenças infecciosas reduz a mortalidade da população em geral, principalmente daqueles considerados como grupos de risco. Inclusive, existem pessoas que não podem ser vacinadas por alguma doença que contraindica, ou que ainda não têm idade (recém-nascidos); essas pessoas talvez sejam as mais beneficiadas pela vacinação em massa de quem pode. Não só isso, a vacinação permite que mantenhamos uma vida normal, sem lockdowns, já que reduz a mortalidade e a gravidade das doenças.

Infelizmente, alguns dados recentes mostram que a cobertura vacinal para várias doenças tem caído, chegando a níveis que não se via há muitas décadas. Isso tem levado a um recrudescimento de casos e também a mortes. Um dos motivos é a própria pandemia, mas também há um número crescente de pessoas contrárias às vacinas, ou seja, que não acreditam na ciência. Essa situação é muito perigosa.

Sobre a COVID-19, a vacinação modificou o panorama da doença no mundo, levando a um melhor controle dos sistemas de saúde e do número de mortes, apesar de picos de casos. Isso foi corroborado com a experiência em diversos países, com todas as vacinas aprovadas pela OMS. Hoje, temos quase 80% da população com duas doses, mas ainda um número baixo, menos de 60%, com doses de reforço. Isso é preocupante, já que temos observado um aumento de casos nas últimas semanas e os mais afetados com gravidade são aqueles não vacinados ou pessoas com mais de seis meses da última dose de reforço.

Uma atenção especial deve ser dada à vacina contra o sarampo. A cobertura vacinal está baixíssima, de 30%, sendo que o alvo é de 95%. Em 2016, o Brasil tinha recebido o selo da Organização Pan-americana de Saúde de território livre de sarampo. É preciso lembrar que esta vacina é dada há muitas décadas, com altíssimas eficácia e segurança. A falta da vacinação tem ocasionado ressurgimento de casos de sarampo (40.000 de 2018 a 2021), uma doença potencialmente grave e até fatal para as crianças (40 mortes de crianças, no mesmo período).

Além dela, a vacina da gripe (influenza) é de grande importância nesse período de inverno, já que o quadro pode ser confundido com COVID-19 e causar transtornos ao paciente e à sociedade. A cobertura vacinal também não atingiu seu objetivo, atualmente rondando os 30-40%.

Criado há 47 anos, o Programa Nacional de Imunização do Brasil é uma das referências mundiais da área, já que atinge uma população de mais de 200 milhões de habitantes de forma gratuita e eficiente.

Atualmente, são 18 as vacinas disponibilizadas para crianças e adolescentes. No caso de adultos, as principais são a de febre amarela, a dupla adulto (difteria e tétano, renovada a cada 10 anos), a de hepatite B e a de sarampo-caxumba-rubéola (as duas últimas caso não tenha sido vacinado na infância).

Devemos reforçar que qualquer uma das disponíveis no país são eficazes e seguras. Todas já foram testadas e aprovadas cientificamente.

As contraindicações são poucas e, caso tenha dúvida, pergunte ao seu médico. Porém, geralmente apenas pessoas com deficiências muito específicas ou alergias a componentes das vacinas não podem tomá-las.

No site https://portalarquivos.saude.gov.br/campanhas/pni/ todos podem consultar o calendário nacional de vacinação e checar quais vacinas devem ser atualizadas. Leia, converse com seu médico e VACINE-SE E VACINE SEUS FILHOS! Proteger um é proteger todos! V

 

https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/saude/audio/2022-06/sarampo-cobertura-vacinal-nao-chegou-nem-30-das-criancas

https://www.oncnet.com/meeting/14/meeting-materials?field_abstract_value=&field_material_type_target_id=All

Aprovações no novo modelo da ANS: um grande passo na Oncologia brasileira

No dia 06 de maio de 2022, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) aprovou a incorporação de duas medicações contra o câncer no seu rol de medicações de cobertura obrigatória pelos planos de saúde: Brigatinibe (Evobrig®) e Trifluridina/cloridrato de tipiracila (Lonsurf®).

O Brigatinibe é indicado para pacientes com câncer de pulmão metastático com rearranjo do gene ALK. É uma droga do tipo terapia-alvo com altos índices de eficácia e menor toxicidade em relação à quimioterapia comum. O Brigatinibe foi testado no estudo ALTA 1L, que comparou ao Crizotinibe (padrão anterior) e mostrou um aumento de sobrevida livre de progressão de 13 meses com redução do riscos de progressão ou morte de 51%.

Já o Trifluridina/cloridrato de tipiracila (Lonsurf®) é um tipo de quimioterapia oral indicada para pacientes com câncer de cólon metastático. Ele foi testado em pacientes que haviam progredido após os tratamentos com os tratamentos-padrão (irinotecano/oxaliplatina com fluorouracil e anticorpos monoclonais) por meio do estudo RECOURSE. Os resultados mostraram uma redução do risco de morte da ordem de 30%.

Ambas as drogas já estavam aprovadas pela Anvisa e constavam a indicação em bula. Porém, com a existência do rol da ANS, os planos de saúde ainda não eram obrigados a cobrir o tratamento – de alto custo – com essas medicações. No último dia 10 de fevereiro, porém, o Congresso aprovou a MP 1067/2021, finalmente modificando para melhor o modelo de incorporação de medicações orais no sistema privado.

Antes, o tempo entre uma medicação mostrar-se eficaz e ser efetivamente acessível aos pacientes chegava a quatro anos, o que restringia o benefício a poucos que podiam pagar altos valores. Agora, a atualização é mais rápida e não segue burocracias tão grandes, o que faz as aprovações serem mais céleres, beneficiando os pacientes.

Esse modelo foi um meio-termo, já que o projeto de eliminação do rol e aprovação automática das medicações foi vetado pelo presidente e pelo Congresso no ano passado.

Sem dúvida é uma notícia importantíssima para os pacientes com câncer de pulmão e cólon, porém devemos manter a atenção para que as incorporações continuem mais rápidas e, mais importante, que cheguem também ao SUS, hoje colocado de lado e completamente defasado na área de Oncologia.

 

Referências:

https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-normativa-ans-n-536-de-2-de-maio-de-2022-398111061

https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1414325

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32780660/

 

 

6 de abril – Dia Nacional da Mobilização pela Promoção da Saúde e Qualidade de Vida e Dia Mundial da Atividade Física

Rafael Luís
CRM 156.336

Pergunta e respostas em Qualidade de Vida e Promoção de Saúde

Hoje – 6 de abril – é o Dia Nacional da Mobilização pela Promoção da Saúde e Qualidade de Vida e também o Dia Mundial da Atividade Física. Por isso, queremos trazer aqui algumas perguntas que ouvimos frequentemente de pacientes sobre como podemos melhorar nosso bem-estar e nossa saúde.
Não é mais segredo para ninguém que os dois principais pilares são dieta saudável e atividade física, mas vamos esclarecer alguns pontos específicos deles.

Qual é a quantidade mínima recomendada de atividade física?

Segundo a OMS – e com base em estudos científicos – o mínimo de atividade física por semana é de 150 minutos de exercícios leves a moderados (caminhada, hidroginástica, pilates, corrida leve, etc.) ou 75 minutos de exercício intenso (treino funcional, corrida intensa, natação, triathlon, etc). Aliado a isso, fortalecimento muscular é importante duas vezes na semana, o que pode ser atingido nas próprias atividades citadas.

Como me motivar a praticar atividade física regularmente?

O ideal é tentar praticar alguma atividade que lhe traga prazer, não necessariamente alguma “da moda” ou que algum amigo tenha indicado. A motivação vem principalmente da vontade de fazer, já que todos sabemos que, quando somos obrigados a algo, geralmente não focamos muito na tarefa.

Não tenho tempo, como incluir a atividade física no dia-a-dia?
Claro que o ideal é reservar horários da semana direcionados para a atividade, mas existem meios de inserir o exercício no dia-a-dia.

Algumas sugestões são:

– Caminhar até locais próximos de casa (padaria, supermercado, farmácia);
– Estacionar o carro a 2-3 quarteirões de onde você trabalha;
– Usar a escada para subir até andares baixos de prédios (por exemplo, 2º ou 3º andar) ou mesmo usar o elevador até a metade e subir o resto de escada;
– Brincar com crianças de jogos como pega-pega, pique-esconde;
– Tarefas de casa, como faxina ou mesmo jardinagem.

O que seria uma dieta saudável?

Uma dieta saudável é baseada em um consumo de calorias adequado à sua composição corporal a partir de um balanceamento dos alimentos. Uma quantidade maior de frutas, vegetais, legumes e cereais é importante para garantir não só vitaminas essências, mas também fibras alimentares. Por outro lado, reduzir o consumo de gordura animal (dar preferências a carnes magras, como peixe e frango), evitar alimentos com adição de açúcar (refrigerantes, sucos industrializados, doces) e diminuir também o consumo de produtos ultraprocesssados (como pratos prontos com conservantes, embutidos e enlatados) são estratégias cruciais para melhorar a qualidade da dieta. Tudo isso sem esquecer de manter-se hidratado, bebendo 2-2,5 litros de água ou líquidos por dia, uma garrafinha na bolsa ajuda muito. Um auxílio de um(a) nutricionista pode ser de grande valia.

“Ah, eu vou pedir então uma marmita, estou certo/a?”

Claro que sabemos que muitas vezes não temos tempo para fazer nossa comida e, neste caso, “marmitas” saudáveis podem ser uma mão na roda. Entretanto, o ato de cozinhar sua comida é visto cada vez mais como importante pelos especialistas em nutrição. Além de fazer sua própria comida (geralmente) garantir que os ingredientes sejam mais naturais, de melhor qualidade nutritiva e com menos conservantes, também estimula uma relação mais racional com a comida, podendo reduzir a quantidade de calorias ingeridas. E, claro, é mais econômico.

Quais são os benefícios de ter uma dieta saudável e praticar atividade física?

Ambos são comprovadamente promotores de saúde. Existem vários estudos que mostram redução de problemas cardiovasculares (pressão alta, infarto, derrame, cardiopatia), diabetes, osteoporose, obesidade, aumento da expectativa de vida, redução do risco de câncer, dentre outras doenças. Não só isso, melhora a qualidade do sono, saúde mental, a sensação de bem-estar e a interação social.

Como a yoga pode ajudar a promover saúde e qualidade de vida?

A Yoga é um exercício com comprovação científica de benefício em vários aspectos. Além de ser uma atividade física, também promove flexibilidade, importante para quando ficamos mais idosos e temos mais restrições de movimento, e relaxamento, com benefícios em controle de ansiedade e depressão. Incluir a Yoga na rotina de atividade física pode ajudar no bem-estar e é fácil de encontrar um local para praticar.

Além da dieta e atividade física, tem mais algo para melhorar minha qualidade de vida?

Não tem uma resposta única, mas os “3 S” são importantes: sono, saúde mental e socialização.

– No caso do sono, uma boa noite de sono de pelo menos 7h (mas idealmente menos que 9h) é comprovadamente benéfico para passar o dia melhor, além de também reduzir riscos cardiovasculares, diabetes e obesidade.
– Em relação à saúde mental, objetivar uma vida mais tranquila, com menos estresses, menos preocupações é de extrema importância. E como fazer isso? Começar pelo que já falamos acima já ajuda, mas quando o problema é mais grave, procurar ajuda profissional é imprescindível, seja um psiquiatra ou psicólogo.
– Por fim, as relações sociais também são uma maneira de nos ajudar a viver melhor. A socialização melhora a sensação de bem-estar e ajuda a prevenir problemas de saúde mental. Além disso, uma atividade física ou uma dieta saudável com alguém acompanhando é sempre mais interessante, não é mesmo?

E aí? O que você pode tentar começar a fazer hoje para viver melhor amanhã?

 

Referências:

Smith KB, et al. An evidence-based review of yoga as a complementary intervention for patients with cancer. Psychooncology. 2009 May;18(5):465-75.

https://saudebrasil.saude.gov.br/ter-peso-saudavel/7-dicas-de-alimentacao-para-prevenir-a-obesidade

https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/physical-activity