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O psicólogo na jornada do câncer

Aline Riguete

Psicóloga

Leonardo Silva

Oncologista Clínico

 

 

A chegada de um diagnóstico de câncer muitas vezes traz a sensação de que o chão se abre, de repente, sob os pés. A notícia chega de forma abrupta, muda o rumo dos planos e impõe uma nova realidade ao paciente e à sua família. Nesse momento, não são apenas os exames e os tratamentos que importam. Há também uma avalanche de emoções: medo, ansiedade, raiva, tristeza, incredulidade. Cada pessoa reage de um jeito, e nenhuma reação é “certa” ou “errada”.

Muitas vezes, a primeira reação é o silêncio. O paciente olha para o médico, escuta palavras como “tumor”, “quimioterapia”, “cirurgia”, mas não consegue assimilar. Depois, as noites em claro, perguntas sem resposta, pensamentos repetitivos. “E se eu morrer? E se eu não aguentar o tratamento? Como vai ficar a minha família?” “E o meu trabalho?”. É um momento em que o corpo e a mente parecem não falar a mesma língua: enquanto os exames apontam a doença, a mente tenta entender o que está acontecendo.

É nesse cenário que um profissional extremamente importante entra em ação: o psicólogo. Ele não chega para oferecer soluções mágicas nem frases prontas de otimismo. O que o psicólogo oferece, em primeiro lugar, é presença. Um espaço onde o paciente pode expressar suas emoções, verbalizar seus medos, tudo isso sem medo de ser julgado. É uma escuta qualificada que ajuda a organizar o caos interno e a dar nome às emoções. Nomear o que sentimos já é, muitas vezes, o primeiro passo.

 

O caminho do tratamento

Com o início do tratamento, a vida passa a girar em torno de consultas, exames, eventuais internações. O corpo muda: o cabelo pode cair, o paladar se altera, a energia diminui. Não são apenas efeitos colaterais, mas sinais visíveis de que algo profundo está acontecendo. A autoestima sofre, e muitos pacientes relatam não se reconhecer mais diante do espelho.

O psicólogo ajuda a reconstruir essa relação com o corpo, lembrando que ele não é um campo de batalha, mas sim um aliado. Além disso, paciente e psicólogo atuam em conjunto para elaborar a aceitação das mudanças temporárias, desenvolver estratégias para lidar com o medo e a ansiedade, e reduzir o sofrimento emocional que acompanha cada etapa da jornada.

E aqui vale destacar um ponto importante: o cuidado psicológico não melhora apenas o bem-estar. Estudos científicos mostram que pacientes com suporte emocional apresentam melhor aderência ao tratamento, têm menos sintomas depressivos e até enfrentam melhor os efeitos colaterais. Isso acontece porque mente e corpo não são duas entidades separadas: quando cuidamos de um, o outro também responde.

Famílias também precisam de suporte nessa fase. Muitas vezes, os familiares se colocam no papel de “pilares de força”, mas podem se sentir sobrecarregados. É comum que sintam culpa por estarem cansados ou por, em alguns momentos, desejarem uma pausa. O psicólogo lembra a eles que cuidar de si é também uma forma de cuidar do paciente.

 

Depois do tratamento: o retorno à rotina

Quando o tratamento termina, há um alívio evidente: as consultas ficam mais espaçadas, os exames se tornam menos frequentes, e o paciente é, muitas vezes, considerado em remissão. Mas junto com a alegria, surgem novas angústias. “E se o câncer voltar?”. Cada dor de cabeça, cada resfriado, pode reacender o alarme. É o que chamamos de ansiedade da recidiva.

Além disso, retomar a rotina pode ser mais difícil do que se imagina. O trabalho, as relações sociais, a vida amorosa, tudo parece diferente. O paciente já não é a mesma pessoa de antes, mas também não deseja ser definido apenas pelo câncer. Esse é um período delicado de reconstrução da identidade.

O psicólogo ajuda nesse processo, auxiliando o paciente a resgatar projetos de vida, a reconhecer suas conquistas e a lidar com o medo constante. É como reaprender a viver, carregando cicatrizes que, embora dolorosas, também contam histórias de resistência.

 

Quando não há cura

Há situações em que o câncer não pode ser curado, mas isso não significa ausência de vida ou de possibilidades. Esse é um momento que exige delicadeza, acolhimento e escuta atenta, tanto para o paciente quanto para a família.

O psicólogo tem um papel fundamental nesse processo: oferecer espaço para que a pessoa possa se expressar, falar sobre seus desejos, medos e conquistas. Esse espaço abre caminho para diálogos autênticos, em que o paciente pode expressar seus afetos, refletir sobre sua trajetória e encontrar aquilo que dá sentido à sua vida.

Para a família, o acompanhamento psicológico também é um suporte essencial. Ele ajuda a encontrar formas de estar junto, de participar do cuidado e de ressignificar a convivência, sem deixar de cuidar de si. O cuidado psicológico, nesse momento, é sobre garantir dignidade, autenticidade e humanidade em cada etapa da jornada.

 

A família e os cuidadores

O câncer nunca é uma experiência individual. Ele atravessa toda a rede de relações do paciente: parceiros, filhos, pais, amigos. Os cuidadores, em especial, vivem uma rotina intensa de consultas, medicamentos, atenção constante. Muitas vezes, deixam de lado seus próprios sonhos, sua saúde, seu descanso.

O psicólogo atua também junto a eles, oferecendo um espaço para expressar cansaço, raiva, culpa. Lembra que ser cuidador não significa ser invencível e que cuidar de si é parte do processo de cuidar do outro.

 

Quebrando mitos

Ainda hoje, muita gente acredita que procurar um psicólogo é sinal de fraqueza. É como se fosse proibido admitir que não damos conta de tudo. Mas, na verdade, buscar apoio é um ato de coragem. Significa reconhecer que o sofrimento emocional é tão legítimo quanto a dor física.

Assim como cuidamos do corpo com exames e remédios, precisamos cuidar da mente com escuta, diálogo e acolhimento. A psicologia mostra que ninguém precisa enfrentar o câncer sozinho, nem o paciente, nem a família.

 

Um companheiro de jornada

O psicólogo, no cuidado oncológico, não é alguém que “resolve” os problemas, mas alguém que caminha ao seu lado. Ele ajuda a transformar dor em aprendizado, silêncio em palavras, medo em possibilidade de ressignificação. Está presente desde o impacto inicial do diagnóstico até os momentos finais da vida, sempre oferecendo acolhimento, presença e esperança.

Cuidar da mente é também cuidar da saúde. E, diante do câncer, esse cuidado pode fazer toda a diferença. Porque, mesmo em meio à tempestade, ainda é possível encontrar abrigo, preservar vínculos e viver com dignidade.

Quando a arte cuida: arteterapia para quem enfrenta o câncer

Enfrentar o câncer é atravessar um território desconhecido, repleto de medos, silêncios e descobertas. É um momento que gera reflexões sobre o passado, o presente e o futuro, envolvendo todos os aspectos da vida pessoal e profissional, podendo resultar em sentimentos de angústia e ansiedade. A cirurgia, a quimioterapia e a radioterapia são modalidades terapêuticas eficazes contra o câncer, porém não conseguem tratar os efeitos mentais/psicológicos, os quais podem ser muito debilitantes.

Nesse contexto, entendemos que o tratamento vai além dos medicamentos e exames — ele envolve também o cuidado com aquilo que não se vê nos laudos: o emocional, o afeto, a identidade que muitas vezes se perde no caminho.

A arteterapia nasce justamente aí, no espaço entre a dor e o alívio, entre o que machuca e o que cura. Mais do que uma atividade, ela é uma forma de cuidar com delicadeza, oferecendo ao paciente um jeito de se expressar sem pressa, sem julgamento, apenas sendo. A arte, nesse contexto, é presença, é cuidado, é escuta.

Neste texto, vamos falar sobre como a arteterapia pode ajudar pacientes oncológicos e seus cuidadores a atravessarem esse processo com mais humanidade, sentido e leveza. Porque, às vezes, quando as palavras faltam, é a arte que cuida.

Programas de medicina complementar e integrativa já são considerados componentes-chave no suporte ao paciente oncológico, inclusive com recomendações da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) e pela Sociedade de Oncologia Integrativa (SIO), especialmente para pacientes com diagnóstico de câncer de mama. A arteterapia se insere entre as terapias recomendadas, com objetivo de auxiliar no controle de sintomas como ansiedade e estresse, bem como outros efeitos colaterais do tratamento.

O emprego da arte como forma de tratamento de doenças não é algo novo. O filósofo e médico persa Avicena, considerado o pai da medicina moderna e que viveu por volta dos anos 1000 na região hoje conhecida como Irã, acreditava e usava a música como forma de tratamento de sintomas psicológicos associados a diversas doenças. Porém, a arteterapia como conhecemos hoje tem suas raízes com o artista e escritor britânico Adrian Hill, que definiu a arte como “a inimiga das doenças”. Na década de 1940, ele começou a realizar estudos com a aplicação de arteterapia, evidenciando efeitos benéficos na redução do estresse e melhora do estado psicológico dos pacientes.

A arteterapia é uma prática terapêutica que utiliza diferentes formas de expressão artística — como pintura, desenho, modelagem, colagem, escrita, música — como ferramentas para cuidar da saúde emocional. Não é preciso saber desenhar bem nem ter talento para a arte. O foco não está no resultado estético, mas sim no processo criativo, que permite que sentimentos difíceis encontrem caminhos de expressão e elaboração. Muitas vezes, o que não conseguimos dizer em palavras ganha forma e cor no papel. E isso pode ser profundamente libertador.

A música é uma das formas de expressão artística mais estudadas com relação aos seus efeitos sobre a saúde. Diversos estudos mostram que a musicoterapia tem efeitos na redução dos níveis de ansiedade e na melhora do equilíbrio emocional. Além disso, em pacientes oncológicos a musicoterapia pode ser um potente auxiliar no controle da dor oncológica. Outros efeitos benéficos incluem melhoria na sensação de controle, na imunidade, no relaxamento e na sensação de bem-estar.

Um conceito central na arteterapia é o de que emoções que não poderiam/seriam expressas em palavras possam ser expressas em imagens. Não existem limites para o uso da imaginação no desenvolvimento de formas criativas de expressar o luto. A arte seria um meio para a “criação de um significado”. Em um estudo com mulheres com diagnóstico de câncer de mama que se inseriram em diferentes tipos de arteterapia visual (colagem, modelagem em argila, pintura, criação de cartões, trabalho com tecidos) foram observados quatro efeitos positivos: 1. a arteterapia permitiu às mulheres mudar o foco do pensamento para aspectos mais positivos na vida, diminuindo a preocupação com o câncer; 2. reforço da autovalorização e da identidade pessoal; 3. a arteterapia foi associada a um efeito positivo na manutenção de uma identidade social, permitindo às mulheres resistirem a serem definidas pelo câncer; e 4. permitiu a expressão de seus sentimentos de forma simbólica, especialmente durante o tratamento.

Diversos estudos mostram que a terapia com artes visuais traz benefícios em termos de melhora da sensação de bem-estar, no relaxamento, e na redução de emoções negativas. Em pacientes com doenças crônicas, sessões de arteterapia estão associadas a melhora na qualidade de vida e redução de sintomas depressivos. A terapia com artes visuais também pode ser aliada no tratamento da dor oncológica, bem como no cuidado emocional dos seus cuidadores.

Não é à toa que oportunidades para expressão criativa vêm ganhando espaço cada vez maior nos hospitais dos Estados Unidos da América (EUA) e da Europa nas últimas décadas. Isso porque a arte é capaz de oferecer algo que a medicina tradicional não consegue. Recentemente, médicos da cidade suíça de Neuchâtel lançaram um programa piloto com duração prevista de 2 anos no qual as autoridades locais proverão visitas a museus prescritas pelos médicos aos pacientes. Com base em um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) publicado em 2019, o objetivo do projeto é promover a melhora da saúde mental, reduzir os impactos negativos de traumas, reduzir o risco de declínio cognitivo e da fragilidade física, bem como reduzir a mortalidade prematura. Caso seja bem-sucedido, o plano é de ampliação do projeto para inclusão de espetáculos de teatro e dança.

O enfrentamento do câncer é um processo que exige muito mais do que força física. Ele toca a identidade, os sentimentos e as relações. Assim, a arteterapia é um recurso sensível e poderoso para ajudar pacientes e cuidadores a atravessarem esse caminho de forma mais leve e significativa.

Ao permitir que emoções difíceis sejam expressas por meio da criação artística, a arteterapia oferece um espaço de acolhimento e escuta onde não há certo ou errado, bonito ou feio — apenas o que é verdadeiro. A arte se apresenta, então, como uma linguagem capaz de traduzir o que muitas vezes não se consegue dizer em palavras, promovendo alívio emocional, fortalecimento da autoestima e resgate do sentido de si.

Incluir a arteterapia no cuidado de pessoas com câncer é reconhecer que saúde vai além do corpo. É cuidar também do que sente, do que se vive e do que se sonha, mesmo em meio ao tratamento. Quando olhamos para o ser humano de forma integral, a arte se revela não apenas como expressão, mas como presença, como companhia e como forma de cuidado. E isso faz toda a diferença.

Atenção: mulheres com endometriose têm mais chance de desenvolver câncer de ovário

O câncer de ovário é a quinta principal causa de morte por câncer em mulheres em todo o mundo, representando uma doença altamente letal devido à dificuldade em diagnosticá-lo precocemente. Conhecer os fatores de risco para o desenvolvimento desse câncer é essencial para o desenvolvimento de estratégias de prevenção, diagnóstico precoce e tratamento. Entre os fatores de risco bem estabelecidos estão a idade avançada, histórico familiar de câncer de ovário, mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, além de condições ginecológicas, como a endometriose.

A endometriose é uma condição ginecológica crônica e complexa, caracterizada pelo crescimento de tecido endometrial (a camada mais interna do útero, e que se descama na menstruação) fora do útero, afetando predominantemente mulheres em idade reprodutiva. Estima-se que cerca de 10% das mulheres em todo o mundo sofram com a endometriose, sendo uma das principais causas de dor pélvica crônica e infertilidade. Embora a etiologia exata da endometriose ainda não seja completamente compreendida, fatores genéticos, imunológicos e ambientais têm sido implicados no desenvolvimento da doença. Estudos prévios já haviam demonstrada uma relação entre a endometriose e o risco de câncer de ovário, sugerindo um aumento no risco da ordem de duas vezes.

Recentemente, um grupo de pesquisadores liderados pela Dra Mollie Barnard, da Universidade de Utah, nos EUA, publicou um importante estudo com o objetivo de avaliar a relação entre diferentes tipos de endometriose e o risco de câncer de ovário, dividido por subtipos. Esse estudo traz contribuições importantes ao reforçar a ligação entre diferentes subtipos de endometriose e o risco de desenvolvimento de câncer de ovário, com foco especial nos tipos histológicos do tumor.

Os principais achados revelam que as mulheres com endometriose têm um risco 4 vezes maior de desenvolver câncer de ovário em comparação àquelas sem endometriose. Um dado novo e que chama a atenção é de que o risco é ainda maior para as mulheres com endometriose acometendo os ovários e/ou outros órgãos profundos. Para essas, o aumento de risco é de quase 10 vezes, para todos os tipos de câncer de ovário e, se considerarmos os tumores chamados do tipo I (endometrioide, células claras, mucinoso e seroso de baixo grau) o aumento de risco chega a 19 vezes. Isso é importante pois indica uma forte correlação entre os subtipos mais graves de endometriose e subtipos de câncer de ovário que são agressivos e menos responsivos à quimioterapia.

Isso reforça a necessidade de desenvolvimento de estratégias de diagnóstico e tratamento da endometriose, especialmente dos subtipos mais graves da doença, com intuito de prevenção do câncer de ovário. Além disso, ressalta a importância de manter essas mulheres em um acompanhamento clínico mais rigoroso, incluindo a necessidade de novas pesquisas sobre possíveis intervenções preventivas que possam ser aplicadas a esse grupo de risco.

 

Referências

  1. Barnard ME, Farland LV, Yan B, et al. Endometriosis Typology and Ovarian Cancer Risk. JAMA. 2024; 332(6):482-489. doi: 10.1001/jama.2024.9210.
  2. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estatísticas de câncer. Disponível em: https://www.inca.gov.br/numeros-de-cancer. Acessado em 20 de agosto de 2024.
  3. Paulino E, de Melo AC, Silva-Filho AL, et al. Panorama of Gynecologic Cancer in Brazil. JCO Glob Oncol. 2020; 6:1617-1630. doi: 10.1200/GO.20.00099.
  4. Shafrir AL, Farland LV, Shah DK, et al. Risk for and consequences of endometriosis: A critical epidemiologic review. Best Pract Res Clin Obstet Gynaecol. 2018 Aug;51:1-15. doi: 10.1016/j.bpobgyn.2018.06.001.

21 de junho Dia Internacional do Yoga – Yoga como terapia complementar no tratamento do câncer: uma jornada de bem-estar físico e emocional

Sabemos que até metade das pessoas diagnosticadas com câncer buscam alguma forma de tratamento complementar, alternativo ou integrativo, em algum momento do seu tratamento. Se considerarmos apenas as mulheres com câncer de mama nos EUA, essa porcentagem chega a 80%. De forma geral, as pessoas buscam técnicas de medicina integrativa especialmente para auxílio no controle de sintomas da doença, mas também para tratamento dos efeitos colaterais do tratamento. Esses sintomas incluem dor, insônia, depressão, ansiedade, náusea (enjoos) e limitação de movimentos.

A yoga representa, talvez, a terapias integrativa mais estudadas. A palavra “yoga” deriva do sânscrito yug, que significa “união”, e em sua filosofia tradicional o objetivo da yoga seria a união do indivíduo com a consciência universal. Em tibetano, a palavra para yoga é nejor, que além de “união” pode significar também “original”, “conhecimento autêntico” ou “entendimento”. E esse significado mais profundo alude à nossa condição humana original, imutável. Na psicologia ocidental isso corresponderia ao “Eu verdadeiro”. É uma prática milenar, com origem no sul da Ásia há mais de 5.000 anos, compreendendo diversas correntes filosóficas. Entre os diversos estilos de yoga, o mais comum é a Hatha Yoga, que combina a prática das posturas e dos exercícios de respiração.

A jornada do tratamento do câncer é frequentemente desafiadora, repleta de obstáculos físicos e emocionais. Em meio a essa jornada, a busca por terapias complementares que possam auxiliar no enfrentamento da doença e na promoção do bem-estar tem se tornado cada vez mais frequente. Nesse contexto, a yoga surge como uma ferramenta valiosa, oferecendo benefícios que vão além do corpo físico, com potencial de impactar positivamente na saúde mental e emocional dos pacientes.

 

Yoga e o corpo físico: alívio dos sintomas e promoção da saúde

 

Estudos científicos têm demonstrado que a prática regular de yoga pode trazer diversos benefícios físicos para pacientes com câncer. Através de posturas suaves, exercícios de respiração e técnicas de relaxamento, a yoga pode ajudar a aliviar sintomas comuns do tratamento, como dor, fadiga, náuseas e insônia. Além disso, a prática regular pode fortalecer o sistema imunológico, melhorar a flexibilidade e a força muscular, e auxiliar na recuperação física após cirurgias e outros procedimentos médicos.

A prática da yoga traz redução no relato de dor dos pacientes de forma precoce, sugerindo que o benefício já se inicia logo após a primeira semana. Além disso, o efeito auxiliar no controle da dor se mantém a médio prazo, quando a yoga é praticada de forma regular. Da mesma forma, pacientes que praticam yoga de forma regular apresentam menor grau de fadiga.

 

Yoga e a mente: enfrentando o estresse e a ansiedade

 

O diagnóstico e o tratamento do câncer podem gerar uma série de repercussões em questões relacionadas à saúde mental, como medo, ansiedade, estresse e depressão. A yoga oferece um espaço seguro para que os pacientes possam explorar e processar essas emoções de forma saudável. Através da meditação, da atenção plena e da conexão com o corpo, a yoga ajuda a reduzir o estresse, a ansiedade e a depressão, promovendo o bem-estar mental e emocional. Estudos sugerem, inclusive, que pacientes com câncer que praticam regularmente a yoga apresentam benefício mais duradouro no controle de sintomas de ansiedade e depressão, bem como melhora significativa na qualidade de vida.

 

Yoga e o espírito: encontrando força e resiliência

 

A yoga é uma prática que se estende além do corpo físico e da mente, visando conectar o indivíduo com seu ser interior. Através da yoga, os pacientes podem encontrar força interior, resiliência e esperança para enfrentar os desafios do tratamento. A prática regular pode ajudar a desenvolver uma atitude positiva diante da vida, a fortalecer a autoestima e a promover a autoaceitação. Estudos iniciais inclusive sugerem que a prática regular das técnicas de respiração da yoga modifica a concentração de determinadas substâncias no cérebro que ajudam a controlar processos de reparo dos neurônios, bem como a plasticidade neuronal, o que pode ajudar a preservar as funções cerebrais. Esses efeitos tem o potencial de auxiliar no desenvolvimento pessoal, na melhoria/manutenção da energia vital e na resiliência frente a situações de estresse.

 

Yoga como terapia complementar: uma abordagem individualizada

 

É importante ressaltar que a yoga deve ser praticada sob a orientação de um profissional qualificado, que adapte as posturas e técnicas às necessidades individuais de cada paciente. A prática deve ser sempre complementar ao tratamento médico convencional, e não em substituição a ele.

 

Yoga como aliada na jornada do câncer

 

Como vimos, a yoga se apresenta como uma poderosa ferramenta para pacientes com câncer, oferecendo benefícios que abrangem o corpo, a mente e o espírito. Através da prática regular, os pacientes podem encontrar alívio dos sintomas, reduzir o estresse e a ansiedade, fortalecer o sistema imunológico, melhorar a qualidade de vida e encontrar força interior para enfrentar os desafios da doença. A yoga é um convite para uma jornada de autoconhecimento, cura e bem-estar, que pode transformar a vida dos pacientes e auxiliar na busca por uma jornada com melhor qualidade de vida.

 

Referências

 

  1. Horneber M, Bueschel G, Dennert G, et al. How many cancer patients use complementary and alternative medicine: a systematic review and metaanalysis. Integr Cancer Ther. 2012 Sep;11(3):187-203.

 

  1. Boon HS, Olatunde F, Zick SM. Trends in complementary/alternative medicine use by breast cancer survivors: comparing survey data from 1998 and 2005. BMC Womens Health. 2007 Mar 30;7:4.

 

  1. Mao JJ, Palmer CS, Healy KE, et al. Complementary and alternative medicine use among cancer survivors: a population-based study. J Cancer Surviv. 2011 Mar;5(1):8-17.

 

  1. Niu N, Huang R, Zhao J, et al. Health benefits of yoga for cancer survivors: An updated systematic review and meta-analysis. Asia Pac J Oncol Nurs. 2023 Oct 13;11(3):100316.

 

  1. Brown RP, Gerbarg PL. Yoga breathing, meditation, and longevity. Ann N Y Acad Sci. 2009 Aug;1172:54-62.

 

Janeiro: mês de prevenção do câncer do colo do útero

No Brasil, mais de 17 mil mulheres receberão o diagnóstico de câncer do colo uterino a cada ano pelos próximos três anos, sendo a estimativa do Instituto Nacional do Câncer (INCA). Esse tipo de câncer, o terceiro mais comum entre as mulheres brasileiras (quando excluídos os casos de câncer de pele não-melanoma) foi o responsável por 6.600 mortes no Brasil no ano de 2020. O câncer de colo uterino se coloca como um problema de saúde pública, afetando mais de 600 mil mulheres em todo o mundo a cada ano, com uma mortalidade anual estimada de 342 mil mulheres. E mais de 85% dessas mortes acontece em países de média e baixa renda. Mas salvar essas vidas está ao alcance de nossas mãos.

O câncer de colo uterino é causado, em mais de 90% das vezes, pela infecção persistente pelo vírus chamado HPV (papilomavírus humano). Existem mais de 200 tipos de HPV, alguns deles associados ao desenvolvimento de doenças benignas, como as verrugas genitais. Por outro lado, cerca de 13 tipos de HPV são considerados de alto risco, ou seja, capazes de induzir o desenvolvimento de diferentes tipos de câncer, entre eles o de colo uterino. Dentre os tipos de alto risco, o 16 e o 18 são os mais frequentemente associados ao câncer de colo uterino. A infecção pelo HPV é transmitida por via sexual, ou seja, é uma infecção sexualmente transmissível extremamente comum. Sabe-se que 80% dos homens e das mulheres já foram expostos/infectados pelo HPV pelo menos uma vez até os 50 anos de idade. Mas nem todas as mulheres que entram em contato com o HPV vão desenvolver câncer de colo uterino. Isso porque na grande maioria das vezes o organismo consegue desenvolver uma resposta imune eficaz que leva à eliminação do vírus. A persistência da infecção leva, ao longo de vários anos, ao desenvolvimento de lesões pré-cancerosas que, se não diagnosticadas e tratadas, podem evoluir para o câncer.

O conhecimento de todo esse processo envolvendo infecção pelo HPV, formação de alterações celulares e lesões pré-cancerosas, culminando no surgimento do câncer de colo uterino, permitiu o desenvolvimento de estratégias de rastreamento do câncer de colo uterino. E esse é um dos pilares do programa da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a erradicação do câncer de colo uterino. No Brasil, o programa de rastreamento com o exame de Papanicolaou já está estabelecido há várias décadas e a nossa experiência junto com a de outros países, especialmente países mais ricos, nos mostra que é um método eficaz na detecção de lesões pré-cancerosas e do câncer em estádios mais precoces, permitindo a cura da doença. Mas, e se fosse possível evitar a persistência da infecção pelo HPV, cortando, assim, o mal pela raiz?

Isso não só é possível, como já é realidade em cerca de 114 países, inclusive no Brasil. E melhor ainda, via Sistema Único de Saúde. Voltemos um pouco à relação entre infecção pelo HPV e o câncer de colo uterino. Quando o indivíduo é infectado pelo HPV, o sistema imunológico desenvolve um certo grau de resposta imunológica que, com grande frequência consegue eliminar o vírus. No entanto, essa resposta imune não é duradoura e protege muito pouco contra reinfecções pelo HPV. Em homens, inclusive, essa resposta imune é ainda mais escassa. Faz sentido então pensarmos em uma forma de potencializar essa resposta imune para garantirmos uma proteção mais robusta e duradoura, capaz de prevenir a persistência da primeira infecção, bem como das reinfecções. Como é possível fazer isso? Muito simples, com uma vacina contra o HPV!

No mundo, hoje existem 5 vacinas contra o HPV licenciadas para uso, 3 delas disponíveis no Brasil. Todas essas vacinas são compostas por partículas que simulam o HPV e carregam algumas proteínas virais mas, por não se tratar de vírus completos e vivos, elas não são capazes de causar infecção viral. Tais vacinas são capazes de induzir uma resposta imunológica que chega a ser 10 vezes superior à resposta imune natural do nosso organismo. Além disso, a produção de anticorpos protetores é bastante duradoura, com alguns estudos mostrando positividade por mais de 15 anos após a aplicação da vacina.

A eficácia das vacinas na prevenção contra as lesões pré-cancerosas e o câncer propriamente dito já está comprovada em diversos estudos bem conduzidos. Alguns países, inclusive, já estão apresentando redução no número de casos de câncer de colo uterino em razão da aplicação da vacina contra o HPV. Por isso, a vacinação contra HPV compreende o segundo pilar do programa da OMS para a erradicação do câncer de colo uterino.

No Brasil, a vacina contra o HPV está disponível no Programa de Imunizações do Ministério da Saúde desde 2014. A vacina disponível é a chamada quadrivalente, pois protege contra quatro tipos de HPV: 6, 11, 16 e 18, os mais comuns na nossa população.

Recentemente, foi aprovada para uso no Brasil uma nova versão da vacina contra HPV chamada nonavalente, que protege contra 9 tipos de HPV. Essa nova vacina ainda não é fornecida pelo Ministério da Saúde, somente em serviços privados.

A recomendação é de que a vacina contra o HPV seja administrada às meninas e aos meninos com idade entre 9 e 14 anos, com duas doses com intervalo de seis meses. A segunda dose pode ser administrada com intervalo maior, caso o tempo correto de seis meses não tenha sido respeitado. Se a primeira dose for feita a partir dos 15 anos, deve-se administrar três doses, a segunda com intervalo de 2 meses e a terceira com intervalo de 6 meses (contando a partir da primeira). Além disso, indivíduos que vivem com o HIV, transplantados (órgãos ou medula) e pacientes oncológicos podem receber a vacina entre os 9 e 45 anos de idade, com o esquema de três doses. O ideal é que a vacina seja administrada antes do primeiro contato com o vírus, ou seja, antes do início da vida sexual ativa. No entanto, hoje já sabemos que mesmo após o início da vida sexual há benefício da vacinação na redução do risco de infecção persistente.

É muito importante falarmos sobre o assunto e conscientizarmos as pessoas sobre os benefícios potenciais da vacinação contra o HPV na prevenção de um câncer que acomete ainda tantas mulheres no Brasil e no mundo. Dados do Ministério da Saúde mostram que nos últimos anos houve uma redução da cobertura vacinal contra o HPV no Brasil. Em 2019, 87% das meninas e 61,5% dos meninos com idade entre 9 e 14 anos receberam a primeira dose da vacina contra o HPV. Em 2022, a cobertura caiu para 75,8% e 51,1%, respectivamente. É necessário um esforço conjunto do governo e da sociedade no sentido de atingirmos a meta estipulada pela OMS de atingirmos uma cobertura vacinal de 90% até o ano 2030, no caminho para a erradicação do câncer de colo uterino.

O combate ao câncer de colo uterino pode salvar a vida de milhares de mulheres em todo o mundo. As ferramentas para isso estão disponíveis. Nosso desafio é fazer com que elas estejam ao alcance de todas as mulheres.

 

Referências

 

  1. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Dados e números sobre câncer do colo do útero. Relatório Anual 2023. Disponível em: https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files/media/document/dados_e_numeros_colo_22marco2023.pdf. Acessado em 07 de janeiro de 2024.

 

  1. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estimativa 2023. Incidência de Câncer no Brasil. Disponível em: https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files//media/document//estimativa-2023.pdf. Acessado em 07 de janeiro de 2024.

 

  1. Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Informações sobre a vacinação contra o HPV. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/pt/noticias/item/1621-informacoes-sobre-a-vacinacao-contra-hpv. Acessado em 07 de janeiro de 2024.

 

  1. Ministério da Saúde. Queda da cobertura vacinal contra o HPV representa risco de aumento de casos de cânceres evitáveis no Brasil. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2023/fevereiro/queda-da-cobertura-vacinal-contra-o-hpv-representa-risco-de-aumento-de-casos-de-canceres-evitaveis-no-brasil. Acessado em 07 de janeiro de 2024.

 

  1. Giannone G, Giuliano AR, Bandini M, et al. HPV vaccination and HPV-related malignancies: impact, strategies and optimizations toward global immunization coverage. Cancer Treat Rev. 2022; 111:102467. doi: 10.1016/j.ctrv.2022.102467.

 

  1. Kjaer SK, Nygård M, Dillner J, et al. A 12-Year Follow-up on the Long-Term Effectiveness of the Quadrivalent Human Papillomavirus Vaccine in 4 Nordic Countries. Clin Infect Dis. 2018; 66(3):339-345. doi: 10.1093/cid/cix797.

 

  1. Wheeler CM, Skinner SR, Del Rosario-Raymundo MR, et al. Efficacy, safety, and immunogenicity of the human papillomavirus 16/18 AS04-adjuvanted vaccine in women older than 25 years: 7-year follow-up of the phase 3, double-blind, randomised controlled VIVIANE study. Lancet Infect Dis. 2016; 16(10):1154-1168. doi: 10.1016/S1473-3099(16)30120-7.

 

  1. Cruickshank ME, Grigore M. Cervical cancers avoided by HPV immunisation. Lancet. 2021 Dec 4;398(10316):2053-2055. doi: 10.1016/S0140-6736(21)02396-5.

 

Setembro Verde Claro – Mês de combate ao câncer de ovário

Perguntas e respostas importantes sobre câncer de ovário, doença que está associada à maior taxa de mortalidade por câncer ginecológico

 

Qual a incidência do câncer de ovário no Brasil?

É o oitavo câncer mais frequentemente diagnosticado, responsável por 7.310 novos casos a cada ano, segundo a estimativa do Instituto Nacional do Câncer (Inca) para o triênio 2023-2026. O câncer de ovário está associado à maior taxa mortalidade entre os cânceres ginecológicos. No Brasil, no ano de 2020 ocorreram quase 4.000 mortes por câncer de ovário.

 

Por que é alta a taxa de mortalidade do câncer de ovário?

A elevada mortalidade associada ao câncer de ovário se deve, em grande parte, ao fato de que a maioria dos casos é diagnosticado em estádios mais avançados. Sabemos que, a chance de cura do câncer é maior quando ele é diagnosticado quando a doença ainda está localizada ao órgão de origem. Dados brasileiros revelam que em 67% dos casos, o câncer de ovário é diagnosticado em estádios mais avançados, chamados III e IV.

 

Existem exames para rastrear o câncer de ovário?

Ao contrário do câncer de mama e do câncer de colo uterino, não dispomos de exames de rastreamento para o câncer de ovário. Diversos estudos já foram conduzidos avaliando diferentes métodos de rastreamento, como o exame físico pelo ginecologista, a ultrassonografia e um exame de sangue chamado CA125 (um marcador tumoral, que pode ou não ser produzido em excesso pelo câncer de ovário). No entanto, nenhuma dessas estratégias foi capaz de diagnosticar precocemente o câncer de ovário, de forma eficaz.

 

Quais os sintomas de alerta para as mulheres com relação ao câncer de ovário?

  • Aumento de volume do abdome
  • Dor abdominal/pélvica (região inferior do abdome)
  • Sensação de empachamento, dificuldade para se alimentar
  • Fadiga
  • Sintomas urinários: aumento da frequência das idas ao banheiro, sensação de urgência para urinar

 

Como é feito o diagnóstico do câncer de ovário?

Geralmente, a avaliação se inicia pelo exame físico pelo ginecologista, seguido de ultrassonografia e exames laboratoriais, incluindo o CA125. O achado de lesões ovarianas suspeitas, nódulos sólidos e/ou cistos, outros exames de imagem podem ser solicitados, como tomografia computadorizada e ressonância magnética, e a paciente é encaminhada para o ginecologista oncológico, especializado no tratamento cirúrgico dos cânceres ginecológicos.

 

Quais os tratamentos possíveis para o câncer de ovário?

– Vai depender de cada caso, mas pode ser:

  • Cirurgia
  • Quimioterapia
  • Anticorpo monoclonal
  • Inibidores de PARP.

 

Referências

Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estatísticas de câncer. Disponível em: https://www.inca.gov.br/numeros-de-cancer. Acessado em 4 de maio de 2023.

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Aghajanian C, Blank SV, Goff BA, et al. OCEANS: a randomized, double-blind, placebo-controlled phase III trial of chemotherapy with or without bevacizumab in patients with platinum-sensitive recurrent epithelial ovarian, primary peritoneal, or fallopian tube cancer. J Clin Oncol. 2012 Jun 10;30(17):2039-45.

Banerjee S, Moore KN, Colombo N, et al. Maintenance olaparib for patients with newly diagnosed advanced ovarian cancer and a BRCA mutation (SOLO1/GOG 3004): 5-year follow-up of a randomised, double-blind, placebo-controlled, phase 3 trial. Lancet Oncol. 2021 Dec;22(12):1721-1731.

Ray-Coquard I, Pautier P, Pignata S, et al. Olaparib plus Bevacizumab as First-Line Maintenance in Ovarian Cancer. N Engl J Med. 2019 Dec 19;381(25):2416-2428. doi: 10.1056/NEJMoa1911361.

González-Martín A, Pothuri B, Vergote I, et al. Niraparib in Patients with Newly Diagnosed Advanced Ovarian Cancer. N Engl J Med. 2019 Dec 19;381(25):2391-2402.

 

 

 

Câncer de Ovário: tumor silencioso e agressivo é o 8º entre as brasileiras

O câncer de ovário acomete mais de 300.000 mulheres anualmente em todo o mundo. No Brasil, é o oitavo câncer mais frequentemente diagnosticado, responsável por 7.310 novos casos a cada ano segundo a estimativa do Instituto Nacional do Câncer para o triênio 2023-2026. A despeito de sua colocação em incidência de novos casos, o câncer de ovário está associado à maior taxa mortalidade entre os cânceres ginecológicos. No Brasil, no ano de 2020 ocorreram quase 4.000 mortes por câncer de ovário. Em todo o mundo, mais de 207.000 mulheres morrem a cada ano em função da doença.

Diante desse quadro, fica clara a importância do dia 8 de maio, como o Dia Mundial do Câncer de Ovário. Essa iniciativa tem o objetivo de lançar luz ao problema e atrair a atenção da sociedade, dos profissionais de saúde e dos governantes, para que unam esforços na luta contra o câncer de ovário.

A elevada mortalidade associada ao câncer de ovário se deve, em grande parte, ao fato de que a maioria dos casos é diagnosticada em estádios mais avançados. Sabemos que, a chance de cura do câncer é maior quando ele é diagnosticado quando a doença ainda está localizada ao órgão de origem. Dados brasileiros revelam que em 67% dos casos, o câncer de ovário é diagnosticado em estádios mais avançados, chamados III e IV. Um dado bastante alarmante! Colocando em perspectiva, apenas 29% das mulheres com diagnóstico de câncer de ovário avançado sobrevivem até os 5 anos após o diagnóstico.

Em primeiro lugar, precisamos chamar a atenção para o fato de que, ao contrário do câncer de mama e do câncer de colo uterino, não dispomos de exames de rastreamento para o câncer de ovário. Diversos estudos já foram conduzidos avaliando diferentes métodos de rastreamento, como o exame físico pelo ginecologista, a ultrassonografia e um exame de sangue chamado CA125 (um marcador tumoral, que pode ou não ser produzido em excesso pelo câncer de ovário). No entanto, nenhuma dessas estratégias foi capaz de diagnosticar precocemente o câncer de ovário, de forma eficaz. Sendo assim, o diagnóstico na grande maioria das vezes é feito em mulheres com sintomas da doença.

Aqui se coloca a segunda questão importante. O câncer de ovário, na maioria das vezes, não causa sintomas nos seus estádios iniciais, o que faz com que as mulheres sintomáticas tenham uma grande chance de apresentarem a doença mais avançada. Além disso, os sintomas associados ao câncer de ovário são inespecíficos e podem ser confundidos com outros problemas de saúde. Isso faz com que as mulheres não suspeitem inicialmente da doença e acabem atrasando a procura pelo profissional de saúde. 

 

Os sintomas mais comumente relatados pelas pacientes são:

  • Aumento de volume do abdome
  • Dor abdominal/pélvica (região inferior do abdome)
  • Sensação de empachamento, dificuldade para se alimentar
  • Fadiga
  • Sintomas urinários: aumento da frequência das idas ao banheiro, sensação de urgência para urinar

 

Assim, é importante reforçar o conhecimento sobre esses sintomas e a necessidade de buscar atendimento médico caso se instalem e sejam persistentes. 

Diante da suspeita de câncer de câncer de ovário, a mulher será submetida a exames para investigação e confirmação diagnóstica. Geralmente, a avaliação se inicia pelo exame físico pelo ginecologista, seguido de ultrassonografia e exames laboratoriais, incluindo o CA125. O achado de lesões ovarianas suspeitas, nódulos sólidos e/ou cistos, outros exames de imagem podem ser solicitados, como tomografia computadorizada e ressonância magnética, e a paciente é encaminhada para o ginecologista oncológico, especializado no tratamento cirúrgico dos cânceres ginecológicos. 

Após avaliação pelo ginecologista oncológico, uma decisão será tomada: iniciar o tratamento pela cirurgia ou pela quimioterapia. Geralmente, quando possível fazer a retirada completa do tumor e de todas as outras lesões, sem atraso para o tratamento posterior com quimioterapia, a cirurgia é realizada como primeiro tratamento. Do contrário, o tratamento é iniciado com a quimioterapia para reduzir o tamanho dos tumores e permitir uma cirurgia ótima posteriormente. 

Durante algumas décadas, o tratamento do câncer de ovário se resumia à cirurgia e à quimioterapia. Isso mudou nos últimos 10 anos, com a introdução de novos tratamentos que vêm mudando a história da doença e oferecendo um novo horizonte para as pacientes com câncer de ovário. O primeiro desses novos tratamentos é a associação de um medicamento chamado Bevacizumabe à quimioterapia. O Bevacizumabe atua nos vasos sanguíneos que nutrem o tumor, melhorando os efeitos da quimioterapia e prolongando o tempo para progressão da doença. 

Um segundo grupo de medicamentos recentemente incluídos no tratamento do câncer de ovário são os chamados inibidores de PARP. São eles o Olaparibe, o Niraparibe, o Rucaparibe e o Veliparibe. Mas o que é a PARP? A PARP é uma proteína que está envolvida na correção de defeitos no DNA da célula. Essa ação é extremamente importante, pois sabemos que as células que não conseguem corrigir esses defeitos acabam morrendo. Existem diferentes mecanismos de correção de defeitos no DNA, de forma que o efeito desses medicamentos contra o câncer de ovário é maior naquelas pacientes em que os tumores apresentam desses mecanismos de correção, no que chamamos de “Deficiência de Recombinação Homóloga” (ou HRD). Nesse grupo de defeitos, encontramos as mutações dos genes BRCA1 e BRCA2. Muito conhecidas por sua associação ao aumento do risco de desenvolvimento do câncer de mama, as mutações de BRCA1 e BRCA2 também aumentam o risco de câncer de ovário, entre outros. 

Os inibidores de PARP estão modificando de forma significativa o cenário do tratamento do câncer de ovário. Eles podem ser usados sozinhos ou após a quimioterapia, no que chamamos de “tratamento de manutenção”. Os benefícios que esses medicamentos trouxeram nunca haviam sido vistos no cenário de tratamento do câncer de ovário. Lembrem-se que comentamos que entre as pacientes com diagnóstico de doença avançada cerca de 29% apenas sobreviviam aos primeiros 5 anos após o diagnóstico. Nas pacientes com câncer de ovário e mutação de BRCA1 ou BRCA2, que fazem uso de quimioterapia e inibidor de PARP, esse número chega a quase 50%. Algumas pacientes apresentam resposta completa ao tratamento, com desaparecimento de todas as lesões, sem apresentarem nenhum sinal de recidiva/progressão de doença após 5 anos de tratamento. Hoje já chegamos a vislumbrar a cura para essas pacientes. 

O cenário está mudando muito rapidamente e para melhor. Diversos outros tratamentos estão sendo testados em câncer de ovário, como a imunoterapia, vacinas, conjugados anticorpo-quimioterapia, terapia gênica, entre outros. Os avanços no desenvolvimento de novas terapias cada vez mais eficazes, partindo de um melhor entendimento da doença, bem como campanhas de conscientização sobre o câncer de ovário, como o Dia Mundial do Câncer de Ovário, são peças fundamentais para que possamos melhorar o prognóstico da doença, melhorando as chances de cura e mantendo a qualidade de vida das mulheres.

 

Referências

 

Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estatísticas de câncer. Disponível em: https://www.inca.gov.br/numeros-de-cancer. Acessado em 04 de maio de 2023.

Paulino E, Melo AC, Silva-Filho AL, et al. Panorama of gynecologic câncer in Brazil. JCO Glocal Oncol. 2020; 6:1617-30.

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Aghajanian C, Blank SV, Goff BA, et al. OCEANS: a randomized, double-blind, placebo-controlled phase III trial of chemotherapy with or without bevacizumab in patients with platinum-sensitive recurrent epithelial ovarian, primary peritoneal, or fallopian tube cancer. J Clin Oncol. 2012 Jun 10;30(17):2039-45.

Banerjee S, Moore KN, Colombo N, et al. Maintenance olaparib for patients with newly diagnosed advanced ovarian cancer and a BRCA mutation (SOLO1/GOG 3004): 5-year follow-up of a randomised, double-blind, placebo-controlled, phase 3 trial. Lancet Oncol. 2021 Dec;22(12):1721-1731.

Ray-Coquard I, Pautier P, Pignata S, et al. Olaparib plus Bevacizumab as First-Line Maintenance in Ovarian Cancer. N Engl J Med. 2019 Dec 19;381(25):2416-2428. doi: 10.1056/NEJMoa1911361.

González-Martín A, Pothuri B, Vergote I, et al. Niraparib in Patients with Newly Diagnosed Advanced Ovarian Cancer. N Engl J Med. 2019 Dec 19;381(25):2391-2402.

 

 

7 de abril – Dia Mundial da Saúde – O que realmente previne o câncer?

O câncer é um dos principais problemas de saúde pública no mundo. Segundo o relatório global sobre o câncer da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (International Agency for Research on Cancer – IARC), no ano de 2020 foram diagnosticados em todo o mundo mais de 19 milhões de novos casos de câncer. Nesse mesmo ano, aproximadamente 10 milhões de mortes ocorreram por causa desse grupo de doenças, colocando o câncer como uma das principais causas de morte em todo o mundo. Até meados do século passado, o câncer era considerado uma doença “incurável”, “terminal”, um estigma que ainda faz parte do imaginário de muitas pessoas sobre a doença. Felizmente, a segunda metade do século XX testemunhou um rápido desenvolvimento do conhecimento sobre os mecanismos de desenvolvimento do câncer, seus fatores de risco, bem como da biologia dessas doenças, permitindo o desenvolvimento de estratégias de diagnóstico precoce (rastreamento) e tratamento, contribuindo para a redução da mortalidade por câncer observada em todo o mundo. De fato, se pegarmos os EUA como exemplo, a porcentagem de pessoas vivas 5 anos após o diagnóstico de câncer passou de 49% há 50 anos, para cerca de 70% atualmente. No entanto, esta não é a realidade de muitos países do mundo.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima um aumento de 60% no número de casos de câncer no mundo nas próximas duas décadas, sendo que mais de 80% desses novos casos ocorrerão nos países de média e baixa renda. Isso pode ser atribuído ao aumento da expectativa de vida nesses países, ao controle de outras causas de morte como doenças infecciosas e doenças materno-fetais, ao aceleramento da urbanização das cidades e às mudanças no estilo de vida. Nos países mais pobres, grande parte dos recursos vêm sendo empregados no combate às doenças infecciosas e na melhora da saúde materna e infantil, limitando o acesso da população a programas eficazes de prevenção e tratamento do câncer. Nesse contexto, os esforços no controle do câncer devem ter como foco a ampliação do acesso ao diagnóstico precoce e tratamento do câncer, mas também a adoção de medidas para a prevenção do desenvolvimento dessas doenças. Existem diversas estratégias de prevenção contra o câncer, algumas delas referem-se a procedimentos médicos como vacinação e rastreamento, enquanto outras estão relacionadas ao controle dos fatores de risco ambientais e de hábitos de vida.

Hoje, estimamos que entre 30-50% dos casos de câncer podem ser prevenidos pelo controle de fatores de risco e adoção de estratégias preventivas baseadas no conhecimento médico atual. Você não leu errado, até METADE dos casos de câncer podem ser prevenidos se os conhecimentos que temos hoje sobre o assunto forem aplicados.

No que diz respeito aos fatores de risco, sabemos que aproximadamente um terço dos casos de câncer podem ser atribuídos a cinco principais fatores de risco relacionados ao estilo de vida:

  • Dieta pobre em frutas e vegetais
  • Sedentarismo/Falta de atividade física
  • Sobrepeso/Obesidade
  • Tabagismo
  • Consumo de álcool

 

  1. Dieta

Os hábitos dietéticos têm impacto importante no risco de desenvolvimento de diversos tipos de câncer. Vários estudos mostraram um aumento do risco de determinados tipos de câncer em populações que consomem dietas ricas em carne vermelha, carne processada, gordura animal, sal e açúcares refinados. Elevado consumo de carne vermelha está associado a aumento do risco de câncer de cólon, estômago, esôfago, mama, pulmão e próstata.

Quando falamos em medidas dietéticas para prevenção do câncer, a maioria das evidências aponta para o benefício de se adotar uma dieta rica em frutas e vegetais. Interessante notar que alguns estudos mostraram menor risco de câncer entre pessoas de hábito vegetariano ou vegano. Muitas pessoas acreditam que aumentando o consumo de um alimento específico é suficiente para prevenir o desenvolvimento do câncer. Muito pelo contrário, o real benefício provavelmente será obtido através da adoção de um padrão global de dieta, seguido ao longo de vários anos ou décadas.

Mas qual dieta eu devo seguir? A recomendação atual pela OMS e demais sociedades médicas e de nutrição é de que se adote uma dieta com mesmo padrão da chamada Dieta do Mediterrâneo. Ela se caracteriza por ser rica em frutas, vegetais, grãos integrais, sementes e castanhas, e pobre em carnes processadas, açúcar e grãos refinados. Existem evidências de que a adoção desse padrão de dieta está associada a redução do risco de diferentes tipos de câncer, principalmente aqueles que se originam no trato gastrintestinal (estômago, intestino).

E finalmente, mas não menos importante, há que se reforçar que até o momento não temos evidências consistentes de que o uso de suplementos alimentares, incluindo vitaminas, reduza o risco de desenvolvimento de câncer.

 

  1. Atividade física / Sedentarismo

A relação entre a prática regular de atividade física e a prevenção do câncer já é conhecida desde os anos 1920. Diversos estudos corroboraram os primeiros achados e, mais recentemente, uma análise combinada de mais de 1,44 milhão de pessoas na Europa e nos EUA, sugeriu que indivíduos com maiores níveis de prática de atividade física apresentam um risco 10-40% menor de desenvolverem câncer, quando comparados àqueles com menor nível de atividade. Tal benefício foi observado em relação a uma ampla gama de cânceres, incluindo mama, cólon, útero, estômago, rim, pulmão, bexiga, entre outros. Tal efeito protetor é observado não apenas para o nível de atividade física na idade adulta, mas se estende à prática de atividade física ao longo de toda a vida.

Outro aspecto importante nesse contexto é o tempo de sedentarismo, definido como o tempo em que se permanece assentado ou deitado, frequentemente assistindo televisão ou utilizando computador e dispositivos móveis (smart phone, tablet). Estudos mais recentes, envolvendo a observação de grande número de pessoas, evidenciou que os indivíduos com maiores períodos de sedentarismo chegaram a apresentar aumento de quase 80% no risco de determinado subtipo de câncer de mama.

A OMS publicou, em 2020, as novas recomendações para a prática de atividade física para crianças, adolescentes e adultos. Tais recomendações se baseiam em evidências científicas associando a atividade física regular a benefício não só em relação à prevenção do câncer, mas também benefícios para a saúde cardiovascular, prevenção de diabetes tipo 2, melhora da saúde cognitiva e do sono, bem como da saúde mental. Cabe ressaltar que a atividade física regular também reduz o risco de morte por todas as causas. Seguem as recomendações para adultos:

  • Pelo menos 150-300 minutos/semana de atividade física aeróbica moderada

OU

  • Pelo menos 75-150 minutos/semana de atividade física aeróbica vigorosa

 

Para obter benefício adicional, recomenda-se acrescentar atividades de fortalecimento muscular pelo menos 2 vezes por semana.

 

  1. Sobrepeso / Obesidade

A obesidade está entre os fatores de risco de câncer com maior potencial de prevenção. Estima-se que a obesidade seja responsável por até 50% do risco de câncer entre as pessoas com menos de 65 anos. Segundo o IARC, cerca de 13 tipos de câncer têm a obesidade como um dos principais fatores desencadeantes, entre eles o câncer gástrico, de ovário, mama após a menopausa, útero, rim, cólon, reto e pâncreas. Uma relação pouco falada é a associação entre a obesidade e a doença hepática não-relacionada ao álcool, uma condição com elevado risco de câncer hepático (carcinoma hepatocelular).

Os mecanismos pelos quais a obesidade leva ao desenvolvimento de câncer variam entre os diferentes cânceres, e existe também uma diferença em termos de gênero. Sabemos hoje que a obesidade é um fator contribuinte para o risco de câncer de forma mais importante entre as mulheres (55%) do que nos homens (24%). Além disso, estudos sugerem uma associação mais forte para o ganho de peso que ocorre na idade adulta. Variações cíclicas no peso corporal, ou seja, períodos de perda e ganho de peso, também estão associadas a aumento do risco de câncer.

Por outro lado, evidências nos mostram que a redução de peso e a manutenção dessa perda está associada a redução do risco de câncer. Por exemplo, os resultados do estudo WHS (Women’s Health Study) sugeriram que mulheres que perderam 10 Kg ou mais durante a vida adulta, e mantiveram o peso, apresentaram um risco 57% menor de câncer.

 

  1. Tabagismo

Os produtos do tabaco contêm mais de 70 substâncias químicas que podem causar danos no DNA, sendo que 16 deles estão reconhecidamente associados ao risco de câncer em humanos. O uso de tabaco, o fator de risco mais prevenível para câncer, é responsável por mais de 20% das mortes por câncer em todo o mundo. Cerca de 80% dos casos de câncer de pulmão em homens e 50% em mulheres podem ser diretamente atribuídos ao cigarro. No entanto, o tabagismo está associado a aumento do risco de diversos outros cânceres, como bexiga, laringe, cavidade oral, estômago, pâncreas, cólon e reto, e colo uterino.

O benefício com a cessação do tabagismo já se inicia no primeiro ano após a interrupção do uso e aumenta ao longo do tempo. Tais benefícios são mais pronunciados quando a cessação do tabagismo acontece antes dos 40 anos de vida, situação na qual estima-se uma redução de 90% do risco de mortalidade precoce associada ao tabagismo. A interrupção do tabagismo antes dos 50 anos leva a uma redução de 62% no risco de morte por câncer de pulmão.

Não existe consumo seguro de produtos do tabaco, de forma que a OMS recomenda que todos os indivíduos que consumam esses produtos cessem o uso. Em diversos países, programas de prevenção e controle do tabagismo foram implantados nas últimas décadas, levando a redução significativa e sustentada ao longo do tempo nas taxas de tabagismo.

 

  1. Álcool

O consumo de álcool é responsável por cerca de 4% dos casos de câncer no mundo, o que representou 740.000 casos no ano de 2020. Os principais tipos associados ao consumo de álcool são os cânceres de esôfago, fígado, mama e estômago. A magnitude de aumento do risco de câncer varia de acordo com a quantidade de álcool consumida, o tipo de bebida e a associação a outros fatores de risco, como o tabagismo. Ao contrário do tabagismo, existe pouca atenção pública à relação entre o consumo de álcool e o câncer.

Até mesmo o consumo de pequenas quantidades de álcool pode aumentar o risco de câncer. Por exemplo, alguns estudos mostraram que o consumo de uma dose por dia (6-8g de álcool) aumenta o risco de câncer de mama em 11%, e o consumo de duas doses por dia aumenta em 8% o risco de câncer de cólon e reto.

Com o objetivo de reduzir os malefícios do consumo de álcool, não somente em relação à prevenção de câncer, os especialistas do Dietary Guidelines for Americans recomendam que adultos em idade legal prefiram não consumir álcool, ou o faça em quantidade moderada. Isso corresponde ao consumo de uma dose por dia para as mulheres ou duas doses por dia para os homens. Uma dose equivaleria aproximadamente a uma taça de vinho, um copo de cerveja ou uma pequena taça de destilado. Mas reforça-se que o consumo de até menos de uma dose por dia está associado a aumento do risco de câncer.

 

  1. Infecções

Devido ao cada vez mais reconhecido papel de diferentes tipos de agentes infecciosos e o risco de câncer, é importante reduzir a exposição a esses patógenos. Nesse sentido, além da adoção de medidas para melhora das condições de saneamento, acesso a água tratada, educação quanto à prática de relação sexual protegida, a vacinação representa uma das principais estratégias preventivas.

A infecção pelo HPV, ou vírus do papiloma humano, é responsável por mais de 90% dos casos de câncer de colo uterino. A primeira vacina contra o HPV foi disponibilizada em 2006 e, atualmente, 125 países incluem a vacina contra o HPV em seus calendários vacinais. O potencial de prevenção do câncer de colo uterino, entre outros, é tão importante que a OMS classifica essa vacina na lista de tratamentos essenciais. De fato, a vacinação contra o HPV tem o potencial de contribuir para a erradicação do câncer de colo uterino no mundo, com um potencial de redução de 100% na mortalidade por essa doença.

A infecção crônica pelo vírus da hepatite B está associada ao desenvolvimento de câncer hepático (carcinoma hepatocelular). A vacina contra esse vírus está disponível no calendário vacinal brasileiro, tendo ela um potencial de redução do risco de morte por doença hepática e por câncer hepático da ordem de 90%.

 

Referências

 

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  1. Pott P. Cancer Scroti. In: Chirurgical observations relative to the cataract, the polypus of the nose, cancer of the scrotum, different kinds of ruptures, and the mortification of the toes and feet. London: Hawes, Clarke, Collins; 1775. p. 63–8.

 

  1. WHO. Cancer Key Facts. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/cancer. Acessado em: 04 de abril de 2023.

 

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Mamografia: A história de um exame que pode mudar histórias de vida

A palavra rastreamento tem origem no verbo rastrear, que significa “acompanhar ou perseguir pistas, indícios e/ou rastros de algo ou alguém”, ou seja, carrega um sentido de investigação. No contexto do cuidado em saúde, rastreamento pode ser definido como qualquer estratégia que tem como objetivo identificar uma doença ou uma alteração precursora de doença, em uma pessoa considerada saudável. Trazendo esse conceito para a oncologia, duas condutas importantes podem ser tomadas a partir do rastreamento. Em primeiro lugar, a identificação de lesões precursoras permite o seu tratamento e, com isso, a prevenção do desenvolvimento de câncer. Por outro lado, podemos identificar câncer em seu estádio mais inicial, com elevada chance de cura. Para se ter uma ideia, a identificação de câncer de mama em seus estádios mais iniciais está associada a uma chance de cura que chega a mais de 95%.

A importância do diagnóstico precoce do câncer de mama já era reconhecida muito antes de termos exames adequados para esse propósito. Na década de 1920, em um congresso anual de radiologistas, nos EUA, especialistas já entendiam que o exame visual e a palpação das mamas eram muito limitados na identificação do câncer de mama inicial, bem como na diferenciação entre o câncer e lesões benignas. Já no início do século 20, foram realizadas diversas campanhas educativas nos Estados Unidos orientando as mulheres a não adiar a procura por atendimento médico caso apresentassem algum sintoma de câncer de mama. Infelizmente, tais campanhas não tiveram efeito na redução do risco de morte por câncer de mama. De fato, o diagnóstico precoce do câncer de mama envolve a detecção da doença antes do desenvolvimento de qualquer sinal ou sintoma da doença. Por isso, a importância dos exames de imagem.

A história da mamografia começa em 1913, quando um cirurgião alemão publicou um estudo no qual realizou radiografia de 3.000 mamas operadas, evidenciando diferenças entre mamas normais, mamas com lesões benignas e mamas com câncer. Nas décadas seguintes, a técnica do exame foi aprimorada, mas inicialmente o exame era utilizado principalmente na avaliação de mulheres que seriam submetidas a cirurgia da mama. O primeiro estudo que avaliou o uso da mamografia para a identificação de câncer de mama em mulheres sem suspeita para a doença foi publicado em 1960 por Robert Egan, um radiologista do MD Anderson Cancer Center. O potencial da mamografia na identificação de câncer de mama em mulheres sem sinais e sintomas da doença foi confirmado por outros estudos publicados alguns anos depois.

O primeiro estudo clínico randomizado que avaliou o benefício da mamografia para rastreamento do câncer de mama com objetivo de reduzir a mortalidade pela doença incluiu 60.000 mulheres que residiam na região da cidade de Nova Iorque e eram atendidas pelo mesmo plano de saúde. O estudo foi realizado entre os anos de 1966 e 1982. Já no início dos anos 70, os primeiros resultados do estudo indicavam que a mortalidade por câncer de mama entre as mulheres submetidas a repetidos exames de mamografia foi menor do que a de mulheres que não fizeram a mamografia. Na última publicação, após um acompanhamento de mais de 10 anos, os pesquisadores mostraram que a realização de mamografia em intervalos regulares foi associada a uma redução de 30% no risco de morte por câncer de mama. Os resultados desse importante estudo levaram à realização de diversos estudos randomizados nos Estados Unidos e na Europa, que confirmaram o benefício do rastreamento com mamografia na redução do risco de morte por câncer de mama.

Uma questão que gerou muito debate inicialmente era a idade ideal para início do rastreamento. Além de dúvidas quanto ao benefício do rastreamento para mulheres com idade de 40 a 49 anos, suspeitava-se de que em mulheres jovens a mamografia poderia trazer mais riscos pela radiação (lembrando que é um exame de radiografia). No entanto, diversos estudos evidenciam o benefício do rastreamento também nessa faixa etária, e não existem dados que indiquem um risco aumentado pela realização do exame em mulheres jovens.

No congresso anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) de 2022, um importante estudo foi apresentado, evidenciando a contribuição da mamografia e dos tratamentos para o câncer na redução do risco de morte por câncer de mama. Foi analisado um período de quase 20 anos, sendo observado que o rastreamento que a mamografia, na medida em que possibilita o diagnóstico precoce do câncer, foi associado a uma redução de aproximadamente 31% no risco de morte por câncer de mama. Quando consideramos mulheres que tem acesso aos mesmos tratamentos, sabemos que a maior parte das mortes por câncer de mama ocorre entre as mulheres que não faziam rastreamento. Isso deixa claro que tratamentos mais eficazes atuam em conjunto com o diagnóstico precoce, pela mamografia, para aumentar as taxas de cura do câncer de mama.

No Brasil, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), o Ministério da Saúde recomenda que o rastreamento com mamografia seja realizado a cada dois anos para mulheres com idade entre 50 e 69 anos. Tal recomendação é feita do ponto de vista de saúde pública e se baseia no fato de que essa faixa etária é a que apresenta maior benefício. Isso, porém, não significa que não há benefício do rastreamento em mulheres com idade de 40 a 49 anos. Alguns estudos, inclusive, sugerem benefício semelhante ao de mulheres mais velhas. Considerando esse benefício, e o fato de que temos observado aumento da incidência de câncer de mama em mulheres com menos de 50 anos, a Sociedade Brasileira de Mastologia recomenda que o rastreamento seja iniciado aos 40 anos de idade, e que o exame seja feito anualmente. Já existe um Projeto de Decreto Legislativo (número 679/2019) que propõe assegurar a realização da mamografia de rastreamento para as mulheres a partir dos 40 anos, no Sistema Único de Saúde (SUS). O projeto já foi aprovado no Senado Federal e, atualmente, aguarda o parecer do relator na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados.

Por fim, algumas palavras sobre o uso dos demais exames de imagem no rastreamento do câncer de mama. O ultrassom de mamas não é considerado um método adequado para rastreamento do câncer de mama, mas pode ser utilizado como exame complementar quando a mamografia é suspeita ou quando a mulher tem mamas muito densas. Além disso, o ultrassom permite a realização da biopsia da lesão suspeita. A ressonância magnética (RNM) das mamas tem seu principal papel no rastreamento de câncer de mama em mulheres com alto risco de desenvolvimento da doença, como por exemplo em mulheres portadoras de mutações genéticas de alto risco para câncer de mama. Nesses casos, a RNM é utilizada em conjunto com a mamografia.

 

Referências:

 

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A prática regular de atividade física e o tempo de sedentarismo estão associados ao risco de câncer de mama

O câncer de mama é a neoplasia maligna mais diagnosticada entre as mulheres em todo o mundo. O câncer está incluído em um grupo de doenças chamado “Doenças Crônicas Não-Transmissíveis”, no qual estão incluídas também as doenças cardiovasculares, o diabetes e as doenças respiratórias crônicas. Em conjunto, essas doenças são responsáveis por mais de 70% de todas as mortes no mundo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), alguns fatores de risco são responsáveis pela maior parte dessas doenças: tabagismo, consumo alimentar inadequado, uso abusivo de bebidas alcoólicas e a inatividade física.

A OMS define atividade física como qualquer atividade de movimento corporal produzida pela musculatura esquelética e que requer gasto de energia. Sabemos que tanto a prática de atividade física de intensidade moderada quanto vigorosa são capazes de melhorar a saúde das pessoas. De fato, a prática regular de atividade física ajuda a prevenir e tratar doenças cardíacas, acidentes vasculares cerebrais, diabetes e, até mesmo, o câncer. Além disso, melhoram a saúde mental e a qualidade de vida.

A recomendação atual da OMS é de que os adultos pratiquem entre 150-300 minutos de atividade física moderada (caminhada, pilates, hidroginástica, dança) por semana, ou de 75-150 minutos de atividade física vigorosa (corrida, musculação, basquete, futebol, tênis, etc).

No Brasil, segundo o último levantamento do IBGE, metade dos adultos não atingem o nível de atividade física recomendado pela OMS. Apesar disso, observou-se uma melhora ao longo das últimas décadas, especialmente entre as mulheres. No caso delas, a porcentagem de mulheres que pratica atividade física pelo tempo mínimo recomendado pela OMS passou de 22,2% em 2009 para 31,3% em 2021. No entanto, ainda há muito espaço para melhora nessa questão.

Diversos estudos observacionais já nos mostraram que um maior nível de prática de atividade física e um menor tempo de sedentarismo estão associados a um menor risco de câncer de mama. No entanto, esses estudos apresentam algumas limitações na definição de causa e efeito entre a prática de atividade física e a redução do risco de câncer de mama. Nesse contexto, em um estudo publicado recentemente no periódico British Journal of Sports Medicine, os pesquisadores empregaram uma metodologia diferente, com o objetivo de avaliar com mais precisão essa relação, isolando potencialmente o efeito de outros fatores.

Foram avaliados os dados de 130.957 mulheres de origem europeia, das quais 69.838 haviam recebido diagnóstico de câncer de mama, 6.667 mulheres com carcinoma in situ de mama, e 54.452 mulheres sem diagnóstico de câncer. O diferencial do estudo foi a utilização de marcadores genéticos sabidamente associados à prática de atividade física global, à prática de atividade física vigorosa, e ao tempo de sedentarismo, determinados com base em um banco de dados do Reino Unido.

As mulheres com predisposição genética e maiores níveis de atividade física apresentaram um risco 41% menor de desenvolvimento de câncer de mama. A redução do risco ocorreu tanto em mulheres pré-menopausadas quanto pós-menopausadas, bem como foi observada para todos os tipos de câncer de mama. Além disso, a prática de atividade física vigorosa foi associada a uma redução de 38% no risco de câncer de mama, principalmente em mulheres mais jovens.

Por outro lado, a presença de marcadores genéticos de maior tempo de sedentarismo (tempo passado assentado ou deitado) foi associada a um aumento de 77% no risco de câncer de mama receptor hormonal negativo (sendo maior o risco de tumores triplo-negativos: aumento de 104% no risco). Os resultados foram mantidos mesmo após a exclusão de marcadores genéticos sabidamente associados a outros fatores de risco para câncer de mama, reforçando a relação de causa e efeito entre o nível de atividade física e o risco de desenvolvimento de câncer de mama.

Os autores concluem que os achados do estudo adicionam evidências mais robustas da relação de causa e efeito entre a prática de atividade física e o risco de câncer de mama. A prática de maior nível de atividade física e a redução do tempo de sedentarismo potencialmente reduzem o risco de câncer de mama, de forma consistente entre os subtipos de câncer. Pela metodologia utilizada, eles acreditam ter reduzido de forma significativa o impacto de outros fatores de confusão, estabelecendo uma relação mais direta de causa e efeito entre a atividade física e o câncer de mama.

Esses resultados têm impacto importante em termos de saúde pública e para o delineamento de estratégias de prevenção do câncer de mama por meio de mudanças do estilo de vida.

 

Referências

 

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  1. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise em Saúde e Vigilância de Doenças Não Transmissíveis. Vigitel Brasil 2006-2021. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 71p. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/vigitel_brasil_atividade_fisica_2006_2021.pdf

 

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