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Álcool: o vilão disfarçado de diversão

No dia 20 de fevereiro é celebrado o Dia de Combate ao Alcoolismo. O consumo de álcool é considerado um fator de risco para diversas doenças, em especial quando feito de maneira abusiva. Em contrapartida, alguns estudos tentaram comprovar o efeito protetor do álcool na doença cardiovascular quando consumido em pequena quantidade. Apesar deste suposto benefício, o que sabemos de fato é que o consumo em demasia é responsável por doenças crônicas do fígado (como a cirrose), transtornos psiquiátricos (com altos índices de internações por dependência química) e também por um elevado índice de acidentes de trânsito com vítimas graves.

No Brasil, o consumo de álcool per capita supera a média mundial, conforme dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS). Tal fato torna-se ainda mais preocupante ao passo que as políticas de prevenção primária de doenças são escassas e ineficazes em nosso país. Como agravante, vivemos um momento de pandemia em que hospitais e demais serviços de saúde estão voltados para o combate do coronavírus. Sendo assim, as doenças crônicas relacionadas ao uso excessivo do álcool e o próprio tratamento do alcoolismo como condição patológica certamente estão negligenciadas neste momento.

No que se refere ao câncer, o álcool está envolvido diretamente no processo de desenvolvimento de alguns tumores. O câncer de cabeça e pescoço, por exemplo, tem como principal fator de risco o consumo excessivo de álcool em associação ao cigarro. Essa combinação de hábitos (ou vícios) também está envolvida no surgimento do câncer de esôfago e de estômago. O risco de desenvolver tais cânceres tende a ser 4 a 6 vezes maior em indivíduos consumidores de bebidas alcoólicas de maneira abusiva. O risco de desenvolver câncer de intestino (de cólon e/ou reto) também é maior para pessoas consumidoras de álcool em grande quantidade e frequência. Este mesmo risco existe para mulheres com desenvolvimento do câncer da mama.

É importante que o alcoolismo seja visto como uma doença ou condição de saúde crônica e que seja devidamente tratada tal, como as demais citadas anteriormente. Devemos buscar entender as suas características biológicas, além dos aspectos comportamentais e socioeconômicos envolvidos na sua ocorrência. Não se trata apenas de um hábito ou diversão; o consumo abusivo de álcool está, sim, envolvido no adoecimento por causas diversas e precisa ser combatido diariamente.

4 de fevereiro: Dia Mundial de Combate ao Câncer. “Juntas, todas as nossas ações importam”

Hoje, 4 de fevereiro de 2021, é o Dia Mundial de Combate ao Câncer. Para nós, oncologistas e hematologistas do Grupo SOnHe, este dia parece “ser todo dia”. Mas é especificamente hoje, a data escolhida pela União Internacional Contra o Câncer (UICC) para celebrar todo o esforço no combate, prevenção e conscientização do câncer. Essa campanha se renova anualmente desde o ano 2000, assumindo diversos temas desde então. Para os anos de 2019 a 2021 o tema da campanha (que durou excepcionalmente três anos) foi “eu sou e eu vou” (“I am and I will”). O objetivo é nos questionar sobre “quem somos” e “o que vamos fazer” na luta contra o câncer.

Para o triênio de 2020 a 2022, são esperados 600 mil novos casos de câncer no Brasil. Diante deste crescente número, é, sim, importante que saibamos responder estes questionamentos feitos na campanha hoje celebrada. Felizmente, o tratamento do câncer evoluiu de maneira substancial nos últimos dez anos. O refinamento das técnicas de cirurgia e radioterapia, assim como o advento e a definitiva implementação de novos fármacos como a terapia alvo e a imunoterapia, trouxeram ganhos inimagináveis aos pacientes. Entretanto, é sabido que o acesso a todos esses recursos ainda não é uniforme. O financiamento de tais tecnologias é tema perene de discussão e ainda é insuficiente para garantir o tratamento ideal e no tempo adequado para todos os pacientes.

Ainda que a ciência tenha evoluído no tratamento do câncer, sabemos que o correto é investir e incentivar políticas de rastreamento e prevenção primária, visando a intervenção em lesões precursoras de câncer e o diagnóstico no estágio mais precoce possível. Neste quesito, ainda estamos muito aquém do que desejamos para o Brasil. Infelizmente, nossos programas de rastreamento são escassos e têm cobertura, abrangência e eficiência muito heterogêneas a depender da região de nosso país. Por tal motivo, ainda temos taxas elevadas de câncer colo de útero por exemplo, mesmo que este seja um câncer totalmente prevenível.

Mas afinal, quem somos nós e o que estamos fazendo contra o câncer?

Neste dia Mundial de Combate ao Câncer é necessário que façamos parte desta batalha que começa muito antes do diagnóstico e que agora enfrenta um desafio ainda maior com a pandemia da COVID-19. É necessário estimular uma rotina de hábitos mais saudáveis, além do combate ao tabagismo, ao alcoolismo e ao sedentarismo e obesidade (fatores de risco que muitas vezes passam despercebidos). É preciso difundir informações confiáveis e de qualidade sobre o câncer em geral, buscando desmitificá-lo e estimular sua prevenção. É também importante a cobrança pelo acesso uniforme às tecnologias envolvidas no tratamento do câncer. Por fim, é de suma importância que os pacientes sejam estimulados a manter a investigação, acompanhamento e tratamento oncológico. Finalizo parafraseando um dos slogans da campanha que hoje celebramos: “juntas, todas as nossas ações importam”. Que mesmo na pandemia, façamos diariamente o esforço para a prevenção e combate ao câncer.

Mostre-me a evidência: Vinho e a recuperação do olfato após COVID-19

A atual pandemia que vivemos nos forçou a aprender sobre diversos temas que não fazem parte da nossa prática diária. O Grupo SOnHE, formado por médicos oncologistas e hematologistas, teve de incorporar na prática onco-hematológica o conhecimento e os cuidados sobre essa “não mais tão nova” doença causada pelo coronavírus. Muitos dos nossos pacientes se encaixam como grupo de risco para a afecção da COVID-19 e, portanto, cabe a nós orientá-los sobre as diversas situações que permeiam este assunto.

Muito se falou sobre as consequências da infecção do coronavírus. A disfunção respiratória é, de todas, a mais temida. Entretanto, a doença pode cursar com sintomas e até sequelas não tão usuais: é o caso da perda de olfato. 10 a 15% dos infectados pelo vírus poderão cursar com perda de olfato (conhecida tecnicamente como anosmia) por algum período. Em alguns casos, essa condição pode se estender e se tornar inclusive uma sequela.

O programa Mostre-me a Evidência de hoje (fugindo um pouco da Oncologia em si) traz a evidência que mostra como a perda de olfato pela COVID-19 pode ser tratada ou amenizada com o simples (e delicioso!) hábito de degustar vinhos.

Isso mesmo; vinho!

Um grupo de pesquisadores alemães, referência em tratamentos de distúrbios do olfato, desenvolveu pesquisas com uma técnica chamada de “smell training” (em português: treinamento do cheiro). Esta modalidade consiste no ato de cheirar substâncias que possuem um cheiro forte e marcante (como vinhos e outros: café, mostarda, perfumes, produtos de limpeza) com os olhos vendados para não poder para identificá-las com a visão. O desempenho dessa prática de maneira periódica e repetitiva mostrou impacto positivo na recuperação da anosmia por diversas causas, entre elas após infecções virais. Por isso, esta modalidade foi recentemente introduzida num guideline britânico de rinologia como uma das práticas para manejo dos distúrbios do olfato relacionados à COVID-19.

O hábito de beber e degustar vinhos é, sem sombra de dúvidas, muito agradável e prazeroso. Quando feito com moderação e respeitando as condições de saúde de cada indivíduo, pode ser estimulado e praticado. Quem já degustou vinhos certamente conhece a importância da olfação para a degustação. Utilizar o “smell training” pode, sim, auxiliar na recuperação pós-COVID.

É isso por hoje! Acompanhe o Grupo SOnHe nas redes sociais. E cuidem-se para que, em breve, esta pandemia seja somente uma lembrança.

Referência: HOPKINS, Claire; ALANIN, Mikkel; PHILPOTT, Carl; HARRIES, Phil; WHITCROFT, Katherine; QUREISHI, Ali; ANARI, Shahram; RAMAKRISHNAN, Yujay; SAMA, Anshul; DAVIES, Elgan. Management of new onset loss of sense of smell during the COVID‐19 pandemic ‐ BRS Consensus Guidelines. Clinical Otolaryngology, [S.L.], p. 1-18, 24 set. 2020. 

Obesidade e Câncer

É relativamente fácil notar que a sociedade caminha e se organiza para a inércia de seus indivíduos. A tecnologia (com o smartphone e demais dispositivos), a televisão, o fast food, os meios de transportes e diversos outros produtos e serviços a nossa volta se dispõem em prol da praticidade e da comodidade, nos colocando cada vez menos em movimento. Sendo assim, o sobrepeso e a obesidade tornaram-se condições de saúde muito frequentes e que, até outrora, havia quem os via como um problema exclusivamente estético. O que se tem, na verdade, é uma gama de doenças crônicas relacionadas ao excesso de peso e ao sedentarismo que, de maneira preocupante, ocupa as posições mais altas de hospitalização, com altíssimas taxas de morbimortalidade. Estamos falando não somente da hipertensão, diabetes e das doenças cardiovasculares; o câncer, de uma maneira geral, está diretamente relacionado a fatores ambientais e estilo de vida, tal como o sobrepeso e obesidade.

De acordo com números da American Cancer Society, o excesso de peso corporal é considerado responsável por cerca de 15% dos cânceres em mulheres e cerca de 10% dos cânceres em homens nos Estados Unidos. No que tange aos óbitos envolvendo câncer, estima-se que 7% deles estejam relacionadas às condições de obesidade e/ou sobrepeso. É sabido, ainda, que o risco de falecimento por câncer é maior em pacientes obesos.  Diversos estudos mostraram correlação entre o excesso de peso de câncer. Embora a intensidade desta associação com os diversos tipos de câncer varie entre eles, existem metanálises que encontraram fortes evidências que sustentam a associação entre obesidade e o câncer do útero (endométrio), do rim, do estomago, do ovário e do pâncreas.  O câncer colorretal (o terceiro mais comum em homens e mulheres) é também relacionado a obesidade (em especial nos homens) e tem como um dos fatores de risco o consumo excessivo de carne vermelha e de embutidos, o que comumente auxilia no ganho de peso corporal.  No câncer da mama (que detém a hegemonia nos números de cânceres femininos) a obesidade parece incrementar a incidência especialmente nas mulheres no período pós-menopausa. Dados sugerem que o sobrepeso não aumenta o risco de câncer de mama antes da menopausa, mas as razões para isso ainda não são claras. O que já se sabe é que, após o tratamento do câncer da mama, manter-se ativa e reduzir o peso corporal para níveis adequados para cada individuo é um fator “protetor” e reduz a chance de recidiva do tumor.     O excesso de peso pode aumentar o risco de câncer de diversas maneiras. Biologicamente falando, a obesidade é uma condição que cursa com maiores índices de inflamação no corpo, podendo ainda estimular o crescimento das células e vasos sanguíneos. Certos hormônios, como insulina e estrogênio, estão em níveis elevados no paciente com excesso de peso e tendem a estimular o crescimento das células. Ainda neste contexto, outros mecanismos que regulam o crescimento celular podem se alterar em indivíduos obesos e culminar no crescimento anômalo e desorganizado da célula, o que gera o ambiente ideal para o surgimento de tumores diversos. Sempre é tempo de iniciar uma mudança de hábitos e de estilo de vida em prol da saúde. Embora ainda tenhamos muito a aprender sobre como o ganho (e também a perda) de peso se relacionam com o risco de câncer, as pessoas com sobrepeso ou obesas devem ser encorajadas a se exercitar e mudar hábitos para o controle do peso corpóreo. Além de, possivelmente reduzir o risco de câncer, combater a obesidade e o sobrepeso certamente traz muitos outros benefícios à saúde.

Mostre-me a evidência: Pets e pacientes com câncer

É bem conhecido o fato de que o tratamento do câncer implica em muitas mudanças na vida dos pacientes. Alguns hábitos são deixados de lado; novas rotinas são criadas; novos “normais” surgem. Os pacientes são convidados a se adaptar repentinamente a uma realidade com restrições diversas em prol da segurança em um período de baixa da imunidade durante a quimioterapia. Assim, não incomumente, o simples ato de brincar com seu cachorro ou gato de estimação pode se transformar em uma situação de risco para contrair infecções.

Além de apaixonados pelos nossos pets de estimação, nós, do Grupo SOnHe, respeitamos a importância que os animais domésticos têm no cultivo da saúde emocional de nossos pacientes. Buscamos sempre nos pautar pelo conhecimento técnico-científico para mediar com segurança essa relação de afeto e carinho. Hoje, o programa Mostre-me a Evidência traz um pouco da evidência que norteia esta condição.

Afinal, é perigoso se manter próximo do seu pet durante o tratamento do câncer?

A resposta para este questionamento não é uma constante; porém, na maioria das vezes, ela é não!

A literatura não é muito clara sobre este assunto e os poucos estudos existentes não conseguiram de fato comprovar um aumento de infecções em pacientes com câncer que mantiveram contato com seus animais domésticos. Há, entretanto, um alerta quanto aos hábitos corriqueiros relacionados ao cuidado e à rotina com o animal que são considerados de risco para aquisição de infecções, tais como mordeduras, arranhaduras, contato com fezes/urinas, entre outras.

Um estudo australiano monitorou a rotina de um grupo de pacientes considerados imunocomprometidos (em especial com neoplasias hematológicas – linfoma e leucemia) com seus respectivos pets. Dos 137 pacientes, 53% dos pacientes realizavam diariamente a limpeza das escorias do animal (fezes e urina), 37% relatavam que deixavam o animal dormir na sua cama, e 28% tinham o hábito de deixar o animal lamber a região facial e áreas próximas da boca. Quando questionados, apenas 16% (21 pacientes) relataram ter recebido alguma orientação profissional sobre esses hábitos durante o tratamento oncológico.

É seguro e saudável conviver com animais de estimação durante o tratamento do câncer. É necessário, entretanto, perguntar para o seu médico oncologista sobre as rotinas com o seu pet, mesmo que isso pareça uma dúvida simples ou “boba”. Dessa forma, com boas orientações, é possível tornar esta relação mais segura e garantir a continuidade do tratamento necessário.

É isso por hoje!

Para finalizar de maneira alegre, tal como os pets nos fazem sentir, acompanhe o grupo SOnHe nas midas sociais, poste uma foto com seu animal de estimação e nos marque. Será um prazer conhecê-los e tê-los conosco em prol deste tema.

Segue abaixo a literatura: 

Gurry, Greta A, et al. High rates of potentially infectious exposures between immunocompromised patients and their companion animals: an unmet need for education. Internal Medicine Journal, [S.L.], v. 47, n. 3, p. 333-335, mar. 2017

Cancer.Net. Food safety during and after cancer treatment. 2018. Accessed at https://www.cancer.net/survivorship/healthy-living/food-safety-during-and-after-cancer-treatment on August 30, 2019

Freifeld AG, Kaul DR. Infection in the patient with cancer. In Niederhuber JE, Armitage JO, Kastan MB, Doroshow JH, Tepper JE, eds. Abeloff’s Clinical Oncology. 6th ed. Philadelphia, PA: Elsevier; 2020: 544-562.

NIH U.S. National Library of Medicine. MedlinePlus. Pets and the immunocompromised person. 2019.

14 de agosto: Dia do Cardiologista

Tratamento do câncer exige interação com outras especialidades e a cardiologia é uma delas. Todos unidos no enfrentamento da doença!

Ao passo que a medicina e a ciência evoluem em prol do tratamento do câncer, é crescente a necessidade do oncologista (considerado muitas vezes o “maestro” deste processo) interagir com outras especialidades. O plano de tratamento oncológico quase sempre é traçado junto com médicos cirurgiões e radioterapeutas. Entretanto, como os medicamentos contra o câncer podem cursar com efeitos colaterais diversos (e que podem alterar outras condições de saúde como a pressão arterial e o funcionamento cardíaco), é sempre importante manter-se integrado a médicos de outras especialidades para o devido acompanhamento do paciente como um todo. Hoje, em homenagem ao Dia do Cardiologista, comemorado em 14 de agosto, o Grupo SOnHe traz um pouco sobre as principais alterações cardiológicas que o tratamento do câncer pode acarretar.

A principal medicação para tratamento do câncer da mama (a Doxorrubicina, conhecida por sua cloração avermelhada) foi, historicamente, a responsável por mostrar o quanto é necessária atenção à saúde cardiológica do paciente com câncer. O uso da doxorrubicina em doses altas pode acarretar insuficiência cardíaca e, portanto, deve ser sempre monitorado por um cardiologista. É praxe na rotina oncológica a vigilância do funcionamento do coração, por meio de exames como o ecocardiograma.

Não só a Doxorrubicina pode gerar os efeitos citados acima; drogas mais novas como as terapias anti-HER2 (utilizadas em alguns subtipos de câncer da mama) também tem seu uso condicionado à vigilância regular da saúde cardiológica. O Trastuzumabe e o Pertuzumabe trouxeram benefícios de magnitude ímpar no tratamento do câncer da mama. Entretanto, ao receber tais medicações, alguns pacientes também desenvolveram insuficiência cardíaca e aqui, novamente, o papel de cardiologista foi exaltado.

O câncer de intestino, por sua vez, tem o seu tratamento quimioterápico pautado em fármacos da classe das Fluroropirimidina (5 fluorouracil). O vasto uso desta medicação mostrou que pacientes com doença coronariana devem ter um regular acompanhamento cardiológico, uma vez que esta condição de saúde pode ser afetada durante o tratamento. Arritmias, apesar de incomuns, também podem acontecer e, por isso, é sempre seguro ter médico cardiologista acompanhando o processo terapêutico.

Outras medicações utilizadas no tratamento do câncer de intestino também podem desencadear efeitos adversos que demandam apoio do cardiologista; é o caso do Bevacizumabe. O uso desta terapia alvo pode culminar no descontrole da pressão arterial, sendo muitas vezes necessário o início e/ou ajuste de medicações anti-hipertensivas.

Recentemente, o arsenal terapêutico contra o câncer da mama passou a contar com drogas orais conhecidas como inibidores de ciclina. Tais fármacos mudaram a condução do paciente com câncer da mama, com relevantes ganhos em sobrevida. O uso desta classe de medicamentos deve ser acompanhado por um cardiologista, com eletrocardiograma periodicamente, uma vez que altera a condução elétrica do coração, podendo cursar com arritmias. O devido acompanhamento e manejo dos efeitos colaterais supracitados (e de muitos outros não elencados aqui) por um especialista garantem não somente a segurança do tratamento, mas também a constância do mesmo, o que interfere diretamente no controle da doença do paciente.

É possível concluir, então, que a crescente complexidade do tratamento do câncer tornou necessária a atuação de mais especialidades médicas em prol do sucesso do mesmo. Não somente oncologistas, cirurgiões e radioterapeutas devem contribuir para este processo terapêutico. O apoio de especialidades mais clássicas como a cardiologia é de suma importância para que o paciente possa ser tratado com segurança. Fica aqui nossas congratulações a todos os cardiologistas que “com o coração” cuidam de seus pacientes. E bem-vindos ao time do tratamento do oncológico.

Pacientes idosos e câncer: o que considerar para tomar as decisões certas no tratamento?

O câncer é uma doença que caminha lado a lado com o passar da idade. Ao passo que a população envelhece e atinge maior expectativa de vida, os registros estatísticos mostram um recorrente aumento nos números de câncer, em especial em idosos. O Brasil, de maneira semelhante ao já ocorrido com a Europa e os EUA, está “envelhecendo” gradativamente ao longo dos anos. Hoje, a população idosa chega aos 30 milhões e a perspectiva é triplicar este número até meados de 2060. O que se espera, então, é que indivíduos acima dos 60 anos venham a contribuir cada vez mais para as estatísticas do câncer. Segundo a Organização Mundial da Saúde, um em cada quatro homens entre 60 e 79 anos tem ou vai desenvolver algum tipo de câncer ao longo da vida. Entre as mulheres na mesma faixa etária, o índice é ainda maior: uma em cada três. O número de óbitos pela doença também cresceu e segue em ascensão; para 2030, a expectativa é de que 30 milhões de pessoas morram de câncer. Diante disso, o questionamento que surge é: estamos preparados para cuidar e tratar pacientes idosos com os diversos tipos de câncer?

A maioria dos estudos que contemplaram grandes avanços na área de Oncologia não incluíram idosos em grande monta em seus recrutamentos. Outrossim, as principais estratégias de rastreamento populacional de câncer também tendem a excluir idosos (em especial com extrema idade – acima de 75-80 anos) e deixar a critério do médico a realização dos exames de rastreio. Entretanto, na prática do dia a dia, o que se tem são cada vez mais idosos em “boa forma” chegando ao consultório para a difícil definição de tratar ou não o câncer. É sabido que o tratamento oncológico é, sim, exigente e frequentemente conta com a associação de modalidades de terapêuticas (cirurgia, quimioterapia e radioterapia) cujos efeitos colaterais podem ser diversos. Não é incomum o oncologista suspeitar e/ou julgar que determinado paciente não toleraria certo tratamento devido a sua idade e às comorbidades que se somam ao envelhecimento (hipertensão, cardiopatia, diabetes, quadros demenciais, outros). Uma análise de pacientes em tratamento para câncer de pulmão mostrou que indivíduos idosos tendem a receber menos quimioterapia (39% a menos) do que aqueles com idade inferior a 70 anos. Cirurgia e radioterapia também aparecem com taxas reduzidas; 31% e 14% respectivamente.

No que tange ao risco envolvido em cirurgias, a idade não é o único fator a ser considerado; o status fisiológico do paciente precisa ser avaliado como um todo. O desempenho funcional (performance para atividades diárias) e as comorbidades que eventualmente acompanham o paciente são tão importantes quanto a idade cronológica ao considerar as opções de tratamento cirúrgico para adultos mais velhos. O mesmo serve para a radioterapia, que pode ser oferecida em contextos curativos e paliativos, visando melhora de sintomas e qualidade de vida.

Quando falamos da tão temida quimioterapia, temos em mente todos os possíveis efeitos colaterais que podem surgir com a sua administração (náusea, vómitos, diarreia, febre ou infeções relacionadas à baixa de imunidade). É, sim, preocupante. Porém,  alguns estudos já mostraram que é seguro e nem sempre mais tóxico realizar quimioterapia em indivíduos idosos. E aqui, novamente, a idade cronológica não é fator único para a tomada de decisões. Cabe ao oncologista, após adequada avaliação clínica e reconhecimento do câncer de cada paciente, definir o real benefício que se deseja oferecer ao paciente. Já foi demonstrado, por exemplo, que os ganhos da poliquimioterapia (com duas medicações diferentes) em pacientes idosos com câncer de intestino não são semelhantes ao que se obtém na população abaixo de 70 anos.

Quanto aos efeitos colaterais, existem ferramentas disponíveis para se estimar o risco de toxicidades severas relacionados à quimioterapia. Algumas escalas geriátricas levam em consideração idade (se maior do que 72 anos), funcionalidade em domicilio para atividades básicas (como tomar banho, se alimentar, fazer uso independente das medicações de rotina), presença de quedas acidentais recentes (algo muito preocupante nesta população), tipo de câncer (mama, intestino, outros), número e tipo de medicamentos a serem administrados, saúde social e psíquica, entre outros. Por fim, vale ressaltar que nem só de quimioterapia se faz o tratamento sistêmico do câncer. Novas modalidades terapêuticas como imunoterapia e terapias alvos-direcionadas (muitas delas orais) surgiram com perfil de efeitos colaterais diferentes e mais brandos, permitindo o seu uso em pacientes que eventualmente não tolerariam a quimioterapia convencional.

Finalizo ressaltando que o câncer está entre as principais causas de morte em mulheres e homens com idades entre 60 e 79 anos. Sendo assim, faz-se necessário estimular pesquisas e investimentos em Oncologia voltados para os idosos. A idade – como um número – definitivamente não deve ser o único critério para indicar ou contraindicar um tratamento de câncer que poderia melhorar a qualidade de vida ou impactar em sobrevida. O plano de tratamento deve ser individualizado com base na natureza da doença, no status fisiológico do paciente e, acima de tudo, deve respeitar as preferências e valores do paciente e sua família.

Mostre-me a evidência: Assistir filmes da Disney® durante a quimioterapia pode melhorar o status emocional e a qualidade de vida dos pacientes

A quimioterapia faz parte da rotina de tratamento de muitos pacientes que são diagnosticados com câncer. É nítido para nós, oncologistas, que esse processo de receber a quimioterapia (o qual geralmente consome pelo menos duas horas do dia dos pacientes) associado à rotina que o tratamento exige (consultas, exames, etc.) é muito desgastante física e emocionalmente. Cabe à equipe multidisciplinar, em sincronia com o paciente e sua família, encontrar uma maneira de minimizar o impacto dessa rotina do tratamento na qualidade de vida do paciente.

Muitos estudos foram desenvolvidos para tentar quantificar a qualidade de vida dos pacientes nos mais diversos rituais do tratamento oncológico, em especial durante a quimioterapia. Parece “exótico”, mas como nós do Grupo SOnHe temos o paciente como o “ator principal” deste drama chamado câncer, achamos (muito!) interessante trazer para o programa “Mostre-me a Evidência” o artigo que foi publicado este ano no JAMA Network, que avaliou a qualidade de vida de pacientes em quimioterapia e o hábito de assistir filmes da Disney® (isso mesmo!).

Este estudo acompanhou 50 mulheres em tratamento para câncer ginecológico, as quais foram divididas em dois grupos: 25 delas assistiram filmes da Disney® durante as sessões de quimioterapia e as outras 25, não. As pacientes responderam questionários sobre qualidade de vida e sensações como fadiga e estresse físico e emocional; os resultados são muito interessantes.

O estudo mostrou que assistir filmes da Disney® durante a quimioterapia pode, sim, melhorar o status emocional e a qualidade de vida dos pacientes, além de reduzir o estado de fadiga comumente relatado após as sessões. E o motivo disso vai alem da distração naquele momento “desagradável”: se pararmos para refletir, os filmes da Disney® nos contam histórias de superação de dificuldades sem necessariamente resolvê-las. Nos trazem roteiros sobre vencer (de maneira heroica) as dificuldades, tendendo a um final feliz, mas sempre com um pouco de tristeza. Frequentemente, os personagens lidam com morte e perda, condições estas que muitas vezes vem à tona com o diagnóstico de câncer na vida real. Mas, ao fim, os protagonistas dos filmes amadurecem e as coisas melhoram.

Essa intersecção entre o mundo da ficção e a vida real das pacientes que estão sentadas esperando o término daquele soro é algo que certamente acalma e torna a circunstância menos desagradável. É possível dizer que um pouco do “felizes para sempre” ou do “final feliz” dos filmes é passado ao paciente que está vivendo um momento delicado. Finalizo lembrando que saúde não se resume apenas ao estado físico; o bem-estar mental e social também estão incluídos nesta definição.

É isso por hoje!

Mostre-me a evidência: Tumores cerebrais e o uso de telefone celular

A hipótese que relaciona o uso de telefones celulares com o surgimento de tumores cerebrais é, historicamente, pauta de grandes discussões na comunidade científica. Neste mês de maio (dedicado à conscientização do câncer cerebral), o programa “Mostre-me a evidência”, do Grupo SOnHe – Sasse Oncologia e Hematologia, trará uma breve análise da literatura mundial, buscando esclarecer um pouco sobre esta suposta correlação, que é ainda mais intrigante nos dias de hoje; aliás, muitos certamente estão lendo este texto em seus smartphones.

Mas por que o celular poderia causar câncer cerebral?

Alguns estudos mostraram que o sinal de ondas de radiofrequência emitido pelos aparelhos celulares durante as ligações pode exercer efeitos sobre o tecido cerebral, aumentando sua temperatura. Outras pesquisas comprovaram a mudança do fluxo sanguíneo cerebral nas áreas próximas ao aparelho em uso. Suspeita-se, portanto, que tais interações possam provocar mudanças no funcionamento das células e, indiretamente, a carcinogênese.

De fato (e de maneira tranquilizadora), a literatura malogrou em comprovar uma correlação absoluta e definitiva entre o uso de aparelhos moveis de telefonia e câncer cerebral. O oposto, entretanto, também não pode ser afirmado definitivamente e por isso a dúvida persiste. Um estudo epidemiológico australiano publicado em 2016 acompanhou 19.858 homens e 14.222 mulheres com diagnóstico de tumor cerebral, entre os anos de 1987 e 2012, e correlacionou com a taxa de uso de telefones celulares no país neste mesmo período. Como resultado, observou-se que a incidência de câncer cerebral se manteve estável, não sendo possível relacionar diretamente este hábito com a neoplasia em pauta.

O mesmo resultado descrito acima pelos australianos foi encontrado em pesquisas conduzidas nos países nórdicos e nos Estados Unidos, fortalecendo a ideia de que esta correlação não se sustentaria. Entretanto, o Journal of Clinical Oncology publicou uma meta-análise com um compilado de dados de 23 estudos de caso-controle (tipo de pesquisa dedicada a correlacionar um fator ao surgimento ou não de determinada doença); esta pesquisa culminou numa correlação positiva entre o uso de celular e o desenvolvimento de tumores cerebrais. Os autores deixaram explícito, entretanto, que seria necessário um estudo prospectivo e de metodologia adequada para a confirmação indubitável desta afirmação.

O fato é que, ao passo que a inconsistência dos resultados da literatura se revela e persiste, a dúvida sobre a maleficência de algo tão inserido no nosso dia a dia continua. É bem provável que, devido a revolução diária e contínua da tecnologia em telefonia, não exista um estudo estatisticamente capaz de comprovar ou descartar definitivamente sua associação com o câncer cerebral. A maioria dos estudos supracitados foram desenhados e desempenhados em tempos anteriores a era da internet totalmente disseminada e difundida. Nos dias de hoje, um pequeno dispositivo possibilita que as pessoas trabalhem, paguem contas, peçam comida e se comuniquem com diversas pessoas num simples toque. A tecnologia e o tipo de exposição certamente diferem das estudadas há 15 ou 20 anos atrás.

A mensagem que fica é que (como tudo em nossa vida) o uso destes dispositivos eletrônicos em telefonia deve ser o mais equilibrado possível. É agradável ter “o mundo na palpa de nossas mãos”, porém até que esta correlação com o câncer cerebral (e com outras doenças) seja ou não comprovada devemos utilizá-lo com consciência. Até lá, nós, do Grupo SOnHe, seguiremos trazendo a melhor evidência aos nossos meios de comunicação para auxiliar em nossas condutas diárias.

5 de maio: Dia Mundial de Higienização das Mãos

Lavagem sistemática das mãos e uso de luvas: estamos nos protegendo corretamente?

Ao passo que a pandemia da COVID-19 e os seus crescentes números seguem aterrorizando o Brasil e o resto do mundo, surgem cada vez mais questionamentos sobre o que cada um de nós pode fazer para limitar e reverter esse cenário de saúde que estamos vivendo. O isolamento social parece, sim, ser o caminho mais seguro e correto neste momento em que muitas vidas (inclusive a minha e a de todos que aqui me leem) estão em jogo. O acesso e o devido embasamento de nossas ações em informação de qualidade é algo que tende a contribuir para que ele seja um pouco menos turbulento. É por isso que nós, do Grupo SOnHe – Grupo Sasse de Oncologia e Hematologia, seguimos com nossa missão de difundir o conhecimento científico em saúde, não apenas no que tange ao câncer e seu tratamento em si, mas também àquilo que diz respeito ao mundo a nossa volta; por enquanto, o tema em pauta vem sendo o coronavírus.

Parece básico e até “bobo” orientar as pessoas a nossa volta a higienizar as mãos ao ter contato entre si ou com objetos do uso diário. Dizer, ainda, que este simples gesto foi (e ainda está sendo) responsável pelos primeiros passos no controle da contaminação disseminada do coronavírus parece até engraçado. Isto é (de fato) verdade.

Diversos estudos mostraram controle efetivo da contaminação entre ambientes distintos com a higienização sistemática das mãos (com água e sabão e/ou álcool em gel). Um dos mais relevantes foi desenvolvido por pesquisadores de Taiwan, no qual foram criados os “handwash checkpoints” (do inglês: pontos de lavagem das mãos) na entrada dos hospitais e nos locais de transição entre os ambientes. Criou-se algo semelhante à um “pedágio”, uma parada obrigatória na qual se dedica tempo e técnica exclusivamente para higienização efetiva das mãos. O estudo mostrou importante controle da contaminação na interface hospital-comunidade e sacramentou essa prática (em associação ao controle de circulação/isolamento populacional) como indispensável para nossa sobrevivência neste “novo mundo”.

É frequente vermos mercados e estabelecimentos comerciais com funcionários fornecendo álcool em gel na chegada dos clientes, o que me faz pensar que essa informação já ganhou força e aplicação no dia a dia.

Vamos então, mudar um pouco o foco: na prática do cuidado à saúde, a luva de proteção sempre foi importante aliada do profissional, garantindo, em conjunto com outros equipamentos de proteção individual (EPI’s), manutenção da sua integridade física e, também, proteção para o próprio paciente. Conteúdos sobre o uso indiscriminado de luvas foram recentemente divulgados e, como era de se esperar, vem gerando muitas discussões. Mas afinal: devemos utilizar a luva como proteção obrigatória no dia a dia comum?

A luva comum (chamada de procedimento simples e/ou não estéril) deve ser utilizada somente por profissionais de saúde enquanto estes encontram-se no ambiente hospitalar e no ato do cuidado. Neste contexto, a luva é trocada sempre que se finaliza um procedimento em determinado indivíduo e irá iniciar o cuidado dos demais. Para alguns procedimentos, faz-se necessário o uso pontual de equipamentos e luvas estéreis. Dito isso, a resposta para a indagação anterior é não.

Ao utilizar a luva comum (ou até mesmo a estéril, caso alguém ouse questionar) para atividades corriqueiras como dirigir, arrumar um cômodo de sua residência ou pegar/manipular objetos, o indivíduo protege a sua própria mão, mas não deixa de seguir contaminando a si e às superfícies em que ele toca. É possível ainda que, por se tratar de uma prática inédita para os leigos, e acreditando na “falsa proteção” da luva, as pessoas deixem de hesitar em tocar a face, os objetos de uso pessoal (como óculos) e até mesmo a máscara que agora faz parte da rotina diária, levando assim a luva (tão contaminada quanto a própria mão sem a mesma) para regiões próximas das vias respiratórias, aumentando o risco de contaminação.

Para finalizar, o uso de luvas não substitui em absolutamente nada a prática de higienização das mãos. Este ato, sim, é o jeito mais eficiente de seguir se protegendo e contribuindo para o combate ao coronavírus.

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