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Câncer de esôfago: como ficarão as estatísticas após COVID?

Consumo de álcool, obesidade e cigarro estão diretamente relacionados ao câncer de esôfago

No Brasil, o câncer de esôfago (tubo que liga a garganta ao estômago) é o sexto mais frequente entre os homens e o 15º entre as mulheres, excetuando-se o câncer de pele não melanoma. É o oitavo mais frequente no mundo e a incidência em homens é cerca de duas vezes maior do que em mulheres.

O tipo de câncer de esôfago mais frequente é o carcinoma epidermoide escamoso, responsável por 96% dos casos. Outro tipo, o adenocarcinoma, vem aumentando significativamente. É um tipo de tumor com alta mortalidade: 8.716, sendo 6.802 homens e 1.914 mulheres (2019 – Atlas de Mortalidade por Câncer – SIM).

 

Os principais fatores de riscos relacionados ao câncer de esôfago, são:

  • O consumo de bebidas: não só o consumo regular, como também o consumo excessivo e esporádico de qualquer tipo de bebida alcóolica.
  • O excesso de gordura corporal. A obesidade também facilita o desenvolvimento da doença do refluxo gastroesofagiano (DRGE), importante fator de risco para o desenvolvimento da doença.
  • O tabagismo isoladamente é responsável por 25% dos casos de câncer de esôfago. O risco aumenta rapidamente com a quantidade de cigarros consumida. Mesmo as pessoas que já fumaram, mas interromperam, possuem risco aumentado de desenvolver este câncer quando comparadas aos que nunca fumaram.

 

Efeitos da pandemia

Uma pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais, e a Universidade Estadual de Campinas teve a finalidade de verificar como a pandemia afetou ou mudou a vida da população.

Análises das mudanças nos estilos de vida relacionados aos hábitos de fumar, consumo de bebidas alcoólicas, prática de atividades físicas e de alimentação, foram realizadas, com resultados alarmantes:

Cigarro:

  • Total da população avaliada que fumava: 12%
  • Entre os fumantes:
    • 23% aumentou em 10 cigarros o consumo diário e 5% aumentou em 5 cigarros diários.

Álcool:

  • Do total da população avaliada, 18% relatou aumento no consumo de álcool, sendo em adultos entre 30-39 anos o aumento foi de 25%.

Atividade Física:

  • Essa é uma situação extremamente alarmante, pois 62% da população relatou não estar fazendo atividade física. Entre as que faziam 3-4 vezes por semana, na pandemia 46% delas parou. E entre as que faziam 5 vezes por semana, 33% parou.
  • Antes da pandemia 35,5% faziam 150 minutos de atividades por semana, e na pandemia esse percentual caiu para 16%.

O diagnóstico de novos casos de câncer caiu até 50% no país em 2020. E passamos novamente por um terror hospitalar relacionado à COVID-19 em todo Brasil, agora em 2021.

Segundo levantamento do Radar do Câncer, do Instituto Oncoguia, as biópsias tiveram uma redução de 39,11% (de 737.804 para 449.275), entre março e dezembro do ano passado, em comparação ao mesmo período de 2019. As maiores quedas ocorreram nos meses de abril (-63,3%) e maio (-62,6%). Em outros exames de diagnóstico, como o papanicolau e a mamografia, as reduções foram de 50% e 49,81%, respectivamente. O radar reúne informações compiladas do DataSUS.

Um outro estudo da Sociedade Brasileira de Urologia em cinco grandes instituições de São Paulo, mostra uma redução média de 26% no número de novos casos de tumores de rim, próstata e bexiga, em 2020, em comparação aos diagnósticos feitos em 2019.

No HC da Unicamp, por exemplo, houve queda de 52% nos casos de câncer de bexiga, 61,04% nos de próstata e 63% nos de rim.

 

Câncer de esôfago: como ficarão as estatísticas após COVID?

O diagnóstico do câncer de esôfago é feito por meio da endoscopia digestiva, um exame que investiga o interior do tubo digestivo e permite a realização de biópsias para confirmação do diagnóstico. Quando o tumor é detectado precocemente, as chances de cura aumentam muito.

Ao analisarmos os dados do DataSUS, para o exame que pode detectar câncer de esôfago, observou-se uma diminuição de cerca de 40% em 2020 x 2019.

Diagnóstico por endoscopia realizados de acordo com o DataSUS:

2019 2.133.245

2020

1.315.531

 

Precisamos alertar a população, aproveitarmos o mês de abril: prevenção do câncer de esôfago e chamar atenção aos sintomas de alerta:

  • dificuldade ou dor ao engolir;
  • dor retroesternal (atrás do osso do meio do peito);
  • dor torácica;
  • refluxo;
  • sensação de obstrução à passagem do alimento;
  • náuseas, vômitos e perda do apetite.

Sabemos do caos hospitalar, mas o câncer e outras doenças não esperam!

Dia Internacional da Mulher na pandemia da COVID-19: liderança para um mundo mais igualitário

A ideia de criar o Dia da Mulher surgiu no final do Século XIX, nos Estados Unidos e na Europa, no contexto das lutas femininas por melhores condições de vida e de trabalho, além do direito de voto. Assim, a ONU designou o ano de 1975 como o Ano Internacional da Mulher. Em dezembro de 1977, o Dia Internacional da Mulher foi adotado pelas Nações Unidas para lembrar as conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres. Neste ano de 2021, o tema para o Dia Internacional da Mulher é: “Mulheres na liderança: alcançando um futuro igual em um mundo COVID-19”. O tema celebra os enormes esforços de mulheres e meninas em todo o mundo para moldar um futuro mais igualitário e a recuperação da pandemia da COVID-19.

As mulheres estão na vanguarda da batalha contra a COVID-19 como trabalhadoras da linha de frente e do setor de saúde, como cientistas, como profissionais de saúde e cuidadoras e agentes comunitárias. Porém, recebem – de maneira geral – 11% a menos do que seus colegas homens. Uma análise das equipes de combate a COVID-19 de 87 países revelou que apenas 3,5% delas tinham paridade de gênero 1

Além de estarem na linha de frente da crise da COVID-19, as mulheres representam alguns dos líderes nacionais mais exemplares e eficazes no combate à pandemia. Da Nova Zelândia à Alemanha, Taiwan ou Noruega, alguns países liderados por mulheres tem as menores taxas de óbitos pela COVID-19. De maneira geral, as mulheres representam 70% dos profissionais de saúde em todo o mundo. Em 2018, na política eram apenas 10 dos 153 chefes de Estado eleitos, de acordo com a União Interparlamentar.

Embora também haja diversos fatores sociais e econômicos implicados no bom desempenho destes países no enfrentamento à pandemia, também as trajetórias sociais destas líderes as diferencia. Condutas como resposta precoce, diversidade na tomada de decisões, comunicações transparentes e diretas são alguns exemplos.

A crise destacou tanto a centralidade e objetividade de suas contribuições quanto os fardos desproporcionais que as mulheres carregam. A pandemia está levando mais sobrecarga de trabalho para as mulheres no mundo todo. Mulheres são mais impactadas que os homens pela sobrecarga de trabalho. Dados do Brasil (IBGE/2019) indicam que a dupla jornada incide sobre a mulher, que semanalmente, na média, se dedica 18,5 horas ao cuidado da casa, crianças e idosos. Já a média dos homens é somente 10,3 horas semanais. Neste momento de pandemia com muitas famílias com vários membros em home office e muitas crianças sem frequentar regularmente a escola, percebe-se um acúmulo de tarefas e enorme sobrecarga de muitas mulheres.

Por que a sobrecarga de trabalho é maior para as mulheres? A desigualdade de gênero fica mais intensa neste momento de pandemia, já que estão diretamente na linha de frente da resposta e assumem custos físicos e emocionais. Devido à saturação dos sistemas de saúde e ao fechamento das escolas, as mulheres assumem o cuidado e a responsabilidade de familiares doentes, pessoas idosas e crianças3.

Assim, vamos celebrar este 8 de março de 2021, Dia Internacional da Mulher, no segundo ano de uma pandemia sem precedentes, refletindo sobre como melhorar a dinâmica de gênero, começando no local mais próximo possível, qual seja, na divisão mais igualitária das tarefas em casa. Simples assim!

 

Referências:

1 https://www.unwomen.org/en/news/in-focus/international-womens-day

2 https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52376867

3 https://www.onumulheres.org.br/wp-content/uploads/2020/03/ONU-MULHERES-COVID19_LAC.pdf

Vacinação para COVID-19. Resumo das recomendações da SBOC

Na semana passada, a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) lançou um guia sobre a vacinação de pacientes oncológicos. Esse documento é de grande importância, tendo em vista a situação atual da pandemia no mundo e o maior risco dos pacientes com câncer ao serem infectados por COVID-19.

Importante ressaltar que o documento é continuamente atualizado e foi lançado com base nas evidências científicas que temos até o momento.

Vamos aos principais pontos:

  1. Os pacientes com câncer devem ser vacinados?
    1. Apesar de não terem sido testadas nestes pacientes, o benefício esperado de redução de mortalidade pelas vacinas é maior que os malefícios de possíveis das reações adversas. Além disso, esses pacientes estão sob maior risco de complicações pela COVID-19.
  1. As vacinas disponíveis no Brasil atualmente são seguras para pacientes com câncer?
    1. As vacinas contra a COVID-19 utilizam mecanismos semelhantes a outras vacinas já comprovadamente seguras e eficazes. No momento, os dois tipos de vacinas contraindicados para pacientes com câncer – a de vírus atenuado e a de vetor viral replicante – não estão entre aquelas disponíveis no mundo.
  1. E são eficazes para pacientes com câncer?
    1. Provavelmente sim. Apesar da evidência limitada, os dados de outras vacinas já utilizadas de rotina sugerem que aquelas contra COVID-19 são eficazes. Alguns tratamentos podem alterar a capacidade do sistema imune dos pacientes, levando a modificações na eficácia, mas nada que contraindique o uso ou torne a vacina ineficaz.
  1. Existe alguma vacina preferencial?
    1. Não. Ambas são indicadas, já que não contém vírus vivos e/ou replicantes.
  1. Qual o momento ideal para a vacinação dos pacientes com câncer?
    1. Idealmente, antes do início do tratamento. Porém, caso este já esteja em andamento, a indicação é de vacinar a qualquer momento, sempre com decisão compartilhada com o médico oncologista.
  1. Pacientes que já tiveram COVID-19 e/ou aqueles que têm anticorpos contra o vírus devem ser vacinados?
    1. A duração da proteção após infecção natural pelo COVID-19 ainda não é conhecida e a vacinação funciona também para esses pacientes.
  1. Os vacinados devem ser acompanhados com sorologia?
    1. Não. Os testes sorológicos não têm indicação para isso no presente momento.

 

Resumo: Em geral, há indicação de vacinação para todos os pacientes oncológicos, com exceção daquelas vacinas com vírus atenuados ou replicantes – inexistentes até o momento – e daqueles pacientes com contraindicação a algum componente da fórmula das vacinas.

Fale com seu oncologista e mantenha-se informado e imunizado!

 

Referências:

https://www.sboc.org.br/guias-e-infograficos/item/2150-covid-19-vacinacao-de-pacientes-oncologicos

O início do fim? Vacinação salva vidas!

86 milhões de casos e mais de 1.800.000 mortes no mundo. 8 milhões de casos e mais de 200.000 mortes no Brasil. Avanço sem precedentes da ciência. Enquanto a pandemia de COVID-19 se alastra como nunca antes, o mundo urge por uma solução. E essa solução tem nome: vacinação. Para todos, de forma rápida e com prioridades para os que estão em maior risco. E os nossos pacientes com câncer – em maior risco de desenvolver a COVID-19 – também precisam desta proteção. Mas o que podemos falar sobre as vacinas para COVID-19? E sobre a vacinação em pacientes com câncer.

 

As vacinas

Até o momento, há por volta de 150 vacinas em teste, sendo que 40 estão nas fases avançadas em humanos e apenas três têm publicações em revistas científicas. Isso é um histórico (extremamente importante) passo da ciência mundial: em menos de seis meses, foram desenvolvidas vacinas, as quais começaram a ser aplicadas em pessoas em menos de um ano da declaração da pandemia pela OMS, algo nunca antes visto (ou imaginado).

Existem diversos tipos de vacinas, sendo as principais: as de vírus inativos, as de proteínas recombinantes virais, as de vetores virais, as de RNA mensageiro, dentre outras menos utilizadas. Com a exceção do último tipo, todas as outras têm utilização prévia para outras doenças, sendo seus mecanismos bastante conhecidos e a sua segurança bem estabelecida. A OMS – e a maioria das agências reguladoras mundiais – preconiza uma eficácia mínima de 50% em estudos fase III – a mais avançada – para uma vacina ser considerada eficaz.

As três vacinas com resultados publicados e já aprovadas em países do ocidente são: Pfizer/BioNTech, Moderna e Oxford/AstraZeneca. Todas as três mostraram eficácias altas com uso de duas doses. As duas primeiras usam a tecnologia do RNA mensageiro, algo novo, mas muito eficaz e seguro, ao menos a curto prazo. Além disso, seus estudos incluíram mais de 30.000 pessoas. A última, de Oxford, é baseada em um vetor viral e, apesar de ter um estudo mostrando sua eficácia, entre 60 e 90%, o mesmo teve algumas questões ainda questionadas pelos cientistas, o que, porém, não a tira da lista de opções para uso emergencial.

Nos dias 7 e 12 de janeiro de 2021, foram apresentados os dados de fase III da Coronavac, vacina feita pelo Instituto Butantan em parceria com a Sinovac. O estudo foi conduzido no Brasil com mais de 12.000 profissionais de saúde. As taxas de eficácia foram muito satisfatórias (50,4% na população geral, 78% para casos leves e 100% para os graves) e correspondem ao limiar mínimo da OMS. Um ponto importante, foi que não houve casos graves nem mortes no grupo que tomou a vacina. Porém, para uma análise mais acurada, os dados ainda têm de ser revelados em publicação em revista científica, visto que os resultados estatísticos ainda não foram detalhados. Apesar disso, é uma vacina eficaz e segura e, portanto, deve ser aprovada para uso emergencial.

Em geral, as vacinas foram bem toleradas, com poucos (e esperados) efeitos colaterais. As contraindicações são apenas para pessoas com alergias a algum componente da fórmula ou, em algumas situações, a outras vacinas. E vale ressaltar que a análise das vacinas deve (e vai) continuar acontecendo após a aprovação das mesmas, pois ainda não se sabe a duração da proteção, se precisamos de um reforço, quais subpopulações podem ou não podem tomar, os efeitos colaterais a longo prazo e qual é o limiar para atingirmos uma imunidade de rebanho.

Sobre outras vacinas muito comentadas, aquela desenvolvida pela Janssen ainda não informou os dados de eficácia e segurança do estudo fase III e a russa Sputnik, além de ainda não ter publicado seus dados, também apresentou uma análise com um número muito pequeno de eventos, o que pode levar a resultados enviesados.

Aqui valem alguns esclarecimentos de fake news que circulam por aí: vacinas não causam câncer, não modificam o DNA de quem as recebe e não, não têm chips embutidos para controlar a todos. Fato é que vacinas salvam vidas e, portanto, o movimento antivacina é criminoso.

É salutar o entendimento de que as vacinas só funcionam quando dadas em uma porção grande da população (vacinação), ou seja, não servem como um mecanismo de defesa individual. Por isso, para o sucesso da vacina, os governos devem usar de uma estratégia que foque na vacinação do maior número de pessoas, no menor tempo possível, priorizando aqueles que estejam em maior risco de óbito ou de infecção. Acima de tudo devemos entender que o pensamento coletivo deve imperar em detrimento do individual, com foco em uma imunidade de rebanho, a fim de que todos possamos ficar livres dessa situação desastrosa.

 

Pacientes com câncer

Em geral, as sociedades internacionais (americana e europeia) de oncologia e a maioria dos especialistas defendem a vacinação dos pacientes com câncer tratado ou mesmo ativo em tratamento. Importante ressaltar que vacinas de vírus atenuados não devem ser dadas a estes últimos. Nesse caso, como não temos vacinas deste tipo para COVID-19 em fases avançadas, não nos preocupemos com isso nesse momento.

A decisão de tomar a vacina deve ser compartilhada com o médico que acompanha o paciente, com as ressalvas que, em geral, pacientes imunocomprometidos têm menos resposta imune às vacinas, que podem ter, então, uma menor eficácia nessa população. Não só isso, nenhum dos estudos já publicados incluiu pacientes com câncer, portanto, a segurança não é comprovada. Entretanto, como temos experiência com outras vacinas mais antigas, a segurança daquelas desenvolvidas para COVID-19 não deve diferir muito para os pacientes oncológicos.

 

Vacinação no Brasil

Já se passou um mês desde que a primeira pessoa foi vacinada no Reino Unido com uma das vacinas que demonstraram eficácia. Enquanto isso, o Brasil, infelizmente, patina e o vírus assola a população que, por sua vez, tem frequentemente desrespeitado as orientações para prevenção da disseminação do vírus.

No dia 8 de janeiro, dia em que escrevo, tanto a Coronavac quanto a vacina de Oxford foram submetidas para aprovação emergencial pela Anvisa, que tem  dez dias para dar um parecer. Esperemos que consigamos começar a vacinar o quanto antes e utilizar a nossa expertise com o Programa Nacional de Imunização, que é (ou era) referência no mundo.

Apesar de toda essa novela, devemos estar confiantes e certos de que estamos vivendo uma revolução científica que poderá ajudar a acabar com esse grande terror que é uma pandemia. Vamos em frente e torçamos para a aprovação das vacinas no Brasil, sem ideologia, sem preconceito e com base única e exclusivamente na ciência. Até lá, devemos manter as medidas de distanciamento, máscara e lavagem de mãos. Vacinação, não vacina, salva vidas (inclusive a sua)!

 

https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019

https://www.who.int/publications/m/item/draft-landscape-of-covid-19-candidate-vaccines

https://politica.estadao.com.br/blogs/estadao-verifica/medico-espalha-informacoes-falsas-sobre-seguranca-das-vacinas-mrna-contra-covid-19/

https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2035389

https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2034577

https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)32623-4/fulltext

http://vacinacovid.butantan.gov.br/

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0140673620326611?via%3Dihub

https://www.asco.org/asco-coronavirus-resources/covid-19-patient-care-information/covid-19-vaccine-patients-cancer

https://www.esmo.org/covid-19-and-cancer/covid-19-vaccination

https://static.poder360.com.br/2021/01/Apresentacao_Coletiva_07-01-2021.pdf

17 de outubro: Dia Nacional da Vacinação

Há 224 anos, um médico inglês injetava pus de uma vaca com varíola bovina em uma criança de 8 anoshttps://academic.oup.com/annonc/issue/30/Supplement_4?page=3#905486-5529524. Dois meses depois, injetava na mesma criança secreção com varíola humana. O menino sobreviveu. Assim – e com a contribuição de vários cientistas anteriormente – foi “inventada” a técnica para a primeira vacina. E isso mudou o mundo.

O ato de vacinar é importante para a pessoa vacinada – claro – mas devemos nos lembrar também que é uma questão de saúde pública. O freio da contaminação por doenças infecciosas reduz a mortalidade da população em geral, principalmente daqueles considerados como grupos de risco. Inclusive, existem pessoas que não podem ser vacinadas por alguma doença que contraindica, ou que ainda não têm idade (recém-nascidos); essas pessoas talvez sejam as mais beneficiadas pela vacinação em massa de quem pode.

As vacinas protegem contra a ocorrência de diversas doenças infecciosas, desde a poliomielite, que pode deixar pessoas sem movimentos, até a pneumonia, que pode levar pessoas, principalmente idosos, à morte. Não só isso, temos também as vacinas que podem prevenir o câncer, no caso, a do HPV evita tumor de colo do útero. Muitas das patologias foram erradicadas, como a varíola e a poliomielite, enquanto outras – como a gripe, o tétano e a coqueluche – tiveram seu impacto na saúde da população consideravelmente reduzido (>90%).

Criado há 47 anos, o Programa Nacional de Imunização do Brasil é uma das referências mundiais da área, principalmente por sua universalidade, ou seja, a capacidade que tem de atingir a quase totalidade da população do país. Além disso, estimula uma indústria interna de alta tecnologia, com mais de 90% das vacinas sendo produzidas nacionalmente.

E, no dia 17 de outubro, é realizado o Dia Nacional da Vacinação (ou Dia D), uma data de extrema importância, não só pelos benefícios das vacinas, mas também para o combate às notícias falsas, que têm recriado um movimento antivacina, que é altamente letal e coloca em risco a vida de muitas pessoas.

Nos últimos anos, temos visto uma redução da cobertura vacinal, muito em consequência do movimento antivacina, levando ao reaparecimento de casos de sarampo, por exemplo. Porém, agora temos um agravante: a pandemia de coronavírus. A situação atual reduziu a vacinação no país de forma considerável e, por isso, é ainda mais importante o dia 17.

O Dia D está inserido dentro da Campanha Nacional de Vacinação, que visa atualizar o calendário vacinal das crianças de até 15 anos e conscientizar a população, incluindo adultos e idosos, sobre a necessidade de atualização das suas vacinas. Mais de 40 mil postos de saúde participarão do evento.

Atualmente, são 18 as vacinas disponibilizadas para crianças e adolescentes. A da poliomielite já é velha conhecida, com a mudança nos últimos anos de incluir não só a do “zé gotinha”, mas também a injetável. A ausência de casos desde 1990 é uma vitória e deve ser mantida a todo custo. A do sarampo, incluída na tríplice viral, é de grande importância, já que surtos de sarampo têm ocorrido nos últimos anos no país. Mais recentemente, a vacina contra o vírus HPV entrou no calendário brasileiro para meninas e meninos. Entretanto, a abrangência está longe do esperado e isso preocupa, pois o câncer de colo de útero é um dos mais incidentes no nosso país e atinge muitas mulheres jovens, podendo levar à morte.

Num momento em que todos têm comentado (e desejado) a vacina contra a COVID-19, tão ou mais importante é garantir que a vacinação contra doenças que já são comprovadamente prevenidas seja feita de forma ideal. Por isso, vamos participar desse movimento, sempre com responsabilidade de respeitar as regras de higiene, com distanciamento social, lavagem das mãos e uso de máscara, afinal, a pandemia de COVID-19 ainda mata mais de 500 pessoas por dia no nosso país. Não precisamos que outras 500 (ou mais) morram por doenças facilmente evitáveis.

Lavar as mãos hoje e sempre!

Lavar as mãos é um ato básico do nosso cotidiano, que aprendemos desde a infância!  Mas, nem sempre foi assim… a conhecida história do Dr. Ignaz Semmelweis, médico húngaro que, em 1847, percebeu que havia menos mortes das crianças ao nascimento e menor número de complicações infecciosas pós-parto das mães que eram assistidas pelas mãos limpas das parteiras do que daquelas vindas das mãos dos médicos. Percebeu, então, que, de alguma maneira, o ato da lavagem das mãos assegurava a vida da mãe e da criança. Obviamente, apenas nas décadas seguintes, com a evolução das pesquisas sobre micro-organismos, que a prática da higienização de mãos passou a ser difundida pelos profissionais de saúde e a ser adotada cada vez mais pelas instituições. Ao fim do século XIX já era um protocolo de praticamente todas as unidades de saúde.

Em 15 de outubro de 2008 uma iniciativa público-privada criou o Dia Mundial da Lavagem das Mãos (Global Hand Washing Day). Uma campanha educativa pela lavagem das mãos de forma correta, com água e sabão, com o objetivo de diminuir o número de doenças e até de mortes causadas por doenças infecciosas.

A lavagem das mãos é, sem dúvida, a rotina mais simples, mais eficaz, e de maior importância na prevenção e controle da disseminação de infecções, devendo ser praticada por todos!

Ficam algumas dicas: lavar as mãos antes de comer, de beber ou de manusear alimentos; ao chegar em casa, ao utilizar o banheiro, ao coçar nariz e olhos e ao espirrar; ao término de cada tarefa, ao término de sua jornada de trabalho e após brincar com aninais!

Utilize água corrente e sabão.

O ideal é retirar anéis, pulseiras e relógio.

Lave também os antebraços.

Lave por 15 segundos, ao menos.

Mais de um século após a descoberta de Semmelweis sobre a importância da lavagem das mãos, ainda precisamos reforçar este ato.

Portanto, pela sua saúde, pela saúde de nossas crianças e entes queridos, LAVE AS MÃOS, SEMPRE!

E compartilhe este ato.

A pandemia afeta os tratamentos de pacientes com câncer

Já entrando no sexto mês de pandemia de coronavírus, a situação não parece perto do fim. E ao longo desse tempo, lamentamos sempre as vítimas da doença, mas não devemos nos esquecer daquelas pessoas afetadas de forma indireta: pacientes com câncer.

Sabemos que a saturação dos serviços de saúde em função da COVID-19 impactou diretamente o cuidado a pessoas com outras patologias, como infarto, AVC, problemas ortopédicos, entre muitos outros. Ademais, lembramos que esse cuidado deficiente leva a descompensação dessas doenças e, algumas vezes, até à morte.

E uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) mostrou que os pacientes com câncer foram também prejudicados de uma forma expressiva. Segundo a pesquisa com 120 oncologistas de todas as regiões do país, 74% dos pacientes com câncer interromperam ou adiaram seus tratamentos por mais de um mês durante a pandemia. Os procedimentos mais afetados foram as cirurgias (70%), seguidas dos exames de avaliação de resposta (22%). E um número ainda mais preocupante: menos de 1% dos oncologistas consideram que seus pacientes não tiveram nenhum problema. Esse cenário não se limita ao Brasil, é mundial.

Além disso, existem dados ao redor do mundo mostrando que a redução da oferta de exames de imagem reduziu de forma considerável os diagnósticos de câncer neste período. Mas isso não é bom? Não, pois o câncer não espera e esses pacientes serão, sim, diagnosticados, porém de forma tardia e, consequentemente, em um estágio mais avançado. Tal situação preocupa a todos, pacientes e equipe, pois pode aumentar a mortalidade, reduzir as possibilidades de tratamento e influenciar muitas vidas.

Em resumo, devemos ficar vigilantes, sim, para combater o novo coronavírus; entretanto, não podemos trabalhar com retirada de suporte àqueles que também precisam e que tem doenças tão (ou muitas vezes mais) graves quanto a COVID-19. O câncer é melhor tratado quanto mais cedo identificado e atrasos no diagnóstico e no tratamento impactam na vida de muitos. Por isso, a orientação é de que os pacientes não deixem de manter seu tratamento/acompanhamento nesta pandemia, claro, tomando os cuidados necessários para não se contaminarem. Não podemos tratar um problema e esquecer dos outros.

 

Referências:

https://www.sboc.org.br/noticias/item/2027-folha-de-s-paulo-destaca-pesquisa-da-sboc-sobre-covid-19-e-cancer

https://www.thelancet.com/journals/lanonc/article/PIIS1470-2045(20)30388-0/fulltext

Cloroquina não é tratamento para COVID19

Primum non nocere (do latim, em tradução livre, “primeiramente, não fazer o mal”). Esta frase é um dos princípios essenciais da Medicina e lembra que o médico, antes de tudo, não pode fazer algo a um paciente que faça mal. Isso parece óbvio, certo? Nem sempre, ao negarmos a ciência, corremos grande risco de infringir este preceito. Quando algum remédio não tem comprovação de que funciona e ainda tem potencial para gerar efeitos colaterais, a sua prescrição é danosa ao paciente.

Nas últimas semanas, temos acompanhando, pela mídia, a discussão (agora mais política que científica) em relação ao uso (ou não) da cloroquina/hidroxicloroquina (CQ/HCQ) para o tratamento da COVID19. Tudo (aparentemente) começou com um estudo francês que avaliou o efeito da CQ/HCQ na redução de carga viral da garganta de pacientes com COVID19. Foi uma análise mal planejada, com poucos pacientes, sem método científico adequado, que não comparou com um grupo controle e que, ainda por cima, há suspeita de manipulação de dados para reportar os achados.

Antes, alguns estudos de laboratório tinham mostrado que a CQ/HCQ tinha atividade in vitro (ou seja, não em humanos) contra a COVID19. Do mesmo modo, várias outras doenças mostraram ser sensíveis ao uso da medicação in vitro, como Zika, dengue ou gripe, porém, quando levada ao estudo em pessoas, o efeito não foi confirmado. E isso acontece – e muito – com diversas outras medicações e doenças. E talvez esse seja um dos maiores desafios da ciência. Hoje, menos de 1% das drogas que têm resultado em laboratórios chegam ao ponto de serem aprovadas para uso em humanos.

Após o estudo francês, um relato de pesquisadores chineses, sem método estatístico adequado, sugeriu que a HCQ seria eficaz. Com pouca margem para dúvida, a conclusão não deveria ser essa, tanto que, até hoje, não foi publicado em nenhuma revista médica com revisão por pares.

Além deste, outros relatos retrospectivos e poucos prospectivos ou não mostraram ou não tiveram métodos corretos para comprovar ou refutar qualquer dúvida científica. Um deles, com 1.500 pacientes e publicado na talvez maior revista médica do mundo (The New England Journal of Medicine), não evidenciou diferença para quem recebeu HCQ. Ademais, no British Medical Journal (BMJ), também de grande reconhecimento internacional, uma análise de 181 pacientes tratados precocemente (48h da internação) também resultou negativa.

Por outro lado, ao mesmo tempo que notadamente não houve nenhum estudo comprovando o benefício, já há alguns que mostram que, na verdade, a CQ/HCQ pode fazer mal. Dentre os efeitos colaterais conhecidos da CQ/HCQ estão arritmias cardíacas, insuficiência hepática, reações dermatológicas e problemas visuais, alguns potencialmente fatais, outros com morbidade crônica muito alta. Os dois estudos mais importantes que mostram os riscos da CQ/HCQ saíram em duas revistas de grande renome científico (JAMA e Lancet) e concluem que os efeitos adversos são, sim, importantes. O maior deles foi publicado em 22 de maio, sexta-feira passada, e incluiu quase 100.000 pacientes. Na análise, a CQ/HCQ não mostraram benefício e, além disso, aumentaram o risco de morte e de arritmias graves de forma significativa.

Muitos médicos têm se sentido coagidos por decisões autoritárias, irresponsáveis e inescrupulosas de seus governantes, que utilizam medicações como arma política. O Ministério da Saúde publicou recentemente – inicialmente sem assinatura – uma recomendação de uso de CQ/HCQ, um documento falho na parte científica e que traz obscurantismo e conflito para um momento em que mais de 22.000 brasileiros (número de 26 de maio de 2020) já morreram da COVID19. A OMS, inclusive, já suspendeu (em 25 de maio) os estudos que tinha com a droga por falta de segurança da mesma. Reforça-se ainda que algum médico – “famoso” ou não – ter usado (ou não) a CQ/HCQ para se tratar não é evidência nenhuma de que a medicação funciona.

Deve-se deixar claro que o médico tem o direito à autonomia e à objeção de consciência, ou seja, de não fazer algo com o qual não concorda cientificamente. Ética e moralmente, não podemos, mas sim devemos fazer o que a ciência sugere. Além disso, CQ/HCQ não estão em bula e, portanto, são consideradas off-label, não devendo ser motivo de preocupação a coação do governo para tal prescrição. Determinações unilaterais como essa apenas criam discórdia, prejudicam a relação médico-paciente e, mais importante, trazem malefícios aos pacientes.

A ciência é mutável e, hoje, ela deixa bem claro que a CQ/HCQ não é uma opção de tratamento adequada para COVID19, já que, além de não fazer bem, pode fazer mal. Num momento de desespero entre grande parte da população e em meio uma onda de desinformação, a reponsabilidade do médico aumenta e devemos fazer a Medicina de forma impecável, utilizando a melhor evidência científica. Para isso, hoje, com tantas forças contrárias, e cheias de “negacionismo”, nós médicos e todos os profissionais de saúde temos que ter coragem para fazer o que sabemos ser certo, sem medo de não prejudicar o nosso principal foco: o paciente. E se me questionarem se eu daria a CQ/HCQ para algum familiar meu a resposta, hoje, é simples: Não, assim como podemos dar a volta na Terra viajando em apenas uma direção, afinal, ela ainda é esférica, certo?

 

Referências

https://www.nature.com/articles/s41421-020-0156-0?fbclid=IwAR00SZmlr8i4s_GeGQHBRKFHrgLy3fOEc7X5VLrC4ecfF9Yypiba6eI2EBA

https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.03.22.20040758v3.full.pdf

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1477893920302179?via%3Dihub

https://pgibertie.files.wordpress.com/2020/04/2020.04.15-journal-manuscript-final.pdf

https://jamanetwork.com/journals/jama/article-abstract/2766117

https://www.bmj.com/content/369/bmj.m1844

http://www.zjujournals.com/med/EN/10.3785/j.issn.1008-9292.2020.03.03

https://www.nejm.org/doi/pdf/10.1056/NEJMoa2012410?articleTools=true

https://www.bmj.com/content/369/bmj.m1432

https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)31180-6/fulltext

https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2020/05/25/oms-suspende-teste-de-cloroquina.htm

COVID-19 e coagulação: cuidados com mensagens de redes sociais!

Mais uma vez fugimos do tema da Oncologia e vamos falar sobre a COVID-19, até porque a pandemia tem impactado na vida de todos, inclusive nossos pacientes. Algumas notícias e mensagens compartilhadas recentemente nas redes sociais têm sugerido que estudos defendem o uso de anticoagulantes para tratamento de pacientes com coronavírus. Isso não é verdade! Vamos aos fatos:

Nos últimos meses, notadamente nas últimas semanas, alguns estudos vêm mostrando que pacientes com COVID-19, principalmente os mais graves, apresentam uma maior incidência de eventos trombóticos, ou seja, distúrbios de coagulação. Muito está sendo pesquisado sobre a causa, porém sabe-se que há maior ocorrência de problemas de coagulação em pacientes com infecções graves, sejam virais, sejam bacterianas. Entretanto, nenhum estudo até hoje mostrou que a anticoagulação terapêutica é melhor do que não a fazer. Geralmente, pacientes internados em estado grave já recebem anticoagulação profilática, isso não é nenhuma novidade.

As mensagens que circulam nas redes dizem que os cientistas teriam descoberto que a COVID-19 não seria uma pneumonia, mas apenas um problema de coagulação, dizendo até que definir como quadro pneumônico seria um “grande erro diagnóstico”. Isso não é correto. Apesar do quadro de alterações de coagulação ser comum nos pacientes, há também o componente de pneumonia. Não só isso, até o momento, nenhum estudo mostrou benefício do uso de anticoagulantes em doses terapêuticas. Vale lembrar ainda que o uso de anticoagulação em doses altas pode levar também a um maior risco de sangramento, incluindo eventos potencialmente fatais.

Um dos estudos em que as mensagens se apoiam foi uma análise de bioinformática da ação do vírus sobre as células, sugerindo um possível mecanismo relacionado, porém nada definitivo, nada feito em laboratório, nada confirmado em pacientes in vivo.

As mensagens ainda vão adiante e recomendam o uso (absurdo!) de três comprimidos de 500mg de Aspirina® (ácido acetilsalicílico) com suco de limão fervido com mel. Não há NENHUMA razão para tal recomendação e é inclusive ARRISCADA, não só por trazer falsas esperanças de “cura” da COVID-19, mas por colocar as pessoas em risco, já que o uso de medicações como a Aspirina® não é de nenhuma maneira isenta de riscos, ainda mais nessa dose mais alta.
Enfim, o que se sabe até agora é que parece haver uma incidência maior de eventos trombóticos em pacientes com COVID-19, principalmente os mais graves, mas se isso impactará no tratamento oferecido deve ser testado em estudos bem desenhados e que tenham capacidade de responder a essa pergunta – e eles estão em andamento. A ciência está tentando descobrir o quanto antes maneiras de enfrentarmos essa pandemia de forma eficaz. Entretanto, ainda nenhuma “bala mágica” foi descoberta e o necessário é seguir as recomendações dos especialistas, ficando em casa quem puder, praticando bons costumes de higiene e não tomando medicações sem indicação médica. Vamos continuar fazendo ciência para trazermos sempre mais vida!

Referências:

https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.04.19.20054262v1
https://www.nejm.org/doi/10.1056/NEJMc2007575
https://chemrxiv.org/articles/COVID-19_Disease_ORF8_and_Surface_Glycoprotein_Inhibit_Heme_Metabolism_by_Binding_to_Porphyrin/11938173

Quando ser “mascarado” pode salvar vidas

O coronavírus (causador da COVID-19) – um vírus que acomete principalmente as vias respiratórias superiores e os pulmões podendo causar quadros graves de pneumonia e insuficiência respiratória, especialmente nos mais idosos e com doenças crônicas – acertou em cheio o mundo como um rolo compressor, fazendo com que várias certezas fossem colocadas em xeque! Qual a melhor forma de nos protegermos? Devemos ficar isolados ou tentarmos adquirir imunidade o quanto antes? Favorecer a saúde ou a economia? O que mata mais: a doença ou a pobreza? O que fazer para barrar a transmissão? Várias perguntas sem uma resposta definitiva, até porque a COVID-19 passou a se disseminar desde dezembro de 2019, na China, e em pouco tempo se espalhou pelo mundo inteiro causando o maior bloqueio que a economia já viu. Isso porque nem mesmo durante as grandes guerras, o impacto foi tão grande no mundo inteiro.

A medida que a doença avança e adquirimos mais conhecimento sobre a pandemia, algumas estratégias de combate ao vírus vão ganhando força e sendo implementadas. A primeira delas é o isolamento social. Esta claro que os países que conseguiram isolar as pessoas dentro de suas casas mais cedo, estão tendo resultados melhores, como uma velocidade de disseminação menor e menos colapso no sistema de saúde. Com isso menos pessoas morrerão pelo fato de não terem acesso ao tratamento e ao suporte necessário nos casos mais graves. Outra estratégia que vem ganhando força no mundo inteiro é o uso de máscaras por todas as pessoas que saem de casa. Inicialmente a recomendação do Ministério da Saúde e da Organização Mundial de Saúde era que apenas as pessoas sintomáticas e profissionais de saúde usassem máscaras.

Mas a observação de que países onde culturalmente o uso de máscaras pela população é mais difundido – como Japão, Coreia do Sul e a República Tcheca – estão tendo melhores resultados no combate ao vírus, tem levado as organizações de saúde recomendar o uso do acessório por todos que saírem às ruas. Isso porque as pessoas contaminadas pelo vírus que são assintomáticas (aquelas sem sintomas) têm papel importante no ciclo de contaminação e disseminação da doença. Isso levou o Ministério da Saúde a mudar, em 2 de abril de 2020, a recomendação para que todas as pessoas, mesmo aquelas sem sintomas, usem máscaras ao saírem às ruas, embora o ideal seja manter o isolamento e permanecer em casa.

Estudo recente chinês mostrou que muitas pessoas se infectaram a partir de outras que não tinham nenhum sintoma e saíam as ruas. Essas pessoas, ao falarem, dispersavam gotículas contaminadas pelo vírus e assim outros se infectavam. As máscaras funcionam como barreiras físicas para essas gotículas maiores. Outros estudos no Japão mostraram que o uso de máscaras por toda população foi decisivo para desacelerar o número de novos casos da doença.

Mas algumas dúvidas ainda pairam no ar. E as respostas nem sempre são dotadas de certeza aritmética. As máscaras protegem 100% contra a disseminação do vírus? Certamente, não. A proteção não é de 100% e, por isso, devemos continuar sempre com as demais medidas de proteção, como lavar as mãos com água e sabão e usar o álcool 70%, manter isolamento social e distância de dois metros de outras pessoas. De todo modo, as máscaras podem ajudar a minimizar a dispersão do vírus. Então, qual o tipo de máscara mais adequada, visto que existem diferentes tipos, com graus diferentes de proteção? Uma coisa é fato: se todas as pessoas usarem máscaras industrializadas (essas que são usadas em hospitais), faltarão equipamentos de proteção para médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, que estão mais expostos ao contágio e na linha de frente de combate ao vírus.

O ideal é que as pessoas usem máscaras caseiras, feitas de algum tecido mais grosso, que sirva como barreira física. Essas máscaras devem ser usadas ao sair de casa para ir ao mercado ou à farmácia e devem sempre ser lavadas ao retornar para casa. Sempre que for sair, deve-se colocar uma máscara limpa e lavada. Pode-se confeccionar máscaras com outros materiais, como lenços de pano Perflex, que são usados para limpeza de cozinhas e eletrodomésticos. Essas devem ser descartadas após cada saída de casa e nunca reutilizadas. Novamente ressaltamos que essas máscaras não protegem 100%, mas podem ser importantes na diminuição da transmissão do vírus. Mais do que proteger aqueles que não tem a doença, talvez a maior função seja evitar que aqueles doentes que não sabem que estão doentes (são justamente os que saem de casa), possam espalhar o vírus pelo ar, próximos de outros.

Além das máscaras caseiras, temos as industrializadas que basicamente são de dois tipos: as máscaras cirúrgicas convencionais, feitas de material não tecido. São encontradas em farmácias, mas o seu uso em grande escala tem feito elas desaparecerem com tamanha rapidez que virou objeto de desejo de muitos. Mesmo no ambiente hospitalar, seu uso tem seguido algumas normas, para evitar o desperdício e, com isso, garantir que não faltarão máscaras no momento de agravamento da pandemia. A outra máscara industrializada é a chamada N95 (conhecida popularmente como bico de pato, pelo seu formato) e é equivalente à máscara PFF2. Essa máscara protege contra partículas pequenas e aerossóis e é a mais indicada para profissionais de saúde que lidam diretamente com casos suspeitos ou confirmados da doença. São as que mais protegem porque têm capacidade de filtração de cerca de 95%, maior que a máscara cirúrgica convencional. Mas também precisam ser manipuladas de forma adequada porque a parte externa pode ficar contaminada pelo vírus e se for manuseada de forma errada pode não impedir a infecção.

Como as máscaras devem ser colocadas? Sempre deve-se lavar as mãos com água e sabão antes de colocá-las. A máscara deve cobrir a boca e o nariz e não se deve colocar a mão na parte da frente ou interna da máscara. Quando for retirar, a parte de traz, onde é amarrada, deve ser o único local tocado. Sempre que a máscara estiver úmida ou suja deve ser trocada ou a cada duas horas. Assim que chegar em casa, ela deve ser colocada para lavar se for de pano ou descartada se for de outro material, de preferência em um lixo separado dos demais. Deve-se evitar ao máximo colocar as mãos no rosto e ficar tentando ajustar a máscara toda hora e sempre deverá lavar as mãos após a retirada.

O uso de outros materiais, que não tecido, não estão indicados para confecção de máscaras caseiras. O uso de sacolas plásticas, por exemplo não é recomendado por poder causar sufocamento e piorar a qualidade do ar respirado, propiciando outras infecções. Os tecidos usados em casa, não têm a trama tão fechada e, por isso, sua proteção não será de 100%, principalmente contra partículas pequenas, mas pode proteger contra as partículas maiores.

Para finalizar, portanto, é importante entender que as máscaras de pano protegem pouco os indivíduos que as usam, no intuito de evitar que “peguem o vírus”, mas podem evitar que aquelas pessoas já infectadas e que não sabem se têm a doença (por não ter sintomas ou ter apenas sintomas leves), espalhem partículas com o vírus para o ambiente e para pessoas próximas. Por isso ser “mascarado”, nesse momento, pode ajudar a salvar vidas. Além disso as outras medidas como isolamento social, lavar bem as mãos e manter a distância de dois metros de outras pessoas continuam sendo as mais importantes. Nunca o lema “um por todos e todos por um” foi tão verdadeiro e importante como agora.