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Tratamento oncológico nos serviços públicos e privados: as diferenças e entraves que tiram o sono dos oncologistas

Segundo estimativa do Instituto Nacional do Câncer (INCA), o Brasil terá cerca de 582 mil novos casos de câncer em 2019. Um estudo conduzido pelo grupo Observatório de Oncologia em parceria com o Conselho Federal de Medicina apontou que em 2015 o país registrou 209.780 mortes por câncer. Os dados foram obtidos por meio do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde e podem estar subestimados uma vez que óbitos por neoplasias malignas podem ter sido registrados como outras causas. Este mesmo estudo mostrou que o câncer já é a principal causa de morte em 10% dos municípios brasileiros, superando os óbitos por doenças cardiovasculares, atualmente líderes em mortalidade. E a estimativa é que, em 2030, as neoplasias serão a primeira causa de morte no país.

Quando pensamos em tratamento de doença oncológica, a primeira palavra que nos vem à mente é tempo. Para a imensa maioria dos tumores malignos, quanto mais precoces forem o diagnostico e a terapêutica adequada, maiores as chances de cura, ou seja, quanto menos tempo se “perder” entre o início de um sintoma ou o aparecimento de um nódulo suspeito na mama, por exemplo, e o diagnostico seguido do tratamento, maiores as chances de sucesso. Isso explica o fato de que a mortalidade por câncer de colo de útero nos países árabes é de 5 a 8 vezes maior que nos EUA e porque o câncer de mama em africanas é cerca de 4 vezes maior que em americanas. Esses tumores ginecológicos são mais agressivos em mulheres árabes e africanas do que em americanas? Provavelmente não.

Apesar de poder haver algumas diferenças na biologia tumoral, o que faz a diferença é o estágio que o câncer é diagnosticado e o tempo para o tratamento. No Brasil, estudo conduzido pelo Grupo Brasileiro de Estudos em Câncer de Mama (GBECAM) e apresentado em 2009 apontou que 37% das mulheres com câncer de mama tratadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) são diagnosticadas já com doença avançada, o que limita as chances de cura, enquanto na rede privada de saúde esse percentual é de 16%. Sancionada em novembro de 2012 e em vigor desde maio de 2013, a Lei 12.732 garante aos usuários do SUS o início do primeiro tratamento oncológico em até 60 dias após o diagnóstico. Quem conhece a realidade da saúde pública brasileira principalmente nas regiões mais pobres do Norte e Nordeste sabe que na prática a lei não funciona. Se um paciente for diagnosticado com câncer de próstata no estágio inicial e o tratamento definitivo indicado for a radioterapia, este deve esperar em media um ano na fila para conseguir o procedimento na rede pública. Isto sem contar no tempo gasto para o diagnóstico, prazo este não contemplado pela lei, uma vez que uma biópsia de próstata guiada por ultrassom é realizada em poucos serviços públicos o que faz com que boa parte dos pacientes que não possuem plano de saúde tenham que pagar pelo exame. Infelizmente, o câncer não dorme em berço esplêndido.

Oncologia demanda alta complexidade e alta tecnologia. Exames considerados de alto custo como tomografia computadorizada, ressonância magnética, cintilografia óssea entre outros são fundamentais para o diagnóstico e o seguimento dos pacientes. Cirurgias estão ficando cada vez menos mutiladoras e menos invasivas, proporcionando menor tempo de convalescência e recuperação mais rápida aos pacientes assim como menos sequelas e menor tempo de internação hospitalar. É o caso, por exemplo, da cirurgia robótica para câncer de próstata e também para outros tumores. Quanto à quimioterapia, cada vez mais o tratamento se torna personalizado, com base na biologia tumoral e nas diferentes mutações que as neoplasias malignas podem sofrer mesmo em se tratando de tumores do mesmo órgão como o câncer de pulmão. Um paciente com este tumor e com uma mutação genética especifica vai se beneficiar muito mais em termos de sobrevida se fizer um tratamento alvo-molecular que é uma quimioterapia oral e de alto custo do que se receber o tratamento tradicional endovenoso, conhecido como quimioterapia citotóxica que neste caso é bem menos efetiva e pode ter mais efeitos colaterais como vômitos e queda de cabelo.

Outro exemplo de evolução na oncologia é o que observamos com o tratamento do melanoma maligno. Trata-se de um tumor de pele, mais comum em pessoas de pele clara e com histórico de exposição solar. Apesar de ser menos frequente que os demais tumores cutâneos, sua agressividade e potencial de se espalhar por diversos órgãos como fígado, pulmão cérebro faziam com que pacientes acometidos por esta neoplasia tivessem uma sobrevida bastante curta com as terapêuticas disponíveis. Hoje, com a introdução da imunoterapia, um tipo de tratamento que estimula nosso sistema imunológico a combater o tumor, a sobrevida e principalmente a qualidade de vida dos pacientes melhorou consideravelmente.

Em medicina, especialmente na oncologia, todo acréscimo de tecnologia e vanguardismo vem obrigatoriamente acompanhado de um aumento nos custos. O que é esperado! Afinal, para uma nova droga ser disponibilizada para uso comercial foram necessários anos e anos de pesquisas, desde o desenvolvimento da molécula, passando pelos estudos pré-clínicos, depois para os estudos com grupos pequenos de pacientes nos quais se testa a tolerância e se observa possíveis efeitos colaterais até chegar na fase de estudos com grupos maiores de pacientes, geralmente em vários locais do mundo, com populações diferentes. Só após passar por todas essas fases, mostrar benefício clínico e ser aprovado pelos órgãos regulatórios de cada país é que o medicamento é liberado para ser comercializado. Todo este processo demora em média 10 anos. E quem paga a conta desses novos tratamentos, mais efetivos, porém muito mais custosos? No Brasil, são basicamente três as formas de financiamento: o paciente pagar do próprio bolso com recursos próprios, o paciente ter um plano de saúde que vai cobrir as despesas e, por último, o paciente ser tratado pelo SUS. Pagar as despesas com recursos próprios acontece na minoria dos casos visto que os custos são elevados e distantes da realidade financeira e do poder de endividamento da maioria da população brasileira. Estudo realizado em 2006 pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz), concluiu que o SUS é o financiador predominante do tratamento oncológico no país, responsável por cerca de 75% dos atendimentos em quimioterapia e radioterapia.

O orçamento previsto em 2019 para a saúde no Brasil é de R$ 128 bilhões. Deste montante, apenas 2% será destinado para a oncologia. Esta é a média anual de gasto do orçamento total do Ministério da Saúde para o tratamento oncológico. Com os valores repassados pelo governo federal para as instituições públicas (em sua maioria), ou privadas que prestam serviço ao SUS no âmbito do tratamento de câncer, se consegue tratar de forma honesta a maioria dos pacientes. Muitos são curados. Porém, o que fazer quando – não muito raro – um paciente necessita de um tratamento de alto custo e este é, por vezes, sua única opção? Voltando ao exemplo do melanoma maligno, o SUS repassa para a instituição prestadora de serviço o equivalente a R$ 1.080,00 por mês para cada paciente em tratamento. Com este valor, o paciente geralmente recebe como quimioterapia uma droga mais antiga, chamada de Dacarbazina, cuja taxa de resposta tumoral é baixa, em torno de 15%, assim como a sobrevida, que é ruim, não ultrapassando os seis meses a depender da extensão da doença e dos órgãos acometidos pelas metástases. Um tratamento para este mesmo paciente com imunoterapia chega a custar algo em torno de R$ 40 mil mensais. A conta não fecha. Apesar de a nossa Constituição de 1988 dizer no seu artigo 196 que “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”, os recursos financeiros não são infinitos. A conta precisa ser paga. Até mesmo operadoras de planos de saúde, em especial as menores, têm dificuldade em arcar com essas altas despesas. A pesquisa da ENSP/Fiocruz citada acima também apontou que aproximadamente 15,4% dos pacientes com planos de saúde precisam ter suas internações hospitalares custeadas pelo SUS e 12% dos procedimentos de quimioterapia e radioterapia também.

Resolver este problema de subfinanciamento dos serviços públicos versus alto custo dos tratamentos oncológicos não é simples e demanda um esforço global que envolve governo, indústria farmacêutica, médicos e sociedade em geral. Do governo espera-se a criação de políticas públicas voltadas para a atenção oncológica e a revisão periódica dos valores repassados aos prestadores de serviços pelos procedimentos de quimioterapia/radioterapia. A tabela não é atualizada de forma a rever pelo menos as perdas com a inflação há quase dez anos. Isso muitas vezes inviabiliza o tratamento adequado de algumas neoplasias mesmo com medicações que não são de alto custo. Da indústria farmacêutica espera-se redução dos custos das medicações na medida do possível, assim como um maior financiamento em pesquisas clínicas nas quais o paciente do SUS que se enquadre em algum protocolo tenha a oportunidade de se beneficiar de tratamentos mais efetivos não cobertos de rotina no serviço público.

Médicos oncologistas devem lutar para que os serviços atendidos pelo SUS tenham protocolos de tratamento oncológico baseados em evidências científicas e em estudos de custo-efetividade, uma vez que nem sempre a droga mais cara e mais recente lançada no mercado é a mais eficaz e mais custo-efetiva. Além do mais, é de extrema importância o engajamento dos oncologistas, em especial os que trabalham em serviços públicos, com as sociedades médicas como, por exemplo, a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) que mantém uma via permanente de diálogo e negociação junto ao Ministério da Saúde na busca de incorporação de novas tecnologias e tratamentos contra o câncer no âmbito do SUS.

Cigarro, narguilé e maconha: existe relação com o câncer?

Recentemente no nosso blog, falamos sobre os perigos do tabagismo e do uso de narguilé. Porém, essas não são as únicas práticas recreativas nocivas à saúde. A maconha é uma droga cujo uso tem crescido, sendo a substância ilícita mais consumida no mundo e que pode ter consequências maléficas para os seus usuários, dentre elas o câncer.

Em maio, falamos um pouco sobre o tabagismo e sobre como esse hábito – que envolve inalar mais de 4.000 substâncias tóxicas, sendo 70 cancerígenas – pode afetar a nossa saúde. O tabaco causa perto de 90% dos cânceres de pulmão e tem relação com 30% das mortes por todas as neoplasias malignas. Além disso, aumenta muito o risco de doenças cardiovasculares e causa danos consideráveis aos órgãos do corpo, envelhecendo a pele e prejudicando a capacidade de respirar. Vimos também que a melhor opção é sempre deixar de fumar, não só para a pessoa, mas também para os familiares e amigos que convivem com a mesma, visto que o fumo passivo também é um risco. Para parar, não adianta, o indivíduo tem que conhecer os riscos a que ele está exposto e saber que está usando uma droga que vicia e mata.

Em outro post, o Dr. David Cunha mostrou que o narguilé é uma nova moda entre os jovens e adultos. O seu uso se baseia na aspiração de fumaça de diversas substâncias através de um cachimbo acoplado a um recipiente com água. Muitas vezes os usuários referem, erroneamente, que a prática não traz malefícios. Mas estudos mostram que uma rodada de narguilé (aproximadamente 45 minutos) equivale a fumar 100 cigarros. Desse modo, as consequências vêm junto com a utilização: câncer de pulmão, de cavidade oral e garganta, doenças cardiovasculares e enfisema pulmonar. Além disso, a dependência química também pode ocorrer, já que altos níveis de nicotina também são inalados, e há o risco inclusive de infecções por compartilhamento do cachimbo entre as pessoas.

Em relação à maconha, estima-se que aproximadamente 180 milhões de pessoas façam uso no planeta. Apesar de algumas pessoas a considerarem inofensiva, diversos problemas advêm do seu uso.

Dependência química, problemas vasculares, doenças psiquiátricas, alterações pulmonares agudas, infertilidade são alguns exemplos. Alguns estudos mostram que pode haver um aumento pequeno no risco de infarto do coração e acidente vascular cerebral (AVC), mais conhecido como derrame. Outros trabalhos associam o uso regular da maconha com redução da cognição, ou seja, piora da capacidade de raciocinar. Dentre os problemas psiquiátricos, os usuários apresentam maior risco de desenvolver esquizofrenia, com um aumento de aproximadamente 24%. Ademais, ansiedade, depressão, transtorno bipolar, parecem ter alguma relação com o uso da substância. E não podemos esquecer que o uso de drogas como a maconha pode levar também ao desenvolvimento de dependência a outras drogas, como o próprio cigarro e o álcool, além de ser uma porta de entrada para outras mais pesadas.

Sobre a relação com o câncer, os estudos, apesar de serem de evidência científica reduzida, mostram que há aumento de ocorrência de alguns tipos de câncer. O de testículo é um deles. Pesquisadores notaram um aumento de 150% na incidência deste tipo de tumor entre pessoas que usavam maconha. Em relação ao câncer de pulmão, a maconha leva a alterações diretas no tecido pulmonar, que predispõem ao desenvolvimento de tumores malignos, já que irrita e lesa as células do parênquima dos pulmões.

Apesar dos efeitos deletérios do seu uso regular, a maconha tem se mostrado útil para a medicina, já que tem sido usada em algumas situações específicas, como controle de dor, falta de apetite e de náuseas e vômitos em pacientes com câncer. Os estudos são controversos, porém alguns mostram alguma melhora do enjoo pós-quimioterapia em pacientes que não tiveram sucesso usando as medicações comuns. O mesmo aconteceu com o nível de dor quando doentes com câncer avançado foram tratados, sem sucesso, com medicações analgésicas normalmente utilizadas pelos médicos. Outro uso foi o de estimulador de apetite em pessoas com falta dele. Entretanto, devemos nos lembrar dos efeitos adversos do uso da droga e que não se sabe quais podem ser as consequências do uso à longo prazo. De qualquer maneira, os compostos derivados da maconha ou a própria planta para consumo não são liberados no nosso país.

É isso aí! Fora os estudos com algum papel da maconha na medicina, o tabagismo, o narguilé e a maconha são hábitos com muitos efeitos colaterais e devem ser combatidos e evitados, a fim de promover melhor saúde para nosso corpo e nossa mente. Praticar esportes, encontrar amigos, trabalhar, explorar a natureza, todos esses bons hábitos podem ser o caminho para uma vida sem drogas e com saúde!

 

Referências:

www.uptodate.com

Envelhecimento da população: como isso impacta o câncer

Se existe um sonho que sempre permeou a mente humana foi o de viver por mais tempo; quem sabe buscar até a imortalidade! Desde nossos primórdios tentamos – a muito custo – uma passagem mais longeva por este mundo, o que, podemos dizer, tem surtido bons resultados. Se imaginarmos que na Roma Antiga e no Período Medieval as pessoas viviam em media 25 a 30 anos, a mesma expectativa de vida dos nossos ancestrais Neandertais e que hoje, no Brasil, vivemos em média 73 anos, notamos que muita coisa mudou.

A primeira mudança a permitir tal transformação foi a noção mínima de higiene do próprio corpo e, mais tarde, o surgimento e disseminação de saneamento básico, o que levou a uma queda vertiginosa nas epidemias que dizimaram muitos povos. Depois, o entendimento do que seria saúde e doença e o avanço na medicina com o boom recente de novas tecnologias nos alçou a voos mais distantes do que poderíamos imaginar.

A medida que vivemos mais, passamos a conviver com condições antes consideradas mais raras. E uma delas é o câncer, uma doença causada pelo nosso próprio organismo, muitas vezes induzida por fatores externos e evitáveis, mas que certamente tem relação direta com o envelhecimento. A maioria dos tumores aparecem em idades mais avançadas e são relativamente raros em indivíduos mais jovens, com algumas exceções.

Podemos dizer que há 100 anos a principal causa de morte eram doenças infectocontagiosas, só lembrando de algumas que quase levaram ao desaparecimento de civilizações e cidades inteiras como a peste negra, na Europa medieval, e a febre amarela que quase tirou Campinas do mapa do final do século XIX. A partir do século XX, com as doenças infecciosas mais controladas e a mortalidade infantil em franca queda, a média de vida pulou para a casa dos 60 anos. Estes fatos associados às mudanças no estilo de vida – como elevação do sedentarismo e dietas ricas em gorduras e frituras – as doenças cardiovasculares saltaram para o primeiro lugar nas causas de morte. Passou a ser comum as pessoas morrerem de infarto agudo do coração e derrames cerebrais.

Mas não paramos por aí. A medicina continuou avançando e, apesar de todo estilo de vida distorcido no qual nos inserimos na era dos fast foods, conseguimos fazer com que um número cada vez maior de pacientes sobrevivesse a algum distúrbio cardíaco ou vascular. E, nesse processo, o câncer começou a bater cada vez mais forte em nossas portas. Hoje, são raríssimas as pessoas que não tem um caso de câncer na família ou entre conhecidos próximos. E, apesar da ascensão desta doença, também é cada vez maior o número de pacientes que encontram a cura. Os métodos diagnósticos melhoraram e, com isso, descobrimos mais pacientes com câncer, mas também fazemos o diagnóstico mais cedo. As técnicas cirúrgicas avançaram e inegavelmente surgiram melhores tratamentos como quimioterapias mais eficazes. E com o maior entendimento da biologia molecular e imunologia, as terapias alvos e imunoterapias vêm ganhando mais espaço com resultados inimagináveis há 10 anos.

Alguns cânceres têm relação direta com a idade, como por exemplo, o câncer de próstata. Sua incidência aumenta vertiginosamente após os 60 anos e é certo que quase 100% dos homens teriam câncer de próstata se vivêssemos até os 150 anos. Dados de biópsias realizadas em necropsias de homens que morreram de outras causas e não sabiam ter câncer, mostram que nesses homens foi encontrado câncer de próstata em até 80% deles quanto tinham mais de 75 anos no momento da morte.

Dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA) mostram que as doenças neoplásicas são hoje a segunda maior causa de morte no Brasil, com 576 mil casos novos em 2018, incluindo os casos de câncer de pele não melanoma. Uma pesquisa divulgada em abril de 2018, pelo Observatório de Oncologia do movimento Todos Juntos Contra o Câncer em parceria com o Conselho Federal de Medicina, mostrou que o câncer já é a primeira causa de morte em 516, dos 5.570 municípios do país, ou seja, em 10% dos municípios. Estes índices são maiores nas cidades de regiões mais desenvolvidas com maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

Em abril de 2018, uma pesquisa divulgada pelo IBGE mostrou que o Brasil superou a marca de 30 milhões de idosos e o número de crianças vem diminuindo. A expectativa é que em 2031 o número de idosos ultrapasse o de crianças entre 0 e 14 anos e que o Brasil tenha a quinta maior população de idosos do mundo. Provavelmente, quando isso acontecer, o câncer será a maior causa de morte em todo país e não mais as doenças cardiovasculares.

A forma mais clara de diminuir as chances de termos câncer ao envelhecer é tomarmos medidas preventivas ao longo da vida, como evitar o álcool e o cigarro, fazer atividades físicas regulares e ter uma dieta saudável, diminuindo a quantidade de gorduras ,frituras e embutidos ingeridos. Somente a prevenção pode fazer com que cheguemos na terceira idade mais saudáveis e evitar um boom do câncer nas próximas décadas.

Cuidados paliativos diminuem a internação de pacientes oncológicos

Atualmente, em Oncologia, a busca por qualidade de vida durante toda a trajetória da doença e do tratamento tem sido um dos mais importantes objetivos de cuidado. Este tema tem sido amplamente discutido em fóruns científicos mundiais e nacionais, o que têm fomentado não só novas abordagens de cuidado, como também diversas políticas públicas, com a intenção de estimular uma atenção integral aos pacientes oncológicos.

Nesse sentido, o chamado cuidado paliativo – ou de suporte – vem ganhando espaço e demonstrando sua tamanha importância na assistência plena a esses pacientes. Trata-se, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), de uma abordagem capaz de melhorar a qualidade de vida de pacientes e famílias que enfrentam enfermidade ameaçadora da continuidade da vida. Além disso, tem função também na prevenção e no alívio de sofrimentos, por meio da identificação precoce, do manejo e do controle de dor, assim como de outras questões de cunho psicológico, psicossocial e espiritual.

Há quase dez anos, evidência científica robusta já demonstrou, com estudo científico randomizado realizado em pacientes com câncer de pulmão, que a introdução precoce dos cuidados paliativos levou a melhora não só do humor, como também da qualidade de vida e proporcionou sobrevida.

Diante dos benefícios tão expressivos que têm sido demonstrados em relação a esse tipo de cuidado ao longo do tempo, em 2017, na Reunião Anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO), foi atualizada a Opinião Clínica Provisória (PCO) de 2012 a respeito do melhor momento para integrar os cuidados paliativos no atendimento ao paciente. Assim, ficou recomendado que a equipe paliativista deveria ser consultada no máximo em até oito semanas após o diagnóstico de um câncer avançado, simultaneamente ao início do tratamento oncológico específico.

Para além disso, ainda em 2017, ganhou espaço em sessão de plenária da ASCO, onde são apresentados os trabalhos científicos mais relevantes em Oncologia, um estudo científico que teve como objetivo avaliar o impacto da avaliação proativa dos sintomas dos pacientes. Este tipo de abordagem melhorou qualidade de vida, diminuiu procura aos serviços de emergência de hospitais e aumentou tempo de sobrevida em cerca de cinco meses.

No mês passado, neste mesmo Congresso, o tema do cuidado paliativo foi novamente valorizado e os estudos de maior evidência trouxeram novos questionamentos a respeito do melhor momento para iniciar a abordagem, a melhor maneira de fazê-lo em diferentes contextos e cenários (intra ou extra-hospitalar, em diferentes regiões do mundo) e a alocação recursos para tal.

Um dos estudos ressaltados avaliou retrospectivamente o impacto da introdução ainda mais precoce do cuidado paliativo, com quatro semanas do diagnóstico, utilizando-se da base de dados americana SEER, em pacientes com câncer de pâncreas avançado. Como resultado, foi evidenciado uma diminuição expressiva da procura por serviços de emergência. Apesar da importância deste cuidado também na Medicina Intensiva estar bem consolidada, infelizmente neste estudo especificamente não foi possível demonstrar diminuição significativa do número de internações em UTI.

Outra análise retrospectiva importante avaliou o impacto da integração do cuidado paliativo em 810 pacientes com câncer avançado, no contexto intra-hospitalar, validando a importância do acompanhamento precoce também neste cenário e, principalmente, desde à admissão na internação. O trabalho ainda evidenciou que pacientes recebendo esse tipo de abordagem tinham 1,2 vezes mais chance de alta para casa.

Apesar dos resultados animadores em relação às pesquisas no contexto do cuidado paliativo, não podemos deixar de considerar os desafios da avaliação do real impacto dos estudos retrospectivos. No entanto, eles nos ajudam a saber como este tipo de abordagem tem sido feita ao redor do mundo. Faz-se necessário ainda definir o modelo mais efetivo de integração do cuidado, o melhor momento para isto, para quem e por qual motivo.

Diante do exposto, fica claro que cada vez mais o cuidado paliativo, associado às práticas que visem melhorar a qualidade de vida, tem se consolidado como abordagem essencial de cuidado a ser instituída cada vez mais precocemente na trajetória de um paciente oncológico e em diferentes contextos. Não podemos deixar de ter em mente que o médico oncologista e paliativista sempre devem ser consultados para avaliar e auxiliar na integração de práticas não convencionais de cuidado.

O paciente oncológico necessita – além do alívio e da prevenção dos seus sintomas físicos – de abordagem de outros tipos de sofrimentos, que têm suas origens também no espírito e na mente, considerando seu contexto familiar, sua biografia, suas novas prioridades de vida traçadas a partir do diagnóstico e o legado simbólico e/ou concreto que deseja deixar. O cuidado paliativo abre uma porta para um acolhimento diferenciado, por meio da criação de vínculos fortes e de redes de apoio amplas, que têm o poder de mudar não só a evolução da doença, como também a forma como o indivíduo se enxerga e se coloca no mundo.

 

Câncer de Esôfago

O esôfago é um tubo muscular que leva o alimento desde a garganta até o estômago. Possui aproximadamente 25 cm de comprimento 3 cm de diâmetro desde sua origem até a ligação com o estômago. Está em contato direto com estruturas do pescoço (laringe, tireóide e nervos da corda vocal), do mediastino posterior, região do meio do tórax junto ao coração, aorta, pulmões, diafragma e abdome.

O câncer de esôfago é uma lesão maligna que geralmente começa nas células que revestem o interior do órgão (mucosa). Ele acomete mais os homens do que as mulheres, entre 50 e 70 anos de idade. É o 6º tipo de câncer mais frequente entre os homens e 13º entre as mulheres, (excetuando-se o câncer de pele não melanoma). O tipo de câncer de esôfago mais frequente é o carcinoma epidermoide escamoso, responsável por aproximadamente 95% dos casos. Outro tipo, o adenocarcinoma, vem aumentando significativamente. Segundo estimativas do Instituto Nacional do Câncer (INCA), em 2018 o Brasil terá 10.790 novos casos desse câncer, sendo 8.240 em homens e 2.550 em mulheres. Apesar de pouco prevalente, o câncer de esôfago tem uma alta letalidade. No ano de 2013 ele foi responsável por 7.930 mortes, sendo 6.203 em homens e 1.727 em mulheres.

O tabagismo é o principal fator de risco para a doença. O outro é a ingestão sistemática de álcool. Em especial, a associação do tabaco (cigarro, charuto ou cachimbo) à bebida alcoólica funciona como agravante para o aparecimento do carcinoma epidermoide. Outros fatores de risco incluem: infecção pelo papiloma vírus humano – HPV; tilose (espessamento da pele nas palmas das mãos e na planta dos pés), acalasia (falta de relaxamento do esfíncter entre o esôfago e o estômago), esôfago de Barrett (crescimento anormal de células do tipo colunar para dentro do esôfago provocado pela acidez do refluxo gastroesofágico), lesões cáusticas (queimaduras, geralmente causadas por ingestão acidental de cáusticos),  megaesôfago causado pela doença de Chagas que leva à perda dos movimentos de contração (peristálticos) entre outros menos frequentes.

Na maioria dos casos, os cânceres do esôfago são diagnosticados em função dos sintomas. O diagnóstico em pessoas assintomáticas é raro e geralmente acidental. Infelizmente, a maioria dos cânceres de esôfago não causam sintomas até que tenham atingido um estágio avançado, quando eles são mais difíceis de serem tratados. O sintoma mais comum de câncer de esôfago é o problema da deglutição, a sensação de que a comida está presa na garganta, denominada disfagia. A disfagia é geralmente um sintoma causado por um câncer já de tamanho considerável, avançado. Quando a deglutição se torna difícil, as pessoas costumam mudar a dieta e os hábitos alimentares sem perceber, passam a comer pequenas porções e a mastigar os alimentos lentamente, com mais cuidado e por mais tempo. As pessoas tendem a comer alimentos mais macios, evitando pão e carne. O problema da deglutição pode piorar a ponto de algumas pessoas trocarem os alimentos sólidos por uma dieta líquida. Com o passar do tempo, a disfagia evolui para dor ao deglutir, o que chamamos de odinofagia. Associado a isso, o paciente geralmente perde muito peso em um intervalo curto de tempo. Outros sintomas incluem dor no tórax, azia e sintomas de má digestão, rouquidão, tosse persistente, vômitos, soluços. Sinais e sintomas como falta de ar e pele amarelada geralmente são indicativos de metástases para pulmões e/ou fígado.

O exame mais importante para diagnóstico dos tumores de esôfago é a endoscopia digestiva alta, que permite enxergar o órgão por dentro e retirar amostras de tecido para exame anatomopatológico (biópsia) se houver lesões suspeitas.

Uma vez confirmado o diagnóstico, pode ser necessário realizar outros exames como tomografia computadorizada do tórax e abdome, broncoscopia, ultrassom, exames de sangue para determinarmos o estadiamento da doença, ou seja, sabermos se o câncer está restrito ao esôfago, se há sinais de invasão de órgãos adjacentes como a traqueia, brônquios, estômago ou gânglios regionais (linfonodos) ou mesmo se o tumor já está espalhado para outros órgãos como fígado e pulmões (metástases).

As opções de tratamento incluem cirurgia, nos casos dos tumores restritos ao esôfago; associação de quimioterapia e radioterapia em tumores mais avançados mas ainda com chance de cura ou mesmo quimioterapia paliativa para os pacientes com câncer disseminado (metastático). Quando o paciente não consegue se alimentar de forma satisfatória e para evitar que o mesmo fique desnutrido, a alimentação pode ser mantida através de sondas nasoenterais que, introduzidas pelo nariz chegam até o intestino delgado, ou através de sondas colocadas diretamente no estômago por via endoscópica ou por cirurgia (gastrostomia).

A prevenção do câncer de esôfago está diretamente correlacionada com os bons hábitos de vida. Daí a importância de não fumar, beber com moderação, adotar uma dieta saudável, balanceada e rica em fibras e pobre em alimentos gordurosos e condimentados, manter o peso saudável e praticar atividade física.

O prognóstico está diretamente relacionado ao diagnóstico precoce, ou seja, quanto mais cedo se diagnosticar o tumor, maior a chance de cura. Pessoas com fatores de risco como as que sofrem de acalasia, tilose, refluxo gastroesofágico, síndrome de Plummer-Vinson e esôfago de Barrett têm mais chances de desenvolver o tumor. Por isso, devem procurar o médico regularmente para a realização de exames. Não há nenhuma recomendação formal de realização de exames na população geral como o emprego de endoscopia digestiva alta para rastreamento da doença. O recomendado é que, em caso de sintomas como dor ou dificuldade para deglutir, surgimento de rouquidão persistente, sintomas de azia e má digestão que não melhoram, especialmente em indivíduos tabagistas e etilistas, o ideal é procurar o médico para uma avaliação e se necessário, realização de exames mais específicos.

Prevenção continua sendo a melhor maneira de evitar o câncer.

Lenvatinibe versus sorafenibe em primeira linha no carcinoma hepatocelular irressecável

SBOC REVIEW
QUINTA, 01 MARÇO 2018 11:49

O tratamento sistêmico do carcinoma hepatocelular (CHC) avançado é carente de opções terapêuticas. O sorafenibe tem sido o único medicamento com ganho em sobrevida global em primeira linha nos últimos 10 anos. Todos os estudos que tentaram comparar o tratamento com sorafenibe foram negativos. No entanto, recente publicação no Lancet (Kudo M et al), avaliando o tratamento com lenvatinibe, um inibidor multi-quinase de VEGFR 1-3, FGFR 1-4, PDGFR alfa, RET e KIT, revelou dados convincentes.

Trata-se de um estudo fase III, multicêntrico, de não inferioridade, que recrutou pacientes com CHC avançado para tratamento em primeira linha. A margem de não inferioridade estabelecida foi de 1.08. Foram randomizados 954 pacientes (1:1) para tratamento com lenvatinibe 12 mg/dia (peso maior ou igual a 60kg) ou 8 mg/dia (peso menor 60 kg) ou sorafenibe 400 mg duas vezes ao dia. Na avaliação dos resultados, o objetivo primário de sobrevida global foi alcançado (13,6 meses lenvatinibe x 12,3 meses sorafenibe, hazard ratio 0.92; 95% CI, 0.79-1.06). Posteriormente realizou-se a avaliação pré-planejada de superioridade, porém com resultado negativo.

Os objetivos secundários de sobrevida livre de progressão 7,4 x 3,7 meses (p < 0.0001), tempo para progressão 8,9 x 3,7 meses (p < 0.0001) e resposta objetiva 24,1 % x 9,2 % (p < 0.0001) favoreceram lenvatinibe versus sorafenibe, respectivamente, com significância estatística. Em relação à descontinuidade do tratamento por efeitos colaterais (9% x 7%) e toxicidades grau III ou IV (57% x 49%) foram mais frequentes com lenvatinibe. Kudo M et al. Lancet.2018 Feb 9 PMID: 29433850 Comentário: O estudo com lenvatinibe atingiu o objetivo de não inferioridade em sobrevida global com efeitos colaterais manejáveis. Em um cenário de escassez de tratamento para o CHC avançado, o lenvatinibe revelou ser uma opção promissora.

Câncer Urotelial e Câncer de Ureter: o que há de novo?

Simpósio Americano de Câncer Geniturinário

Resumo do dia 9/2/2018

Hoje foi o segundo dia de evento.

Dia de discussões sobre câncer de bexiga, testiculo e pênis.

As principais apresentações foram a respeito de imunoterapia em câncer urotelial. Com resultados mostrando que nem todas as drogas anti-PDL1 e anti-PD1 são iguais, a eficácia do pembrolizumabe em pacientes que progrediram após uso de quimioterapia foi reafirmada, com seguimento de dois anos.

A chance dos pacientes estarem vivos após dois anos dobrou, em comparação ao uso de outros quimioterápicos convencionais.

Já o atezolizumabe mostrou pouca diferença dos tratamentos convencionais.

Há uma intensa busca de biomarcadores que possam identificar quem eventualmente pode se beneficiar dessa droga.

Outro ponto interessante foram a comprovação de que quimioterapia pós-operatória em câncer de ureter ou pelve renal aumenta as chances de cura. Pela primeira vez se mostraram bons resultados nesses casos.

Amanhã será dia de câncer renal. E de minha apresentação também.

Carnaval e câncer de cabeça e pescoço: O que tem em comum?

Carnaval e câncer de cabeça e pescoço: O que tem em comum?

O carnaval, considerada a maior festa popular brasileira, é conhecido pela intensa diversão entre os seus foliões. Muitas vezes esses momentos são acompanhados por exageros com bebidas alcóolicas, cigarro e relações sexuais desprotegidas, causando transmissão de doenças sexualmente transmissíveis, dentre elas o HPV (Papiloma Vírus Humano). Quando exposto cronicamente a essa tríade, devemos sempre lembrar do risco de câncer de cabeça e pescoço.

Esse câncer compreende todos os tumores que tem origem na boca (cavidade oral), nariz (nasofaringe, cavidade nasal e seios paranasais), garganta (orofaringe, hipofaringe, laringe) e nas glândulas salivares. É um tema pouco discutido mas de grande importância para saúde. Estatísticas mundiais revelam que é o sexto câncer mais frequente. O Instituto Nacional do Câncer (INCA) estimou para 2016, cerca de 15.490 mil novos casos, mais especificamente de câncer de cavidade oral, atingindo o posto de quinto tumor mais frequente nos homens brasileiros. Os homens são mais acometidos com uma razão de 2 a 4 homens para cada mulher, sendo a grande maioria dos diagnósticos realizados em estágios avançados.

Como podemos mudar então essa estatística tão alarmante? A resposta é simples: compreender os 3 principais fatores de risco e combatê-los.

O primeiro fator é o tabagismo, sendo o risco de desenvolver câncer de cabeça e pescoço dependente do número de cigarros fumados por dia e tempo de uso. Tabagistas pesados têm o risco de desenvolver câncer 5 a 25 vezes mais do que os não tabagistas. Importante ressaltar que não apenas o cigarro e o cachimbo aumentam esse risco, o hábito de mascar fumo ou tabaco, o uso de narguilé, cada vez mais frequente no Brasil, também está associado a um risco aumentado de câncer de boca e faringe.

O segundo fator é o etilismo que, assim como o tabagismo, está relacionado com a dose ingerida durante a vida. Um estudo realizado no Uruguai revelou o aumento de 5 a 6 vezes no risco de desenvolver o câncer de cabeça e pescoço com consumo de álcool superior a 50 g/dia versus menos de 10 g/dia (uma bebida contém aproximadamente 12 g de álcool). Ainda mais importante ressaltar que, quando associados, os hábitos de etilismo e tabagismo multiplicam o risco de câncer.

O terceiro fator que ganha cada vez mais visibilidade é a infecção pelo vírus HPV, estando este relacionado ao desenvolvimento do câncer de orofaringe (garganta). O HPV é o mesmo vírus relacionado ao câncer de colo de útero, vagina, vulva, anus e pênis. Dentre os 150 subtipos de HPV, o mais relacionado ao câncer de cabeça e pescoço é o subtipo 16. Diferentemente dos outros fatores de risco acima citados, ele é responsável por câncer em pacientes mais jovens e sem hábito de tabagismo e etilismo. Sabemos que esses tumores relacionados a infecção pelo vírus apresentam uma melhor resposta ao tratamento, mas a melhor notícia é que a vacinação contra o HPV protege contra esse tipo de câncer.

E quando devemos suspeitar de um câncer de cabeça e pescoço? Atentar para feridas na boca que não cicatrizam, dor ou irritação persistente da boca ou garganta, placas avermelhadas ou esbranquiçadas que duram mais de 3 semanas, alteração da voz ou dificuldade de deglutir.

Caso tenha algum desses sintomas é fundamental passar por avaliação com um dentista, cirurgião cabeça e pescoço ou otorrinolaringologista para investigação do quadro e mesmo para uma biópsia se a lesão for suspeita.

O diagnóstico de câncer apenas é confirmado com a biópsia. O tratamento deve ser feito com uma equipe multidisciplinar composta por um cirurgião de cabeça e pescoço, oncologista, radioterapeuta, nutricionista, fonoaudióloga e psicóloga. O tratamento depende da localização e do tamanho do tumor, sendo opções a cirurgia, radioterapia e quimioterapia. Em situações específicas todas as 3 opções são utilizadas para melhor resposta ao tratamento e aumento das chances de cura.

Como a maioria dos canceres, o diagnóstico precoce aumenta as chances de cura e possibilita tratamentos com menos sequelas, mas o mais importante é a conscientização de que podemos reduzir o risco desse tumor se for evitada a exposição aos fatores de risco. Não fumar, não abusar de bebida alcóolica e ter relações sexuais protegidas deve ser o primeiro passo. Vale ressaltar que a vacinação contra o HPV disponível no SUS protege contra os a infecção por esse vírus e reduz o risco de câncer de cabeça e pescoço (orofaringe), colo de útero, vagina, canal anal e pênis. As indicações para a vacinação de acordo com o Ministério da Saúde são: Meninas e meninos dos 9 aos 14 anos, pacientes com câncer em quimioterapia ou radioterapia, transplantados e portadores de HIV entre 9 a 26 anos. Fora dessas indicações a vacinação pode ser realizada no sistema privado. Diante de todos esses benefícios, não deixe de vacinar seus filhos.

O carnaval está chegando e todos devem aproveitar com muita alegria. O uso esporádico de bebidas e cigarro não é o maior vilão para o câncer, mas vale lembrar que esses hábitos muitas vezes se iniciam nessas comemorações. Portanto, diga não ao tabagismo, não ao abuso de bebidas alcóolicas e lembre-se sempre de usar camisinha!

 

 

 

 

 

 

 

Verão e Câncer de Pele: O que devemos saber?

Verão e Câncer de Pele: O que devemos saber?

Moramos em um país tropical, com temperaturas altíssimas o ano todo e com vários destinos turísticos contemplados por praias. É natural nos expormos mais ao sol, o que pode, com o passar do tempo, causar graves danos a pele entre eles o câncer.

O câncer de pele é o mais comum, sendo responsável por 25% de todos os casos de câncer na população adulta e aumentou cerca de 55% nos últimos 10 anos, causando 1 morte a cada 3 horas no mundo todo. E como a pele é formada por diferentes células, existem diferentes tipos de tumores, com agressividades e tratamentos diferentes.

Os tipos mais comuns de câncer de pele são o Carcinoma Epidermóide(CEC) ou Espinocelular, o Carcinoma Basocelular (CBC) e o mais temido de todos, o Melanoma.

O Basocelular é o mais frequente (cerca de 70%) e também o menos agressivo. É formado à partir de células chamadas basais, muito frequentes na pele, e por isso o seu nome. Ocorre com maior frequência nas áreas mais expostas ao sol como rosto e pescoço, sendo o nariz o local mais acometido. Tem crescimento lento e por isso, raramente causa metástase que é quando o tumor se espalha para outros órgãos, mas pode causar sérios danos às estruturas no local onde ele surge. Seu tratamento é essencialmente cirúrgico, ou seja, tem altas taxas de cura quando ressecado completamente. Recentemente foi aprovado no Brasil uma nova droga chamada Vismodegib para o tratamento desse tipo de câncer de pele quando não se pode mais curá-lo com cirurgia ou radioterapia.

O Carcinoma Epidermóide é o segundo mais comum, representando 20% de todos tumores de pele. É formado à partir de células chamadas escamosas que podem ser encontradas em todas as camadas da pele. Acomete com maior frequência o couro cabeludo, orelhas e face em indivíduos após os 50-60 anos. Seu tratamento inicial também é cirurgia, mas é um tumor mais agressivo do que o Basocelular e se não for retirado rapidamente pode se espalhar para outros órgãos e estruturas sendo necessário quimioterapia para tentar controlar os sintomas e seu crescimento.

O mais temido de todos os canceres de pele, o Melanoma é o menos frequente, cerca de 4% de todos os tumores de pele, mas foi responsável por 1500 mortes no Brasil em 2017, segundo dados do INCA. É formado à partir dos melanócitos, células da pele responsáveis pela produção da melanina, pigmento que dá cor a pele, por isso a maior parte dos melanomas tem o cor preta. Pode acometer além da pele, os olhos, mucosas e genitais. O melanoma é altamente agressivo, com capacidade de se espalhar rapidamente para quase qualquer lugar do corpo, inclusive para o cérebro. A cirurgia é a melhor forma de curá-lo. Atualmente estamos vivendo uma revolução no tratamento do melanoma nas suas formas mais avançadas ou seja, metastáticas, com surgimento de medicamentos novos chamados de drogas alvo e a imunoterapia. Esses novos medicamentos tem aumentado substancialmente o tempo e a qualidade de vida dos pacientes com suas formas mais avançadas.

Os principais fatores de risco para todos os tumores de pele são:

  • Pele e olhos claros
  • Exposição prolongada ao sol ao longo da vida
  • Vários episódios de queimaduras solares grau I e II
  • Fatores genéticos (cerca de 10% dos casos)

Quando várias pessoas da mesma família já tiveram tumores de pele. Nessas pessoas os cuidados devem ser redobrados e a consulta ao dermatologista deve ser feita de rotina.

Para aqueles pacientes que necessitam de exposição ao sol para produção de vitamina D, a recomendação é a exposição de alguma parte do corpo (não precisa ser o corpo todo) por 10 a 15 min ao dia, evitando o horário de maior incidência dos raios solares ( 9h-16 h). Dessa forma garante-se os benéficos do sol, mas sem comprometer a saúde.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Dermatologia, as medidas de proteção para evitar câncer de pele são:

  • Usar chapéus, camisetas, óculos escuros e protetores solares.
  • Cubra as áreas expostas com roupas apropriadas, como uma camisa de manga comprida, calças e um chapéu de abas largas.
  • Evitar a exposição solar e permanecer na sombra entre 10 e 16 horas (horário de verão).
  • Na praia ou na piscina, usar barracas feitas de algodão ou lona, que absorvem 50% da radiação ultravioleta. As barracas de nylon formam uma barreira pouco confiável: 95% dos raios UV ultrapassam o material.
  • Usar filtros solares diariamente, e não somente em horários de lazer ou de diversão. Utilizar um produto que proteja contra radiação UVA e UVB e tenha um fator de proteção solar (FPS) 30, no mínimo.  Reaplicar o produto a cada duas horas ou menos, nas atividades de lazer ao ar livre. Ao utilizar o produto no dia a dia, aplicar uma boa quantidade pela manhã e reaplicar antes de sair para o almoço.
  • Observar regularmente a própria pele, à procura de pintas ou manchas suspeitas.
  • Manter bebês e crianças protegidos do sol. Filtros solares podem ser usados a partir dos seis meses.
  • Consultar um dermatologista uma vez ao ano, no mínimo, para um exame completo.

O que tivemos de novo no tratamento do câncer de mama no final de 2017?

O que tivemos de novo no tratamento do câncer de mama no final de 2017?

O melhor do San Antonio Breast Cancer Symposium

Há 40 anos especialistas do Mundo todo se reúnem no mês natalino, na cidade de San Antonio-Texas, a fim de apresentar novas perspectivas no tratamento do câncer de mama. Na última década foi lá mesmo que se apresentaram os mais importantes estudos que mudaram a vida de mulheres ao redor do mundo, e esse ano não foi diferente.

Médicos que tratam câncer de mama sabem que a dor e a rigidez nas articulações são os efeitos colaterais mais frequentes dos inibidores da aromatase, que é uma das classes de remédio mais usada no tratamento das pacientes que tem câncer de mama do subtipo luminal, isto é, que expressam receptores hormonais. As dores decorrentes do tratamento implicam em piora significativa na qualidade de vida e fazem com que frequentemente as pacientes abandonem o uso da medicação.

De acordo com os resultados de um grande estudo clínico randomizado, a acupuntura administrada duas vezes por semana durante 6 semanas melhora a dor e rigidez nas articulações entre as mulheres em tratamento com inibidores da aromatase.

Ainda com relação ao tratamento desse mesmo subtipo de câncer de mama, dito “hormonal” tivemos a apresentação de um importante estudo, em que 3484 mulheres pós-menopáusicas com câncer de mama estadio I-III foram distribuídas para receber 2 ou 5 anos de anastrazol, 1 mg/dia, sendo que todas as mulheres tinham sido tratadas com 4 a 6 anos de terapia endócrina com tamoxifeno, inibidor de aromatase ou a combinação dos dois.

O estudo mostrou que o câncer de mama desse subtipo possui um risco significativo de recaída a longo prazo, sendo que mais de 50% das recidivas ocorrem após os primeiros 5 anos de seguimento, e por conseguinte, tem sido uma tendência o prolongamento da duração da terapia hormonal adjuvante.

Os dados do estudo mostraram que o risco de recaída foi o mesmo para as mulheres que receberam 2 e 5 anos extra de tratamento, porém as pacientes que usaram apenas 7 anos de tratamento hormonal tiveram menos efeitos adversos na saúde óssea, potencialmente protegendo as mulheres contra as fraturas.

Esses dados fazem com que adotemos 7 anos de tratamento adjuvante para a maioria das pacientes, ao invés de 10 anos.

Entretanto, é importante observar que nesse estudo 70% das pacientes tinham doença inicial (tumores menores que 2 cm e sem linfonodos doentes), fazendo com que ainda tenhamos dúvidas quanto ao uso de tratamentos mais prolongados para mulheres com doença de maior risco.

Outro importante ponto abordado foi a gravidez após o tratamento do câncer de mama. O que pode ser particularmente desafiador devido ao desenvolvimento de uma possível infertilidade pelo uso de quimioterapia.

Sobre esse tema foi apresentada uma uma meta-análise de cinco estudos avaliando o uso de um análogo de GnRH em mulheres jovens submetidas à quimioterapia, estratégia que se mostrou eficaz em preservar a função ovariana e a fertilidade.

Após 2 anos de tratamento, as taxas de amenorréia foram reduzidas para metade entre as pacientes que utilizaram a medicação, e mais importante ainda, 10,3% do grupo GnRH conseguiram engravidar após o término do tratamento, em comparação com 5,5% daquelas que não receberam o tratamento.

Uma outra metanálise que merece ser destacada compilou os dados de 25 estudos, que avaliaram a intensificação da quimioterapia adjuvante, reduzindo o intervalo do esquema AC de 21 dias para 14 dias, o que chamamos de “dose dense”.

O estudo mostrou que após 10 anos, o risco de recorrência foi 4,4% menor a favor da intensificação da dose.

É importante ressaltar que as toxicidades não foram significativamente maiores no esquema “dose dense”, desde que sejam usados estimuladores do crescimento de células da imunidade. Com esses dados o esquema dose dense torna-se uma importante opção de tratamento.

Com relação ao tratamento das pacientes com doença metastática as notícias são cada dia mais animadoras. Alegro-me em perceber que assim como eu, existem pesquisadores no Mundo todo que demonstram seu inconformismo em ainda não termos a cura para o câncer de mama metastático.

Existe uma nova classe de medicação, que há alguns anos está se mostrando eficaz no tratamento do câncer de mama metastático do subtipo luminal, são os inibidores de CDK4 / 6.

No recém apresentado estudo, foi demonstrado que o ribociclib traz grandes benefícios clínicos também para as mulheres na pré-menopausa. A associação do ribociclib à terapia endócrina padrão melhora a sobrevida livre de progressão, reduzindo pela metade a chance de aumento da doença, traduzindo-se em 24 meses de uso de tratamento sem nenhuma progressão.

É Importante ressaltar que a qualidade de vida relatada pelas pacientes que usaram a medicação foi superior, pois a grande maioria obteve melhora dos sintomas de dor relacionada às metástases, já com 8 semanas do tratamento, sendo que a toxicidade da nova droga não é alta.

Ainda não temos essa droga no Brasil. 

Outra classe de fármacos que ganha cada vez mais espaço são os inibidores da PARP, e dessa vez foram apresentados os primeiros resultados do maior estudo clínico randomizado realizado no grupo de pacientes com câncer de mama hereditário (mutações no BRCA 1 e 2). No estudo, o talazoparib demonstrou benefício clínico superior em todos os subconjuntos de pacientes, independente do subtipo de receptor, número de linhas anteriores de quimioterapia, tipo de mutação BRCA ou presença de metástase no sistema nervoso central.

Em um seguimento médio de 11,2 meses, a sobrevida livre de progressão da doença foi 46% maior para as pacientes em uso da nova medicação em comparação com a quimioterapia padrão.Ainda não temos essa droga no Brasil.

O último estudo que gostaria de mencionar, ainda no cenário do tratamento do câncer de mama metastático, destina-se ao subtipo triplo negativo.

Na última década os avanços foram maiores para outros subtipos do câncer de mama (Her 2 positivo e luminal), fazendo com que a notícia de novas estratégias promissoras no tratamento do tumor triplo negativo seja muito desejada e aguardada.

Hoje sabemos que existem diferentes subtipos de tumores triplo negativos, incluindo uma vasta diversidade de caminhos moleculares e alterações genéticas. Assim sendo, desvendar as novas vias moleculares me parece crucial na melhora dos desfechos que tanto almejamos.

Com essa perspectiva, o desenvolvimento de uma abordagem conjugada de anticorpo monoclonal + quimioterapia é um passo na direção do tratamento do câncer triplo negativo. Usando esse racional, o sacituzumab-govitecan (anticorpo anti-TROP 2 associado ao metabólito ativo do irinotecano), mostrou taxa de resposta de 30% com benefício clínico de 46% em pacientes que já receberam diversas linhas de tratamentos prévios. A mediana de sobrevida global foi de 16 meses, lembrando que trata-se de um estudo que incluiu pacientes poli-tratadas para câncer metastático, esse é um número animador. Os dados são particularmente promissores, pois as respostas objetivas e a estabilização prolongada da doença não são frequentes em pacientes com câncer de mama metastático triplo negativo já refratário aos tratamentos anteriores.

Foram ótimas notícias no final de 2017 e desejamos um 2018 ainda mais promissor no tratamento do câncer de mama.