O Grupo SOnHe Equipe Médica Onde Atuamos Conteúdos Contato Eventos

Brasil sem cigarro: Manifesto do INCA reforça posição contra o comércio de cigarros eletrônicos

Recentemente, o cigarro eletrônico foi tema do Alerta Oncologia e de dois textos no blog do Grupo SOnHe (Dr. David e Dr. Vinícius) e isso não foi por acaso. As polêmicas em relação ao seu uso têm se tornado cada vez mais frequentes, em virtude do dilema entre redução do tabagismo como estratégia de promoção da saúde e aumento do uso dos e-cigarrettes. Agora, em agosto de 2019, o Instituto Nacional do Câncer (INCA) lançou um manifesto de apoio à resolução da ANVISA, de 2009, que proíbe a comercialização de cigarros eletrônicos no Brasil até hoje (RDC 46/2009).

Este manifesto foi motivado pelo novo relatório publicado em 26 de julho pela Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre o tabagismo no mundo. Nele, o Brasil foi destacado por apresentar um programa de controle de tabagismo do mais alto nível, desde a conscientização da população, passando pelos impostos sobre o produto e chegando até as proibições de uso do cigarro em locais públicos. Aliado a isto, os dados animadores do Ministério da Saúde mostram uma redução do número de fumantes no Brasil de 35% (1989) para menos de 15% em 2013, com novos dados de 2018 sugerindo que essa taxa baixou para 10%.

Essa situação vem contrastando com a expansão do uso dos cigarros eletrônicos pelo mundo, muitas vezes por influência da própria indústria, que usa um discurso de redução de danos, como se esses produtos fossem “light”. Entretanto, como extensamente explicado por nós, do Grupo SOnHe, e pelo próprio INCA, as evidências sobre os cigarros eletrônicos apontam que estes são, sim, um risco à saúde, além de aumentarem a iniciação de pessoas não fumantes no hábito do tabagismo, principalmente na população mais jovem. Dentre os danos, estão também o risco de câncer pelo vapor quente e das doenças cardiovasculares pela nicotina presente nos e-cigarrettes.

Vale citar uma frase do manifesto do INCA: “os interesses da saúde pública são contrários aos da indústria do tabaco, sendo, portanto, incompatíveis nos objetivos pretendidos”. E isso embasa e reforça o apoio irrestrito do INCA à manutenção da proibição dos cigarros eletrônicos no Brasil, visando sempre a promoção da saúde e o objetivo de tornar o Brasil um país livre do tabaco.

O grupo SOnHe, preocupado com a saúde da população e em busca da redução dos hábitos que aumentem o risco de câncer, apoia o manifesto e alerta à comunidade de que o que conquistamos no combate ao tabagismo não pode ser perdido.

Referências:

https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files//media/document//apoio_a_manutencao_da_rdc_46_2009_inca.pdf

http://portal.anvisa.gov.br/documents/10181/2718376/RDC_46_2009_COMP.pdf/2148a322-03ad-42c3-b5ba-718243bd1919

https://www.who.int/tobacco/global_report/en/

https://www.inca.gov.br/noticias/inca-lanca-manifesto-por-brasil-livre-do-tabaco

Nova indicação de tratamento em câncer de mama Her2 positivo: agora no Brasil

Há três meses, a agência de regulação de medicamentos dos Estados Unidos, o FDA (Food and Drug Administration) – que corresponde à ANVISA brasileira – aprovava uma nova indicação do medicamento Kadcyla® (Trastuzumabe-Entansina, conhecida como TDM-1): tratamento adjuvante de mulheres com câncer de mama localizado. Agora, neste mês de agosto, tal indicação foi aprovada no Brasil.

A aprovação de baseou nos dados recentemente apresentados do estudo KATHERINE, recém-publicado, que selecionou mulheres com tumor de mama do tipo Her2 positivo, que tivessem recebido quimioterapia pré-cirurgia baseada em duas drogas específicas (Taxanos e Trastuzumabe) e, na avaliação da peça cirúrgica, apresentassem tumor residual. As pacientes selecionadas eram aleatorizadas a receberem o TDM-1 ou o padrão de tratamento atual (Trastuzumabe) por 14 ciclos, de 21 dias. Os resultados mostraram um aumento de 50% da sobrevida livre de recorrência de doença invasiva, ou seja, aumentou o tempo que as pacientes demoravam para apresentar recidiva da doença ou morrer. Os efeitos adversos mais comuns foram fadiga, alterações hematológicas, náuseas e neuropatia.

Essa aprovação foi um exemplo de melhora da agilidade no processo pela ANVISA, que muitas vezes tarda mais tempo para liberar tratamentos já em uso em outros países. Sabemos da importância das novas pesquisas e suas implicações e esperamos sempre que o processo de aprovação do nosso país seja justo e eficiente, a fim de que as pacientes brasileiras possam ter acesso a novos tratamentos o mais rápido possível.

Referências:

Von Mickwitz G, et al. Trastuzumab Emtansine for Residual Invasive HER2-Positive Breast Cancer. N ENgl J Med 2019;380:617-28.

Aprovação ANVISA: http://portal.anvisa.gov.br/informacoes-tecnicas13?p_p_id=101_INSTANCE_WvKKx2fhdjM2&p_p_col_id=column-2&p_p_col_pos=1&p_p_col_count=2&_101_INSTANCE_WvKKx2fhdjM2_groupId=219201&_101_INSTANCE_WvKKx2fhdjM2_urlTitle=kadcyla-trastuzumabe-entansina-nova-indicacao&_101_INSTANCE_WvKKx2fhdjM2_struts_action=%2Fasset_publisher%2Fview_content&_101_INSTANCE_WvKKx2fhdjM2_assetEntryId=5555879&_101_INSTANCE_WvKKx2fhdjM2_type=content

Bula FDA: https://www.accessdata.fda.gov/drugsatfda_docs/label/2019/125427s105lbl.pdf

Assista Vida Pulsante: notícias reais de pessoas que enfrentam o câncer

Receber um diagnóstico de câncer requer esforços de enfrentamento da situação. E cada pessoa encara esse difícil momento da vida de uma forma diferente.

Dia 4 de agosto é o Dia da Campanha Educativa de Enfrentamento do Câncer.

No vídeo Vida Pulsante, que teve a direção científica da Dra. Fernanda Proa, Oncologista do Grupo SOnHe, conhecemos histórias de desafios, confrontos e coragem.

Você tem uma história para dividir com a gente?
Queremos conhecer o seu relato para que possamos compartilhar entre pacientes que precisam de incentivos e otimismo.

Aguardamos você!

Envie para sonhe@sonhe.med.br

Agradecemos todos os envolvidos no vídeo por tanto doação e amor dedicados, em especial ao Matheus.

 

 

SUS incorpora novo tratamento contra o câncer de próstata

O câncer de próstata é o mais frequente entre os homens em todas as regiões do país se não considerarmos os tumores de pele não-melanoma, ou seja, os tumores de pele que são potencialmente curáveis apenas com cirurgia. Estimativas do Instituto Nacional do Câncer (INCA) apontam para uma incidência de 68.220 casos novos de câncer de próstata para este ano. Em 2017, foram confirmadas quase 16.000 mortes por este câncer, mas este número pode ser bem maior, uma vez que muitos casos no Brasil são sub-notificados ou simplesmente notificados como outra causa de morte.

Na sua fase inicial, o tumor maligno da próstata geralmente é tratado com cirurgia ou radioterapia que pode ou não ser associada ao tratamento hormonal a depender do caso. Quando está localmente avançado, mas ainda sem evidência de metástases a distância, o tratamento preferencial é a combinação de radioterapia com terapia de bloqueio hormonal. Já quando está disseminado para outros órgãos, em especial os ossos, o tratamento de escolha é o bloqueio hormonal que consiste em diminuir as concentrações no sangue do hormônio masculino, a testosterona. Este tratamento, conhecido como castração, pode ser feito com cirurgia nos testículos ou por meio de aplicações de injeções que inibem a produção do hormônio.  Para muitos pacientes, apenas o tratamento de bloqueio hormonal consegue manter a doença controlada por muito tempo. Quando este tratamento falha, ou seja, o tumor torna-se resistente à castração e a doença progride, as principais opções terapêuticas incluem quimioterapia convencional e a utilização de classes de bloqueadores hormonais mais modernos e que conseguem controlar melhor o avanço da doença como, por exemplo, a Abiraterona e a Enzalutamida. São medicações orais e que possuem um alto custo mensal e por isso não são liberadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Hoje, no cenário público, quando um paciente com doença avançada se torna resistente à deprivação hormonal, as opções de tratamento são a quimioterapia e o uso de classes hormonais mais antigas, com efeitos colaterais importantes e com alcance limitado de controle do tumor. São drogas já em desuso frente às novas opções que temos atualmente. Como exemplo desses bloqueadores hormonais mais antigos podemos citar a Flutamida, Bicalutamida, Ciproterona e Dietilestilbestrol (DES), ou seja, as opções terapêuticas são bastante limitadas para aproximadamente 72% da população brasileira que não tem plano de saúde e depende exclusivamente do SUS para se tratar.

No dia 25 de julho de 2019, foi publicada no Diário Oficial da União a Portaria nº 38, que incorporou a Abiraterona para o tratamento do câncer de próstata metastático resistente à castração nos pacientes que já fizeram uso prévio de quimioterapia. Sem dúvida nenhuma é uma grande vitória para os pacientes do SUS que terão mais uma linha de tratamento e acesso a uma medicação de alto custo que já se mostrou eficaz em estudos científicos robustos neste cenário da doença. Tal incorporação é um pleito antigo de órgãos e entidades que lutam contra o câncer como a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) que já há algum tempo se mostrou favorável não apenas a incorporação dessa droga, mas de muitas outras para o câncer de próstata e para diversos outros tumores.

A dispensação do novo tratamento não será de forma imediata, uma vez que a Portaria tem até 180 dias para começar a vigorar. Não ficou esclarecido ainda se o Ministério da Saúde irá centralizar a compra da medicação e liberar para os serviços credenciados ao SUS mediante cadastro dos pacientes que receberão o remédio, como já acontece hoje com outras medicações de alto custo, ou se cada prestador de serviço ao SUS irá comprar a medicação e o poder público fará o ressarcimento depois.  De uma forma ou de outra, o que se espera é que em no máximo seis meses, todos os pacientes que dependem do setor público e que tenham indicação para uso da nova droga possam recebê-la e se beneficiar de mais essa opção terapêutica até então disponível apenas para usuários de planos de saúde.

Novidades ASCO 2019: câncer de pulmão e melanoma

Nas últimas semanas, aconteceu em Chicago, nos EUA, o maior congresso de Oncologia do mundo, reunindo quase 40 mil profissionais dedicados ao tratamento do câncer. Nesse evento, que ocorre anualmente, são mostrados os resultados dos estudos mais recentes e das drogas mais inovadoras para o tratamento oncológico.  E o tratamento do câncer de pulmão e dos tumores de pele, como não poderia deixar de ser, foram tópicos em destaque com vários trabalhos apresentados que mostraram resultados promissores. As drogas mais comentadas, novamente foram as terapias-alvo e as imunoterapias, como aconteceu em outros congressos recentes.

Começando pelas novidades em câncer de pulmão, o primeiro trabalho importante foi o “RELAY”, que comparou paciente com adenocarcinoma de pulmão metastático com mutação do EGFR, Erlotinibe isolado ou associado à um anti-angiogênico chamado Ramucirumabe, em primeira linha. Os resultados mostram um aumento de sobrevida livre de progressão em favor da combinação, passando de 12,4 meses para 19,4 meses, mas os dados de sobrevida global ainda são imaturos, com um perfil de toxicidade manejável.

Nesse mesmo cenário, pacientes com mutação do EGFR, em outro estudo, foi comparado Gefitinibe isolado com a associação de Gefitinibe+quimioterapia (Carboplatina+Pemetrexede), mostrando aumento de sobrevida global (17 meses versus mediana não atingida com a combinação). As toxicidades foram maiores no braço da combinação, principalmente náuseas, vômitos, nefrotoxicidade e hipocalemia.

Dois outros estudos mostrados vieram confirmar que o tratamento de manutenção após primeira linha com quimioterapia nos adenocarcinomas de pulmão metastáticos deve ser feito com apenas uma droga, que pode ser o Bevacizumabe ou Pemetrexede, não havendo grande benefício na associação dos dois, por aumentar ligeiramente a sobrevida livre de progressão, mas com maiores toxicidades.

Outros estudos em destaque, embora ainda iniciais, mostraram dados preliminares interessantes em pacientes com adenocarcinoma de pulmão metastático com rearranjos e fusões do MET, com as medicações Tepotinib e Capmatinib e pacientes com fusões do RET com a droga BLU-667. Tivemos ainda a atualização de alguns estudos, como um pôster que mostrou os dados de sobrevida global, sobrevida livre de progressão 2 do estudo Keynote-189 com Pembrolizumabe + quimioterapia em primeira linha de adenocarcinoma de pulmão metastático sem mutações drivers, mostrando manutenção do benefício em sobrevida global após dois anos, além de mostrar que esse benefício é maior quando usamos imunoterapia em primeira linha, visto a maior sobrevida livre de progressão 2.

Por fim, com relação aos dados de câncer de pulmão apresentados, um estudo chamou a atenção ao mostrar a associação da alteração gênica STK11/LKB1 com baixa resposta a Pembrolizumabe em associação com quimioterapia em adenocarcinomas de pulmão metastático. Para aqueles pacientes com essa mutação, o Pembrolizumabe não aumentou a sobrevida global, nem a sobrevida livre de progressão. Talvez esse seja um importante marcador de resposta à imunoterapia, que possa ser usado no futuro para determinar aquelas pacientes melhores candidatos a receber inibidores de PD-1.

Com relação ao melanoma, um interessante estudo mostrou ação da combinação Nivolumabe+Ipilimumabe em pacientes com metastáses cerebrais, m taxas de resposta da ordem de 57% e sobrevida livre de progressão mediana e sobrevida global mediana não atingidas. Além disso, tivemos as atualizações dos estudos ComBi-V e ComBi-D, com uso de Dabrafenibe + Trametinibe em melanoma metastático com mutação do BRAF. Com atualização de 5 anos, mostrou sobrevida livre de progressão de 20% em 5 anos, chegando a 30% nos pacientes do DHL normal e menos de três sítios de metástases. A sobrevida global em 5 anos foi de 30%. Entre aqueles que atingiram resposta completa, 70% estão vivos em 5 anos.

Outro estudo, mais inicial, com a combinação de Dabrafenibe + Trametinibe + Spartalizumabe mostrou taxas de resposta perto de 80% nos melanomas com mutação de BRAF, com quase 40% de taxas de resposta completa. Outro estudo tentou mostrar um possível benefício para radioterapia de crânio total após radiocirurgia em até três lesões cerebrais metastática de melanoma. Não houve ganho adicional na radiação de todo crânio.

Chega ao fim mais um congresso internacional, sem grandes mudanças, dessa vez, na nossa prática clínica diária, com relação aos tumores de pulmão e melanoma; porém, com resultados promissores em novos medicamentos e novos alvos moleculares que certamente mudarão nossas práticas em breve, o que estimula novos estudos e novas pesquisas sempre no intuito de melhorar ainda mais os ganhos para nossos pacientes.

ESMO-GI: um resumo

Na última semana, ocorreu em Barcelona, na Espanha, o XXI Congresso Mundial de Câncer Gastrointestinal (WCGIC), da Organização Europeia de Oncologia Médica (ESMO), que reuniu grandes nomes da Oncologia mundial. Este evento se mostra cada vez mais importante, tendo em vista a relevância dos tumores gastrointestinais no mundo e as constantes evoluções na área. A comunidade europeia é conhecida por ter um caráter mais cauteloso nas suas indicações, sendo mais atenta aos impactos financeiros dos tratamentos. Neste ano, o foco foi o surgimento de novas abordagens terapêuticas, sejam elas cirúrgicas ou medicamentosas, e a crescente importância da imunoterapia e da terapia-alvo, sem esquecer da sustentabilidade financeira da Oncologia.

A primeira aula do Congresso merece destaque: o papel da microbiota no câncer gastrointestinal. O estudo da composição de bactérias que naturalmente povoam nosso corpo e intestino tem ganhado cada vez mais força e os dados mostram que existe uma relação entre a microbiota e desfechos oncológicos, como resposta ao tratamento, sobrevida, efeitos adversos e até mesmo o desenvolvimento do câncer. Entretanto, os pesquisadores ainda não estabeleceram uma utilidade prática para isso e, portanto, o desenvolvimento de novas pesquisas merece apoio e deverá trazer novidades em pouco tempo.

Alguns palestrantes abordaram questões relacionadas à idade e ao sexo dos pacientes. Há uma tendência a um aumento de incidência em pacientes mais jovens (menores que 50 anos) e um dos fatores contribuintes é a obesidade, o que enseja ainda mais a necessidade do combate a esse problema. Quanto ao sexo, mostrou-se que ser homem ou mulher faz alguma diferença, principalmente na questão de dosagem dos tratamentos e no tempo para diagnóstico dos tumores, porém estudos são necessários para individualizar melhor os mesmos.

Em relação à parte cirúrgica e de radioterapia, houve bastante discussão em relação à melhor abordagem do câncer de pâncreas localmente avançado, no que se refere ao uso da quimioterapia antes ou depois da cirurgia. Houve uma tendência de se pensar que antes seja mais adequado em grande parte das vezes, a fim de promover uma seleção dos pacientes que tenham maior benefício de uma cirurgia tão mórbida.

Em relação ao câncer de reto, uma discussão antiga continua em voga: a possibilidade de evitar a cirurgia em pacientes que realizam radioterapia com quimioterapia e atingem uma resposta completa. Nessa linha, alguns estudos têm abordado o uso de toda a quimioterapia antes do tratamento cirúrgico, elevando o número de pacientes com tal resposta. O ceticismo parece ser menor em relação a esta abordagem, porém ainda é uma opção não-padrão e ainda terá muitos debates pela frente.

Ademais, muito se falou sobre biologia molecular e como utilizar dados de perfis genéticos na prática. Dois exames de análise genética (Oncotype Dx e Immunoscore), padrões de classificação dos pacientes com câncer de cólon foram abordados em estudos (SUNRISE-DI e O-023), que tentaram predizer o prognóstico e o benefício de quimioterapia adjuvante. Apesar do valor preditivo ainda não estar estabelecido, o prognóstico parece ser estratificado com tais testes, que podem ter seu efeito prático em futuros estudos.

Em uma sessão central, dois grandes palestrantes abordaram o uso de anticoagulantes de nova geração em pacientes com câncer, sugerindo que ainda não é o momento de utilizamos de forma generalizada, e também uma aula sobre como lidar com efeitos adversos da imunoterapia, um assunto que não era visto até há pouco tempo neste Congresso, devido ao crescimento muito recente desse tipo de terapia nos cânceres gastrointestinais.

Quanto ao uso de quimioterapia já antiga, alguns estudos em câncer de cólon testaram diferentes formas de utilização de drogas já conhecidas. Apesar de resultados negativos, um dos trabalhos (TRIBE2) abordou uma combinação de três drogas (FOLFOXIRI) ao invés de duas (FOLFOX à FOLFIRI) na primeira linha. Os resultados mostraram benefícios em taxa de resposta e sobrevida global, principalmente em pacientes com algumas características específicas, como mutação BRAF, bom estado geral e tumor de cólon direito. Entretanto, é um regime muito tóxico e difícil de ser adotado na prática para todos, sendo reservado para pacientes selecionados.

Em relação à imunoterapia, houve diversos estudos iniciais e outros poucos mais maduros. Entre estes últimos, um que foi bastante comentado foi sobre o uso da medicação Pembrolizumabe para câncer de esôfago após primeira linha de tratamento (KEYNOTE-181). Estes pacientes têm poucas e pouco eficazes opções e o uso do Pembrolizumabe reduziu em até 22% o risco de morte dos pacientes, com melhora da qualidade de vida e toxicidades, principalmente naqueles com tumor do tipo escamoso e com PDL-1, um marcador tumoral, maior ou igual a 10%. Em contrapartida, esta mesma droga foi testada em câncer gástrico (KEYNOTE-062) e de fígado (KEYNOTE-240) e não mostrou benefício em sobrevida global de forma definitiva. Vale ressaltar que houve bastante discussão em função não só da análise estatística utilizada, mas também pelo fato que a agência regulatória dos EUA já havia aprovado de forma precoce o tratamento para o câncer de fígado. O que se concluiu é que a melhor seleção dos pacientes pode levar a um uso mais eficaz da droga.

A discussão sobre custos na prática foi bem interessante, porém talvez pudesse ocupar mais sessões do congresso futuramente, já que é um tema tão importante nos dias atuais. Em sessões paralelas, falou-se também sobre pesquisa clínica e carreira do oncologista, biologia molecular em outros tipos de tumor, além de tumores neuroendócrinos e bases científicas para futuros usos da imunoterapia.

Depois de todos esses dados, entretanto, o estudo mais comentado foi o BEACON CRC. Este trabalho, liderado pelo presidente da ESMO, Josep Tabernero, e por Scot Kopetz, do MD Anderson Cancer Center de Houston, no Texas, avaliou o uso de uma combinação de 3 terapias-alvo (Encorafenibe + Binimetinibe + Cetuximabe) contra o padrão de tratamento em pacientes em segunda ou terceira linhas de câncer de cólon com BRAF mutado. Essa mistura foi pensada baseando-se na biologia molecular dos tumores e os resultados mostraram um aumento de sobrevida global mediana de 5,4 para 9,0 meses, com redução de 48% do risco de morte, algo que há muito não se via em cólon. Não só isso, a taxa de resposta foi maior 26 x 2% e as toxicidades não aumentaram. Os dados tiveram significância estatística e o que se comentou é que se tornará um novo padrão de tratamento para estes pacientes. Vale notar que houve alguma discussão sobre as medicações utilizadas nos pacientes do grupo controle. Esta apresentação mostra que o congresso tem se mostrado cada vez mais atraente e rico em discussões científicas.

Em conclusão, o evento foi um sucesso e trouxe à tona muitas discussões bastante interessantes para os médicos, mas, principalmente, para os pacientes. Esperamos que as pesquisas continuem avançando em direção à busca de tratamentos mais eficazes e menos tóxicos, oferecendo sobrevida com qualidade de vida. Não só isso, que o futuro também mostre o melhor caminho quanto à sustentabilidade financeira dos sistemas de saúde, que tem tido de se reinventar com o advento de tantas novas terapias.

Alerta sobre a relação entre vitamina C e câncer

Nos últimos dias, algumas reportagens têm sugerido uma possível ligação entre a vitamina C e o estímulo ao crescimento do câncer. Isso está ocorrendo em função de um estudo publicado recentemente na revista Free Radical Biology and Medicine e, pelo modo que a imprensa noticia, poderia haver um alarde desnecessário.

Sempre devemos ter muito cuidado para não tomarmos atitudes sem justificativa científica contundente. Primeiramente, o estudo em questão foi in vitro, ou seja, realizou testes em laboratório, não em seres humanos ou animais. Os pesquisadores avaliaram o comportamento e as concentrações de vitamina C (e derivados da mesma) em células de câncer de mama desenvolvidas em meios de cultura artificiais e controlados. Os resultados mostraram que as estas células apresentavam maior expressão de um receptor (SVCT2), o qual é responsável por utilizar a vitamina C para produção de energia e proliferação. Além disso, os achados sugerem que estas células do câncer de mama são –  ao contrário daquelas normais – capazes de captar a vitamina C em uma forma diferente no sangue. Tais características podem, segundo os autores, promover uma vantagem para célula cancerígena: uma maior taxa de crescimento celular.

Entretanto, as evidências anteriores a este estudo mostram o oposto, que a vitamina C é um antioxidante potente e talvez possa ser um aliado no combate ao câncer. Infelizmente, os trabalhos anteriores tampouco apresentam conclusões definitivas. Mesmo assim, há médicos que, irresponsavelmente, indicam o uso de altas doses de vitamina C antes da quimioterapia. Essa prática também não tem suporte científico e é temerária, já que mais estudos são necessários para tal.

Uma das principais críticas ao trabalho em discussão é que o comportamento de substâncias e células fora do corpo muitas vezes é diferente do que realmente ocorre num organismo vivo, o qual tem muitos outros fatores que tornam a análise infinitamente mais complexa.

É muito interessante ressaltar que os autores, responsavelmente, concluem em seu artigo que esse achado sugere uma possibilidade da relação da vitamina C com o câncer, e não que seria uma panaceia ou uma grande revolução. Tal afirmação contrasta com as notícias divulgadas pela imprensa, que passam a impressão de que o estudo conclui algo muito mais definitivo e revolucionário.

Seja por má interpretação, por sensacionalismo ou por incapacidade dos autores em transmitir a informação corretamente, fato é que o alarde é completamente desnecessário e o mais importante é que não há qualquer evidência que suporte a redução (nem o aumento excessivo) do consumo de vitamina C por seres humanos. O que temos a fazer é aguardar por novas pesquisas que possam esclarecer o assunto, enquanto seguimos orientações dos nossos médicos e nutricionistas, mantendo a ingestão recomendada de vitaminas – inclusive a C – sem decisões precipitadas.

Referências:

Peña E, et al. Increased expression of mitochondrial sodium-coupled ascorbic acid transporter-2 (mitSVCT2) as a central feature in breast cancer. Free Radical Biol Med 2019;135:283-92.

Gillberg L, et al. Vitamin C – A new player in regulation of the cancer epigenome. Semin Cancer Biol 2018;51:59-67.

Terapia-alvo inovadora aprovada no Brasil

A Anvisa aprovou na última semana o medicamento Larotrectinibe (Vitravki®) para utilização no Brasil. Esta não é uma novidade qualquer, pois trata-se da primeira terapia-alvo liberada em solo brasileiro que tem indicação independente do tipo de tumor. No caso, esta droga atua em uma proteína que está alterada em diferentes tipos de câncer, o que tem se tornado uma tendência da Oncologia nos últimos anos e trazido benefícios a cada vez mais pacientes.

O Larotrectinibe é um inibidor de uma proteína mutada (de fusão) chamado receptor TRK (Tropomyosin receptor kinase), presente na membrana celular de algumas neoplasias malignas (1% do total, aproximadamente). Esse receptor na sua forma normal NTRK (Neurotrophic receptor tyrosine kinase) está presente em células do sistema nervoso (neurônios), nas quais sua ação é a de promover o crescimento e sobrevivência celular de forma controlada. Entretanto, por uma alteração genética (fusão de partes de 2 genes) que surge durante alguma divisão celular, os tumores malignos podem apresentar a forma mutada deste gene, o qual leva à produção da proteína TRK alterada. Esta, por sua vez, tem um comportamento diferente do habitual e promove a divisão celular de forma contínua e descontrolada, desenvolvendo o câncer.

A aprovação do Larotrectinibe se baseou em um estudo publicado em 2018 no New England Journal of Medicine, uma das mais conceituadas revistas científicas médicas do mundo. Os pesquisadores avaliaram a ação da medicação em questão em 55 pacientes (adultos e crianças) com diversos tipos de tumores, que apresentavam a mutação do gene TRK e que tivessem falhado aos tratamentos-padrão para a sua doença. Os resultados mostraram altíssimas chance de diminuição do câncer (75%) e duração de resposta (71% com resposta mantida após 12 meses), associadas a uma taxa de efeitos colaterais graves muito baixa (7%).

Interessante destacar que esse foi um estudo pequeno, de fase precoce e que não comparou pacientes com ou sem a medicação, porém, como o efeito é muito claro e racional, tornou-se suficiente para a aprovação no mundo (nos EUA e na Europa, foi aprovado em novembro do ano passado).

Vale lembrar que a liberação pela ANVISA não supõe a obrigatoriedade de disponibilização pelos planos de saúde, já que tal deliberação depende de outras diretrizes legais (inclusão no rol da ANS).

O Larotrectinibe é um exemplo da personalização da Oncologia que tem ocorrido e que deve crescer rapidamente nos próximos anos. O objetivo é dar o tratamento certo para o paciente certo, promovendo sobrevida e qualidade de vida, pois o foco é sempre o paciente.

Referências:

http://www.in.gov.br/web/dou/-/resolucao-re-n-1.739-de-27-de-junho-de-2019-180788963?inheritRedirect=true&redirect=%2Fsearch%3FqSearch%3Dlarotrectinibe

Drilon A, et al. Efficacy of Larotrectinib in TRK Fusion–Positive Cancers in Adults and Children. N Engl J Med 2018;378:731-9

Cigarro eletrônico: menos problemas ou mais dúvidas?

A moda recente dos cigarros eletrônicos (e-cigarrettes) tem gerado discussões entre cientistas. Apesar da contribuição para a redução do número de fumantes de cigarros normais no mundo, há ainda muitas dúvidas quanto aos riscos e benefícios do aumento de usuários dos eletrônicos (aproximadamente 5% da população dos EUA faz uso).

Os e-cigarrettes são basicamente aparelhos vaporizadores de nicotina que utilizam substâncias associadas (água, solventes e aromatizantes) para produzir tal efeito. Ou seja, os efeitos extremamente danosos da nicotina – incluindo as doenças cardiovasculares e a dependência – continuam como riscos enormes à saúde. Ao mesmo tempo, uma questão-chave é que não há dados sobre as consequências à longo prazo, visto que a inalação de vapor quente associado às substâncias citadas são potencialmente causadores de doenças pulmonares e do trato respiratório, incluindo câncer de pulmão e de cabeça e pescoço.

Os defensores dos e-cigarrettes fiam-se no fato do número absoluto de substâncias carcinogênicas ser menor do que o cigarro normal. Além disso, os e-cigarrettes podem ajudar alguns tabagistas a pararem de fumar, porém a evidência ainda não é contundente. Entretanto, isso não justifica o uso indiscriminado, muito menos o seu estímulo, já que a ciência não demonstrou segurança à longo prazo.

A recomendação ideal continuará sendo sempre evitar uso de cigarros (eletrônicos ou não), visto que o impacto conhecido de ambos na saúde individual e populacional é gigantesco em função não só do câncer, mas também das doenças cardiovasculares, que ainda são a maior causa de morte em várias partes do mundo.

 

Referências:

Glasser AM, et al. Overview of Electronic Nicotine Delivery Systems: A Systematic Review. Am J Prev Med 2017;52(2):e33-e66

Martinez U, et al. How Does Smoking and Nicotine Dependence Change after Onset of Vaping? A Retrospective Analysis of Dual Users. Nicotine Tob Res 2019;pii:ntz043

Alerta Oncologia: fake news sobre menstruação e câncer

É “fake”, ou seja, são mentirosas as afirmações que vêm circulando em posts nas redes sociais. Segundo a publicação, bater no abdome com objetos duros, comer pepino, usar xampu na cabeça e beber água gelada, de coco ou com gás, enquanto a mulher está menstruada, causaria esterilidade, câncer de útero e “químicos”.

As informações são completamente falsas e sem qualquer embasamento científico. A esterilidade tem causas variadas, dentre as quais não se encontram nenhuma dessas situações listadas. Quanto ao câncer de útero, a sua ocorrência tem associação mais clara com fatores como obesidade (endométrio) e vírus HPV (colo do útero).

Devemos ficar atentos às notícias falsas, sensacionalistas e irresponsáveis e sempre duvidar de publicações cujas fontes não sejam citadas ou confiáveis. O ideal é procurar orientação médica com seu clínico ou ginecologista para obter informações cientificamente corretas.

Referências:

Onstad MA, et al. Addressing the Role of Obesity in Endometrial Cancer Risk, Prevention, and Treatment. J Clin Oncol 2016;34(35):4225-30.

Jose-Miller AB, et al. (2007). Infertility. Am Fam Physician 2007;75:849–56.

Ferlay J, et al (2018). Global Cancer Observatory: Cancer Today. Lyon, France: International Agency for Research on Cancer. Available from: https://gco.iarc.fr/today