No início deste mês, a Anvisa autorizou a venda de medicamentos feitos a partir da Cannabis, mais conhecida como maconha. Esse é um marco na discussão sobre o uso da planta para fins medicinais, pois melhora o acesso dos pacientes. Desde 2016, houve um aumento de cinco vezes no número de pacientes que têm permissão para importar canabidiol, um dos derivados da planta.
O Mevatyl®, único medicamento derivado da maconha autorizado para uso atualmente no Brasil, tinha aprovação desde 2017, porém não era vendido em farmácias regulares. Antes da decisão da Anvisa, o paciente deveria importá-lo, o que torna o preço alto, próximo de R$ 2 mil por mês. A indicação da substância é para controle da espasticidade em pacientes com esclerose múltipla, um sintoma bastante incômodo e que, muitas vezes, não é controlado com outras medicações.
Além da comercialização regular, a medida da Anvisa dispõe sobre regulamentação da fabricação, melhorando a qualidade do produto final, e também estabelece regras para várias características, como as embalagens, que devem conter avisos sobre o risco de dependência. A venda deste tipo de medicações deverá ser feita sob prescrição médica, uso de receita especial (a depender da substância) e com retenção da receita, sendo que algumas concentrações de Tetraidrocanabinol podem ser prescritas apenas para pacientes terminais.
Na contramão, porém, não foi permitido o cultivo da planta no país, nem mesmo por empresas. Por ora, os insumos para produção dessas substâncias deverão ser importados. Tal medida vem de encontro ao crescimento exponencial das autorizações judiciais para cultivo, que visam garantir o acesso com custo menor aos pacientes.
Essa decisão é importante, pois as substâncias derivadas da maconha têm ganhado função crescente na medicina, tendo indicações estabelecidas em tratamento não só da esclerose múltipla, mas também de epilepsia de difícil controle. Na Espanha, por exemplo, os compostos derivados da maconha são utilizados há mais de dez anos.
Na área da Oncologia, como falamos em publicação anterior (https://sonhe.med.br//?s=maconha), os efeitos em controle de dor, náuseas e vômitos são promissores e podem ajudar muitos pacientes. Entretanto, os estudos ainda são iniciais e devemos nos lembrar dos efeitos adversos do uso da droga e que não se sabem quais podem ser as consequências do seu uso corriqueiro à longo prazo.
A regulamentação da Anvisa entra em vigor em 90 dias, a partir de 3 de dezembro de 2019.
Referências:
Novotna A, et al; Mevatyl Spasticity Study Group. A randomized, double-blind, placebo-controlled, parallel-group, enriched-design study of nabiximols* (Mevatyl (®) ), as add-on therapy, in subjects with refractory spasticity caused by multiple sclerosis. Eur J Neurol. 2011 Sep;18(9):1122-31. doi: 10.1111/j.1468-1331.2010.03328.x. Epub 2011 Mar 1.
Wade DT, Makela P, Robson P, House H, Bateman C. Do cannabis-based medicinal extracts have general or specific effects on symptoms in multiple sclerosis? A double-blind, randomized, placebo-controlled study on 160 patients. Mult Scler. 2004 Aug;10(4):434-41.
Combinação para câncer de fígado: transformação na primeira linha, 11 anos depois
Faz aproximadamente 11 anos que uma medicação, no caso o Sorafenibe, demonstrou benefício significativo em sobrevida global na primeira linha de tratamento de pacientes com carcinoma hepatocelular, o tipo de câncer de fígado mais comum. E, agora, uma combinação de drogas vem para – possivelmente – mudar esse cenário.
No dia 22 de novembro, durante a versão asiática do Congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Clínica (ESMO-ASIA), sediado em Singapura, os dados do estudo IMBrave150 foram apresentados à comunidade científica. O estudo comparou o uso da dupla Atezolizumabe e Bevacizumabe – uma imunoterapia e um antiangiogênico, respectivamente – com o padrão de tratamento desde a década passada, o Sorafenibe.
Os resultados revelaram um benefício em sobrevida global com redução de 42% no risco de morte de forma estatisticamente significativa, sendo que a mediana do grupo Sorafenibe foi de 13,2 meses, compatível com a prática rotineira, enquanto que a mediana ainda não foi atingida no grupo intervenção. Além disso, houve melhora também da sobrevida livre de progressão, mais que o dobro de taxa de resposta e, inclusive, um aumento no tempo para piora da qualidade de vida. Por outro lado, deve-se ter em conta que os efeitos adversos são ainda importantes, com algumas variações em relação ao Sorafenibe, com um pouco menos efeitos gerais, mas não estatisticamente significativo e definitivamente com um padrão diferente, em função da associação da imunoterapia.
Deve-se lembrar que, ao longo da última década, apesar de medicações mostrando benefícios em segunda linha após Sorafenibe, diversos tratamentos não se mostraram superiores ao Sorafenibe como tratamento inicial, sendo que apenas um deles, o Lenvatinibe, provou-se não-inferior, mas não levou a uma mudança da conduta no geral.
Um ponto interessante da combinação que se apresenta agora é o uso de dois mecanismos de ação, incluindo um, já estabelecido (angiogênese, que basicamente reduz a nutrição sanguínea do tumor) e outro, inovador (imunoterapia, que estimula o próprio sistema imune do paciente a combater o tumor).
É uma notícia importantíssima na área da Oncologia e deve mexer no cenário de tratamento do câncer de fígado. Entretanto, a combinação ainda não está aprovada em nenhum país e deverá ser avaliada pelos órgãos regulatórios, tanto dos EUA, Europa como também pela Anvisa, no Brasil. A partir da provável aprovação, os pacientes com esse tumor de prognóstico restrito poderão se beneficiar dessa nova terapia.
Vale ressaltar também que, como comentado recentemente em post sobre a minha tese de mestrado, os pacientes do SUS no Brasil não tem acesso a qualquer tratamento com benefício comprovado para o câncer de fígado, nem mesmo o Sorafenibe. Desse modo, a disponibilidade desta nova estratégia possivelmente ainda não se estenderá a todos os brasileiros e nós, do grupo SOnHe, continuaremos tentando mudar isso.
Referências:
Hsu C, et al. Randomised efficacy and safety results for atezolizumab (Atezo) + bevacizumab (Bev) in patients (pts) with previously untreated, unresectable hepatocellular carcinoma. Ann Oncol. 2019;30(suppl_9):ix183-ix202.
LLovet JM et al. Sorafenib in Advanced Hepatocellular Carcinoma. N Engl J Med. 2008;359:378-90
Kudo M, et al. Lenvatinib versus sorafenib in first-line treatment of patients with unresectable hepatocellular carcinoma: a randomised phase 3 non-inferiority trial. Lancet. 2018;391:1163-73.
Carmo RL, Sasse AD. P-239 Sorafenib for advanced hepatocellular carcinoma (HCC) in the public health setting in Brazil: a cost-effectiveness analysis. Ann Oncol. 2019;30(suppl_4):mdz155.238
Sobre o câncer de pele de Vanderlei Luxemburgo e o Dezembro Laranja
Desde a última semana circula uma notícia sobre o diagnóstico de um câncer de pele do técnico do Vasco, Vanderlei Luxemburgo. Dentre várias informações desencontradas, alguns esclarecimentos são necessários.
Primeiramente, pelos dados disponíveis, não se sabe ao certo qual o tipo de câncer de pele identificado em Luxemburgo. O que foi divulgado é que foi realizada uma biópsia de uma lesão nasal e que o resultado revelou um câncer de pele. Além disso, há descrição de que será feito um procedimento de extração da lesão de forma completa.
O câncer de pele compreende alguns tipos de tumores com comportamentos bastante distintos. O mais comum, de longe, é o carcinoma basocelular (CBC), que corresponde a aproximadamente 30% de todos os cânceres no Brasil. Muitas vezes, inclusive, o CBC não é computado nas estatísticas, em função do seu comportamento pouco agressivo e sua alta taxa de cura. O tratamento do CBC, na enorme maioria das vezes, é cirúrgico, sendo a radioterapia e os tratamentos medicamentosos reservados para casos muito específicos e raros.
O outro tipo de tumor maligno de pele, menos comum, é o melanoma. Este pode, sim, ter um comportamento mais agressivo, porém, quando diagnosticado precocemente e operado, também apresenta taxas de cura próximas dos 90%. Quando o tumor se espalha, porém, o prognóstico torna-se pior e tratamentos medicamentosos são necessários.
O fato é que esses dois tipos de tumor de pele têm como principal fator de risco a exposição solar crônica, ainda mais quando não há proteção adequada. E esse assunto é o motivo do Dezembro Laranja, campanha que começa junto com o mês do início do verão, e serve para conscientizar a população dos riscos de abusar do sol.
Medidas simples fazem toda a diferença na prevenção (e também ajudam contra o envelhecimento). Devemos sempre lembrar de passar protetor solar diariamente, mesmo que você não fique diretamente exposto ao sol, usar chapéus/bonés e óculos escuros com proteção ultravioleta e evitar exposição solar das 10 às 16 horas, quando os raios ultravioleta se concentram e podem causar mais dano à pele. Não só isso, para identificar precocemente possíveis tumores, devemos ficar atentos às lesões de pele. Manchas ou pintas novas ou que mudam de aspecto (cor ou forma), crescem, sangram ou coçam são situações que devem ligar o alerta.
De qualquer maneira, na suspeita ou na dúvida, procure um dermatologista e aproveite a estação mais divertida do ano com segurança. E, em caso de diagnóstico como o de Vanderlei Luxemburgo, lembre-se que são tumores tratáveis e, muitas vezes, pouco agressivos.
Referências:
https://www.sbd.org.br/dermatologia/pele/doencas-e-problemas/cancer-da-pele/64/
https://gco.iarc.fr/today/data/factsheets/cancers/17-Non-melanoma-skin-cancer-fact-sheet.pdf
https://www.inca.gov.br/tipos-de-cancer/cancer-de-pele-nao-melanoma
Cachorros: realmente os melhores amigos dos humanos
Hoje, o Alerta Oncologia vem com um assunto diferente do comum: o benefício de ter um cachorro. Sim, isso mesmo! Não falaremos de câncer, especificamente, mas de um assunto que sempre está nas nossas postagens: sobrevida. O motivo disso? Um estudo da revista “Circulation: Cardiovascular Quality and Outcomes”, uma publicação da renomada Associação Americana de Cardiologia (American Heart Association, AHA), concluiu que ter um cachorro pode ter efeito positivo na sobrevida dos seus donos.
Os cachorros são antigos companheiros dos humanos e, ao longo dos milênios, têm se tornado presença constante nas casas pelo mundo. Vários estudos observacionais mostraram que o fato de ter um cachorro pode reduzir a pressão arterial, a solidão, a ansiedade e os níveis de depressão, além de melhorar o humor e a autoestima dos seus donos.
O artigo publicado neste último mês foi uma revisão sistemática e metanálise – ou seja, uma análise combinada dos ensaios realizados até o momento – de estudos prospectivos, conduzidos entre 1950 e 2019. Ao final, foram analisados dados de 15 estudos, que incluíram um total de 3,8 milhões de pessoas de diversos países (EUA, Austrália, Nova Zelândia e países do norte europeu), sendo que a evidência foi considerada de boa qualidade, porém não foi controlada para os fatores confundidores.
Os resultados mostraram uma redução do risco de morte por todas as causas de 24%, sendo 22% nas populações gerais e 65% quando considerados apenas os indivíduos com problemas coronários prévios, como infarto e outros problemas cardíacos. Em relação à morte por eventos cardiovasculares, a melhora observada foi de 31%. Vale ressaltar que houve, no geral, alta heterogeneidade (resultados muito variados entre os estudos, o que pode diminuir a validade dos dados), com exceção da análise de pacientes com eventos cardiovasculares prévios.
Esses dados devem ser colocados em perspectiva, já que o tipo de estudos analisados tem limitações importantes, principalmente relacionadas aos fatores confundidores, ou seja, ao que pode influenciar os resultados sem que o pesquisador saiba. Essa situação traz a discussão principal entre os cientistas: se a associação entre ter um cachorro e a redução de mortalidade é causal ou não, isto é, se o fato de ser dono de um cachorro é uma causa de redução de risco de morrer ou apenas uma característica associada aos indivíduos que vivem mais.
Apesar do maior estudo da análise em questão ter sido ajustado a diversos fatores e do benefício ter se mantido, o que se postula é que pessoas que têm cachorros geralmente tem estilos de vida mais saudáveis, melhor situação financeira, são mais jovens e mais instruídas e praticam mais esportes. Essas características se associam, comprovadamente, a menores índices de tabagismo, diabetes e obesidade, fatores que, por si só, já impactam positivamente da sobrevida. Não só isso, um fato notável é que pessoas com saúde preservada adotam mais animais domésticos do que pessoas doentes, o que traz também um viés à análise dos dados.
Entretanto, nota-se que a simples presença do cão em casa aumenta a atividade física do seu dono, devido aos passeios necessários, e isso leva a essas pessoas a atingirem as metas preconizadas pelas sociedades médicas em geral. Ademais, e não menos importante, a companhia oferecida pelos cães, como dissemos acima, traz benefícios psicológicos, notadamente para indivíduos mais solitários e com problemas cardiovasculares prévios.
A partir desse cenário, o editor da revista que publicou o estudo fez um texto analisando o artigo com o interessante título “Quem está resgatando quem?” (tradução livre de Who is rescuing whom?), sugerindo que talvez a adoção de um cachorro não seja boa apenas para o animal, mas também para o seu dono. Após várias ponderações, o editor acredita que, mesmo com as limitações, a associação entre sobrevida e posse de cachorros pode ser, pelo menos parcialmente, causal. Além disso, é importante saber que a própria AHA defende que ter um cachorro pode ter efeito causal e reduzir risco cardiovascular, com um nível de evidência intermediário.
Contudo, há um ponto muito importante que não deve ser esquecido ou colocado de lado: ter um cachorro é uma enorme responsabilidade, pois envolve uma modificação considerável na rotina do seu dono e requer uma dedicação notável para não maltratar seu amigo. Portanto, a própria AHA, e os próprios autores do estudo em questão, reforçam que a adoção/compra de um cão não deve ser feita pelo motivo único de reduzir risco de morte. Desse modo, a sugestão de ter um cachorro em casa deve ser extensamente discutida com os pacientes, não estimulando adoções forçosas ou à contragosto.
Todos os autores sugerem que, para a evidência científica definitiva, deve-se investigar o ato de ter um cachorro como uma intervenção de estilo de vida para melhorar a saúde, principalmente em pacientes com problemas cardíacos. E essa investigação deveria ser feita por estudos randomizados (aleatorizados), porém os mesmos são virtualmente não-factíveis e inaceitáveis, pois é difícil imaginar um teste que envolva sortear pessoas a terem ou não um cachorro, e acompanha-las por tempo suficiente para notar um efeito na mortalidade.
Enfim, ter um cachorro parece ter benefícios importantes para os seus donos e isso pode valer também para pacientes com diversas doenças, inclusive câncer. Possuir um cão, entretanto, é um ato de amor, mas também de grande comprometimento e os pacientes (e pessoas em geral) devem sempre ter isso em mente.
Referências:
Kramer CK, Mehmood S, Suen RS. Dog Ownership and Survival: A Systematic Review and Meta-Analysis. Circ Cardiovasc Qual Outcomes. 2019;12(10):e005554
Mubanga M, Byberg L, Egenvall A, Ingelsson E, Fall T. Dog Ownership and Survival After a Major Cardiovascular Event. A Register-based Prospective Study. Circ Cardiovasc Qual Outcomes. 2019;12(10):e005342
Kazi DS. Who is rescuing whom? Dog ownership and cardiovascular health. Circ Cardiovasc Qual Outcomes. 2019;12(10):e005887
Uma nova tecnologia brasileira para auxílio no diagnóstico do câncer
No dia 13 de agosto, foram publicados os resultados de uma pesquisa inédita no mundo e desenvolvida no Brasil: o uso da cera de ouvido para auxílio no diagnóstico do câncer. Os dados apresentados são bastante interessantes e merecem uma investigação mais a fundo. Mas devemos tomar cuidado, pois ainda está longe de ser padronizado como teste de rotina.
A publicação dos pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG) está em uma importante revista científica, a Scientific Reports, que pertence à mesma editora da revista Nature. A pesquisa consistiu em selecionar 102 pacientes, sendo 52 com câncer e 50 sem, e realizar uma análise da composição química de amostras de cerúmen (cera de ouvido), a fim de tentar diferenciar quem tinha câncer de quem não tinha. Esta análise da cera incluía a identificação de substâncias específicas relacionadas às atividades das células cancerosas no organismo, já que é sabido que diversas secreções do corpo, incluindo a cera, são compostas de substâncias produzidas por diferentes células do organismo. Uma das principais vantagens deste exame é a sua facilidade de realização e rapidez do resultado (três horas), sendo pouco invasivo e possivelmente de custo reduzido (cerca de R$ 200).
Os resultados mostraram que a análise do cerúmen foi capaz de discriminar 100% dos pacientes com câncer daqueles sem câncer. Ou seja, a combinação das substâncias encontrada nos pacientes portadores de neoplasia foi diferente da combinação presente nos pacientes saudáveis.
Os dados são um importante avanço na área de diagnóstico de câncer e ensejam o desenvolvimento de novas pesquisas que possam confirmar sua utilidade prática. Entretanto, é necessário ressaltar que este método ainda não foi validado para uso rotineiro, visto que, para tal, são necessários estudos do tipo prospectivo e que comparem com os meios diagnósticos atualmente em uso.
Não só isso: é preciso também a investigação do impacto clínico real da adição deste exame para identificação precoce do câncer. Isto se dá devido ao fato de que um resultado positivo não obrigatoriamente significa que o paciente terá o diagnóstico definitivo mais precoce e, na busca pelo mesmo, outros exames podem ser realizados sem necessidade, trazendo ansiedade e possíveis complicações para os indivíduos, sem que isso leve a um aumento de sobrevida ou maior chance de cura. Ademais, a análise do cerúmen não foi capaz de determinar a origem do tumor.
Ressaltados estes pontos. E o que se conclui é que temos um grande avanço, admiravelmente desenvolvido no nosso país e com grande potencial para trazer benefícios à população, principalmente se estudos mais aprofundados mostrarem que o diagnóstico do câncer possa ser feito mais cedo e com um menor custo e que isso possa refletir em maiores chances de cura e/ou tempo de vida.
Referências
Barbosa JMG, et al. Cerumenogram: a new frontier in cancer diagnosis in humans. Scientific Reports. 2019;9:11722 (https://www.nature.com/articles/s41598-019-48121-4.pdf)
“Lei dos 30 dias” aprovada para pacientes com suspeita de câncer
Nos últimos meses, o grupo SOnHe tem falado bastante de saúde das mulheres e dos homens, com as campanhas do “Outubro Rosa” e do “Novembro Azul” e, neste contexto, saiu uma notícia importante, que tem muito a ver com ambas as iniciativas: a aprovação da chamada “Lei dos 30 dias”.
Essa Lei (nº 13.896 de 31/10/2019) define o prazo máximo de 30 dias entre a solicitação e a realização de exames de pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) para os quais a principal hipótese diagnóstica seja uma neoplasia maligna, ou seja, câncer. Ela altera a Lei 12.732/2012, que estabeleceu – dentre outras coisas – um prazo de 60 dias entre o diagnóstico definitivo de câncer e o início do tratamento da doença.
Ambas as leis têm um objetivo muito importante e necessário: tornar o diagnóstico e tratamento do câncer mais precoces, a fim de melhorar os desfechos, sejam de cura, sobrevivência e/ou qualidade de vida dos pacientes.
Entretanto, desde a publicação da “Lei dos 60 dias” (2012), a porcentagem de cumprimento da mesma é insatisfatória, chegando a apenas 60% dos casos. Entre os vários entraves para o seguimento dessas determinações legais estão a desorganização e a falta de recursos do SUS e o déficit estrutural da saúde pública, o que são consequências do sub-financiamento do sistema como um todo. Não adianta exigir eficiência se não há capacidade para torná-la realidade.
Além disso, nas duas leis não ficam determinadas de forma clara as punições por descumprimento, como se lê no artigo 3º: “O descumprimento desta Lei sujeitará os gestores direta e indiretamente responsáveis às penalidades administrativas”. Vale ressaltar, ainda, que o texto entra em vigor em 180 dias, ou seja, 6 meses.
Com esse novo marco, esperamos que o cumprimento das duas leis seja satisfatório e que sirva como estímulo a uma melhor gestão da saúde no país. Essa aprovação é, com certeza, um avanço para os pacientes, porém, depende de uma maior eficiência do Estado para funcionar e poder garantir os direitos dos brasileiros, constantemente descumpridos.
Referências:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2019/Lei/L13896.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12732.htm
https://observatoriodeoncologia.com.br/60-dias-para-o-cancer-e-o-direito-do-paciente/
https://www.femama.org.br/2018/br/noticia/femama-lanca-pesquisa-sobre-cumprimento-da-lei-dos-60-dias
Imunoterapia para câncer de cabeça e pescoço aprovada no Brasil
Em junho havíamos falado que um novo tratamento para pacientes com câncer de cabeça e pescoço do tipo escamoso foi aprovado pelo Food and Drug Administration (FDA) nos EUA, no dia 10 daquele mês. Agora, cinco meses depois, a indicação foi aprovada no nosso país pela Anvisa.
A nova indicação se baseou no estudo KEYNOTE-048, que envolveu mais de 800 pacientes com doença avançada ou recidivada e que ainda não tinham recebido nenhum tratamento para o tumor. Os indivíduos foram divididos aleatoriamente em três grupos: o primeiro com Pembrolizumabe isolado, outro com Pembrolizumabe mais quimioterapia e mais um com o tratamento-padrão atual (quimioterapia + Cetuximabe).
Os resultados mostraram que nos pacientes com PDL-1 positivo (CPS ≥ 1 e ≥ 20), o uso de Pembrolizumabe isolado levou a um aumento da sobrevida de 2 e 4,2 meses e uma redução do risco de morte de 22 e 39%, respectivamente. Na população geral (qualquer PD-L1), apesar desse benefício não ter sido comprovado, o Pembrolizumabe foi considerado não-inferior.
No caso da combinação de Pembrolizumabe com quimioterapia, houve melhoria da sobrevida global mediana de 3,7 e 3,2 meses, com redução do risco de morte de 40 e 35% nos pacientes com PD-L1 maior que 20 e 1, respectivamente. Diferente do caso do Pembrolizumabe isolado, a combinação mostrou aumento da sobrevida global também na população geral, com ganho de 2,3 meses na mediana.
Interessante notar que o Pembrolizumabe isolado promoveu menor taxa de efeitos colaterais graves (17%) quando comparado à quimioterapia padrão (69%). Mesmo quando combinado, não houve aumento significativo destas toxicidades (71%).
É um importante marco para os pacientes brasileiros com câncer de cabeça e pescoço, que podem receber tratamentos cada vez mais eficazes. Entretanto, esta (e nenhuma outra) imunoterapia não está disponível no SUS e, portanto, seguiremos trabalhando para o que o acesso chegue a todos os brasileiros.
Referências:
https://meetinglibrary.asco.org/record/171051/slide
https://www.ascopost.com/News/60093
https://clinicaltrials.gov/ct2/show/NCT02358031
http://www.anvisa.gov.br/datavisa/fila_bula/frmVisualizarBula.asp
13 de novembro: Dia Mundial da Gentileza
Gentileza, dentre seus significados, pode ser traduzida como uma forma de atenção, de cuidados, que torna os relacionamentos mais humanos.
Segundo pesquisadores, o poder da gentileza vem basicamente de três aspectos: não maleficência, humildade e honestidade. Um dos pontos mais importantes a se saber é que quem mais de beneficia dos atos de gentileza é aquele que inicia o ato em si. Nesse sentido, a Universidade de Emory (Georgia – EUA) conduziu uma pesquisa em que os participantes que praticaram gentileza tiveram seus centros de recompensa e prazer cerebrais ativados com a mesma intensidade que aqueles que recebiam os atos.
Ser gentil libera serotonina, conhecida como o hormônio da felicidade. Também diminui nossos níveis hormonais de cortisol, hormônio este de defesa e liberado em situações de estresse. Este último, por sua vez, nos deixa tristes, enquanto a gentileza, felizes. Estresse enfraquece o sistema imune, enquanto a gentileza, fortalece. Estresse acelera o envelhecimento, enquanto a gentileza, retarda. Indo mais além, talvez a melhor coisa sobre a gentileza é que se pode aprender como praticá-la e ensiná-la. É contagiosa.
Outra pesquisa conduzida em Oxford encontrou que quem praticou um ato de gentileza diariamente por sete dias foi significativamente mais feliz do que quem não praticou e que a dimensão da felicidade estava proporcionalmente relacionada ao número de atos de gentileza praticados: quanto mais atos, maior a felicidade.
Kristine Carter, da UC Barkeley (Califórnia – EUA), escreveu em livro chamado Raising Happiness, no qual ela demonstrou que quem pratica voluntariado apresenta menos dores e, além disso, os que se voluntariam para mais de uma organização têm significativamente menos chances de morte precoce. Esse efeito sobre eles foi ainda melhor que a própria prática de atividade física, na intensidade de quatro vezes por semana.
A não maleficência pode até parecer uma qualidade passiva, porém é exatamente o contrário, uma vez que exige autoconhecimento, inteligência e boa vontade. De maneira consciente ou não, é por meio da escolha por não fazer o mal que optamos por tornar a vida dos que nos rodeiam mais fáceis. O filósofo Philo de Alexandria já dizia: “Seja gentil com o outro, porque todos estão enfrentando uma grande batalha” – só podemos coexistir se tivermos respeito um pelo outro e isso acontece a partir do momento que reconhecemos as batalhas de cada um, sem criar mais obstáculos a isso.
Humildade pode ser a maior das forças e das ferramentas para o crescimento pessoal. Ela nos coloca como aprendizes, em movimento constante de se corrigir e melhorar e é isso o que nos torna mais capazes de ouvir também. Somos todos falíveis e quando nos permitimos aprender lições aceitamos ser o que somos, reconhecemos nosso lugar no mundo e abrimos espaço para os outros.
Honestidade está na base da gentileza e é a fundação de atos genuínos. Ser honesto muitas vezes é mais difícil do que dizer sim quando se quer dizer não, ou sorrir em um momento de agonia. No entanto, sempre vale a pena quando se opta pela transparência. A mentira gera estresse e ansiedade e seguir mentindo é extremamente cansativo. Como na Divina Comédia, de Dante, em que os hipócritas no inferno deveriam usar exaustivamente capas pintadas de dourado glamorosas, mas falsas, para representar a todo momento o que não são e o que nunca serão.
Isto também nos serve na medida em que ser o mais verdadeiro possível conosco alivia a necessidade de viver uma história que nós não escrevemos para nós mesmos. Quando mostramos quem somos, dividimos nossas histórias, convidamos pessoas a fazer o mesmo e descobrimos que não estamos sozinhos, mas sim com mais sete bilhões de pessoas, cada uma com sua luta pessoal, muitas vezes muito similar às nossas.
Gentileza mora na simplicidade. Em um simples sorriso para seu médico, em uma palavra de carinho para seu paciente ou em um apoio para seu colega de trabalho. Como diria o Profeta, gentileza gera gentileza.
Novo tratamento para câncer de bexiga aprovado no Brasil
No dia 9 de outubro, foi aprovado no Brasil, pela Anvisa, a medicação Erdafitinibe (Erfandel®) para uso em pacientes com câncer de bexiga. Essa foi a primeira droga do tipo terapia-alvo para tratamento específico deste tipo de tumor.
No estudo que levou à aprovação, o Erdafitinib foi testado em indivíduos com tumores de bexiga do tipo urotelial – o mais comum desse órgão – localmente avançados ou metastáticos que tinham utilizado anteriormente quimioterapia e tivessem apresentado progressão da doença. Não só isso, os pacientes eram selecionados para o tratamento apenas se tivessem mutação no gene FGFR (Fibroblast Growth Factor Receptor), que é um receptor presente nas células e que pode estar alterado em algumas neoplasias malignas, como alguns tumores de bexiga. No estudo, que foi de fase II (uma etapa intermediária dos estudos clínicos), o objetivo foi avaliar se a droga era ativa nesse tipo de tumor e não havia braço comparador. A taxa de resposta foi de 40%, com sobrevida global mediana de 13,8 meses. Os efeitos colaterais de alto grau ocorreram em 46% dos pacientes, ou seja, a toxicidade foi importante, apesar de não ter sido limitante ao seu uso.
Esta droga já tinha sido aprovada nos EUA em abril deste ano e é um avanço importante para os pacientes com câncer de bexiga, que – após vários anos sem novidades – receberam nos últimos anos novas opções, principalmente com o advento da imunoterapia moderna. Com essa terapia-alvo, o manejo desses pacientes fica mais personalizado e eficiente, melhorando suas vidas.
Deve-se lembrar que é uma medicação oral e, portanto, apesar da aprovação na Anvisa, ainda não é obrigatória a cobertura pelos planos de saúde. Abordamos esse assunto em post anterior (acesse aqui https://sonhe.med.br//2019/09/03/simparaquimiooral/).
Referências:
Loriot Y, et al. Erdafitinib in Locally Advanced or Metastatic Urothelial Carcinoma. N Engl J Med. 2019;381:338-48.
Dissertação de mestrado: benefício viável para pacientes com câncer de fígado
No último dia 30 de outubro, o oncologista Dr. Rafael Luís, do Grupo SOnHe, realizou a defesa de sua dissertação de mestrado, na Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP. Seu orientador foi o CEO do grupo, Prof. Dr. André Sasse.
O tema do mestrado foi “Análise de custo-efetividade do Sorafenibe para o carcinoma hepatocelular (CHC) avançado no contexto do Sistema Único de Saúde (SUS)” e teve como objetivo definir se a medicação Sorafenibe era custo-efetiva para tratamento de câncer de fígado de pacientes do sistema público de saúde no Brasil. Uma terapia é custo-efetiva quando seu custo leva a um benefício que seja significativo e dentro de um valor viável economicamente para o país em questão.
Hoje, o SUS não fornece qualquer tratamento que tenha benefício clínico comprovado para esses pacientes. O Sorafenibe é uma droga que está no mercado desde 2008, aprovada para este tipo de tumor e já é padrão de tratamento desde então na maioria dos sistemas de saúde, inclusive no sistema privado brasileiro.
A dissertação do Dr. Rafael mostrou que, com o preço praticado hoje, o Sorafenibe não é custo-efetivo, em razão do alto valor de compra desta medicação. Entretanto, foi argumentado que com o desconto de pelo menos 8% no preço (algo bem factível), este tratamento poderia ser incorporado ao SUS e beneficiar milhares de pacientes por ano. Deste modo, a conclusão dos autores foi que seria possível e interessante uma discussão entre o SUS e a indústria farmacêutica para uma negociação de preço.
Dr. Rafael recebeu seu título de mestre e, juntamente com o Dr. André Sasse e todos do Grupo SOnHe, manterão a linha de pesquisa em farmacoeconomia, visando estudar estratégias que possam beneficiar a população brasileira, promovendo melhora do cuidado em Oncologia, balanceada com a sustentabilidade do sistema de saúde do nosso país.