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Novas esperanças para as mulheres com câncer de Ovário

Desde o ano de 2013, o dia 8 de maio é considerado o Dia Mundial do Câncer de Ovário, uma iniciativa que tem como objetivo atrair a atenção de pessoas em todo o mundo e reunir esforços na luta contra esse tipo de câncer. Tal ação é de extrema importância, visto que a cada ano mais de 300.000 mulheres recebem o diagnóstico de câncer de ovário, em todo o mundo. Além disso, os pesquisadores do Observatório Global do Câncer (GLOBOCAN) estimam um aumento de 42% no número anual de casos de câncer de ovário até 2040, chegando a um total de 445.721 novos casos.

No Brasil, o câncer de ovário é a sétima neoplasia maligna mais comumente diagnosticada nas mulheres. Para os anos de 2020 a 2022, o Instituto Nacional do Câncer (INCA) estima que 6.650 novos casos serão diagnosticados a cada ano. Isso representa 3% de todos os cânceres detectados nas mulheres brasileiras.

Além da incidência, outro dado alarmante é a alta mortalidade associada à doença. O câncer de ovário é o câncer ginecológico associado à maior mortalidade, com um número anual de mortes que chega a 207.000 em todo o mundo. No Brasil, no ano de 2017, o câncer de ovário foi a causa da morte de 3.879 mulheres. Comparado a outros tipos de câncer, como o de mama por exemplo, as taxas de cura e sobrevivência a longo prazo são muito inferiores para as pacientes com câncer de ovário. E por que isso acontece?

Um dos principais determinantes dessa alta mortalidade relacionada ao câncer de ovário é o fato de que a grande maioria dos casos é diagnosticada em estádios mais avançados da doença. Importante lembrar que a chance de cura do câncer é maior quando a doença é diagnosticada em estádio inicial, ou seja, quando a doença ainda está localizada no órgão onde ela se inicia, sem disseminação para outros locais (metástases). No caso do câncer de ovário, dados dos EUA mostram que o diagnóstico de doença inicial só é feito em 15% dos casos, ao passo que em 59% das vezes a doença já está avançada ao diagnóstico. Cinco anos após o diagnóstico, 92% das mulheres com diagnóstico em estádio inicial ainda estão vivas, em comparação a apenas 29% daquelas com diagnóstico em estádio avançado. Precisamos mudar essa situação!

Dois fatores são responsáveis pelo diagnóstico na maioria das vezes tardio do câncer de ovário:

  1. Não dispomos de exames de rastreamento para o câncer de ovário

O rastreamento tem o objetivo de diagnosticar o câncer em indivíduos que não apresentam sintomas da doença. É o caso da mamografia para o câncer de mama, e do exame de Papanicolaou para o câncer de colo uterino. No caso do câncer de ovário, os exames já avaliados não foram bem-sucedidos. Por exemplo, o ultrassom transvaginal pode mostrar a presença de lesões nos ovários, no entanto ele não consegue dizer se a lesão é benigna ou maligna. Da mesma forma, o exame de sangue para dosagem do CA125 (uma proteína) pode se encontrar alterado em diversas condições que não o câncer (por exemplo, endometriose, doença inflamatória pélvica). Além disso, mesmo durante o exame físico feito pelo médico ginecologista, a palpação de tumores muito pequenos é virtualmente impossível.

  1. Os sintomas do câncer de ovário são inespecíficos e ocorrem principalmente quando a doença está mais avançada

Os sintomas relacionados ao câncer de ovário podem ocorrer em estádios mais iniciais, porém são mais frequentes em estádios mais avançados. Além disso, são sintomas que as mulheres muitas vezes acabam associando a outros problemas de saúde e não suspeitam de que podem ter a doença. Os mais comuns são:

– aumento de volume do abdome;

– dor abdominal/pélvica;

– dificuldade para se alimentar, sensação de empachamento;

– sintomas urinários (a paciente urina mais vezes que o normal; sente urgência para urinar);

– fadiga.

Importante salientar que, quando causados pelo câncer, esses sintomas tendem a ser persistentes, podendo evoluir com piora com o passar do tempo.

Por esses motivos, a recomendação é de que as mulheres façam visitas regulares ao seu ginecologista e que procurem atendimento médico na presença dos sintomas relatados acima, especialmente se os mesmos persistirem por mais de algumas semanas. Além disso, importante ficarem atentas aos fatores de risco para a doença:

– idade: o risco aumenta com o passar da idade, sendo maior entre os 55 e os 74 anos, embora mulheres jovens também podem desenvolver a doença;

– nuliparidade: mulheres que não tiveram filhos tem maior risco;

– endometriose: associa-se a aumento do risco de alguns subtipos de câncer de ovário (endometrioide, por exemplo);

– exposição a asbestos;

– tabagismo: aumenta o risco do subtipo mucinoso;

– início dos ciclos menstruais em idade mais jovem e menopausa em idade mais tardia;

– fatores genéticos: entre 20% e 25% das mulheres com câncer de ovário apresentam um componente genético hereditário, na maioria das vezes mutações nos genes chamados BRCA1 e BRCA2; outra condição hereditária associada a risco de câncer de ovário é a chamada síndrome de Lynch.

O tratamento do câncer de ovário envolve a associação de cirurgia e quimioterapia. Embora seja uma doença que responde muito bem à quimioterapia, a recorrência da doença ocorre muito frequentemente, eventualmente desenvolvendo resistência à quimioterapia.

Apesar desse cenário, ao longo dos últimos dez anos, observamos uma revolução no entendimento do câncer de ovário e a introdução de novos tratamentos, inaugurando uma nova era no tratamento da doença.

No desenvolvimento do câncer de ovário, há a necessidade da formação de novos vasos sanguíneos que vão garantir que os nutrientes presentes na corrente sanguínea possam chegar a todas as células do tumor. Nesse processo, uma proteína tem importância fundamental, que é chamada VEGF. A partir desse conhecimento, pesquisadores avaliaram o uso de um medicamento chamado Bevacizumabe no tratamento do câncer de ovário. O Bevacizumabe bloqueia a proteína VEGF, e é capaz de reduzir a velocidade de crescimento do tumor ou até mesmo interromper esse crescimento, principalmente quando é usado associado à quimioterapia. Embora o Bevacizumabe não tenha mostrado efeito no aumento do tempo de vida das pacientes, ele foi capaz de prolongar significativamente o tempo que o tumor leva para crescer de novo. Atualmente, o Bevacizumabe é usado principalmente no cenário de doença recidivada (quando o tumor volta após ter sido submetido ao tratamento inicial). No entanto, com o tempo pode ser que esse medicamento seja trazido também para uso em estádios mais precoces da doença.

Um segundo grupo de medicamentos recentemente incluídos no tratamento do câncer de ovário são os chamados inibidores de PARP. São eles o Olaparibe, o Niraparibe, o Rucaparibe e o Veliparibe. Mas o que é a PARP? A PARP é uma proteína que está envolvida na correção de defeitos no DNA da célula. Essa ação é extremamente importante, pois sabemos que as células que não conseguem corrigir esses defeitos acabam morrendo. Existem diferentes mecanismos de correção de defeitos no DNA, de forma que o efeito desses medicamentos contra o câncer de ovário é maior naquelas pacientes em que os tumores apresentam outros defeitos dos mecanismos de correção do DNA, no que chamamos de “Deficiência de Recombinação Homóloga” (ou HRD). Nesse grupo de defeitos, encontramos as mutações dos genes BRCA1 e BRCA2, já comentadas anteriormente.

Os inibidores de PARP estão modificando de forma significativa o cenário do tratamento do câncer de ovário. Eles podem ser usados sozinhos ou após a quimioterapia, no que chamamos de “tratamento de manutenção”. Um resultado muito significativo foi a observação de que quase metade das pacientes com câncer de ovário com mutação de BRCA que receberam manutenção com inibidor de PARP, após terem tido boa resposta com a primeira quimioterapia feita ao diagnóstico da doença, ainda não haviam apresentado crescimento/piora da doença após cinco anos de acompanhamento. Se lembrarmos das baixas taxas de sobrevivência em cinco anos que comentamos anteriormente, podemos ter uma dimensão da importância desse resultado. Outro dado celebrado foi a observação mais recente de que o tratamento de manutenção com Bevacizumabe associado ao inibidor de PARP trouxe um benefício muito significativo para o grupo de pacientes com tumores com HRD. Tal resultado nunca havia sido demonstrado em câncer de ovário nesse contexto.

Atualmente, diversos outros tratamentos estão sendo testados em câncer de ovário, como a imunoterapia, vacinas, conjugados anticorpo-quimioterápico, terapia gênica, entre outros.

Os tempos mudaram! As novas descobertas sobre os mecanismos de desenvolvimento e progressão do câncer de ovário e os resultados obtidos com a introdução do Bevacizumabe e dos inibidores de PARP trouxeram uma nova esperança para as pacientes. Hoje, já é possível começarmos a pensar na possibilidade de cura para essas pacientes ou de, pelo menos, na remissão a longo prazo, convertendo uma doença letal em uma doença crônica, com qualidade de vida.

 

Referências

  1. International Agency for Research on Cancer. GLOBOCAN. Cancer today n.d. http://gco.iarc.fr/today. Acessado em 04 de maio de 2021.
  2. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estatísticas de câncer. Disponível em: https://www.inca.gov.br/numeros-de-cancer. Acessado em 04 de maio de 2021.
  3. Siegel RL, Miller KD, Jemal A. Cancer statistics, 2020. CA Cancer J Clin. 2020 Jan;70(1):7-30. doi: 10.3322/caac.21590
  4. Banerjee S, Moore KN, Colombo N, et al: Maintenance olaparib for patients with newly diagnosed, advanced ovarian cancer and a BRCA mutation: 5-year follow-up from SOLO-1. ESMO Virtual Congress 2020. Abstract 811MO.
  5. Ray-Coquard I, Pautier P, Pignata S, et al. Olaparib plus Bevacizumab as First-Line Maintenance in Ovarian Cancer. N Engl J Med. 2019 Dec 19;381(25):2416-2428. doi: 10.1056/NEJMoa1911361.

Maio Cinza: um alerta para o câncer de cérebro!

Maio é o mês de conscientização do câncer de cérebro, um tumor potencialmente grave por atingir o órgão responsável pelo controle de todas as funções do nosso corpo. Atualmente, ocupa a décima posição entre os tumores mais frequentes nas mulheres brasileiras e a décima primeira posição entre os homens.

É considerado um grupo heterogêneo de tumores que podem ser divididos em primários, que têm origem nas células do próprio cérebro, ou secundários, que têm origem em outros órgãos e disseminam para o cérebro. Estes são mais frequentes, sendo os cânceres de mama, pulmão e melanoma os maiores causadores de metástase.

No que se refere à agressividade do tumor, podemos dividir também em dois grupos. Os tumores benignos, que apresentam crescimento lento podendo ser acompanhados por exames de imagem periódicos ou tratados com cirurgia com altíssimas chances de cura. E os tumores malignos, que apresentam crescimento rápido, presença de sintomas e necessitam de tratamentos mais agressivos. Dentre os tumores malignos, o glioblastoma multiforme é o que apresenta menores chances de cura, apesar do avanço do tratamento nos últimos anos.

As causas dos tumores de cérebro continuam sendo motivo de muito estudo. Sabemos que algumas síndromes genéticas, consideradas raras, como a neurofibromatose e Li-Fraumeni aumentam o risco deste tipo de câncer. Outro fator é a exposição à radiação ionizante, como por exemplo, em profissionais que lidam com raio-x, pessoas que se submetem à radioterapia ou aos exames excessivos com radiação.  Além desses, temos a deficiência do sistema imunológico, seja ela causada pelo vírus do HIV ou uso de medicamentos que suprimem o sistema imunológico. Por fim, há ainda alguns fatores de risco controversos. A exposição excessiva ao telefone celular, traumas cranianos e o consumo de aspartame (adoçante artificial) já foram levantados como potenciais causadores desse câncer, mas até hoje nada ficou comprovado.

O tumor no cérebro pode ter apresentações variáveis. É frequente nos benignos o paciente permanecer assintomático por um período prolongado, isso porque o tumor cresce lentamente e o cérebro vai se adaptando. Podem ocorrer também sintomas focais, que são dependentes do local em que está localizado o tumor, podendo cursar com perda de força em alguma parte do corpo, alteração na visão, audição, fala e comportamento. Porém, vale ressaltar que as manifestações, na maioria dos casos, são inespecíficas como sonolência, náuseas, vômitos, crise convulsiva ou dor de cabeça.

Então, quando devo me preocupar com uma dor de cabeça? A cefaleia, conhecida como dor de cabeça, é o sintoma mais comum do câncer de cérebro, acontecendo em 33 a 71% dos casos.  No entanto, nem todo quadro de cefaleia é sugestivo de tumor cerebral; se for um sintoma diário e persistente ao longo de dias, com intensidade crescente e mais comum à noite ou ao acordar, é um sinal de alerta. Deve também ser sempre investigada quando acompanhada de sinais e sintomas como vômitos recorrentes, crises epilépticas, sonolência excessiva, confusão mental, deficiência gradual da movimentação ou da sensibilidade de alguma parte do corpo e dificuldades de fala e da visão.

O diagnóstico precoce é essencial para aumentar as chances de cura do câncer e evitar sequelas. Mas, muitas vezes, identificar o tumor na fase inicial é um desafio. Isso porque não existe um exame de rastreamento, os chamados exames preventivos, por isso é fundamental dar atenção aos sinais de alerta já mencionados. Na presença destes deve-se fazer uma investigação com exames de imagens, preferencialmente a ressonância de crânio. Este exame é capaz de identificar a presença de uma lesão no cérebro e diferenciar entre tumores benignos ou potencialmente malignos. Porém, para a confirmação diagnóstica é necessária a biópsia.

A boa notícia é que a maioria dos tumores cerebrais podem ser curados. É importante que o tratamento seja individualizado e realizado por uma equipe completa composta por neurocirurgião, oncologista, radioterapeuta, patologista e radiologista. De uma forma geral, a cirurgia é o principal tratamento. Atualmente diversas tecnologias foram incorporadas na neurocirurgia como monitorização intra-operatória e métodos minimamente invasivos, possibilitando a diminuição do risco de sequelas no ato cirúrgico.  A associação de radioterapia e quimioterapia geralmente é necessária nos tumores mais agressivos, considerados de alto grau.

Vale ressaltar que, apesar dos avanços nas técnicas de tratamento, o diagnóstico precoce ainda é a principal arma para aumentar as chances de cura e reduzir as sequelas.  Por isso a importância do Maio Cinza, que tem como objetivo conscientizar a todos sobres os sintomas que devem ser investigados. Mesmo durante o período de pandemia, importante lembrar que a COVID-19 não é a única vilã!

 

Câncer de estômago: como prevenir?

Você já pensou que o consumo de conservas e defumados pode aumentar o risco de um câncer que, até a década de 1980, era o que mais matava no mundo? Sim, e hoje vamos falar sobre esse tumor: o câncer de estômago, já que na semana do dia 5 de abril, acontece a Semana de Prevenção e Combate ao Câncer de Estômago.

Conhecido pelos humanos como uma doença desde 3.000 a.C., o câncer gástrico afeta 21.000 pessoas por ano no Brasil e leva à morte mais de 50% delas. Essa estatística já foi maior: antes do câncer de pulmão – em decorrência do cigarro – se tomar a primeira posição em mortalidade, o de estômago era o mais mortal. E um dos principais fatores que têm feito a incidência mundial reduzir (apesar de não ser baixa) foi a invenção e popularização de um aparelho que, hoje, parece tão essencial, mas que não era tão comum antigamente: a geladeira.

Evidências científicas mostram que o consumo de produtos processados, em conserva, defumados e/ou com alto teor de sal tem relação com aumento expressivo da incidência de câncer gástrico. O mecanismo por trás disso parece ter a ver com a presença de compostos chamados nitritos, que estão presentes nesses produtos e podem induzir alterações nas células da parede do estômago e promover o surgimento de neoplasias. Alguns estudos mostram incremento de mais de 40% no risco de câncer de estômago, sendo maior quanto maior a quantidade ingerida.

Com o uso da geladeira para preservação de alimentos, as técnicas de conservar em “salmouras”, salgar a carne e a defumação foram sendo menos utilizadas, contribuindo para uma redução da ocorrência de câncer gástrico na população. Em relação à comida rica em sal, um dos exemplos mais importantes é a associação entre a culinária asiática e a alta incidência desse tipo de tumor, visto que a gastronomia da região é rica em alimentos com alto teor de sal.

Mas não são apenas os alimentos processados e salgados que aparecem como fatores de risco. A infecção pela bactéria H. pylori no trato intestinal humano também guarda relação com uma maior chance de neoplasia gástrica. Essa bactéria é comum, principalmente em países menos desenvolvidos e com saneamento mais precário (incluindo o Brasil), e a sua presença no estômago leva a aumento de seis vezes no risco de lesões na parede do órgão e, consequentemente, ao surgimento de tumores.

Ainda como fatores de risco, a obesidade e o tabagismo, assim como em vários outros tumores, devem ser lembrados. Cirurgia prévia do estômago, anemia perniciosa e trabalho em indústrias de carvão e borracha mostram alguma relação.

Em relação à herança genética, síndromes como a de Lynch e a do câncer gástrico difuso aumentam de forma expressiva a ocorrência, mas são menos comuns e atingem famílias específicas.

Certo. Depois de todos esses fatores de risco, como fazer para prevenir o câncer de estômago? Aí voltamos para o que sempre falamos: alimentação saudável. Não é “chatice” dos médicos, é provado que uma dieta balanceada reduz o risco de tumores. Especificamente no caso em questão, evitar consumir alimentos processados, em conserva, defumados e/ou com alto teor de sal é um grande avanço. Claro que, em uma festa ou outra, ninguém está proibido de comer um salame, mas ter consciência da composição do que nós comemos é muito importante.

Muitas comidas que nem imaginamos têm alto teor de sal e usam métodos de conservação que produzem nitritos. Não só isso, já é claro para os cientistas que comer vegetais e frutas frescos e em abundância reduz o risco de diversos tipos de câncer, inclusive o gástrico. A alimentação saudável ajuda também no combate à obesidade e, junto com a atividade física, parar de fumar e reduzir o consumo de álcool, formam o “quadrado mágico” da prevenção do câncer.

Quanto ao H. pylori, a melhor maneira de evitar a contaminação é a higiene e o saneamento adequados, lavando alimentos e as mãos antes de comer. Em caso de sintomas de dor de estômago, o médico pode indicar um exame de endoscopia, que, caso identifique a bactéria, leva à necessidade de tratamento com alguns tipos de antibióticos, prevenindo assim a lesão da parede gástrica.

Por fim, como em várias áreas da ciência, o combate a outro mal do mundo atual é muito importante: as fake news. O chá verde e as vitaminas ainda não se provaram eficazes na prevenção do câncer para a população geral. Lembrando, algumas vitaminas têm indicações específicas, como pacientes desnutridos, ou aqueles com gastrite perniciosa ou mesmo para aqueles que fizeram cirurgia bariátrica.

Depois disso tudo, caso o câncer de estômago seja diagnosticado, o ideal é procurar o médico o quanto antes, pois existe tratamento, seja para o tumor localizado ou metastático. Mas lembre-se: prevenir é, sem dúvida, o melhor remédio!

COVID-19: a relação entre a obesidade e o câncer

Larissa Arial Oliveira Santos

Nutricionista

Radium – Instituto de Oncologia

 

A obesidade é um problema de saúde pública que vem crescendo consideravelmente nos últimos anos. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o percentual de pessoas obesas na população adulta passou de 12,2% para 26,8%, entre o período de 2003 a 2019.

O ganho de peso excessivo aumenta o tecido adiposo (formado por gordura), promovendo a alteração da função e estrutura das células presentes nele. Essas células, chamadas adipócitos, atraem células do sistema imunológico e, quando isso ocorre de forma exacerbada e crônica, pode levar a um estado inflamatório aumentado.

A obesidade é fator de risco para alguns tipos de cânceres, como por exemplo, o câncer de mama e o câncer de reto. Isso porque a inflamação pode aumentar a proliferação celular e contribuir para o desenvolvimento de alguns tumores.

O estado de inflamação presente em indivíduos obesos também tem sido associado a outros diversos problemas de saúde, como aumento da pressão arterial, diabetes, dislipidemias (aumento dos níveis de gordura no sangue). Essas condições clínicas que frequentemente estão associadas à obesidade são os principais fatores de risco para a gravidade da doença e mortalidade associadas à COVID-19.

Em um estudo realizado em 2020, em 88 hospitais com 7.606 pacientes internados por COVID-19, foi observado que mais de 50% da amostra tinha sobrepeso ou obesidade; e a obesidade foi o fator de maior associação com maior risco de mortalidade intra-hospitalar e ventilação mecânica quando comparados a pessoas com peso dentro do considerado normal de acordo com o Índice de Massa Corporal (IMC).

Se pensarmos num cenário de uma pessoa obesa com câncer, seria este risco aumentado? Alguns artigos científicos mostraram que pacientes com tumores hematológicos, por exemplo, podem ter um nível aumentado de inflamação, o que contribuiria para uma resposta exagerada à infecção causada pela COVID-19. Outro estudo realizado em 2020 com pacientes oncológicos observou que a taxa de admissão na Unidade de Terapia Intensiva foi maior em pacientes obesos e com tumores hematológicos, entretanto, quando avaliado o prognóstico, a obesidade não foi associada à mortalidade nestes pacientes. Todavia, a falta de dados na literatura nos leva a entender que a relação entre obesidade e câncer no contexto da COVID-19 ainda não está bem elucidada e faltam dados científicos para esclarecer melhor essa associação.

É importante ressaltar que, para pacientes oncológicos é necessário investigar além da obesidade, a composição corporal (associação entre alteração da massa muscular e adiposa) e a condição do sistema imunológico (geralmente prejudicada em pacientes em tratamento sistêmico, como a quimioterapia e, também pelo tipo de tumor, como os hematológicos) o que aumenta o risco por infecções virais oportunistas.

Enquanto há uma escassez de estudo neste assunto, deve-se enfatizar a importância de hábitos saudáveis a fim de prevenir a obesidade. Em caso de pacientes oncológicos, uma alimentação bem equilibrada e variada pode auxiliar a preservar a imunidade e prevenir possíveis infecções associadas à queda do sistema imune.

Câncer de esôfago: como ficarão as estatísticas após COVID?

Consumo de álcool, obesidade e cigarro estão diretamente relacionados ao câncer de esôfago

No Brasil, o câncer de esôfago (tubo que liga a garganta ao estômago) é o sexto mais frequente entre os homens e o 15º entre as mulheres, excetuando-se o câncer de pele não melanoma. É o oitavo mais frequente no mundo e a incidência em homens é cerca de duas vezes maior do que em mulheres.

O tipo de câncer de esôfago mais frequente é o carcinoma epidermoide escamoso, responsável por 96% dos casos. Outro tipo, o adenocarcinoma, vem aumentando significativamente. É um tipo de tumor com alta mortalidade: 8.716, sendo 6.802 homens e 1.914 mulheres (2019 – Atlas de Mortalidade por Câncer – SIM).

 

Os principais fatores de riscos relacionados ao câncer de esôfago, são:

  • O consumo de bebidas: não só o consumo regular, como também o consumo excessivo e esporádico de qualquer tipo de bebida alcóolica.
  • O excesso de gordura corporal. A obesidade também facilita o desenvolvimento da doença do refluxo gastroesofagiano (DRGE), importante fator de risco para o desenvolvimento da doença.
  • O tabagismo isoladamente é responsável por 25% dos casos de câncer de esôfago. O risco aumenta rapidamente com a quantidade de cigarros consumida. Mesmo as pessoas que já fumaram, mas interromperam, possuem risco aumentado de desenvolver este câncer quando comparadas aos que nunca fumaram.

 

Efeitos da pandemia

Uma pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais, e a Universidade Estadual de Campinas teve a finalidade de verificar como a pandemia afetou ou mudou a vida da população.

Análises das mudanças nos estilos de vida relacionados aos hábitos de fumar, consumo de bebidas alcoólicas, prática de atividades físicas e de alimentação, foram realizadas, com resultados alarmantes:

Cigarro:

  • Total da população avaliada que fumava: 12%
  • Entre os fumantes:
    • 23% aumentou em 10 cigarros o consumo diário e 5% aumentou em 5 cigarros diários.

Álcool:

  • Do total da população avaliada, 18% relatou aumento no consumo de álcool, sendo em adultos entre 30-39 anos o aumento foi de 25%.

Atividade Física:

  • Essa é uma situação extremamente alarmante, pois 62% da população relatou não estar fazendo atividade física. Entre as que faziam 3-4 vezes por semana, na pandemia 46% delas parou. E entre as que faziam 5 vezes por semana, 33% parou.
  • Antes da pandemia 35,5% faziam 150 minutos de atividades por semana, e na pandemia esse percentual caiu para 16%.

O diagnóstico de novos casos de câncer caiu até 50% no país em 2020. E passamos novamente por um terror hospitalar relacionado à COVID-19 em todo Brasil, agora em 2021.

Segundo levantamento do Radar do Câncer, do Instituto Oncoguia, as biópsias tiveram uma redução de 39,11% (de 737.804 para 449.275), entre março e dezembro do ano passado, em comparação ao mesmo período de 2019. As maiores quedas ocorreram nos meses de abril (-63,3%) e maio (-62,6%). Em outros exames de diagnóstico, como o papanicolau e a mamografia, as reduções foram de 50% e 49,81%, respectivamente. O radar reúne informações compiladas do DataSUS.

Um outro estudo da Sociedade Brasileira de Urologia em cinco grandes instituições de São Paulo, mostra uma redução média de 26% no número de novos casos de tumores de rim, próstata e bexiga, em 2020, em comparação aos diagnósticos feitos em 2019.

No HC da Unicamp, por exemplo, houve queda de 52% nos casos de câncer de bexiga, 61,04% nos de próstata e 63% nos de rim.

 

Câncer de esôfago: como ficarão as estatísticas após COVID?

O diagnóstico do câncer de esôfago é feito por meio da endoscopia digestiva, um exame que investiga o interior do tubo digestivo e permite a realização de biópsias para confirmação do diagnóstico. Quando o tumor é detectado precocemente, as chances de cura aumentam muito.

Ao analisarmos os dados do DataSUS, para o exame que pode detectar câncer de esôfago, observou-se uma diminuição de cerca de 40% em 2020 x 2019.

Diagnóstico por endoscopia realizados de acordo com o DataSUS:

2019 2.133.245

2020

1.315.531

 

Precisamos alertar a população, aproveitarmos o mês de abril: prevenção do câncer de esôfago e chamar atenção aos sintomas de alerta:

  • dificuldade ou dor ao engolir;
  • dor retroesternal (atrás do osso do meio do peito);
  • dor torácica;
  • refluxo;
  • sensação de obstrução à passagem do alimento;
  • náuseas, vômitos e perda do apetite.

Sabemos do caos hospitalar, mas o câncer e outras doenças não esperam!

Abril: mês de conscientização sobre câncer de testículo

Abril é o mês de conscientização sobre câncer de testículo. É sabido que se trata de um tipo de câncer raro, que responde por aproximadamente 2 a 3% de todos os canceres em homens. Entretanto, é um tumor que frequentemente acomete pacientes jovens (entre 20-40 anos), que pode ser agressivo e que, por isso, deve ser diagnosticado o mais precocemente possível.

Na maioria das vezes, o câncer de testículo se manifesta por um caroço no órgão (que pode ou não doer) e que altera as suas características (tamanho, consistência e cor). O exame clínico do testículo pode facilmente detectar tais alterações e deflagrar o processo de investigação e diagnóstico. Entretanto, a palpação do órgão genital masculino é vista por muitos homens como um motivo de vergonha; por isso, existe uma tendência em hesitar a procura do médico logo no início dos sintomas, o que pode atrasar a detecção precoce de um possível câncer. Não incomumente, a parceira do paciente é a responsável por notar as alterações descritas anteriormente e incentivar que ele procure um médico.

O principal fator de risco para o desenvolvimento de câncer de testículo é a criptorquidia, popularmente conhecida como o “testículo que não desceu” ou “mal posicionado”. A criptorquidia é quando se tem a ausência ou a não localização do testículo na bolsa escrotal. Esta condição pode aumentar de 3 a 5% a chance de desenvolver o câncer do testículo e geralmente é reconhecida desde o nascimento, podendo ser acompanhada por um médico urologista.

O câncer de testículo já foi pauta da mídia quando atletas internacionalmente conhecidos do mundo do basquete, futebol e ciclismo tiveram o diagnóstico. A fama foi temporária e ele ainda é lembrado por ser um câncer raro, o que pode gerar a falsa impressão de que ele não existe. É importante ressaltar que o câncer de testículo, quando diagnosticado em estágios iniciais, é potencialmente curável com a cirurgia de retirada do órgão acometido. A quimioterapia pode ser necessária para complementar o tratamento e aumentar o percentual de cura, reduzindo as chances de recidiva da doença. Até mesmo quando o câncer se apresenta com metástases em outros órgãos, o tratamento com quimioterapia tem grande eficácia e pode controlar a doença por um longo período.

Em resumo: é de extrema importância conscientizar a população masculina sobre a existência e as características do câncer de testículo. O diagnóstico precoce possibilita a cura na maioria dos casos e, por isso, os homens devem ser incentivados a procurar um médico ao primeiro sinal que gere a suspeita deste câncer.

11 de março: Dia Mundial do Rim

Ponto importante a ser destacado é que a incidência do câncer de rim aumentou três vezes mais do que a mortalidade, pois o diagnóstico tem sido cada vez mais precoce

No dia 11 de março de 2021, será celebrado o Dia Mundial do Rim, com uma campanha que visa à conscientização sobre a doença renal crônica (DRC), com orientações de como lidar com os principais sintomas e ter uma melhor qualidade de vida, promovendo a inclusão mais afirmativa desses indivíduos na sociedade. O tema deste ano é “Vivendo bem com a doença renal” e o evento é promovido mundialmente pela Sociedade Internacional de Nefrologia e, no Brasil, pela Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN).

A agenda de eventos relacionados ao Dia Mundial do Rim abrange mais de 700 atividades, incluindo a iluminação do Cristo Redentor (Rio de Janeiro-RJ) e do Elevador Lacerda (Salvador-BA) e uma audiência pública no Senado Federal, sempre respeitando os protocolos para prevenção da transmissão da COVID-19. A divulgação se dará através de rádios, influenciadores digitais e programas de televisão. Como novidade, haverá a disponibilização de episódios de podcasts e videoaulas da Semana da Nefrologia pelas das redes sociais da SBN.

A DRC é a falha do funcionamento dos rins por três meses ou mais, sendo muitas vezes irreversível, mas, geralmente, controlável. O rim é um órgão multifuncional, sendo o responsável por controlar a pressão arterial, filtrar impurezas do sangue, regular o equilíbrio de sal e água do corpo, promover a proliferação de células do sangue, evitando a anemia, dentre outras funções. Hoje, 10% da população tem alguma disfunção renal e os números seguem aumentando.

Um grande problema é que a DRC é uma doença silenciosa e, portanto, o diagnóstico geralmente é tardio, em estágio avançado, o que leva à necessidade de diálise e/ou transplante renal. Com isso em vista, o diagnóstico precoce é crucial para que a doença seja controlada em seu início e não evolua para consequências tão graves. Os maiores fatores de risco são a hipertensão arterial, a diabetes, a obesidade, o tabagismo e história familiar de doença renal ou cardiovascular.

A prevenção da DRC inclui não só o controle das comorbidades citadas acima, mas também evitar tomar medicações sem prescrição médica, beber água ao longo do dia e fazer acompanhamento médico regular. Em algumas situações, pode ser indicada a coleta de exames de creatinina e/ ou de urina, que podem detectar alterações renais de forma incipiente.

Nesse contexto, apesar de não ser o foco da campanha, vamos falar também sobre o câncer de rim, que acomete 403.000 e mata 175.000 pessoas por ano no mundo. Infelizmente, o Brasil não tem dados oficiais, nem divulga a estimativa de câncer renal no país. A maioria são homens por volta dos 64 anos. Dos pacientes diagnosticados, 16% apresentam-se com metástases desde o início e 25% morrem em 5 anos – um número alto, mas que apresentou redução de quase 70% nas últimas 5 décadas.

Um ponto importante a ser destacado é que a incidência aumentou três vezes mais do que a mortalidade, pois o diagnóstico tem sido cada vez mais precoce, em consequência do uso mais corriqueiro de exames de imagem como tomografia ou ressonância. Entretanto, apesar destes exames muitas vezes detectarem o tumor renal, não há indicação de rastreamento populacional para câncer de rim, ou seja, pacientes sem sintomas suspeitos não devem fazer exames de imagem para detectar a neoplasia mais cedo, como acontece, por exemplo, com o a mamografia no câncer de mama.

E o que aumenta a chance de alguém ter câncer de rim? A esmagadora maioria das neoplasias renais ocorrem ao acaso, ou seja, sem um fator causal definido. Os fatores de risco não são tão relevantes como em outros tumores, mas o que se sabe é que o tabagismo aumenta o risco em 30% de desenvolver a doença e, ademais, leva a diagnósticos em estágios mais avançado. O uso de anti-inflamatórios também é outro fator importante, porém muitas vezes relevado pela população. Alguns estudos sugerem um aumento de até 51% no risco de câncer de rim em consequência do uso rotineiro e crônico dessa classe de medicação. Obesidade, doença policística renal, hipertensão e exposição a asbesto e gasolina são outros contribuintes que devem ser evitados.  Sendo assim, a prevenção do câncer renal é baseada em evitar os fatores de risco já conhecidos para outros tumores e para a própria DRC.

Bom saber, mas e quais são os principais sintomas do câncer renal? Em geral, a doença é assintomática até se tornar avançada, o que, como já dito, dificulta o diagnóstico precoce. O quadro clínico geralmente inclui um ou mais dos seguintes: hematúria (sangue na urina), dor/massa abdominal e perda de peso. Entretanto, apenas 9% dos pacientes têm os 3 sintomas conjuntamente. Além disso, o indivíduo pode apresentar sinais como anemia e hipercalcemia, o que denota um quadro mais avançado.

Depois de receber o diagnóstico, há tratamento? Sim, sem dúvida! O câncer de rim, quando descoberto precocemente e limitado ao órgão, tem altas taxas de cura com a cirurgia, que é o tratamento indicado – quando factível – em virtualmente todos os casos. Já quando a doença é avançada, seja por não ser ressecável ou por ter metástases, o tratamento torna-se sistêmico, com uso de medicações diversas, principalmente terapias-alvo e imunoterapia. Notadamente, o tratamento desse tipo de neoplasia não costuma incluir quimioterapia convencional, visto que esta é pouco efetiva para o controle tumoral.

Vimos então que o Dia Mundial do Rim promove a conscientização sobre as doenças renais, melhorando assim a qualidade de vida das pessoas. Não só isso, enseja o alerta também para o câncer de rim e suas peculiaridades. O que devemos tirar disso tudo é que o controle de comorbidades (como obesidade e tabagismo), o uso correto de medicações e o acompanhamento médico regular são atitudes que podem ajudar a prevenir problemas renais e ajudar a vivermos mais e melhor!

 

Referências:

https://www.sbn.org.br/dia-mundial-do-rim/dia-mundial-do-rim-2021/sobre/

https://www.pro-renal.org.br/2021/02/01/dia-mundial-do-rim-2/

https://www.inca.gov.br/estimativa

uptodate.com

Dia Internacional da Mulher na pandemia da COVID-19: liderança para um mundo mais igualitário

A ideia de criar o Dia da Mulher surgiu no final do Século XIX, nos Estados Unidos e na Europa, no contexto das lutas femininas por melhores condições de vida e de trabalho, além do direito de voto. Assim, a ONU designou o ano de 1975 como o Ano Internacional da Mulher. Em dezembro de 1977, o Dia Internacional da Mulher foi adotado pelas Nações Unidas para lembrar as conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres. Neste ano de 2021, o tema para o Dia Internacional da Mulher é: “Mulheres na liderança: alcançando um futuro igual em um mundo COVID-19”. O tema celebra os enormes esforços de mulheres e meninas em todo o mundo para moldar um futuro mais igualitário e a recuperação da pandemia da COVID-19.

As mulheres estão na vanguarda da batalha contra a COVID-19 como trabalhadoras da linha de frente e do setor de saúde, como cientistas, como profissionais de saúde e cuidadoras e agentes comunitárias. Porém, recebem – de maneira geral – 11% a menos do que seus colegas homens. Uma análise das equipes de combate a COVID-19 de 87 países revelou que apenas 3,5% delas tinham paridade de gênero 1

Além de estarem na linha de frente da crise da COVID-19, as mulheres representam alguns dos líderes nacionais mais exemplares e eficazes no combate à pandemia. Da Nova Zelândia à Alemanha, Taiwan ou Noruega, alguns países liderados por mulheres tem as menores taxas de óbitos pela COVID-19. De maneira geral, as mulheres representam 70% dos profissionais de saúde em todo o mundo. Em 2018, na política eram apenas 10 dos 153 chefes de Estado eleitos, de acordo com a União Interparlamentar.

Embora também haja diversos fatores sociais e econômicos implicados no bom desempenho destes países no enfrentamento à pandemia, também as trajetórias sociais destas líderes as diferencia. Condutas como resposta precoce, diversidade na tomada de decisões, comunicações transparentes e diretas são alguns exemplos.

A crise destacou tanto a centralidade e objetividade de suas contribuições quanto os fardos desproporcionais que as mulheres carregam. A pandemia está levando mais sobrecarga de trabalho para as mulheres no mundo todo. Mulheres são mais impactadas que os homens pela sobrecarga de trabalho. Dados do Brasil (IBGE/2019) indicam que a dupla jornada incide sobre a mulher, que semanalmente, na média, se dedica 18,5 horas ao cuidado da casa, crianças e idosos. Já a média dos homens é somente 10,3 horas semanais. Neste momento de pandemia com muitas famílias com vários membros em home office e muitas crianças sem frequentar regularmente a escola, percebe-se um acúmulo de tarefas e enorme sobrecarga de muitas mulheres.

Por que a sobrecarga de trabalho é maior para as mulheres? A desigualdade de gênero fica mais intensa neste momento de pandemia, já que estão diretamente na linha de frente da resposta e assumem custos físicos e emocionais. Devido à saturação dos sistemas de saúde e ao fechamento das escolas, as mulheres assumem o cuidado e a responsabilidade de familiares doentes, pessoas idosas e crianças3.

Assim, vamos celebrar este 8 de março de 2021, Dia Internacional da Mulher, no segundo ano de uma pandemia sem precedentes, refletindo sobre como melhorar a dinâmica de gênero, começando no local mais próximo possível, qual seja, na divisão mais igualitária das tarefas em casa. Simples assim!

 

Referências:

1 https://www.unwomen.org/en/news/in-focus/international-womens-day

2 https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52376867

3 https://www.onumulheres.org.br/wp-content/uploads/2020/03/ONU-MULHERES-COVID19_LAC.pdf

Prevenção do câncer de colo uterino

No panorama global atual das neoplasias malignas, o câncer de colo uterino é o quarto tipo de câncer mais comumente diagnosticado entre as mulheres, e a terceira causa de morte por câncer entre as mulheres. Anualmente, cerca de 311.000 mulheres morrem por câncer de colo uterino, sendo que aproximadamente 90% dessas mortes ocorrem em países de média a baixa renda. No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer estima para o triênio de 2020 a 2022 uma média 16.000 novos casos de câncer de colo uterino por ano, representando o terceiro câncer mais comum entre as mulheres brasileiras.

Apesar desse cenário, o câncer de colo uterino é uma doença evitável. Além disso, é potencialmente curável, quando diagnosticado precocemente e tratado de forma adequada. No ano de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou uma campanha mundial para o aceleramento da eliminação do câncer de colo uterino, com o compromisso de 194 países para a adoção de medidas que visam atingir esse objetivo. Tais medidas devem ser atingidas até o ano de 2030, com o objetivo de atingir uma incidência de no máximo 4 casos por 100.000 mulheres, fazendo com que o câncer de colo uterino deixe de ser um problema de saúde pública. Em estudo publicado recentemente, com base em uma análise de 78 países de baixa e média renda, estimou-se que, caso as metas da OMS sejam alcançadas, até o ano de 2120 serão evitadas quase 61 milhões de mortes por câncer de colo uterino. Ao longo dos próximos 10 anos, quase metade das mortes evitadas ocorreria na África sub-Sahariana.

 

Papilomavírus Humano (HPV)

O câncer de colo uterino é causado por uma infecção viral sexualmente transmissível. O vírus responsável é chamado papilomavírus humano (HPV), um vírus de DNA que apresenta mais de 200 sorotipos. Dentre eles, 14 tipos são causadores de câncer, sendo denominados de “alto risco”. Os tipos mais comumente associados ao câncer de colo uterino são o 16 e o 18, responsáveis por cerca de 70% dos casos desse tipo de câncer. A grande maioria das pessoas será infectada pelo HPV em algum momento da vida, sendo o maior pico de infecção logo após o início da vida sexual ativa. Além disso, sabe-se que algumas pessoas sofrerão infecções repetidas.

Frequentemente, a infecção pelo HPV sofre resolução espontânea, em um período que pode chegar a dois anos. No entanto, em alguns casos, a infecção pode persistir e levar ao desenvolvimento de lesões precursoras e, eventualmente, o câncer de colo uterino. O tempo médio entre a infecção e o desenvolvimento do câncer de colo uterino é de 15-20 anos. Existem alguns fatores de risco que estão associados a aumento do risco de persistência da infecção pelo HPV e, consequentemente, do desenvolvimento do câncer. São eles: deficiências do sistema imune, tabagismo (ativo e passivo), e concomitância de outras infecções sexualmente transmissíveis (como gonorreia e clamídia).

 

Estratégias de prevenção

A prevenção do câncer de colo uterino envolve a tomada de ações com o objetivo de reduzir o risco de desenvolvimento da doença. Com isso, é possível reduzir o número de novos casos da doença e, em última instância, reduzir também o número de mortes causadas pelo câncer em questão. O conhecimento da história natural da doença (Figura 1), incluindo sua causa infecciosa, os fatores de risco (deficiência imunológica, tabagismo, entre outros), o tempo para desenvolvimento de lesões precursoras e do câncer propriamente dito permitiu o delineamento de medidas que podem ser adotadas ao longo da vida da mulher, capazes de prevenir a doença.

Figura 1. História natural do desenvolvimento do câncer de colo uterino. Fonte: OPAS/OMS, 2013

As medidas de prevenção do desenvolvimento do câncer de colo uterino baseiam-se em dois pilares:

 

  1. Prevenção da infecção pelo HPV

A primeira vacina contra o HPV foi aprovada nos Estados Unidos da América (EUA) em 2006, pela Food and Drug Administration (FDA). Trata-se de uma vacina quadrivalente, que garante proteção contra os sorotipos 6, 11, 16 e 18. Mais recentemente, em 2014, foi aprovada nos EUA uma vacina nonavalente, que protege contra 9 sorotipos de HPV. No Brasil, a vacina quadrivalente foi introduzida no Programa Nacional de Imunização (PNI) no ano de 2014, inicialmente recomendada para meninas com idade entre 9 e 13 anos e, posteriormente, para meninos com idade de 11 a 13 anos.

As vacinas quadrivalente e nonavalente são capazes de prevenir mais de 95% das infecções pelo HPV tipos 16 e 18, mas também oferecem proteção cruzada com outros tipos menos comuns. A recomendação é que a vacina seja administrada antes do primeiro contato com o vírus, por isso a faixa etária recomendada no início da puberdade. Isso se deve ao fato de que o resultado obtido com a vacinação é melhor quando a menina ou o menino ainda não tiveram contato com o vírus.

Recomenda-se a aplicação de duas doses da vacina, com intervalo de seis meses. A Sociedade Brasileira de Imunizações recomenda que uma terceira dose (com intervalo de seis meses após a segunda) seja aplicada para aqueles adolescentes que recebem a primeira dose após os 15 anos. Outro grupo de meninas/mulheres nas quais se recomenda aplicação de uma terceira dose são aquelas infectadas pelo HIV. O esquema vacinal inicial, que foi adotado por diversos países, consistia na aplicação de 3 doses em um período de 6 meses (0, 1-2, 6 meses). No entanto, estudos posteriores mostraram que a quantidade de anticorpos produzida não era inferior quando se empregava um esquema de duas doses com intervalo de 6 meses. Uma estratégia que vem sendo adotada em alguns países consiste na aplicação de uma terceira dose após um intervalo de cinco anos desde a primeira dose, pois parece fornecer uma resposta imunológica mais sustentada ao longo do tempo.

As vacinas contra o HPV são bastante seguras. Os dados de ocorrência de efeitos colaterais são monitorados continuamente, não tendo sido identificadas reações graves e que causem preocupação.

 

  1. Detecção precoce e tratamento de lesões precursoras

O segundo pilar na prevenção do câncer de colo uterino baseia-se no rastreamento do câncer de colo uterino. A história do rastreamento começou no final da década de 1920, quando o patologista grego radicado nos EUA George Nicholas Papanicolaou publicou os resultados de seus estudos na diferenciação entre células normais e células cancerosas a partir de uma amostra coletada do colo uterino e colocada em uma lâmina de microscópio. Porém, somente após a publicação de seu célebre livro na década de 1940 que o teste – hoje conhecido pelo seu sobrenome – se tornou o padrão para rastreamento do câncer de colo uterino. Por ser um teste barato e de fácil coleta, foi rapidamente e amplamente implementado, levando à redução na incidência do câncer de colo uterino.

Mas em que consiste o rastreamento? O rastreamento refere-se à aplicação de um teste diagnóstico em pessoas sem sintomas da doença. O objetivo é detectar lesões precursoras de câncer ou mesmo o câncer, porém nos seus estágios mais iniciais. Atualmente, dispomos de três medidas para rastreamento: a. exame de Papanicolaou; b. inspeção visual do colo uterino com aplicação de ácido acético; c. exame para detecção de infecção por HPV de alto risco. A recomendação da OMS é de que todas as mulheres sejam submetidas a no mínimo um exame de rastreamento entre os 30 e 49 anos de idade.

No Brasil, o programa nacional de rastreamento está baseado principalmente na realização do exame de Papanicolaou, em um modelo oportunístico. Isso significa que as mulheres não são convocadas ativamente para serem submetidas ao exame, e sim aproveita-se a visita delas a uma unidade de saúde por outros motivos, para se oferecer o exame. A recomendação é de que o rastreamento seja iniciado aos 25 anos, sendo realizados dois exames com intervalo de um ano. Se ambos os exames forem negativos, os exames seguintes podem ser realizados a cada três anos. O rastreamento deve ser mantido até os 64 anos.

Inúmeros estudos evidenciam que os métodos de rastreamento são capazes de detectar as lesões precursoras de câncer de colo uterino, criando a oportunidade para que elas sejam tratadas e, com isso, evitamos que elas evoluam para o câncer. O tratamento dessas lesões é capaz de evitar a maioria dos casos de câncer de colo uterino. Por isso, o rastreamento deve sempre estar atrelado ao fornecimento de tratamento adequado.

Como vimos, a vacinação contra o HPV é altamente eficaz na prevenção da infecção pelo HPV, um vírus responsável pela grande maioria dos casos de câncer de colo uterino. Considerando-se o longo período para desenvolvimento da doença, após a infecção inicial, entendemos que o efeito da vacinação será percebido em 20-30 anos. Por esse motivo, o rastreamento do câncer de colo uterino deve ser reforçado, mesmo nos países que implementem a vacinação.

O programa da OMS para o aceleramento da eliminação do câncer de colo uterino envolve três medidas:

  1. Cobertura de vacinação de 90% das meninas até os 15 anos
  2. Cobertura de rastreamento do câncer de colo uterino de 70%, aos 35 anos e aos 45 anos, com testes adequados e de qualidade
  3. Garantia de que 90% das mulheres com doença de colo uterino (lesões precursoras ou câncer) recebam tratamento adequado e em tempo hábil

Em 2020, pesquisadores publicaram uma análise de modelos estatísticos considerando 78 países de baixa e média renda para a avaliação dos resultados de longo prazo da associação da vacinação contra HPV ao rastreamento. Estimou-se que quando realizada apenas a vacinação, 60% dos países atingiriam uma incidência de até 4 casos/100.000 mulheres (o alvo definido pela OMS). A combinação com o exame de rastreamento elevou essa porcentagem de países para 99%. Além disso, a eliminação do câncer de colo uterino seria alcançada 11-31 anos antes com a estratégia combinada (vacinação + rastreamento), quando comparada à vacinação apenas.

 

Referências

  1. International Agency for Research on Cancer. GLOBOCAN. Cancer today n.d. http://gco.iarc.fr/today. Acessado em 22 de fevereiro de 2021.
  2. Arbyn M, Weiderpass E, Bruni L, et al. Estimates of incidence and mortality of cervical cancer in 2018: a worldwide analysis. Lancet Glob Health. 2020;8(2):e191-e203.
  3. World Health Organization. Human papillomavirus (HPV) and cervical cancer.. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/human-papillomavirus-(hpv)-and-cervical-cancer. Acessado em 22 de fevereiro de 2021.
  4. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estatísticas de câncer. Disponível em: https://www.inca.gov.br/numeros-de-cancer. Acessado em 22 de fevereiro de 2021.
  5. Canfell K, Kim JJ, Brisson M, et al. Mortality impact of achieving WHO cervical cancer elimination targets: a comparative modelling analysis in 78 low-income and lower-middle-income countries. Lancet. 2020;395:591-603.
  6. Organização Pan-Americana da Saúde. Nota de orientação da OPAS/OMS: prevenção e controle de amplo alcance do câncer de colo do útero: um futuro mais saudável para meninas e mulheres. Washington, DC: OPAS, 2013.
  7. Programa Nacional de Imunizações. Ministério da Saúde. Calendário Nacional de Vacinação. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z-1/c/calendario-de-vacinacao. Acessado em 25 de fevereiro de 2021.
  8. Yong Tan S, Tatsumura Y. George Papanicolaou (1883-1962): discoverer of the Pap smear. Singapore Med J. 2015;56(10):586-7.
  9. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA). Coordenação de Prevenção e Vigilância. Divisão de Detecção Precoce e Apoio à Organização de Rede. Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer de colo uterino. 2. Ed. Rio de Janeiro: INCA, 2016.
  10. Brisson M, Kim JJ, Canfell K, et al. Impact of HPV vaccination and cervical screening on cervical cancer elimination: a comparative modelling analysis in 78 low-income and lower-middle-income countries. Lancet. 2020;395:575-90.

O câncer não espera! Março: mês de conscientização do câncer colorretal

Dentre todos os tumores, o câncer colorretal merece uma atenção especial. Atualmente, é o terceiro tumor mais frequente e a segunda maior causa de morte por câncer no mundo. O mês de março foi escolhido para conscientização e prevenção deste câncer, considerado um tumor evitável em uma grande parcela dos casos e quase sempre curável quando diagnosticado em estágios iniciais.

O Instituto Nacional do Câncer (INCA) estima 20.520 casos novos em homens e 20.470 casos em mulheres para ano de 2021, representando o segundo tumor mais frequente nos homens e também nas mulheres. Vale ressaltar que, mesmo dentro do Brasil, a incidência é variável de acordo com as regiões do nosso território. Nas regiões Sudeste e Sul, o tumor é mais frequente quando comparados com as regiões Norte e Nordeste. Essa diferença pode ser explicada porque o câncer colorretal está diretamente relacionado aos hábitos de vida como excesso de alimentos industrializados, sedentarismo e obesidade. Além disso, o acesso aos exames diagnósticos pode contribuir para essa disparidade.

Este tipo de câncer ocorre geralmente após os 50 anos, com predomínio na população idosa. Entretanto, um estudo divulgado pela American Cancer Society mostrou dados intrigantes. Revelou que na população norte-americana ocorreu uma redução no número de casos de câncer colorretal nas últimas décadas, porém um aumento em adultos jovens. A taxa de novos casos de câncer de cólon aumentou de 1 a 2,4% por ano desde meados da década de 1980 em adultos de 20 a 39 anos, e de 0,5 a 1,3% desde meados de 1990 em adultos de 40 a 50 anos. O aumento na taxa de câncer de reto foi ainda mais expressivo, 3,2% por anos de 1974 a 2013 em adultos de 20 a 29 anos. Essa alteração na faixa etária pode ser justificada pela mudança do estilo de vida do mundo atual, principalmente nos países mais desenvolvidos.

Mas é possível evitar esse tipo de câncer?  Na maioria dos casos sim. A predisposição genética individual para se desenvolver um câncer ainda não pode ser modificada, porém a minoria dos canceres tem origem hereditária. Sabemos que evitar a exposição aos fatores risco pode reduzir de forma significativa as chances de ter um câncer de intestino. Por isso, manter um estilo de vida saudável com atividade física no mínimo três vezes por semana, manter peso adequado, realizar dieta rica em fibras, evitar o tabagismo, etilismo e excesso de carne vermelha e embutidos, além de realizar os exames preventivos, é o que – ativamente – podemos fazer para mudar a nossa história.

Os principais sintomas do câncer de cólon e do reto são: dor abdominal, sangramento nas fezes, alteração do hábito intestinal (diarreia ou constipação) ou perda de peso, porém, infelizmente, quando esses sintomas estão presentes o tumor já está mais avançado e as chances de cura são menores. Logo, é de fundamental importância realizar os exames de rastreamento. Estes são exames realizados em pessoas assintomáticos, com intuito de diagnosticar lesões pré-malignas ou tumores iniciais, aumentando, assim, as chances de cura e reduzindo a agressividade do tratamento.  No Brasil, está indicado o rastreamento na população entre 50 a 74 anos, sendo a colonoscopia o exame de preferência.

Estamos passando por um grande desafio que é o combate à pandemia de COVID-19. Todos estamos focados em vencer essa batalha respeitando o isolamento social e tomando as medidas de proteção pessoal, porém não podemos esquecer que o câncer colorretal continua muito frequente e não espera.  Sendo assim, vamos aproveitar o mês de março para nos prevenir desse câncer e cuidar do que mais importa, a nossa saúde.