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Leucemia: informações importantes para população

Lorena Bedotti Ribeiro

CRM: 158.055

Hematologista

 

A medula óssea é o local de fabricação das células sanguíneas. Na medula óssea saudável as células-tronco nascem, amadurecem e passam por um processo de diferenciação, formando os diversos tipos de células do sangue: glóbulos brancos (leucócitos), glóbulos vermelhos (hemácias) e plaquetas.

As leucemias são cânceres hematológicos decorrentes de mutações genéticas nas células-tronco da medula óssea, gerando glóbulos brancos doentes que não funcionam normalmente, se multiplicam mais rápido e morrem menos, atrapalhando a produção saudável das demais células da medula.

Podem ser classificadas em crônicas ou agudas conforme a velocidade de crescimento das células leucêmicas. Quando crônica há produção de células maduras, capazes de realizar algumas funções normais, progredindo lentamente.  Quando aguda, produz células imaturas, incapazes de realizar suas funções normais, progredindo rapidamente. Sua classificação também depende do tipo de glóbulo branco acometido podendo ser mieloides ou linfoides. Tipos:

  • Leucemia Mieloide Crônica (LMC)
  • Leucemia Linfocítica Crônica (LLC)
  • Leucemia Mieloide Aguda (LMA)
  • Leucemia Linfoblástica Aguda (LLA)

 

Pelo site do INCA, em 2020 foram diagnosticados 10.810 casos novos de leucemia no Brasil, sendo 5.920 em homens e 4.890 em mulheres.

Podem apresentar como fatores de risco a exposição a produtos químicos e irradiação, tratamento prévio de outros cânceres, exposição a cigarro e desordens genéticas. Vale ressaltar que a maioria dos casos não apresentam fatores de risco conhecidos, não podendo ser evitados.

Podem apresentar como sintomas fraqueza, cansaço, tontura, palidez, inapetência, perda de peso, falta de ar, febre, suor a noite, dor óssea, hematomas e sangramentos, infecções, aumento do baço, do fígado e dos linfonodos (ínguas).

Para diagnóstico, são realizados exames com coleta de sangue e/ou punção da medula óssea, como hemograma, mielograma, imunofenotipagem por citometria de fluxo, citogenética, testes moleculares, FISH, biópsia de medula. Tomografias computadorizadas, ressonâncias magnéticas e punção lombar para coleta de líquor também podem ser necessárias.

O tipo de tratamento e a duração vão depender do tipo de leucemia, podendo ser feito com quimioterapia (injetável ou oral), terapias-alvo (substâncias que bloqueiam proteínas ou moléculas envolvidas no crescimento das células cancerígenas), radioterapia, transplante de medula óssea e imunoterapia (anticorpos monoclonais ou CAR T cell).

O diagnóstico precoce proporciona melhores resultados no tratamento, sendo indicada avaliação médica em todo paciente com quadro clínico sugestivo.

 

Mamografia: em todas as idades?

O câncer de mama é o tumor mais frequente entre as mulheres no Brasil e no mundo. É também a primeira causa de morte por câncer no Brasil e no mundo. Dados de países com alta renda demostram uma queda de mortalidade atribuída aos programas de rastreamento e terapias mais efetivas. No Brasil não observamos diminuição da mortalidade por câncer de mama. A dificuldade de acesso aos tratamentos e o diagnóstico tardio podem ser as causas.

Em que idade começar o rastreamento?

É importante não esquecermos: a mamografia é o único exame que, quando realizado rotineiramente pela mulher a partir dos 40 anos, na ausência de quaisquer sintomas nas mamas, diminui o risco de falecer por um câncer de mama. Isso foi comprovado em grandes estudos realizados em mais de 500 mil mulheres, com redução da mortalidade entre 10% e 35% no grupo de mulheres que faziam mamografias regularmente comparada às que não faziam. A ultrassonografia e a ressonância magnética podem complementar o rastreamento, especialmente em mulheres de alto risco ou com mamas densas.

No Brasil, as sociedades médicas recomendam o rastreamento mamográfico anual para as mulheres entre 40 a 75 anos. Temos uma proporção maior de diagnósticos em pacientes jovens do que em outros países, como Alemanha e Estados Unidos, com 41% de pacientes com diagnóstico de câncer de mama em idade inferior a 50 anos. Já o Ministério da Saúde indica a mamografia de rastreamento para mulheres de 50 a 69 anos sem sinais e sintomas de câncer de mama, a cada dois anos. A mamografia diagnóstica, diferente da mamografia de rastreamento, é indicada para avaliar lesões mamárias suspeitas e pode ser realizada em qualquer idade, inclusive em homens. A mamografia de rastreamento é para mulheres assintomáticas, já a mamografia diagnóstica é indicada quando há uma lesão mamária suspeita.

Nenhum teste de rastreamento é perfeito e a mamografia não é exceção. Fatores como a densidade mamária e a idade influenciam a efetividade da mamografia, dificultando a detecção dos tumores. A mamografia de rastreamento é menos efetiva em mulheres mais jovens por possuírem mamas mais densas. Em torno de 25% dos cânceres de mama em mulheres entre 40-49 anos não são detectados pela mamografia. Em mulheres com lesões suspeitas e especialmente com nódulos palpáveis, a investigação rápida com avaliação, mamografia, ultrassonografia e, se indicado biopsia, são primordiais para um diagnóstico precoce.

 

Em que idade parar o rastreamento?

Como recomendação, a mamografia de rastreamento em mulheres com mais de 75 anos deveria ser interrompida. Os benefícios do rastreamento mamográfico com diminuição de risco de morte nesta faixa etária não foi demonstrado. A maioria dos tumores em mulheres idosas tem crescimento lento, podendo não afetar a expectativa de vida e, assim, não impactar na mortalidade. O recomendado, em casos selecionados, é uma avaliação individual, se possível de acordo com a saúde e doenças existentes que impactam na expectativa de vida de cada mulher. Segundo o IBGE a expectativa de vida dos brasileiros vem aumentando e a das mulheres é 80,3 anos. Temos, portanto, uma população cada vez mais idosa e com melhor expectativa de vida. Assim, o seguimento com mamografia de rastreamento deveria ser descontinuado em mulheres com expectativa de vida menor que 5 anos e avaliada individualmente em mulheres acima de 75 anos.

Além da importância da vacinação contra a COVID-19, saiba porque vacinar contra o HPV é fundamental para prevenir o câncer de colo uterino

No ano de 1989, durante um período sabático na Universidade de Cambridge, o médico e imunologista Ian H. Frazer conheceu o virologista chinês Dr. Jian Zhou, ambos interessados no estudo do papilomavírus humano (HPV). Foi o início de uma parceria que levou o Dr Jian a se mudar para a Austrália menos de um ano após esse encontro para trabalharem juntos no desenvolvimento de modelos laboratoriais de HPV. Dezessete anos depois, em 2006, a primeira dose de uma vacina contra o HPV era administrada na Austrália, marcando um importante momento para todas as mulheres ao redor do mundo.

A associação entre a infecção pelo HPV e o desenvolvimento de câncer em seres humanos foi inicialmente sugerida na década de 1970 e, cerca de 13 anos depois, pesquisadores conseguiram demonstrar em laboratório que o vírus era capaz de transformar diferentes tipos de células em células com capacidade de desenvolver tumores. Foi o primeiro vírus causador de câncer descrito. Desde então, a associação entre a infecção pelo HPV e o desenvolvimento de diversos outros tumores foi também estabelecida. E, se nós conhecemos a causa de uma doença, temos nas mãos uma ferramenta essencial para a sua prevenção.

 

Hoje, o câncer de colo uterino ocupa a quarta posição entre os cânceres mais frequentemente diagnosticados em mulheres e representa a terceira causa de morte por câncer entre elas. A cada ano, mais de 300.000 mulheres em todo o mundo morrem em decorrência desse tipo de câncer e cerca de 90% dessas mortes ocorrem em países de média e baixa renda. Trazendo o foco para o Brasil, estima-se que a cada ano mais de 16.000 mulheres são diagnosticadas com câncer de colo uterino. No ano de 2019, mais de 6.500 mulheres morreram em decorrência dessa doença. E, embora tenhamos observado redução significativa no número de novos casos de câncer de colo uterino no Brasil, nos últimos 20 anos, ainda persistem importantes diferenças regionais. E, tão surpreendente quanto esses números, é o fato de que o câncer de colo uterino pode ser evitado.

No final de 2020, a OMS lançou um projeto global ambicioso com o objetivo de acelerar o processo para a eliminação do câncer de colo uterino. O alvo a ser atingido até o ano de 2030 é garantir a vacinação de 90% das meninas contra o HPV antes dos 15 anos de idade, o rastreamento de 70% das mulheres, e o tratamento adequado e em tempo hábil para os casos de lesões precursoras (pré-cancerosas) e de câncer propriamente dito. A OMS estima que, se atingirmos esses três objetivos, seremos capazes de reduzir em 40% o número de novos casos de câncer de colo uterino e evitar 5 milhões de mortes pela doença até o ano de 2050.

De fato, um grupo de pesquisadores colaboradores da OMS conduziram estudo no qual empregaram modelos estatísticos para estimar a viabilidade e o tempo para eliminação do câncer de colo uterino em 78 países de média e baixa renda, de acordo com a adoção do rastreamento e da vacinação contra o HPV. Segundo esse estudo, se tais países conseguirem vacinar 90% das meninas haveria uma redução de 89% no número de casos novos da doença nos próximos 100 anos. Essa redução é muito mais significativa se associamos o rastreamento, resultando no diagnóstico de menos de 1 caso por cada 100.000 mulheres a cada ano. Obviamente tais modelos estatísticos apresentam limitações, mas o que essas estimativas nos mostram é que é possível reduzirmos drasticamente a ocorrência do câncer de colo uterino a níveis de quase erradicação.

No Brasil, estratégias de saúde pública para combate ao câncer de colo uterino vêm sendo desenvolvidas desde a década de 1980, sendo reforçadas a partir de meados da década seguinte. Inicialmente baseado na realização dos testes de rastreamento de Papanicolaou (citologia oncótica do colo uterino), que são realizados de forma oportunista quando a mulher procura uma unidade de atenção básica para a realização do teste ou por outros motivos. Outros métodos de rastreamento, incluindo a pesquisa de material genético do HPV, já existem e estudos estão sendo conduzidos analisando a viabilidade de sua utilização no programa do Sistema Único de Saúde (SUS).

A vacina contra o HPV já está disponível no Brasil e incluída no Programa Nacional de Imunização desde 2014. A vacina administrada é a chamada tetravalente, e tem cobertura principalmente contra quatro cepas de HPV sabidamente causadores de câncer: 6, 11, 16 e 18. Além disso, ela é capaz de oferecer certo grau de proteção cruzada contra outras cepas menos comuns. Inicialmente, a vacina estava recomendada apenas para meninas de 9 a 13 anos, porém em 2017 a vacinação foi expandida para incluir também os meninos de 11 a 13 anos. A vacinação dos meninos, além de proteger contra certos tipos de câncer associados ao HPV, também evita que eles sejam portadores assintomáticos do vírus e possam transmitir o HPV para outras pessoas durante a relação sexual sem proteção.

Nos primeiros seis meses de implementação da vacinação, a vacina era administrada nas escolas, o que garantiu uma cobertura muito alta. A recomendação era que fossem aplicadas duas doses com intervalo de seis meses, seguidas de uma terceira dose após cinco anos. Posteriormente, a terceira dose foi eliminada e mantidas apenas as duas primeiras doses. No entanto, apesar da disponibilidade da vacina gratuitamente no Brasil, a cobertura vacinal ainda é considerada baixa. Os dados oficiais mostram que, no período de 2014 a 2017, 72% das meninas haviam recebido uma dose, mas apenas 45% completaram o esquema de duas doses. Os dados para os meninos são ainda piores, com uma cobertura de apenas 20%. Um fator agravante recente foi a pandemia de COVID-19, que teve impacto direto na atenção à saúde, incluindo a cobertura vacinal contra o HPV.

Idealmente, a vacina deve ser aplicada antes do primeiro contato com o HPV, ou seja, antes da primeira relação sexual. Por isso a faixa etária definida para as meninas e os meninos. No entanto, estudos mais recentes têm mostrado também eficácia da vacina quando administrada mesmo após um primeiro contato com o vírus. Isso talvez impacte as recomendações futuramente. Um outro ponto importante é que sabemos que o tempo transcorrido entre a infecção pelo vírus e o desenvolvimento do câncer de colo do útero é em média de 20 a 30 anos. Sendo assim, os efeitos benéficos da vacinação contra o HPV serão percebidos de forma mais significativa daqui algumas décadas. Nesse contexto, fica clara a importância de fortalecermos concomitantemente o programa de rastreamento do câncer de colo uterino.

Mas os efeitos já estão sendo notados. No Reino Unido, a vacinação contra o HPV foi iniciada no ano de 2008 e, no final de 2021, pesquisadores ingleses publicaram um estudo no qual relataram uma redução do número de diagnósticos de câncer de colo uterino e de lesões precursoras em mulheres jovens (20-30 anos), sendo a estimativa de redução da ordem de 87% quando essas mulheres foram vacinadas entre os 12 e 13 anos. Esses resultados precisam ser analisados com cautela, visto que o câncer de colo uterino geralmente é diagnosticado em idades mais avançadas e raramente em mulheres tão jovens. Mas a observação de uma redução importante nos casos de lesões precursoras alimenta a esperança na possibilidade de reduzirmos drasticamente os casos de câncer de colo uterino e as mortes decorrentes dessa doença.

 

Referências

 

Frazer IH, Cox J. Finding a vaccine for human papillomavirus. Lancet. 2006 Jun 24;367(9528):2058-9. doi: 10.1016/S0140-6736(06)68921-6.

Frazer IH. The HPV Vaccine Story. ACS Pharmacol Transl Sci. 2019 May 29;2(3):210-212. doi: 10.1021/acsptsci.9b00032.

Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estatísticas de câncer. Disponível em: https://www.inca.gov.br/numeros-de-cancer. Acessado em 18 de janeiro de 2022.

Paulino E, de Melo AC, Silva-Filho AL, et al. Panorama of Gynecologic Cancer in Brazil. JCO Glob Oncol. 2020 Oct;6:1617-1630. doi: 10.1200/GO.20.00099.

Brisson M, Kim JJ, Canfell K, et al. Impact of HPV vaccination and cervical screening on cervical cancer elimination: a comparative modelling analysis in 78 low-income and lower-middle-income countries. Lancet. 2020 Feb 22;395(10224):575-590. doi: 10.1016/S0140-6736(20)30068-4.

Programa Nacional de Imunizações. Boletim informativo do PNI-02/2016 – Vacinação contra o HPV. Disponível em: https://www.conasems.org.br/wp-content/uploads/2016/10/images_Boletim_informativo__HPV002-2016.pdf. Acessado em 18 de janeiro de 2022.

Mendes Lobão W, Duarte FG, Burns JD, et al. Low coverage of HPV vaccination in the national immunization programme in Brazil: Parental vaccine refusal or barriers in health-service based vaccine delivery? PLoS One. 2018 Nov 12;13(11):e0206726. doi: 10.1371/journal.pone.0206726.

Falcaro M, Castañon A, Ndlela B, et al. The effects of the national HPV vaccination programme in England, UK, on cervical cancer and grade 3 cervical intraepithelial neoplasia incidence: a register-based observational study. Lancet. 2021 Dec 4;398(10316):2084-2092. doi: 10.1016/S0140-6736(21)02178-4.

Cruickshank ME, Grigore M. Cervical cancers avoided by HPV immunisation. Lancet. 2021 Dec 4;398(10316):2053-2055. doi: 10.1016/S0140-6736(21)02396-5.

Inibidores de ciclina no SUS: expectativa ou realidade

No dia 6 de dezembro, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias do SUS (Conitec) recomendou a incorporação dos inibidores de ciclina para o tratamento de pacientes com câncer de mama no SUS. Este é um avanço histórico, entretanto, a burocracia pode evitar que se torne realidade.

Os inibidores de ciclina são mediações que bloqueiam um processo na célula que pode levar à resistência aos tratamentos anti-hormonais padronizados há muitas décadas. O uso desses medicamentos mostrou um benefício incontestável em termos de sobrevida pacientes com câncer de mama com expressão de receptores hormonais avançado/metastático.

Estas drogas estão aprovadas no mundo e no Brasil há vários anos, porém, apenas recentemente tornaram-se de cobertura obrigatória pelos convênios do nosso país. Elas são caras e há muitos pacientes com indicação de utilização, portanto, tem grande impacto no sistema de saúde.

Agora, a Comissão do SUS que define o que será incorporado (ou não) recomendou a introdução destas medicações no sistema público. A partir de 6 de dezembro de 2021, o Governo tem 180 dias para oferecer à população. A aprovação veio após uma recomendação inicial de NÃO incorporação, a qual foi alterada pela participação da sociedade civil (profissionais, cientistas, associações e pacientes/familiares) em uma consulta pública recente.

É uma grande conquista para todos os brasileiros e mostra que a ação em conjunto da sociedade é de extrema importância para melhorar a saúde de todos. Porém, devemos ficar atentos, pois, como vimos em posts anteriores, o tempo entre essa incorporação burocrática e a real chegada da medicação para os pacientes pode demorar muito tempo (até anos) ou nem se tronar realidade. Para tanto, é importante continuarmos alertas e cobrando das autoridades o cumprimento dessa inclusão.

 

Referências:

http://conitec.gov.br/images/Relatorios/2021/20211207_Relatorio_678_Abemaciclibe_Palbociclibe_Ribociclibe_Carcinoma_Mama_Final.pdf

http://conitec.gov.br/images/Relatorios/Portaria/2021/20211207_Portaria_73.pdf

 

 

Obesidade: o que devemos saber

Higor Mantovani

CRM 155.725

Sabemos, hoje, que a obesidade tomou proporções epidêmicas, tornando-se responsável pelo desenvolvimento e agravamento de doenças crônicas, tal como hipertensão, diabetes mellitus, doenças cardiovasculares, problemas respiratórios e até mesmo câncer. Tecnicamente, a obesidade em adultos é definida pelo parâmetro do Índice de Massa Corpórea (IMC) superior a 30. Já aqueles indivíduos com IMC entre 25 e 29,9 são considerados portadores de sobrepeso.

O tema em pauta se torna ainda mais preocupante quando nos damos conta de que as doenças citadas anteriormente respondem pelos maiores percentuais de morbimortalidade a nível de Brasil e mundo. Na atual pandemia que vivemos, vimos ainda a obesidade se apresentar como um importante fator de risco para o desenvolvimento da forma grave da COVID-19. Tais fatos reforçam ainda mais a importância da conscientização e do combate a obesidade e ao sobrepeso. A adoção de um estilo de vida mais saudável interfere diretamente no controle e desenvolvimento de tais doenças. Exercícios físicos regulares, associados ao menor consumo de produtos embutidos/industrializados e ao combate ao alcoolismo e tabagismo são medidas que contribuem para a prevenção de doenças crônicas.

Quando falamos especificamente do câncer, é sabido que aproximadamente 15 a 20% dos casos tem relação com obesidade. Ressalto aqui a correlação mais intima com o câncer colorretal, de útero (endométrio) e de mama. A obesidade responde ainda por 7 a 10% dos óbitos em pacientes oncológicos, além de proporcionar um maior risco de complicações decorrentes do tratamento, como infecções. E não para por aí; diversos estudos demonstraram que manter-se obeso ou com sobrepeso após o tratamento do câncer da mama pode aumentar o risco de recidiva de doença.

Nunca é tarde para a mudança do estilo de vida e o início de hábitos mais saudáveis. Essa postura, entretanto, requer dedicação e regularidade. Para isso, existem diversos profissionais engajados com esse objetivo e dispostos a auxiliar neste desafio; é o caso do educador físico, do nutricionista, do fisioterapeuta, e de muitos outros que podem contribuir no processo de combate ao sedentarismo e ao excesso de peso. Procure ajuda, se movimente e estimule as pessoas ao seu redor a adotar uma vida mais saudável e ativa.

 

17 de outubro: Dia Nacional da Vacinação

Vacina é tecnologia antiga. Os primeiros imunizantes surgiram na China, há mais de mil anos. No Ocidente, são mais recentes, pouco mais de 200 anos; e no Brasil, as vacinas começaram a ser adotadas na primeira metade do século XIX, mas só depois de muita resistência viraram política pública de saúde.

Da revolta das vacinas, em 1904, à erradicação de doenças como a poliomielite, em 1994, ou o sarampo, em 2016, o Brasil acumulou experiência e virou referência internacional pelo seu Programa Nacional de Imunização, o PNI, que coloca o Brasil no primeiro lugar do mundo na oferta de vacinas gratuitas para toda a população. São 45 imunizantes diferentes para diferentes faixas etárias.

As vacinas são um marco na história da saúde humana e, segundo dados da Organização Mundial de Saúde, salvam a vida de 3 milhões de pessoas a cada ano. Para reforçar a importância das vacinas, o Brasil comemora, em 17 de outubro, o Dia Nacional da Vacinação, uma data para promover a importância da imunização no controle de epidemias.

Menciono a importância histórica das vacinas, não só agora, com o surgimento da Covid19, mas para erradicação ou diminuição da incidência de várias doenças graves, como varíola, caxumba, gripe, poliomielite, rubéola, sarampo e tétano.

Atualmente, mesmo com a inegável contribuição das vacinas para a vida humana, a comunidade científica ainda esbarra em um problema que pode ser tão perigoso quanto uma doença: a desinformação. Mesmo rodeada de mitos, a vacinação é o método mais seguro e eficaz para combater a disseminação de vírus e a ocorrência de epidemias infectocontagiosas.

Vacina. Vacina. Vacina. Acredito que ouvimos e discutimos tanto sobre isso nos últimos meses que podemos encontrar entre nós aqueles que defendem, os que são neutros e os que têm dúvidas. É completamente normal estar nessas três situações supracitadas e é a informação de qualidade que permite que haja entendimento do processo, segurança e aplicação de uma vacina.

Então, mais do que nunca, que o Dia Nacional da Vacinação seja lembrado e comemorado conforme se deve: com acesso e utilização desse recurso de promoção de saúde. E, assim, cada um pode fazer sua parte por si e pelo próximo: vacinando-se. Ajudando a diminuir as variantes, as mortes, as sequelas, o medo e a pandemia (a atual e as anteriores).

Fontes:

– Agência Senado

– https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/saude/audio/2021-06/dia-nacional-da-imunizacao-lembra-importancia-de-se-vacinar

 

Novidade ROSA: nova droga para pacientes com câncer de mama

A Anvisa aprovou, nesta segunda-feira (04/10), uma nova medicação para pacientes com câncer de mama avançado/metastático. E não poderia ser em melhor hora, já que estamos no Outubro Rosa, o mês de conscientização sobre esse tipo de tumor.

O Trastuzumabe-Deruxtecan (Enhertu®, sigla T-DXd) é um anticorpo conjugado a uma quimioterapia e que atua como uma terapia-alvo em tumores com alterações na proteína HER2, comum em mais de 20% das pacientes com tumores mamários. A proteína HER2, quando tem sua expressão aumentada nas células, promove o desenvolvimento de tumores, como o de mama.

Os dados que embasaram a aprovação foram do estudo DESTINY-Breast-01, que testou a droga em 184 pacientes com múltiplos tratamentos anteriores. A taxa de resposta foi de 60%, um número muito alto para esse cenário.

Agora, o estudo DESTINY-Breast-03, mais robusto, randomizado e de fase III, comparou o T-DXd com o padrão atual, o T-DM1, em 524 pacientes com tumor de mama metastático HER2 positivo em linhas subsequentes de tratamento, ou seja, após a progressão a uma quimioterapia com Trastuzumabe.

Os resultados – recentemente apresentados na principal sessão do Congresso Europeu de Oncologia (ESMO), em setembro de 2021 – mostraram uma redução de 72% do risco de progressão ou morte, aumentando em quase 4 vezes a sobrevida livre de progressão. Ademais, a taxa de resposta foi de 80%. Essa eficácia é extremamente significativa e muda o cenário do tratamento dessas mulheres, com uma droga mais eficaz do que a atual, que já trazia muitos benefícios.

Em relação aos efeitos colaterais, os mesmos foram bem parecidos entre os grupos em ambos os estudos. Porém, vale ressaltar uma maior incidência de doença pulmonar intersticial (10,5 x 1,9%), porém a esmagadora maioria dessas ocorrências foi de graus leves (1 ou 2).

Os dados vêm para colocar o T-DXd como novo padrão para essas pacientes neste cenário linhas subsequentes (3ª ou posterior). Infelizmente, por enquanto, a indicação ainda não inclui a 2ª linha, ou seja, as pacientes receberão a droga caso falhem ao T-DM1, não antes. A droga também já mostrou que pode beneficiar também pacientes com câncer de pulmão e estômago.

O T-DXd já é aprovado nos EUA desde dezembro de 2019, porém em pacientes com múltiplos tratamentos prévios. Agora, felizmente vem aprovado no Brasil e é um grande reforço no tratamento dessas pacientes. Burocraticamente, como é a primeira aprovação desta medicação, ainda é necessária a etapa da precificação que deve levar mais alguns meses. Após, sendo uma medicação endovenosa, os planos de saúde deverão cobrir o tratamento, quando indicado. Esperamos que seja realidade o quanto antes para os pacientes.

 

Referências:

https://oncologypro.esmo.org/meeting-resources/esmo-congress-2021/trastuzumab-deruxtecan-t-dxd-vs-trastuzumab-emtansine-t-dm1-in-patients-pts-with-her2-metastatic-breast-cancer-mbc-results-of-the-randomi

https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/nejmoa1914510

 

FDA approves new treatment option for patients with HER2-positive breast cancer who have progressed on available therapies. News release. FDA. December 20, 2019. Accessed August 9, 2021.

 

Dia Internacional do Idoso

No dia 1˚ de outubro é celebrado o Dia Internacional da Pessoa Idosa. A data foi estabelecida em 1991 pela Organização das Nações Unidas (ONU), com o objetivo de tornar evidente questões relacionadas aos direitos e a saúde do idoso. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define que idosos são indivíduos com 60 anos ou mais. Desde a transição do milênio temos visto uma inversão nas pirâmides populacionais a nível mundial. A causa deste fenômeno certamente está relacionada ao maior zelo e investimento na saúde e nos direitos dos idosos.

É esperado que o avançar da idade cronológica caminhe em paralelo ao surgimento de doenças crônicas. Como representantes deste grupo de moléstias podemos citar a hipertensão, o diabetes, as doenças cardiovasculares e até mesmo o câncer. É também fato que a medicina moderna evoluiu e aprendeu a lidar com essas morbidades, tornando-as passiveis de controle (ainda que parcialmente). Hoje, um paciente portador de câncer aos seus 70-80 anos tem tratamentos de segurança e eficácia muito superiores aos existentes nos anos 80-90.  Com isso, em alguns casos, é possível preservar e prolongar a vida de pessoas que outrora foram desenganados ao diagnóstico.

Mas o Dia do Idoso chega para algo que vai além da celebração de novos medicamentos e da evolução da medicina; ele vem para nos convocar a uma reflexão sobre como envelhecer de maneira saudável. Afinal, melhor do que tratar doenças é poder preveni-las. Para isso, faz-se necessária a propagação de estratégias preventivas para as doenças citadas anteriormente e para tantas outras, com foco em evitá-las ou diagnosticá-las precocemente.

Precisamos intensificar políticas que venham combater os vilões de uma boa saúde e da longevidade, tais como o tabagismo, o alcoolismo, a obesidade e o sedentarismo. É preciso garantir acesso e agilidade na atenção primária, além de revisitar as políticas de rastreamento de câncer, garantindo os exames e procedimentos necessários. É preciso rever o fluxo para aqueles idosos com doenças recém diagnosticadas, com tratamento em tempo hábil e adequado. É preciso zelar pela saúde mental do idoso; para alguns, o envelhecimento é sinônimo de regressão, solidão e de perda de autonomia. Em conjunto, é de importância ímpar buscar o adequado posicionamento social do idoso (até no mercado de trabalho se desejo for), com a devida garantia e respeito aos seus direitos.

Que no dia 1˚ de outubro possamos resgatar nos idosos o sentimento de respeito das palavras “senhor” e “senhora”, e fazê-los sentir orgulho disso. Afinal, todos chegaremos lá um dia e esperamos encontrar uma sociedade justa, que se preocupe com o bem-estar dos seus idosos. Fica aqui os parabéns e o sentimento de gratidão do Grupo SOnHe para com nossos amigos, familiares e pacientes que já se encaixam na definição de idoso.

 

Falta de insumos nucleares afeta pacientes no Brasil

O Instituto Nacional de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN) suspendeu sua produção a partir do dia 20 de setembro. E por que isso importa para os pacientes com câncer? Porque alguns tratamentos e exames necessitam de insumos fornecidos pelo IPEN.

Esse problema está acontecendo, segundo o IPEN, por falta de verbas por parte do Governo Federal via Ministério de Ciência, Tecnologia e Telecomunicações (MCTIC). O órgão importa diversos insumos e radioisótopos de outros países e, sem verba, não é capaz de manter sua atividade. Desde julho deste ano, já prevendo o ocorrido, o IPEN vem tentando, sem sucesso, meios para evitar a interrupção junto ao Governo.

Exames de grande importância, como o PET/CT e a cintilografia, e tratamentos, como Lutécio e Radium-223, devem ser interrompidos em virtude dessa paralisação. Infelizmente, os maiores impactados serão os pacientes. Tanto os exames quanto os tratamentos são métodos de alta eficácia e auxiliam em grande monta o cuidado ao paciente com câncer.

Tanto pacientes quanto clínicas parceiras do SOnHe têm relatado a real falta desses insumos e o consequente adiamento dos procedimentos previstos.

A ideia é, no curto prazo, conseguir verba extra para retomar a produção e, a médio prazo, um aumento do orçamento de 2022, via Congresso Nacional. Até lá, esperamos que esse imbróglio seja resolvido para que os pacientes tenham o menor impacto possível.

 

15 de Setembro: Dia Mundial de Conscientização Sobre Linfomas

Lorena Bedotti Ribeiro

 

O dia 15 de setembro é considerado o Dia Mundial de Conscientização Sobre Linfomas, uma iniciativa que tem como objetivo atrair a atenção de pessoas em todo o mundo e reunir esforços na luta contra esse tipo de câncer, visando um diagnóstico precoce para uma melhor resposta ao tratamento.

Os linfomas são um tipo de câncer que se originam no sistema linfático, composto por linfonodos e tecidos que produzem as células (linfócitos) responsáveis pela defesa do nosso organismo por meio da produção de anticorpos e vasos que conduzem essas células pelo corpo.

Manifestam-se com ínguas (linfonodomegalias) endurecidas e indolores, podendo apresentar associado febre, suores noturnos, emagrecimento, cansaço e coceira no corpo. Conforme os locais acometidos podem ainda apresentar tosse, falta de ar, dor no peito, distensão e aumento do volume abdominal.

O diagnóstico definitivo de linfoma requer a realização de biópsia, com a retirada do tecido acometido (linfonodo inteiro ou tecido de outro órgão acometido) para análise microscópica das características. O estadiamento da doença pode ser feito através de tomografia por Emissão de Pósitrons (PET-CT), tomografia computadorizada, ressonância magnética, biópsia de medula óssea e punção de liquor (realizados conforme quadro clínico).

São divididos em linfomas Hodgkin (LH) e linfomas não Hodgkin (LNH). O LH se diferencia por apresentar células grandes e características no linfonodo acometido conhecidas como células de Reed-Sternberg, sendo classificado em dois subgrupos de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS): linfoma de Hodgkin clássico, que se subdivide em quatro subtipos (esclerose nodular, celularidade mista, depleção linfocitária e rico em linfócitos), e linfoma de Hodgkin predomínio linfocitário nodular. Os LNH não têm um tipo celular característico podendo representar mais de 40 tipos diferentes de linfoma.

O LH pode acometer qualquer faixa etária, sendo mais comum entre adolescentes e adultos jovens (15 a 29 anos), adultos (30 a 39 anos) e idosos (75 anos ou mais). De acordo com o site do INCA foram diagnosticados 2.640 novos casos em 2020, sendo mais comuns em homens (1.590). O LNH pode ocorrer em crianças, adolescentes e adultos, tornando-se mais comum à medida que as pessoas envelhecem. De acordo com o site do INCA foram diagnosticados 12.030 novos casos em 2020, sendo mais comuns em homens (6.580).

Com relação ao tratamento, o linfoma Hodgkin na maioria dos casos, é uma doença curável apresentando uma taxa de cura de mais de 85%. O tratamento clássico é a poliquimioterapia (múltiplas drogas) com ou sem radioterapia associada. Para os pacientes que sofrem recaídas ou que não respondem ao tratamento inicial as opções utilizadas são a poliquimioterapia, imunoterapia e transplante de medula óssea. A imunoterapia refere-se ao uso de medicamentos (anticorpos monoclonais produzidos em laboratório) que têm um alvo específico para um componente que há nas células do linfoma (exemplo: anticorpo anti CD30), induzindo o sistema imune a reagir contra ele; ou com medicamentos inibidores do ponto de controle imunológico que aumentam a resposta imunológica do corpo contra as células cancerígenas (exemplo: anti-PD-1), representando um enorme avanço para pacientes que não podiam ser curados com a quimioterapia convencional.

O tratamento dos linfomas não-Hodgkin é feito com quimioterapia, associação de quimioterapia com imunoterapia (anticorpos monoclonais) ou radioterapia. No caso dos LNH indolentes (crescimento relativamente lento), cerca de 40% dos casos, as opções de tratamento variam desde apenas observação clínica, até tratamentos bastante intensivos. Para os pacientes que sofrem recaídas ou que não respondem ao tratamento inicial as opções utilizadas são a poliquimioterapia, imunoterapia e transplante de medula óssea. A imunoterapia pode ser feita com anticorpos monoclonais (anti-CD20, Anti-CD19, anti-CD79B, anti-CD52 e anti-CD30) ou, mais recentemente, com a incorporação pioneira das CAR T-cells (linfócitos T com receptores antigênicos quiméricos), linfócitos retirados do paciente que são processados em laboratório adquirindo a capacidade de perseguir e eliminar as células do linfoma ao serem reintroduzidos no paciente.

Todos esses avanços recentes em diagnóstico e tratamento transformaram a onco-hematologia, conferindo um melhor prognóstico, expectativa e qualidade de vida aos pacientes.

Caso você tenha algum sintoma suspeito, procure um hematologista para avaliação!