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Mostre-me a evidência – Promessa de cura para câncer de próstata: a ciência pede provas

Recentemente, noticiários surpreenderam muitos com a divulgação da cura de um paciente com câncer de próstata avançado. O tratamento? Um intrigante aumento controlado da temperatura do cérebro, visando estimular proteínas de choque térmico.

Esta surpreendente proposta tem suas raízes na pesquisa do Dr. Marcio Aurelio Martins (Marc) Abreu. Em 2003, ele falou sobre o “túnel término do cérebro”, que supostamente permitiria ajustar a temperatura cerebral de forma não invasiva. De início, Abreu vislumbrou isso como uma potencial solução para doenças neurodegenerativas. Parecia promissor, mas algo não se encaixava.

Assim que a comunidade médica e científica tomou conhecimento, surgiram dúvidas legítimas. Onde estavam os estudos publicados? E as evidências sobre eficácia, segurança e possíveis efeitos adversos? Silêncio.

E aqui estamos em 2023, e mais uma vez os holofotes estão voltados para o Dr. Abreu, agora com uma promessa renovada: curar um paciente de 66 anos com câncer de próstata avançado. Desta vez, a proposta vai além do simples aumento da temperatura cerebral, prometendo erradicar células-tronco cancerígenas e neutralizar moléculas sinalizadoras. Fascinante, mas igualmente envolto em mistério. Continuamos sem ver artigos científicos que confirmem estas afirmações, mecanismos claros de ação ou possíveis efeitos adversos.

O que se pode afirmar, até o momento, é que, no mundo da medicina, promessas sem provas são, no mínimo, problemáticas. Antes de aceitar tais alegações como verdadeiras, a ciência exige evidências concretas. Estamos todos esperando.

 

 

 

15 de julho: Dia do Homem – Câncer no homem: quais os desafios?

A saúde masculina ainda é um tabu para muitos homens. Quando o assunto é câncer, então, os mitos e preconceitos ficam mais evidentes. Tal motivo nos incentiva à divulgação de informações para conscientização e prevenção dos tipos de câncer mais incidentes em homens.

No Brasil, cerca de 225 mil homens são diagnosticados com câncer todos os anos, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA). Este número ainda não considera o câncer de pele, que é o mais recorrente no país.

Segundo as estimativas do Instituto, os cinco principais tipos de câncer em homens são o de próstata, de cólon e reto, da traqueia, brônquio e/ou pulmão, de estômago e da cavidade oral. Veja a seguir quais os sintomas mais comuns de cada um deles.

 – Próstata: O câncer da próstata é a neoplasia mais frequente, atingindo cerca de 65 mil homens a cada ano, especialmente após os 50 anos. Ele é caracterizado pelo crescimento descontrolado de células nesta glândula. Esse tipo da doença tem desenvolvimento lento e, normalmente, assintomático. Os principais sinais de alerta para o câncer de próstata estão ligados às alterações no fluxo urinário (dificuldade ou frequência) e dores na região pélvica, costas e costelas. No entanto, eles costumam aparecer já em um estado mais avançado do tumor. Por isso, é fundamental manter a regularidade dos exames preventivos.

– Cólon e reto: Tanto o câncer de cólon quanto o retal têm origens bastante parecidas. Por isso, costumam ser chamados de câncer colorretal. Ele se inicia no revestimento do cólon ou do reto e pode estar relacionado a presença anterior de alguma patologia na região. Porém, estudos indicam que a dieta rica em gordura, carne e alimentos processados e pobre em fibras são o fator mais importante no surgimento deste tipo de câncer. Entre os principais sintomas, podemos destacar sangue nas fezes, alteração do trânsito intestinal e na forma das fezes, perda de peso repentina, sensação de fraqueza e dor abdominal.

– Pulmão: A cada 100 novos casos de câncer entre homens brasileiros, cerca de 8 são no sistema respiratório. Entre os sintomas dos cânceres no sistema respiratório estão tosse, chiado e ruído ao respirar, falta de ar, infecções de repetição das vias aéreas superiores, tosse com sangue e, em estágio avançado, dificuldade em engolir, rouquidão, fadiga e perda de peso. Contudo, os locais mais comuns de câncer nas vias aéreas são o pulmão e os brônquios. Esse tipo da doença é dividido em dois grandes grupos: as pequenas células e os não pequenas células. Esse último, é subdivido em adenocarcinoma, carcinoma escamoso e carcinoma de grandes células. Eles geralmente têm como sintoma tosse, podendo estar acompanhada de escarro com hemoptise e falta de ar. Esse tipo de neoplasia é diretamente relacionado com o tabagismo.

– Estômago: Também conhecido como câncer gástrico, esse tipo de doença se desenvolve lentamente, a partir de alterações no revestimento interno do estômago. Dependendo de onde ele começa a se desenvolver, o câncer pode ter resultados diferentes. O mais comum é o adenocarcinoma, que totaliza quase 95% dos casos da doença nessa região. Ele se origina na mucosa estomacal, que é a camada mais interna do órgão. Apesar de raramente apresentar sintomas na fase inicial, o câncer de estômago pode causar falta de apetite, perda de peso, azia, náuseas ou indigestão, vômitos e distensão abdominal.

– Cavidade oral: Este tipo de câncer é detectado em aproximadamente 11,2 mil homens brasileiros todos os anos. Ele é caracterizado pelo desenvolvimento de células tumorais nos lábios, gengivas, bochechas, céu da boca, bordas e embaixo da língua. As estatísticas do INCA mostram que ele é mais comum em homens a partir dos 40 anos e está intimamente ligado ao tabagismo e ao consumo de bebidas alcoólicas. Para a detecção precoce, é fundamental estar alerta a sinais como feridas sem cicatrização na boca ou nos lábios, manchas vermelhas ou esbranquiçadas na língua, gengivas, céu da boca ou bochechas, além de nódulos no pescoço e rouquidão persistente.

 

Como prevenir?

Ainda que o fator genético possa influenciar o surgimento dos diversos tipos de câncer em homens, a grande maioria dos casos da doença está relacionada a fatores externos, que podem ser controlados ao se adotar hábitos mais saudáveis no dia a dia.

Confira como é possível reduzir os riscos de desenvolvimento do câncer:

– Abandonar o tabagismo;

– Moderar o consumo de bebidas alcoólicas;

– Manter uma dieta equilibrada (evitando gorduras em excesso);

– Controlar o peso corporal;

– Praticar atividades físicas

– Evitar exposição à radiação ionizante, substâncias químicas nocivas e metais pesados.

 

Referências

  1. Ministério da Saúde. Estimativa 2023: incidência de câncer no Brasil / Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva – Rio de Janeiro: INCA, 2023.
  2. Dorak, M. T., & Karpuzoglu, E. (2012). Gender differences in cancer susceptibility: an inadequately addressed issue. Front Genet, 3, 268.

Dia do Homem: o que você tem feito pela sua saúde?

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os homens vivem 7,1 anos a menos do que as mulheres, sendo a taxa de mortalidade maior em praticamente todas as faixas etárias. Mas qual seria a justificativa? A resposta é a associação de vários motivos, mas entre os principais estão a maior exposição a alguns fatores de risco e a menor aderência aos exames preventivos. Dentre os fatores de risco destacamos o tabagismo, etilismo, falta de prática de atividade física e obesidade.  Outro dado preocupante revelado pelo Ministério da Saúde é que 31% dos homens não têm o hábito de ir ao médico e 55% destes afirmam que não precisam. Esta conjunção está diretamente relacionada ao risco de desenvolver diversas doenças nos homens, com maior destaque para o câncer.

Dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA) apontam como os cânceres mais frequentes nos homens os de pele, próstata, intestino, pulmão e de cabeça e pescoço. E o que todos eles têm em comum? A maioria dos casos pode ser prevenido.

Vamos começar falando do câncer de pele, que é o tumor mais frequente. Felizmente, este tipo de tumor apresenta uma baixa taxa de mortalidade, mas pode deixar sequelas secundárias: a cirurgia para sua retirada. Os dois tumores de pele mais frequentes são o carcinoma basocelular e o carcinoma epidermóide, ambos diretamente relacionados à exposição não protegida ao sol. O cuidado com a exposição solar e o uso de protetor solar seriam o suficiente para reduzir o desenvolvimento destes tumores.

O segundo tumor mais frequente é o câncer de próstata. Dados do INCA estimam 65.840 novos casos em 2022 no Brasil, sendo o responsável pela segunda maior causa de morte por câncer. O seu principal fator de risco é o envelhecimento, algo que não podemos evitar, mas por um outro lado é um câncer altamente curável quando diagnosticado precocemente. Identificar este tumor na fase inicial é possível pela realização dos exames preventivos de toque retal e PSA. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Urologia, recomenda que homens a partir de 50 anos devem procurar um profissional especializado para avaliação individualizada. Aqueles da raça negra ou com parentes de primeiro grau com câncer de próstata devem começar aos 45 anos, por já possuírem um risco aumentado.

Na terceira posição está o câncer de intestino. Este câncer está relacionado à idade mais avançada, histórico familiar e aos hábitos de vida como excesso de alimentos industrializados, sedentarismo e obesidade. Sabemos que evitar a exposição a estes fatores risco pode reduzir de forma significativa as chances de ter um câncer de intestino. Por isso, é importante manter um estilo de vida saudável com atividade física no mínimo três vezes por semana, manter peso adequado, realizar dieta rica em fibras, evitar o tabagismo, etilismo e excesso de carne vermelha e embutidos, além de realizar o exame preventivo de colonoscopia.  No Brasil, esse exame é recomendado para homens e mulheres entre 50 a 74 anos. Em casos de história familiar para câncer de intestino, o exame deve ser realizado dez anos antes da idade que o familiar apresentou o diagnóstico.

O câncer de pulmão é o quarto câncer mais frequente nos homens, com 17.760 casos novos ao ano de acordo com o INCA. É o câncer que mais mata homens. Infelizmente, sua incidência vem aumentando no mundo o que o torna um problema de saúde pública em razão do impacto dos altos custos do seu tratamento. A maioria dos casos deste tipo de câncer seriam evitados se as pessoas não fumassem. Aproximadamente 80% dos casos estão diretamente ligados ao tabagismo, hábito considerado como a maior causa evitável de mortes no mundo todo. Os pacientes que fumam têm em média 14 anos a menos de expectativa de vida em relação a quem não fuma. Além disso, está cada vez mais claro que os tabagistas passivos (quem não fuma, mas convive de perto com quem fuma) também têm mais chances de desenvolver câncer, doenças cardíacas e pulmonares.

Em quinto lugar está o câncer de cabeça e pescoço, que compreende todos os tumores que têm origem na boca (cavidade oral), nariz (nasofaringe, cavidade nasal e seios paranasais), garganta (orofaringe, hipofaringe, laringe) e nas glândulas salivares. Os fatores de risco para o desenvolvimento desta neoplasia já são bem estabelecidos. O principal é o tabagismo. O risco é dependente do número de cigarros fumados por dia e do tempo de uso. Os tabagistas têm o risco de desenvolver câncer de 5 a 25 vezes a mais do que os que não fumam. O segundo fator de risco de destaque é o etilismo. Um estudo revelou o aumento de 5 a 6 vezes no risco de desenvolver o câncer de cabeça e pescoço com consumo de álcool superior a 50 g/dia versus menos de 10 g/dia (aproximadamente uma lata de cerveja). Suspender o consumo de álcool reduz em 4% ao ano o risco de doença maligna da laringe ou a faringe.

Como vimos, uma grande parte dos cânceres que afetam o homem poderiam ser evitados com medidas de prevenção e um diagnóstico precoce. O Dia do Homem tem como objetivo conscientizar a população masculina sobre os cuidados que deve tomar com a sua saúde. Vamos aproveitar esse dia para iniciar hábitos de vida mais saudáveis e lembrar de colocar os exames preventivos em dia!

 

Lançamento para câncer de próstata

No dia 23 de dezembro, a Anvisa aprovou o medicamento Darolutamida (Nubeqa®) para tratamento de pacientes com câncer de próstata não-metastático resistente à castração. A droga se junta às outras já disponíveis nesse cenário: Apalutamida e Enzalutamida.

No caso da Darolutamida, sua eficácia foi testada no estudo ARAMIS, de fase III, com 1.509 pacientes que tinham progredido à doença bioquimicamente, sem evidência de metástases, e comparou a Darolutamida com placebo – ambos associados à terapia de deprivação androgênica (ou castração) – em relação ao atraso no aparecimento de metástases e à qualidade de vida.

Os resultados mostraram um aumento de 22 meses no tempo para aparecimento de metástases (40,4 x 18,4 meses), o que representou uma redução de 59% do risco desse evento ocorrer. Houve também benefício para redução do tempo para piora da dor, uso de quimioterapia e eventos ósseos. A sobrevida global, apesar de numericamente positiva para a Darolutamida, ainda apresenta dados imaturos e não pode ser interpretada de forma definitiva. Em relação aos efeitos adversos, não houve diferença significativa, com taxa de eventos graves de 15% no grupo da Darolutamida e 12% no grupo placebo. Além disso, alguns efeitos colaterais (convulsões e quedas) das drogas semelhantes (Enzalutamida e Apalutamida) não foram identificados com o uso da Darolutamida.

Vimos então que essa aprovação significa uma opção a mais para os pacientes, que saem beneficiados. Entretanto, ainda é necessária a precificação para iniciar a comercialização e, como falamos em publicação anterior, os tratamentos orais para câncer não são automaticamente reembolsados pelos convênios e podem demorar até dois anos para estarem disponíveis pelo plano de saúde. Por isso, continuamos lembrando da campanha #simparaquimiooral, descrita recentemente no blog e que você pode saber mais no seguinte link: https://sonhe.med.br//2019/09/03/simparaquimiooral/

 

Referências:

Fizazi K, et al. Darolutamide in Nonmetastatic, Castration-Resistant Prostate Cancer. N Engl J Med. 2019;380:!235-46.

http://portal.anvisa.gov.br/informacoes-tecnicas13?p_p_id=101_INSTANCE_WvKKx2fhdjM2&p_p_col_id=column-2&p_p_col_pos=1&p_p_col_count=2&_101_INSTANCE_WvKKx2fhdjM2_groupId=219201&_101_INSTANCE_WvKKx2fhdjM2_urlTitle=nubeqa-darolutamida-novo-registro&_101_INSTANCE_WvKKx2fhdjM2_struts_action=%2Fasset_publisher%2Fview_content&_101_INSTANCE_WvKKx2fhdjM2_assetEntryId=5732179&_101_INSTANCE_WvKKx2fhdjM2_type=content

https://consultas.anvisa.gov.br/#/medicamentos/25351317240201918/?nomeProduto=NUBEQA

Outro exame em investigação pode ajudar no diagnóstico do câncer de próstata

Recentemente, falamos sobre um exame que usava a cera do ouvido para tentar identificar o câncer. Agora, um novo estudo, também da Universidade de São Paulo (USP), fornece dados iniciais de um exame de urina que pode auxiliar na detecção e determinação da agressividade de tumores de próstata. Porém, como sempre, não devemos nos precipitar, já que o estudo ainda é extremamente inicial e a técnica não deve ser aplicada antes de resultados mais robustos.

O estudo em questão foi publicado em novembro do ano passado pela equipe do Laboratório de Investigação Médica da Disciplina de Urologia da USP em parceria com o Instituto de Ciências Biomédicas (ICB/US), na revista Proteomics, e avaliou a expressão de um conjunto de proteínas na urina de pacientes com suspeita de câncer de próstata. Durante o estudo, esses pacientes tiveram uma biópsia realizada e, ao mesmo tempo, uma amostra de urina analisada para a expressão proteica de 56 proteínas diferentes.

Ao final, 12 pacientes foram incluídos no estudo, perfazendo 6 com diagnóstico confirmado de câncer de próstata e 6 com hiperplasia benigna do órgão. Os resultados mostraram que o exame teve uma precisão de 100%, ou seja, todos os pacientes com câncer de próstata foram identificados com o teste. Ademais, foi possível apontar pacientes com tumores menos ou mais agressivos de acordo com as proteínas expressadas.

Como se nota, o número de pacientes estudados é muito pequeno e, como a própria reportagem da USP cita, um estudo maior é necessário – e tem previsão de ser realizado – para validar os dados em populações maiores e mais representativas. Isso demanda tempo e dinheiro e, além disso, os resultados precisam ser bastante consistentes para que um exame como esse possa substituir a avaliação por biópsia de um tumor, seja no diagnóstico ou na determinação de agressividade. Hoje, a biópsia é necessária para a confirmação do câncer de próstata, visto que exames como o toque retal e o PSA são pouco específicos.

Não só isso, devemos nos lembrar que exames que fazem diagnósticos mais precoces podem levar à realização de outros testes sem necessidade, trazendo custos e complicações para os pacientes, sem, necessariamente, melhorar os desfechos de sobrevida. Tal ponto também deve ser levado em conta e analisado para que o exame seja realmente útil.

Fato é que o método foi desenvolvido na própria USP e, caso se mostre útil, poderia significar uma maneira menos invasiva e mais barata de identificação de tumores de próstata. Porém, parcimônia e rigorosidade científica são pilares que devem guiar o desenvolvimento deste e de outros testes para que tragam benefícios aos pacientes.

 

Referências:

https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-da-saude/novo-metodo-detecta-cancer-de-prostata-por-meio-da-urina/#.XeFQfeXL44A.whatsapp

Kawahara R, et al. Tissue Proteome Signatures Associated with Five Grades of Prostate Cancer and Benign Prostatic Hyperplasia. Proteomics. 2019;19(21-22)

SUS incorpora novo tratamento contra o câncer de próstata

O câncer de próstata é o mais frequente entre os homens em todas as regiões do país se não considerarmos os tumores de pele não-melanoma, ou seja, os tumores de pele que são potencialmente curáveis apenas com cirurgia. Estimativas do Instituto Nacional do Câncer (INCA) apontam para uma incidência de 68.220 casos novos de câncer de próstata para este ano. Em 2017, foram confirmadas quase 16.000 mortes por este câncer, mas este número pode ser bem maior, uma vez que muitos casos no Brasil são sub-notificados ou simplesmente notificados como outra causa de morte.

Na sua fase inicial, o tumor maligno da próstata geralmente é tratado com cirurgia ou radioterapia que pode ou não ser associada ao tratamento hormonal a depender do caso. Quando está localmente avançado, mas ainda sem evidência de metástases a distância, o tratamento preferencial é a combinação de radioterapia com terapia de bloqueio hormonal. Já quando está disseminado para outros órgãos, em especial os ossos, o tratamento de escolha é o bloqueio hormonal que consiste em diminuir as concentrações no sangue do hormônio masculino, a testosterona. Este tratamento, conhecido como castração, pode ser feito com cirurgia nos testículos ou por meio de aplicações de injeções que inibem a produção do hormônio.  Para muitos pacientes, apenas o tratamento de bloqueio hormonal consegue manter a doença controlada por muito tempo. Quando este tratamento falha, ou seja, o tumor torna-se resistente à castração e a doença progride, as principais opções terapêuticas incluem quimioterapia convencional e a utilização de classes de bloqueadores hormonais mais modernos e que conseguem controlar melhor o avanço da doença como, por exemplo, a Abiraterona e a Enzalutamida. São medicações orais e que possuem um alto custo mensal e por isso não são liberadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Hoje, no cenário público, quando um paciente com doença avançada se torna resistente à deprivação hormonal, as opções de tratamento são a quimioterapia e o uso de classes hormonais mais antigas, com efeitos colaterais importantes e com alcance limitado de controle do tumor. São drogas já em desuso frente às novas opções que temos atualmente. Como exemplo desses bloqueadores hormonais mais antigos podemos citar a Flutamida, Bicalutamida, Ciproterona e Dietilestilbestrol (DES), ou seja, as opções terapêuticas são bastante limitadas para aproximadamente 72% da população brasileira que não tem plano de saúde e depende exclusivamente do SUS para se tratar.

No dia 25 de julho de 2019, foi publicada no Diário Oficial da União a Portaria nº 38, que incorporou a Abiraterona para o tratamento do câncer de próstata metastático resistente à castração nos pacientes que já fizeram uso prévio de quimioterapia. Sem dúvida nenhuma é uma grande vitória para os pacientes do SUS que terão mais uma linha de tratamento e acesso a uma medicação de alto custo que já se mostrou eficaz em estudos científicos robustos neste cenário da doença. Tal incorporação é um pleito antigo de órgãos e entidades que lutam contra o câncer como a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) que já há algum tempo se mostrou favorável não apenas a incorporação dessa droga, mas de muitas outras para o câncer de próstata e para diversos outros tumores.

A dispensação do novo tratamento não será de forma imediata, uma vez que a Portaria tem até 180 dias para começar a vigorar. Não ficou esclarecido ainda se o Ministério da Saúde irá centralizar a compra da medicação e liberar para os serviços credenciados ao SUS mediante cadastro dos pacientes que receberão o remédio, como já acontece hoje com outras medicações de alto custo, ou se cada prestador de serviço ao SUS irá comprar a medicação e o poder público fará o ressarcimento depois.  De uma forma ou de outra, o que se espera é que em no máximo seis meses, todos os pacientes que dependem do setor público e que tenham indicação para uso da nova droga possam recebê-la e se beneficiar de mais essa opção terapêutica até então disponível apenas para usuários de planos de saúde.

Câncer de Próstata: inimigo número 1 dos homens

O câncer de próstata é a neoplasia mais comum nos homens no Brasil (sem considerar os tumores de pele não melanoma) e o segundo câncer que mais mata. Pelos dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA), foram mais de 68 mil casos novos em 2018, com mais de 14 mil mortes relacionadas à doença. Sua incidência é maior em países desenvolvidos e vem aumentando em todo mundo na última década por conta das melhores técnicas de diagnóstico e maior expectativa de vida. O principal fator de risco é a idade; mais de 75% dos diagnósticos acontecem após os 65 anos. A boa notícia é que cada vez mais homens se curam dessa doença e naqueles em que o quadro é mais avançado, novos medicamentos descobertos na última década tem melhorado muito o tempo e qualidade de vida.

Em fevereiro, estive em Houston, no estado do Texas, nos EUA, onde fica o maior e mais importante Complexo Hospitalar Oncológico do mundo – o MD. Anderson Câncer Center – reunido com especialistas brasileiros e americanos para discutir as novidades no tratamento do câncer prostático. O encontro foi liderado pela oncologista Eleni Efstathiou, uma das maiores especialistas no assunto, no mundo. Foi possível a troca de experiências e discussões de casos, além de importantes debates sobre as opções de tratamentos.

Até poucos anos atrás, os tratamentos para neoplasia prostática estavam restritos aos procedimentos muito invasivos ou com muitos efeitos colaterais e, na doença avançada, com metástases, existiam poucas opções de tratamento. As cirurgias para ressecção da próstata eram mais agressivas e com maiores riscos e a radioterapia com técnicas mais obsoletas causavam muitos efeitos colaterais que podiam comprometer a qualidade de vida do indivíduo curado. Hoje, as cirurgias minimamente invasivas estão se tornando cada vez mais frequentes, ou por via laparoscópica ou cirurgia robótica, que diminuem os riscos de complicações, além do tempo de internação. O Hospital Vera Cruz, em Campinas-SP, onde o grupo SOnHe também atua, tornou-se recentemente o primeiro hospital do interior de São Paulo a adquirir um robô para este tipo de procedimento. O avanço dos aparelhos e tecnologias também permitiram à radioterapia disponibilizar tratamentos mais seguros e menos traumáticos. Alguns aparelhos são até mesmo capazes de redirecionar o feixe de radiação de acordo com os movimentos respiratórios do paciente.

Mas foi no contexto da doença mais avançada que surgiram, nos últimos anos, novos medicamentos com eficácia comprovada e que retardam sua evolução. O conceito básico de que o tumor prostático é extremamente influenciado pelos níveis de testosterona no organismo e que o bloqueio desse hormônio poderia inibir o crescimento tumoral vem desde a década de 40, mais precisamente 1941, com Charles Huggins, urologista que primeiro demonstrou que o tratamento de bloqueio da ação da testosterona, fazia o câncer de próstata regredir, o que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Medicina, em 1949. Desde então, a inibição da ação da testosterona nos pacientes com esse tipo de câncer vem sendo empregada com sucesso. Mas, infelizmente, seu efeito não é duradouro, na maioria dos pacientes. Em 2004, um estudo chamado TAX 327 mostrou eficácia do quimioterápico Docetaxel naqueles pacientes que progrediam após o bloqueio hormonal, mas com uma série de efeitos colaterais. Basicamente, essas eram as opções de tratamento na doença avançada até o início desta década.

Mais recentemente, com o melhor entendimento da biologia tumoral e da forma como a testosterona participa no estímulo ao crescimento do tumor, novos medicamentos se mostraram eficazes e com efeitos colaterais bem toleráveis, além de serem tomados na forma de comprimidos, liberando o paciente da necessidade de ficar longos períodos em clínicas oncológicas para receber medicação na veia. Dois desses medicamentos são Abiraterona e Enzalutamida. Primeiramente, eles se mostraram capazes de interromper o crescimento tumoral naqueles pacientes que já tinham falhado à quimioterapia e, posteriormente, foi comprovado o benefício em fases mais iniciais da doença metastática. Essas duas drogas aumentam o tempo de vida e claramente melhoram a qualidade de vida dos pacientes, mesmo naqueles com maiores volumes de doença. Elas são cobertas pelos planos de saúde e já amplamente usadas no Brasil. Entretanto, nenhuma delas é disponibilizada pelo SUS, o que ainda impede o acesso a esses tratamentos mais modernos e eficazes pelas pessoas mais humildes.

Recentemente foi aprovado pela ANVISA uma nova medicação chamada Apalutamida para o tratamento dos tumores prostáticos que não estão respondendo ao bloqueio convencional da testosterona, mas ainda estão sem metástases. Portanto, aparentemente, quanto mais cedo iniciamos o tratamento com esses medicamentos, melhores são os resultados. A Enzalutamida também mostrou eficácia nesse contexto mais precoce de doença. Nesse momento, existem estudos com Apalutamida também na doença metastática. Outros medicamentos, como o Radium 223, melhoram muito as dores causadas pelas metástases ósseas e também aumentam o tempo de vida dos pacientes.

Algumas dúvidas ainda existem com relação ao tratamento. Qual o real papel dos exames de imagens mais modernos, como o PET PSMA, e qual o melhor momento para sua realização? Qual o melhor sequenciamento de tratamento e é possível associar esses medicamentos com objetivo de melhores resultados? O tratamento da doença na próstata com cirurgia ou radioterapia, quando a doença já apresenta metástases, traz algum benefício adicional? Todas essas questões foram amplamente discutidas nesse encontro nos EUA, com o objetivo de oferecer aos pacientes sempre o melhor tratamento.

Além do encontro em Houston, aconteceu em São Francisco, também nos EUA – até dia 16 de fevereiro, o ASCO GU, Congresso Americano de Oncologia Urológica, com participação do Dr. André Sasse, também oncologista e CEO do Grupo SOnHe. Nesse Congresso foram discutidas as principais inovações no tratamento, não apenas do câncer de próstata, mas também de bexiga e de rim. Em breve, Dr. Andre postará as novidades desse importante congresso. Portanto, embora o câncer de próstata se mantenha como o maior inimigo oncológico dos homens, as descobertas recentes têm mudado a história natural da doença e permitido que mais e mais pacientes se curem ou vivam mais tempo com excelente qualidade. E os médicos do Grupo SOnHe não tem descansado na busca por essas inovações.

O que há de novo em câncer de próstata?

No Congresso Europeu de Oncologia Clínica, ocorrido em Munique, de 19 a 23 de outubro, foram discutidos e apresentados estudos sobre diferentes tipos de tumores. Especificamente sobre câncer de próstata, algumas novidades podem mudar a prática médica atual.

As evidências mais importantes surgiram a partir de um estudo que avaliou o uso de radioterapia para tratamento local, da próstata, em pacientes que já apresentavam disseminação a distância, com metástases ao diagnóstico. Habitualmente, estes pacientes, já com doença considerada incurável, recebem apenas tratamento com hormonioterapia.

O estudo com mais de 2.000 pacientes demonstrou que, de uma forma global, a radioterapia não mudou a evolução dos casos. No entanto, em um grupo de pacientes com um número pequeno de metástases, a radioterapia foi capaz não só de atrasar a evolução da doença como também de aumentar a expectativa de vida. Desta forma, atualmente, além de se discutir sobre quimioterapia e hormonioterapia, pacientes com doença avançada também precisam discutir o tratamento local da próstata. Importante pesar os riscos, os efeitos colaterais da radioterapia, com os benefícios esperados com o tratamento. Mas a ideia de se tratar a origem da doença, a fonte das metástases, com radioterapia (ou mesmo cirurgia) ganha força.

Alguns outros estudos consolidaram o que os médicos já faziam na prática clínica. Um deles confirmou que o uso de quimioterapia para câncer de próstata localizado não deve ser indicado, pois não aumenta as chances de cura e nem atrasa a ocorrência de metástases.

Importante: um dos estudos que demonstrou que a utilização mais precoce de uma das novas hormonioterapias, a abiraterona, proporcionou melhor qualidade de vida associada à maior expectativa de vida dos pacientes com câncer de próstata. Antes, se esperava o câncer ficar resistente a supressão convencional de hormônios. Hoje, sabe-se que o uso de abiraterona logo ao diagnóstico da doença avançada é melhor. Já a sua combinação (utilização concomitante) com novos tratamentos, como o Radium-223 não melhorou os resultados também. Assim, mantém-se a rotina atual, que é a utilização sequencial deles.

Novidades terapêuticas para câncer de mama e de próstata

Liberado no início de agosto pela agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a comercialização do palbociclibe, medicação contra o câncer de mama voltada especificamente para os casos avançados, em que a doença já acometeu boa parte da região ou mesmo se espalhou para outros órgãos, é uma nova alternativa para o tratamento que promete estabilizar o tumor. Outro medicamento aprovado pela Anvisa é o enzalutamida para o tratamento do câncer de próstata não metastático resistente à castração. Segundo a agência, estudos realizados apontam que o medicamento reduziu em 70,8% o risco de agravamento da doença quando comparado ao placebo, além de ter aumentado a sobrevida livre de metástases de 14,7 meses das pessoas que usaram placebo para 36,6 meses no grupo que recebeu o medicamento.

Na oncologia estamos conseguindo superar algumas barreiras com a aprovação de terapias e mais acessos ao tratamento do câncer. A aprovação desses medicamentos no Brasil permite que pacientes com câncer de mama e de próstata recebam tratamentos com mais eficácia com menos efeitos colaterais do que o que tínhamos à disposição. Isso permite uma vida com mais qualidade. Esses remédios permitem que o paciente possa seguir com uma vida mais próxima ao normal, e foque mais nas coisas importantes e pessoais, e menos na doença e no tratamento. Além disso, com um controle da doença por mais tempo, naturalmente se verifica uma expectativa de vida maior.

No sistema privado, o tratamento para os dois tipos de tumores é feito de forma diferente do oferecido pelo Sistema Único de Saúde. E, infelizmente pelo alto custo, o SUS não disponibiliza esses medicamentos a toda a população. Somente pacientes no sistema privado conseguem acesso. E mesmo assim, nem todos planos de saúde dão cobrem às novas tecnologias. Isso porque a ANS, que regula a atuação dos planos, é morosa na avaliação da obrigatoriedade de cobertura aos tratamentos. Esperamos que estudos de impacto orçamentário e da relação custo-benefício sejam feitos de forma ágil para garantir que o preço dos medicamentos seja justo e que eles possam ser incorporados sem que haja risco à sustentabilidade dos sistemas de saúde.

Câncer de Próstata: novidades no tratamento.

Simpósio Americano de Câncer Geniturinário

Resumo do dia 8/2/2018

O dia de hoje foi todo voltado às atualizações em câncer de próstata.

Pela manhã houve discussões a respeito das maiores controvérsias a respeito do diagnóstico, tratamento da doença localizada e metastática. Muito se fala sobre a necessidade ou não do tratamento cirúrgico da próstata na doença metastática e incurável. Também da importância das avaliações genéticas e moleculares da doença para se definir a melhor estratégia de tratamento (com cirurgia, radioterapia, hormonioterapia).  Alguns trabalhos iniciais sobre imunoterapia foram discutidos, mas sem nenhum resultado prático na nossa realidade.

No período da tarde foram apresentados alguns resultados de novos estudos clínicos. Dois deles, muito importantes, demonstraram que o uso de novos medicamentos hormonais melhoram o prognóstico de pacientes com câncer de próstata não metastático mas que estão apresentando elevação de PSA após bloqueio hormonal simples.

Com o uso de enzalutamida ou de apalutamida, o tempo médio para aparecimento de metástases nesses pacientes foi de 1 ano para 3 anos. Isso mantendo boa qualidade de vida. Os efeitos colaterais desses medicamentos não são significativos, e o custo do tratamento é o principal problema, já que a terapia é por via oral, e contínua.

Ao fim do dia foram discutidos casos clínicos com controvérsias relevantes para o dia a dia dos urologistas e oncologistas.

Amanhã e sábado tem mais apresentações importantes, sobre câncer de bexiga, rim, testículo e pênis.