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Duas novas indicações de medicações oncológicas aprovadas no Brasil

Nas últimas semanas, tivemos duas novidades no tratamento oncológico no Brasil: as aprovações das medicações Ramucirumabe (Cyramza®), uma terapia-alvo para câncer de fígado, e Atezolizumabe (Tecentriq®), uma imunoterapia para câncer de pulmão.

Em junho, a Anvisa aprovou a indicação do Ramucirumabe para tratamento de pacientes com câncer de fígado (hepatocarcinoma) avançado ou irressecável, com função hepática preservada (CHILD A), que tenham falhado à primeira linha terapêutica com Sorafenibe – o atual padrão – e apresentem alfa-feto proteína com valores iguais ou acima de 400ng/mL. O embasamento para tal aprovação foi o estudo REACH-2, que randomizou 292 indivíduos com as características descritas para receberem Ramucirumabe ou placebo. Apesar do pequeno aumento da sobrevida mediana (7,29 para 8,51 meses), a redução do risco de morte foi de 29% e estatisticamente significativa (IC 95% 0,531-0,949; p 0,019). Outro dado mostrou que, em 24 meses, 10,2% dos pacientes do grupo intervenção estavam vivos, contra nenhum do grupo placebo.  Entretanto, a taxa de resposta e o tempo para piora da qualidade de vida não mudaram com o tratamento e as toxicidades foram maiores, apesar de, em geral, a medicação ter sido bem tolerada. Com esses dados, o Ramucirumabe se tornou uma das opções para esse cenário.

Em relação à outra droga, o Atezolizumabe, a Anvisa aprovou em julho a indicação do seu uso no tratamento de pacientes com câncer de pulmão não-pequenas células (tipo não-escamoso) avançado como terapia de primeira linha em combinação com quimioterapia (Carboplatina, Paclitaxel e Bevacizumabe). O estudo que suscitou a indicação foi o IMPower150, que aleatorizou 1.202 pacientes conforme descrito acima para três grupos: quimioterapia padrão + Bevacizumabe + Atezolizumabe (grupo 1), quimioterapia padrão + Atezolizumabe (grupo 2) ou quimioterapia padrão + Bevacizumabe (grupo 3 ou controle). Neste estudo, vale ressaltar, pacientes com mutações EGFR ou ALK puderam ser incluídos, caso progredissem à primeira linha com inibidores de tirosina quinase, o atual tratamento padrão para eles. Os resultados mostraram uma redução significativa do risco de morte de 22% em relação ao controle (10% a mais de pacientes vivos em 2 anos), além de uma maior taxa de resposta (63,5 x 48%), às custas de uma maior, apesar de aceitável, toxicidade (eventos graves: 25 x 19%).

Estas duas novas aprovações vêm para somar à evolução constante dos tratamentos oncológicos, cada vez mais baseados em terapias-alvo e imunoterapias, que promovem maiores benefícios com toxicidades aceitáveis. Também lembramos que o trabalho para a melhoria da sobrevida focando na qualidade de vida é sempre bem-vindo e esperamos por mais novidades no futuro.

Referências:

Zhu AX, Kang Y-K, Yen C-J, et al. For the REACH-2 study investigators. Ramucirumab after sorafenib in patients with advanced hepatocellular carcinoma and increased α-fetoprotein concentrations (REACH-2): a randomised, double-blind, placebo-controlled, phase 3 trial [published online January 18, 2019]. Lancet Oncol. doi:10.1016/S1470-2045(18)30937-9.

Socinski MA, et al. Atezolizumab for First-Line Treatment of Metastatic Nonsquamous NSCLC. N Engl J Med 2018;378:2288-2301.

ESMO-GI: um resumo

Na última semana, ocorreu em Barcelona, na Espanha, o XXI Congresso Mundial de Câncer Gastrointestinal (WCGIC), da Organização Europeia de Oncologia Médica (ESMO), que reuniu grandes nomes da Oncologia mundial. Este evento se mostra cada vez mais importante, tendo em vista a relevância dos tumores gastrointestinais no mundo e as constantes evoluções na área. A comunidade europeia é conhecida por ter um caráter mais cauteloso nas suas indicações, sendo mais atenta aos impactos financeiros dos tratamentos. Neste ano, o foco foi o surgimento de novas abordagens terapêuticas, sejam elas cirúrgicas ou medicamentosas, e a crescente importância da imunoterapia e da terapia-alvo, sem esquecer da sustentabilidade financeira da Oncologia.

A primeira aula do Congresso merece destaque: o papel da microbiota no câncer gastrointestinal. O estudo da composição de bactérias que naturalmente povoam nosso corpo e intestino tem ganhado cada vez mais força e os dados mostram que existe uma relação entre a microbiota e desfechos oncológicos, como resposta ao tratamento, sobrevida, efeitos adversos e até mesmo o desenvolvimento do câncer. Entretanto, os pesquisadores ainda não estabeleceram uma utilidade prática para isso e, portanto, o desenvolvimento de novas pesquisas merece apoio e deverá trazer novidades em pouco tempo.

Alguns palestrantes abordaram questões relacionadas à idade e ao sexo dos pacientes. Há uma tendência a um aumento de incidência em pacientes mais jovens (menores que 50 anos) e um dos fatores contribuintes é a obesidade, o que enseja ainda mais a necessidade do combate a esse problema. Quanto ao sexo, mostrou-se que ser homem ou mulher faz alguma diferença, principalmente na questão de dosagem dos tratamentos e no tempo para diagnóstico dos tumores, porém estudos são necessários para individualizar melhor os mesmos.

Em relação à parte cirúrgica e de radioterapia, houve bastante discussão em relação à melhor abordagem do câncer de pâncreas localmente avançado, no que se refere ao uso da quimioterapia antes ou depois da cirurgia. Houve uma tendência de se pensar que antes seja mais adequado em grande parte das vezes, a fim de promover uma seleção dos pacientes que tenham maior benefício de uma cirurgia tão mórbida.

Em relação ao câncer de reto, uma discussão antiga continua em voga: a possibilidade de evitar a cirurgia em pacientes que realizam radioterapia com quimioterapia e atingem uma resposta completa. Nessa linha, alguns estudos têm abordado o uso de toda a quimioterapia antes do tratamento cirúrgico, elevando o número de pacientes com tal resposta. O ceticismo parece ser menor em relação a esta abordagem, porém ainda é uma opção não-padrão e ainda terá muitos debates pela frente.

Ademais, muito se falou sobre biologia molecular e como utilizar dados de perfis genéticos na prática. Dois exames de análise genética (Oncotype Dx e Immunoscore), padrões de classificação dos pacientes com câncer de cólon foram abordados em estudos (SUNRISE-DI e O-023), que tentaram predizer o prognóstico e o benefício de quimioterapia adjuvante. Apesar do valor preditivo ainda não estar estabelecido, o prognóstico parece ser estratificado com tais testes, que podem ter seu efeito prático em futuros estudos.

Em uma sessão central, dois grandes palestrantes abordaram o uso de anticoagulantes de nova geração em pacientes com câncer, sugerindo que ainda não é o momento de utilizamos de forma generalizada, e também uma aula sobre como lidar com efeitos adversos da imunoterapia, um assunto que não era visto até há pouco tempo neste Congresso, devido ao crescimento muito recente desse tipo de terapia nos cânceres gastrointestinais.

Quanto ao uso de quimioterapia já antiga, alguns estudos em câncer de cólon testaram diferentes formas de utilização de drogas já conhecidas. Apesar de resultados negativos, um dos trabalhos (TRIBE2) abordou uma combinação de três drogas (FOLFOXIRI) ao invés de duas (FOLFOX à FOLFIRI) na primeira linha. Os resultados mostraram benefícios em taxa de resposta e sobrevida global, principalmente em pacientes com algumas características específicas, como mutação BRAF, bom estado geral e tumor de cólon direito. Entretanto, é um regime muito tóxico e difícil de ser adotado na prática para todos, sendo reservado para pacientes selecionados.

Em relação à imunoterapia, houve diversos estudos iniciais e outros poucos mais maduros. Entre estes últimos, um que foi bastante comentado foi sobre o uso da medicação Pembrolizumabe para câncer de esôfago após primeira linha de tratamento (KEYNOTE-181). Estes pacientes têm poucas e pouco eficazes opções e o uso do Pembrolizumabe reduziu em até 22% o risco de morte dos pacientes, com melhora da qualidade de vida e toxicidades, principalmente naqueles com tumor do tipo escamoso e com PDL-1, um marcador tumoral, maior ou igual a 10%. Em contrapartida, esta mesma droga foi testada em câncer gástrico (KEYNOTE-062) e de fígado (KEYNOTE-240) e não mostrou benefício em sobrevida global de forma definitiva. Vale ressaltar que houve bastante discussão em função não só da análise estatística utilizada, mas também pelo fato que a agência regulatória dos EUA já havia aprovado de forma precoce o tratamento para o câncer de fígado. O que se concluiu é que a melhor seleção dos pacientes pode levar a um uso mais eficaz da droga.

A discussão sobre custos na prática foi bem interessante, porém talvez pudesse ocupar mais sessões do congresso futuramente, já que é um tema tão importante nos dias atuais. Em sessões paralelas, falou-se também sobre pesquisa clínica e carreira do oncologista, biologia molecular em outros tipos de tumor, além de tumores neuroendócrinos e bases científicas para futuros usos da imunoterapia.

Depois de todos esses dados, entretanto, o estudo mais comentado foi o BEACON CRC. Este trabalho, liderado pelo presidente da ESMO, Josep Tabernero, e por Scot Kopetz, do MD Anderson Cancer Center de Houston, no Texas, avaliou o uso de uma combinação de 3 terapias-alvo (Encorafenibe + Binimetinibe + Cetuximabe) contra o padrão de tratamento em pacientes em segunda ou terceira linhas de câncer de cólon com BRAF mutado. Essa mistura foi pensada baseando-se na biologia molecular dos tumores e os resultados mostraram um aumento de sobrevida global mediana de 5,4 para 9,0 meses, com redução de 48% do risco de morte, algo que há muito não se via em cólon. Não só isso, a taxa de resposta foi maior 26 x 2% e as toxicidades não aumentaram. Os dados tiveram significância estatística e o que se comentou é que se tornará um novo padrão de tratamento para estes pacientes. Vale notar que houve alguma discussão sobre as medicações utilizadas nos pacientes do grupo controle. Esta apresentação mostra que o congresso tem se mostrado cada vez mais atraente e rico em discussões científicas.

Em conclusão, o evento foi um sucesso e trouxe à tona muitas discussões bastante interessantes para os médicos, mas, principalmente, para os pacientes. Esperamos que as pesquisas continuem avançando em direção à busca de tratamentos mais eficazes e menos tóxicos, oferecendo sobrevida com qualidade de vida. Não só isso, que o futuro também mostre o melhor caminho quanto à sustentabilidade financeira dos sistemas de saúde, que tem tido de se reinventar com o advento de tantas novas terapias.

Alerta sobre a relação entre vitamina C e câncer

Nos últimos dias, algumas reportagens têm sugerido uma possível ligação entre a vitamina C e o estímulo ao crescimento do câncer. Isso está ocorrendo em função de um estudo publicado recentemente na revista Free Radical Biology and Medicine e, pelo modo que a imprensa noticia, poderia haver um alarde desnecessário.

Sempre devemos ter muito cuidado para não tomarmos atitudes sem justificativa científica contundente. Primeiramente, o estudo em questão foi in vitro, ou seja, realizou testes em laboratório, não em seres humanos ou animais. Os pesquisadores avaliaram o comportamento e as concentrações de vitamina C (e derivados da mesma) em células de câncer de mama desenvolvidas em meios de cultura artificiais e controlados. Os resultados mostraram que as estas células apresentavam maior expressão de um receptor (SVCT2), o qual é responsável por utilizar a vitamina C para produção de energia e proliferação. Além disso, os achados sugerem que estas células do câncer de mama são –  ao contrário daquelas normais – capazes de captar a vitamina C em uma forma diferente no sangue. Tais características podem, segundo os autores, promover uma vantagem para célula cancerígena: uma maior taxa de crescimento celular.

Entretanto, as evidências anteriores a este estudo mostram o oposto, que a vitamina C é um antioxidante potente e talvez possa ser um aliado no combate ao câncer. Infelizmente, os trabalhos anteriores tampouco apresentam conclusões definitivas. Mesmo assim, há médicos que, irresponsavelmente, indicam o uso de altas doses de vitamina C antes da quimioterapia. Essa prática também não tem suporte científico e é temerária, já que mais estudos são necessários para tal.

Uma das principais críticas ao trabalho em discussão é que o comportamento de substâncias e células fora do corpo muitas vezes é diferente do que realmente ocorre num organismo vivo, o qual tem muitos outros fatores que tornam a análise infinitamente mais complexa.

É muito interessante ressaltar que os autores, responsavelmente, concluem em seu artigo que esse achado sugere uma possibilidade da relação da vitamina C com o câncer, e não que seria uma panaceia ou uma grande revolução. Tal afirmação contrasta com as notícias divulgadas pela imprensa, que passam a impressão de que o estudo conclui algo muito mais definitivo e revolucionário.

Seja por má interpretação, por sensacionalismo ou por incapacidade dos autores em transmitir a informação corretamente, fato é que o alarde é completamente desnecessário e o mais importante é que não há qualquer evidência que suporte a redução (nem o aumento excessivo) do consumo de vitamina C por seres humanos. O que temos a fazer é aguardar por novas pesquisas que possam esclarecer o assunto, enquanto seguimos orientações dos nossos médicos e nutricionistas, mantendo a ingestão recomendada de vitaminas – inclusive a C – sem decisões precipitadas.

Referências:

Peña E, et al. Increased expression of mitochondrial sodium-coupled ascorbic acid transporter-2 (mitSVCT2) as a central feature in breast cancer. Free Radical Biol Med 2019;135:283-92.

Gillberg L, et al. Vitamin C – A new player in regulation of the cancer epigenome. Semin Cancer Biol 2018;51:59-67.

Terapia-alvo inovadora aprovada no Brasil

A Anvisa aprovou na última semana o medicamento Larotrectinibe (Vitravki®) para utilização no Brasil. Esta não é uma novidade qualquer, pois trata-se da primeira terapia-alvo liberada em solo brasileiro que tem indicação independente do tipo de tumor. No caso, esta droga atua em uma proteína que está alterada em diferentes tipos de câncer, o que tem se tornado uma tendência da Oncologia nos últimos anos e trazido benefícios a cada vez mais pacientes.

O Larotrectinibe é um inibidor de uma proteína mutada (de fusão) chamado receptor TRK (Tropomyosin receptor kinase), presente na membrana celular de algumas neoplasias malignas (1% do total, aproximadamente). Esse receptor na sua forma normal NTRK (Neurotrophic receptor tyrosine kinase) está presente em células do sistema nervoso (neurônios), nas quais sua ação é a de promover o crescimento e sobrevivência celular de forma controlada. Entretanto, por uma alteração genética (fusão de partes de 2 genes) que surge durante alguma divisão celular, os tumores malignos podem apresentar a forma mutada deste gene, o qual leva à produção da proteína TRK alterada. Esta, por sua vez, tem um comportamento diferente do habitual e promove a divisão celular de forma contínua e descontrolada, desenvolvendo o câncer.

A aprovação do Larotrectinibe se baseou em um estudo publicado em 2018 no New England Journal of Medicine, uma das mais conceituadas revistas científicas médicas do mundo. Os pesquisadores avaliaram a ação da medicação em questão em 55 pacientes (adultos e crianças) com diversos tipos de tumores, que apresentavam a mutação do gene TRK e que tivessem falhado aos tratamentos-padrão para a sua doença. Os resultados mostraram altíssimas chance de diminuição do câncer (75%) e duração de resposta (71% com resposta mantida após 12 meses), associadas a uma taxa de efeitos colaterais graves muito baixa (7%).

Interessante destacar que esse foi um estudo pequeno, de fase precoce e que não comparou pacientes com ou sem a medicação, porém, como o efeito é muito claro e racional, tornou-se suficiente para a aprovação no mundo (nos EUA e na Europa, foi aprovado em novembro do ano passado).

Vale lembrar que a liberação pela ANVISA não supõe a obrigatoriedade de disponibilização pelos planos de saúde, já que tal deliberação depende de outras diretrizes legais (inclusão no rol da ANS).

O Larotrectinibe é um exemplo da personalização da Oncologia que tem ocorrido e que deve crescer rapidamente nos próximos anos. O objetivo é dar o tratamento certo para o paciente certo, promovendo sobrevida e qualidade de vida, pois o foco é sempre o paciente.

Referências:

http://www.in.gov.br/web/dou/-/resolucao-re-n-1.739-de-27-de-junho-de-2019-180788963?inheritRedirect=true&redirect=%2Fsearch%3FqSearch%3Dlarotrectinibe

Drilon A, et al. Efficacy of Larotrectinib in TRK Fusion–Positive Cancers in Adults and Children. N Engl J Med 2018;378:731-9

Cigarro eletrônico: menos problemas ou mais dúvidas?

A moda recente dos cigarros eletrônicos (e-cigarrettes) tem gerado discussões entre cientistas. Apesar da contribuição para a redução do número de fumantes de cigarros normais no mundo, há ainda muitas dúvidas quanto aos riscos e benefícios do aumento de usuários dos eletrônicos (aproximadamente 5% da população dos EUA faz uso).

Os e-cigarrettes são basicamente aparelhos vaporizadores de nicotina que utilizam substâncias associadas (água, solventes e aromatizantes) para produzir tal efeito. Ou seja, os efeitos extremamente danosos da nicotina – incluindo as doenças cardiovasculares e a dependência – continuam como riscos enormes à saúde. Ao mesmo tempo, uma questão-chave é que não há dados sobre as consequências à longo prazo, visto que a inalação de vapor quente associado às substâncias citadas são potencialmente causadores de doenças pulmonares e do trato respiratório, incluindo câncer de pulmão e de cabeça e pescoço.

Os defensores dos e-cigarrettes fiam-se no fato do número absoluto de substâncias carcinogênicas ser menor do que o cigarro normal. Além disso, os e-cigarrettes podem ajudar alguns tabagistas a pararem de fumar, porém a evidência ainda não é contundente. Entretanto, isso não justifica o uso indiscriminado, muito menos o seu estímulo, já que a ciência não demonstrou segurança à longo prazo.

A recomendação ideal continuará sendo sempre evitar uso de cigarros (eletrônicos ou não), visto que o impacto conhecido de ambos na saúde individual e populacional é gigantesco em função não só do câncer, mas também das doenças cardiovasculares, que ainda são a maior causa de morte em várias partes do mundo.

 

Referências:

Glasser AM, et al. Overview of Electronic Nicotine Delivery Systems: A Systematic Review. Am J Prev Med 2017;52(2):e33-e66

Martinez U, et al. How Does Smoking and Nicotine Dependence Change after Onset of Vaping? A Retrospective Analysis of Dual Users. Nicotine Tob Res 2019;pii:ntz043

Alerta Oncologia: fake news sobre menstruação e câncer

É “fake”, ou seja, são mentirosas as afirmações que vêm circulando em posts nas redes sociais. Segundo a publicação, bater no abdome com objetos duros, comer pepino, usar xampu na cabeça e beber água gelada, de coco ou com gás, enquanto a mulher está menstruada, causaria esterilidade, câncer de útero e “químicos”.

As informações são completamente falsas e sem qualquer embasamento científico. A esterilidade tem causas variadas, dentre as quais não se encontram nenhuma dessas situações listadas. Quanto ao câncer de útero, a sua ocorrência tem associação mais clara com fatores como obesidade (endométrio) e vírus HPV (colo do útero).

Devemos ficar atentos às notícias falsas, sensacionalistas e irresponsáveis e sempre duvidar de publicações cujas fontes não sejam citadas ou confiáveis. O ideal é procurar orientação médica com seu clínico ou ginecologista para obter informações cientificamente corretas.

Referências:

Onstad MA, et al. Addressing the Role of Obesity in Endometrial Cancer Risk, Prevention, and Treatment. J Clin Oncol 2016;34(35):4225-30.

Jose-Miller AB, et al. (2007). Infertility. Am Fam Physician 2007;75:849–56.

Ferlay J, et al (2018). Global Cancer Observatory: Cancer Today. Lyon, France: International Agency for Research on Cancer. Available from: https://gco.iarc.fr/today

Novo biossimilar para tratamento do câncer de mama

No dia 20 de maio, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o medicamento biossimilar Herzuma®, cuja referência é o Herceptin®. Ambos são indicados no tratamento do câncer de mama, tanto nas fases iniciais quanto nas avançadas.

Os dois compostos são nomes comerciais do anticorpo monoclonal Trastuzumabe, que é uma molécula complexa produzida em laboratório com um alvo específico, no caso, a proteína Her2, presente em maior quantidade em alguns tipos de tumores de mama. Em relação ao Herzuma®, esta é uma medicação conhecida como biossimilar, uma cópia do composto de referência com eficácia e segurança semelhantes. O Herzuma® foi testado e aprovado no estudo CT-P6 3.2, publicado em 2017.

A principal vantagem dos biossimilares é o preço, que, geralmente, é mais reduzido. Dessa forma, a incorporação ao arsenal terapêutico no Brasil é um avanço, já que pode aumentar o acesso das pacientes com câncer de mama ao tratamento mais adequado.

O Herzuma® ainda passará pela precificação na Câmara de Regulação de Mercado de Medicamentos (CMED) e deverá estar disponível comercialmente nos próximos meses.

Referências:

Stebbing J, et al. CT-P6 compared with reference trastuzumab for HER2-positive breast cancer: a randomised, double-blind, active-controlled, phase 3 equivalence trial. Lancet Oncol 2017;18(7):917-28.

Nova aprovação para câncer de cabeça e pescoço nos EUA

Um novo tratamento para pacientes com câncer de cabeça e pescoço do tipo escamoso foi aprovado pelo FDA (Food and Drug Administration) – a instituição equivalente à ANVISA nos EUA – no dia 10 de junho. A novidade consiste no uso de uma medicação imunoterápica (Pembrolizumabe) com ou sem a quimioterapia padrão.

A nova indicação se baseou no estudo KEYNOTE-048, que envolveu mais de 800 pacientes com doença avançada ou recidivada e que ainda não tinham recebido nenhum tratamento para o tumor. Os indivíduos foram divididos aleatoriamente em três grupos: o primeiro com Pembrolizumabe isolado, outro com Pembrolizumabe mais quimioterapia e outro com o tratamento-padrão atual (quimioterapia + Cetuximabe).

Os resultados mostraram que nos pacientes com PDL-1 positivo (CPS ≥ 1 e ≥ 20) o uso de Pembrolizumabe isolado levou a um aumento da sobrevida de 2 e 4,2 meses e uma redução do risco de morte de 22 e 39%, respectivamente.

Além disso, a combinação de Pembrolizumabe com quimioterapia mostrou melhoria da sobrevida global mediana de 3,7 e 3,2 meses com redução do risco de morte de 40 e 35% nos pacientes com PDL-1 maior que 20 e 1, respectivamente. Da mesma maneira, mostrou também aumento da sobrevida global na população geral.

Interessante destacar que o Pembrolizumabe isolado promoveu menor taxa de efeitos colaterais importantes (54,7%) quando comparado à quimioterapia padrão (83,3%). Mesmo quando combinado, não houve aumento significativo destas toxicidades (85,1%).

Todos estes dados levaram à aprovação pelo FDA e o tratamento tornou-se mais uma opção para os pacientes nos EUA, já que foram demonstradas sua eficácia e segurança. Aqui no Brasil, porém, a ANVISA ainda não avaliou e, portanto, o uso nesta indicação não é preconizado no momento. Vamos seguir alertas para futuras aprovações. Avanços são importantes e esperamos que este traga melhores desfechos para nossos pacientes, sempre priorizando vida longa com qualidade.

 

Referências:

https://www.fda.gov/drugs/resources-information-approved-drugs/fda-approves-pembrolizumab-first-line-treatment-head-and-neck-squamous-cell-carcinoma

https://meetinglibrary.asco.org/record/171051/slide

https://www.ascopost.com/News/60093

https://clinicaltrials.gov/ct2/show/NCT02358031

A importância da compaixão com os pacientes

Para o bom exercício da Medicina, não basta o médico saber bastante sobre a teoria científica, mas também demonstrar compaixão, uma atitude que pode fazer mais bem do que se imagina. Essa afirmação pode parecer apenas senso comum, mas tem base científica e é sobre isso que fala um novo livro, lançado no dia 30 de abril de 2019, chamado “Compassionomics: The Revolutionary Scientific Evidence that Caring Makes a Difference”, dos médicos Sthephen Trzeciak e Anthony Mazzarelli, da Cooper University, nos Estados Unidos.

Os autores mostram na obra que a prática de ter compaixão com os pacientes não é apenas agradável, mas traz benefícios reais em desfechos clínicos tanto para os pacientes quanto para os profissionais de saúde que os atendem. Essa relação entre compaixão e consequências positivas tem sido estudada há algum tempo pelos autores que, por meio de revisões extensas da literatura, identificaram associações muito úteis: redução do sofrimento dos pacientes, melhora da dor com redução do uso de analgésicos, redução do burnout entre os profissionais de saúde e, consequentemente, redução dos custos do cuidado na saúde. Com base nisso, eles sugerem que estudos futuros sejam feitos levando essas relações em conta.

Numa época em que muito se fala do crescente distanciamento entre médicos e pacientes, este livro reforça que o mais importante continua sendo o foco no bem-estar do outro, com a prática da Medicina baseada não só em evidências, mas também em valores.

Referência: Trzeciak S, Roberts BW, Mazzarelli AJ. Compassionomics: Hypothesis and experimental approach. Medical Hypotheses 2017;107:92-7.

Aberta consulta pública sobre proposta de incorporação de medicamento para câncer de próstata no SUS

No último dia 9, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC) abriu uma consulta pública sobre a proposta de incorporação da Abiraterona no tratamento de pacientes com câncer de próstata metastático no sistema público.

A indicação solicitada é para pacientes que tenham a doença não controlada após terapia hormonal e quimioterapia. Hoje, no SUS, a defasagem do arsenal de terapêuticas para o câncer de próstata é alta e a Abiraterona já é largamente conhecida, estudada e utilizada em todo o mundo. O principal estudo para o contexto é de 2011 e mostrou, em sua análise final, uma redução do risco de morte de 25% e boa tolerância, além de melhora em qualidade de vida.

A recomendação preliminar da CONITEC é pela inclusão do medicamento e a consulta pública convida tanto cientistas quanto a população geral (como pacientes e sua experiência) a participarem. A data-limite para envio de pareceres é dia 28 de maio de 2019 e o envio pode ser feito pelo site http://conitec.gov.br/consultas-publicas (Consulta Pública nº 26).

Esse passo é muito importante e a previsão de aprovação traz novas possibilidades para tratamento dos pacientes do SUS, o que é sempre um avanço. Vamos continuar alertas e informaremos quando o parecer final for emitido.

 

Referências:

De Bono JS, Logothetis CJ, Molina A, Fizazi K, North S, Chu L, et al. Abiraterone and increased survival in metastatic prostate cancer. N Engl J Med 2011;364(21):1995-2005.

Logothetis C, De Bono JS, Molina A, Basch EM, Fizazi K, North SA, et al. Effect of abiraterone acetate (AA) on pain control and skeletal-related events (SRE) in patients (pts) with metastatic castration-resistant prostate cancer (mCRPC) post docetaxel (D): results from the COU-AA-301 phase III study. Journal of clinical oncology. 2011;29(15 SUPPL. 1).

Publicação do Diário Oficial da União (DOU):