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Novo tratamento para câncer de bexiga aprovado no Brasil

No dia 9 de outubro, foi aprovado no Brasil, pela Anvisa, a medicação Erdafitinibe (Erfandel®) para uso em pacientes com câncer de bexiga. Essa foi a primeira droga do tipo terapia-alvo para tratamento específico deste tipo de tumor.

No estudo que levou à aprovação, o Erdafitinib foi testado em indivíduos com tumores de bexiga do tipo urotelial – o mais comum desse órgão – localmente avançados ou metastáticos que tinham utilizado anteriormente quimioterapia e tivessem apresentado progressão da doença. Não só isso, os pacientes eram selecionados para o tratamento apenas se tivessem mutação no gene FGFR (Fibroblast Growth Factor Receptor), que é um receptor presente nas células e que pode estar alterado em algumas neoplasias malignas, como alguns tumores de bexiga. No estudo, que foi de fase II (uma etapa intermediária dos estudos clínicos), o objetivo foi avaliar se a droga era ativa nesse tipo de tumor e não havia braço comparador. A taxa de resposta foi de 40%, com sobrevida global mediana de 13,8 meses. Os efeitos colaterais de alto grau ocorreram em 46% dos pacientes, ou seja, a toxicidade foi importante, apesar de não ter sido limitante ao seu uso.

Esta droga já tinha sido aprovada nos EUA em abril deste ano e é um avanço importante para os pacientes com câncer de bexiga, que – após vários anos sem novidades – receberam nos últimos anos novas opções, principalmente com o advento da imunoterapia moderna. Com essa terapia-alvo, o manejo desses pacientes fica mais personalizado e eficiente, melhorando suas vidas.

Deve-se lembrar que é uma medicação oral e, portanto, apesar da aprovação na Anvisa, ainda não é obrigatória a cobertura pelos planos de saúde. Abordamos esse assunto em post anterior (acesse aqui https://sonhe.med.br//2019/09/03/simparaquimiooral/).

Referências:

Loriot Y, et al. Erdafitinib in Locally Advanced or Metastatic Urothelial Carcinoma. N Engl J Med. 2019;381:338-48.

http://www.anvisa.gov.br/datavisa/fila_bula/frmVisualizarBula.asp?pNuTransacao=10285482019&pIdAnexo=11571043

Dissertação de mestrado: benefício viável para pacientes com câncer de fígado

No último dia 30 de outubro, o oncologista Dr. Rafael Luís, do Grupo SOnHe, realizou a defesa de sua dissertação de mestrado, na Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP. Seu orientador foi o CEO do grupo, Prof. Dr. André Sasse.

O tema do mestrado foi “Análise de custo-efetividade do Sorafenibe para o carcinoma hepatocelular (CHC) avançado no contexto do Sistema Único de Saúde (SUS)” e teve como objetivo definir se a medicação Sorafenibe era custo-efetiva para tratamento de câncer de fígado de pacientes do sistema público de saúde no Brasil. Uma terapia é custo-efetiva quando seu custo leva a um benefício que seja significativo e dentro de um valor viável economicamente para o país em questão.

Hoje, o SUS não fornece qualquer tratamento que tenha benefício clínico comprovado para esses pacientes. O Sorafenibe é uma droga que está no mercado desde 2008, aprovada para este tipo de tumor e já é padrão de tratamento desde então na maioria dos sistemas de saúde, inclusive no sistema privado brasileiro.

A dissertação do Dr. Rafael mostrou que, com o preço praticado hoje, o Sorafenibe não é custo-efetivo, em razão do alto valor de compra desta medicação. Entretanto, foi argumentado que com o desconto de pelo menos 8% no preço (algo bem factível), este tratamento poderia ser incorporado ao SUS e beneficiar milhares de pacientes por ano. Deste modo, a conclusão dos autores foi que seria possível e interessante uma discussão entre o SUS e a indústria farmacêutica para uma negociação de preço.

Dr. Rafael recebeu seu título de mestre e, juntamente com o Dr. André Sasse e todos do Grupo SOnHe, manterão a linha de pesquisa em farmacoeconomia, visando estudar estratégias que possam beneficiar a população brasileira, promovendo melhora do cuidado em Oncologia, balanceada com a sustentabilidade do sistema de saúde do nosso país.

O novo tratamento testado pela USP: esclarecimentos

No início deste mês de outubro, vários meios de comunicação noticiaram o sucesso de um novo tratamento para câncer realizado no Centro de Terapia Celular do Hospital da Universidade de São Paulo | Campus Ribeirão Preto (USP/RP). Definitivamente, é uma terapia nova e revolucionária na área da Oncologia, porém acreditamos que são necessários alguns esclarecimentos sobre o assunto.

O tratamento em questão é chamado de CAR-T (Chimeric Antigen Receptor T-cell, em inglês), que significa célula T com receptor de antígeno quimérico, sendo um tipo de imunoterapia personalizada. Trata-se de um método que se baseia na coleta de células de defesa do organismo do paciente (linfócitos T), na modificação genética laboratorial das mesmas e na reintrodução dessas células no sangue do paciente. A modificação genética realizada é específica e direcionada para um tipo de proteína presente nas células “doentes” do câncer. No caso da USP/RP, o paciente apresentava um tipo de câncer das células de defesa (linfócitos B), chamado Linfoma Não-Hodgkin e já havia recebido diversos tratamentos já padronizados mundialmente, porém mantinha a doença em progressão. Para ele, as células foram modificadas para atacar os linfócitos B doentes e levaram a uma resposta clínica e laboratorial importantes.

O CAR-T é um tratamento que vem sendo estudado nos últimos anos e foi desenvolvido na esteira das novas imunoterapias em Oncologia, que trouxeram a ideia de utilizar as armas naturais do organismo contra o câncer. Um dos estudos mais emblemáticos, e que levou à primeira aprovação do uso do CAR-T em humanos pelo Food and Drug Administration (FDA, a agência reguladora dos EUA), foi publicado em uma das mais prestigiadas revistas científicas de Medicina, a The New England Journal of Medicine, no início de 2018. Neste caso, o CAR-T levou a resultados extraordinários em crianças e adultos jovens com um outro tipo de câncer de células do sangue, a leucemia linfoblástica aguda.

Um dos pontos que precisam ficar claros e que, muitas vezes, é erroneamente reportado pela imprensa, é o fato de que, apesar da resposta clínica (redução da dor) do paciente em questão ter sido excelente, isso não significa que a mesma terá uma duração longa e, menos ainda, que ela significará a cura da neoplasia. Para tanto, são necessários alguns anos de acompanhamento com exames de sangue, imagem e consultas médicas para observar uma remissão completa e duradoura da doença. Portanto, descrições de desaparecimento de todas as células ou cura da doença ainda não deveriam ser noticiadas.

Além disso, a terapia CAR-T é um método de extrema complexidade, necessitando de uma estrutura grande e cara para sua realização, visto que são requeridos laboratórios especializados, um local que possa realizar transplante de medula óssea, além de equipe multiprofissional com treinamento. Um dos pontos de grande importância para os brasileiros é que este caso mostrou que o laboratório da USP/RP está preparado para realizar este tipo de tratamento, o que serve de modelo para expansão do mesmo no país, e que pode levar a uma redução – necessária – do custo, o qual pode chegar a R$ 4 milhões. Lembramos que a estrutura do hospital da USP/RP teve o apoio da FAPESP e do CNPq, instituições de fomento à pesquisa do governo, tão necessárias para o desenvolvimento da pesquisa científica no nosso país. Não só isso, foi realizado no Sistema Único de Saúde (SUS), sem ônus financeiro ao paciente.

Outro ponto a ser reforçado é que o paciente utilizou o tratamento em modalidade de “uso compassivo”, que ocorre quando um paciente não preenche os critérios para participar de um estudo clínico com alguma droga ou terapia nova e ainda não aprovada, porém que já tenha mostrado efeito benéfico em análises anteriores. Agora, um ensaio clínico será aberto e poderá recrutar mais pacientes, ainda em um contexto selecionado e restrito.

Por fim, é de suma importância ressaltar que a terapia com CAR-T só teve eficácia comprovada para alguns tumores até o momento e, atualmente, é aprovada nos EUA pelo FDA apenas para algumas neoplasias hematológicas, ou seja, do sangue, como linfomas e leucemias. Os estudos clínicos com tumores sólidos (como próstata, mama, cólon, entre outros) estão em andamento e a esperança é de que mostrem atividade tão boa quanto, ou até melhor.  Porém, para tal, é necessário ainda muita pesquisa e que, felizmente, pode ser feita, inclusive, por centros brasileiros. Não só isso, será necessário que tanto o SUS quanto o sistema privado consigam incorporar o CAR-T à gama de tratamentos disponíveis à população, o que deve ser um desafio, devido aos custos elevados. Continuaremos suportando, incentivando e participando do desenvolvimento científico brasileiro e esperamos que o CAR-T possa um dia representar uma nova opção para novos pacientes.

Referências:

Maude SL, et al. Tisagenleucel in Children and Young Adults with B-Cell Lymphoblastic Leukemia. N Eng J Med. 2018;378:439-48

https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-da-saude/terapia-inedita-na-america-latina-devolve-futuro-a-paciente-com-cancer-terminal/

https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/10/10/brasileiro-com-cancer-terminal-tera-alta-apos-terapia-genetica-pioneira-obter-sucesso-pela-1a-vez-na-america-latina.ghtml

https://istoe.com.br/tratamento-de-medicos-da-usp-faz-desaparecer-celulas-de-linfoma/

 

Atualizações ESMO 2019: novidades em pulmão e melanoma e outros temas importantes

Entre os dias 27 de setembro e 1 de outubro de 2019, nós, oncologistas do grupo SOnHe, estivemos em Barcelona para participar do Congresso Europeu de Oncologia clínica (ESMO), um dos maiores encontros de Oncologia do mundo. O evento foi de altíssimas qualidade e importância e abordou temas variados, desde novos estudos de medicamentos para o tratamento do câncer, passando por discussões sobre economia em saúde e cuidados paliativos, até uso de novas tecnologias, incluindo a inteligência artificial.

Na primeira sessão presidencial – formada por apresentações de estudos com especial importância e que podem mudar a prática clínica – o câncer de pulmão foi um dos temas mais palpitantes com dois estudos apresentados. O primeiro foi o FLAURA, um ensaio clínico que avaliou o uso do Osimertinibe, um inibidor de EGFR, em primeira para pacientes com neoplasia pulmonar de não-pequenas células metastática com mutação do gene EGFR. Os indivíduos incluídos receberam Osimertinibe ou o tratamento-padrão até então (inibidores de EGFR de primeira geração) e, anteriormente, já havia sido reportado um aumento da sobrevida livre de progressão. Nesta apresentação, foram descritos os dados de sobrevida global, a qual foi maior nos pacientes tratados com Osimertinibe, com uma redução de 20% do risco de morte, representando um aumento de 6,8 meses na mediana e resultando que, em três anos, 10% a mais de pacientes (em números absolutos) estavam vivos. Além disso, os efeitos colaterais graves ocorreram menos frequentemente nesses pacientes. O segundo estudo foi o CHECKMATE-227, que avaliou a combinação de duas imunoterapias (Nivolumabe e Ipiimumabe) na primeira linha de pacientes com câncer de pulmão metastático sem mutações EGFR/ALK. O desenho do estudo foi complexo, mas basicamente Nivolumabe + Ipilimumabe foram comparados com Nivolumabe isolado ou associado a quimioterapia, ou quimioterapia, que era o tratamento-padrão até recentemente. Dentre os diversos resultados apresentados, os mais importantes foram os aumentos na sobrevida global dos pacientes com PD-L1 ≥ 1% para a combinação de Nivo/Ipi quando comparado à quimioterapia, assim como na população total independente do PD-L1. Esse esquema de tratamento surge como uma nova opção em primeira linha e pode ser uma estratégia para poupar pacientes de receberem quimioterapia.

Na área do câncer de pele tipo melanoma, foram apresentadas algumas atualizações de estudos com imunoterapia em pacientes metastáticos, com confirmação dos dados de que há um aumento impressionante de sobrevida e que há um grupo de pacientes com um benefício mantido por muitos anos. Um dos mais importantes estudos foi o CHECKMATE-067, que comparava a combinação de Nivolumabe e Ipilimumabe com Nivolumabe ou Ipilimumabe em monoterapia, e os dados mostraram que, após 5 anos, 52% dos pacientes que receberam a combinação estão vivos, enquanto 44% com Nivolumabe e 26% com Ipilimumabe. Tal benefício veio sem piora da qualidade de vida e reforça o papel crucial da imunoterapia no melanoma e lembra a todos da revolução trazida por esse novo tipo de tratamento à Oncologia, já que foi o tipo de tumor onde os primeiros resultados positivos foram apresentados.

Saindo dos estudos clínicos em si, um tema de extrema (e crescente) importância foi abordado de forma bastante notável, a economia em saúde. Com o desenvolvimento da imunoterapia e da terapia-alvo nos últimos anos, os custos em Oncologia aumentaram exponencialmente e, cada vez mais, tem sido motivo de preocupação e discussões entre governos, planos de saúde e sociedade. A sustentabilidade dos sistemas de saúde é algo necessário e que deve ser racionalizado, levando em consideração diversos aspectos, não só médicos, mas também econômicos. Houve discussões em relação a precificação de medicamentos, modelos de avaliação econômica, estratégias para aumento de cobertura, além de troca de experiências entre estruturas de saúde de diversos países. Um ponto importante foi abordado pelo representante da Organização Mundial da Saúde, que detalhou a atualização da lista de medicamentos essenciais da OMS e propôs planos para países com baixo acesso para incorporação de novas tecnologias. Ademais, “toxicidade financeira” foi um termo repetidamente em pauta e envolve o comprometimento financeiro dos pacientes com o tratamento do câncer, mesmo quando este deveria ser papel do sistema público. Num momento de tanta evolução da Oncologia, visões sobre o impacto econômico trazem nós, profissionais da saúde, para a mesa de debate e deve estimular novas maneiras de pensar a saúde e, principalmente, promover novas ideias para solucionarmos não só a sustentabilidade, mas também a igualdade no acesso aos tratamentos.

Outro tema em voga no Congresso foi a inserção dos cuidados paliativos em todo o curso do tratamento do paciente com câncer. Médicos do Chipre mostraram um sistema de sucesso que expandiu o acesso aos cuidados paliativos a todos os pacientes com câncer daquele país, mostrando que não é algo inatingível. Não só isso, o debate sobre cuidados com pacientes metastáticos “sobreviventes de longo prazo” também ocorreu, tendo em vista os resultados cada vez melhores dos novos tratamentos, levando indivíduos que antes viviam poucos meses a viverem muitos anos. Isso traz novas preocupações, já que surgem complicações dos tratamentos e efeitos colaterais antes indetectáveis e que, agora, devem ser mais ativamente abordados, como é o caso da toxicidade cardíaca em mulheres com câncer de mama ou mesmo efeitos de longo prazo das imunoterapias.

Os jovens oncologistas também não ficaram de fora das discussões e a ESMO tem dado bastante apoio a nós. Houve algumas sessões específicas para oncologistas com poucos anos de atividade e dentre os temas, se destacaram a importância das redes sociais para o médico oncologista, a discussão sobre os novos desfechos em Oncologia e uma sessão de “mentoria” sobre as possibilidades de carreira na área. Tudo isso ajuda os jovens oncologistas a escolherem o melhor caminho a trilhar e promoverem o melhor cuidado aos pacientes.

Por fim, mas não menos importante, a área de inovações em Oncologia foi um dos focos do Congresso. O uso de biomarcadores de resposta à imunoterapia é um tema de grande controvérsia, mas também de suma importância, pois ajuda aos médicos a escolherem o melhor tratamento para cada paciente. Ainda não se chegou a um marcador ideal, enquanto muito se pesquisa sobre PD-L1, Tumor mutation burden e infiltrado linfocitário. Ademais, a biopsia líquida tem ganhado espaço para avaliar resposta ao tratamento ou mesmo para definir pacientes que precisam ou não de tratamento adjuvante de seus tumores, podendo contribuir para melhores desfechos e até poupar alguns indivíduos de receberem quimioterapia. Uma outra estratégia apresentada foi a de tentar transformar tumores pouco sensíveis a imunoterapia (“frios”) em sensíveis (“quentes”), e isso tem sido testado com diversos meios, incluindo inoculação de vírus dentro de tumores. Mas, para mim, um dos assuntos mais interessantes foi o uso da inteligência artificial na Oncologia, que tem interligado dados de diversas fontes (big data) para prever resposta a tratamentos, fazer diagnósticos e mesmo definir condutas. Um dos exemplos é o uso da radiômica, ou seja, o conjunto de achados radiológicos de diversos tumores para predizer se um tipo de tumor vai ter uma boa resposta ou vai se comportar mais agressivamente. Não só isso o uso na patologia diagnóstica também tem expandido e gerará cada vez mais discussões, incluindo éticas, já que o computador pode passar a interferir na relação médico-paciente, algo que deve ser tratado com bastante seriedade e cautela.

Enfim, o congresso da ESMO 2019 foi uma oportunidade única de adquirir novos conhecimentos, estimular discussões, promover interação entre profissionais de saúde e, consequentemente, contribuir para a evolução da Oncologia. Eu, assim como todos os colegas do grupo SOnHe, trazemos na bagagem novas ideias para tentarmos melhorar a vida dos nossos pacientes, nosso maior foco.

O Prêmio Nobel de Medicina 2019: mais caminhos para a pesquisa em câncer

William Kaelin, Peter Ratcliffe e Gregg Semenza são os nomes dos três cientistas que receberam o Prêmio Nobel de Medicina 2019, anunciado no último dia 7 de outubro. E a descoberta deles tem muito a ver com a Oncologia.

O fato das células do nosso corpo necessitarem de oxigênio já é sabido há muito tempo, porém o mecanismo de adaptação a mudanças na concentração do mesmo era ainda desconhecido. E esse mecanismo ocorre em diversos momentos, desde quanto se realiza algum exercício físico até quando a pessoa sofre perda de sangue por algum ferimento, ou mesmo quando há mudança grande de altitude.

Anteriormente, já se tinha descoberto que os corpos carotídeos, estruturas próximas às artérias carótidas do pescoço, e o hormônio eritropoietina (EPO) tinham papeis na regulação do uso de oxigênio pelas células, entretanto, o mecanismo molecular ainda era motivo de estudo.

Os três cientistas, depois de uma sequência de incansáveis estudos em laboratório, esclareceram o modo como isso ocorre. Primeiramente, eles descobriram que o gene que produz a proteína HIF-1 (Hypoxia inducible factor 1) está presente em vários tecidos do corpo, não só no sistema circulatório. A HIF-1 tem a função de adaptar o corpo a situações de falta de oxigênio. Com os esforços conjuntos, eles notaram que a concentração de oxigênio normal leva à degradação natural da HIF-1 pela célula por meio da ação da proteína de von Hippel-Lindau (VHL). Porém, em situações de hipóxia (falta de oxigênio), a HIF-1 não é degradada, levando a diversos estímulos por ativação de outros genes. Esses estímulos vão desde a proliferação de novos vasos sanguíneos, passando por um aumento de EPO e das células sanguíneas e chegam até um incremento da divisão celular. Todas essas consequências podem levar ao desenvolvimento ou crescimento de tumores.

O papel de HIF-1 já foi identificado no metabolismo de diversos tipos de câncer. Essa relação vem do fato das células de um tumor se dividirem de forma rápida e, dessa forma, necessitarem de mais oxigênio do que o normal. Não só isso, a proteína VHL está alterada em algumas neoplasias, interferindo na atuação do HIF-1. Sendo assim, o entendimento da via da HIF-1 pode abrir caminhos para novos medicamentos para o tratamento do câncer, como medicações que regulem esta via e levem à morte da célula cancerosa. É um grande passo, mas ainda há muito trabalho pela frente. Esperamos que essa nova descoberta possa se tornar base para novas opções para nossos pacientes.

Referências:

https://www.nobelprize.org/prizes/medicine/2019/summary/

http://www.laskerfoundation.org/awards/show/oxygen-sensing-essential-process-survival/

Semenza, G.L, Nejfelt, M.K., Chi, S.M. & Antonarakis, S.E. (1991). Hypoxia-inducible nuclear factors bind to an enhancer element located 3’ to the human erythropoietin gene. Proc Natl Acad Sci USA, 88, 5680-5684

Wang, G.L., Jiang, B.-H., Rue, E.A. & Semenza, G.L. (1995). Hypoxia-inducible factor 1 is a basic-helix-loop-helix-PAS heterodimer regulated by cellular O2 tension.  Proc Natl Acad Sci USA, 92, 5510-5514

Maxwell, P.H., Wiesener, M.S., Chang, G.-W., Clifford, S.C., Vaux, E.C., Cockman, M.E., Wykoff, C.C., Pugh, C.W., Maher, E.R. & Ratcliffe, P.J. (1999). The tumour suppressor protein VHL targets hypoxia-inducible factors for oxygen-dependent proteolysis. Nature, 399, 271-275

Mircea, I., Kondo, K., Yang, H., Kim, W., Valiando, J., Ohh, M., Salic, A., Asara, J.M., Lane, W.S. & Kaelin Jr., W.G. (2001) HIFa targeted for VHL-mediated destruction by proline hydroxylation: Implications for O2 sensing. Science, 292, 464-468

Jaakkola, P., Mole, D.R., Tian, Y.-M., Wilson, M.I., Gielbert, J., Gaskell, S.J., von Kriegsheim, A., Heberstreit, H.F., Mukherji, M., Schofield, C.J., Maxwell, P.H., Pugh, C.W. & Ratcliffe, P.J. (2001). Targeting of HIF-α to the von Hippel-Lindau ubiquitylation complex by O2-regulated prolyl hydroxylation. Science, 292, 468-472

Medicação com novo mecanismo de ação é aprovado no Brasil para câncer de mama

Uma medicação com mecanismo de ação distinto das já existentes no nosso país foi recentemente aprovada para pacientes com câncer de mama pela Anvisa. O Alpelisibe está indicado em combinação com Fulvestranto para pacientes com câncer de mama metastático, na pós-menopausa, com receptores hormonais presentes, em pacientes resistentes a uma primeira terapia hormonal e que tenham mutação no gene PI3K.

O gene PI3K produz uma proteína que estimula a divisão celular e, por consequência, está envolvida em diversas neoplasias. O Alpelisibe é uma terapia-alvo que bloqueia a ação da via da PI3K, especificamente a PI3KCA, reduzindo a proliferação celular. No caso do câncer de mama, cerca de 40% das pacientes com tumores que expressam receptores hormonais podem ter mutações no gene PI3K.

No estudo que motivou a aprovação, o SOLAR-1, o Alpelisibe foi associado ao Fulvestranto e comparado com Fulvestranto associado a placebo em 572 pacientes que haviam recebido terapia hormonal previamente. Dessas pacientes, 341 apresentavam a mutação no gene PI3KCA e foi nelas que a droga se mostrou eficaz, reduzindo em 35% as chances de mortes ou progressão de forma estatisticamente significativa. Ademais, a taxa de resposta (proporção de pacientes que têm redução importante do tumor) foi melhor para o Alpelisibe neste mesmo grupo (26,2 x 12,8%). Em relação aos efeitos adversos, os mesmos foram mais frequentes no grupo que usou o Alpelisibe, sendo, os principais, diarreia, hiperglicemia e rash na pele (manchas vermelhas).

O Alpelisibe é o primeiro inibidor de PI3KCA aprovado no Brasil e adiciona novas opções terapêuticas para nossas pacientes com câncer de mama. Junto com as novas terapias que surgiram nos últimos anos deve ser usada com cautela e nos indivíduos que possam ter o maior benefício. Vale lembrar que o Alpelisibe é uma medicação oral, como falamos no release de medicações orais, a aprovação pela Anvisa não significa obrigatoriedade de cobertura pelos convênios. Não só isso, como é a primeira aprovação no Brasil, será necessário estabelecer um preço antes da comercialização efetiva.

Esperamos que esse novo avanço traga novas oportunidades para nossas pacientes e continuamos lembrando da campanha #simparaquimiooral, descrita recentemente no Blog e que você pode saber mais no seguinte link: https://sonhe.med.br//2019/09/03/simparaquimiooral/

Referências:

Andre F, et al. Alpelisib for PIK3CA-Mutated, Hormone Receptor–Positive Advanced Breast Cancer. N Engl J Med 2019;380:1929-40.

http://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-re-n-2.511-de-5-de-setembro-de-2019-215164017

#simparaquimiooral

Quem vem acompanhando as publicações do “Alerta Oncologia”, do SOnHe, deve ter percebido que uma porção importante dos medicamentos que vêm sendo aprovados para tratamento do câncer são medicações orais. O problema é que, no Brasil, quando a Anvisa libera a comercialização de uma medicação oral, isso não quer dizer que os pacientes dos planos de saúde terão acesso imediato a essas drogas. E um novo projeto quer mudar isso: é o movimento #simparaquimiooral.

Vamos explicar a situação. Hoje, pelas leis brasileiras, a Anvisa é a responsável por autorizar ou não a comercialização de medicamentos no país, sejam eles orais ou injetáveis. Já a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) regula os planos de saúde e, dentre outras atribuições, determina as coberturas mínimas para os pacientes dos mesmos.

No caso das drogas injetáveis, quando a indicação em bula é liberada pela Anvisa, os planos de saúde têm a obrigação de fornecê-las para os pacientes (artigo 12, Lei nº 9.656/1998). No caso das medicações por via oral, a situação é diferente. Segundo a Lei nº 12.880/2013, as medicações orais passaram a ser de cobertura obrigatória, porém apenas aquelas analisadas e incluídas no Rol de Procedimentos da ANS, o qual é atualizado a cada dois anos. Ou seja, uma droga aprovada pela ANVISA pode demorar dois anos para ser disponibilizada pelos planos de saúde (ou até mais, caso ela seja não incluída no rol seguinte). E o preço dessas drogas é geralmente alto.

Fato é que, com a evolução rápida da medicina – notadamente da Oncologia – novos tratamentos surgem de forma muito mais rápida e, muitas vezes, os pacientes são alijados do direito de receber a melhor terapia disponível para a sua doença. Como nossos leitores podem perceber, várias drogas foram aprovadas recentemente para diversas indicações na área de Oncologia, mas muitas delas só estarão disponíveis daqui a vários meses, ou até anos, como cobertura pelos planos.

E é isso que o projeto #simparaquimiooral quer mudar. Ele tem o objetivo de realizar ações que levem à uma mudança na legislação sobre o fornecimento de tratamentos oncológicos orais para pacientes de planos de saúde. Alguns grandes passos foram tomados. Primeiramente, a elaboração de um projeto de Lei, que foi apesentado na Comissão de planos de saúde da Câmara dos Deputados em novembro de 2018, pela Deputada Carmem Zanotto. Agora, o projeto aguarda apreciação pela Comissão de Seguridade Social. Paralelamente, o mesmo projeto foi submetido para a semana da saúde da Câmara, foi enviado um ofício ao Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e está sendo articulada uma tentativa de aceleração do trâmite do projeto de Lei por meio de conversas com deputados e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia.

Finalmente, existe um manifesto na página https://www.simparaquimiooral.org.br/, que pode ser assinado por qualquer pessoa. Este manifesto poderá ajudar nos objetivos do projeto. E, como é uma iniciativa que visa a melhora da assistência à saúde em Oncologia, tem todo o apoio do grupo SOnHe. Acesse o site para saber mais, veja o vídeo, assine o manifesto e compartilhe nas redes sociais: #simparaquimiooral.

 

Referências:

https://www.simparaquimiooral.org.br/

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9656.htm

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2013/Lei/L12880.htm#art2

http://www.ans.gov.br/component/legislacao/?view=legislacao&task=TextoLei&format=raw&id=MzUwMg==

http://www.ans.gov.br/images/stories/parecer_tecnico/uploads/parecer_tecnico/_PARECER_27-2018_MEDICAMENTOS%20ANTINEOPLSICOS%20ORAIS_VERSO%20FINAL_27122017.pdf

Combinação de medicações é aprovada para câncer renal no Brasil

Um novo tratamento combinado para pacientes com câncer renal foi aprovado pela Anvisa no Brasil. A combinação é composta de uma terapia-alvo (Axitinibe) e uma imunoterapia (Pembrolizumabe) e já está em uso nos EUA desde abril e na Europa desde julho.

O estudo de fase III que levou a essa aprovação foi o KEYNOTE-426, que avaliou a ação do uso concomitante de Pembrolizumabe e Axitinibe contra o tratamento-padrão até então (Sunitinibe) em pacientes virgens de tratamento com câncer renal avançado do tipo células claras.

Os resultados mostraram uma redução estatisticamente significativa de 47% do risco de morte e 31% do risco de morte ou progressão de doença. Além disso, o número de pacientes que apresentaram resposta objetiva ao tratamento foi 24% maior (59,3 x 35,7%; p < 0,001). O benefício foi observado em todos os subgrupos de pacientes. Em relação aos efeitos colaterais, estes foram mais comuns no grupo que recebeu a combinação, porém de forma esperada em função do uso de duas drogas ao invés de uma. Vale ressaltar que o estudo ainda tem um tempo de seguimento curto (15 meses) e novos dados devem surgir ao longo dos próximos meses e anos.

O estudo teve seus resultados apresentados no congresso de tumores genitourinários da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO-GU), em março, e a publicação em uma das maiores revistas científicas mundiais, o New England Journal of Medicine.

Esta nova combinação é mais um avanço, agora para pacientes com câncer de rim. Vale lembrar que já está disponível no nosso país para uso, porém, como envolve uma medicação oral (Axitinibe), o reembolso pelos planos de saúde ainda não é obrigatório e, como não estão disponíveis no SUS, também não é acessível aos pacientes do serviço público. Estaremos atentos às novidades na área e confiantes na melhoria do acesso aos tratamentos para os brasileiros.

 

Referências:

Rini BI, et al. Pembrolizumab plus Axitinib versus Sunitinib for Advanced Renal-Cell Carcinoma. N Engl J Med 2019;380:1116-27.

Brasil sem cigarro: Manifesto do INCA reforça posição contra o comércio de cigarros eletrônicos

Recentemente, o cigarro eletrônico foi tema do Alerta Oncologia e de dois textos no blog do Grupo SOnHe (Dr. David e Dr. Vinícius) e isso não foi por acaso. As polêmicas em relação ao seu uso têm se tornado cada vez mais frequentes, em virtude do dilema entre redução do tabagismo como estratégia de promoção da saúde e aumento do uso dos e-cigarrettes. Agora, em agosto de 2019, o Instituto Nacional do Câncer (INCA) lançou um manifesto de apoio à resolução da ANVISA, de 2009, que proíbe a comercialização de cigarros eletrônicos no Brasil até hoje (RDC 46/2009).

Este manifesto foi motivado pelo novo relatório publicado em 26 de julho pela Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre o tabagismo no mundo. Nele, o Brasil foi destacado por apresentar um programa de controle de tabagismo do mais alto nível, desde a conscientização da população, passando pelos impostos sobre o produto e chegando até as proibições de uso do cigarro em locais públicos. Aliado a isto, os dados animadores do Ministério da Saúde mostram uma redução do número de fumantes no Brasil de 35% (1989) para menos de 15% em 2013, com novos dados de 2018 sugerindo que essa taxa baixou para 10%.

Essa situação vem contrastando com a expansão do uso dos cigarros eletrônicos pelo mundo, muitas vezes por influência da própria indústria, que usa um discurso de redução de danos, como se esses produtos fossem “light”. Entretanto, como extensamente explicado por nós, do Grupo SOnHe, e pelo próprio INCA, as evidências sobre os cigarros eletrônicos apontam que estes são, sim, um risco à saúde, além de aumentarem a iniciação de pessoas não fumantes no hábito do tabagismo, principalmente na população mais jovem. Dentre os danos, estão também o risco de câncer pelo vapor quente e das doenças cardiovasculares pela nicotina presente nos e-cigarrettes.

Vale citar uma frase do manifesto do INCA: “os interesses da saúde pública são contrários aos da indústria do tabaco, sendo, portanto, incompatíveis nos objetivos pretendidos”. E isso embasa e reforça o apoio irrestrito do INCA à manutenção da proibição dos cigarros eletrônicos no Brasil, visando sempre a promoção da saúde e o objetivo de tornar o Brasil um país livre do tabaco.

O grupo SOnHe, preocupado com a saúde da população e em busca da redução dos hábitos que aumentem o risco de câncer, apoia o manifesto e alerta à comunidade de que o que conquistamos no combate ao tabagismo não pode ser perdido.

Referências:

https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files//media/document//apoio_a_manutencao_da_rdc_46_2009_inca.pdf

http://portal.anvisa.gov.br/documents/10181/2718376/RDC_46_2009_COMP.pdf/2148a322-03ad-42c3-b5ba-718243bd1919

https://www.who.int/tobacco/global_report/en/

https://www.inca.gov.br/noticias/inca-lanca-manifesto-por-brasil-livre-do-tabaco

Nova indicação de tratamento em câncer de mama Her2 positivo: agora no Brasil

Há três meses, a agência de regulação de medicamentos dos Estados Unidos, o FDA (Food and Drug Administration) – que corresponde à ANVISA brasileira – aprovava uma nova indicação do medicamento Kadcyla® (Trastuzumabe-Entansina, conhecida como TDM-1): tratamento adjuvante de mulheres com câncer de mama localizado. Agora, neste mês de agosto, tal indicação foi aprovada no Brasil.

A aprovação de baseou nos dados recentemente apresentados do estudo KATHERINE, recém-publicado, que selecionou mulheres com tumor de mama do tipo Her2 positivo, que tivessem recebido quimioterapia pré-cirurgia baseada em duas drogas específicas (Taxanos e Trastuzumabe) e, na avaliação da peça cirúrgica, apresentassem tumor residual. As pacientes selecionadas eram aleatorizadas a receberem o TDM-1 ou o padrão de tratamento atual (Trastuzumabe) por 14 ciclos, de 21 dias. Os resultados mostraram um aumento de 50% da sobrevida livre de recorrência de doença invasiva, ou seja, aumentou o tempo que as pacientes demoravam para apresentar recidiva da doença ou morrer. Os efeitos adversos mais comuns foram fadiga, alterações hematológicas, náuseas e neuropatia.

Essa aprovação foi um exemplo de melhora da agilidade no processo pela ANVISA, que muitas vezes tarda mais tempo para liberar tratamentos já em uso em outros países. Sabemos da importância das novas pesquisas e suas implicações e esperamos sempre que o processo de aprovação do nosso país seja justo e eficiente, a fim de que as pacientes brasileiras possam ter acesso a novos tratamentos o mais rápido possível.

Referências:

Von Mickwitz G, et al. Trastuzumab Emtansine for Residual Invasive HER2-Positive Breast Cancer. N ENgl J Med 2019;380:617-28.

Aprovação ANVISA: http://portal.anvisa.gov.br/informacoes-tecnicas13?p_p_id=101_INSTANCE_WvKKx2fhdjM2&p_p_col_id=column-2&p_p_col_pos=1&p_p_col_count=2&_101_INSTANCE_WvKKx2fhdjM2_groupId=219201&_101_INSTANCE_WvKKx2fhdjM2_urlTitle=kadcyla-trastuzumabe-entansina-nova-indicacao&_101_INSTANCE_WvKKx2fhdjM2_struts_action=%2Fasset_publisher%2Fview_content&_101_INSTANCE_WvKKx2fhdjM2_assetEntryId=5555879&_101_INSTANCE_WvKKx2fhdjM2_type=content

Bula FDA: https://www.accessdata.fda.gov/drugsatfda_docs/label/2019/125427s105lbl.pdf