O Grupo SOnHe Equipe Médica Onde Atuamos Conteúdos Contato Eventos

Câncer de bexiga: uma avalanche de novidades, um emaranhado de complexidades

O câncer de bexiga é um tipo de tumor geralmente agressivo e que, até há poucos anos, tinha poucos tratamentos eficazes quando a doença estava avançada. Hoje, a história está mudando, apesar de alguns entraves da pandemia de COVID-19 e de questões regulatórias do Brasil.

Anualmente, 437.000 casos são descobertos no mundo, levando a 186.000 mortes. Esses números fazem da neoplasia a nona mais comum no planeta. Mais de 70% dos casos ocorrem em pessoas com mais de 65 anos.

O principal fator de risco é o tabagismo. O cigarro é composto de mais de 60 substâncias carcinogênicas e aumenta em quase 5 vezes a chance de uma pessoa desenvolver o tumor. Além disso, o tumor de quem fuma geralmente é mais agressivo quando comparado com de quem não fuma.

O principal sintoma do tumor de bexiga é a hematúria, que significa sangue na urina. 20% dos pacientes com hematúria macroscópica (visível a olho nu) são diagnosticados com câncer de bexiga. Além desse, sintomas de obstrução urinária e dor também podem ocorrer.

Geralmente o diagnóstico deste tumor começa com exames de imagem para investigar hematúria, como ultrassom ou tomografia. Após, para confirmação, é necessária biópsia por raspagem da bexiga com cistoscopia, que é a inserção de uma câmera dentro da bexiga. Na maioria das vezes, o tumor é pequeno, localizado e superficial (75%).

Durante a pandemia de COVID-19 tem ocorrido uma grande preocupação com o atraso no diagnóstico de diversos tipos de câncer, incluindo o de bexiga. É muito importante lembrar que no início da pandemia, em 2020, havia uma tendência mundial de postergar alguns exames e procedimentos, o que incluía intervenções para tumor de bexiga iniciais. Porém, com a duração da pandemia tendo se estendido mais do que a população imaginava, hoje não se orienta esse adiamento.

Um estudo na Turquia mostrou que o atraso de 2,5 meses na realização de exames de seguimento mais que dobrou as chances de recidiva e chegou a aumentar em mais de 6 vezes a chance de progressão do tumor.

Um outro estudo, austríaco, evidenciou um aumento significativo de tumores mais avançados e agressivos. Nele, houve também a identificação de uma redução do número de procedimentos de cistoscopia, que serve tanto para diagnosticar quanto para fazer o seguimento.

Desse modo, hoje, os sintomas devem ser imediatamente investigados e o tumor tratado como deve ser num cenário normal. Isso visa evitar que os pacientes cheguem ao oncologista com a doença mais avançada. O cenário tornou-se mais comum para este tipo de tumor pelo fato da população ser mais idosa.

Um outro problema enfrentado, além do atraso no diagnóstico, é o da falta de leitos para procedimentos em virtude da saturação por internações COVID-19. Portanto, é importante sempre lembrar que as medidas de prevenção da disseminação do vírus e a vacinação são medidas imprescindíveis, já que achatam a curva de contágio e mortes, liberando leitos para pacientes que precisem.

Em relação ao tratamento, quando o tumor está bem pequeno e superficial, o padrão é fazer a raspagem dentro da bexiga e imunoterapia com BCG (sim, a mesma da vacina infantil), a fim de evitar que o tumor volte. Quando o tumor está maior, mas ainda localizado, o ideal é realizar cirurgia com quimioterapia (antes ou depois). Essas duas terapias são consagradas e antigas, e continuam sendo utilizadas nos dias atuais. Nesse cenário, poucas mudanças significativas ocorreram.

No caso da doença com metástases, porém, houve uma revolução. Geralmente, o quadro é incurável e os tratamentos envolvem medicações endovenosas que retardam o crescimento do tumor, aumento assim o tempo de vida do paciente. Nos últimos 5 anos, surgiram várias novas opções. A imunoterapia chegou inicialmente para pacientes que tivessem falhado com a quimioterapia. O benefício mostrado foi de 30% de redução de risco de morte, com pacientes vivendo quase o dobro do que anteriormente, após 2 anos. Mais recentemente, também passou a ser indicada em cenários mais precoces, para aqueles que tivessem contraindicação à quimioterapia e mesmo para aqueles que tivessem respondido ao tratamento inicial com a mesma. Nesta última situação, por exemplo, o Avelumabe reduziu em 31% a chance de morte dos pacientes.

Essas novas indicações mostraram que o tumor de bexiga é mais um para o qual a imunoterapia pode trazer mais tempo de vida, preservando a qualidade de vida.

Mas não só a imunoterapia trouxe benefícios para os pacientes com câncer de bexiga. As terapias-alvo também se mostraram eficazes. Notadamente, duas drogas foram testadas e aprovadas no cenário de segunda linha: o Enfortumabe e o Erdafitinibe. O primeiro, para qualquer paciente após quimioterapia com platina. O segundo, para pacientes com uma alteração específica no gene FGFR. Essas medicações entram para aumentar o arsenal desses pacientes E trazem um alento aos pacientes com esse tipo de tumor.

Entretanto, ambas as drogas têm acesso restrito no Brasil: o Enfortumabe ainda não foi aprovado pela Anvisa para comercialização e o Erdafitinibe, que é oral, não está na lista da ANS de coberturas obrigatórias. Ademais, no SUS, o acesso a qualquer uma dessas terapias ou mesmo à imunoterapia é apenas uma ilusão. Os pacientes do sistema público ainda não podem contar com nenhuma dessas terapias, infelizmente.

Todo esse cenário, apesar de animador em função das novidades, traz à tona diversas discussões: o alto custo das medicações vem pressionando a sustentabilidade dos planos de saúde e, assim, a saúde vai ficando cada vez mais desigual, mesmo dentro da própria realidade privada. Fato é que a ciência avançou a passos largos nos últimos anos para o câncer de bexiga, trazendo esperança aos pacientes de uma vida mais longa e com mais qualidade. Porém, o cenário da saúde no Brasil ainda alimenta desafios cada vez mais complexos que só serão resolvidos com muita seriedade na condução política.

 

Referências:

https://www.scielo.br/j/ibju/a/c35YybdnjhdGscdJdrL7qkw/?lang=en

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34117682/

 

A um passo de uma revolução da oncologia no Brasil

Falta pouco! Em um dia histórico, a Câmara dos Deputados aprovou hoje (01/07/2021) um dos projetos mais esperados pelos pacientes com câncer: o PL 6.330/2019. Agora, vai para a sanção presidencial para entrar em vigor.

Já havíamos falado antes sobre ele, quando havia sido aprovado pelo Senado. Para quem não se lembra, este projeto consiste na mudança no processo de cobertura de medicações orais contra o câncer pelos planos de saúde.

As medicações orais têm se tornado cada vez mais comuns no tratamento do câncer, com muitas demonstrando benefício nos mais diversos tipos de neoplasias. Restringir o seu uso é, portanto, um prejuízo enorme aos paciente.

Como explicado em posts anteriores, (https://sonhe.med.br//2019/09/03/simparaquimiooral/), hoje, quando uma medicação oral mostra benefício para o tratamento de um tipo de tumor, ela tem que passar por duas aprovações para ser coberta pelos planos de saúde:

– Primeiro, a Anvisa tem que autorizar a comercialização daquela droga – caso ela ainda não seja comercializada no país – e incluir a indicação específica na bula;

– Em seguida, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), deve incluir a medicação em uma lista, chamada “Rol da ANS”.

Contrariamente, lembramos também que a aprovação de medicações injetáveis é diferente e muito mais rápida: a partir do momento em que a ANVISA faz a inclusão em bula, os planos tornam-se obrigados a cobri-las.

Caso a ANS não faça a inclusão no seu Rol, os planos não estão obrigados a pagar aquela medicação, que geralmente tem preços muito elevados e, frequentemente, não tem similares injetáveis. E o maior problema vem do fato de que esta lista é atualizada a cada dois anos; sendo assim, com as questões burocráticas de submissão e aprovação, uma droga que funciona para um tipo de câncer pode demorar mais de dois anos para estar disponível na prática para os pacientes. Ademais, com a evolução rápida da Medicina – notadamente da Oncologia – as novidades não param de surgir, portanto, a necessidade de maior rapidez na aprovação é urgente.

E é essa situação que o PL 6.330/2019 vai mudar. Segundo o projeto, a Lei obrigaria as operadoras de saúde a cobrirem o uso de qualquer medicação oral a partir da sua inclusão na bula, retirando a etapa de aprovação pela ANS e, assim, antecipando – e muito – o acesso a terapias benéficas. Não só isso, a nova Lei estabelece um prazo de 48 horas para os planos liberarem a medicação.

Hoje, após muita batalha, é uma data crucial e que, esperamos, mudará em muito o acesso aos tratamentos oncológicos no Brasil. Esperamos a aprovação agora do Presidente da República.

Lembramos, aqui, que essa Lei não valerá para os pacientes do SUS e, portanto, infelizmente aumentará o abismo que existe em relação ao acesso aos tratamentos entre o SUS e os planos de saúde. A Câmara rejeitou inclusive um adendo que expandiria esse projeto ao SUS.

 

Referências:

www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2255608

http://ladoaladopelavida.org.br/detalhe-noticia-ser-informacao/manifesto-pacientes-oncologicos-acesso-aos-tratamentos-antineoplasicos-orais

https://www.simparaquimiooral.org.br/

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9656.htm

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2013/Lei/L12880.htm#art2

http://www.ans.gov.br/component/legislacao/?view=legislacao&task=TextoLei&format=raw&id=MzUwMg==

http://www.ans.gov.br/images/stories/parecer_tecnico/uploads/parecer_tecnico/_PARECER_27-2018_MEDICAMENTOS%20ANTINEOPLSICOS%20ORAIS_VERSO%20FINAL_27122017.pdf

 

 

Terapia personalizada para câncer de pulmão no Brasil

Os pacientes com câncer de pulmão têm agora uma nova opção de tratamento. No dia 29 de junho, a Anvisa aprovou a comercialização da medicação Tepotinibe no Brasil. Esta droga é mais uma terapia-alvo, tipo de terapia que vem cada vez mais trazendo benefícios para os pacientes.

A indicação da droga é para paciente com câncer de pulmão de não-pequenas células avançado com mutação skipping no éxon 14 gene MET. O estudo que embasou essa indicação foi o VISION, que tinha um único grupo de 152 pacientes. A resposta objetiva foi de 46% e a sobrevida mediana foi de 17,1 meses, ambos os dados independentes de tratamentos prévios. Os efeitos colaterais foram bem tolerados.

Apesar de não ser um estudo grande, esse tipo de análise é feita com menos pacientes em razão da raridade da alteração genética.

A novidade traz mais uma possibilidade de tratamento para os pacientes com câncer de pulmão, que, na última década, ganharam uma gama enorme de novos caminhos, levando a um aumento de sobrevida, sempre tentando manter a qualidade de vida. Lembrando que, sendo uma medicação oral, ela não está disponível de forma rotineira, já que não está inclusa no rol da ANS. Além disso, também não está disponível no SUS.

 

Referências:

Paik PK, Felip E, Veillon R, Sakai H, Cortot AB, Garassino MC, Mazieres J, Viteri S, Senellart H, Van Meerbeeck J, Raskin J. Tepotinib in Non–Small-Cell LungCancer with MET Exon 14 Skipping Mutations. New England Journal of Medicine. 2020 May 29.

 

Imunoterapia para câncer de estômago

No último dia 10 de maio, a Anvisa aprovou em bula a indicação de uso de Nivolumabe combinado à quimioterapia para pacientes com câncer gástrico ou da junção gastroesofágica avançados. Esse tipo de tumor é agressivo e com altos índices de mortalidade quando metastático. É semelhante ao que, infelizmente, levou ao ex-prefeito de São Paulo, Bruno Covas, a falecer recentemente de forma tão precoce.

O estudo que embasa a indicação é o Checkmate-649, que comparou o uso combinado de quimioterapia e imunoterapia com a quimioterapia isolada em 1.581 pacientes, mostrando uma redução de 29% do risco de morte para os pacientes com marcador PD-L1 > 5%. Além disso, a taxa de resposta foi consideravelmente maior (60 x 45%) nesses indivíduos. Os dados também confirmaram o benefício para a população geral, independente do PD-L1. Quanto à segurança, os efeitos colaterais foram toleráveis, apesar de frequentes em ambos os grupos.

A imunoterapia já tinha indicação em linhas posteriores de tratamento, mas, na primeira linha, é a primeira vez que é aprovada no Brasil.

Esses dados são importantes pois adicionam uma opção para esses pacientes e promovem um aumento significativo, apesar de pequeno, em sobrevida global, que é curta nesse cenário.

Vale lembrar que essa aprovação em bula promove acesso aos pacientes com plano de saúde, mas não aos dependentes do SUS. A medicação, muito cara, ainda será pouco disponível para a nossa população, um cenário contra o qual devemos sempre nos esforçar para mudar.

Referências:

https://oncologypro.esmo.org/meeting-resources/esmo-virtual-congress-2020/nivolumab-nivo-plus-chemotherapy-chemo-versus-chemo-as-first-line-1l-treatment-for-advanced-gastric-cancer-gastroesophageal-junction-cancer

Dia Nacional da Imunização: vacinas salvam vidas

Vacinas salvam vidas. E é muito importante repetir essa frase para nos lembrarmos desse ato tão valioso para humanidade, principalmente agora durante a pandemia de COVID-19.

No dia 9 de junho, é celebrado o Dia Nacional da Imunização. O foco da campanha é conscientizar a população da necessidade de manter a carteira vacinal atualizada. Atualmente, obviamente, a principal é a contra a COVID-19, que está, a passos lentos, em andamento. Porém, devemos lembrar que várias outras doenças têm vacinas direcionadas, mesmo em adultos vacinados na infância.

As vacinas protegem contra a ocorrência de diversas doenças infecciosas, desde a poliomielite, que pode deixar pessoas sem movimentos, até a pneumonia, que pode levar pessoas, principalmente idosos, à morte. Não só isso, temos também as vacinas que podem prevenir o câncer, no caso, a do HPV evita tumor de colo do útero. Muitas patologias foram erradicadas, como a varíola e a poliomielite, enquanto outras – como a gripe, o tétano e a coqueluche – tiveram seu impacto na saúde da população consideravelmente reduzido (>90%) e são doenças controladas atualmente.

O ato de vacinar é importante não só para a pessoa vacinada, mas também para a população em geral de um país. O freio da contaminação por doenças infecciosas reduz a mortalidade da população em geral, principalmente daqueles considerados como grupos de risco. Inclusive, existem pessoas que não podem ser vacinadas por alguma doença que contraindica, ou que ainda não têm idade (recém-nascidos); essas pessoas talvez sejam as mais beneficiadas pela vacinação em massa de quem pode.

Infelizmente, alguns dados recentes mostram que a cobertura vacinal para essas doenças tem caído, chegando a níveis preocupantes abaixo de 80%. Isso pode levar a um recrudescimento de casos e também a mortes. Um dos motivos é a própria pandemia, mas também há um número crescente de pessoas contrárias às vacinas, ou seja, que não acreditam na ciência. Essa situação é muito perigosa.

Criado há 47 anos, o Programa Nacional de Imunização do Brasil é uma das referências mundiais da área, já que atinge uma população de mais de 200 milhões de habitantes de forma gratuita e eficiente.

Atualmente, são 18 as vacinas disponibilizadas para crianças e adolescentes. No caso de adultos, as principais são a de febre amarela, a dupla adulto (difteria e tétano, renovada a cada 10 anos), a de hepatite B e a de sarampo-caxumba-rubéola (as duas últimas, caso não tenha sido vacinado na infância).

Agora, com a vacina para COVID-19 disponível, devemos reforçar que qualquer uma das disponíveis no país são eficazes e seguras. Todas já foram testadas e aprovadas cientificamente. Em relação ao medo de efeitos colaterais, como trombose, a vacina Oxford/Astrazeneca não promove um risco considerável de complicações quando comparada, por exemplo, aos anticoncepcionais.

As contraindicações são poucas e, caso tenha dúvida, pergunte ao seu médico. Porém, geralmente apenas pessoas com deficiências muito específicas ou alergias a componentes das vacinas não podem tomá-las. Importante lembrar que as duas doses são necessárias para que a vacina realmente funcione, portanto, não perca seu dia de retorno! Além disso, deve-se observar um espaço de 15 dias entre a da COVID-19 e a da gripe.

No site https://portalarquivos.saude.gov.br/campanhas/pni/ todos podem consultar o calendário nacional de vacinação e checar quais vacinas devem ser atualizadas. Leia, converse com seu médico e VACINE-SE! Proteger um é proteger todos!

Novo tratamento para câncer de ovário aprovado no Brasil

No dia 8 de março, foi aprovada no Brasil, pela Anvisa, a medicação Niraparibe (Zejula®) para uso em pacientes com câncer de ovário avançado. Com isso, surge mais um opção para essas pacientes e a indicação deve se ampliar para um número maior de pacientes.

Os estudos que embasaram a aprovação foram dois: PRIMA e NOVA. No PRIMA, o Niraparibe foi testado contra placebo como 1ª linha em 733 mulheres com câncer de ovário que tiveram resposta ao tratamento com quimioterapia. Os resultados mostraram um redução de quase 40% do risco de morte ou progressão. Nesse estudo, o benefício foi independente da mutação do BRCA ou outras alterações genéticas e tal dado é importante por amplia a população que pode utilizar a droga.

No estudo NOVA, o Niraparibe foi testado como 2ª linha, em pacientes com recidiva após tratamento com quimioterapia com platina. Nesse caso, a redução do risco de morte ou progressão foi de 55 a 78%

Os resultados são animadores e trazem mais probabilidade de sobrevida para as pacientes com câncer de ovário.

Deve-se lembrar que é uma medicação oral e, portanto, apesar da aprovação na Anvisa, ainda não é obrigatória a cobertura pelos planos de saúde. Abordamos esse assunto em post anterior (acesse aqui https://sonhe.med.br//2019/09/03/simparaquimiooral/).

Não só isso, ainda não está (e tardará a estar) disponível no SUS, ou seja, o acesso a esse tratamento é limitado, uma situação que temos que batalhar para mudar.

 

Referências:

González-Martin, et al. Niraparib in Patients with Newly Diagnosed Advanced Ovarian Cancer. N Engl J Med. 2019;381:2391-402

Mirza MR, et al. Niraparib Maintenance Therapy in Platinum-Sensitive, Recurrent Ovarian Cancer. N Engl J Med. 2016;375:2154-64

https://consultas.anvisa.gov.br/#/medicamentos/25351232639202055/

Câncer de estômago: como prevenir?

Você já pensou que o consumo de conservas e defumados pode aumentar o risco de um câncer que, até a década de 1980, era o que mais matava no mundo? Sim, e hoje vamos falar sobre esse tumor: o câncer de estômago, já que na semana do dia 5 de abril, acontece a Semana de Prevenção e Combate ao Câncer de Estômago.

Conhecido pelos humanos como uma doença desde 3.000 a.C., o câncer gástrico afeta 21.000 pessoas por ano no Brasil e leva à morte mais de 50% delas. Essa estatística já foi maior: antes do câncer de pulmão – em decorrência do cigarro – se tomar a primeira posição em mortalidade, o de estômago era o mais mortal. E um dos principais fatores que têm feito a incidência mundial reduzir (apesar de não ser baixa) foi a invenção e popularização de um aparelho que, hoje, parece tão essencial, mas que não era tão comum antigamente: a geladeira.

Evidências científicas mostram que o consumo de produtos processados, em conserva, defumados e/ou com alto teor de sal tem relação com aumento expressivo da incidência de câncer gástrico. O mecanismo por trás disso parece ter a ver com a presença de compostos chamados nitritos, que estão presentes nesses produtos e podem induzir alterações nas células da parede do estômago e promover o surgimento de neoplasias. Alguns estudos mostram incremento de mais de 40% no risco de câncer de estômago, sendo maior quanto maior a quantidade ingerida.

Com o uso da geladeira para preservação de alimentos, as técnicas de conservar em “salmouras”, salgar a carne e a defumação foram sendo menos utilizadas, contribuindo para uma redução da ocorrência de câncer gástrico na população. Em relação à comida rica em sal, um dos exemplos mais importantes é a associação entre a culinária asiática e a alta incidência desse tipo de tumor, visto que a gastronomia da região é rica em alimentos com alto teor de sal.

Mas não são apenas os alimentos processados e salgados que aparecem como fatores de risco. A infecção pela bactéria H. pylori no trato intestinal humano também guarda relação com uma maior chance de neoplasia gástrica. Essa bactéria é comum, principalmente em países menos desenvolvidos e com saneamento mais precário (incluindo o Brasil), e a sua presença no estômago leva a aumento de seis vezes no risco de lesões na parede do órgão e, consequentemente, ao surgimento de tumores.

Ainda como fatores de risco, a obesidade e o tabagismo, assim como em vários outros tumores, devem ser lembrados. Cirurgia prévia do estômago, anemia perniciosa e trabalho em indústrias de carvão e borracha mostram alguma relação.

Em relação à herança genética, síndromes como a de Lynch e a do câncer gástrico difuso aumentam de forma expressiva a ocorrência, mas são menos comuns e atingem famílias específicas.

Certo. Depois de todos esses fatores de risco, como fazer para prevenir o câncer de estômago? Aí voltamos para o que sempre falamos: alimentação saudável. Não é “chatice” dos médicos, é provado que uma dieta balanceada reduz o risco de tumores. Especificamente no caso em questão, evitar consumir alimentos processados, em conserva, defumados e/ou com alto teor de sal é um grande avanço. Claro que, em uma festa ou outra, ninguém está proibido de comer um salame, mas ter consciência da composição do que nós comemos é muito importante.

Muitas comidas que nem imaginamos têm alto teor de sal e usam métodos de conservação que produzem nitritos. Não só isso, já é claro para os cientistas que comer vegetais e frutas frescos e em abundância reduz o risco de diversos tipos de câncer, inclusive o gástrico. A alimentação saudável ajuda também no combate à obesidade e, junto com a atividade física, parar de fumar e reduzir o consumo de álcool, formam o “quadrado mágico” da prevenção do câncer.

Quanto ao H. pylori, a melhor maneira de evitar a contaminação é a higiene e o saneamento adequados, lavando alimentos e as mãos antes de comer. Em caso de sintomas de dor de estômago, o médico pode indicar um exame de endoscopia, que, caso identifique a bactéria, leva à necessidade de tratamento com alguns tipos de antibióticos, prevenindo assim a lesão da parede gástrica.

Por fim, como em várias áreas da ciência, o combate a outro mal do mundo atual é muito importante: as fake news. O chá verde e as vitaminas ainda não se provaram eficazes na prevenção do câncer para a população geral. Lembrando, algumas vitaminas têm indicações específicas, como pacientes desnutridos, ou aqueles com gastrite perniciosa ou mesmo para aqueles que fizeram cirurgia bariátrica.

Depois disso tudo, caso o câncer de estômago seja diagnosticado, o ideal é procurar o médico o quanto antes, pois existe tratamento, seja para o tumor localizado ou metastático. Mas lembre-se: prevenir é, sem dúvida, o melhor remédio!

11 de março: Dia Mundial do Rim

Ponto importante a ser destacado é que a incidência do câncer de rim aumentou três vezes mais do que a mortalidade, pois o diagnóstico tem sido cada vez mais precoce

No dia 11 de março de 2021, será celebrado o Dia Mundial do Rim, com uma campanha que visa à conscientização sobre a doença renal crônica (DRC), com orientações de como lidar com os principais sintomas e ter uma melhor qualidade de vida, promovendo a inclusão mais afirmativa desses indivíduos na sociedade. O tema deste ano é “Vivendo bem com a doença renal” e o evento é promovido mundialmente pela Sociedade Internacional de Nefrologia e, no Brasil, pela Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN).

A agenda de eventos relacionados ao Dia Mundial do Rim abrange mais de 700 atividades, incluindo a iluminação do Cristo Redentor (Rio de Janeiro-RJ) e do Elevador Lacerda (Salvador-BA) e uma audiência pública no Senado Federal, sempre respeitando os protocolos para prevenção da transmissão da COVID-19. A divulgação se dará através de rádios, influenciadores digitais e programas de televisão. Como novidade, haverá a disponibilização de episódios de podcasts e videoaulas da Semana da Nefrologia pelas das redes sociais da SBN.

A DRC é a falha do funcionamento dos rins por três meses ou mais, sendo muitas vezes irreversível, mas, geralmente, controlável. O rim é um órgão multifuncional, sendo o responsável por controlar a pressão arterial, filtrar impurezas do sangue, regular o equilíbrio de sal e água do corpo, promover a proliferação de células do sangue, evitando a anemia, dentre outras funções. Hoje, 10% da população tem alguma disfunção renal e os números seguem aumentando.

Um grande problema é que a DRC é uma doença silenciosa e, portanto, o diagnóstico geralmente é tardio, em estágio avançado, o que leva à necessidade de diálise e/ou transplante renal. Com isso em vista, o diagnóstico precoce é crucial para que a doença seja controlada em seu início e não evolua para consequências tão graves. Os maiores fatores de risco são a hipertensão arterial, a diabetes, a obesidade, o tabagismo e história familiar de doença renal ou cardiovascular.

A prevenção da DRC inclui não só o controle das comorbidades citadas acima, mas também evitar tomar medicações sem prescrição médica, beber água ao longo do dia e fazer acompanhamento médico regular. Em algumas situações, pode ser indicada a coleta de exames de creatinina e/ ou de urina, que podem detectar alterações renais de forma incipiente.

Nesse contexto, apesar de não ser o foco da campanha, vamos falar também sobre o câncer de rim, que acomete 403.000 e mata 175.000 pessoas por ano no mundo. Infelizmente, o Brasil não tem dados oficiais, nem divulga a estimativa de câncer renal no país. A maioria são homens por volta dos 64 anos. Dos pacientes diagnosticados, 16% apresentam-se com metástases desde o início e 25% morrem em 5 anos – um número alto, mas que apresentou redução de quase 70% nas últimas 5 décadas.

Um ponto importante a ser destacado é que a incidência aumentou três vezes mais do que a mortalidade, pois o diagnóstico tem sido cada vez mais precoce, em consequência do uso mais corriqueiro de exames de imagem como tomografia ou ressonância. Entretanto, apesar destes exames muitas vezes detectarem o tumor renal, não há indicação de rastreamento populacional para câncer de rim, ou seja, pacientes sem sintomas suspeitos não devem fazer exames de imagem para detectar a neoplasia mais cedo, como acontece, por exemplo, com o a mamografia no câncer de mama.

E o que aumenta a chance de alguém ter câncer de rim? A esmagadora maioria das neoplasias renais ocorrem ao acaso, ou seja, sem um fator causal definido. Os fatores de risco não são tão relevantes como em outros tumores, mas o que se sabe é que o tabagismo aumenta o risco em 30% de desenvolver a doença e, ademais, leva a diagnósticos em estágios mais avançado. O uso de anti-inflamatórios também é outro fator importante, porém muitas vezes relevado pela população. Alguns estudos sugerem um aumento de até 51% no risco de câncer de rim em consequência do uso rotineiro e crônico dessa classe de medicação. Obesidade, doença policística renal, hipertensão e exposição a asbesto e gasolina são outros contribuintes que devem ser evitados.  Sendo assim, a prevenção do câncer renal é baseada em evitar os fatores de risco já conhecidos para outros tumores e para a própria DRC.

Bom saber, mas e quais são os principais sintomas do câncer renal? Em geral, a doença é assintomática até se tornar avançada, o que, como já dito, dificulta o diagnóstico precoce. O quadro clínico geralmente inclui um ou mais dos seguintes: hematúria (sangue na urina), dor/massa abdominal e perda de peso. Entretanto, apenas 9% dos pacientes têm os 3 sintomas conjuntamente. Além disso, o indivíduo pode apresentar sinais como anemia e hipercalcemia, o que denota um quadro mais avançado.

Depois de receber o diagnóstico, há tratamento? Sim, sem dúvida! O câncer de rim, quando descoberto precocemente e limitado ao órgão, tem altas taxas de cura com a cirurgia, que é o tratamento indicado – quando factível – em virtualmente todos os casos. Já quando a doença é avançada, seja por não ser ressecável ou por ter metástases, o tratamento torna-se sistêmico, com uso de medicações diversas, principalmente terapias-alvo e imunoterapia. Notadamente, o tratamento desse tipo de neoplasia não costuma incluir quimioterapia convencional, visto que esta é pouco efetiva para o controle tumoral.

Vimos então que o Dia Mundial do Rim promove a conscientização sobre as doenças renais, melhorando assim a qualidade de vida das pessoas. Não só isso, enseja o alerta também para o câncer de rim e suas peculiaridades. O que devemos tirar disso tudo é que o controle de comorbidades (como obesidade e tabagismo), o uso correto de medicações e o acompanhamento médico regular são atitudes que podem ajudar a prevenir problemas renais e ajudar a vivermos mais e melhor!

 

Referências:

https://www.sbn.org.br/dia-mundial-do-rim/dia-mundial-do-rim-2021/sobre/

https://www.pro-renal.org.br/2021/02/01/dia-mundial-do-rim-2/

https://www.inca.gov.br/estimativa

uptodate.com

Novo rol da ANS 2021

Boa notícia para pacientes oncológicos

No dia 24 de fevereiro, a atualização do rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) foi aprovado pela Diretoria Colegiada. E por que isso é importante para os pacientes com câncer? Porque várias medicações foram incorporadas à lista de obrigatoriedades de cobertura pelos planos de saúde. Mais opções de tratamento com eficácia, agora, estarão mais facilmente disponíveis.

Foram 20 novas drogas oncológicas. Um destaque vai para a inclusão dos inibidores de CDK4/6 (Palbociclibe, Ribociclibe e Abemaciclibe) para tratamento do câncer de mama metastático. Eram drogas já comprovadamente eficazes e que já são utilizadas como padrão em diversos países, mas que aqui, no Brasil, ainda não eram padronizadas nos planos de saúde. Outra importante incorporação foi a de medicações para o câncer de pulmão metastático com alterações genéticas específicas (Alectinibe e Osimertinibe), um tratamento que faz grande diferença e ainda não estava disponível para todos os beneficiários de planos de saúde. Na tabela abaixo, há uma lista das medicações e suas respectivas indicações. No site da ANS é possível ver a lista completa, incluindo as medicações não-oncológicas e procedimentos.

Medicamento Indicação
Palbociclibe, Ribociclibe e Abemaciclibe Câncer de mama
Alectinibe, Osimertinibe e Nindetanibe Câncer de pulmão
Apalutamida e Enzalutamida Câncer de próstata
Cabozantinibe Câncer de rim
Regorafenibe e Lenvatinibe Câncer de fígado
Dabrafenibe em combinação com Trametinibe e Cobimetinibe Câncer de pele (melanoma)
Ixazomibe e Lenalidomida Mieloma múltiplo
Lenalidomia Síndrome mielodisplásica
Ibrutinibe Linfoma do manto
Ibrutinibe e Venetoclax LLC
Venetoclax e Midostaurina LMA
Nilotinibe LMC

 

Já falamos por aqui, em Alerta Oncologia, que a ANS regula as medicações ORAIS que terão cobertura obrigatória pelos planos de saúde no país e que essa lista – mais conhecida como rol – é atualizada a cada dois anos. As medicações injetáveis têm outra regulamentação e, geralmente, estão disponíveis mais rapidamente para os pacientes após aprovação em bula.

Esta atualização ocorre devido às novas evidências científicas que vão surgindo e mostrando que alguns medicamentos funcionam (ou não) para certas doenças. Porém, essa periodicidade é muito longa para os pacientes com doenças graves, como o câncer, já que muitas dessas drogas visam ao aumento de sobrevida e/ou qualidade de vida, algo que “não se pode esperar”.

 

Um ponto muito interessante foi que as aprovações deste ano vieram após uma consulta pública histórica, com um aumento de 500% na participação em relação às anteriores, atingindo cerca de 30.000 contribuições. A maioria foi realizada por profissionais de saúde, mas sociedades médicas, pacientes, familiares e amigos de pacientes também tiveram papel importante nesse processo. Isso mostra que a força da cooperação da sociedade transpassa barreiras e pode trazer benefício a toda a população.

Importante pontuar que, nesta atualização, a ANS levou também em conta as informações econômicas, tendo em vista o grande crescimento do custo dos tratamentos médicos. E também notamos uma tentativa de encurtar o período de novas incorporações, reduzindo assim o descompasso entre ciência e acesso pelos usuários de planos de saúde.

A vigência do novo rol ocorrerá a partir de 1º de abril e é sempre um marco para os pacientes com câncer. Continuaremos lutando não só para que mais drogas eficazes sejam incorporadas, mas também para que a atualização seja mais ágil e mais pessoas tenham acesso mais rapidamente às melhores terapias. É sempre bom ressaltar que a outra luta – talvez a mais difícil – continuará sendo a de também levar essas oportunidades para pacientes do SUS, que, cada vez mais têm seu cuidado oncológico mais longe do ideal.

 

Referências:

Link para a reunião da Diretoria Colegiada (24/02/2021):

https://www.youtube.com/watch?v=HoJL9HALyGE&t=7634s

http://www.ans.gov.br/aans/noticias-ans/consumidor/6207-ans-define-novas-coberturas-dos-planos-de-saudee

http://www.ans.gov.br/participacao-da-sociedade/consultas-e-participacoes-publicas/consultas-publicas-encerradas/consulta-publica-n-81-atualizacao-do-rol-de-procedimentos-e-eventos-em-saude-ciclo-2019-2020

Vacinação para COVID-19. Resumo das recomendações da SBOC

Na semana passada, a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) lançou um guia sobre a vacinação de pacientes oncológicos. Esse documento é de grande importância, tendo em vista a situação atual da pandemia no mundo e o maior risco dos pacientes com câncer ao serem infectados por COVID-19.

Importante ressaltar que o documento é continuamente atualizado e foi lançado com base nas evidências científicas que temos até o momento.

Vamos aos principais pontos:

  1. Os pacientes com câncer devem ser vacinados?
    1. Apesar de não terem sido testadas nestes pacientes, o benefício esperado de redução de mortalidade pelas vacinas é maior que os malefícios de possíveis das reações adversas. Além disso, esses pacientes estão sob maior risco de complicações pela COVID-19.
  1. As vacinas disponíveis no Brasil atualmente são seguras para pacientes com câncer?
    1. As vacinas contra a COVID-19 utilizam mecanismos semelhantes a outras vacinas já comprovadamente seguras e eficazes. No momento, os dois tipos de vacinas contraindicados para pacientes com câncer – a de vírus atenuado e a de vetor viral replicante – não estão entre aquelas disponíveis no mundo.
  1. E são eficazes para pacientes com câncer?
    1. Provavelmente sim. Apesar da evidência limitada, os dados de outras vacinas já utilizadas de rotina sugerem que aquelas contra COVID-19 são eficazes. Alguns tratamentos podem alterar a capacidade do sistema imune dos pacientes, levando a modificações na eficácia, mas nada que contraindique o uso ou torne a vacina ineficaz.
  1. Existe alguma vacina preferencial?
    1. Não. Ambas são indicadas, já que não contém vírus vivos e/ou replicantes.
  1. Qual o momento ideal para a vacinação dos pacientes com câncer?
    1. Idealmente, antes do início do tratamento. Porém, caso este já esteja em andamento, a indicação é de vacinar a qualquer momento, sempre com decisão compartilhada com o médico oncologista.
  1. Pacientes que já tiveram COVID-19 e/ou aqueles que têm anticorpos contra o vírus devem ser vacinados?
    1. A duração da proteção após infecção natural pelo COVID-19 ainda não é conhecida e a vacinação funciona também para esses pacientes.
  1. Os vacinados devem ser acompanhados com sorologia?
    1. Não. Os testes sorológicos não têm indicação para isso no presente momento.

 

Resumo: Em geral, há indicação de vacinação para todos os pacientes oncológicos, com exceção daquelas vacinas com vírus atenuados ou replicantes – inexistentes até o momento – e daqueles pacientes com contraindicação a algum componente da fórmula das vacinas.

Fale com seu oncologista e mantenha-se informado e imunizado!

 

Referências:

https://www.sboc.org.br/guias-e-infograficos/item/2150-covid-19-vacinacao-de-pacientes-oncologicos