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Câncer de ovário: o que devemos saber?

O câncer de ovário é uma doença silenciosa na qual os sintomas aparecem em estágios avançados, justificando seu posto de maior causa de morte entre os tumores ginecológicos nas mulheres norte-americanas. No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) estimou 6.150 casos novos em 2018, ocupando a oitava posição entre os tumores mais frequentes em mulheres. Diante da importância do tema, separamos algumas perguntas relevantes.

– Quais pacientes apresentam maior risco de desenvolver o câncer de ovário?

A idade é um fator importante. A maioria dos casos ocorre em mulheres acima de 50 anos. Os outros fatores são: história familiar de câncer de ovário e mama, nunca ter ficado grávida, primeira menstruação precoce, menopausa tardia, endometriose e reposição hormonal na pós-menopausa.

Atenção especial deve ser dada para as síndromes genéticas, que aumentam significativamente o risco, favorecendo o diagnóstico em idades mais jovens. Estima-se que uma mulher com mutação do BRCA 1 tem risco de 35 a 46% e mulheres com mutação do BRCA 2, de 13 a 23%, de desenvolver câncer de ovário durante a vida. Nessas pacientes, a realização de cirurgia profilática de retirada do órgão deve ser considerada.

– Quais são os sintomas da doença?

Na fase inicial as pacientes costumam ser assintomáticas. Conforme o tumor se torna avançado, os sintomas mais frequentes são a distensão abdominal, náuseas, vômitos, perda de apetite, aumento do volume do abdome pela formação de liquido (ascite) ou obstrução do intestino.

 

– Existe algum exame de rastreamento?

Rastreamento é a realização de exames em pacientes assintomáticos, com intuito de realizar diagnóstico de uma doença em fase precoce, aumentando as chances de cura. Diante de um tumor silencioso como o de ovário, realizar exames de rastreamento parece algo óbvio, porém infelizmente até o momento nenhum método mostrou-se efetivo para a população geral. Diversos estudos tentaram realizar ultrassom transvaginal e marcador tumoral (Ca 125), porém sem benefício significativo em reduzir a mortalidade. Desta forma, não é rotina realizar exames nas mulheres.

– Como é realizado o diagnóstico?

A paciente deve ser avaliada por um médico para exame físico do abdome e ginecológico, exames de sangue com marcador tumoral (Ca 125) e exames de imagem com ultrassom transvaginal, tomografia e ressonância. Na presença de uma lesão suspeita, deve-se prosseguir com uma biópsia.

– Existem fatores de proteção?

É importante manter hábitos de vida saudáveis, evitando a obesidade e tabagismo e realizando exercícios físicos regulares. Outros fatores de proteção comprovados são o uso de contraceptivos orais, múltiplas gestações, amamentação, cirurgia de retirada dos ovários e das trompas.

– Quais as opções de tratamento?

O tratamento depende do estágio da doença. Quando o tumor está restrito aos ovários ou órgãos próximos, as principais opções de tratamento são a cirurgia e a quimioterapia. Quando o tumor se disseminou para outros órgãos mais distantes, a chamada metástase, o tratamento inicial é a quimioterapia, podendo ser associada às terapias-alvo.

Nos últimos anos, grandes avanços foram realizados no tratamento desta neoplasia, mas o diagnóstico precoce continua sendo a chave para as melhores chances de cura. Portanto, não deixe de realizar acompanhamento médico ginecológico de rotina!

 

Sexo e câncer de cabeça e pescoço: qual é a relação?

O dia 27 de julho é o Dia Mundial de Prevenção ao Câncer de Cabeça e Pescoço. Durante todo este mês são realizadas campanhas de conscientização sobre o tipo de câncer e vamos aproveitar para esclarecer um tema pouco discutido e intrigante: existe relação entre sexo e câncer de cabeça e pescoço? A resposta é SIM.

Este câncer compreende todos os tumores que têm origem na boca (cavidade oral), nariz (nasofaringe, cavidade nasal e seios paranasais), garganta (orofaringe, hipofaringe, laringe) e nas glândulas salivares. Estatísticas do Instituto Nacional do Câncer (INCA) estimam para 2018, 14.700 mil novos casos de câncer de cavidade oral e 7.670 mil novos casos de câncer de laringe, alcançando, quando somados, o posto de terceiro tumor mais frequente nos homens brasileiros.

Os dois principais fatores de risco são o tabagismo e o etilismo. Entretanto, a infecção pelo vírus HPV está ganhando cada vez mais destaque. É o HPV o responsável pela relação entre sexo e câncer de cabeça e pescoço. A transmissão ocorre durante o sexo oral não protegido. A infecção crônica pelo HPV tem maior relação com o desenvolvimento do câncer de orofaringe (garganta) e mais raramente em outros sítios da cabeça e pescoço.

Estudos epidemiológicos norte-americanos revelam uma diminuição de casos novos de câncer de laringe, hipofaringe e cavidade oral nas últimas décadas e isso se deve às campanhas antitabagismo. Na contramão desta tendência, os casos novos de câncer de orofaringe estão aumentando, com evidências relacionando a elevação à infecção por HPV. Dados sugerem que aproximadamente 70 a 80% dos pacientes com câncer de orofaringe na população norte americana e europeia são portadoras do HPV.

Este vírus é o mesmo relacionado ao câncer de colo de útero, vagina, vulva, ânus e pênis. Existem cerca de 150 subtipos de HPV, sendo o mais relacionado ao câncer de cabeça e pescoço o subtipo 16. Diferentemente dos outros fatores de risco, ele é responsável por câncer em pacientes mais jovens e sem hábito de tabagismo e etilismo. O vírus, assim como a incidência do câncer de orofaringe, é mais frequente em homens.
Os tumores relacionados à infecção pelo vírus apresentam uma melhor resposta ao tratamento, porém as estratégias são as mesmas para o câncer não relacionado ao vírus. As principais opções são cirurgia, radioterapia e quimioterapia, que são indicadas conforme o tamanho e disseminação do tumor.

Diante da agressividade do tratamento, que frequentemente causa sequelas permanentes, é importante a realização de medidas de prevenção. Temos duas estratégias efetivas para esse tipo de câncer relacionado ao vírus do HPV. A primeira delas é o sexo seguro, reforçando a necessidade de uso de preservativos em todos os tipos de prática sexual.

A segunda é a vacinação contra o HPV, que além de proteger contra o câncer de orofaringe, tem ação contra os cânceres de colo de útero, vagina, canal anal e pênis. A vacinação está disponível no setor privado e no SUS. As indicações para a vacinação de acordo com o Ministério da Saúde são: meninas e meninos dos 9 aos 14 anos, pacientes com câncer em quimioterapia ou radioterapia, transplantados e portadores de HIV entre 9 a 26 anos.

Vamos aproveitar o mês Julho Verde e participar desta campanha de conscientização dos tumores de cabeça e pescoço. Além de evitar os fatores de riscos mais conhecidos como cigarro e bebida alcoólica, é importante entender a relação entre sexo e este câncer, reforçando a importância do sexo seguro e a vacinação contra o HPV para o combate efetivo à esta neoplasia.

Oligometástases: É possível alterar a evolução desta doença?

Na primeira semana do mês de junho ocorreu o maior congresso de oncologia do mundo em Chicago, onde mais de 35 mil oncologistas se reuniram para atualizações e discussões sobre o câncer. Entre o grande número de informações e de novas evidências científicas apresentadas, destaco as novas perspectivas de tratamento dos pacientes com metástases de baixo volume, denominada doença oligometastática.

As metástases são caracterizadas pela disseminação do tumor para outros órgãos a distância do local de origem. Isso se correlaciona a uma reduzida expectativa de vida, baixíssimas chances de cura e, na maioria dos casos, o tratamento é realizado com quimioterapia ou terapia-alvo molecular. Sabemos que as metástases são responsáveis por 85-90% das mortes relacionadas ao câncer e, diante deste prognóstico reservado, novas estratégias são necessárias para melhorar a evolução desfavorável.

Entre as metástases, temos um grupo que apresenta um número restrito de lesões e limitado a poucos órgãos que previamente definimos como oligometástases. Nestes pacientes, a terapia local das lesões é capaz de controlar a doença e levar a cura de alguns casos. As opções de tratamento mais utilizadas atualmente são as cirurgias de ressecção, a radioterapia convencional, a radiocirurgia, a radioablação e a combinação destas formas associada à quimioterapia ou à imunoterapia. A escolha da melhor abordagem vai depender do subtipo do tumor primário, local, número e tamanho da metástase, além das condições clínicas do paciente.

Em sua excelente aula, Dr. Ralph Weichselbaum, da Universidade de Chicago, discutiu estudos de vias moleculares ativadas nas metástases, revelando comportamentos distintos em termos de agressividade. Os dados sugerem que é possível a identificação molecular de metástases consideradas de baixo risco, responsáveis pelo desenvolvimento da doença oligometastática. Estes dados levantam perspectivas futuras para selecionar qual é o paciente ideal para realização de tratamento local.

Essas estratégias de tratamento estão disponíveis na prática clínica e com benefícios comprovados. Exemplo: a ressecção cirúrgica de metástase hepática e/ou pulmonar no câncer de cólon comprovadamente aumenta o tempo de vida e pode levar a cura em uma parcela considerável de pacientes.

A radioterapia convencional ou radiocirurgia, caracterizada pela administração de altas doses de radiação em uma região localizada, também pode ser utilizada para controle de metástases, principalmente em áreas com maior dificuldade de acesso cirúrgico, como o cérebro.

As terapias de ablação percutânea utilizam agulhas longas que transmitem energia térmica no tumor; assim, são capazes de direcionar o tratamento na área acometida e preservar os tecidos sadios.  Tal técnica pode ser usada para diversas formas de câncer, entre elas o tratamento das lesões hepáticas.

O câncer metastático historicamente foi considerado uma doença incurável. Porém, a seleção de pacientes com oligometástases para realizar terapia local e mais recentemente o tratamento com imunoterapia conseguiram mudar este paradigma. O melhor entendimento das vias moleculares será fundamental para melhorar ainda mais as chances de cura dos pacientes.

Os Avanços no Tratamento do Câncer de Cabeça e Pescoço

O câncer de cabeça e pescoço abrange todos os tumores que têm origem na boca (cavidade oral), nariz (nasofaringe, cavidade nasal e seios paranasais), garganta (orofaringe, hipofaringe, laringe) e nas glândulas salivares. Apesar de pouco discutido é um câncer frequente no Brasil. Os dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA) revelam que os tumores de cavidade oral são o quinto e os de laringe o oitavo cânceres mais frequentes no sexo masculino.

O fato do homem ser mais acometido está diretamente relacionado aos fatores de risco, sendo o tabagismo o principal deles. Esse hábito pode aumentar o risco de desenvolver o câncer em 5 a 25 vezes comparado aos não tabagistas. O segundo fator mais importante é o etilismo, aumentando o risco em até 6 vezes comparado aos não etilistas.  Outros fatores conhecidos são as infecções virais pelo HPV relacionada com exposição sexual, dieta pobre em nutrientes, exposição ocupacional a produtos químicos como petróleo, plásticos, amianto e por fim síndromes genéticas.

O tratamento dessa neoplasia é dependente de muitas variáveis: localização e tamanho do tumor, presença de metástases, desejo do paciente e acesso as técnicas disponíveis. Diante de todos esses detalhes se faz necessário o tratamento através de uma equipe multidisciplinar (cirurgião, oncologista, radioterapeuta, dentista, psicóloga, nutricionista, fonoaudióloga e fisioterapeuta).

 A cirurgia e a radioterapia são as opções de tratamento do tumor em fase inicial. Já em tumores maiores ou com disseminação para os linfonodos do pescoço, pode ser associada a quimioterapia. Essa forma de tratamento ganhou destaque na mídia brasileira em 2011 quando o ex presidente Lula foi diagnosticado com câncer de laringe. O tumor estava localizado próximo a corda vocal e caso a cirurgia fosse realizada não seria possível preservar a sua voz. Diante dessa complicação, a estratégia utilizada foi a técnica de preservação de laringe, na qual inicia-se quimioterapia por um período de 2 meses, seguido de radioterapia associado a quimioterapia. Conforme presenciamos, o objetivo desejado foi atingido, a cura do tumor com a manutenção da voz.

Em relação ao paciente que apresenta tumor com recidiva ou metástases (disseminação para outras partes do corpo), o tratamento é realizado com quimioterapia isolada ou associada a um anticorpo chamado cetuximabe. Essa combinação permitiu o aumento no tempo de vida dos pacientes comparado à quimioterapia isolada. No entanto, essa estratégia de tratamento não está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS).

A maior novidade no tratamento do câncer de cabeça e pescoço foi a aprovação da imunoterapia pela ANVISA em dezembro de 2017. Estes medicamentos estimulam o sistema imune a combater as células tumorais. Sua ação ocorre por bloquear a inibição das células de defesa (linfócitos), permitindo assim que estas reconheçam e destruam as células tumorais. A imunoterapia aprovada foi o nivolumabe, indicada para pacientes que apresentam progressão do tumor durante ou após o tratamento com quimioterapia inicial a base de platina. O estudo que levou a aprovação dessa medicação demostrou aumento de tempo de vida dos pacientes em 2 meses.

Sendo assim, tornam-se cada vez mais evidentes os avanços no tratamento do câncer de cabeça e pescoço.  Eles têm permitido maiores chances de cura, preservando a funcionalidade dos órgãos e melhorando a qualidade de vida dos pacientes. Apesar dessa evolução a melhor estratégia continua sendo a não exposição aos fatores de risco, mantendo um estilo de vida saudável e com acompanhamento médico para um possível diagnóstico precoce.

Tratamento do câncer de ovário: Quais as novidades?

O câncer de ovário é um tema de extrema importância na saúde da mulher. O Instituto Nacional do Câncer estimou 6150 casos novos de câncer de ovário no Brasil em 2018, sendo a oitava causa de morte por câncer na mulher. Felizmente, o tratamento dessa neoplasia vem avançando nos últimos anos e, para acompanharmos essas atualizações, participamos no mês passado de um programa de educação médica continuada sobre esse tipo de câncer na Universidade de Navarra em Madri, Espanha.

Alguns conceitos antigos continuam sólidos, relacionados as maiores chances de cura com o diagnóstico precoce. A decisão de qual tratamento realizar depende do estágio da doença. Nos tumores restritos aos ovários ou mesmo com disseminação para os órgãos pélvicos a cirurgia continua sendo a base do tratamento, seguido de quimioterapia. Vale ressaltar que a cirurgia deve ser realizada por um cirurgião capacitado nesse procedimento. Um estudo americano revelou aumento de 30% nas chances de cura quando o procedimento é realizado por um profissional especialista nessa cirurgia. Já nos pacientes que o tumor compromete de forma extensa os órgãos abdominais ou existe a presença de grande quantidade de liquido, chamado de ascite, o tratamento pode ser iniciado com quimioterapia para reduzir o tumor e após realizar a cirurgia.

Por ser considerada uma doença silenciosa, com sintomas aparecendo em fases avançadas, é frequente a presença de metástases e recidivas após o tratamento inicial. Neste cenário, algumas estratégias de tratamento, além da tradicional quimioterapia, demostraram resultados positivos. Como opções temos a utilização de um anticorpo que inibe a formação dos vasos sanguíneos no tumor, os inibidores da angiogênese, que retardam o seu crescimento. A medicação aprovada é o bevacizumabe, indicada para pacientes com tumores de ovários epiteliais com metástases ou recorrentes, revelando aumento significativo de sobrevida livre de progressão do tumor.
Outra estratégia que foi incorporada mais recentemente são os inibidores de PARP, medicamentos ingeridos via oral, que mostraram resultados expressivos. As enzimas PARP estão relacionadas com via de reparo do DNA danificado e sua inibição pode causar a morte de células tumorais. Sabe-se que o gene BRCA também está relacionado com a via de reparo do DNA, sendo assim o uso dos inibidores de PARP em pacientes com a mutação deste gene revelou resultados ainda mais significativos.

Atualmente nos Estados Unidos existem 3 opções de inibidores de PARP para o tratamento do câncer de ovário: olaparibe, niraparibe e o rucaparibe. No Brasil temos disponível apenas o olaparibe, aprovado pela ANVISA em janeiro de 2017, indicado para tratamento de manutenção do câncer de ovário de alto grau recidivado, com mutação do BRCA, que apresentou resposta ao tratamento com quimioterapia a base de platina. Pacientes com essas características foram avaliados no estudo SOLO-2, que revelou ganho significativo em sobrevida livre de progressão de 19,1 meses versus 5,5 meses para pacientes tratados com olaparibe versus placebo. É importante ressaltar que os efeitos colaterais do tratamento são bem tolerados.

Como perspectivas futuras temos estudos avaliando a associação de tratamentos com imunoterapia com resultados possivelmente promissores. Esses avanços, associados ao tratamento com uma equipe multidisciplinar qualificada, estão propiciando um aumento nas chances de cura e na qualidade de vida dos pacientes.

Ponto de Encontro – Tabagismo – Entrevista com o Dr. David Pinheiro Cunha, médico oncologista do grupo SOnHe

Assista ao vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=mlxJxAKNP4k&feature=youtu.be

Lenvatinibe versus sorafenibe em primeira linha no carcinoma hepatocelular irressecável

SBOC REVIEW
QUINTA, 01 MARÇO 2018 11:49

O tratamento sistêmico do carcinoma hepatocelular (CHC) avançado é carente de opções terapêuticas. O sorafenibe tem sido o único medicamento com ganho em sobrevida global em primeira linha nos últimos 10 anos. Todos os estudos que tentaram comparar o tratamento com sorafenibe foram negativos. No entanto, recente publicação no Lancet (Kudo M et al), avaliando o tratamento com lenvatinibe, um inibidor multi-quinase de VEGFR 1-3, FGFR 1-4, PDGFR alfa, RET e KIT, revelou dados convincentes.

Trata-se de um estudo fase III, multicêntrico, de não inferioridade, que recrutou pacientes com CHC avançado para tratamento em primeira linha. A margem de não inferioridade estabelecida foi de 1.08. Foram randomizados 954 pacientes (1:1) para tratamento com lenvatinibe 12 mg/dia (peso maior ou igual a 60kg) ou 8 mg/dia (peso menor 60 kg) ou sorafenibe 400 mg duas vezes ao dia. Na avaliação dos resultados, o objetivo primário de sobrevida global foi alcançado (13,6 meses lenvatinibe x 12,3 meses sorafenibe, hazard ratio 0.92; 95% CI, 0.79-1.06). Posteriormente realizou-se a avaliação pré-planejada de superioridade, porém com resultado negativo.

Os objetivos secundários de sobrevida livre de progressão 7,4 x 3,7 meses (p < 0.0001), tempo para progressão 8,9 x 3,7 meses (p < 0.0001) e resposta objetiva 24,1 % x 9,2 % (p < 0.0001) favoreceram lenvatinibe versus sorafenibe, respectivamente, com significância estatística. Em relação à descontinuidade do tratamento por efeitos colaterais (9% x 7%) e toxicidades grau III ou IV (57% x 49%) foram mais frequentes com lenvatinibe. Kudo M et al. Lancet.2018 Feb 9 PMID: 29433850 Comentário: O estudo com lenvatinibe atingiu o objetivo de não inferioridade em sobrevida global com efeitos colaterais manejáveis. Em um cenário de escassez de tratamento para o CHC avançado, o lenvatinibe revelou ser uma opção promissora.

Carnaval e câncer de cabeça e pescoço: O que tem em comum?

Carnaval e câncer de cabeça e pescoço: O que tem em comum?

O carnaval, considerada a maior festa popular brasileira, é conhecido pela intensa diversão entre os seus foliões. Muitas vezes esses momentos são acompanhados por exageros com bebidas alcóolicas, cigarro e relações sexuais desprotegidas, causando transmissão de doenças sexualmente transmissíveis, dentre elas o HPV (Papiloma Vírus Humano). Quando exposto cronicamente a essa tríade, devemos sempre lembrar do risco de câncer de cabeça e pescoço.

Esse câncer compreende todos os tumores que tem origem na boca (cavidade oral), nariz (nasofaringe, cavidade nasal e seios paranasais), garganta (orofaringe, hipofaringe, laringe) e nas glândulas salivares. É um tema pouco discutido mas de grande importância para saúde. Estatísticas mundiais revelam que é o sexto câncer mais frequente. O Instituto Nacional do Câncer (INCA) estimou para 2016, cerca de 15.490 mil novos casos, mais especificamente de câncer de cavidade oral, atingindo o posto de quinto tumor mais frequente nos homens brasileiros. Os homens são mais acometidos com uma razão de 2 a 4 homens para cada mulher, sendo a grande maioria dos diagnósticos realizados em estágios avançados.

Como podemos mudar então essa estatística tão alarmante? A resposta é simples: compreender os 3 principais fatores de risco e combatê-los.

O primeiro fator é o tabagismo, sendo o risco de desenvolver câncer de cabeça e pescoço dependente do número de cigarros fumados por dia e tempo de uso. Tabagistas pesados têm o risco de desenvolver câncer 5 a 25 vezes mais do que os não tabagistas. Importante ressaltar que não apenas o cigarro e o cachimbo aumentam esse risco, o hábito de mascar fumo ou tabaco, o uso de narguilé, cada vez mais frequente no Brasil, também está associado a um risco aumentado de câncer de boca e faringe.

O segundo fator é o etilismo que, assim como o tabagismo, está relacionado com a dose ingerida durante a vida. Um estudo realizado no Uruguai revelou o aumento de 5 a 6 vezes no risco de desenvolver o câncer de cabeça e pescoço com consumo de álcool superior a 50 g/dia versus menos de 10 g/dia (uma bebida contém aproximadamente 12 g de álcool). Ainda mais importante ressaltar que, quando associados, os hábitos de etilismo e tabagismo multiplicam o risco de câncer.

O terceiro fator que ganha cada vez mais visibilidade é a infecção pelo vírus HPV, estando este relacionado ao desenvolvimento do câncer de orofaringe (garganta). O HPV é o mesmo vírus relacionado ao câncer de colo de útero, vagina, vulva, anus e pênis. Dentre os 150 subtipos de HPV, o mais relacionado ao câncer de cabeça e pescoço é o subtipo 16. Diferentemente dos outros fatores de risco acima citados, ele é responsável por câncer em pacientes mais jovens e sem hábito de tabagismo e etilismo. Sabemos que esses tumores relacionados a infecção pelo vírus apresentam uma melhor resposta ao tratamento, mas a melhor notícia é que a vacinação contra o HPV protege contra esse tipo de câncer.

E quando devemos suspeitar de um câncer de cabeça e pescoço? Atentar para feridas na boca que não cicatrizam, dor ou irritação persistente da boca ou garganta, placas avermelhadas ou esbranquiçadas que duram mais de 3 semanas, alteração da voz ou dificuldade de deglutir.

Caso tenha algum desses sintomas é fundamental passar por avaliação com um dentista, cirurgião cabeça e pescoço ou otorrinolaringologista para investigação do quadro e mesmo para uma biópsia se a lesão for suspeita.

O diagnóstico de câncer apenas é confirmado com a biópsia. O tratamento deve ser feito com uma equipe multidisciplinar composta por um cirurgião de cabeça e pescoço, oncologista, radioterapeuta, nutricionista, fonoaudióloga e psicóloga. O tratamento depende da localização e do tamanho do tumor, sendo opções a cirurgia, radioterapia e quimioterapia. Em situações específicas todas as 3 opções são utilizadas para melhor resposta ao tratamento e aumento das chances de cura.

Como a maioria dos canceres, o diagnóstico precoce aumenta as chances de cura e possibilita tratamentos com menos sequelas, mas o mais importante é a conscientização de que podemos reduzir o risco desse tumor se for evitada a exposição aos fatores de risco. Não fumar, não abusar de bebida alcóolica e ter relações sexuais protegidas deve ser o primeiro passo. Vale ressaltar que a vacinação contra o HPV disponível no SUS protege contra os a infecção por esse vírus e reduz o risco de câncer de cabeça e pescoço (orofaringe), colo de útero, vagina, canal anal e pênis. As indicações para a vacinação de acordo com o Ministério da Saúde são: Meninas e meninos dos 9 aos 14 anos, pacientes com câncer em quimioterapia ou radioterapia, transplantados e portadores de HIV entre 9 a 26 anos. Fora dessas indicações a vacinação pode ser realizada no sistema privado. Diante de todos esses benefícios, não deixe de vacinar seus filhos.

O carnaval está chegando e todos devem aproveitar com muita alegria. O uso esporádico de bebidas e cigarro não é o maior vilão para o câncer, mas vale lembrar que esses hábitos muitas vezes se iniciam nessas comemorações. Portanto, diga não ao tabagismo, não ao abuso de bebidas alcóolicas e lembre-se sempre de usar camisinha!

 

 

 

 

 

 

 

Câncer de ovário: Um inimigo silencioso!

Câncer de ovário: Um inimigo silencioso!

O câncer de ovário ocupa a sétima posição dentre os cânceres malignos mais frequentes em mulheres e a terceira posição entre os cânceres ginecológicas no Brasil. O Instituto Nacional do Câncer (INCA) estimou 6150 novos casos em 2016 e é a quinta maior causa de morte por câncer entre as mulheres. Essa elevada mortalidade está diretamente relacionada ao diagnóstico tardio. Trata-se de uma doença silenciosa com sintomas que aparecem em fases avançadas levando ao atraso do início do tratamento.

É possível evitar essa evolução desfavorável? A resposta é SIM. Entender o comportamento e os fatores desencadeantes desse tipo de câncer é o primeiro passo. Para começar, podemos dividir o câncer de ovário em 3 tipos principais:

–Tumores epiteliais, que se iniciam nas células que recobrem a superfície externa no ovário, responsáveis por 95% dos casos.

– Tumores de células germinativas, que originam os espermatozoides e os ovócitos, responsáveis por 2-3% dos casos.

– Tumores estromais, constituídos a partir do cordão sexual da gônada, responsáveis por 5% dos casos.

Como vimos, a grande maioria são tumores epiteliais e esse será o foco da nossa discussão. É importante saber que todas as mulheres podem ter câncer de ovário, mas as que apresentam maior risco são: as que tem história na família de câncer de ovário ou mama, idade avançada (acima dos 60 anos), nunca ter ficado grávida, menarca precoce, menopausa tardia, endometriose, reposição hormonal na pós menopausa e tabagismo. As síndromes hereditárias também aumentam significativamente esse risco, predispondo a doença em idades mais jovens. As mutações de maior importância são BRCA 1, BRCA 2 e a síndrome de Lynch (alteração genética em genes do DNA).

E por que é considerado um câncer silencioso? Na fase inicial, a grande maioria das pacientes são assintomáticas ou apresentam sintomas inespecíficos como dores abdominais, náuseas e alteração do hábito intestinal, não levando a paciente a procurar seu médico. Quando os sintomas tornam-se intensos, podendo cursar com aumento do volume do abdômen pela formação de liquido (ascite) ou obstrução do intestino causando dificuldade para evacuar, a doença já está avançada e a chance de cura é menor. Atualmente 80% dos tumores são diagnosticados em fase avançada, reduzindo a sobrevida da paciente.

Para o diagnóstico o médico necessita de uma avaliação clínica, exame físico e ginecológico, exames de sangue com marcador tumoral (Ca 125) e exames de imagem (ultrassom transvaginal, tomografia computadorizada e ressonância magnética). Quando o tumor está em fase inicial, os exames de imagem identificam uma lesão nodular ou uma massa restrita aos ovários. Na doença avançada pode ocorrer disseminação dos nódulos para o peritônio (camada que reveste o intestino), formação de liquido no abdômen e metástase para outros órgão como fígado e pulmão. Importante ressaltar que para o diagnóstico definitivo é necessário uma biópsia da tumoração apontada no exame de imagem.

O tratamento depende do estágio da doença. As opções principais são: cirurgia seguido de quimioterapia ou, quando o tumor apresenta-se mais avançado, iniciar quimioterapia e posterior avaliação cirúrgica.

Infelizmente os métodos de rastreamento para câncer de ovário não se mostraram efetivos para a população geral como é o caso do Papanicolau no câncer de colo de útero. A realização de exames de ultrassom transvaginal e marcador tumoral (Ca 125) apenas resultou em maior número de procedimentos e gastos para a saúde sem benefício significativo em reduzir a mortalidade, não sendo portanto indicado de rotina.

Diante desse inimigo silencioso que não possui um rastreamento definido, conhecer os fatores de risco e dar importância aos sintomas de forma precoce é fundamental para o diagnóstico na fase inicial. Quanto mais precoce for descoberto o tumor, menos agressivo será o tratamento e maiores serão as chances de cura. Concluindo, a melhor forma de se combater esse inimigo é através de um acompanhamento médico de rotina e hábitos de vida saudáveis!

 

Dr David Pinheiro Cunha

Oncologista Clinico do grupo SonHe

 

Narguilé, um hábito perigoso e crescente no Brasil

30 de Agosto de 2017

De origem oriental, o narguilé é uma espécie de cachimbo de água no qual o tabaco aromatizado é queimado, atravessa um recipiente com água e a fumaça é aspirada por uma mangueira até a boca. Há diferenças regionais no formato e no funcionamento dos cachimbos d’água, mas o princípio comum é o fato de a fumaça passar pela água antes de chegar ao fumante. Tradicionalmente utilizados em muitos países, em especial no Norte da África, Oriente Médio e Sul da Ásia, têm-se espalhado para a Europa e Américas. Nas últimas décadas ganhou popularidade no ocidente tornando-se hábito frequente entre os jovens. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde revelam um espantoso aumento de 139% no consumo de narguilé no período de 2008 a 2013 entre homens de 18 a 24 anos no Brasil.

Frequentemente encontrado em bares, festas e eventos sociais, seu consumo esta relacionado com momentos de lazer e descontração, sendo erroneamente interpretado como inofensivo. O hábito pode ser considerado mais perigoso que o tabagismo. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), consumir uma rodada do cachimbo é equivalente a fumar 100 cigarros. Isso ocorre devido à grande quantidade de fumaça inalada que pode chegar de 31 a 86 litros nas sessões que duram em torno de 45 minutos.

Um estudo do Dr ReemWaziri e colaboradores da Universidade Americana de Beirute revelou associação do fumo de narguilé com os cânceres de pulmão e cavidade oral, doenças pulmonares como enfisema pulmonar e asma e doenças cardiovasculares como infarto do miocárdio. Essas diversas doenças estão relacionadas com inalação de monóxido de carbono, hidrocarbonetos aromáticos e aldeídos voláteis, que também são encontrados no cigarro.

A dependência química também pode ocorrer. Estudos apontam quantidade de nicotina duas vezes superior a encontrada nos cigarros. Para os usuários frequentes existe a maior probabilidade de dependência e sintomas relacionados à abstinência como alteração de humor, alteração do sono, tremores dentre outros.

Como geralmente seu uso ocorre em grupos, utilizando a mesma piteira para aspiração, existe a possibilidade de transmissão de infeções. O quadro pode variar desde gripe, herpes ou até mesmo tuberculose.

Diante de todos os riscos citados o narguilé deve ser considerado um hábito perigoso. Em semelhança ao tabagismo, doenças graves podem ocorrer, mas felizmente são potencialmente evitadas com a suspensão desse hábito. Sendo assim, para que não se torne um problema pessoal ou de saúde pública é nosso dever a conscientização dos seus malefícios e a mudança para um estilo de vida mais saudável.